domingo, junho 27, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 27 de Junho de 2004

antes e depois

Luís David

As épocas de eleições são propícias à criação de factos políticos


Moçambique entrou no ano trinta da sua independência. Como país. Como Estado. Não, como nação. Todos sabemos que, em alguns países, a formação da nação é anterior ao Estado. Mas, na generalidade, é posterior. E, é este o caso do nosso país. Em que a criação do Estado antecede a construção da nação, ainda em processo de formação. Um processo que poderá ser mais ou menos longo. Mais ou menos difícil. Com mais ou menos traumas para alguns, para alguns muitos. Isto percebe-se e é, por vezes, nítido a partir da análise de certo tipo de discurso político. Em que é notória, em que se pode considerar como terrivelmente notada a falta de capacidade de pensar moçambicano. De ser e de agir moçambicano. Porque ser e agir moçambicano não é processo automático. Não resulta do simples facto de se haver nascido em Moçambique. Fosse assim, à data da sua independência, todos os países seriam nações. A verdade é que o não foram e, muitos, décadas passadas, o não são. Ser país, entrar naquilo a que se costuma chamar a comunidade das nações, é mera questão administrativa. É uma questão convencional. Um país, cria-se a partir, no mínimo, nos tempos modernos, de duas assinaturas. Uma nação vai sendo construída. Progressivamente. Paulatinamente. Sem pressas. Com base no respeito, na aceitação e na tolerância pelas diferenças. Com base no entrosar dos mais diversos interesses. A começar pelos de propriedade e económicos. Sem perder de vista e tendo por perto os culturais. No sentido lato da palavra.

Possa ou não parecer, quando se entra no ano trinta da independência, construir e consolidar a nação moçambicana terá de constituir e continuar a ser um objectivo nacional. Poderá não ser o único. Mas, pode ser considerado o primeiro. Outro objectivo e, talvez de não menor importância, é o de distribuir, equitativamente, a riqueza. É a forma de como distribuir a riqueza e a pobreza. Porque ambas são passíveis de ser distribuídas. De forma equitativa, mais justa. Agora, assistir ou não assistir a jogos de futebol que se disputam lá pela Europa não é, nem nunca poderá ser considerado, um problema nacional. È, apenas apontar um problema que, podendo sê-lo para alguns, não tem a dimensão nacional. Poderá, até não passar da criação de um simples facto político. Ou da tentativa de o criar. Muito provavelmente, se em vez de um Euro estivéssemos a falar de um Afro, voz alguma se faria ouvir. Ou, estivesse este Euro a ser disputado em país diferente daquele em que está menores ou nenhum seriam os reparos. Agora, estando a ser disputado onde está a questão já parece tornar-se mais complicada. Para alguns. Seja como for, não estamos, claramente, perante um problema nacional. Estamos perante um facto político. O que é normal em época de eleições. As épocas de eleições são propícias à criação de factos políticos.









domingo, junho 20, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 20 de Junho, 2004

antes e depois

Luís David


Queremos diálogo entre moçambicanos


Muito bem. Obviamente que sim. Que todos estamos predispostos para o diálogo. Que todos estamos dispostos a dialogar sobre a melhor forma de gerir ou de gestão das áreas comuns dos condomínios. Aliás, trata-se de um desejo manifestado repetidamente. Assim, é de saudar a posição divulgada, esta semana, publicamente, pelo Governo. Através do Ministério das Obras Públicas e habitação. É que, afinal, esta é a posição que lhe conhecíamos de muitos anos atrás. Pena é, isso sim, que não tenha sido dada continuidade a um processo iniciado com base na confiança mútua, na sinceridade, na harmonização de interesses. Pena é, também, que tenham passado vários anos sem nada se fazer. Sem nada ter sido feito. Anos de um vazio absoluto. Ou, talvez não. Talvez tenham sido anos que alguns aproveitaram para sugar as últimas gotas de leite da teta da vaca. Uma vaca velha de idade, decrépita, moribunda. Uma vaca que, desde há muitos anos, dera o que lhe era possível dar. Por isso, por todo este processo de tentar sacar à vaca um leite que ela já não podia dar, foi um tempo perdido. Foi um tempo perdido, inútil e maldosamente, no processo de organização dos condomínios. E, como todos sabemos, o tempo perdido não se pode recuperar. O tempo passado, é, sempre, tempo passado. Da mesma forma que, nas revoluções não é possível “queimar” etapas. Tudo tem o seu tempo. Tudo tem o seu ritmo.


