terça-feira, outubro 12, 2004
antes e depois
Luís David
podem ter um grande significado
Conserva a EDM, na sua história recente, factos e acontecimentos de inegável valor, de grande importância. Na e para a vida de todos nós, também. Pode dizer-se, sem exagero, são muitos os exemplos de trabalho abnegado, de heroicidade até. Seria de todo injusto não recordar o esforço desenvolvido para levantar torres de transporte derrubadas durante a guerra no sul do país. Seria de todo injusto não recordar o esforço desenvolvido para fornecer energia a Maputo, por meios alternativos, mesmo que parcialmente. Seria de todo injusto não recordar os muitos trabalhadores da EDM que se afoitaram em zonas minadas. E que, por isso, pagaram elevado preço. Pagaram o preço de rebentar uma mina. Certo é, que o fim da guerra veio colocar outros e novos desafios. O maior dos quais consiste, sem dúvida, na electrificação do país. É neste contexto, parece ser neste contexto, que a EDM mergulha, deliciada, no liberalismo económico. Mais. Atreve-se, mesmo, a enveredar pela via do capitalismo selvagem. E, aí, começa a sua desumanização. Mais grave, ainda. Renega, esforços, valores e vidas, perdidas no passado, para apostar numa via que sabe, ou devia saber, não ter futuro. Ou ter futuro mais do que duvidoso.
Recordar, aqui, o que tem sido o descalabro da gestão da EDM nos últimos anos é, no seu todo, um exercício inútil. Voltar a escrever sobre a forma como foi introduzida e é cobrada a taxa de recolha de lixo, sequer faz sentido. Porque ninguém age, ninguém quer saber quando se apontam ilegalidades. Mas, mesmo sabendo que assim é, que assim vai sendo, há factos mais recentes que não devem ser aceites como normais. Por exemplo, na minha zona, o prazo limite para o pagamento dos consumos de energia foi, durante muito tempo, o dia 10 de cada mês. Até Julho do corrente ano, assim foi. Depois, em Agosto, passou para o dia 5 e 25. Quer dizer, dois pagamentos num único mês. Já no mês de Setembro, o limite foi o dia 20. No mês em que estamos, vamos ter de pagar até ao próximo dia 15. Quer dizer, para quem possa não estar a perceber bem o que se passa, impera o caos e a desorganização na EDM. Com uma situação agravante. Quando são emitidas duas facturas num mês, como foi o caso de Agosto, são cobradas duas vezes a taxa de rádio e de recolha de lixo. Onde fica ou para onde vai este dinheiro cobrado ilegalmente, é questão que importa esclarecer. Por quem deve e tem poder para o fazer. Mas, tem mais em matéria de ilegalidade e da forma subtil utilizada pela EDM para extorquir dinheiro aos seus consumidores. A situação não é nova, há muito foi denunciada. Mas a vigarice continua. Estamos a falar dos tão publicitados credelec. Estes aparelhos, que para uns parece serem milagreiros e para outros milagrosos, comportam-se, mais coisa menos coisa, como as máquinas de casino, as conhecidas “caça-níqueis”. O lucro é sempre para o dono, o dono jamais perde. Primeiro, porque ninguém gosta de perder e, segundo, porque a máquina foi programada para ganhar sempre, foi programada para não perder. Pois, então, o dito credelec também está programado para que sempre que o consumidor compre energia pague a taxa para a RM. Sempre. Independentemente do valor da compra. Quem compra cem contos de energia, paga dez contos. Quem compra 500 ou mil contos, paga os mesmos dez contos. Quem compra energia três vezes por mês, pagas três vezes a taxa para a RM. Quem compra uma vez, paga uma vez. Questão última, é a de saber como a EDM controla esta cobrança, abusiva e ilegal, de taxas e como faz a sua entrega à RM. Ou se, simplesmente, faz uma entrega por estimativa. Possa perecer que não, em época de eleições estas pequenas coisas, estes pequenos esclarecimentos podem ter algum significado. E, se nos soubermos situar na nossa realidade, podem ter um grande significado.
