Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de 12 de Dezembro, 2004
antes e depois
Luís David
algo está errado
Parece não existiram muitas dúvidas que a abstenção em processos eleitorais é, hoje e desde há muito tempo, um fenómeno à escala mundial. Universal. Um fenómeno que, diga-se, deixou de ser fenómeno para entrar, para fazer parte da normalidade. Embora a todos preocupe e todos os Estados democráticos, de uma forma geral, procurem meios para combater a abstenção. Sempre, repita-se, sempre tendo em atenção a relação custo/benefício. Isto é, que qualquer processo alternativo ao tradicional depósito do voto na urna não provoque aumento de custos. Esta é a posição divulgada, recentemente, pelo Instituto para a Democracia e Apoio Eleitoral (IDEA), um centro de investigação sediado em Estocolmo, na Suécia. Um sistema com resultados comprovados, segundo o IDEA, em relação a diversos países da Europa, tem sido o voto pelo correio. Que, em alguns casos está em fase experimental e noutros consolidado. Hoje, segundo a mesma fonte, cerca de quatro por cento dos votantes na Grã-Bretanha e 40 por cento da Finlândia votam pelo correio. Na Suécia, desde 1942, todos os cidadãos, sem aviso prévio, podem dirigir-se a um posto dos Correios e votar em impressos próprios para o efeito. Isto acontece, claramente, em países onde os Correios funcionam e onde a realidade é completamente diferente da nossa. Mas, independente de todas as considerações que se queiram fazer e admitir, serve para demonstrar que em Estados onde a democracia tem muitas e muitas décadas, o chamado fenómeno abstenção começou a ser combatido há mais de meio século.
Tem sido dito e repetido, com mais do que demasiada insistência, que a elevada percentagem de abstenção nas últimas eleições representa um aviso aos políticos. Uma ameaça aos futuros governantes. E, até se não com algum exagero, que quem vier a governar, por eleito, com tão reduzido número de votos, pouco ou nenhuma legitimidade terá para governar. São, obviamente, leituras possíveis, leituras respeitáveis, opiniões a não desconsiderar. Temos, no entanto, de aceitar que leitura diferente não deva ser rejeitada. Não deva ser recusada. Isto é, que uma leitura moçambicana de melhoria de vida e de mudança possa não ser, exactamente, aquela que outros tentam fazer. E que, talvez, é necessário admitir, terão dificuldade em comunicar. Comparar o último processo eleitoral com os anteriores, como, em alguns casos tem sido tentado, parece um processo arriscado. Por falta de contexto. As realidades sociais e económicas reinantes e dominantes em cada um dos momentos são completamente diferentes. E, aceitemos, os motivos que levaram a votar ontem podem não ser os mesmos que levaram a votar hoje, Assim como os motivos que levaram a votar ontem podem ser os mesmo que levaram a não votar hoje. Mas, convenhamos, em última análise, a questão principal parece não ser a do motivo pelo qual muitos não votaram. Mas a de criar novas e diferentes condições para que mais possam votar. Ou, e talvez seja o caso, como titulava o “Notícias”, na sua edição da última quinta-feira, uma questão de Simplificar o processo de votação. Caso assim seja, e parece que assim é, tudo o resto é um exercício inútil. Basta que estejamos todos de acordo no essencial. No fundamental. E que acordemos para a realidade de que o fenómeno das abstenções, em processos eleitorais democráticos, começou a ser estudado há mais de cinco décadas. E, se situações semelhantes ou idênticas se repetem em tão diferentes países não é, certamente, por o eleitor estar errado. Embora, concordemos, algo está errado.
domingo, dezembro 12, 2004
Publicado em Mpauto, Moçambique, no Jornal Domingo, de 5 de Dezembro, 2004
antes e depois
Luís David
saber criar
Coisa difícil, parece ser, é, não escrever após as eleições sem ser sobre eleições. E, escrever sobre as recentes eleições, neste momento, é, terá de ser, evitar engrossar a corrente, aparentemente dominante e dominadora, daqueles que se perfilam, que se perfilaram, para pedir estudos e investigação do que consideram como fenómeno da abstenção. Querem saber uns, querem conhecer outros, o motivo, a causa, a razão que levou o camponês a preterir a mesa de voto em alternativa à machamba e o citadino a optar pela praia ou pelo copo na barraca em alternativa a cumprir com o seu dever cívico. São, logicamente, preocupações legítimas. Intelectualmente legítimas. Talvez, arrisco sugerir, desfasadas da realidade cultural nacional. Se sim ou se não, os estudos, a fazer no curto e no médio prazos, pagos, muito hipoteticamente, por quem suportou os custos destas eleições, irão surgir. Irão, virão dizer-nos, virão tentar provar aquilo que já foi dito e ficou provado em eleições anteriores. Este modelo, caro, demasiado caro para a nossa realidade e que se presta a grosseiras intromissões estrangeiras, está esgotado. Na pior das hipóteses, é necessário pensar. Mesmo quando todos sabemos que pensar é exercício difícil. E, arriscado. Principalmente quando os bonzos já estão perfilados.
Pessoalmente, mal conheci António de Almeida Santos. Doutor em Leis, formado na Universidade de Coimbra, aqui se fez radicar há muitas décadas. Depois do 25 de Abril, regressado a Portugal, fez parte de diferentes governos. Foi Presidente da Assembleia da República. Na Minerva, descobri, um dia, textos e fotografias da sua vinda a Moçambique. Numa casa de venda de discos, que existiu no prédio das arcadas, hoje EMOSE, recordo ter comprado, já a preço de saldo e pouco antes de encerrar, vários exemplares de um disco seu, com fados de Coimbra. Um disco dos seus tempos de fadista e de boémio. Mais recente, mais recentemente, tive oportunidade de ler dois dos últimos dos muitos livros que escreveu ao longo da sua vida. Num, com cerca de 400 páginas “Por favor preocupem-se”, cuja quarta edição tem data de 1999, revela as suas preocupações sobre os problemas actuais, manifesta o seu cepticismo em relação à democracia participativa perante os avanços das novas tecnologias e escreve: O velho expediente de reunir no adro da igreja todos os cidadãos de uma minúscula unidade política para, de braço no ar, decidirem o que achavam melhor para a respectiva comunidade regressará, tecnologicamente alargado, ao espaço nacional, continental, universal amanhã. Mas antes, muito antes, logo na página 8 da mesma obra nos havia advertido: Tendemos a rejeitar o que nos desagrada. Em contraponto acreditamos facilmente no que desejamos. Daí que as posições confiadas e relaxantes colham mais adesões do que as advertências pesadas. Ou, parafraseando Nietzsche, Não é no conhecimento, mas sim na criação que está a nossa salvação. Então, para além de conhecer, do muito conhecer, por muito se poder vir a investigar e conhecer, há que saber criar. Assim, temos e havemos de saber criar. Porque, assim o diz o filósofo, a nossa salvação não está no imitar. Não está no copiar. Não está no saber copiar. Afinal, estas, tarefa medíocre, tarefa de medíocres, tarefa de bonzos. A nossa tarefa está em criar. Em saber criar.
