Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 30 de Maio 2004
antes e depois
Luís David
uma maneira saloia de fazer agitação social
No dia 22 de Junho de 1999, a Comissão de Economia, Turismo e Zonas Verdes da Assembleia Municipal de Maputo, reuniu para examinar “o contencioso entre as Comissões de Moradores da cidade e a APIE”. Contencioso esse, resultante do anúncio, datado de 6 do mês anterior, publicado na imprensa local e através do qual, era feito o apelo às CM para estabelecerem contratos com as empresas de água e de luz. Presentes ao encontro, directores e seus adjuntos das referidas empresas e da APIE. Sem entrar em detalhes, mas seguindo de perto a acta então produzida, assinada por José Chichava, actual Ministro, e por Carlos Cardoso, já falecido, importa recordar que “o encontro produziu consenso quanto ao seguinte: Não estão reunidas todas as condições legais para as comissões de moradores poderem ser entidades com personalidade jurídica, pelo que qualquer contrato por elas estabelecido não tem sustentabilidade legal”. Com base neste e outros considerandos, o encontro produziu, por consenso, algumas recomendações, entre as quais a de que o anúncio da APIE seja revogado de modo a permitir que se mantenham válidos os seus contratos com a ADM e a EDM relativos aos espaços comuns dos edifícios, que a EDM inicie a curto prazo o estudo da possibilidade de distribuir os gastos comuns equitativamente por todos os fogos de um edifício (...), e que, enquanto a solução anunciada no ponto 2 não for concretizável, a APIE reuna o mais cedo possível com as comissões de moradores para encontrarem, em conjunto, a melhor forma de os moradores dos prédios começarem a pagar mensalmente à APIE a parte que lhes cabe das despesas comuns com água e electricidade. Para que fique bem claro, nunca esteve em causa o princípio de os condóminos pagarem as despesas com água e energia dos espaços comuns. O que sempre esteve, e ainda hoje continua a estar, é a forma, o processo e o método como tal deve ser feito. E é, também, a forma como o condómino APIE procura relacionar-se com todos os milhares de condóminos da capital do país. Colocando-se numa posição de superioridade e furtando-se, sistematicamente ao diálogo. Não tem, claramente, a APIE capacidade de diálogo nem serenidade, menos ainda seriedade para, em posição de igualdade, discutir problemas que também são seus. Que são, sobretudo seus. Porta-se a APIE hoje, sobretudo hoje mas objectivamente durante os últimos anos, como se comportava o patrão na era colonial. E, esta postura é, de todo, inaceitável. Inadmissível.
Em carta datada de 20 do mês em curso, dirigida às Comissões de Moradores, vem a directora do APIE da cidade de Maputo informar que a gestão dos Condomínios, incluindo o pagamento dos consumos de água e energia das partes comuns, é transferida para os condóminos. Ninguém, certamente que ninguém, contesta o dever de pagar o que é seu dever pagar. O que está em questão, isso sim, são os argumentos que pretendem sustentar a decisão. Que são falsos. A dívida da APIE à EDM não resulta, certamente, da introdução do SISTAFE. É anterior, no tempo. Mas, deixemos estes e outros considerandos para próxima oportunidade. Coloquemos, apenas, algumas dúvidas. Para saber qual o motivo pelo qual o segundo aviso de corte de água e de energia às áreas comuns ocorre precisamente cinco anos depois do primeiro. Nem mais nem menos um dia. E, porquê que só acontece cerca de cem dias depois de Eneas Comiche ter iniciado a sua governação. E, porquê que abrange, única e exclusivamente, a cidade de Maputo e não todo o país. Mais, mas por último, qual o motivo pelo qual a decisão da APIE da cidade de Maputo foi tomada num período de pré-campanha eleitoral, a poucos meses das próximas eleições gerais. E, numa ocasião em que a capital moçambicana é palco de sucessivas reuniões internacionais. As respostas podem ser muitas. E serão. Deixemos a nossa hipótese de resposta. Trata-se de uma maneira saloia de fazer agitação social.
segunda-feira, maio 31, 2004
terça-feira, maio 25, 2004
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 23 de maio de 2004
antes e depois
Luís David
um acto de coragem
Poucas são as coisas que surpreendem. Pela positiva e neste país. Um país desgastado e descrente. Não por não ter motivos para crer. No sentido de acreditar. Mas, por tanto e tantas vezes lhe tentarem fazer acreditar que o que parece é. Quando muitas das vezes, quem sabe se na maioria das vezes, o que parece não é. É que o que é, é. E, o que é, de facto, é que o tal de Aníbal mais uma vez, pela segunda vez, saiu da prisão onde cumpria pena pesada. E, se saiu, como tudo indica que saiu, é porque foi deixado sair. Ou foi mandado sair. Parece, aqui, poder-se concluir que o que parece não é. Que estamos perante uma situação em que o que parece não é. E o que parece, ou se diz que é, é a BO ser uma cadeia de máxima segurança. Mas, não é. Está comprovado que não é. Porque não há cadeias de máxima segurança sem guardas da máxima confiança. O que há, todos o sabemos, são cadeias dotadas de meios de segurança e de vigilância mais sofisticados do que outras. Mas, não há nem pode haver cadeias de máxima segurança quando ou enquanto houver poderes que parecem sobrepor-se ao Poder. Dito de outra forma, poderes, aparentemente, paralelos. E, isto, sem que o Poder seja abalado, beliscado. Sem que o Poder se sinta ameaçado. E, aqui, então, o que parece, é. Ou, se não é, parece ser.
Em menor número, talvez, mas também há algumas que nos surpreendem pela positiva. Que nos levam a acreditar que este país, podendo parecer descrente, tem suficientes motivos para crer. E que possui uma significativa reserva moral para poder acreditar. Que há uma reserva moral que sabe colocar interesses colectivos acima de mesquinhos interesses pessoais. É nesta linha de pensamento que não pode passar sem referência, nem sem registo, a decisão do Conselho Municipal de Maputo. No sentido de mandar suspender as obras da chamada Catedral da IURD, em plena Avenida Julius Nyerere. Autorizadas, vá lá o comum dos cidadãos querer saber a troco de quê ou de quanto, pelos anteriores gestores municipais. A decisão tomada, esta semana, é, sem sombra de dúvida, aquilo a que se pode chamar uma “pedrada no charco”. No charco das águas turvas e putrefactas em que a capital do país estava a ser submersa. Em que foi mergulhada por pessoas sem moral nem escrúpulos, por gestores incompetentes e, bem pior que isso, corruptos. Claramente, ter mandado embargar as obras da dita Catedral da IURDE não resolve os muitos problemas da cidade de Maputo. Resolve um. Apenas um. Muitos outros, muitas outras decisões anteriores, necessitam análise cuidada. Necessitam, sobretudo, ser vistas numa perspectiva de abuso do poder e de má gestão. Para não ir mais além. E, esse mais além, é o de uma gestão corrupta. É preciso dar tempo ao tempo. Para já, é de justiça afirmar que travar a construção da dita obra trata-se de um acto de coragem.