segunda-feira, outubro 04, 2004
antes e depois
Luís David
a continuação da paz é possível
Assinala-se, amanhã, mais um aniversário da assinatura dos Acordos de Roma. É uma data que se junta a muitas outras da história recente de Moçambique. É uma data que significa paz. E que tem a particularidade de, no acontecimento que deu origem à comemoração, ter sido protagonizada por dois moçambicanos, ambos vivos. Um, Joaquim Chissano, que está prestes a deixar a Presidência da República. O outro, Afonso Dhlakama, candidato ao lugar que vai ficar vago. E, foi há poucos dias, quando procedeu à entrega dos documentos para a sua candidatura a Presidente da República, que o presidente da RENAMO fez questão de deixar claro que a paz será um dado adquirido. Irreversível, como todos desejamos. Disse, na ocasião, aceitar os resultados das próximas eleições, sejam quais venham a ser. Como teve palavras elogiosas para com o actual Governo dirigido pela FRELIMO. Mais, palavras de reconciliação. Ou, se assim o quisermos entender, uma postura de Estado. Esperemos, e façamos votos, para que as cerimónias do dia de amanhã confirmem, venham confirmar as previsões de hoje e garantir um futuro de paz. Ou a paz no futuro. O que podendo parecer não é, exactamente, a mesma coisa.
Com a assinatura dos Acordos de Roma, Moçambique entrou numa nova era. Criadas as condições para a paz, assumida a paz como um bem, foi possível caminhar no sentido da reconstrução e do progresso. Mesmo que relativo, mesmo que mitigado. Aspecto importante e fundamental, é o de ter passado a ser possível a circulação de pessoas e de bens por todo o país. Salvo raras excepções e em zonas bem definidas. Que bem podem, num futuro imediato deixar, também, de ser excepção. O que não impede o entusiasmo com que se fala no desenvolvimento do turismo. Uma indústria que, como todos sabemos, pode vir a ser importante fonte geradora de divisas. Motivo de preocupação é, isso sim, o registos de assaltos, com armas de fogo, a viaturas que circulam por estradas do Sul do país. Principalmente na Nacional 1 e 4. Hoje, informação que passa boca-a-boca ou enviada por correio electrónico, aponta locais dos assaltos, métodos utilizados pelos assaltantes, marca e cor das viaturas em que se fazem transportar. Por estranho que pareça, até ao momento, a Polícia de Trânsito não divulgou nenhum alerta, não emitiu nenhuma informação sobre cuidados a ter em zonas consideradas de circulação perigosa. E, já teve suficiente tempo para o fazer. Esperemos que não seja necessário a perda de vidas humanas para a tomada de medidas que situação aconselha. A paz, convenhamos, não é só a ausência da guerra. Muito menos poderá ser um processo unilateral. A paz só é possível se for um processo global. E, os últimos sinais indicam que, se todos quisermos, a continuação da paz é possível.
domingo, setembro 19, 2004
antes e depois
Luís David
o 25 de Setembro não está em questão.
De uma forma geral, a história que melhor conhecemos é a história que nos contaram na escola. E, é esta história que nos marca para toda a vida. Quer se trata da história do nosso, quer se trate da história de outros países. Ora, a história que conhecemos, a história que nos contam é, invariavelmente, a história dos vencedores, é uma história de vencedores. Todos sabemos, hoje, que nos Estados Unidos há uma história dos colonizadores e há uma história dos índios. Que na URSS foram publicadas sucessivas edições de manuais “corrigidos” em que os heróis de ontem são os renegados de hoje. Que em África existe a história dos brancos e a história dos negros. E, no que atrás fica escrito, sigo de perto o texto de apresentação de “Falsificações da História” , da autoria Marc Ferro, director de estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales. Onde se pode ler, também, que era urgente proceder a uma confrontação naquilo que essas histórias têm de real e de ilusório, antes de os poderes dominantes – Estados ou igrejas, interesses privados ou partidos políticos – nos apresentarem a todos, na era dos mass media, um passado falsificado, “ limpo”, manipulado, uniforme. Portando, convenhamos, se este é o momento de proceder à revisão da história recente de Moçambique, que assim se proceda. Mas que se encarregue os historiadores da tarefa.