antes e depois
Luís David
saber criar
Coisa difícil, parece ser, é, não escrever após as eleições sem ser sobre eleições. E, escrever sobre as recentes eleições, neste momento, é, terá de ser, evitar engrossar a corrente, aparentemente dominante e dominadora, daqueles que se perfilam, que se perfilaram, para pedir estudos e investigação do que consideram como fenómeno da abstenção. Querem saber uns, querem conhecer outros, o motivo, a causa, a razão que levou o camponês a preterir a mesa de voto em alternativa à machamba e o citadino a optar pela praia ou pelo copo na barraca em alternativa a cumprir com o seu dever cívico. São, logicamente, preocupações legítimas. Intelectualmente legítimas. Talvez, arrisco sugerir, desfasadas da realidade cultural nacional. Se sim ou se não, os estudos, a fazer no curto e no médio prazos, pagos, muito hipoteticamente, por quem suportou os custos destas eleições, irão surgir. Irão, virão dizer-nos, virão tentar provar aquilo que já foi dito e ficou provado em eleições anteriores. Este modelo, caro, demasiado caro para a nossa realidade e que se presta a grosseiras intromissões estrangeiras, está esgotado. Na pior das hipóteses, é necessário pensar. Mesmo quando todos sabemos que pensar é exercício difícil. E, arriscado. Principalmente quando os bonzos já estão perfilados.
Pessoalmente, mal conheci António de Almeida Santos. Doutor em Leis, formado na Universidade de Coimbra, aqui se fez radicar há muitas décadas. Depois do 25 de Abril, regressado a Portugal, fez parte de diferentes governos. Foi Presidente da Assembleia da República. Na Minerva, descobri, um dia, textos e fotografias da sua vinda a Moçambique. Numa casa de venda de discos, que existiu no prédio das arcadas, hoje EMOSE, recordo ter comprado, já a preço de saldo e pouco antes de encerrar, vários exemplares de um disco seu, com fados de Coimbra. Um disco dos seus tempos de fadista e de boémio. Mais recente, mais recentemente, tive oportunidade de ler dois dos últimos dos muitos livros que escreveu ao longo da sua vida. Num, com cerca de 400 páginas “Por favor preocupem-se”, cuja quarta edição tem data de 1999, revela as suas preocupações sobre os problemas actuais, manifesta o seu cepticismo em relação à democracia participativa perante os avanços das novas tecnologias e escreve: O velho expediente de reunir no adro da igreja todos os cidadãos de uma minúscula unidade política para, de braço no ar, decidirem o que achavam melhor para a respectiva comunidade regressará, tecnologicamente alargado, ao espaço nacional, continental, universal amanhã. Mas antes, muito antes, logo na página 8 da mesma obra nos havia advertido: Tendemos a rejeitar o que nos desagrada. Em contraponto acreditamos facilmente no que desejamos. Daí que as posições confiadas e relaxantes colham mais adesões do que as advertências pesadas. Ou, parafraseando Nietzsche, Não é no conhecimento, mas sim na criação que está a nossa salvação. Então, para além de conhecer, do muito conhecer, por muito se poder vir a investigar e conhecer, há que saber criar. Assim, temos e havemos de saber criar. Porque, assim o diz o filósofo, a nossa salvação não está no imitar. Não está no copiar. Não está no saber copiar. Afinal, estas, tarefa medíocre, tarefa de medíocres, tarefa de bonzos. A nossa tarefa está em criar. Em saber criar.
terça-feira, novembro 30, 2004
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 28 de Novembro, 2004
antes e depois
Luís David
É coisa diferente
Estamos a poucas horas do fim da campanha eleitoral para as eleições presidenciais e legislativas de Dezembro próximo. O muito ou o pouco que aqui possa dizer-se, em nada poderá influir sobre o voto do potencial eleitor. Contudo, parece não ser de menor importância fazer uma breve reflexão sobre a pressão e as acusações feitas, por partidos da oposição, a alguns órgãos de Informação nacionais por não fazerem uma cobertura das suas actividades. Mesmo quando, e este parece ser aspecto fundamental, recusaram informar a que horas e onde iriam ser desenvolvidas dessas suas actividades de campanha. Aparentemente, este tipo de estratégia foi mal escolhido. Mas, antes de passarmos adiante, importa recordar que, passam já muitos anos, um correspondente estrangeiro disse ter visto, e por isso terá divulgado o que disse ter visto, aviões a sobrevoarem Maputo. Convidado a justificar a veracidade da notícia pelo então Ministro da Informação, não terá sido convincente. Por esse motivo, por divulgar uma mentira, foi expulso de Moçambique. Mais recentemente, no final das últimas eleições, outro jornalista, também estrangeiro, igualmente português, divulgou para o mundo que a RENAMO e o seu presidente haviam ganho as eleições. Feitas as contas, não era bem assim. Tratava-se de mais uma mentira. Mas, de uma mentira não inocente. De uma mentira paga, de uma mentira bem paga, de uma mentira paga a peso de ouro. Em última análise, de uma tentativa para desestabilizar e para desacreditar o processo eleitoral. Na sua totalidade.
Na presente campanha eleitoral, o principal partido da oposição, terá adoptado, inicialmente, uma estratégia diferente. A tónica deixou de ser colocada na fraude eleitoral e desviou-se para o trabalho, para a forma de actuação dos órgãos de Informação, especialmente os do serviço público. Quer-se dizer, e esta foi a mensagem que foi tentado passar, se o referido partido e o seu candidato perderem, a responsabilidade será, toda ela, de quem não cobriu, ampliou ou divulgou a sua mensagem. Em termos simples e lineares, o “bode expiatório”, em caso de derrota, deixou de ser o STAE e CNE para passar a ser a Informação. Uma certa informação. Muito claramente a de prestação do serviço público Mais precisamente a TVM. Mas, e há sempre um mas, como a mentira, por tão rasteira, não ter ganhado raízes, necessário era trepar. Trepar às arvores. Trepar à copa das árvores. E, lá do alto, lá de cima, gritar bem alto que há por aí quem pretende assassinar Dhlakama. Que o presidente da RENAMO é um alvo a abater pela segurança do Estado. E, foi assim, nestes termos, mais ponto menos vírgula, que Lusa e RTPÁfrica se fizeram eco dessa declaração. Sem investigarem. Sem procederem a qualquer investigação. Sem confrontarem a informação com nenhuma outra fonte. Dizem, alguns, menos avisados, que estes são jornalismos e jornalistas de referência. Creio mais no inverso. Creio que estes jornalistas, por nunca o terem sido, por nunca terem sido jornalistas, são tudo menos jornalistas. Sobretudo porque ser jornalista em Moçambique, hoje, não pode passar pelos critérios do jornalismo neo-colonialista. O jornalismo moçambicano é outra coisa. É coisa diferente.