Concordemos, pois, que todos estamos predispostos para o diálogo. Mas, há, existe, porém, uma questão que não parece de menor importância. É que, quando se fala em diálogo é necessário que haja duas ou mais pessoas ou entidades dispostas ao diálogo. O diálogo não é um processo de sentido único. Unilateral. O diálogo é um processo de sentido bi ou multilateral. E a APIE não é, hoje, como não o é, desde há muitos anos, um parceiro de diálogo das Comissões de Moradores. A APIE é, simplesmente, um condómino, como o são muitas dezenas de milhares de cidadãos moçambicanos que compraram as suas casas ao Estado. A APIE não tem mais nem menos direitos, não tem mais nem menos poderes sobre a propriedade imobiliária registada em seu nome. Ainda pertença do Estado. Sabe e reconheceu esta filosofia o Ministério das Obras Públicas e Habitação. Daí o ter criado um Gabinete para gerir os interesses em conflito. Um Gabinete dotado, à data da sua criação, de engenheiros, de arquitectos e de outros técnicos qualificados. Que se deslocaram a mais de uma dezenas de prédios da cidade de Maputo onde, na presença das Comissões de Moradores, fizeram um levantamento dos problemas e das deficiências dos edifícios para, posterior, reparação a custas do Estado. As Comissões de Moradores organizadas são muito anteriores à actual direcção da APIE. Com elas, com essas Comissões de Moradores, já dialogava o Ministério das Obras Públicas e Habitação antes de a actual direcção da APIE ter chegado ao poder. É, portanto, falsa e não passa de mentira barata a mensagem que a directora do APIE da cidade de Maputo anda a tentar fazer passar. Ao dizer que as Comissões de Moradores tiveram cinco anos para se organizarem e não se organizaram. Perguntemos, então, nós, o que fez a APIE nestes últimos cinco anos. A resposta só pode ser nada. Ou, então, que vendeu e alienou áreas pertencentes aos espaços comuns dos edifícios. Em prejuízo dos condóminos. E que continua a receber rendas de outros espaços que cedeu ilicitamente. Ilegalmente. Sejamos claros e para finalizar: Diálogo sim, diálogo com corruptos e com representantes dos interesses neocoloniais, não. Diálogo com fascistas, não. Queremos diálogo entre moçambicanos.



domingo, junho 13, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 13 de Junho, 2004

antes e depois

Luís David


assumam “apagão”

Há determinadas questões, determinadas afirmações, que considero deselegante divulgar publicamente. Porque discutidas ou feitas em reunião ou em ambiente privado. Em ambiente restrito ou que se possa considerar como restringido no sentido de limitado a quem nelas participou e a quem nelas teve, de alguma forma, influência. Porém, se perante um acordo tácito, um acordo de cavalheiros e, logo, não escrito, uma das partes viola as regras do jogo, à outra parte assiste todo o direito de quebrar as regras desse jogo. Podendo divulgar, então, se assim o entender, o que lhe possa parecer mais útil e mais utilitário, podendo divulgar tudo o que, parecendo não dever ser público, o deve ser para defesa dos interesse de uma maioria. Da maioria. Democraticamente escrevendo. Ou seja, do interesse público. Creio não ser este, nem ainda, o momento nem o espaço, para fazer qualquer consideração sobre o posicionamento do Ministério das Obras Públicas e Habitação sobre os problemas que lhe foram colocados, há muitos anos, pelas Comissões de Moradores da cidade de Maputo. Porque aceite como correcto na altura é, hoje, absolutamente insustentável. De forma clara e objectiva, vamos ter de recolocar o problema de forma simples. Então, é assim: Ou o Ministério das Obras Públicas e Habitação considera que tomou uma posição correcta e mantém a posição que tomou. Nesse caso demite a direcção do APIE da cidade de Maputo, por contrariar a sua decisão. Ou, em alternativa, o Ministério das Obras Públicas e Habitação considera que tomou uma decisão errada e lesiva aos interesses do Estado e dos cidadão e, então, demite-se, em bloco. O que não queremos, mais, é de ter viver, de pautar a nossa vivência diária, entre um sorriso do ministro, que a tudo diz que sim, e uma decisão unilateral, de sentido contrário. De uma simples directora provincial. Ou de Cidade. E, convenhamos, cidade com letra maior tem um certo peso.