Em texto publicado numa revista portuguesa e transcrito num semanário de Moçambique, Boaventura de Sousa Santos escreve sobre o livro “Uria Simango: Um Homem, uma Causa”. O autor do artigo, com o título “Moçambique por contar”, considera o livro perturbador. Mas, esquece de dizer para quem é que é perturbador. Depois de várias outras considerações, com base em factos que são públicos desde há muitos anos, o autor do referido artigo diz que, em suma, o livro “cheira” a verdade. E, este “cheira”, assim entre aspas, permite concluir que B.S.S. não tem a certeza sobre a verdade do livro. Sobre a verdade que o livro nos pretende transmitir. Em última análise, que não tem certeza absolutamente nenhuma. Ora, se não tem certeza nenhuma nem certeza sobre nada, está a partir de uma premissa falsa. Mais, está a reconhecer que partindo de uma premissa falsa pretende obter uma conclusão verdadeira. Ao propor a criação de uma Comissão de Verdade e de Reconciliação. O que não sendo, naturalmente, uma proposta impensada, uma proposta feita por um ignorante, pode permitir a conclusão de que se trata de uma proposta intelectualmente desonesta. Santo Agostinho, quando escreveu “Acerca da doutrina cristã”, foi bem mais prudente, foi bem mais cauteloso, foi bem mais reconciliador. Muitos, não terão lido os seus textos. Outros, podem ter lido e fazem por esquecer. Assim convém, para si próprios, no presente momento. Como convém não esquecer, para evitar ou espantar os abutres da história, que há factos que são inquestionáveis, que há datas que são inquestionáveis. Que não estão em discussão, nem são discutíveis. A primeira, é a do início da luta armada. A segunda, é a da assinatura dos Acordos de Lusaca. A terceira, é a da proclamação da independência nacional. E, esta trilogia de datas, que representam factos e acontecimentos muito concretos, goste quem gostar, não goste quem não gostar, está acima e para além de qualquer questionamento. Possa ou não um livro “cheirar” a verdade, a história de Moçambique não pode por isso, só por isso, ser revista. E nem pode isso, ser transformado, aproveitado, utilizado, como factor de desestabilização. De uma nação em processo de construção. Digamos, para eliminar dúvidas, que o 25 de Setembro não está em questão.
domingo, setembro 12, 2004
antes e depois
Luís David
fiquemos de olhos abertos
Dizer que nada está a ser feito para mudar a face de Maputo, seria tremenda injustiça. Dizer que tudo mudou, que tudo está diferente, seria elogio barato, bacoco. Seria, em última instância, uma mentira. Convenhamos que foram feitos grandes esforços de organização e financeiros na recolha do lixo e na limpeza da cidade. Concordemos que foi travada essa onda selvagem que permitiu a colocação dos mais aberrantes painéis publicitários em tudo quanto é espaço público. Muitos dos quais, já deviam, até, ter sido removidos, destruídos. Estamos, alguns de nós, de acordo com o trabalho desenvolvido no sentido de embargar construções ilegais ou que não obedeciam ao que tinha sido licenciado. E, aqui, quando digo que estamos de acordo alguns de nós é, precisamente, por já não haver unanimidade. Por se terem começado a fazer ouvir vozes discordantes. Vozes discordantes em defesa dos interesses, possivelmente corruptos, instalados. Vozes que nos tentam convencer que se os dirigentes de ontem cometeram ilegalidades, se se pautaram o seu mandato um uma conduta de irregularidade, os de hoje, os dirigentes de hoje, devem deixar tudo como está. Nada devem corrigir. Quer dizer, devem ser coniventes com a violação da Lei e das Posturas. Entendo que se está a tentar ir longe de mais. Que se está a tentar insinuar que, afinal, os desmandos praticados nas mais diferentes áreas de gestão da capital do país não foram tão graves como se pretende que tenham sido. Mas foram. E foram bem mais graves do que muitos possam imaginar.