antes e depois
Luís David
um acto de coragem
Poucas são as coisas que surpreendem. Pela positiva e neste país. Um país desgastado e descrente. Não por não ter motivos para crer. No sentido de acreditar. Mas, por tanto e tantas vezes lhe tentarem fazer acreditar que o que parece é. Quando muitas das vezes, quem sabe se na maioria das vezes, o que parece não é. É que o que é, é. E, o que é, de facto, é que o tal de Aníbal mais uma vez, pela segunda vez, saiu da prisão onde cumpria pena pesada. E, se saiu, como tudo indica que saiu, é porque foi deixado sair. Ou foi mandado sair. Parece, aqui, poder-se concluir que o que parece não é. Que estamos perante uma situação em que o que parece não é. E o que parece, ou se diz que é, é a BO ser uma cadeia de máxima segurança. Mas, não é. Está comprovado que não é. Porque não há cadeias de máxima segurança sem guardas da máxima confiança. O que há, todos o sabemos, são cadeias dotadas de meios de segurança e de vigilância mais sofisticados do que outras. Mas, não há nem pode haver cadeias de máxima segurança quando ou enquanto houver poderes que parecem sobrepor-se ao Poder. Dito de outra forma, poderes, aparentemente, paralelos. E, isto, sem que o Poder seja abalado, beliscado. Sem que o Poder se sinta ameaçado. E, aqui, então, o que parece, é. Ou, se não é, parece ser.
Em menor número, talvez, mas também há algumas que nos surpreendem pela positiva. Que nos levam a acreditar que este país, podendo parecer descrente, tem suficientes motivos para crer. E que possui uma significativa reserva moral para poder acreditar. Que há uma reserva moral que sabe colocar interesses colectivos acima de mesquinhos interesses pessoais. É nesta linha de pensamento que não pode passar sem referência, nem sem registo, a decisão do Conselho Municipal de Maputo. No sentido de mandar suspender as obras da chamada Catedral da IURD, em plena Avenida Julius Nyerere. Autorizadas, vá lá o comum dos cidadãos querer saber a troco de quê ou de quanto, pelos anteriores gestores municipais. A decisão tomada, esta semana, é, sem sombra de dúvida, aquilo a que se pode chamar uma “pedrada no charco”. No charco das águas turvas e putrefactas em que a capital do país estava a ser submersa. Em que foi mergulhada por pessoas sem moral nem escrúpulos, por gestores incompetentes e, bem pior que isso, corruptos. Claramente, ter mandado embargar as obras da dita Catedral da IURDE não resolve os muitos problemas da cidade de Maputo. Resolve um. Apenas um. Muitos outros, muitas outras decisões anteriores, necessitam análise cuidada. Necessitam, sobretudo, ser vistas numa perspectiva de abuso do poder e de má gestão. Para não ir mais além. E, esse mais além, é o de uma gestão corrupta. É preciso dar tempo ao tempo. Para já, é de justiça afirmar que travar a construção da dita obra trata-se de um acto de coragem.
terça-feira, maio 04, 2004
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 2 de Maio de 2004
antes e depois
Luís David
à razões que a razão desconhece
Todos nós sabemos que a política é a arte, talvez a ciência, do possível. E, desnecessário se torna elaborar muito sobre a matéria. Por haver pouco a elaborar, por haver pouco mais do que nada a dizer. Temos de convir que as coisas são como são e não como gostaríamos que fossem. Num país como o nosso, dependente em grande escala da ajuda externa, logo condicionado a interesses múltiplos, afirmar que somos soberano em termos de decisões não passa de um engano. Talvez de uma de um desejo. De uma ilusão, quando não seja de uma utopia. Mas, daí, o mal a advir até pode ser menor. Temos, todos nós, no plano individual, o direito a ter e a manifestar os nosso desejos. As nossas utopias. Mas, atenção, cuidado. Há utopias e há utopias. E que esses desejos e essas utopias, no plano da realidade, não resultem em sacrifícios para muitos. E em benefício para poucos alguns. Poucos. Sobretudo, que não se tente tirar benefícios pessoais, mesmo de grupo, manipulando sentimentos de grupo. Ou colectivos. Até porque, como todos sabemos, tal procedimento nunca deu resultado nenhum. A não adiar soluções, decisões de fundo. Decisões realistas.
Tempos atrás, talvez alguns meses, Moçambique assinou a Convenção Antitabagismo das Nações Unidas. Decisão acertada. Até porque todos nós, fumadores ou não fumadores, estamos conscientes do perigo do cigarro, do fumo. Todos nós sabemos que são muitas as pessoas que morrem, em todo o Mundo, devido ao cigarro. Então ficámos à espera, aguardámos, com expectativa, pelas medidas no plano interno. E, o que vimos, a nível da capital do país, sejamos sinceros e verdadeiros, foi um crescente número de painéis publicitando diferentes marcas de cigarros. Nada e em momento algum apelo ou conselho para deixar de fumar. Sobre os perigos de fumar. Hoje, ficámos a saber que, próxima terça-feira, a Associação Moçambicana de Saúde Pública realiza, na Assembleia da República, um seminário integrado na sua luta de combate ao consumo de tabaco. É bom que sim. É bom que se assim o pensou, assim o faça. Porque, convenhamos, nada melhor do que começar por sensibilizar os deputados para os perigos do consumo do tabaco. Sem perder de vista, obviamente, que não é possível consumir aquilo que não foi produzido. E, como todos sabemos, hoje, em Moçambique produz-se tabaco em larga escala. Em Moçambique, hoje, é incentivada a cultura de tabaco. Em Moçambique, hoje, o tabaco é uma cultura de rendimento. E esta cultura de rendimento está a permitir uma significativa melhoria de vida aos seus produtores. Que até já conseguem construir casas melhoradas. Então, coloca-se o dilema: Como combater o consumo de tabaco sem eliminar a sua produção. Ou, dito de outra forma, se queremos combater o consumo porque incentivamos a produção. Sem dúvida, há razões que a razão desconhece.
antes e depois
Luís David
à razões que a razão desconhece
Todos nós sabemos que a política é a arte, talvez a ciência, do possível. E, desnecessário se torna elaborar muito sobre a matéria. Por haver pouco a elaborar, por haver pouco mais do que nada a dizer. Temos de convir que as coisas são como são e não como gostaríamos que fossem. Num país como o nosso, dependente em grande escala da ajuda externa, logo condicionado a interesses múltiplos, afirmar que somos soberano em termos de decisões não passa de um engano. Talvez de uma de um desejo. De uma ilusão, quando não seja de uma utopia. Mas, daí, o mal a advir até pode ser menor. Temos, todos nós, no plano individual, o direito a ter e a manifestar os nosso desejos. As nossas utopias. Mas, atenção, cuidado. Há utopias e há utopias. E que esses desejos e essas utopias, no plano da realidade, não resultem em sacrifícios para muitos. E em benefício para poucos alguns. Poucos. Sobretudo, que não se tente tirar benefícios pessoais, mesmo de grupo, manipulando sentimentos de grupo. Ou colectivos. Até porque, como todos sabemos, tal procedimento nunca deu resultado nenhum. A não adiar soluções, decisões de fundo. Decisões realistas.
