terça-feira, novembro 23, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 21 de Novembro, 2004

antes e depois

Luís David


uma questão de Estado

A campanha eleitoral para as próximas eleições terá entrado, segundo os mais entendidos na matéria, naquilo a que chamam de recta final. Aceito que sim. E, aceito que sim pelo simples facto de que em qualquer percurso há sempre uma recta final. Mesmo quando aquilo a que se possa chamar de recta final tenha pouca a ver com recta e com final. E, isto, porque, no meu entender em política não há rectas nem final. Haverá, isso sim, curvas, muitas curvas, e objectivos. Sendo que o objectivo único e final é o da conquista do poder. E, conquistar o poder, começa por saber conquistar o eleitorado, quem tem a possibilidade ou o poder de votar. Para tanto, para conquistar o eleitorado, necessário é prometer. Prometer tudo e mais alguma coisa. Prometer o que pode ser realizado, como prometer utopias. Como prometer o que não tem qualquer possibilidade de ser realizado. E, no contexto nacional moçambicano do momento, prometer emprego para todos é mais do que utopia. É uma mentira. É enganar o eleitorado. Pelo simples facto de que, a nível mundial, o emprego é cada dia um bem mais raro. Pelo simples facto de que, a nível mundial, quem tem emprego luta por conservá-lo. Quem o não tem, poucas são as possibilidades de vir a tê-lo. Hoje, o que se oferece, o que está disponível é trabalho. E trabalho não é, nem de longe nem de perto, o mesmo que emprego. Que o digam, que o confirmem ou o desmintam os parceiros sociais moçambicanos empenhados na revisão da Lei do Trabalho.


Pelo que nos é dado ler em jornais e ver em televisões de todo o mundo, em tempo de eleições tornou-se hábito que esposas de candidatos presidenciais façam campanha ao lado de seus maridos. Acontece assim na Europa, vimos que assim foi, muito recentemente, nos Estados Unidos da América. Onde, onde, repita-se, a esposa de um dos candidatos, que viria a ser o candidato perdedor, se afirmava, por o ser, de origem portuguesa e nascida em Moçambique. Creio eu que nos deu alguma satisfação ver esta mulher a defender os ideais do seu marido, ver esta mulher ao lado do seu marido e ver esta mulher a afirmar, em quantas línguas domina, defender um projecto comum e nacional. Nacionalista. Nós por cá, pensamos diferente. Pensamos que é bom viram europeus e americanos fiscalizar as eleições. Mas pensamos que é mau, estamos agora a saber que é mau quando os candidatos, quando um candidato, leva a sua mulher para campanha eleitoral. Quando um dos candidatos procura mostrar ao eleitorado que tem família, que tem uma família que o apoia num projecto de governação. Como fazem europeus e americanos. Mas, se outros candidatos às presidenciais moçambicanas não tem mulher ou, podendo ter mulher, não a querem expor ao eleitorado, não a querem mostrar, o erro, se nisso há erro, não está em quem mostrou na companhia de quem pretende governar. Está em quem não soube ou não pode mostrar na companhia de quem pretende governar. Até ao momento, apenas conhecemos a mulher de um dos candidatos à presidência da República. Se os outros não tem mulher ou se têm muitas, permanece como incógnita. Embora sendo, como todos o sabemos, uma questão de Estado.

domingo, novembro 14, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 14 de Novembro, 2004

antes e depois

Luís David

a todos uma boa viagem


A adesão de Moçambique ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional terá sido decidida após amplas e profundas discussões internas. E, uma vez decidido que sim, decidido que Moçambique deveria passar a ser membro do BM e do FMI, uma segunda questão se colocava. Esta, era do modelo a seguir, o modelo a adoptar. Como sempre acontece nestas situações, confrontaram-se duas posições. A dos que defendiam uma transformação lenta e progressiva da economia nacional e a dos que defendiam aquilo a que habitualmente se classifica como “tratamento de choque”. Terá saído triunfante a posição destes últimos. Cujos mais acérrimos defensores, pouco tempo depois, estavam colocados em postos de relevo de diferentes organismos internacionais. Onde permanecem. Com deslocações poucas, ou nenhumas, a Moçambique. Entretanto, ou posteriormente, começam as negociações no Clube de Paris. Recordamos todos, os que não temos memórias curtas, que, inicialmente, nos era concedido muito menos que pedíamos, do que considerávamos necessário para os nossos programas. Para a nossa sobrevivência. Depois, com o avançar do tempo, a situação foi-se alterando. O montante concedido passou a ser muito semelhante ao montante solicitado. Por fim, aconteceu, aconteceu já, o montante concedido foi superior ao pedido. O que pode ter dois significados. Um, é o de que merecemos todo o crédito de instituições internacionais por sabermos aplicar correctamente os fundos que nos são atribuídos. Outro, é o de quem concedeu dinheiro e dinheiro não solicitado se sentir no direito de dizer e de impor o que devemos fazer. Se é ou não uma forma moderna de neocolonialismo, deixo correr o tempo para ver.


