domingo, setembro 19, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 19 de Setembro, 2004


antes e depois

Luís David


o 25 de Setembro não está em questão.


De uma forma geral, a história que melhor conhecemos é a história que nos contaram na escola. E, é esta história que nos marca para toda a vida. Quer se trata da história do nosso, quer se trate da história de outros países. Ora, a história que conhecemos, a história que nos contam é, invariavelmente, a história dos vencedores, é uma história de vencedores. Todos sabemos, hoje, que nos Estados Unidos há uma história dos colonizadores e há uma história dos índios. Que na URSS foram publicadas sucessivas edições de manuais “corrigidos” em que os heróis de ontem são os renegados de hoje. Que em África existe a história dos brancos e a história dos negros. E, no que atrás fica escrito, sigo de perto o texto de apresentação de “Falsificações da História” , da autoria Marc Ferro, director de estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales. Onde se pode ler, também, que era urgente proceder a uma confrontação naquilo que essas histórias têm de real e de ilusório, antes de os poderes dominantes – Estados ou igrejas, interesses privados ou partidos políticos – nos apresentarem a todos, na era dos mass media, um passado falsificado, “ limpo”, manipulado, uniforme. Portando, convenhamos, se este é o momento de proceder à revisão da história recente de Moçambique, que assim se proceda. Mas que se encarregue os historiadores da tarefa.


Em texto publicado numa revista portuguesa e transcrito num semanário de Moçambique, Boaventura de Sousa Santos escreve sobre o livro “Uria Simango: Um Homem, uma Causa”. O autor do artigo, com o título “Moçambique por contar”, considera o livro perturbador. Mas, esquece de dizer para quem é que é perturbador. Depois de várias outras considerações, com base em factos que são públicos desde há muitos anos, o autor do referido artigo diz que, em suma, o livro “cheira” a verdade. E, este “cheira”, assim entre aspas, permite concluir que B.S.S. não tem a certeza sobre a verdade do livro. Sobre a verdade que o livro nos pretende transmitir. Em última análise, que não tem certeza absolutamente nenhuma. Ora, se não tem certeza nenhuma nem certeza sobre nada, está a partir de uma premissa falsa. Mais, está a reconhecer que partindo de uma premissa falsa pretende obter uma conclusão verdadeira. Ao propor a criação de uma Comissão de Verdade e de Reconciliação. O que não sendo, naturalmente, uma proposta impensada, uma proposta feita por um ignorante, pode permitir a conclusão de que se trata de uma proposta intelectualmente desonesta. Santo Agostinho, quando escreveu “Acerca da doutrina cristã”, foi bem mais prudente, foi bem mais cauteloso, foi bem mais reconciliador. Muitos, não terão lido os seus textos. Outros, podem ter lido e fazem por esquecer. Assim convém, para si próprios, no presente momento. Como convém não esquecer, para evitar ou espantar os abutres da história, que há factos que são inquestionáveis, que há datas que são inquestionáveis. Que não estão em discussão, nem são discutíveis. A primeira, é a do início da luta armada. A segunda, é a da assinatura dos Acordos de Lusaca. A terceira, é a da proclamação da independência nacional. E, esta trilogia de datas, que representam factos e acontecimentos muito concretos, goste quem gostar, não goste quem não gostar, está acima e para além de qualquer questionamento. Possa ou não um livro “cheirar” a verdade, a história de Moçambique não pode por isso, só por isso, ser revista. E nem pode isso, ser transformado, aproveitado, utilizado, como factor de desestabilização. De uma nação em processo de construção. Digamos, para eliminar dúvidas, que o 25 de Setembro não está em questão.