Tempos atrás, talvez alguns meses, Moçambique assinou a Convenção Antitabagismo das Nações Unidas. Decisão acertada. Até porque todos nós, fumadores ou não fumadores, estamos conscientes do perigo do cigarro, do fumo. Todos nós sabemos que são muitas as pessoas que morrem, em todo o Mundo, devido ao cigarro. Então ficámos à espera, aguardámos, com expectativa, pelas medidas no plano interno. E, o que vimos, a nível da capital do país, sejamos sinceros e verdadeiros, foi um crescente número de painéis publicitando diferentes marcas de cigarros. Nada e em momento algum apelo ou conselho para deixar de fumar. Sobre os perigos de fumar. Hoje, ficámos a saber que, próxima terça-feira, a Associação Moçambicana de Saúde Pública realiza, na Assembleia da República, um seminário integrado na sua luta de combate ao consumo de tabaco. É bom que sim. É bom que se assim o pensou, assim o faça. Porque, convenhamos, nada melhor do que começar por sensibilizar os deputados para os perigos do consumo do tabaco. Sem perder de vista, obviamente, que não é possível consumir aquilo que não foi produzido. E, como todos sabemos, hoje, em Moçambique produz-se tabaco em larga escala. Em Moçambique, hoje, é incentivada a cultura de tabaco. Em Moçambique, hoje, o tabaco é uma cultura de rendimento. E esta cultura de rendimento está a permitir uma significativa melhoria de vida aos seus produtores. Que até já conseguem construir casas melhoradas. Então, coloca-se o dilema: Como combater o consumo de tabaco sem eliminar a sua produção. Ou, dito de outra forma, se queremos combater o consumo porque incentivamos a produção. Sem dúvida, há razões que a razão desconhece.
domingo, abril 18, 2004
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 18 de Abril de 2004
antes e depois
Luís David
é necessário perder o medo de escutar as crianças
Se alguém nos perguntasse que tipo de pais somos, que tipos de pais fomos, quase de certeza ninguém iria dizer ter sido mau pai. Poucos, ou nenhum, teríamos a coragem para o admitir. E, isto porque aquilo que fazemos, ou não fazemos, é sempre para o bem dos nossos filhos. Assim o afirmamos, porque assim o pensamos, assim o desejamos e assim o sentimos. Porque assim o fizeram nossos pais, porque assim procederam nossos avós em relação a nossos pais. E, daí para trás. Então, continuamos a sentir ter o direito de falar e decidir em nome dos nossos filhos, sejam eles crianças ou já não. Sobretudo, e principalmente, gostamos de ver crianças muito bem comportadas. Adultos em miniatura. O reflexo do que somos, ou pensamos ser. Nós, para nós mesmos, somos o modelo a seguir. Temos dificuldade em aceitar o pensar e o agir de forma diversa, de forma outra. Porque pensamos saber mais, saber tudo. É perante esta dificuldade em aceitar o ser criança e o ser criança diferente que recorremos, quantas vezes, à repressão. No verdadeiro sentido do termo. Muitas das vezes, quase sempre, sem perceber que ao reprimir estamos a destruir a evolução normal de pequenos seres, as suas iniciativas. E isto acontece, quando acontece, naturalmente, por falta de capacidade ou desinteresse em acompanhar o desenvolvimento da criança. E em corrigir erros e desvios de comportamento de forma didáctica e pedagógica. Um fenómeno que podendo ser universal demonstra temor e receio, talvez medo, de deixar a criança ser ela mesma. Ser criança.
Foi em 2001 que as crianças moçambicanas discutiram os seus problemas no Primeiro Parlamento Infantil. Consideraram, então, como questões prioritárias, como questões que mais as preocupava, o acesso aos serviços de Saúde e à Educação, assim como a protecção contra os abusos sexuais e a exploração. Amanhã, segunda-feira, e depois de amanhã, terça-feira, vai acontecer o Segundo Parlamento Infantil. E vai reunir, precisamente, na Assembleia da República. Local onde os mais de cem jovens parlamentares nos irão dizer o que foi e o que não foi feito em relação ás recomendações do Primeiro Parlamento Infantil. E, também, escutar aquilo que o Parlamento, o Governo e a sociedade civil tem a dizer em relação às suas preocupações actuais. Convenhamos que não é um exercício fácil. Convenhamos que, a muitos de nós, falta capacidade para aceitar mudanças. Mesmo quando lentas e progressivas. Mesmo quando digam respeito à defesa dos mais elementares direitos da criança. Estaremos, quase certamente, aqui, como em muitas outras áreas, em primeiro lugar, perante um conflito entre tradição e modernidade. Como poderemos estar perante um conflito de gerações ou um conflito entre pais e filhos. As notícias de todos os dias sobre raptos, crimes e actos discriminatórios assim o parece indicar. Sabendo que ouvir é uma virtude, estejamos preparados para escutar o que as crianças têm para nos dizer. Porque é necessário perder o medo de escutar as crianças.
antes e depois
Luís David
é necessário perder o medo de escutar as crianças
Se alguém nos perguntasse que tipo de pais somos, que tipos de pais fomos, quase de certeza ninguém iria dizer ter sido mau pai. Poucos, ou nenhum, teríamos a coragem para o admitir. E, isto porque aquilo que fazemos, ou não fazemos, é sempre para o bem dos nossos filhos. Assim o afirmamos, porque assim o pensamos, assim o desejamos e assim o sentimos. Porque assim o fizeram nossos pais, porque assim procederam nossos avós em relação a nossos pais. E, daí para trás. Então, continuamos a sentir ter o direito de falar e decidir em nome dos nossos filhos, sejam eles crianças ou já não. Sobretudo, e principalmente, gostamos de ver crianças muito bem comportadas. Adultos em miniatura. O reflexo do que somos, ou pensamos ser. Nós, para nós mesmos, somos o modelo a seguir. Temos dificuldade em aceitar o pensar e o agir de forma diversa, de forma outra. Porque pensamos saber mais, saber tudo. É perante esta dificuldade em aceitar o ser criança e o ser criança diferente que recorremos, quantas vezes, à repressão. No verdadeiro sentido do termo. Muitas das vezes, quase sempre, sem perceber que ao reprimir estamos a destruir a evolução normal de pequenos seres, as suas iniciativas. E isto acontece, quando acontece, naturalmente, por falta de capacidade ou desinteresse em acompanhar o desenvolvimento da criança. E em corrigir erros e desvios de comportamento de forma didáctica e pedagógica. Um fenómeno que podendo ser universal demonstra temor e receio, talvez medo, de deixar a criança ser ela mesma. Ser criança.