Na crónica que assina no semanário “Savana”, Machado da Graça dedica-me esta sexta-feira algumas linhas. E, pergunta-me, sobre o que escrevi neste espaço, domingo passado, quem pagará as próximas eleições, se a EU não voltar. Devo dizer, desde já, que podendo parecer pertinente, por parte de quem a faz, para mim a pergunta é absolutamente irrelevante. Por não fazer sentido. Entendo eu, no meu fraco e modesto entender, que a questão que deve ser colocada é para saber como fazer e que mecanismos desenvolver para reduzir e eliminar este tipo de financiamentos. Estes financiamentos para áreas tão sensíveis como são as eleições. Em última análise, o que podemos e devemos fazer, em conjunto, para termos em conjunto, como Moçambique, fundos para realizar eleições moçambicanas fiscalizadas por estrangeiros de acordos com a legislação moçambicana. Creio eu, mas posso estar errado, que este derrotismo, esta falta de visão de futuro, esta falta de nacionalismo e esta falta de sentir que se deve e pode fazer diferente ou diverso é, em si, um aceitar antecipado da derrota. É, em última análise, aquilo a que os eurocentristas chamaram e continuam a chamar de afro-pessimismo. Que em última análise, nada mais é do que uma nova forma de colonialismo. Pois, e para terminar, dizer o que já disse, reafirmar o que pode não ser necessário reafirmar. Então, por outras ou por palavras diferentes, desejar a todos uma boa viagem.

domingo, novembro 07, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 7 de Novembro, 2004

antes e depois

Luís David


que seja uma ida sem vinda


Como todos sabemos, o Mundo é redondo. Mas, também é pequeno. Pequeno no sentido em que o que se passa, o que acontece, neste momento, em um qualquer ponto, é conhecido quase no imediato a um nível global. Graças, naturalmente, às modernas tecnologias de informação e de comunicação. Foi por isso e graças a estas tecnologias, que ficámos a saber, em tempo quase real, que os observadores da Organização para a Segurança e Cooperação da Europa (OSCE) haviam sido impedidos de entrar nas assembleias de voto nos Estados Unidos. Um dos deputados europeus disse à Imprensa que “nós não fomos autorizados a entrar nas assembleias de voto”. E, terá acrescentado, “é um problema, pois, embora tenhamos sido convidados oficialmente para seguir estas eleições, não fizeram passar essa mensagem às assembleias de voto”. Pior, segundo o referido observador, foi mandado para trás em três das quatro assembleias de voto que quis visitar. Quer isto dizer, salvo melhor opinião, que os três observadores europeus foram obrigados a cumprir a legislação americana sobre matéria eleitoral. E, tenham ou não gostado, tiveram de a cumprir. E de se calar. E, parece que se calaram como se cala o cordeiro quando se sente ameaçado pelo lobo. Diz, ainda, a mesma notícia, que os observadores da OSCE “recolheram as suas experiências sobre a democracia norte-americana para um relatório a elaborar sobre o mesmo tema”. Mais não diz a citada notícia mas, podemos especular sem risco de erro, entraram no primeiro avião e regressaram aos seus países europeus. Onde, certamente, e é invariavelmente assim, irão afirmar missão cumprida.