A Águas de Maputo, empresa que se diz fornecer-nos o precioso líquido, bastou receber um “bip” arlanzado e logo começou a cortar a água em áreas comuns dos prédios. Cortou. Muitos prédios da capital do país estão sem água nas áreas comuns. Assim o decidiu uma empresa geridas por estrangeiros. Assim o decidiu uma empresa dirigida por interesse colonialistas. Por uma empresa que presta demasiados maus serviços a Moçambique para que ainda possa continuar a operar em Moçambique. Mas, a verdade, é que continua. Porquê, ninguém sabe. Será, hipoteticamente, porque os interesses coloniais são mais poderosos do que os interesses nacionais. Aparentemente sim. Assim sendo, é fácil prever um cenário futuro. Aquilo que a RENAMO não conseguiu durante a guerra, poderão conseguir a APIE e a EDM no próximo 25 de Junho. Vão conseguir funcionários menores da APIE e da EDM: Decidiram-se pelo “apagão”. Então, assumam “apagão”.

domingo, junho 06, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 6 de Junho de 2004

antes e depois

Luís David


Moçambique também tem água mineral


Um dos problemas mais dramáticos, em África, de um modo geral, é o do acesso à água. E, Moçambique, como país africano, confirma a regra. Por um lado, são as longas distâncias que é necessário percorrer para obter um mínimo de quantidade de água. Por outro, conseguir obter água com um mínimo de qualidade. Água com qualidade para o consumo humano. Água potável. E sem custos ou, no mínimo, a um preço acessível. A questão da falta de água, da escassez de água, não era, e provavelmente ainda não deixou de ser, um fenómeno exclusivamente rural. É também, sempre foi, uma questão, um problema urbano. Talvez mais correctamente, suburbano. Estamos recordados, certamente, muitos de nós, do que sucedia antes da independência. E, certamente, também já no depois. Quem queria ter água e tinha possibilidades económicas, mandava abrir um furo no quintal da sua residência ou nos terrenos anexos à cantina. Depois, sem necessidade de qualquer tipo de publicidade, esperava que os vizinhos mais necessitados de água lhe fossem bater à porta. E, aproveitava para fazer negócio. Vendia água em latas de vinte litros. Ao preço que pretendia. Reclamações sobre o valor cobrado e a qualidade seriam poucas. As autoridades da época diziam ser um negócio ilegal. Mas, para além de uma posição mais agressiva contra um ou outro cantineiro de quem não gostassem, ficavam-se, sempre, por uma posição contemplativa.