antes e depois
Luís David
É coisa diferente
Estamos a poucas horas do fim da campanha eleitoral para as eleições presidenciais e legislativas de Dezembro próximo. O muito ou o pouco que aqui possa dizer-se, em nada poderá influir sobre o voto do potencial eleitor. Contudo, parece não ser de menor importância fazer uma breve reflexão sobre a pressão e as acusações feitas, por partidos da oposição, a alguns órgãos de Informação nacionais por não fazerem uma cobertura das suas actividades. Mesmo quando, e este parece ser aspecto fundamental, recusaram informar a que horas e onde iriam ser desenvolvidas dessas suas actividades de campanha. Aparentemente, este tipo de estratégia foi mal escolhido. Mas, antes de passarmos adiante, importa recordar que, passam já muitos anos, um correspondente estrangeiro disse ter visto, e por isso terá divulgado o que disse ter visto, aviões a sobrevoarem Maputo. Convidado a justificar a veracidade da notícia pelo então Ministro da Informação, não terá sido convincente. Por esse motivo, por divulgar uma mentira, foi expulso de Moçambique. Mais recentemente, no final das últimas eleições, outro jornalista, também estrangeiro, igualmente português, divulgou para o mundo que a RENAMO e o seu presidente haviam ganho as eleições. Feitas as contas, não era bem assim. Tratava-se de mais uma mentira. Mas, de uma mentira não inocente. De uma mentira paga, de uma mentira bem paga, de uma mentira paga a peso de ouro. Em última análise, de uma tentativa para desestabilizar e para desacreditar o processo eleitoral. Na sua totalidade.
Na presente campanha eleitoral, o principal partido da oposição, terá adoptado, inicialmente, uma estratégia diferente. A tónica deixou de ser colocada na fraude eleitoral e desviou-se para o trabalho, para a forma de actuação dos órgãos de Informação, especialmente os do serviço público. Quer-se dizer, e esta foi a mensagem que foi tentado passar, se o referido partido e o seu candidato perderem, a responsabilidade será, toda ela, de quem não cobriu, ampliou ou divulgou a sua mensagem. Em termos simples e lineares, o “bode expiatório”, em caso de derrota, deixou de ser o STAE e CNE para passar a ser a Informação. Uma certa informação. Muito claramente a de prestação do serviço público Mais precisamente a TVM. Mas, e há sempre um mas, como a mentira, por tão rasteira, não ter ganhado raízes, necessário era trepar. Trepar às arvores. Trepar à copa das árvores. E, lá do alto, lá de cima, gritar bem alto que há por aí quem pretende assassinar Dhlakama. Que o presidente da RENAMO é um alvo a abater pela segurança do Estado. E, foi assim, nestes termos, mais ponto menos vírgula, que Lusa e RTPÁfrica se fizeram eco dessa declaração. Sem investigarem. Sem procederem a qualquer investigação. Sem confrontarem a informação com nenhuma outra fonte. Dizem, alguns, menos avisados, que estes são jornalismos e jornalistas de referência. Creio mais no inverso. Creio que estes jornalistas, por nunca o terem sido, por nunca terem sido jornalistas, são tudo menos jornalistas. Sobretudo porque ser jornalista em Moçambique, hoje, não pode passar pelos critérios do jornalismo neo-colonialista. O jornalismo moçambicano é outra coisa. É coisa diferente.
terça-feira, novembro 23, 2004
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 21 de Novembro, 2004
antes e depois
Luís David
uma questão de Estado
A campanha eleitoral para as próximas eleições terá entrado, segundo os mais entendidos na matéria, naquilo a que chamam de recta final. Aceito que sim. E, aceito que sim pelo simples facto de que em qualquer percurso há sempre uma recta final. Mesmo quando aquilo a que se possa chamar de recta final tenha pouca a ver com recta e com final. E, isto, porque, no meu entender em política não há rectas nem final. Haverá, isso sim, curvas, muitas curvas, e objectivos. Sendo que o objectivo único e final é o da conquista do poder. E, conquistar o poder, começa por saber conquistar o eleitorado, quem tem a possibilidade ou o poder de votar. Para tanto, para conquistar o eleitorado, necessário é prometer. Prometer tudo e mais alguma coisa. Prometer o que pode ser realizado, como prometer utopias. Como prometer o que não tem qualquer possibilidade de ser realizado. E, no contexto nacional moçambicano do momento, prometer emprego para todos é mais do que utopia. É uma mentira. É enganar o eleitorado. Pelo simples facto de que, a nível mundial, o emprego é cada dia um bem mais raro. Pelo simples facto de que, a nível mundial, quem tem emprego luta por conservá-lo. Quem o não tem, poucas são as possibilidades de vir a tê-lo. Hoje, o que se oferece, o que está disponível é trabalho. E trabalho não é, nem de longe nem de perto, o mesmo que emprego. Que o digam, que o confirmem ou o desmintam os parceiros sociais moçambicanos empenhados na revisão da Lei do Trabalho.
Pelo que nos é dado ler em jornais e ver em televisões de todo o mundo, em tempo de eleições tornou-se hábito que esposas de candidatos presidenciais façam campanha ao lado de seus maridos. Acontece assim na Europa, vimos que assim foi, muito recentemente, nos Estados Unidos da América. Onde, onde, repita-se, a esposa de um dos candidatos, que viria a ser o candidato perdedor, se afirmava, por o ser, de origem portuguesa e nascida em Moçambique. Creio eu que nos deu alguma satisfação ver esta mulher a defender os ideais do seu marido, ver esta mulher ao lado do seu marido e ver esta mulher a afirmar, em quantas línguas domina, defender um projecto comum e nacional. Nacionalista. Nós por cá, pensamos diferente. Pensamos que é bom viram europeus e americanos fiscalizar as eleições. Mas pensamos que é mau, estamos agora a saber que é mau quando os candidatos, quando um candidato, leva a sua mulher para campanha eleitoral. Quando um dos candidatos procura mostrar ao eleitorado que tem família, que tem uma família que o apoia num projecto de governação. Como fazem europeus e americanos. Mas, se outros candidatos às presidenciais moçambicanas não tem mulher ou, podendo ter mulher, não a querem expor ao eleitorado, não a querem mostrar, o erro, se nisso há erro, não está em quem mostrou na companhia de quem pretende governar. Está em quem não soube ou não pode mostrar na companhia de quem pretende governar. Até ao momento, apenas conhecemos a mulher de um dos candidatos à presidência da República. Se os outros não tem mulher ou se têm muitas, permanece como incógnita. Embora sendo, como todos o sabemos, uma questão de Estado.