Nós por cá, nestas quentes terras do Índico, em tempo de eleições, também recebemos observadores europeus. Ainda bem. Ainda bem, porque é sempre bom receber visitas. Visitantes ilustres, se assim se pode escrever. E, ainda bem porque, sendo Moçambique um país territorialmente bem mais pequeno do que os Estados Unidos da América, teve a honra de acolher, de receber, com muita antecedência, um número de observadores eleitorais europeus muito maior do que aquele que receberam os norte-americanos. Certamente, creio sinceramente, isto não é por sermos um país de pretos nem por os europeus nos considerarem um país de corruptos. Será para nosso bem, na sua óptica. E, eles, assim acreditam, assim o dizem, assim tentam fazer acreditar. Daí, certamente, o seu empenhamento em declarações públicas, as suas conferências de Imprensa onde se podem escutar declarações de intimidação e de ameaça. Em última análise, de chantagem. A estes senhores, ditos observadores, ditos observadores imparciais, não lhes assiste mais nenhum direito que não seja o de observarem e respeitarem a legislação moçambicana. Da mesma forma que respeitaram a legislação norte-americana. Por muito que isso lhes possa ter custado. Em termos de observação eleitoral, a União Europeia não tem o direito de aceitar, num caso, um critério americano e, noutro recusar o mesmo critério moçambicano. Pelo simples facto de ser moçambicano. Indígena de África. Querem não fazer relatório nenhum, querem ir embora, querem regressar à pátria Europa, pois que sim, que vão. Que regressem em paz. Mas, que seja uma ida sem vinda.





segunda-feira, novembro 01, 2004

Publicado em Maputo, no Jornal Domingo de 31 de Outubro, 2004

antes e depois

Luís David


a história não se compadece nem aceita estes desvarios


Até hoje, quase trinta anos depois da independência nacional, continuamos sem uma história do Moçambique moderno. Sem uma história una e unificada. Sem uma história das tensões, das resistências, das lutas e das traições registadas no espaço que Conferência de Berlim definiu como território de Moçambique. Sobre o passado mais remoto, julga saber-se alguma coisa com veracidade. Ou, o que se sabe, o que se conhece, aceita-se como verídico. Não se contesta. Raramente se contesta. Do passado mais recente, parece saber-se bem menos. Do passado que começa com a luta pela independência, sabe-se pouco. Sabe-se menos do que devia saber-se. Porque importe saber pouco ou por falta de investigação séria e profunda. Para saber mais. Depois, depois, parece haver em muitos de nós um certo conformismo para aceitar as muitas histórias que os outros contam de nós. Sobretudo, sobre nós. Sabemos, todos dizemos ter consciência de se tratar de uma visão ocidental da nossa história. De uma visão europeista e eurocêntrica da nossa história. Mas, será nesta falta de capacidade de fazer diferente, de fazer coisa outra, de fazer coisa moçambicana, que reside, provavelmente, o principio do afro-pessimismo. E, o afro-pessimismo, tenhamos consciência disso, não é uma maneira nem de ser nem de estar. È a forma como outros imaginam que somos. Como querem que sejamos. E, por isso, assim nos catalogam.

Em tempos recentes, foram muitos os trabalhos de investigação editados em Portugal nos quais Moçambique aparece referenciado. Sabe-se mais, hoje, sobre a FRELIMO, através de investigadores portugueses, ou do que escreveram norte-americanos, do que através de trabalhos de investigadores moçambicanos. O mesmo parece não ser válido para Angola. Apenas um exemplo: É conhecido, hoje, o número do passaporte marroquino utilizado por Marcelino dos Santos. Da mesma forma que se sabe, desde há vários anos, por estar escrito em diferentes trabalhos de investigação, que Eduardo Mondlane recebeu dinheiro do governo norte-americano. Agora, à distância que o tempo nos separa desse facto, querer insinuar que Mondlane era agente da CIA, afigura-se como desonestidade intelectual. A verdade é que bastou um jornal português, no caso o “Expresso”, ter-se feito eco da publicação de um livro, no qual Mondlane é citado como tendo recebido apoio financeiro dos Estados Unidos, para se falar em financiamento da CIA ao fundador da FRELIMO. Mas que sim, que assim tenha sido. Certamente que não foi por ter recebido apoio financeiro americano que Mondlane foi menos moçambicano, que foi menos nacionalista que os seus sucessores que receberam apoio, não só financeiro, da União Soviética e da China. Com o mesmo objectivo, que era o da alcançar a independência. Para se poder julgar, hoje, o posicionamento de Mondlane nesse então, precisamos de nos saber situar no seu tempo. E, o seu tempo, foi o da era Kennedy, foi o de um tempo em que os Estados Unidos da América defendiam, aberta e claramente, a independência das então colónias de Portugal em África. Neste contexto, no contexto em que viveu e actuou, Mondlane foi, terá sido, um homem do seu tempo. Terá sido um homem que utilizou os argumentos possíveis e ao seu alcance, à época, na luta pela independência de Moçambique. A esta distância no tempo, tentar interpretar a acção de Eduardo Mondlane ser ter presente o que foi a era Kennedy, pode conduzir a alguma desonestidade intelectual. Tentar interpretar o posicionamento de Mondlane fora de contexto é, em última análise, um desonestidade intelectual. E, a história não se compadece nem aceita estes desvarios.






Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 24 de Outubro de 2004

antes e depois

Luís David

defender a dignidade nacional


Vivemos num tempo nem sempre fácil de entender. Nem sempre fácil de perceber. Num tempo em que temos dificuldades em nos situar. Temos dificuldades, tremendas e terríveis, em perceber o mundo em que vivemos. Hoje, criticamos a globalização. Amanhã, estaremos a criticar o liberalismo económico. Depois, criticamos um e outro. Em absoluto. A seguir, haveremos de nos sentir satisfeitos, realizados, mesmo vaidosos, quando nos revelam números sobre crescimento económico. Sobre sucessos. Mas, esta é, simplesmente vaidade de pobre. Vaidade de cidadão de país da periferia da periferia. Que pouco ou nada manda em tudo quanto é sua pertença. E que, como vaidoso que é, gosta de ser elogiado. Gosta que lhe digam que tudo está bem, que tudo está bem. Que tem dificuldades, muitas, em destrinçar entre o desejo de uns e a realidade de outros. Que não consegue distinguir o elogio merecido do elogio bacoco. Que não se apercebe, muitas das vezes que, afinal o rei vai nu. E que na hora derradeira, na hora da verdade, curva-se de forma humilhante. A ponto de correr o risco de partir a espinha dorsal.



Estamos, cada dia que passa, a ficar mais esquecidos. Estamos, assim o parece, cada dia que passa, a perder memória individual e memória colectiva. Podemos estar a perder dignidade. A caminhar para a indignidade. E, é a perda de dignidade, a indignidade, a falta de sentido nacional, que conduzem à perda de soberania. Nunca o inverso. Hoje, chamamos por nomes menos bonitos, atribuímos adjectivos injustificados a quem no plano ético e moral, a quem no plano da defesa da dignidade e das competências nacionais, sabe afirmar-se moçambicano. E, pior e mais grave, transformamos a defesa desses valores numa atitude de incompetência profissional, por parte de quem tem opinião contrária. Tenhamos suficiente clareza de espírito de justiça para entender o que parece fácil de entender. É que quando o Presidente da República recomenda ou instrui num determinado sentido, está apenas a dizer ou fazer isso mesmo. Não está a dizer ou fazer o contrário, como parece que alguns pretendem. Não está a dizer que quem pensa de maneira diferente ou contrária é incompetente. O que está a dizer é que pode haver alternativas. Que pode haver uma forma diferente para conseguir o mesmo objectivo. E, sem muitas dúvidas, aqui, o objectivo é defender a dignidade nacional.

terça-feira, outubro 12, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 10 de Outubro, 2004

antes e depois

Luís David

podem ter um grande significado

Conserva a EDM, na sua história recente, factos e acontecimentos de inegável valor, de grande importância. Na e para a vida de todos nós, também. Pode dizer-se, sem exagero, são muitos os exemplos de trabalho abnegado, de heroicidade até. Seria de todo injusto não recordar o esforço desenvolvido para levantar torres de transporte derrubadas durante a guerra no sul do país. Seria de todo injusto não recordar o esforço desenvolvido para fornecer energia a Maputo, por meios alternativos, mesmo que parcialmente. Seria de todo injusto não recordar os muitos trabalhadores da EDM que se afoitaram em zonas minadas. E que, por isso, pagaram elevado preço. Pagaram o preço de rebentar uma mina. Certo é, que o fim da guerra veio colocar outros e novos desafios. O maior dos quais consiste, sem dúvida, na electrificação do país. É neste contexto, parece ser neste contexto, que a EDM mergulha, deliciada, no liberalismo económico. Mais. Atreve-se, mesmo, a enveredar pela via do capitalismo selvagem. E, aí, começa a sua desumanização. Mais grave, ainda. Renega, esforços, valores e vidas, perdidas no passado, para apostar numa via que sabe, ou devia saber, não ter futuro. Ou ter futuro mais do que duvidoso.