Recentemente, há poucas semanas, assistimos, todos, ao despoletar de uma polémica sobre a qualidade de certas marcas de água que é engarrafada e vendida em Moçambique. E, quando seria de esperar que as diferentes associações, ditas de defesa do consumidor, viessem a público dar a conhecer a sua posição, dizer se as águas em questão podem ou não ser consumidas como boas, assistimos ao silêncio. Da mesma forma que terá passado quase despercebida a posição do Ministério da Saúde sobre a matéria. Poderá, certamente, haver razões ou interesses económicos outros para que assim tenha sido necessário acontecer. Mas, recuemos, mais uma vez, no tempo e recordemos. Quando, em meados de década de setenta, a empresa que explorava a água da Namaacha pretendeu desenvolver o negócio e, para o efeito fazer publicidade, mandou realizar todo um conjunto de análises laboratoriais. Na expectativa de que a água tivesse alguma qualidade excepcional. Mas não tinha. E, certamente, também hoje não tem. Era, segundo as análises da época, bacteorologicamente pura. O que já não era mau. E que será uma qualidade que conserva. Ao que se sabia na época, não havia em Moçambique água mineral. Hoje, parece haver. É que, para além de tantas águas, que se diz colhidas na fonte e transportadas em cisternas para o local de engarrafamento, uma é engarrafada nas Montanhas de Goba. E, mais se diz, nos jornais, é mineral. A não ser água mineral, estaremos perante um caso de publicidade enganosa. A ser água mineral, e é bom provar que o é, ficaremos todos muito satisfeitos. É que Moçambique também tem água mineral.



segunda-feira, maio 31, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 30 de Maio 2004

antes e depois

Luís David

uma maneira saloia de fazer agitação social


No dia 22 de Junho de 1999, a Comissão de Economia, Turismo e Zonas Verdes da Assembleia Municipal de Maputo, reuniu para examinar “o contencioso entre as Comissões de Moradores da cidade e a APIE”. Contencioso esse, resultante do anúncio, datado de 6 do mês anterior, publicado na imprensa local e através do qual, era feito o apelo às CM para estabelecerem contratos com as empresas de água e de luz. Presentes ao encontro, directores e seus adjuntos das referidas empresas e da APIE. Sem entrar em detalhes, mas seguindo de perto a acta então produzida, assinada por José Chichava, actual Ministro, e por Carlos Cardoso, já falecido, importa recordar que “o encontro produziu consenso quanto ao seguinte: Não estão reunidas todas as condições legais para as comissões de moradores poderem ser entidades com personalidade jurídica, pelo que qualquer contrato por elas estabelecido não tem sustentabilidade legal”. Com base neste e outros considerandos, o encontro produziu, por consenso, algumas recomendações, entre as quais a de que o anúncio da APIE seja revogado de modo a permitir que se mantenham válidos os seus contratos com a ADM e a EDM relativos aos espaços comuns dos edifícios, que a EDM inicie a curto prazo o estudo da possibilidade de distribuir os gastos comuns equitativamente por todos os fogos de um edifício (...), e que, enquanto a solução anunciada no ponto 2 não for concretizável, a APIE reuna o mais cedo possível com as comissões de moradores para encontrarem, em conjunto, a melhor forma de os moradores dos prédios começarem a pagar mensalmente à APIE a parte que lhes cabe das despesas comuns com água e electricidade. Para que fique bem claro, nunca esteve em causa o princípio de os condóminos pagarem as despesas com água e energia dos espaços comuns. O que sempre esteve, e ainda hoje continua a estar, é a forma, o processo e o método como tal deve ser feito. E é, também, a forma como o condómino APIE procura relacionar-se com todos os milhares de condóminos da capital do país. Colocando-se numa posição de superioridade e furtando-se, sistematicamente ao diálogo. Não tem, claramente, a APIE capacidade de diálogo nem serenidade, menos ainda seriedade para, em posição de igualdade, discutir problemas que também são seus. Que são, sobretudo seus. Porta-se a APIE hoje, sobretudo hoje mas objectivamente durante os últimos anos, como se comportava o patrão na era colonial. E, esta postura é, de todo, inaceitável. Inadmissível.