A par dos citados e, eventualmente, de muitos outros aspectos positivos da presente governação da cidade de Maputo, há alguns aspectos negativos. Que importa, desde já começar a colocar. Com frontalidade. Assim, o combate aos chamados vendedores de esquina não se trava com medidas administrativas nem com o recurso a ameaças de intervenção da Polícia Municipal. Este é, no seu todo, um exercício inútil. Porque o fenómeno é, antes do mais, social. Logo, é necessário entender as suas causas. Depois, o gasto de dinheiro que está a ser feito com a pintura da sinalização horizontal em certas artérias, é um gasto inútil. Por melhor que seja a intenção, o que está a ser feito é repetir o que foi feito por ignorantes em termos de legislação rodoviária. Os sinais que estão a ser avivados, são sinais que devem ser violados. Como única forma de protecção de quem conduz e deseja não provocar acidentes de viação. Só um ignorante, ou um criminoso, pode ter mandado pintar os sinais que se encontram na Lenine, na Nyerere, na descida do viaduto, na zona da Escola Náutica. Entre muitas artérias da capital. Por fim, não se compreende, é difícil de compreender, como continua a haver tanta falta de capacidade para fiscalizar a reposição do pavimento quando determinadas empresas o partem para instalar cabos ou tubos. Com objectivos económicos, seus. Um exemplo, claro e recente: a Águas de Maputo abriu, mais uma, vala transversal na artéria de vai da Nyerere para o Clube Naval. E, dizemos, mais uma por, anteriormente, ter aberto várias outras. Que nunca tapou. Mas, convenhamos, que nunca ninguém terá obrigado a tapar. Talvez por aquilo a que chamámos de interesses instalados. Todos sabemos, fazem-se fortunas pessoais, empresas há que apresentam lucros fabulosos pelo fechar de olhos a estas “pequenas” coisas. Mas, talvez seja altura de abrirmos os olhos, antes que nos venham impor mais taxas. Para isto e para aquilo. Para pagar o desleixo de uns e a corrupção de outros. Então, fiquemos de olhos abertos.
terça-feira, setembro 07, 2004
antes e depois
Luís David
um exercício inútil
Parece estarem a registar-se, nos últimos tempos, múltiplas tentativas de rever e de branquear a história recente de Moçambique. Recente, de umas poucas de décadas. De há três/quatro décadas, que o conhecimento e a memória de muitos de conserva vivos factos e acontecimentos. Ora, se esse rever é, sem si próprio, um exercício positivo por poder trazer a público factos novos ou uma interpretação diferentes de factos antigos, o mesmo não é possível dizer do branquear. E, o que estamos a assistir, hoje, é a sucessivas tentativas de branquear a história recente. A tentativas para tentar demonstrar que o colonialismo não foi tão mau como alguns pretendem dizer que tenha sido. Ou, e parece ser esta questão de fundo, que o colonialismo português não foi tão mau como outros colonialismos. Ora, muito claramente, não existiram sistemas de colonização bons e maus. Na sua essência, e pelos objectivos que perseguiam, todos os sistemas de colonização foram maus em si próprios. Isto, obviamente, do ponto de vista do colonizado. A quem pouco importava se a bandeira que tinha de respeitar era inglesa ou francesa, espanhola ou portuguesa, italiana ou alemã. O trabalho forçado, a palmatória, a escravatura foram, durante décadas, processos comuns. Digamos, então e para que fique claro em certas cabeças, que o colonialismo em momento algum foi melhor de que outros. Pelo contrário. Poderá ter sido bem pior, a partir do momento em que passou a reprimir, através da PIDE e da PIDE/DGS, toda e qualquer tentativa de independência. Em que começou a matar, a massacrar e a assassinar. Em Moçambique, como em Angola, como na Guiné-Bissau. E, contra factos não existem argumentos.