Recordar, aqui, o que tem sido o descalabro da gestão da EDM nos últimos anos é, no seu todo, um exercício inútil. Voltar a escrever sobre a forma como foi introduzida e é cobrada a taxa de recolha de lixo, sequer faz sentido. Porque ninguém age, ninguém quer saber quando se apontam ilegalidades. Mas, mesmo sabendo que assim é, que assim vai sendo, há factos mais recentes que não devem ser aceites como normais. Por exemplo, na minha zona, o prazo limite para o pagamento dos consumos de energia foi, durante muito tempo, o dia 10 de cada mês. Até Julho do corrente ano, assim foi. Depois, em Agosto, passou para o dia 5 e 25. Quer dizer, dois pagamentos num único mês. Já no mês de Setembro, o limite foi o dia 20. No mês em que estamos, vamos ter de pagar até ao próximo dia 15. Quer dizer, para quem possa não estar a perceber bem o que se passa, impera o caos e a desorganização na EDM. Com uma situação agravante. Quando são emitidas duas facturas num mês, como foi o caso de Agosto, são cobradas duas vezes a taxa de rádio e de recolha de lixo. Onde fica ou para onde vai este dinheiro cobrado ilegalmente, é questão que importa esclarecer. Por quem deve e tem poder para o fazer. Mas, tem mais em matéria de ilegalidade e da forma subtil utilizada pela EDM para extorquir dinheiro aos seus consumidores. A situação não é nova, há muito foi denunciada. Mas a vigarice continua. Estamos a falar dos tão publicitados credelec. Estes aparelhos, que para uns parece serem milagreiros e para outros milagrosos, comportam-se, mais coisa menos coisa, como as máquinas de casino, as conhecidas “caça-níqueis”. O lucro é sempre para o dono, o dono jamais perde. Primeiro, porque ninguém gosta de perder e, segundo, porque a máquina foi programada para ganhar sempre, foi programada para não perder. Pois, então, o dito credelec também está programado para que sempre que o consumidor compre energia pague a taxa para a RM. Sempre. Independentemente do valor da compra. Quem compra cem contos de energia, paga dez contos. Quem compra 500 ou mil contos, paga os mesmos dez contos. Quem compra energia três vezes por mês, pagas três vezes a taxa para a RM. Quem compra uma vez, paga uma vez. Questão última, é a de saber como a EDM controla esta cobrança, abusiva e ilegal, de taxas e como faz a sua entrega à RM. Ou se, simplesmente, faz uma entrega por estimativa. Possa perecer que não, em época de eleições estas pequenas coisas, estes pequenos esclarecimentos podem ter algum significado. E, se nos soubermos situar na nossa realidade, podem ter um grande significado.

segunda-feira, outubro 04, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 3 de Outubro, 2004


antes e depois

Luís David


a continuação da paz é possível


Assinala-se, amanhã, mais um aniversário da assinatura dos Acordos de Roma. É uma data que se junta a muitas outras da história recente de Moçambique. É uma data que significa paz. E que tem a particularidade de, no acontecimento que deu origem à comemoração, ter sido protagonizada por dois moçambicanos, ambos vivos. Um, Joaquim Chissano, que está prestes a deixar a Presidência da República. O outro, Afonso Dhlakama, candidato ao lugar que vai ficar vago. E, foi há poucos dias, quando procedeu à entrega dos documentos para a sua candidatura a Presidente da República, que o presidente da RENAMO fez questão de deixar claro que a paz será um dado adquirido. Irreversível, como todos desejamos. Disse, na ocasião, aceitar os resultados das próximas eleições, sejam quais venham a ser. Como teve palavras elogiosas para com o actual Governo dirigido pela FRELIMO. Mais, palavras de reconciliação. Ou, se assim o quisermos entender, uma postura de Estado. Esperemos, e façamos votos, para que as cerimónias do dia de amanhã confirmem, venham confirmar as previsões de hoje e garantir um futuro de paz. Ou a paz no futuro. O que podendo parecer não é, exactamente, a mesma coisa.