antes e depois
Luís David
uma questão de Estado
A campanha eleitoral para as próximas eleições terá entrado, segundo os mais entendidos na matéria, naquilo a que chamam de recta final. Aceito que sim. E, aceito que sim pelo simples facto de que em qualquer percurso há sempre uma recta final. Mesmo quando aquilo a que se possa chamar de recta final tenha pouca a ver com recta e com final. E, isto, porque, no meu entender em política não há rectas nem final. Haverá, isso sim, curvas, muitas curvas, e objectivos. Sendo que o objectivo único e final é o da conquista do poder. E, conquistar o poder, começa por saber conquistar o eleitorado, quem tem a possibilidade ou o poder de votar. Para tanto, para conquistar o eleitorado, necessário é prometer. Prometer tudo e mais alguma coisa. Prometer o que pode ser realizado, como prometer utopias. Como prometer o que não tem qualquer possibilidade de ser realizado. E, no contexto nacional moçambicano do momento, prometer emprego para todos é mais do que utopia. É uma mentira. É enganar o eleitorado. Pelo simples facto de que, a nível mundial, o emprego é cada dia um bem mais raro. Pelo simples facto de que, a nível mundial, quem tem emprego luta por conservá-lo. Quem o não tem, poucas são as possibilidades de vir a tê-lo. Hoje, o que se oferece, o que está disponível é trabalho. E trabalho não é, nem de longe nem de perto, o mesmo que emprego. Que o digam, que o confirmem ou o desmintam os parceiros sociais moçambicanos empenhados na revisão da Lei do Trabalho.
Pelo que nos é dado ler em jornais e ver em televisões de todo o mundo, em tempo de eleições tornou-se hábito que esposas de candidatos presidenciais façam campanha ao lado de seus maridos. Acontece assim na Europa, vimos que assim foi, muito recentemente, nos Estados Unidos da América. Onde, onde, repita-se, a esposa de um dos candidatos, que viria a ser o candidato perdedor, se afirmava, por o ser, de origem portuguesa e nascida em Moçambique. Creio eu que nos deu alguma satisfação ver esta mulher a defender os ideais do seu marido, ver esta mulher ao lado do seu marido e ver esta mulher a afirmar, em quantas línguas domina, defender um projecto comum e nacional. Nacionalista. Nós por cá, pensamos diferente. Pensamos que é bom viram europeus e americanos fiscalizar as eleições. Mas pensamos que é mau, estamos agora a saber que é mau quando os candidatos, quando um candidato, leva a sua mulher para campanha eleitoral. Quando um dos candidatos procura mostrar ao eleitorado que tem família, que tem uma família que o apoia num projecto de governação. Como fazem europeus e americanos. Mas, se outros candidatos às presidenciais moçambicanas não tem mulher ou, podendo ter mulher, não a querem expor ao eleitorado, não a querem mostrar, o erro, se nisso há erro, não está em quem mostrou na companhia de quem pretende governar. Está em quem não soube ou não pode mostrar na companhia de quem pretende governar. Até ao momento, apenas conhecemos a mulher de um dos candidatos à presidência da República. Se os outros não tem mulher ou se têm muitas, permanece como incógnita. Embora sendo, como todos o sabemos, uma questão de Estado.
domingo, novembro 14, 2004
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 14 de Novembro, 2004
antes e depois
Luís David
a todos uma boa viagem
A adesão de Moçambique ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional terá sido decidida após amplas e profundas discussões internas. E, uma vez decidido que sim, decidido que Moçambique deveria passar a ser membro do BM e do FMI, uma segunda questão se colocava. Esta, era do modelo a seguir, o modelo a adoptar. Como sempre acontece nestas situações, confrontaram-se duas posições. A dos que defendiam uma transformação lenta e progressiva da economia nacional e a dos que defendiam aquilo a que habitualmente se classifica como “tratamento de choque”. Terá saído triunfante a posição destes últimos. Cujos mais acérrimos defensores, pouco tempo depois, estavam colocados em postos de relevo de diferentes organismos internacionais. Onde permanecem. Com deslocações poucas, ou nenhumas, a Moçambique. Entretanto, ou posteriormente, começam as negociações no Clube de Paris. Recordamos todos, os que não temos memórias curtas, que, inicialmente, nos era concedido muito menos que pedíamos, do que considerávamos necessário para os nossos programas. Para a nossa sobrevivência. Depois, com o avançar do tempo, a situação foi-se alterando. O montante concedido passou a ser muito semelhante ao montante solicitado. Por fim, aconteceu, aconteceu já, o montante concedido foi superior ao pedido. O que pode ter dois significados. Um, é o de que merecemos todo o crédito de instituições internacionais por sabermos aplicar correctamente os fundos que nos são atribuídos. Outro, é o de quem concedeu dinheiro e dinheiro não solicitado se sentir no direito de dizer e de impor o que devemos fazer. Se é ou não uma forma moderna de neocolonialismo, deixo correr o tempo para ver.
Na crónica que assina no semanário “Savana”, Machado da Graça dedica-me esta sexta-feira algumas linhas. E, pergunta-me, sobre o que escrevi neste espaço, domingo passado, quem pagará as próximas eleições, se a EU não voltar. Devo dizer, desde já, que podendo parecer pertinente, por parte de quem a faz, para mim a pergunta é absolutamente irrelevante. Por não fazer sentido. Entendo eu, no meu fraco e modesto entender, que a questão que deve ser colocada é para saber como fazer e que mecanismos desenvolver para reduzir e eliminar este tipo de financiamentos. Estes financiamentos para áreas tão sensíveis como são as eleições. Em última análise, o que podemos e devemos fazer, em conjunto, para termos em conjunto, como Moçambique, fundos para realizar eleições moçambicanas fiscalizadas por estrangeiros de acordos com a legislação moçambicana. Creio eu, mas posso estar errado, que este derrotismo, esta falta de visão de futuro, esta falta de nacionalismo e esta falta de sentir que se deve e pode fazer diferente ou diverso é, em si, um aceitar antecipado da derrota. É, em última análise, aquilo a que os eurocentristas chamaram e continuam a chamar de afro-pessimismo. Que em última análise, nada mais é do que uma nova forma de colonialismo. Pois, e para terminar, dizer o que já disse, reafirmar o que pode não ser necessário reafirmar. Então, por outras ou por palavras diferentes, desejar a todos uma boa viagem.