Foi em 2001 que as crianças moçambicanas discutiram os seus problemas no Primeiro Parlamento Infantil. Consideraram, então, como questões prioritárias, como questões que mais as preocupava, o acesso aos serviços de Saúde e à Educação, assim como a protecção contra os abusos sexuais e a exploração. Amanhã, segunda-feira, e depois de amanhã, terça-feira, vai acontecer o Segundo Parlamento Infantil. E vai reunir, precisamente, na Assembleia da República. Local onde os mais de cem jovens parlamentares nos irão dizer o que foi e o que não foi feito em relação ás recomendações do Primeiro Parlamento Infantil. E, também, escutar aquilo que o Parlamento, o Governo e a sociedade civil tem a dizer em relação às suas preocupações actuais. Convenhamos que não é um exercício fácil. Convenhamos que, a muitos de nós, falta capacidade para aceitar mudanças. Mesmo quando lentas e progressivas. Mesmo quando digam respeito à defesa dos mais elementares direitos da criança. Estaremos, quase certamente, aqui, como em muitas outras áreas, em primeiro lugar, perante um conflito entre tradição e modernidade. Como poderemos estar perante um conflito de gerações ou um conflito entre pais e filhos. As notícias de todos os dias sobre raptos, crimes e actos discriminatórios assim o parece indicar. Sabendo que ouvir é uma virtude, estejamos preparados para escutar o que as crianças têm para nos dizer. Porque é necessário perder o medo de escutar as crianças.
terça-feira, abril 13, 2004
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 10 de Abril, 2004
antes e depois
Luís David
evitar mais feridos e mortos
Somos um país de campanhas. De semanas comemorativas ou alusivas a. De marchas, contra ou a favor. Para assinalar isto ou aquilo. Depois, depois, voltamos à normalidade. Caímos na rotina. E os males para os quais chamámos a atenção. Os males contra os quais marchámos, ficam. Permanecem. Quando não pioram, quando não se agravam. Planos de acção concertados, sobre questões, sobre males, para o combate ao ilegal e ao imoral, que a todos afecta, não há. Se, acaso os há, não se notam. Daí a degradação de valores morais e cívicos a que assistimos. E, também ao renascer da perigosa e inaceitável prática de fazer justiça pelas próprias mãos. É que abater uma árvore numa qualquer artéria deixou de ser crime. Como imoral parece ter deixado de ser urinar na via pública. Mesmo quando muitos estão a ver. Ilegal parece, também, ter deixado de ser abandonar ou estacionar a viatura em local que impede a passagem de outras. Afinal as luzes de presença, esses “amarelos” acessos servem para indicar que por ali está gente importante. A gente a quem polícia algum ousa incomodar. Como não incomoda o autor do pequeno furto. Tudo isto acontece. Como acontece muito mais. São os novos hábitos dominantes. Mas, maus hábitos. Claro.
Moçambique registou, no ano de 2003, 5.402 acidentes de viação. Em consequência, 1.123 pessoas perderam a vida. Uma média de cerca de quatro por dia. Isto é, em cada dia que passa, há quatro pessoas que morrem nas estradas e artérias citadinas de Moçambique. Muitas outras contraem ferimentos, graves ou ligeiros. Dos custos materiais e indirectos não falam, também, as estatísticas. Depois, as causas, os motivos dos acidentes e das mortes, são quase sempre evasivos. De quando em vez, quando parece estar a iniciar-se trabalho sério e concertado, tudo não passa de ilusão. Recordemos: Recentemente, várias dezenas de viaturas foram mandadas parquear por circularem com documentos obtidos ilegalmente. Mais depois, foi divulgado o afastamento de alguns polícias de trânsito que não cumpriam com a sua missão. Ou, como se disse, eram corruptos. O resultado destas campanhas, destas operações cosméticas, parecem poucos. Até ao momento não são visíveis. Estamos em plena “Semana” comemorativa do Dia Mundial da Saúde que, este ano, tem como lema “Pela Segurança Rodoviária, Evite o Acidente”. Hoje mesmo, Domingo, Maputo deverá estar a ser cenário de uma marcha inserida numa campanha de informação. Mas, cuidado senhores manifestantes: Tomem as necessárias precauções para não serem atropelados. Por um qualquer automobilista que não respeita as regras de trânsito, que corta a prioridade a quem a tem, que avança com o vermelho, que circula, enfim e se lhe apetecer, por cima dos passeios. Ademais, o que pedimos, o que temos o direito de pedir, não é que não se manifestem, não é que não marchem. Tem pleno direito para o fazer. Mas, o que vos pedimos, antes do mais, é para que actuem. Por forma a evitar mais feridos e mortos.
antes e depois
Luís David
evitar mais feridos e mortos
Somos um país de campanhas. De semanas comemorativas ou alusivas a. De marchas, contra ou a favor. Para assinalar isto ou aquilo. Depois, depois, voltamos à normalidade. Caímos na rotina. E os males para os quais chamámos a atenção. Os males contra os quais marchámos, ficam. Permanecem. Quando não pioram, quando não se agravam. Planos de acção concertados, sobre questões, sobre males, para o combate ao ilegal e ao imoral, que a todos afecta, não há. Se, acaso os há, não se notam. Daí a degradação de valores morais e cívicos a que assistimos. E, também ao renascer da perigosa e inaceitável prática de fazer justiça pelas próprias mãos. É que abater uma árvore numa qualquer artéria deixou de ser crime. Como imoral parece ter deixado de ser urinar na via pública. Mesmo quando muitos estão a ver. Ilegal parece, também, ter deixado de ser abandonar ou estacionar a viatura em local que impede a passagem de outras. Afinal as luzes de presença, esses “amarelos” acessos servem para indicar que por ali está gente importante. A gente a quem polícia algum ousa incomodar. Como não incomoda o autor do pequeno furto. Tudo isto acontece. Como acontece muito mais. São os novos hábitos dominantes. Mas, maus hábitos. Claro.
Moçambique registou, no ano de 2003, 5.402 acidentes de viação. Em consequência, 1.123 pessoas perderam a vida. Uma média de cerca de quatro por dia. Isto é, em cada dia que passa, há quatro pessoas que morrem nas estradas e artérias citadinas de Moçambique. Muitas outras contraem ferimentos, graves ou ligeiros. Dos custos materiais e indirectos não falam, também, as estatísticas. Depois, as causas, os motivos dos acidentes e das mortes, são quase sempre evasivos. De quando em vez, quando parece estar a iniciar-se trabalho sério e concertado, tudo não passa de ilusão. Recordemos: Recentemente, várias dezenas de viaturas foram mandadas parquear por circularem com documentos obtidos ilegalmente. Mais depois, foi divulgado o afastamento de alguns polícias de trânsito que não cumpriam com a sua missão. Ou, como se disse, eram corruptos. O resultado destas campanhas, destas operações cosméticas, parecem poucos. Até ao momento não são visíveis. Estamos em plena “Semana” comemorativa do Dia Mundial da Saúde que, este ano, tem como lema “Pela Segurança Rodoviária, Evite o Acidente”. Hoje mesmo, Domingo, Maputo deverá estar a ser cenário de uma marcha inserida numa campanha de informação. Mas, cuidado senhores manifestantes: Tomem as necessárias precauções para não serem atropelados. Por um qualquer automobilista que não respeita as regras de trânsito, que corta a prioridade a quem a tem, que avança com o vermelho, que circula, enfim e se lhe apetecer, por cima dos passeios. Ademais, o que pedimos, o que temos o direito de pedir, não é que não se manifestem, não é que não marchem. Tem pleno direito para o fazer. Mas, o que vos pedimos, antes do mais, é para que actuem. Por forma a evitar mais feridos e mortos.
domingo, abril 04, 2004
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo
3 de Abril 2004
antes e depois
Luís David
no melhor pano cai a nódoa
Por ocasião ou a propósito da recente visita do Primeiro-Ministro de Portugal a Moçambique, alguém sugeriu, alguém escreveu sobre a possibilidades e a utilidades de serem enviados professores para o nosso país. Dos muitos que lá não conseguem colocação. Ao abrigo de um acordo de cooperação. Pagos por Portugal. Mas, professores de língua portuguesa. O que até parece uma boa ideia, o que se afigura como sugestão útil. Afinal, assim deveria ser, melhor do que ninguém são os portugueses que sabem a sua língua. Ou deveriam saber e dominar. Para a poderem ensinar. Como mais ninguém. Acontece, porém, como por todos é sabido, que a língua portuguesa é uma língua traiçoeira. Para não dizer traidora. É uma língua cheia de subtilezas, de rasteiras, de matreirices. É uma língua, que não cede com facilidade os seus pergaminhos ao querer de certos doutores. Por muito competentes, por muito sábios que o sejam nas mais variadas esferas do conhecimento. É uma língua, enfim, que não se deixa dominar por interesses outros que não sejam os seus. Os do bem falar e os do bem escrever.