Em carta datada de 20 do mês em curso, dirigida às Comissões de Moradores, vem a directora do APIE da cidade de Maputo informar que a gestão dos Condomínios, incluindo o pagamento dos consumos de água e energia das partes comuns, é transferida para os condóminos. Ninguém, certamente que ninguém, contesta o dever de pagar o que é seu dever pagar. O que está em questão, isso sim, são os argumentos que pretendem sustentar a decisão. Que são falsos. A dívida da APIE à EDM não resulta, certamente, da introdução do SISTAFE. É anterior, no tempo. Mas, deixemos estes e outros considerandos para próxima oportunidade. Coloquemos, apenas, algumas dúvidas. Para saber qual o motivo pelo qual o segundo aviso de corte de água e de energia às áreas comuns ocorre precisamente cinco anos depois do primeiro. Nem mais nem menos um dia. E, porquê que só acontece cerca de cem dias depois de Eneas Comiche ter iniciado a sua governação. E, porquê que abrange, única e exclusivamente, a cidade de Maputo e não todo o país. Mais, mas por último, qual o motivo pelo qual a decisão da APIE da cidade de Maputo foi tomada num período de pré-campanha eleitoral, a poucos meses das próximas eleições gerais. E, numa ocasião em que a capital moçambicana é palco de sucessivas reuniões internacionais. As respostas podem ser muitas. E serão. Deixemos a nossa hipótese de resposta. Trata-se de uma maneira saloia de fazer agitação social.



terça-feira, maio 25, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 23 de maio de 2004

antes e depois

Luís David

um acto de coragem


Poucas são as coisas que surpreendem. Pela positiva e neste país. Um país desgastado e descrente. Não por não ter motivos para crer. No sentido de acreditar. Mas, por tanto e tantas vezes lhe tentarem fazer acreditar que o que parece é. Quando muitas das vezes, quem sabe se na maioria das vezes, o que parece não é. É que o que é, é. E, o que é, de facto, é que o tal de Aníbal mais uma vez, pela segunda vez, saiu da prisão onde cumpria pena pesada. E, se saiu, como tudo indica que saiu, é porque foi deixado sair. Ou foi mandado sair. Parece, aqui, poder-se concluir que o que parece não é. Que estamos perante uma situação em que o que parece não é. E o que parece, ou se diz que é, é a BO ser uma cadeia de máxima segurança. Mas, não é. Está comprovado que não é. Porque não há cadeias de máxima segurança sem guardas da máxima confiança. O que há, todos o sabemos, são cadeias dotadas de meios de segurança e de vigilância mais sofisticados do que outras. Mas, não há nem pode haver cadeias de máxima segurança quando ou enquanto houver poderes que parecem sobrepor-se ao Poder. Dito de outra forma, poderes, aparentemente, paralelos. E, isto, sem que o Poder seja abalado, beliscado. Sem que o Poder se sinta ameaçado. E, aqui, então, o que parece, é. Ou, se não é, parece ser.


Em menor número, talvez, mas também há algumas que nos surpreendem pela positiva. Que nos levam a acreditar que este país, podendo parecer descrente, tem suficientes motivos para crer. E que possui uma significativa reserva moral para poder acreditar. Que há uma reserva moral que sabe colocar interesses colectivos acima de mesquinhos interesses pessoais. É nesta linha de pensamento que não pode passar sem referência, nem sem registo, a decisão do Conselho Municipal de Maputo. No sentido de mandar suspender as obras da chamada Catedral da IURD, em plena Avenida Julius Nyerere. Autorizadas, vá lá o comum dos cidadãos querer saber a troco de quê ou de quanto, pelos anteriores gestores municipais. A decisão tomada, esta semana, é, sem sombra de dúvida, aquilo a que se pode chamar uma “pedrada no charco”. No charco das águas turvas e putrefactas em que a capital do país estava a ser submersa. Em que foi mergulhada por pessoas sem moral nem escrúpulos, por gestores incompetentes e, bem pior que isso, corruptos. Claramente, ter mandado embargar as obras da dita Catedral da IURDE não resolve os muitos problemas da cidade de Maputo. Resolve um. Apenas um. Muitos outros, muitas outras decisões anteriores, necessitam análise cuidada. Necessitam, sobretudo, ser vistas numa perspectiva de abuso do poder e de má gestão. Para não ir mais além. E, esse mais além, é o de uma gestão corrupta. É preciso dar tempo ao tempo. Para já, é de justiça afirmar que travar a construção da dita obra trata-se de um acto de coragem.