domingo, setembro 12, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 12 de Setembro, 2004

antes e depois

Luís David


fiquemos de olhos abertos

Dizer que nada está a ser feito para mudar a face de Maputo, seria tremenda injustiça. Dizer que tudo mudou, que tudo está diferente, seria elogio barato, bacoco. Seria, em última instância, uma mentira. Convenhamos que foram feitos grandes esforços de organização e financeiros na recolha do lixo e na limpeza da cidade. Concordemos que foi travada essa onda selvagem que permitiu a colocação dos mais aberrantes painéis publicitários em tudo quanto é espaço público. Muitos dos quais, já deviam, até, ter sido removidos, destruídos. Estamos, alguns de nós, de acordo com o trabalho desenvolvido no sentido de embargar construções ilegais ou que não obedeciam ao que tinha sido licenciado. E, aqui, quando digo que estamos de acordo alguns de nós é, precisamente, por já não haver unanimidade. Por se terem começado a fazer ouvir vozes discordantes. Vozes discordantes em defesa dos interesses, possivelmente corruptos, instalados. Vozes que nos tentam convencer que se os dirigentes de ontem cometeram ilegalidades, se se pautaram o seu mandato um uma conduta de irregularidade, os de hoje, os dirigentes de hoje, devem deixar tudo como está. Nada devem corrigir. Quer dizer, devem ser coniventes com a violação da Lei e das Posturas. Entendo que se está a tentar ir longe de mais. Que se está a tentar insinuar que, afinal, os desmandos praticados nas mais diferentes áreas de gestão da capital do país não foram tão graves como se pretende que tenham sido. Mas foram. E foram bem mais graves do que muitos possam imaginar.


A par dos citados e, eventualmente, de muitos outros aspectos positivos da presente governação da cidade de Maputo, há alguns aspectos negativos. Que importa, desde já começar a colocar. Com frontalidade. Assim, o combate aos chamados vendedores de esquina não se trava com medidas administrativas nem com o recurso a ameaças de intervenção da Polícia Municipal. Este é, no seu todo, um exercício inútil. Porque o fenómeno é, antes do mais, social. Logo, é necessário entender as suas causas. Depois, o gasto de dinheiro que está a ser feito com a pintura da sinalização horizontal em certas artérias, é um gasto inútil. Por melhor que seja a intenção, o que está a ser feito é repetir o que foi feito por ignorantes em termos de legislação rodoviária. Os sinais que estão a ser avivados, são sinais que devem ser violados. Como única forma de protecção de quem conduz e deseja não provocar acidentes de viação. Só um ignorante, ou um criminoso, pode ter mandado pintar os sinais que se encontram na Lenine, na Nyerere, na descida do viaduto, na zona da Escola Náutica. Entre muitas artérias da capital. Por fim, não se compreende, é difícil de compreender, como continua a haver tanta falta de capacidade para fiscalizar a reposição do pavimento quando determinadas empresas o partem para instalar cabos ou tubos. Com objectivos económicos, seus. Um exemplo, claro e recente: a Águas de Maputo abriu, mais uma, vala transversal na artéria de vai da Nyerere para o Clube Naval. E, dizemos, mais uma por, anteriormente, ter aberto várias outras. Que nunca tapou. Mas, convenhamos, que nunca ninguém terá obrigado a tapar. Talvez por aquilo a que chamámos de interesses instalados. Todos sabemos, fazem-se fortunas pessoais, empresas há que apresentam lucros fabulosos pelo fechar de olhos a estas “pequenas” coisas. Mas, talvez seja altura de abrirmos os olhos, antes que nos venham impor mais taxas. Para isto e para aquilo. Para pagar o desleixo de uns e a corrupção de outros. Então, fiquemos de olhos abertos.

terça-feira, setembro 07, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 5 de Setembro, 2004


antes e depois

Luís David


um exercício inútil


Parece estarem a registar-se, nos últimos tempos, múltiplas tentativas de rever e de branquear a história recente de Moçambique. Recente, de umas poucas de décadas. De há três/quatro décadas, que o conhecimento e a memória de muitos de conserva vivos factos e acontecimentos. Ora, se esse rever é, sem si próprio, um exercício positivo por poder trazer a público factos novos ou uma interpretação diferentes de factos antigos, o mesmo não é possível dizer do branquear. E, o que estamos a assistir, hoje, é a sucessivas tentativas de branquear a história recente. A tentativas para tentar demonstrar que o colonialismo não foi tão mau como alguns pretendem dizer que tenha sido. Ou, e parece ser esta questão de fundo, que o colonialismo português não foi tão mau como outros colonialismos. Ora, muito claramente, não existiram sistemas de colonização bons e maus. Na sua essência, e pelos objectivos que perseguiam, todos os sistemas de colonização foram maus em si próprios. Isto, obviamente, do ponto de vista do colonizado. A quem pouco importava se a bandeira que tinha de respeitar era inglesa ou francesa, espanhola ou portuguesa, italiana ou alemã. O trabalho forçado, a palmatória, a escravatura foram, durante décadas, processos comuns. Digamos, então e para que fique claro em certas cabeças, que o colonialismo em momento algum foi melhor de que outros. Pelo contrário. Poderá ter sido bem pior, a partir do momento em que passou a reprimir, através da PIDE e da PIDE/DGS, toda e qualquer tentativa de independência. Em que começou a matar, a massacrar e a assassinar. Em Moçambique, como em Angola, como na Guiné-Bissau. E, contra factos não existem argumentos.