Com a assinatura dos Acordos de Roma, Moçambique entrou numa nova era. Criadas as condições para a paz, assumida a paz como um bem, foi possível caminhar no sentido da reconstrução e do progresso. Mesmo que relativo, mesmo que mitigado. Aspecto importante e fundamental, é o de ter passado a ser possível a circulação de pessoas e de bens por todo o país. Salvo raras excepções e em zonas bem definidas. Que bem podem, num futuro imediato deixar, também, de ser excepção. O que não impede o entusiasmo com que se fala no desenvolvimento do turismo. Uma indústria que, como todos sabemos, pode vir a ser importante fonte geradora de divisas. Motivo de preocupação é, isso sim, o registos de assaltos, com armas de fogo, a viaturas que circulam por estradas do Sul do país. Principalmente na Nacional 1 e 4. Hoje, informação que passa boca-a-boca ou enviada por correio electrónico, aponta locais dos assaltos, métodos utilizados pelos assaltantes, marca e cor das viaturas em que se fazem transportar. Por estranho que pareça, até ao momento, a Polícia de Trânsito não divulgou nenhum alerta, não emitiu nenhuma informação sobre cuidados a ter em zonas consideradas de circulação perigosa. E, já teve suficiente tempo para o fazer. Esperemos que não seja necessário a perda de vidas humanas para a tomada de medidas que situação aconselha. A paz, convenhamos, não é só a ausência da guerra. Muito menos poderá ser um processo unilateral. A paz só é possível se for um processo global. E, os últimos sinais indicam que, se todos quisermos, a continuação da paz é possível.



domingo, setembro 19, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 19 de Setembro, 2004


antes e depois

Luís David


o 25 de Setembro não está em questão.


De uma forma geral, a história que melhor conhecemos é a história que nos contaram na escola. E, é esta história que nos marca para toda a vida. Quer se trata da história do nosso, quer se trate da história de outros países. Ora, a história que conhecemos, a história que nos contam é, invariavelmente, a história dos vencedores, é uma história de vencedores. Todos sabemos, hoje, que nos Estados Unidos há uma história dos colonizadores e há uma história dos índios. Que na URSS foram publicadas sucessivas edições de manuais “corrigidos” em que os heróis de ontem são os renegados de hoje. Que em África existe a história dos brancos e a história dos negros. E, no que atrás fica escrito, sigo de perto o texto de apresentação de “Falsificações da História” , da autoria Marc Ferro, director de estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales. Onde se pode ler, também, que era urgente proceder a uma confrontação naquilo que essas histórias têm de real e de ilusório, antes de os poderes dominantes – Estados ou igrejas, interesses privados ou partidos políticos – nos apresentarem a todos, na era dos mass media, um passado falsificado, “ limpo”, manipulado, uniforme. Portando, convenhamos, se este é o momento de proceder à revisão da história recente de Moçambique, que assim se proceda. Mas que se encarregue os historiadores da tarefa.


Em texto publicado numa revista portuguesa e transcrito num semanário de Moçambique, Boaventura de Sousa Santos escreve sobre o livro “Uria Simango: Um Homem, uma Causa”. O autor do artigo, com o título “Moçambique por contar”, considera o livro perturbador. Mas, esquece de dizer para quem é que é perturbador. Depois de várias outras considerações, com base em factos que são públicos desde há muitos anos, o autor do referido artigo diz que, em suma, o livro “cheira” a verdade. E, este “cheira”, assim entre aspas, permite concluir que B.S.S. não tem a certeza sobre a verdade do livro. Sobre a verdade que o livro nos pretende transmitir. Em última análise, que não tem certeza absolutamente nenhuma. Ora, se não tem certeza nenhuma nem certeza sobre nada, está a partir de uma premissa falsa. Mais, está a reconhecer que partindo de uma premissa falsa pretende obter uma conclusão verdadeira. Ao propor a criação de uma Comissão de Verdade e de Reconciliação. O que não sendo, naturalmente, uma proposta impensada, uma proposta feita por um ignorante, pode permitir a conclusão de que se trata de uma proposta intelectualmente desonesta. Santo Agostinho, quando escreveu “Acerca da doutrina cristã”, foi bem mais prudente, foi bem mais cauteloso, foi bem mais reconciliador. Muitos, não terão lido os seus textos. Outros, podem ter lido e fazem por esquecer. Assim convém, para si próprios, no presente momento. Como convém não esquecer, para evitar ou espantar os abutres da história, que há factos que são inquestionáveis, que há datas que são inquestionáveis. Que não estão em discussão, nem são discutíveis. A primeira, é a do início da luta armada. A segunda, é a da assinatura dos Acordos de Lusaca. A terceira, é a da proclamação da independência nacional. E, esta trilogia de datas, que representam factos e acontecimentos muito concretos, goste quem gostar, não goste quem não gostar, está acima e para além de qualquer questionamento. Possa ou não um livro “cheirar” a verdade, a história de Moçambique não pode por isso, só por isso, ser revista. E nem pode isso, ser transformado, aproveitado, utilizado, como factor de desestabilização. De uma nação em processo de construção. Digamos, para eliminar dúvidas, que o 25 de Setembro não está em questão.