Há, por aí, quem nos esteja a tentar convencer que a construção da Barragem de Cahora Bassa foi uma coisa muito boa para Moçambique, para os moçambicanos. E, seguindo esta linha de pensamento, que devemos estar, todos nós, agradecidos ao colonialismo. Que devemos pagar dívidas, que devemos pagar as mordomias de gestores. Que devemos, inclusive, pagar os custos resultantes da destruição das torres de transporte de energia para a África do Sul. Só que, Cahora Bassa não era isto, nunca foi isto, que, hoje, nos tentam fazer acreditar que foi. Cahora Bassa tinha e teve, fundamentalmente, objectivos de estratégia militar. A Barragem de Cahora Bassa não foi construída na perspectiva de trazer quaisquer benefícios ou melhoria nas condições de vida dos moçambicanos. A este propósito e para dissipar dúvidas, se é que ainda existem, creio ser importante transcrever o que escreveu Dalila Cabrita Mateus na sua tese de doutoramento. O livro, tem como título “A PIDE/DGS na guerra colonial -1961-1974”. E diz, na página 362: Em princípios de 1971, Ian Smith, acompanhado pelos chefes dos serviços de informações militares e por um intérpetre, visitou Moçambique para conversações com o General Kaúlza de Arriaga, então no quartel-general de Nampula. Kaúlza vangloriou-se dos êxitos do Exército Português durante a Operação Nó Górdio, a maior operação já realizada contra a FRELIMO. Falou dos planos para o vale do Zambeze, onde se previa a fixação de um milhão de colonos vindos da Metrópole. E afirmou que a Barragem de Cahora Bassa, uma vez construída, seria uma barreira intransponível para os guerrilheiros que tentavam penetrar no distrito de Tete, através do Zambeze. Concluindo: Rever a história é um exercício útil. Pedagógico e didáctico. Tentar mentir sobre a história é um exercício inútil.
domingo, agosto 29, 2004
antes e depois
Luís David
de Gouveia Lemos para Lurdes Mutola
De longe, de terras lá da Europa, o António Maria Gouveia Lemos enviou-me um poema. Com o pedido de divulgação. Quis ele, entendeu ele, fazer sentir o seu sentir a Lurdes Mutola. E, eu, para lhe poder satisfazer o gosto e o gesto, mais não posso, porque mais não posso mesmo, do que ceder-lhe este meu espaço semanal. Faço com prazer e com gosto. E, faço-o num momento em que a Cidade da Beira comemora os 97 anos da sua elevação a cidade. Uma cidade quase centenária e que bem podia, e que bem pode guardar para todo o sempre o nome do falecido pai deste meu amigo. Como referência no jornalismo de antes da independência. O nome de Gouveia Lemos. Numa rua, numa praça, sei pouco eu onde. Creio, posso crer que, entre alguns outros, o Ricardo Rangel e Doutor Domingos Arouca não estarão em desacordo comigo. E, como o espaço para mais não dá, aqui fica o poema de Gouveia Lemos para Lurdes Mutola.
Maria Mutola
Hoje não trouxeste p'ra casa
a medalha que tu sempre nos habituastea
crer,
ser somente tua,
e de mais ninguém.
Se hoje estamos tristes,
não é por nós,
que tantas felicidades já nos destes.
Hoje se choramos é por ti.
São lágrimas de alegria incontida,
orgulho de ser parte de ti.
Quando debaixo de teus passos
a Terra-Mãe treme,
nos nossos corações
rufam os tambores e as
marimbas de Zavala,
ao ritimo das batidas de
teu coração terno e quente.
Quantas vezes vimos
na tua pele
escorregarem riachos
que fizeram transformar os rios
Revuma, Limpopo, Zambeze
e Incomáti,
num só rio.
Cheio do suor de seu povo irmão.
Quando voas
feito gazela na Savana,
nas tuas asas levas contigo
os nossos sonhos,
de ser irmão e irmã,
de uma filha da dignidade e humildade
da grande Mulher
que você sempre será para nós.
Não foi á toa que o Tio Zé Craveirinha
apostou em ti.
Ele sabia que atrás dessas pernas
veloz
eshavia um coração que faria seu povo
pulsar no mesmo ritimo.
Por isso não fiques triste.
Afinal o que é só uma medalha de Ouro
se comparado ao que você já fez por nós?
Tu plantaste a semente da esperança
nos nosos corações,e tal como ela,
estarás para sempre
correndo mundo a fora...
muito depois de nós já não estarmos
aqui.
Tu escreveste História!
Kanimabo maningue!