Há, por aí, quem nos esteja a tentar convencer que a construção da Barragem de Cahora Bassa foi uma coisa muito boa para Moçambique, para os moçambicanos. E, seguindo esta linha de pensamento, que devemos estar, todos nós, agradecidos ao colonialismo. Que devemos pagar dívidas, que devemos pagar as mordomias de gestores. Que devemos, inclusive, pagar os custos resultantes da destruição das torres de transporte de energia para a África do Sul. Só que, Cahora Bassa não era isto, nunca foi isto, que, hoje, nos tentam fazer acreditar que foi. Cahora Bassa tinha e teve, fundamentalmente, objectivos de estratégia militar. A Barragem de Cahora Bassa não foi construída na perspectiva de trazer quaisquer benefícios ou melhoria nas condições de vida dos moçambicanos. A este propósito e para dissipar dúvidas, se é que ainda existem, creio ser importante transcrever o que escreveu Dalila Cabrita Mateus na sua tese de doutoramento. O livro, tem como título “A PIDE/DGS na guerra colonial -1961-1974”. E diz, na página 362: Em princípios de 1971, Ian Smith, acompanhado pelos chefes dos serviços de informações militares e por um intérpetre, visitou Moçambique para conversações com o General Kaúlza de Arriaga, então no quartel-general de Nampula. Kaúlza vangloriou-se dos êxitos do Exército Português durante a Operação Nó Górdio, a maior operação já realizada contra a FRELIMO. Falou dos planos para o vale do Zambeze, onde se previa a fixação de um milhão de colonos vindos da Metrópole. E afirmou que a Barragem de Cahora Bassa, uma vez construída, seria uma barreira intransponível para os guerrilheiros que tentavam penetrar no distrito de Tete, através do Zambeze. Concluindo: Rever a história é um exercício útil. Pedagógico e didáctico. Tentar mentir sobre a história é um exercício inútil.

domingo, agosto 29, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo em 29 de Agosto, 2004


antes e depois

Luís David


de Gouveia Lemos para Lurdes Mutola



De longe, de terras lá da Europa, o António Maria Gouveia Lemos enviou-me um poema. Com o pedido de divulgação. Quis ele, entendeu ele, fazer sentir o seu sentir a Lurdes Mutola. E, eu, para lhe poder satisfazer o gosto e o gesto, mais não posso, porque mais não posso mesmo, do que ceder-lhe este meu espaço semanal. Faço com prazer e com gosto. E, faço-o num momento em que a Cidade da Beira comemora os 97 anos da sua elevação a cidade. Uma cidade quase centenária e que bem podia, e que bem pode guardar para todo o sempre o nome do falecido pai deste meu amigo. Como referência no jornalismo de antes da independência. O nome de Gouveia Lemos. Numa rua, numa praça, sei pouco eu onde. Creio, posso crer que, entre alguns outros, o Ricardo Rangel e Doutor Domingos Arouca não estarão em desacordo comigo. E, como o espaço para mais não dá, aqui fica o poema de Gouveia Lemos para Lurdes Mutola.

Maria Mutola
Hoje não trouxeste p'ra casa
a medalha que tu sempre nos habituastea
crer,
ser somente tua,
e de mais ninguém.

Se hoje estamos tristes,
não é por nós,
que tantas felicidades já nos destes.

Hoje se choramos é por ti.
São lágrimas de alegria incontida,
orgulho de ser parte de ti.

Quando debaixo de teus passos
a Terra-Mãe treme,
nos nossos corações
rufam os tambores e as
marimbas de Zavala,
ao ritimo das batidas de
teu coração terno e quente.