antes e depois
Luís David
a todos uma boa viagem
A adesão de Moçambique ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional terá sido decidida após amplas e profundas discussões internas. E, uma vez decidido que sim, decidido que Moçambique deveria passar a ser membro do BM e do FMI, uma segunda questão se colocava. Esta, era do modelo a seguir, o modelo a adoptar. Como sempre acontece nestas situações, confrontaram-se duas posições. A dos que defendiam uma transformação lenta e progressiva da economia nacional e a dos que defendiam aquilo a que habitualmente se classifica como “tratamento de choque”. Terá saído triunfante a posição destes últimos. Cujos mais acérrimos defensores, pouco tempo depois, estavam colocados em postos de relevo de diferentes organismos internacionais. Onde permanecem. Com deslocações poucas, ou nenhumas, a Moçambique. Entretanto, ou posteriormente, começam as negociações no Clube de Paris. Recordamos todos, os que não temos memórias curtas, que, inicialmente, nos era concedido muito menos que pedíamos, do que considerávamos necessário para os nossos programas. Para a nossa sobrevivência. Depois, com o avançar do tempo, a situação foi-se alterando. O montante concedido passou a ser muito semelhante ao montante solicitado. Por fim, aconteceu, aconteceu já, o montante concedido foi superior ao pedido. O que pode ter dois significados. Um, é o de que merecemos todo o crédito de instituições internacionais por sabermos aplicar correctamente os fundos que nos são atribuídos. Outro, é o de quem concedeu dinheiro e dinheiro não solicitado se sentir no direito de dizer e de impor o que devemos fazer. Se é ou não uma forma moderna de neocolonialismo, deixo correr o tempo para ver.
Na crónica que assina no semanário “Savana”, Machado da Graça dedica-me esta sexta-feira algumas linhas. E, pergunta-me, sobre o que escrevi neste espaço, domingo passado, quem pagará as próximas eleições, se a EU não voltar. Devo dizer, desde já, que podendo parecer pertinente, por parte de quem a faz, para mim a pergunta é absolutamente irrelevante. Por não fazer sentido. Entendo eu, no meu fraco e modesto entender, que a questão que deve ser colocada é para saber como fazer e que mecanismos desenvolver para reduzir e eliminar este tipo de financiamentos. Estes financiamentos para áreas tão sensíveis como são as eleições. Em última análise, o que podemos e devemos fazer, em conjunto, para termos em conjunto, como Moçambique, fundos para realizar eleições moçambicanas fiscalizadas por estrangeiros de acordos com a legislação moçambicana. Creio eu, mas posso estar errado, que este derrotismo, esta falta de visão de futuro, esta falta de nacionalismo e esta falta de sentir que se deve e pode fazer diferente ou diverso é, em si, um aceitar antecipado da derrota. É, em última análise, aquilo a que os eurocentristas chamaram e continuam a chamar de afro-pessimismo. Que em última análise, nada mais é do que uma nova forma de colonialismo. Pois, e para terminar, dizer o que já disse, reafirmar o que pode não ser necessário reafirmar. Então, por outras ou por palavras diferentes, desejar a todos uma boa viagem.
domingo, novembro 07, 2004
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 7 de Novembro, 2004
antes e depois
Luís David
que seja uma ida sem vinda
Como todos sabemos, o Mundo é redondo. Mas, também é pequeno. Pequeno no sentido em que o que se passa, o que acontece, neste momento, em um qualquer ponto, é conhecido quase no imediato a um nível global. Graças, naturalmente, às modernas tecnologias de informação e de comunicação. Foi por isso e graças a estas tecnologias, que ficámos a saber, em tempo quase real, que os observadores da Organização para a Segurança e Cooperação da Europa (OSCE) haviam sido impedidos de entrar nas assembleias de voto nos Estados Unidos. Um dos deputados europeus disse à Imprensa que “nós não fomos autorizados a entrar nas assembleias de voto”. E, terá acrescentado, “é um problema, pois, embora tenhamos sido convidados oficialmente para seguir estas eleições, não fizeram passar essa mensagem às assembleias de voto”. Pior, segundo o referido observador, foi mandado para trás em três das quatro assembleias de voto que quis visitar. Quer isto dizer, salvo melhor opinião, que os três observadores europeus foram obrigados a cumprir a legislação americana sobre matéria eleitoral. E, tenham ou não gostado, tiveram de a cumprir. E de se calar. E, parece que se calaram como se cala o cordeiro quando se sente ameaçado pelo lobo. Diz, ainda, a mesma notícia, que os observadores da OSCE “recolheram as suas experiências sobre a democracia norte-americana para um relatório a elaborar sobre o mesmo tema”. Mais não diz a citada notícia mas, podemos especular sem risco de erro, entraram no primeiro avião e regressaram aos seus países europeus. Onde, certamente, e é invariavelmente assim, irão afirmar missão cumprida.
Nós por cá, nestas quentes terras do Índico, em tempo de eleições, também recebemos observadores europeus. Ainda bem. Ainda bem, porque é sempre bom receber visitas. Visitantes ilustres, se assim se pode escrever. E, ainda bem porque, sendo Moçambique um país territorialmente bem mais pequeno do que os Estados Unidos da América, teve a honra de acolher, de receber, com muita antecedência, um número de observadores eleitorais europeus muito maior do que aquele que receberam os norte-americanos. Certamente, creio sinceramente, isto não é por sermos um país de pretos nem por os europeus nos considerarem um país de corruptos. Será para nosso bem, na sua óptica. E, eles, assim acreditam, assim o dizem, assim tentam fazer acreditar. Daí, certamente, o seu empenhamento em declarações públicas, as suas conferências de Imprensa onde se podem escutar declarações de intimidação e de ameaça. Em última análise, de chantagem. A estes senhores, ditos observadores, ditos observadores imparciais, não lhes assiste mais nenhum direito que não seja o de observarem e respeitarem a legislação moçambicana. Da mesma forma que respeitaram a legislação norte-americana. Por muito que isso lhes possa ter custado. Em termos de observação eleitoral, a União Europeia não tem o direito de aceitar, num caso, um critério americano e, noutro recusar o mesmo critério moçambicano. Pelo simples facto de ser moçambicano. Indígena de África. Querem não fazer relatório nenhum, querem ir embora, querem regressar à pátria Europa, pois que sim, que vão. Que regressem em paz. Mas, que seja uma ida sem vinda.