Maria Mutola
Uma
Mulher Moçambicana!
domingo, agosto 22, 2004
antes e depois
Luís David
o combate ao crime organizado é um combate desigual
Nos últimos anos, foram muitos os casos de droga detectados no país. Referimo-nos, bem entendido, a casos relacionados com fábricas de produção. Com contentores em trânsito. Também, mais recentemente, com os chamados “correios”. Que, normalmente, viajam de avião e transportam o produto no estômago. Maputo, Matola, Cabo Delgado, Inhambane, outra vez Maputo, são nomes conhecidos dos traficantes. Também das Polícias. Alguns dos traficantes terão sido descobertos e detidos. De entre esses, uns tantos julgados. Outros, libertos em condições que permanecem pouco claras, mais outros de quem nunca mais se ouviu falar do paradeiro. Ao certo, de traficantes, transportadores, fabricantes, “correios”, a memória guarda imagem nenhuma. Porque nunca lhe foi dada imagem alguma a registar. O que sabemos, a única coisa que nos dizem, é que foi encontrado um contentor com droga, descoberta uma fábrica de mandrax, detido um “correio”. Mas, sempre sem rosto, raramente com nome. Daí, talvez, quase de certeza, a esta nossa insensibilidade perante questões relacionadas com a droga. Com o tráfico e a produção em território nacional. Porque, parece ser essa a sensibilidade, assunto de droga é assunto para esquecer. E, o mais depressa possível. Não é assunto para investigar até às últimas consequências. Para esclarecer.
Foi noticiado esta semana, em Maputo, que a polícia sul-africana apreendeu um contentor com “methaqualone”. Um produto utilizado na produção de comprimidos de “ mandrax” . E, que esse contentor tinha como destino Cabo Delgado. Ao que parece, ao que foi dito posteriormente, o proprietário era um conhecido empresário de Nampula. E, aí temos, de novo, o nome de Nampula a ser referenciado nas rotas no crime organizado. Mas, este até pode ser um aspecto secundário. A questão de fundo, a questão principal, está em saber a quem era destinado o contentor. Porque o contentor tinha um destinatário, tinha uma pessoa ou uma empresa a quem era destinado. Mas, todos o sabemos, os contentores não têm pernas nem meios próprios para saírem dos barcos. Nem dos portos. Menos ainda inteligência, mesmo que artificial, para procurarem os destinatários, os donos. Então, alguém deveria ir procurar saber onde estava e levantar ou reencaminhar o tal contentor. Tal não aconteceu por a polícia da África do Sul o ter interceptado no Porto de Durban. Porquê, qual o motivo que evitou uma operação conjunta à chegada ao destino, é matéria que compete esclarecer às polícias dos dois países. Sabendo-se que a droga encontrada no contentor vale um bilião de randes, a nós satisfaz-nos uma resposta bem mais simples. Clara e concreta. Para dizer a quem se destinava o contentor. Enquanto isso não acontecer – e esperamos que aconteça em breve – é pura ilusão falar em combate ao crime organizado. Apesar de estarmos conscientes que o combate ao crime organizado é um combate desigual.
domingo, agosto 15, 2004
antes e depois
Luís David
utilizem de outra forma o dinheiro dos nossos impostos
Sabemos todos que o Orçamento Geral do Estado ainda é dependente da ajuda externa. Em significativa percentagem. Também sabemos, todos, que o Governo tem uma elevada dívida interna. Dívida esta resultante da sua atitude em relação às políticas impostas pelo FMI. De uma atitude concordante. Da atitude de fazer muitos, através do agravamento dos impostos, pagar as dívidas contraídas por poucos. De fazer recair sobre os contribuintes votantes o ónus de algumas fraudes. E de não permitir a falência de certos bancos. Trata-se, naturalmente, de uma política discutível. Como discutíveis são todas as políticas. O que não é discutível, por não fazer sentido e não ter qualquer lógica, é a afirmação, tantas vezes repetida, sem que a repetição a transforme em verdade, de que era necessário defender os pequenos depositantes. No contexto da dívida interna, Moçambique não constitui inovação. Também não é achado arqueológico. O que se passa, hoje, no nosso país, é uma simples repetição, uma simples cópia, a papel químico, do que tem vindo a acontecer em muitos outros. Castrados da capacidade e da vontade – sobretudo da vontade – de se assumirem como tal. O resto, tudo o resto, é música mal tocada, é música desafinada. Para fazer boi dormir.