Quantas vezes vimos
na tua pele
escorregarem riachos
que fizeram transformar os rios
Revuma, Limpopo, Zambeze
e Incomáti,
num só rio.
Cheio do suor de seu povo irmão.

Quando voas
feito gazela na Savana,
nas tuas asas levas contigo
os nossos sonhos,
de ser irmão e irmã,
de uma filha da dignidade e humildade
da grande Mulher
que você sempre será para nós.

Não foi á toa que o Tio Zé Craveirinha
apostou em ti.
Ele sabia que atrás dessas pernas
veloz
eshavia um coração que faria seu povo
pulsar no mesmo ritimo.

Por isso não fiques triste.
Afinal o que é só uma medalha de Ouro
se comparado ao que você já fez por nós?
Tu plantaste a semente da esperança
nos nosos corações,e tal como ela,
estarás para sempre
correndo mundo a fora...
muito depois de nós já não estarmos
aqui.
Tu escreveste História!

Kanimabo maningue!
Maria Mutola
Uma
Mulher Moçambicana!

domingo, agosto 22, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 22 de Agosto de 2004


antes e depois

Luís David


o combate ao crime organizado é um combate desigual


Nos últimos anos, foram muitos os casos de droga detectados no país. Referimo-nos, bem entendido, a casos relacionados com fábricas de produção. Com contentores em trânsito. Também, mais recentemente, com os chamados “correios”. Que, normalmente, viajam de avião e transportam o produto no estômago. Maputo, Matola, Cabo Delgado, Inhambane, outra vez Maputo, são nomes conhecidos dos traficantes. Também das Polícias. Alguns dos traficantes terão sido descobertos e detidos. De entre esses, uns tantos julgados. Outros, libertos em condições que permanecem pouco claras, mais outros de quem nunca mais se ouviu falar do paradeiro. Ao certo, de traficantes, transportadores, fabricantes, “correios”, a memória guarda imagem nenhuma. Porque nunca lhe foi dada imagem alguma a registar. O que sabemos, a única coisa que nos dizem, é que foi encontrado um contentor com droga, descoberta uma fábrica de mandrax, detido um “correio”. Mas, sempre sem rosto, raramente com nome. Daí, talvez, quase de certeza, a esta nossa insensibilidade perante questões relacionadas com a droga. Com o tráfico e a produção em território nacional. Porque, parece ser essa a sensibilidade, assunto de droga é assunto para esquecer. E, o mais depressa possível. Não é assunto para investigar até às últimas consequências. Para esclarecer.



Foi noticiado esta semana, em Maputo, que a polícia sul-africana apreendeu um contentor com “methaqualone”. Um produto utilizado na produção de comprimidos de “ mandrax” . E, que esse contentor tinha como destino Cabo Delgado. Ao que parece, ao que foi dito posteriormente, o proprietário era um conhecido empresário de Nampula. E, aí temos, de novo, o nome de Nampula a ser referenciado nas rotas no crime organizado. Mas, este até pode ser um aspecto secundário. A questão de fundo, a questão principal, está em saber a quem era destinado o contentor. Porque o contentor tinha um destinatário, tinha uma pessoa ou uma empresa a quem era destinado. Mas, todos o sabemos, os contentores não têm pernas nem meios próprios para saírem dos barcos. Nem dos portos. Menos ainda inteligência, mesmo que artificial, para procurarem os destinatários, os donos. Então, alguém deveria ir procurar saber onde estava e levantar ou reencaminhar o tal contentor. Tal não aconteceu por a polícia da África do Sul o ter interceptado no Porto de Durban. Porquê, qual o motivo que evitou uma operação conjunta à chegada ao destino, é matéria que compete esclarecer às polícias dos dois países. Sabendo-se que a droga encontrada no contentor vale um bilião de randes, a nós satisfaz-nos uma resposta bem mais simples. Clara e concreta. Para dizer a quem se destinava o contentor. Enquanto isso não acontecer – e esperamos que aconteça em breve – é pura ilusão falar em combate ao crime organizado. Apesar de estarmos conscientes que o combate ao crime organizado é um combate desigual.