terça-feira, maio 04, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 2 de Maio de 2004

antes e depois

Luís David

à razões que a razão desconhece


Todos nós sabemos que a política é a arte, talvez a ciência, do possível. E, desnecessário se torna elaborar muito sobre a matéria. Por haver pouco a elaborar, por haver pouco mais do que nada a dizer. Temos de convir que as coisas são como são e não como gostaríamos que fossem. Num país como o nosso, dependente em grande escala da ajuda externa, logo condicionado a interesses múltiplos, afirmar que somos soberano em termos de decisões não passa de um engano. Talvez de uma de um desejo. De uma ilusão, quando não seja de uma utopia. Mas, daí, o mal a advir até pode ser menor. Temos, todos nós, no plano individual, o direito a ter e a manifestar os nosso desejos. As nossas utopias. Mas, atenção, cuidado. Há utopias e há utopias. E que esses desejos e essas utopias, no plano da realidade, não resultem em sacrifícios para muitos. E em benefício para poucos alguns. Poucos. Sobretudo, que não se tente tirar benefícios pessoais, mesmo de grupo, manipulando sentimentos de grupo. Ou colectivos. Até porque, como todos sabemos, tal procedimento nunca deu resultado nenhum. A não adiar soluções, decisões de fundo. Decisões realistas.



Tempos atrás, talvez alguns meses, Moçambique assinou a Convenção Antitabagismo das Nações Unidas. Decisão acertada. Até porque todos nós, fumadores ou não fumadores, estamos conscientes do perigo do cigarro, do fumo. Todos nós sabemos que são muitas as pessoas que morrem, em todo o Mundo, devido ao cigarro. Então ficámos à espera, aguardámos, com expectativa, pelas medidas no plano interno. E, o que vimos, a nível da capital do país, sejamos sinceros e verdadeiros, foi um crescente número de painéis publicitando diferentes marcas de cigarros. Nada e em momento algum apelo ou conselho para deixar de fumar. Sobre os perigos de fumar. Hoje, ficámos a saber que, próxima terça-feira, a Associação Moçambicana de Saúde Pública realiza, na Assembleia da República, um seminário integrado na sua luta de combate ao consumo de tabaco. É bom que sim. É bom que se assim o pensou, assim o faça. Porque, convenhamos, nada melhor do que começar por sensibilizar os deputados para os perigos do consumo do tabaco. Sem perder de vista, obviamente, que não é possível consumir aquilo que não foi produzido. E, como todos sabemos, hoje, em Moçambique produz-se tabaco em larga escala. Em Moçambique, hoje, é incentivada a cultura de tabaco. Em Moçambique, hoje, o tabaco é uma cultura de rendimento. E esta cultura de rendimento está a permitir uma significativa melhoria de vida aos seus produtores. Que até já conseguem construir casas melhoradas. Então, coloca-se o dilema: Como combater o consumo de tabaco sem eliminar a sua produção. Ou, dito de outra forma, se queremos combater o consumo porque incentivamos a produção. Sem dúvida, há razões que a razão desconhece.

domingo, abril 18, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 18 de Abril de 2004