antes e depois
Luís David
que seja uma ida sem vinda
Como todos sabemos, o Mundo é redondo. Mas, também é pequeno. Pequeno no sentido em que o que se passa, o que acontece, neste momento, em um qualquer ponto, é conhecido quase no imediato a um nível global. Graças, naturalmente, às modernas tecnologias de informação e de comunicação. Foi por isso e graças a estas tecnologias, que ficámos a saber, em tempo quase real, que os observadores da Organização para a Segurança e Cooperação da Europa (OSCE) haviam sido impedidos de entrar nas assembleias de voto nos Estados Unidos. Um dos deputados europeus disse à Imprensa que “nós não fomos autorizados a entrar nas assembleias de voto”. E, terá acrescentado, “é um problema, pois, embora tenhamos sido convidados oficialmente para seguir estas eleições, não fizeram passar essa mensagem às assembleias de voto”. Pior, segundo o referido observador, foi mandado para trás em três das quatro assembleias de voto que quis visitar. Quer isto dizer, salvo melhor opinião, que os três observadores europeus foram obrigados a cumprir a legislação americana sobre matéria eleitoral. E, tenham ou não gostado, tiveram de a cumprir. E de se calar. E, parece que se calaram como se cala o cordeiro quando se sente ameaçado pelo lobo. Diz, ainda, a mesma notícia, que os observadores da OSCE “recolheram as suas experiências sobre a democracia norte-americana para um relatório a elaborar sobre o mesmo tema”. Mais não diz a citada notícia mas, podemos especular sem risco de erro, entraram no primeiro avião e regressaram aos seus países europeus. Onde, certamente, e é invariavelmente assim, irão afirmar missão cumprida.
Nós por cá, nestas quentes terras do Índico, em tempo de eleições, também recebemos observadores europeus. Ainda bem. Ainda bem, porque é sempre bom receber visitas. Visitantes ilustres, se assim se pode escrever. E, ainda bem porque, sendo Moçambique um país territorialmente bem mais pequeno do que os Estados Unidos da América, teve a honra de acolher, de receber, com muita antecedência, um número de observadores eleitorais europeus muito maior do que aquele que receberam os norte-americanos. Certamente, creio sinceramente, isto não é por sermos um país de pretos nem por os europeus nos considerarem um país de corruptos. Será para nosso bem, na sua óptica. E, eles, assim acreditam, assim o dizem, assim tentam fazer acreditar. Daí, certamente, o seu empenhamento em declarações públicas, as suas conferências de Imprensa onde se podem escutar declarações de intimidação e de ameaça. Em última análise, de chantagem. A estes senhores, ditos observadores, ditos observadores imparciais, não lhes assiste mais nenhum direito que não seja o de observarem e respeitarem a legislação moçambicana. Da mesma forma que respeitaram a legislação norte-americana. Por muito que isso lhes possa ter custado. Em termos de observação eleitoral, a União Europeia não tem o direito de aceitar, num caso, um critério americano e, noutro recusar o mesmo critério moçambicano. Pelo simples facto de ser moçambicano. Indígena de África. Querem não fazer relatório nenhum, querem ir embora, querem regressar à pátria Europa, pois que sim, que vão. Que regressem em paz. Mas, que seja uma ida sem vinda.
segunda-feira, novembro 01, 2004
Publicado em Maputo, no Jornal Domingo de 31 de Outubro, 2004
antes e depois
Luís David
a história não se compadece nem aceita estes desvarios
Até hoje, quase trinta anos depois da independência nacional, continuamos sem uma história do Moçambique moderno. Sem uma história una e unificada. Sem uma história das tensões, das resistências, das lutas e das traições registadas no espaço que Conferência de Berlim definiu como território de Moçambique. Sobre o passado mais remoto, julga saber-se alguma coisa com veracidade. Ou, o que se sabe, o que se conhece, aceita-se como verídico. Não se contesta. Raramente se contesta. Do passado mais recente, parece saber-se bem menos. Do passado que começa com a luta pela independência, sabe-se pouco. Sabe-se menos do que devia saber-se. Porque importe saber pouco ou por falta de investigação séria e profunda. Para saber mais. Depois, depois, parece haver em muitos de nós um certo conformismo para aceitar as muitas histórias que os outros contam de nós. Sobretudo, sobre nós. Sabemos, todos dizemos ter consciência de se tratar de uma visão ocidental da nossa história. De uma visão europeista e eurocêntrica da nossa história. Mas, será nesta falta de capacidade de fazer diferente, de fazer coisa outra, de fazer coisa moçambicana, que reside, provavelmente, o principio do afro-pessimismo. E, o afro-pessimismo, tenhamos consciência disso, não é uma maneira nem de ser nem de estar. È a forma como outros imaginam que somos. Como querem que sejamos. E, por isso, assim nos catalogam.
Em tempos recentes, foram muitos os trabalhos de investigação editados em Portugal nos quais Moçambique aparece referenciado. Sabe-se mais, hoje, sobre a FRELIMO, através de investigadores portugueses, ou do que escreveram norte-americanos, do que através de trabalhos de investigadores moçambicanos. O mesmo parece não ser válido para Angola. Apenas um exemplo: É conhecido, hoje, o número do passaporte marroquino utilizado por Marcelino dos Santos. Da mesma forma que se sabe, desde há vários anos, por estar escrito em diferentes trabalhos de investigação, que Eduardo Mondlane recebeu dinheiro do governo norte-americano. Agora, à distância que o tempo nos separa desse facto, querer insinuar que Mondlane era agente da CIA, afigura-se como desonestidade intelectual. A verdade é que bastou um jornal português, no caso o “Expresso”, ter-se feito eco da publicação de um livro, no qual Mondlane é citado como tendo recebido apoio financeiro dos Estados Unidos, para se falar em financiamento da CIA ao fundador da FRELIMO. Mas que sim, que assim tenha sido. Certamente que não foi por ter recebido apoio financeiro americano que Mondlane foi menos moçambicano, que foi menos nacionalista que os seus sucessores que receberam apoio, não só financeiro, da União Soviética e da China. Com o mesmo objectivo, que era o da alcançar a independência. Para se poder julgar, hoje, o posicionamento de Mondlane nesse então, precisamos de nos saber situar no seu tempo. E, o seu tempo, foi o da era Kennedy, foi o de um tempo em que os Estados Unidos da América defendiam, aberta e claramente, a independência das então colónias de Portugal em África. Neste contexto, no contexto em que viveu e actuou, Mondlane foi, terá sido, um homem do seu tempo. Terá sido um homem que utilizou os argumentos possíveis e ao seu alcance, à época, na luta pela independência de Moçambique. A esta distância no tempo, tentar interpretar a acção de Eduardo Mondlane ser ter presente o que foi a era Kennedy, pode conduzir a alguma desonestidade intelectual. Tentar interpretar o posicionamento de Mondlane fora de contexto é, em última análise, um desonestidade intelectual. E, a história não se compadece nem aceita estes desvarios.