domingo, agosto 15, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 15 de Agosto, 2004



antes e depois

Luís David

utilizem de outra forma o dinheiro dos nossos impostos


Sabemos todos que o Orçamento Geral do Estado ainda é dependente da ajuda externa. Em significativa percentagem. Também sabemos, todos, que o Governo tem uma elevada dívida interna. Dívida esta resultante da sua atitude em relação às políticas impostas pelo FMI. De uma atitude concordante. Da atitude de fazer muitos, através do agravamento dos impostos, pagar as dívidas contraídas por poucos. De fazer recair sobre os contribuintes votantes o ónus de algumas fraudes. E de não permitir a falência de certos bancos. Trata-se, naturalmente, de uma política discutível. Como discutíveis são todas as políticas. O que não é discutível, por não fazer sentido e não ter qualquer lógica, é a afirmação, tantas vezes repetida, sem que a repetição a transforme em verdade, de que era necessário defender os pequenos depositantes. No contexto da dívida interna, Moçambique não constitui inovação. Também não é achado arqueológico. O que se passa, hoje, no nosso país, é uma simples repetição, uma simples cópia, a papel químico, do que tem vindo a acontecer em muitos outros. Castrados da capacidade e da vontade – sobretudo da vontade – de se assumirem como tal. O resto, tudo o resto, é música mal tocada, é música desafinada. Para fazer boi dormir.


Nos últimos tempos, temos assistido a muitas, a mais do que muitas, formas menos claras, menos criteriosas, de gestão de dinheiro público. De dinheiro do erário público. De dinheiro que vai parar aos cofres do Estado através dos impostos que pagamos. Primeiro, foi o dinheiro gasto pelas mais diversas instituições do Estado em anúncios necrológicos. A anunciar e a expressar dor pela morte de familiares de dirigentes do Estado. E que, ao que podemos ver, contínua. Ora, se um dirigente do Estado pretende expressar os seus sentimentos, pelo passamento de alguém que lhe é querido ou era das suas relações, que o faça com o dinheiro que é seu. O dinheiro do Estado, o dinheiro do Orçamento do Estado, é para outros fins. Assim o entendemos, assim muitos o entendem. Dentro das mesma linha de pensamento, parece estranho o aparecimento, em diferentes jornais, de discursos de dirigentes do Estado. Proferidos nas mais diversas ocasiões. Publicados e pagos sob a forma de publicidade. O exemplo mais recente é o que nos está a ser dado pelo Ministério da Educação. Talvez um mau exemplo. Discurso, resolução, comunicado final de uma reunião, já viu letra de imprensa em tudo quanto é jornal. Acompanhados de farta ilustração, ocupando várias páginas de cada periódico. Ora, considerando que os principais jornais do país apenas chegam, se chegam e quando chegam, às capitais provinciais, estamos perante um exercício inútil e pateta. Um exercício que não visa transmitir conhecimento, decisões e sapiência a muitos mas, apenas, dizer aqui estou eu. Uma estranha forma de olhar para o umbigo, de satisfazer a vaidade pessoal, de alimentar o ego. Uma estranha forma de fazer propaganda pessoal. Com o nosso dinheiro, com o dinheiro dos impostos que pagamos. Com o dinheiro que deveria ser utilizado na construção e apetrechamento de mais escolas. Por favor, utilizem bem, utilizem de outra forma o dinheiro dos nossos impostos.



terça-feira, agosto 10, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 8 de Agosto, 2004

antes e depois

Luís David

Chegou o tempo de mudar mais do que as moscas

Parece estar a crescer, de forma assustadora, o número de pessoas que tomam os seus desejos por verdades. Por verdades absolutas. Embora possam ser, no seu todo, apenas não verdades Vai daí, tentam, de forma corajosa mas desastrada, talvez desastrosa, convencer-nos de que. Há dias, não muitos, alguém parecia realizado ao poder escrever, ao dar-se o direito de escrever que, depois que a tal freira de nacionalidade brasileira havia saído de Moçambique não mais se havia falado em tráfico de órgãos humanos. Em boa verdade, convenhamos que sim. Em termos de lógica, poderemos consentir que sim. Mas, este consentir que sim, num determinado momento ou até um determinado momento, em nada invalida que possa ter havido mortes de crianças e tráfico dos seus órgãos num tempo anterior. E terá havido. E, este terá havido não resulta de qualquer opinião pessoal, de desejo pessoal. Resulta do posicionamento do procurador-geral República, esta semana tornado público, segundo o qual o relatório final não será divulgado por haver pessoas incriminadas na prática de tais actos. Quem são essas pessoas, continua a constituir, portanto, a questão de fundo. É mistério. Ou segredo bem guardado, Embora se possa presumir que não sejam os camponeses que residem na zona. Esses camponeses, como todos bem sabemos, não tem capacidade para criar galinhas. Não por não saberem como se podem criar galinhas. Mas, isso sim, por não saberem movimentar-se pelas vias escusas que os estrangeiros parecem percorrer, com a maior das facilidades, para conseguirem dinheiro do Estado moçambicanos. Dinheiro dos nossos impostos.