antes e depois

Luís David


é necessário perder o medo de escutar as crianças



Se alguém nos perguntasse que tipo de pais somos, que tipos de pais fomos, quase de certeza ninguém iria dizer ter sido mau pai. Poucos, ou nenhum, teríamos a coragem para o admitir. E, isto porque aquilo que fazemos, ou não fazemos, é sempre para o bem dos nossos filhos. Assim o afirmamos, porque assim o pensamos, assim o desejamos e assim o sentimos. Porque assim o fizeram nossos pais, porque assim procederam nossos avós em relação a nossos pais. E, daí para trás. Então, continuamos a sentir ter o direito de falar e decidir em nome dos nossos filhos, sejam eles crianças ou já não. Sobretudo, e principalmente, gostamos de ver crianças muito bem comportadas. Adultos em miniatura. O reflexo do que somos, ou pensamos ser. Nós, para nós mesmos, somos o modelo a seguir. Temos dificuldade em aceitar o pensar e o agir de forma diversa, de forma outra. Porque pensamos saber mais, saber tudo. É perante esta dificuldade em aceitar o ser criança e o ser criança diferente que recorremos, quantas vezes, à repressão. No verdadeiro sentido do termo. Muitas das vezes, quase sempre, sem perceber que ao reprimir estamos a destruir a evolução normal de pequenos seres, as suas iniciativas. E isto acontece, quando acontece, naturalmente, por falta de capacidade ou desinteresse em acompanhar o desenvolvimento da criança. E em corrigir erros e desvios de comportamento de forma didáctica e pedagógica. Um fenómeno que podendo ser universal demonstra temor e receio, talvez medo, de deixar a criança ser ela mesma. Ser criança.


Foi em 2001 que as crianças moçambicanas discutiram os seus problemas no Primeiro Parlamento Infantil. Consideraram, então, como questões prioritárias, como questões que mais as preocupava, o acesso aos serviços de Saúde e à Educação, assim como a protecção contra os abusos sexuais e a exploração. Amanhã, segunda-feira, e depois de amanhã, terça-feira, vai acontecer o Segundo Parlamento Infantil. E vai reunir, precisamente, na Assembleia da República. Local onde os mais de cem jovens parlamentares nos irão dizer o que foi e o que não foi feito em relação ás recomendações do Primeiro Parlamento Infantil. E, também, escutar aquilo que o Parlamento, o Governo e a sociedade civil tem a dizer em relação às suas preocupações actuais. Convenhamos que não é um exercício fácil. Convenhamos que, a muitos de nós, falta capacidade para aceitar mudanças. Mesmo quando lentas e progressivas. Mesmo quando digam respeito à defesa dos mais elementares direitos da criança. Estaremos, quase certamente, aqui, como em muitas outras áreas, em primeiro lugar, perante um conflito entre tradição e modernidade. Como poderemos estar perante um conflito de gerações ou um conflito entre pais e filhos. As notícias de todos os dias sobre raptos, crimes e actos discriminatórios assim o parece indicar. Sabendo que ouvir é uma virtude, estejamos preparados para escutar o que as crianças têm para nos dizer. Porque é necessário perder o medo de escutar as crianças.

terça-feira, abril 13, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 10 de Abril, 2004

antes e depois

Luís David


evitar mais feridos e mortos



Somos um país de campanhas. De semanas comemorativas ou alusivas a. De marchas, contra ou a favor. Para assinalar isto ou aquilo. Depois, depois, voltamos à normalidade. Caímos na rotina. E os males para os quais chamámos a atenção. Os males contra os quais marchámos, ficam. Permanecem. Quando não pioram, quando não se agravam. Planos de acção concertados, sobre questões, sobre males, para o combate ao ilegal e ao imoral, que a todos afecta, não há. Se, acaso os há, não se notam. Daí a degradação de valores morais e cívicos a que assistimos. E, também ao renascer da perigosa e inaceitável prática de fazer justiça pelas próprias mãos. É que abater uma árvore numa qualquer artéria deixou de ser crime. Como imoral parece ter deixado de ser urinar na via pública. Mesmo quando muitos estão a ver. Ilegal parece, também, ter deixado de ser abandonar ou estacionar a viatura em local que impede a passagem de outras. Afinal as luzes de presença, esses “amarelos” acessos servem para indicar que por ali está gente importante. A gente a quem polícia algum ousa incomodar. Como não incomoda o autor do pequeno furto. Tudo isto acontece. Como acontece muito mais. São os novos hábitos dominantes. Mas, maus hábitos. Claro.