Nos últimos tempos, temos assistido a muitas, a mais do que muitas, formas menos claras, menos criteriosas, de gestão de dinheiro público. De dinheiro do erário público. De dinheiro que vai parar aos cofres do Estado através dos impostos que pagamos. Primeiro, foi o dinheiro gasto pelas mais diversas instituições do Estado em anúncios necrológicos. A anunciar e a expressar dor pela morte de familiares de dirigentes do Estado. E que, ao que podemos ver, contínua. Ora, se um dirigente do Estado pretende expressar os seus sentimentos, pelo passamento de alguém que lhe é querido ou era das suas relações, que o faça com o dinheiro que é seu. O dinheiro do Estado, o dinheiro do Orçamento do Estado, é para outros fins. Assim o entendemos, assim muitos o entendem. Dentro das mesma linha de pensamento, parece estranho o aparecimento, em diferentes jornais, de discursos de dirigentes do Estado. Proferidos nas mais diversas ocasiões. Publicados e pagos sob a forma de publicidade. O exemplo mais recente é o que nos está a ser dado pelo Ministério da Educação. Talvez um mau exemplo. Discurso, resolução, comunicado final de uma reunião, já viu letra de imprensa em tudo quanto é jornal. Acompanhados de farta ilustração, ocupando várias páginas de cada periódico. Ora, considerando que os principais jornais do país apenas chegam, se chegam e quando chegam, às capitais provinciais, estamos perante um exercício inútil e pateta. Um exercício que não visa transmitir conhecimento, decisões e sapiência a muitos mas, apenas, dizer aqui estou eu. Uma estranha forma de olhar para o umbigo, de satisfazer a vaidade pessoal, de alimentar o ego. Uma estranha forma de fazer propaganda pessoal. Com o nosso dinheiro, com o dinheiro dos impostos que pagamos. Com o dinheiro que deveria ser utilizado na construção e apetrechamento de mais escolas. Por favor, utilizem bem, utilizem de outra forma o dinheiro dos nossos impostos.
terça-feira, agosto 10, 2004
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 8 de Agosto, 2004
antes e depois
Luís David
Chegou o tempo de mudar mais do que as moscas
Parece estar a crescer, de forma assustadora, o número de pessoas que tomam os seus desejos por verdades. Por verdades absolutas. Embora possam ser, no seu todo, apenas não verdades Vai daí, tentam, de forma corajosa mas desastrada, talvez desastrosa, convencer-nos de que. Há dias, não muitos, alguém parecia realizado ao poder escrever, ao dar-se o direito de escrever que, depois que a tal freira de nacionalidade brasileira havia saído de Moçambique não mais se havia falado em tráfico de órgãos humanos. Em boa verdade, convenhamos que sim. Em termos de lógica, poderemos consentir que sim. Mas, este consentir que sim, num determinado momento ou até um determinado momento, em nada invalida que possa ter havido mortes de crianças e tráfico dos seus órgãos num tempo anterior. E terá havido. E, este terá havido não resulta de qualquer opinião pessoal, de desejo pessoal. Resulta do posicionamento do procurador-geral República, esta semana tornado público, segundo o qual o relatório final não será divulgado por haver pessoas incriminadas na prática de tais actos. Quem são essas pessoas, continua a constituir, portanto, a questão de fundo. É mistério. Ou segredo bem guardado, Embora se possa presumir que não sejam os camponeses que residem na zona. Esses camponeses, como todos bem sabemos, não tem capacidade para criar galinhas. Não por não saberem como se podem criar galinhas. Mas, isso sim, por não saberem movimentar-se pelas vias escusas que os estrangeiros parecem percorrer, com a maior das facilidades, para conseguirem dinheiro do Estado moçambicanos. Dinheiro dos nossos impostos.