domingo, setembro 12, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 12 de Setembro, 2004

antes e depois

Luís David


fiquemos de olhos abertos

Dizer que nada está a ser feito para mudar a face de Maputo, seria tremenda injustiça. Dizer que tudo mudou, que tudo está diferente, seria elogio barato, bacoco. Seria, em última instância, uma mentira. Convenhamos que foram feitos grandes esforços de organização e financeiros na recolha do lixo e na limpeza da cidade. Concordemos que foi travada essa onda selvagem que permitiu a colocação dos mais aberrantes painéis publicitários em tudo quanto é espaço público. Muitos dos quais, já deviam, até, ter sido removidos, destruídos. Estamos, alguns de nós, de acordo com o trabalho desenvolvido no sentido de embargar construções ilegais ou que não obedeciam ao que tinha sido licenciado. E, aqui, quando digo que estamos de acordo alguns de nós é, precisamente, por já não haver unanimidade. Por se terem começado a fazer ouvir vozes discordantes. Vozes discordantes em defesa dos interesses, possivelmente corruptos, instalados. Vozes que nos tentam convencer que se os dirigentes de ontem cometeram ilegalidades, se se pautaram o seu mandato um uma conduta de irregularidade, os de hoje, os dirigentes de hoje, devem deixar tudo como está. Nada devem corrigir. Quer dizer, devem ser coniventes com a violação da Lei e das Posturas. Entendo que se está a tentar ir longe de mais. Que se está a tentar insinuar que, afinal, os desmandos praticados nas mais diferentes áreas de gestão da capital do país não foram tão graves como se pretende que tenham sido. Mas foram. E foram bem mais graves do que muitos possam imaginar.


A par dos citados e, eventualmente, de muitos outros aspectos positivos da presente governação da cidade de Maputo, há alguns aspectos negativos. Que importa, desde já começar a colocar. Com frontalidade. Assim, o combate aos chamados vendedores de esquina não se trava com medidas administrativas nem com o recurso a ameaças de intervenção da Polícia Municipal. Este é, no seu todo, um exercício inútil. Porque o fenómeno é, antes do mais, social. Logo, é necessário entender as suas causas. Depois, o gasto de dinheiro que está a ser feito com a pintura da sinalização horizontal em certas artérias, é um gasto inútil. Por melhor que seja a intenção, o que está a ser feito é repetir o que foi feito por ignorantes em termos de legislação rodoviária. Os sinais que estão a ser avivados, são sinais que devem ser violados. Como única forma de protecção de quem conduz e deseja não provocar acidentes de viação. Só um ignorante, ou um criminoso, pode ter mandado pintar os sinais que se encontram na Lenine, na Nyerere, na descida do viaduto, na zona da Escola Náutica. Entre muitas artérias da capital. Por fim, não se compreende, é difícil de compreender, como continua a haver tanta falta de capacidade para fiscalizar a reposição do pavimento quando determinadas empresas o partem para instalar cabos ou tubos. Com objectivos económicos, seus. Um exemplo, claro e recente: a Águas de Maputo abriu, mais uma, vala transversal na artéria de vai da Nyerere para o Clube Naval. E, dizemos, mais uma por, anteriormente, ter aberto várias outras. Que nunca tapou. Mas, convenhamos, que nunca ninguém terá obrigado a tapar. Talvez por aquilo a que chamámos de interesses instalados. Todos sabemos, fazem-se fortunas pessoais, empresas há que apresentam lucros fabulosos pelo fechar de olhos a estas “pequenas” coisas. Mas, talvez seja altura de abrirmos os olhos, antes que nos venham impor mais taxas. Para isto e para aquilo. Para pagar o desleixo de uns e a corrupção de outros. Então, fiquemos de olhos abertos.