O Conselho Regulador de Águas decidiu, esta semana, ratificar um acordo de entendimento firmado entre a Empresa Águas de Moçambique e a Associação de Moradores da Cidade de Maputo. Cuja finalidade é, como vinha sendo solicitado, distribuir por cada condómino, o custo da água consumida nas áreas comuns. Significa isto que, daqui por diante, o morador de uma flat, de um qualquer prédio, irá pagar, para além da água que consome na sua residência, a parte que é seu dever pagar, gasta nas áreas comuns. Parece simples. Parece simples de entende que assim seja, que assim seja feito. Mais: É fácil de entender que assim deva ser. Mas, não entendem assim, não entendem de igual forma, não possuem qualquer capacidade para entender, menos ainda capacidade de diálogo, os “saloios” que estão a gerir a Electricidade de Maputo a nível da cidade de Maputo. E, o termo “saloios” tem aqui o exacto significado com que foi utilizado num recente e mediático julgamento. Por outras palavras, querendo ser breve, querendo ser breve curto e bruto, a única coisa que mudou, ao longo deste processo, desta luta de anos em defesa de interesses moçambicanos, a única coisa que poderá ter mudado, se é que mudou, foram as moscas. É tempo de se dizer, basta. Chegou o tempo de mudar mais do que as moscas.

segunda-feira, agosto 02, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 1 de Agosto, 2004

antes e depois

Luís David


pensar e entender Moçambique

Durante anos, muitos, e até tempos recentes, vivemos uma situação conturbada na cidade de Maputo. E, isto, porque nos tendo sido dito que o principal problema que era a não recolha do lixo haveria de ser resolvido, e não foi, como outros, mais graves e de mais difícil solução foram criados. Artificialmente. É que, tendo sido, até certa data, a cidade de Maputo, uma cidade cosmopolita, deixou de o ser em certo momento. Claramente, Maputo começou a ser ruralizada. Maputo, começou a ser uma cidade cada dia menos urbana e, cada dia, mais rural. Não aconteceu ser Xipamanine, Mafalala ou Malanga, os seus residentes, a terem melhores condições de vida. O que aconteceu, sim, foi os residentes em bairros outros, considerados “chiques”, terem sido confrontados com iguais problemas. Principalmente construções ilegais, ocupação selvagem de espaços públicos por interesses privados, particulares, privados. A alienação de espaços públicos, que eram, ou deviam ser considerados como tal, a interesses privados menos claros. Como foi o que se passou no que respeita a muitas bombas de gasolina. Ás que foram e às que não foram a instalar-se onde pretendiam instalar-se. Diga-se, em abono da verdade, que poucas foram as vozes que se levantaram, então, contra esta ocupação selvagem de muitos dos terrenos situados nas zonas mais nobres da capital do país. Por serem zonas verdes. Por serem zonas arborizadas. Por serem espaços verdes, por excelência. E que, como tal, devem ser conservados. Custe o que custar. Contra todos os interesses privados.