O Conselho Regulador de Águas decidiu, esta semana, ratificar um acordo de entendimento firmado entre a Empresa Águas de Moçambique e a Associação de Moradores da Cidade de Maputo. Cuja finalidade é, como vinha sendo solicitado, distribuir por cada condómino, o custo da água consumida nas áreas comuns. Significa isto que, daqui por diante, o morador de uma flat, de um qualquer prédio, irá pagar, para além da água que consome na sua residência, a parte que é seu dever pagar, gasta nas áreas comuns. Parece simples. Parece simples de entende que assim seja, que assim seja feito. Mais: É fácil de entender que assim deva ser. Mas, não entendem assim, não entendem de igual forma, não possuem qualquer capacidade para entender, menos ainda capacidade de diálogo, os “saloios” que estão a gerir a Electricidade de Maputo a nível da cidade de Maputo. E, o termo “saloios” tem aqui o exacto significado com que foi utilizado num recente e mediático julgamento. Por outras palavras, querendo ser breve, querendo ser breve curto e bruto, a única coisa que mudou, ao longo deste processo, desta luta de anos em defesa de interesses moçambicanos, a única coisa que poderá ter mudado, se é que mudou, foram as moscas. É tempo de se dizer, basta. Chegou o tempo de mudar mais do que as moscas.
segunda-feira, agosto 02, 2004
antes e depois
Luís David
pensar e entender Moçambique
Durante anos, muitos, e até tempos recentes, vivemos uma situação conturbada na cidade de Maputo. E, isto, porque nos tendo sido dito que o principal problema que era a não recolha do lixo haveria de ser resolvido, e não foi, como outros, mais graves e de mais difícil solução foram criados. Artificialmente. É que, tendo sido, até certa data, a cidade de Maputo, uma cidade cosmopolita, deixou de o ser em certo momento. Claramente, Maputo começou a ser ruralizada. Maputo, começou a ser uma cidade cada dia menos urbana e, cada dia, mais rural. Não aconteceu ser Xipamanine, Mafalala ou Malanga, os seus residentes, a terem melhores condições de vida. O que aconteceu, sim, foi os residentes em bairros outros, considerados “chiques”, terem sido confrontados com iguais problemas. Principalmente construções ilegais, ocupação selvagem de espaços públicos por interesses privados, particulares, privados. A alienação de espaços públicos, que eram, ou deviam ser considerados como tal, a interesses privados menos claros. Como foi o que se passou no que respeita a muitas bombas de gasolina. Ás que foram e às que não foram a instalar-se onde pretendiam instalar-se. Diga-se, em abono da verdade, que poucas foram as vozes que se levantaram, então, contra esta ocupação selvagem de muitos dos terrenos situados nas zonas mais nobres da capital do país. Por serem zonas verdes. Por serem zonas arborizadas. Por serem espaços verdes, por excelência. E que, como tal, devem ser conservados. Custe o que custar. Contra todos os interesses privados.
Estamos a assistir, nos últimos tempos, a uma tentativa de manipulação da opinião pública, a nível da cidade de Maputo, pouco comum. Está a tentar dizer-se, está a dizer-se, claramente, que quem construiu ilegalmente, quem ocupou ilegalmente espaço público, deve ter oportunidade para legalizar o ilegal. Mais do que isso, está a dizer-se que, quando o Conselho Municipal aplica Posturas e Leis em vigor, deve ser conivente com os violadores, com os vigaristas, com os violadores da Lei. Não. Não é possível que tenhamos chegado a este ponto de degradação moral e intelectual. Não é possível que cheguemos a este ponto sem que nos interroguemos sobre o que sucedeu, afinal, com esse prédio de cinco andares que ruiu em plena construção. Quem foram os responsáveis pela derrocada. E, o que lhes aconteceu. Ao que parece, nada. Apesar de ter havido, felizmente, apenas um morto. Talvez, porque, afinal, em termos da nossa macroeconomia, mais um morto ou menos um vivo, conta nada. Como conta nada, para alguns, apenas para alguns, o posicionamento e a atitude dos gestores da Electricidade de Maputo, a nível da cidade de Maputo .Apenas e unicamente a nível da cidade de Maputo. Sobre o pagamento da energia das áreas comuns dos condomínios. Quer dizer, é isso que nos estão a dizer, Maputo é diferente de todo o resto do país. A Lei que se aplica em Maputo, não é a Lei que se aplica em todo o país. Por favor livrem-nos destes senhores . O país só pode contar com pessoas que saibam pensar e entender Moçambique.