Ministros do Gabinete do Primeiro-Ministro de Portugal, assessores e outro pessoal qualificado multiplicaram esforços para assinar acordos e protocolos. O tempo era pouco, o tempo urgia. Em todos, ou quase todos, esses documentos a assinar por ambas as partes, aparecia uma palavra, um termo, por muitos desconhecido. Um termo que ninguém, em Moçambique conhecia. O termo assumpção. E, a provar que a referida palavra “povoou” os textos dos documentos oficiais está a local do jornal “Savana” (pag. 3) desta semana. Na verdade, na realidade, o referido termo não consta na maioria dos principais Dicionários da Língua Portuguesa editados, em Portugal, no último meio século. Existem, entre outros, assumir, assumpto (assumido) e assunção (acção de assumir). Mas, assunção sem p e com n no lugar do m. Assim, assumpção não passa de neologismo, barato e ridículo. De termo inventado, à última hora, para baralhar e confundir quem, de facto, em África, sabe e domina a língua portuguesa. Mas, também podemos aceitar que não. Que não passa de um erro. Que não passa de ignorância. Até porque, como todos sabemos, no melhor pano cai a nódoa.
3 de Abril 2004
antes e depois
Luís David
no melhor pano cai a nódoa
Por ocasião ou a propósito da recente visita do Primeiro-Ministro de Portugal a Moçambique, alguém sugeriu, alguém escreveu sobre a possibilidades e a utilidades de serem enviados professores para o nosso país. Dos muitos que lá não conseguem colocação. Ao abrigo de um acordo de cooperação. Pagos por Portugal. Mas, professores de língua portuguesa. O que até parece uma boa ideia, o que se afigura como sugestão útil. Afinal, assim deveria ser, melhor do que ninguém são os portugueses que sabem a sua língua. Ou deveriam saber e dominar. Para a poderem ensinar. Como mais ninguém. Acontece, porém, como por todos é sabido, que a língua portuguesa é uma língua traiçoeira. Para não dizer traidora. É uma língua cheia de subtilezas, de rasteiras, de matreirices. É uma língua, que não cede com facilidade os seus pergaminhos ao querer de certos doutores. Por muito competentes, por muito sábios que o sejam nas mais variadas esferas do conhecimento. É uma língua, enfim, que não se deixa dominar por interesses outros que não sejam os seus. Os do bem falar e os do bem escrever.
Ministros do Gabinete do Primeiro-Ministro de Portugal, assessores e outro pessoal qualificado multiplicaram esforços para assinar acordos e protocolos. O tempo era pouco, o tempo urgia. Em todos, ou quase todos, esses documentos a assinar por ambas as partes, aparecia uma palavra, um termo, por muitos desconhecido. Um termo que ninguém, em Moçambique conhecia. O termo assumpção. E, a provar que a referida palavra “povoou” os textos dos documentos oficiais está a local do jornal “Savana” (pag. 3) desta semana. Na verdade, na realidade, o referido termo não consta na maioria dos principais Dicionários da Língua Portuguesa editados, em Portugal, no último meio século. Existem, entre outros, assumir, assumpto (assumido) e assunção (acção de assumir). Mas, assunção sem p e com n no lugar do m. Assim, assumpção não passa de neologismo, barato e ridículo. De termo inventado, à última hora, para baralhar e confundir quem, de facto, em África, sabe e domina a língua portuguesa. Mas, também podemos aceitar que não. Que não passa de um erro. Que não passa de ignorância. Até porque, como todos sabemos, no melhor pano cai a nódoa.
sábado, março 27, 2004
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo
27 de Março, 2004
antes e depois
Luís David
o grande o dilema
A vida é o que é. Não o que desejamos que seja. Não o que desejamos que fosse. A vida são dualidades, a vida são cumplicidades. Talvez, multiplicidade. A vida, convenhamos e aceitemos, é constituída por contrastes e por contradições. A vida é, em simultâneo, ser e estar,. estar e ser. Sendo que ser é estar e sendo que estar é ser. Não poderá, assim, haver ser sem estar nem estar sem ser. Logo, estar é ser e ser é estar. Mesmo quando estar possa não significar ser ou quando ser possa não significar estar. Porque sendo ser e estar são realidades, talvez valores, presentes, o são, também, passados. Mas, muito mais, futuros. Ser e estar seriam, assim, passado, presente, futuro. Não, objectivamente, uma e a mesma unidade mas, objectivamente, três unidades distintas. Três unidades ou três realidades que, podendo existir em três tempos, talvez em três espaços, diferentes ou comuns, possam não ter existido. A dúvida, está em saber, em definitivo, se aquilo que pensamos saber que existe, existe, ou se aquilo que pensamos saber que não existe, não existe. E, a resposta, não sendo fácil, nunca será conclusiva. A resposta, para ser resposta séria, será, sempre, a dúvida.
Nós, moçambicanos, confrontamo-nos, no presente momento com duas realidades diferentes, talvez opostas, antagónicas. Por um lado, temos conhecimento do que concluiu a comissão de inquérito sobre o desabamento de um prédio de cinco andares, em plena cidade de Maputo. Quando se encontrava em processo de construção. E, aqui, ficámos a saber nada de novo. Ficámos a saber o que todos nós, sem sermos engenheiros, já sabíamos. Que o prédio estava ser construído como estava. Com mais areia do que cimento, com mais água do que o devia, sem... sem. O que não sabemos, o que continua a ser escondido são os nomes dos responsáveis pelo que aconteceu. Porquê, só a Ordem dos Engenheiros de Moçambique, que presidiu ao inquérito, poderá responder. Quer-se dizer, e isso parece provado, aqui temos crime. Mas, temos crime sem criminoso. No outro caso, na outro realidade, no que se tem dito sobre o julgamento do “ caso BCM” temos criminosos sem prova de terem participado em crime provado. Resumindo, num caso temos crime público e comprovado sem criminoso. O nome do, ou dos criminosos, é mantido em sigilo Em outro, em outro caso, no chamado “caso BCM”, temos criminosos, ou dizemos que os temos, mas não conseguimos apresentar prova do crime. Algo está errado. È que num lado escondemos caras e identificações. No outro, mostramos caras e não conseguimos apresentar provas. . No antigamente, eram assim as história dos polícias e ladrões. Aparentemente, estamos a brincar aos polícias e aos ladrões. De um lado estão os maus, do outro os bons. Saber quem são os maus e quem são os bons, eis o grande o dilema.