Estamos a assistir, nos últimos tempos, a uma tentativa de manipulação da opinião pública, a nível da cidade de Maputo, pouco comum. Está a tentar dizer-se, está a dizer-se, claramente, que quem construiu ilegalmente, quem ocupou ilegalmente espaço público, deve ter oportunidade para legalizar o ilegal. Mais do que isso, está a dizer-se que, quando o Conselho Municipal aplica Posturas e Leis em vigor, deve ser conivente com os violadores, com os vigaristas, com os violadores da Lei. Não. Não é possível que tenhamos chegado a este ponto de degradação moral e intelectual. Não é possível que cheguemos a este ponto sem que nos interroguemos sobre o que sucedeu, afinal, com esse prédio de cinco andares que ruiu em plena construção. Quem foram os responsáveis pela derrocada. E, o que lhes aconteceu. Ao que parece, nada. Apesar de ter havido, felizmente, apenas um morto. Talvez, porque, afinal, em termos da nossa macroeconomia, mais um morto ou menos um vivo, conta nada. Como conta nada, para alguns, apenas para alguns, o posicionamento e a atitude dos gestores da Electricidade de Maputo, a nível da cidade de Maputo .Apenas e unicamente a nível da cidade de Maputo. Sobre o pagamento da energia das áreas comuns dos condomínios. Quer dizer, é isso que nos estão a dizer, Maputo é diferente de todo o resto do país. A Lei que se aplica em Maputo, não é a Lei que se aplica em todo o país. Por favor livrem-nos destes senhores . O país só pode contar com pessoas que saibam pensar e entender Moçambique.

domingo, julho 18, 2004

Publicando em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 18 de Julho, 2004
 
antes e depois
 
Luís David
 
 
vigarista é sempre vigarista

 
 
Todos nós sabemos, todos nós conhecemos a história. Por este país fora, há diversos e muitos produtos a ser vendidos que não possuem um mínimo de qualidade. Outros, estão fora de prazo. Foram comprados ao desbarato em países vizinhos ou na Europa. Mas, aqui chegados, a Moçambique, são vendidos por alto preço. Como produto de alta qualidade. A par destes, dos importados, começa também a aparecer o mau produto moçambicano. Que é vendido como se tivesse qualidade. Como se fosse de alta qualidade. Caso paradigmático, é o da água engarrafada. Por certo, por haver alguém que descobriu que, vender água engarrafada, mesmo que seja água igual àquela que sai da torneira é como possuir uma mina de ouro. Outros, alguns outros, ditos novos empresários, terão descoberto que abrir um furo seria bem mais lucrativo. Vai daí, não precisaram pensar duas vezes. Abriram mesmo o furo. Em terreno, agora, ocupado por gado. Bem anda e bem se esforça o Ministério da Saúde. Para colocar fim a estes desmandos. Para defender os direitos do consumidor e a Saúde Pública. Mas, ao que parece, até ao momento sem grande êxito. Ou com relativo sucesso. É que, em certos casos, e pode ser o presente, não basta a multa. É necessário ir mais longe. É necessário mandar pôr fim à actividade. Por mais elevado que possa ter sido o investimento. A defesa da saúde não se compadece com medidas tímidas. Com meias medidas. O mesmo é dizer que mandar encerrar todas essas linhas de engarrafamento de água é um dever.
 
 
Há coisas, há atitudes e há comportamentos, que não podem ser atribuídas a pessoas de bom senso. Que não podem ser atribuídas a pessoas que estejam no seu perfeito juízo. Que não podem ser atribuídas a pessoas que se guiam, nas suas actividades empresariais, como se exige, por um código de honestidade. É que, ganhar dinheiro honestamente é uma coisa. Tentar enganar para roubar, é outra. E bem diversa. È que, no primeiro caso, está o empresário honesto. Que investe, trabalha, paga impostos e procura ter o seu lucro. No segundo, está o vigarista e o trambique. Aquele que nada produz e muitas vezes nada investe de seu. E, impostos também não paga. Mas que se diz, de si próprio, ser empresário. Mesmo quando, para evocar essa qualidade, teve de falsificar assinaturas de dirigente do Estado. Não importa a que nível. A verdade, é que falsificou. Onde chegámos!!!. Chegámos, exactamente, ao ponto de ter de saber uma coisa muito simples e muito clara. Continuamos numa guerra de comunicados, estilo agora dizes tu, agora digo eu,  ou foram tomadas medidas concretas. E, as medidas concretas e imediatas, entre outras, é mandar selar a tal linha de engarrafamento de água. É mandar retirar do mercado toda a água por si engarrafada. É proibir esta suposta empresa, e outras,  de continuarem a colocar água no mercado. E é, levá-la a Tribunal por crime de falsificação de assinatura de dirigente do Estado. E, de crime contra a Saúde Pública. Tenhamos a coragem de não nos deixar amedrontar pelos vigaristas. Sendo verdade que vigarista é sempre vigarista. 
  