antes e depois
Luís David
a história não se compadece nem aceita estes desvarios
Até hoje, quase trinta anos depois da independência nacional, continuamos sem uma história do Moçambique moderno. Sem uma história una e unificada. Sem uma história das tensões, das resistências, das lutas e das traições registadas no espaço que Conferência de Berlim definiu como território de Moçambique. Sobre o passado mais remoto, julga saber-se alguma coisa com veracidade. Ou, o que se sabe, o que se conhece, aceita-se como verídico. Não se contesta. Raramente se contesta. Do passado mais recente, parece saber-se bem menos. Do passado que começa com a luta pela independência, sabe-se pouco. Sabe-se menos do que devia saber-se. Porque importe saber pouco ou por falta de investigação séria e profunda. Para saber mais. Depois, depois, parece haver em muitos de nós um certo conformismo para aceitar as muitas histórias que os outros contam de nós. Sobretudo, sobre nós. Sabemos, todos dizemos ter consciência de se tratar de uma visão ocidental da nossa história. De uma visão europeista e eurocêntrica da nossa história. Mas, será nesta falta de capacidade de fazer diferente, de fazer coisa outra, de fazer coisa moçambicana, que reside, provavelmente, o principio do afro-pessimismo. E, o afro-pessimismo, tenhamos consciência disso, não é uma maneira nem de ser nem de estar. È a forma como outros imaginam que somos. Como querem que sejamos. E, por isso, assim nos catalogam.
Em tempos recentes, foram muitos os trabalhos de investigação editados em Portugal nos quais Moçambique aparece referenciado. Sabe-se mais, hoje, sobre a FRELIMO, através de investigadores portugueses, ou do que escreveram norte-americanos, do que através de trabalhos de investigadores moçambicanos. O mesmo parece não ser válido para Angola. Apenas um exemplo: É conhecido, hoje, o número do passaporte marroquino utilizado por Marcelino dos Santos. Da mesma forma que se sabe, desde há vários anos, por estar escrito em diferentes trabalhos de investigação, que Eduardo Mondlane recebeu dinheiro do governo norte-americano. Agora, à distância que o tempo nos separa desse facto, querer insinuar que Mondlane era agente da CIA, afigura-se como desonestidade intelectual. A verdade é que bastou um jornal português, no caso o “Expresso”, ter-se feito eco da publicação de um livro, no qual Mondlane é citado como tendo recebido apoio financeiro dos Estados Unidos, para se falar em financiamento da CIA ao fundador da FRELIMO. Mas que sim, que assim tenha sido. Certamente que não foi por ter recebido apoio financeiro americano que Mondlane foi menos moçambicano, que foi menos nacionalista que os seus sucessores que receberam apoio, não só financeiro, da União Soviética e da China. Com o mesmo objectivo, que era o da alcançar a independência. Para se poder julgar, hoje, o posicionamento de Mondlane nesse então, precisamos de nos saber situar no seu tempo. E, o seu tempo, foi o da era Kennedy, foi o de um tempo em que os Estados Unidos da América defendiam, aberta e claramente, a independência das então colónias de Portugal em África. Neste contexto, no contexto em que viveu e actuou, Mondlane foi, terá sido, um homem do seu tempo. Terá sido um homem que utilizou os argumentos possíveis e ao seu alcance, à época, na luta pela independência de Moçambique. A esta distância no tempo, tentar interpretar a acção de Eduardo Mondlane ser ter presente o que foi a era Kennedy, pode conduzir a alguma desonestidade intelectual. Tentar interpretar o posicionamento de Mondlane fora de contexto é, em última análise, um desonestidade intelectual. E, a história não se compadece nem aceita estes desvarios.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 24 de Outubro de 2004
antes e depois
Luís David
defender a dignidade nacional
Vivemos num tempo nem sempre fácil de entender. Nem sempre fácil de perceber. Num tempo em que temos dificuldades em nos situar. Temos dificuldades, tremendas e terríveis, em perceber o mundo em que vivemos. Hoje, criticamos a globalização. Amanhã, estaremos a criticar o liberalismo económico. Depois, criticamos um e outro. Em absoluto. A seguir, haveremos de nos sentir satisfeitos, realizados, mesmo vaidosos, quando nos revelam números sobre crescimento económico. Sobre sucessos. Mas, esta é, simplesmente vaidade de pobre. Vaidade de cidadão de país da periferia da periferia. Que pouco ou nada manda em tudo quanto é sua pertença. E que, como vaidoso que é, gosta de ser elogiado. Gosta que lhe digam que tudo está bem, que tudo está bem. Que tem dificuldades, muitas, em destrinçar entre o desejo de uns e a realidade de outros. Que não consegue distinguir o elogio merecido do elogio bacoco. Que não se apercebe, muitas das vezes que, afinal o rei vai nu. E que na hora derradeira, na hora da verdade, curva-se de forma humilhante. A ponto de correr o risco de partir a espinha dorsal.
Estamos, cada dia que passa, a ficar mais esquecidos. Estamos, assim o parece, cada dia que passa, a perder memória individual e memória colectiva. Podemos estar a perder dignidade. A caminhar para a indignidade. E, é a perda de dignidade, a indignidade, a falta de sentido nacional, que conduzem à perda de soberania. Nunca o inverso. Hoje, chamamos por nomes menos bonitos, atribuímos adjectivos injustificados a quem no plano ético e moral, a quem no plano da defesa da dignidade e das competências nacionais, sabe afirmar-se moçambicano. E, pior e mais grave, transformamos a defesa desses valores numa atitude de incompetência profissional, por parte de quem tem opinião contrária. Tenhamos suficiente clareza de espírito de justiça para entender o que parece fácil de entender. É que quando o Presidente da República recomenda ou instrui num determinado sentido, está apenas a dizer ou fazer isso mesmo. Não está a dizer ou fazer o contrário, como parece que alguns pretendem. Não está a dizer que quem pensa de maneira diferente ou contrária é incompetente. O que está a dizer é que pode haver alternativas. Que pode haver uma forma diferente para conseguir o mesmo objectivo. E, sem muitas dúvidas, aqui, o objectivo é defender a dignidade nacional.
antes e depois
Luís David
defender a dignidade nacional
Vivemos num tempo nem sempre fácil de entender. Nem sempre fácil de perceber. Num tempo em que temos dificuldades em nos situar. Temos dificuldades, tremendas e terríveis, em perceber o mundo em que vivemos. Hoje, criticamos a globalização. Amanhã, estaremos a criticar o liberalismo económico. Depois, criticamos um e outro. Em absoluto. A seguir, haveremos de nos sentir satisfeitos, realizados, mesmo vaidosos, quando nos revelam números sobre crescimento económico. Sobre sucessos. Mas, esta é, simplesmente vaidade de pobre. Vaidade de cidadão de país da periferia da periferia. Que pouco ou nada manda em tudo quanto é sua pertença. E que, como vaidoso que é, gosta de ser elogiado. Gosta que lhe digam que tudo está bem, que tudo está bem. Que tem dificuldades, muitas, em destrinçar entre o desejo de uns e a realidade de outros. Que não consegue distinguir o elogio merecido do elogio bacoco. Que não se apercebe, muitas das vezes que, afinal o rei vai nu. E que na hora derradeira, na hora da verdade, curva-se de forma humilhante. A ponto de correr o risco de partir a espinha dorsal.