27 de Março, 2004
antes e depois
Luís David
o grande o dilema
A vida é o que é. Não o que desejamos que seja. Não o que desejamos que fosse. A vida são dualidades, a vida são cumplicidades. Talvez, multiplicidade. A vida, convenhamos e aceitemos, é constituída por contrastes e por contradições. A vida é, em simultâneo, ser e estar,. estar e ser. Sendo que ser é estar e sendo que estar é ser. Não poderá, assim, haver ser sem estar nem estar sem ser. Logo, estar é ser e ser é estar. Mesmo quando estar possa não significar ser ou quando ser possa não significar estar. Porque sendo ser e estar são realidades, talvez valores, presentes, o são, também, passados. Mas, muito mais, futuros. Ser e estar seriam, assim, passado, presente, futuro. Não, objectivamente, uma e a mesma unidade mas, objectivamente, três unidades distintas. Três unidades ou três realidades que, podendo existir em três tempos, talvez em três espaços, diferentes ou comuns, possam não ter existido. A dúvida, está em saber, em definitivo, se aquilo que pensamos saber que existe, existe, ou se aquilo que pensamos saber que não existe, não existe. E, a resposta, não sendo fácil, nunca será conclusiva. A resposta, para ser resposta séria, será, sempre, a dúvida.
Nós, moçambicanos, confrontamo-nos, no presente momento com duas realidades diferentes, talvez opostas, antagónicas. Por um lado, temos conhecimento do que concluiu a comissão de inquérito sobre o desabamento de um prédio de cinco andares, em plena cidade de Maputo. Quando se encontrava em processo de construção. E, aqui, ficámos a saber nada de novo. Ficámos a saber o que todos nós, sem sermos engenheiros, já sabíamos. Que o prédio estava ser construído como estava. Com mais areia do que cimento, com mais água do que o devia, sem... sem. O que não sabemos, o que continua a ser escondido são os nomes dos responsáveis pelo que aconteceu. Porquê, só a Ordem dos Engenheiros de Moçambique, que presidiu ao inquérito, poderá responder. Quer-se dizer, e isso parece provado, aqui temos crime. Mas, temos crime sem criminoso. No outro caso, na outro realidade, no que se tem dito sobre o julgamento do “ caso BCM” temos criminosos sem prova de terem participado em crime provado. Resumindo, num caso temos crime público e comprovado sem criminoso. O nome do, ou dos criminosos, é mantido em sigilo Em outro, em outro caso, no chamado “caso BCM”, temos criminosos, ou dizemos que os temos, mas não conseguimos apresentar prova do crime. Algo está errado. È que num lado escondemos caras e identificações. No outro, mostramos caras e não conseguimos apresentar provas. . No antigamente, eram assim as história dos polícias e ladrões. Aparentemente, estamos a brincar aos polícias e aos ladrões. De um lado estão os maus, do outro os bons. Saber quem são os maus e quem são os bons, eis o grande o dilema.
domingo, março 21, 2004
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo
21 de Março 2004
antes e depois
Luís David
Descubram quem são esses alguns
Para quem tenha memória de algumas décadas, sabe que assim era. E que pode ser comprovado através dos relatos da Imprensa da época. Sabemos, os que temos memórias desse então, serem relativamente frequentes notícias do desaparecimento de crianças. Notícias de crianças desaparecidas, que se dizia terem sido raptadas ou encontradas mortas. Sem determinados órgãos. Como sabemos, todos nós, todos os que não perderam a memória desse então, que o destino final desses órgãos humanos e dessas mortes raramente era conclusivo. Para uns, destinava-se a servir objectivos ligados à feitiçaria. Para outros, o móbil era poder cumprir ritos iniciáticos. Não raro, o desaparecimento de crianças sem deixarem rasto era atribuído a ismaelitas. Se sim se não, continua, até hoje por esclarecer. O certo, do que parece não haver muitas dúvidas, é que em certas regiões de África, como em certas regiões da Ásia, que em determinadas comunidades dos dois continentes existem, até hoje, este tipo de sacrifícios humanos. E o que se sabe, também, é que perante a necessidade de sacrifício imposto por determinadas tradições, ou se sacrifica um membro da sociedade local ou, em alternativa, se compra um sacrificado. Não admitir, não querer aceitar, como hipótese de trabalho, como hipótese de investigação, que crianças moçambicanas possam estar ser sacrificadas é, no mínimo, ridículo. Em termos de investigação, todas as hipóteses, à partida, são importantes e são válidas. E se há, como parece haver, quem procura fazer investigação, séria e honesta, porquê tentar impedir esse processo. Porquê tentar passar a mensagem de que nada há para investigar. Porquê insinuar, ou afirmar abertamente, que a província de Nampula está a ser prejudicada em termos de investimento. Porquê toda esta fobia em torno da procura da verdade. Que interesses outros, económicos mas talvez não só, estão camuflados por detrás de certos posicionamentos tão contrários a uma investigação completa. E, conclusiva. Afinal, a quem incomoda, tanto, a verdade.
Ao longo dos últimos dias, chegaram às Redacções diferentes posicionamentos sobre o alegado tráfico de menores e de órgãos humanos a partir da província de Nampula. Na generalidade, apontam para a necessidade de serem admitidas todas as hipóteses de investigação e para a necessidade de investigação. È que só fazendo uma investigação séria e honesta será possível saber se estamos perante um boato ou se estamos perante atitudes criminosas. Ter medo da investigação, e dos seus resultados, é ter medo da verdade. Se, como alguns dizem, sem terem conseguido provar, tudo não passa de invenção de mulher adoentada da cabeça, tanto melhor. Afinal, as crianças que se disse terem sido raptadas e mortas estão vivas e de boa saúde. E terá mentido quem se deu ao trabalhos de exumar os seus restos mortais. Porque delas não existem restos mortais. Estando vivas. Da mesma forma que o corpo mutilado do homem encontrado na via férrea não terá passado de montagem fotográfica. Afinal, ele até está vivo e goza de boa saúde. Como vivo está o jovem de Manica, mas talvez não de boa saúde, a quem foi cortado o pénis. Depois, por fim, a que atribuir a tentativa do presidente do Conselho Municipal de Nampula para evitar uma manifestação, pacífica, marcada para hoje, dos católicos locais. Uma manifestação contra o tráfico de órgão humanos. Todos nós, excepto alguns, ao que parece, somos contra o tráfico de crianças e de órgãos humanos. Deixo a dúvida sobre quem são esses alguns. Descubram quem são esses alguns.