  
 

domingo, julho 11, 2004

Publiado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 11 de Julho, 2004

antes e depois

Luís David


Cuidado


Já lá vão muitos anos, muitos mesmo, o número de funcionários era dois. Depois, passou a um. A capacidade e o espaço físico para atender o público consumidor foi reduzido. Em cinquenta por cento. Depois, alguém terá pensado que esta coisa de funcionário recebedor e consumidor poderem olhar-se de frente, não seria muito higiénico. Vai daí, terá imaginado que colocar um vidro entre ambos seria a fórmula ideal para evitar a passagem de bacilos. E, logo, cortar pela raiz qualquer hipótese de contaminação via oral. Só que, hoje, passados que são muitos anos, lá permanecem as ripas de madeira de pinho. Toscas e mal ajeitadas. O vidro, talvez por ser caro, nunca chegou a ser colocado. Também é de há muitos anos, a memória de as facturas apresentadas a pagamento receberem certificação mecânica. Depois, as máquinas avariaram, foram avariando. Em sua substituição, registou-se um recuo para o milénio anterior. Isso mesmo. Um ou uma funcionária diligente, mas, repetidamente, sonolentos e, por certo, muitas vezes cansados, lá vão manuscrevendo os recibos. Com a consequente perda de tempo para quem vai pagar. Trocos, isso é coisa que não existe. Quem leva dinheiro trocado paga e sai. Quem não leva, espera, em bicha, como nos tempos do racionamento, pelos trocados de alguém. Naturalmente, qualquer semelhança entre o que fica descrito e o que se passa nos postos de cobrança da empresa Águas de Moçambique é pura realidade. Daí, aqui chegados, as saudades que guardamos do tempo em que o engenheiro Miguel Alves dirigia a Empresa. Do tempo em que Empresa se escrevia com letra maiúscula.


Na sua edição de 6 do corrente mês, o jornal “Notícias” abre a primeira página com um texto a sete colunas (o máximo da largura) e título a cinco. E isto para nos informar que na cidade de Maputo, Condóminos assinam contratos com “Águas”. E, quantos assinaram? As primeiras linhas da prosa, presumivelmente encomendada e, como tal, paga, são esclarecedoras: Pelo menos dois condomínios da capital já formalizaram os seus contratos de fornecimento de água aos espaços comuns dos seus prédios junto à empresa Águas de Moçambique (AdeM). Que maravilha. Que pérola jornalística. Verdadeiramente digna de figurar no livro dos recordes da burrice e da estupidez. Não nos esqueçamos que estamos numa cidade com cerca de dois milhões de habitantes. E com muitas dezenas, talvez centenas, de edifícios que a APIE diz, sem conseguir provar, que são condomínios. Mas, não nos deixemos distrair. Um director da tal empresa, que por questão de respeito evito citar o nome, disse e o matutino faz-se eco: São condições indispensáveis para a celebração do contrato (...) uma factura antiga para a localização do cadastro, uma carta da APIE que formaliza a transferência de responsabilidades para o condomínio, uma carta da comissão de moradores e fotocópia autenticada da pessoa (sic) responsável pela assinatura. Ora, podendo parecer que estas exigências são exageradas, podem não o ser. Por certo, nem o são. É que fosse eu gestor da Águas de Maputo e, como tal, tivesse um vencimento mensal de muitos milhares de dólares norte-americanos, haveria de exigir muito mais. Para garantir que... Mesmo sem perceber nada de qualidade de água. Menos, ainda de gestão da empresa fornecedora do chamado “precioso líquido”. Haveria eu, como gestor e para minha defesa, de exigir que, para além do já dito, fosse obrigatório apresentar certidão de registo criminal, certificado de vacina contra a cólera, documento comprovativo de ter cortado as unhas dos pés e da vacina dos cães que, eventualmente, possa ter em casa. E, também, documento comprovativo de não ser portador de HIV/SIDA. A captação, a distribuição e venda de água é assunto demasiado sério. Para ser deixado ao critério de empresas estrangeiras. Geridas por interesses colonialistas. Cuidado.