Moçambique registou, no ano de 2003, 5.402 acidentes de viação. Em consequência, 1.123 pessoas perderam a vida. Uma média de cerca de quatro por dia. Isto é, em cada dia que passa, há quatro pessoas que morrem nas estradas e artérias citadinas de Moçambique. Muitas outras contraem ferimentos, graves ou ligeiros. Dos custos materiais e indirectos não falam, também, as estatísticas. Depois, as causas, os motivos dos acidentes e das mortes, são quase sempre evasivos. De quando em vez, quando parece estar a iniciar-se trabalho sério e concertado, tudo não passa de ilusão. Recordemos: Recentemente, várias dezenas de viaturas foram mandadas parquear por circularem com documentos obtidos ilegalmente. Mais depois, foi divulgado o afastamento de alguns polícias de trânsito que não cumpriam com a sua missão. Ou, como se disse, eram corruptos. O resultado destas campanhas, destas operações cosméticas, parecem poucos. Até ao momento não são visíveis. Estamos em plena “Semana” comemorativa do Dia Mundial da Saúde que, este ano, tem como lema “Pela Segurança Rodoviária, Evite o Acidente”. Hoje mesmo, Domingo, Maputo deverá estar a ser cenário de uma marcha inserida numa campanha de informação. Mas, cuidado senhores manifestantes: Tomem as necessárias precauções para não serem atropelados. Por um qualquer automobilista que não respeita as regras de trânsito, que corta a prioridade a quem a tem, que avança com o vermelho, que circula, enfim e se lhe apetecer, por cima dos passeios. Ademais, o que pedimos, o que temos o direito de pedir, não é que não se manifestem, não é que não marchem. Tem pleno direito para o fazer. Mas, o que vos pedimos, antes do mais, é para que actuem. Por forma a evitar mais feridos e mortos.

domingo, abril 04, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo
3 de Abril 2004

antes e depois

Luís David

no melhor pano cai a nódoa



Por ocasião ou a propósito da recente visita do Primeiro-Ministro de Portugal a Moçambique, alguém sugeriu, alguém escreveu sobre a possibilidades e a utilidades de serem enviados professores para o nosso país. Dos muitos que lá não conseguem colocação. Ao abrigo de um acordo de cooperação. Pagos por Portugal. Mas, professores de língua portuguesa. O que até parece uma boa ideia, o que se afigura como sugestão útil. Afinal, assim deveria ser, melhor do que ninguém são os portugueses que sabem a sua língua. Ou deveriam saber e dominar. Para a poderem ensinar. Como mais ninguém. Acontece, porém, como por todos é sabido, que a língua portuguesa é uma língua traiçoeira. Para não dizer traidora. É uma língua cheia de subtilezas, de rasteiras, de matreirices. É uma língua, que não cede com facilidade os seus pergaminhos ao querer de certos doutores. Por muito competentes, por muito sábios que o sejam nas mais variadas esferas do conhecimento. É uma língua, enfim, que não se deixa dominar por interesses outros que não sejam os seus. Os do bem falar e os do bem escrever.


Ministros do Gabinete do Primeiro-Ministro de Portugal, assessores e outro pessoal qualificado multiplicaram esforços para assinar acordos e protocolos. O tempo era pouco, o tempo urgia. Em todos, ou quase todos, esses documentos a assinar por ambas as partes, aparecia uma palavra, um termo, por muitos desconhecido. Um termo que ninguém, em Moçambique conhecia. O termo assumpção. E, a provar que a referida palavra “povoou” os textos dos documentos oficiais está a local do jornal “Savana” (pag. 3) desta semana. Na verdade, na realidade, o referido termo não consta na maioria dos principais Dicionários da Língua Portuguesa editados, em Portugal, no último meio século. Existem, entre outros, assumir, assumpto (assumido) e assunção (acção de assumir). Mas, assunção sem p e com n no lugar do m. Assim, assumpção não passa de neologismo, barato e ridículo. De termo inventado, à última hora, para baralhar e confundir quem, de facto, em África, sabe e domina a língua portuguesa. Mas, também podemos aceitar que não. Que não passa de um erro. Que não passa de ignorância. Até porque, como todos sabemos, no melhor pano cai a nódoa.