21 de Março 2004
antes e depois
Luís David
Descubram quem são esses alguns
Para quem tenha memória de algumas décadas, sabe que assim era. E que pode ser comprovado através dos relatos da Imprensa da época. Sabemos, os que temos memórias desse então, serem relativamente frequentes notícias do desaparecimento de crianças. Notícias de crianças desaparecidas, que se dizia terem sido raptadas ou encontradas mortas. Sem determinados órgãos. Como sabemos, todos nós, todos os que não perderam a memória desse então, que o destino final desses órgãos humanos e dessas mortes raramente era conclusivo. Para uns, destinava-se a servir objectivos ligados à feitiçaria. Para outros, o móbil era poder cumprir ritos iniciáticos. Não raro, o desaparecimento de crianças sem deixarem rasto era atribuído a ismaelitas. Se sim se não, continua, até hoje por esclarecer. O certo, do que parece não haver muitas dúvidas, é que em certas regiões de África, como em certas regiões da Ásia, que em determinadas comunidades dos dois continentes existem, até hoje, este tipo de sacrifícios humanos. E o que se sabe, também, é que perante a necessidade de sacrifício imposto por determinadas tradições, ou se sacrifica um membro da sociedade local ou, em alternativa, se compra um sacrificado. Não admitir, não querer aceitar, como hipótese de trabalho, como hipótese de investigação, que crianças moçambicanas possam estar ser sacrificadas é, no mínimo, ridículo. Em termos de investigação, todas as hipóteses, à partida, são importantes e são válidas. E se há, como parece haver, quem procura fazer investigação, séria e honesta, porquê tentar impedir esse processo. Porquê tentar passar a mensagem de que nada há para investigar. Porquê insinuar, ou afirmar abertamente, que a província de Nampula está a ser prejudicada em termos de investimento. Porquê toda esta fobia em torno da procura da verdade. Que interesses outros, económicos mas talvez não só, estão camuflados por detrás de certos posicionamentos tão contrários a uma investigação completa. E, conclusiva. Afinal, a quem incomoda, tanto, a verdade.
Ao longo dos últimos dias, chegaram às Redacções diferentes posicionamentos sobre o alegado tráfico de menores e de órgãos humanos a partir da província de Nampula. Na generalidade, apontam para a necessidade de serem admitidas todas as hipóteses de investigação e para a necessidade de investigação. È que só fazendo uma investigação séria e honesta será possível saber se estamos perante um boato ou se estamos perante atitudes criminosas. Ter medo da investigação, e dos seus resultados, é ter medo da verdade. Se, como alguns dizem, sem terem conseguido provar, tudo não passa de invenção de mulher adoentada da cabeça, tanto melhor. Afinal, as crianças que se disse terem sido raptadas e mortas estão vivas e de boa saúde. E terá mentido quem se deu ao trabalhos de exumar os seus restos mortais. Porque delas não existem restos mortais. Estando vivas. Da mesma forma que o corpo mutilado do homem encontrado na via férrea não terá passado de montagem fotográfica. Afinal, ele até está vivo e goza de boa saúde. Como vivo está o jovem de Manica, mas talvez não de boa saúde, a quem foi cortado o pénis. Depois, por fim, a que atribuir a tentativa do presidente do Conselho Municipal de Nampula para evitar uma manifestação, pacífica, marcada para hoje, dos católicos locais. Uma manifestação contra o tráfico de órgão humanos. Todos nós, excepto alguns, ao que parece, somos contra o tráfico de crianças e de órgãos humanos. Deixo a dúvida sobre quem são esses alguns. Descubram quem são esses alguns.
domingo, março 14, 2004
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo
14 de Março 2004
antes e depois
Luís David
Demitam-se
Terá acontecido nas vésperas do Natal de 2003. Aconteceu mesmo. Na realidade, aconteceu. Um prédio, em plena fase de construção, ruiu. Aconteceu na cidade de Maputo, na zona quase central da capital do país. Deveria ter cinco andares e destinava-se à habitação. Quer dizer, caso não tivesse ruído na fase de construção, como aconteceu, poderia ter acontecido bem pior. E, bem pior, teria sido desabar quando já tivesse sido habitado por algumas dezenas de famílias. Porque desabar, haveria sempre de desabar. A questão não está em saber quanto tempo – dias, meses – que seria necessário para desabar. A questão é inversa. Está em saber quando tempo aquela construção (?) poderia manter-se de pé. Não tinha, como a todos foi possível ver, no pós desmoronamento, um mínimo de condições para vir a ser habitação de seres vivos. Evito, com algum propósito e mais razão, dizer de seres humanos. Mas, como o fenómeno de desmoronamento de um prédio destinado a habitação era algo de inédito em Moçambique, pareceu por bem, a alguns, tentar colher dividendos do acontecimento. Aproveitar-se do espectáculo que é a televisão. Afinal, até só houve uma morte. A morte de um guarda. E, convenhamos, a morte de um guarda pouco conta. Sequer conta para a história. Então convinha, como aconteceu, fazer espectáculo. Dizer que já tinha sido nomeada uma comissão de inquérito. Para averiguar. Para averiguar o quê, ainda hoje ninguém sabe.
Passados que são cerca de três meses sobre o início da sua nomeação, a referida, a então criada comissão de inquérito, continua a ter nada a dizer. Ou diz, simplesmente, que o processo é complicado, que está a fazer estudos e análises laboratoriais. Blá, blá, blá. Mais ou menos assim. Para tentar adormecer quem gosta de dormir em serviço. Todos sabemos, é público, que a construção que ruiu havia sido objecto de embargo. E de desembargo, ao que se sabe, por ter sido divulgado na ocasião, por processos menos claros. De desembargo conseguido, muito possivelmente, por artes corruptas. Como por processo menos transparentes terá sido feita a concessão do terreno. Como todos sabemos, também, que não é legal a auto-construção para edifícios que não sejam moradias, para construções de habitação própria. Sabemos, ainda, todos sabemos, sabem os engenheiros deste país, melhor do que ninguém, que o engenheiro que está à frente da dita comissão de inquérito é um engenheiro com créditos firmados. Que é um engenheiro competente e idóneo. Principalmente na área de obras públicas. Por isso mesmo, terá sido nomeado pela recém criada Ordem de que é membro. Ordem que, ao que parece, começa mal a sua actividade, Ordem que começa mal quando é chamada a dar parecer técnico. Puramente técnico. Ao que parece, até prova em contrário, na Ordem dos Engenheiros também há quem tenha medo da verdade. Porquê? Será que verdade também incomoda os engenheiros moçambicanos? Se assim é, se assim for, resta-lhes uma única solução: Demitam-se.
14 de Março 2004
antes e depois
Luís David
Demitam-se
Terá acontecido nas vésperas do Natal de 2003. Aconteceu mesmo. Na realidade, aconteceu. Um prédio, em plena fase de construção, ruiu. Aconteceu na cidade de Maputo, na zona quase central da capital do país. Deveria ter cinco andares e destinava-se à habitação. Quer dizer, caso não tivesse ruído na fase de construção, como aconteceu, poderia ter acontecido bem pior. E, bem pior, teria sido desabar quando já tivesse sido habitado por algumas dezenas de famílias. Porque desabar, haveria sempre de desabar. A questão não está em saber quanto tempo – dias, meses – que seria necessário para desabar. A questão é inversa. Está em saber quando tempo aquela construção (?) poderia manter-se de pé. Não tinha, como a todos foi possível ver, no pós desmoronamento, um mínimo de condições para vir a ser habitação de seres vivos. Evito, com algum propósito e mais razão, dizer de seres humanos. Mas, como o fenómeno de desmoronamento de um prédio destinado a habitação era algo de inédito em Moçambique, pareceu por bem, a alguns, tentar colher dividendos do acontecimento. Aproveitar-se do espectáculo que é a televisão. Afinal, até só houve uma morte. A morte de um guarda. E, convenhamos, a morte de um guarda pouco conta. Sequer conta para a história. Então convinha, como aconteceu, fazer espectáculo. Dizer que já tinha sido nomeada uma comissão de inquérito. Para averiguar. Para averiguar o quê, ainda hoje ninguém sabe.