terça-feira, setembro 07, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 5 de Setembro, 2004


antes e depois

Luís David


um exercício inútil


Parece estarem a registar-se, nos últimos tempos, múltiplas tentativas de rever e de branquear a história recente de Moçambique. Recente, de umas poucas de décadas. De há três/quatro décadas, que o conhecimento e a memória de muitos de conserva vivos factos e acontecimentos. Ora, se esse rever é, sem si próprio, um exercício positivo por poder trazer a público factos novos ou uma interpretação diferentes de factos antigos, o mesmo não é possível dizer do branquear. E, o que estamos a assistir, hoje, é a sucessivas tentativas de branquear a história recente. A tentativas para tentar demonstrar que o colonialismo não foi tão mau como alguns pretendem dizer que tenha sido. Ou, e parece ser esta questão de fundo, que o colonialismo português não foi tão mau como outros colonialismos. Ora, muito claramente, não existiram sistemas de colonização bons e maus. Na sua essência, e pelos objectivos que perseguiam, todos os sistemas de colonização foram maus em si próprios. Isto, obviamente, do ponto de vista do colonizado. A quem pouco importava se a bandeira que tinha de respeitar era inglesa ou francesa, espanhola ou portuguesa, italiana ou alemã. O trabalho forçado, a palmatória, a escravatura foram, durante décadas, processos comuns. Digamos, então e para que fique claro em certas cabeças, que o colonialismo em momento algum foi melhor de que outros. Pelo contrário. Poderá ter sido bem pior, a partir do momento em que passou a reprimir, através da PIDE e da PIDE/DGS, toda e qualquer tentativa de independência. Em que começou a matar, a massacrar e a assassinar. Em Moçambique, como em Angola, como na Guiné-Bissau. E, contra factos não existem argumentos.


Há, por aí, quem nos esteja a tentar convencer que a construção da Barragem de Cahora Bassa foi uma coisa muito boa para Moçambique, para os moçambicanos. E, seguindo esta linha de pensamento, que devemos estar, todos nós, agradecidos ao colonialismo. Que devemos pagar dívidas, que devemos pagar as mordomias de gestores. Que devemos, inclusive, pagar os custos resultantes da destruição das torres de transporte de energia para a África do Sul. Só que, Cahora Bassa não era isto, nunca foi isto, que, hoje, nos tentam fazer acreditar que foi. Cahora Bassa tinha e teve, fundamentalmente, objectivos de estratégia militar. A Barragem de Cahora Bassa não foi construída na perspectiva de trazer quaisquer benefícios ou melhoria nas condições de vida dos moçambicanos. A este propósito e para dissipar dúvidas, se é que ainda existem, creio ser importante transcrever o que escreveu Dalila Cabrita Mateus na sua tese de doutoramento. O livro, tem como título “A PIDE/DGS na guerra colonial -1961-1974”. E diz, na página 362: Em princípios de 1971, Ian Smith, acompanhado pelos chefes dos serviços de informações militares e por um intérpetre, visitou Moçambique para conversações com o General Kaúlza de Arriaga, então no quartel-general de Nampula. Kaúlza vangloriou-se dos êxitos do Exército Português durante a Operação Nó Górdio, a maior operação já realizada contra a FRELIMO. Falou dos planos para o vale do Zambeze, onde se previa a fixação de um milhão de colonos vindos da Metrópole. E afirmou que a Barragem de Cahora Bassa, uma vez construída, seria uma barreira intransponível para os guerrilheiros que tentavam penetrar no distrito de Tete, através do Zambeze. Concluindo: Rever a história é um exercício útil. Pedagógico e didáctico. Tentar mentir sobre a história é um exercício inútil.