Passados que são cerca de três meses sobre o início da sua nomeação, a referida, a então criada comissão de inquérito, continua a ter nada a dizer. Ou diz, simplesmente, que o processo é complicado, que está a fazer estudos e análises laboratoriais. Blá, blá, blá. Mais ou menos assim. Para tentar adormecer quem gosta de dormir em serviço. Todos sabemos, é público, que a construção que ruiu havia sido objecto de embargo. E de desembargo, ao que se sabe, por ter sido divulgado na ocasião, por processos menos claros. De desembargo conseguido, muito possivelmente, por artes corruptas. Como por processo menos transparentes terá sido feita a concessão do terreno. Como todos sabemos, também, que não é legal a auto-construção para edifícios que não sejam moradias, para construções de habitação própria. Sabemos, ainda, todos sabemos, sabem os engenheiros deste país, melhor do que ninguém, que o engenheiro que está à frente da dita comissão de inquérito é um engenheiro com créditos firmados. Que é um engenheiro competente e idóneo. Principalmente na área de obras públicas. Por isso mesmo, terá sido nomeado pela recém criada Ordem de que é membro. Ordem que, ao que parece, começa mal a sua actividade, Ordem que começa mal quando é chamada a dar parecer técnico. Puramente técnico. Ao que parece, até prova em contrário, na Ordem dos Engenheiros também há quem tenha medo da verdade. Porquê? Será que verdade também incomoda os engenheiros moçambicanos? Se assim é, se assim for, resta-lhes uma única solução: Demitam-se.
sábado, março 06, 2004
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo
6 de Março 2004
antes e depois
Luís David
Para ver se dizem menos disparates
Há, efectivamente, várias formas de fazer jornalismo. De estar no jornalismo. De entre essas tantas, uma passa pela investigação, pela pesquisa. Por fazer aquilo a que costuma chamar-se de trabalho de campo. Outra, menos trabalhosa mas menos aliciante, é a do jornalismo preguiçoso. Do jornalismo papagaio. O patrão diz e o papagaio repete, com inaudita fidelidade, o que lhe ordenam dizer. É só perorar. Depois recebe a gorjeta, recebe ração melhorada. E, esta forma de jornalismo, esta forma de estar no jornalismo, parece estar a conquistar alguns adeptos entre nós. É um jornalismo que, como alguém já reconheceu publicamente, foi muito praticado na União Soviética no tempo do Estalinismo. Mas, não só. Também o foi na Alemanha de Hitler. E, por aí em diante. Mesmo hoje, não é difícil de encontrar adeptos desta forma de jornalismo. Não é difícil encontrar quem nada tendo investigado negue as conclusões a que chegou quem se deu ao trabalho de investigar. E, para quê? Para tentar fazer passar os seus desejos por realidade, para tentar transformar o dogma em verdade. Porque à boa maneira de Estaline e de Hitler, acredita que uma mentira muitas vezes repetida pode transformar-se em verdade. Cai, porém, em erro larvar quem assim hoje pensa. Porque nada é, ou volta a ser como foi.
A denúncia de tráfico de órgãos humanos e de crianças na província de Nampula continua a ser notícia. Não só aqui, não só em Moçambique, como em diversos outros países. Acredita-se que não fumo sem fogo. Que não pode haver fumo sem fogo. Mesmo quando os resultados da investigação oficial são tudo menos conclusivos. Mesmo quando esse resultados procurem ser mais tranquilizadores do que realistas. E, talvez por isso, ou em função disso, aí está um comunicado dos religiosos daquela província. Um documento extenso e preocupante que deve merecer a atenção de quem tem por dever procurar a verdade. Um documento com factos, datas e nomes. Um documento que tem a validade que tem. Mas que não pode, de forma nenhuma, ser ignorado. Sobretudo, que não nos permite afirmar que não há vítimas, que não há nomes de vítimas. Que tudo isto de tráfico de órgãos humanos não passa de uma cabala. Como continua a afirmar o papagaio de serviço. A quem foi prometida ração melhorada. Felizmente que o papagaio não sabe ler. Acaso soubesse, a esta hora estaria mudo de vergonha. Por só saber repetir, insistentemente, disparates. Mas, também e principalmente por não saber ler. De facto, a solução parece estar em ensinar os papagaios a ler. Para ver se dizem menos disparates.
6 de Março 2004
antes e depois
Luís David
Para ver se dizem menos disparates
Há, efectivamente, várias formas de fazer jornalismo. De estar no jornalismo. De entre essas tantas, uma passa pela investigação, pela pesquisa. Por fazer aquilo a que costuma chamar-se de trabalho de campo. Outra, menos trabalhosa mas menos aliciante, é a do jornalismo preguiçoso. Do jornalismo papagaio. O patrão diz e o papagaio repete, com inaudita fidelidade, o que lhe ordenam dizer. É só perorar. Depois recebe a gorjeta, recebe ração melhorada. E, esta forma de jornalismo, esta forma de estar no jornalismo, parece estar a conquistar alguns adeptos entre nós. É um jornalismo que, como alguém já reconheceu publicamente, foi muito praticado na União Soviética no tempo do Estalinismo. Mas, não só. Também o foi na Alemanha de Hitler. E, por aí em diante. Mesmo hoje, não é difícil de encontrar adeptos desta forma de jornalismo. Não é difícil encontrar quem nada tendo investigado negue as conclusões a que chegou quem se deu ao trabalho de investigar. E, para quê? Para tentar fazer passar os seus desejos por realidade, para tentar transformar o dogma em verdade. Porque à boa maneira de Estaline e de Hitler, acredita que uma mentira muitas vezes repetida pode transformar-se em verdade. Cai, porém, em erro larvar quem assim hoje pensa. Porque nada é, ou volta a ser como foi.
A denúncia de tráfico de órgãos humanos e de crianças na província de Nampula continua a ser notícia. Não só aqui, não só em Moçambique, como em diversos outros países. Acredita-se que não fumo sem fogo. Que não pode haver fumo sem fogo. Mesmo quando os resultados da investigação oficial são tudo menos conclusivos. Mesmo quando esse resultados procurem ser mais tranquilizadores do que realistas. E, talvez por isso, ou em função disso, aí está um comunicado dos religiosos daquela província. Um documento extenso e preocupante que deve merecer a atenção de quem tem por dever procurar a verdade. Um documento com factos, datas e nomes. Um documento que tem a validade que tem. Mas que não pode, de forma nenhuma, ser ignorado. Sobretudo, que não nos permite afirmar que não há vítimas, que não há nomes de vítimas. Que tudo isto de tráfico de órgãos humanos não passa de uma cabala. Como continua a afirmar o papagaio de serviço. A quem foi prometida ração melhorada. Felizmente que o papagaio não sabe ler. Acaso soubesse, a esta hora estaria mudo de vergonha. Por só saber repetir, insistentemente, disparates. Mas, também e principalmente por não saber ler. De facto, a solução parece estar em ensinar os papagaios a ler. Para ver se dizem menos disparates.
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