Estamos, cada dia que passa, a ficar mais esquecidos. Estamos, assim o parece, cada dia que passa, a perder memória individual e memória colectiva. Podemos estar a perder dignidade. A caminhar para a indignidade. E, é a perda de dignidade, a indignidade, a falta de sentido nacional, que conduzem à perda de soberania. Nunca o inverso. Hoje, chamamos por nomes menos bonitos, atribuímos adjectivos injustificados a quem no plano ético e moral, a quem no plano da defesa da dignidade e das competências nacionais, sabe afirmar-se moçambicano. E, pior e mais grave, transformamos a defesa desses valores numa atitude de incompetência profissional, por parte de quem tem opinião contrária. Tenhamos suficiente clareza de espírito de justiça para entender o que parece fácil de entender. É que quando o Presidente da República recomenda ou instrui num determinado sentido, está apenas a dizer ou fazer isso mesmo. Não está a dizer ou fazer o contrário, como parece que alguns pretendem. Não está a dizer que quem pensa de maneira diferente ou contrária é incompetente. O que está a dizer é que pode haver alternativas. Que pode haver uma forma diferente para conseguir o mesmo objectivo. E, sem muitas dúvidas, aqui, o objectivo é defender a dignidade nacional.
terça-feira, outubro 12, 2004
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 10 de Outubro, 2004
antes e depois
Luís David
podem ter um grande significado
Conserva a EDM, na sua história recente, factos e acontecimentos de inegável valor, de grande importância. Na e para a vida de todos nós, também. Pode dizer-se, sem exagero, são muitos os exemplos de trabalho abnegado, de heroicidade até. Seria de todo injusto não recordar o esforço desenvolvido para levantar torres de transporte derrubadas durante a guerra no sul do país. Seria de todo injusto não recordar o esforço desenvolvido para fornecer energia a Maputo, por meios alternativos, mesmo que parcialmente. Seria de todo injusto não recordar os muitos trabalhadores da EDM que se afoitaram em zonas minadas. E que, por isso, pagaram elevado preço. Pagaram o preço de rebentar uma mina. Certo é, que o fim da guerra veio colocar outros e novos desafios. O maior dos quais consiste, sem dúvida, na electrificação do país. É neste contexto, parece ser neste contexto, que a EDM mergulha, deliciada, no liberalismo económico. Mais. Atreve-se, mesmo, a enveredar pela via do capitalismo selvagem. E, aí, começa a sua desumanização. Mais grave, ainda. Renega, esforços, valores e vidas, perdidas no passado, para apostar numa via que sabe, ou devia saber, não ter futuro. Ou ter futuro mais do que duvidoso.
Recordar, aqui, o que tem sido o descalabro da gestão da EDM nos últimos anos é, no seu todo, um exercício inútil. Voltar a escrever sobre a forma como foi introduzida e é cobrada a taxa de recolha de lixo, sequer faz sentido. Porque ninguém age, ninguém quer saber quando se apontam ilegalidades. Mas, mesmo sabendo que assim é, que assim vai sendo, há factos mais recentes que não devem ser aceites como normais. Por exemplo, na minha zona, o prazo limite para o pagamento dos consumos de energia foi, durante muito tempo, o dia 10 de cada mês. Até Julho do corrente ano, assim foi. Depois, em Agosto, passou para o dia 5 e 25. Quer dizer, dois pagamentos num único mês. Já no mês de Setembro, o limite foi o dia 20. No mês em que estamos, vamos ter de pagar até ao próximo dia 15. Quer dizer, para quem possa não estar a perceber bem o que se passa, impera o caos e a desorganização na EDM. Com uma situação agravante. Quando são emitidas duas facturas num mês, como foi o caso de Agosto, são cobradas duas vezes a taxa de rádio e de recolha de lixo. Onde fica ou para onde vai este dinheiro cobrado ilegalmente, é questão que importa esclarecer. Por quem deve e tem poder para o fazer. Mas, tem mais em matéria de ilegalidade e da forma subtil utilizada pela EDM para extorquir dinheiro aos seus consumidores. A situação não é nova, há muito foi denunciada. Mas a vigarice continua. Estamos a falar dos tão publicitados credelec. Estes aparelhos, que para uns parece serem milagreiros e para outros milagrosos, comportam-se, mais coisa menos coisa, como as máquinas de casino, as conhecidas “caça-níqueis”. O lucro é sempre para o dono, o dono jamais perde. Primeiro, porque ninguém gosta de perder e, segundo, porque a máquina foi programada para ganhar sempre, foi programada para não perder. Pois, então, o dito credelec também está programado para que sempre que o consumidor compre energia pague a taxa para a RM. Sempre. Independentemente do valor da compra. Quem compra cem contos de energia, paga dez contos. Quem compra 500 ou mil contos, paga os mesmos dez contos. Quem compra energia três vezes por mês, pagas três vezes a taxa para a RM. Quem compra uma vez, paga uma vez. Questão última, é a de saber como a EDM controla esta cobrança, abusiva e ilegal, de taxas e como faz a sua entrega à RM. Ou se, simplesmente, faz uma entrega por estimativa. Possa perecer que não, em época de eleições estas pequenas coisas, estes pequenos esclarecimentos podem ter algum significado. E, se nos soubermos situar na nossa realidade, podem ter um grande significado.
antes e depois
Luís David
podem ter um grande significado
Conserva a EDM, na sua história recente, factos e acontecimentos de inegável valor, de grande importância. Na e para a vida de todos nós, também. Pode dizer-se, sem exagero, são muitos os exemplos de trabalho abnegado, de heroicidade até. Seria de todo injusto não recordar o esforço desenvolvido para levantar torres de transporte derrubadas durante a guerra no sul do país. Seria de todo injusto não recordar o esforço desenvolvido para fornecer energia a Maputo, por meios alternativos, mesmo que parcialmente. Seria de todo injusto não recordar os muitos trabalhadores da EDM que se afoitaram em zonas minadas. E que, por isso, pagaram elevado preço. Pagaram o preço de rebentar uma mina. Certo é, que o fim da guerra veio colocar outros e novos desafios. O maior dos quais consiste, sem dúvida, na electrificação do país. É neste contexto, parece ser neste contexto, que a EDM mergulha, deliciada, no liberalismo económico. Mais. Atreve-se, mesmo, a enveredar pela via do capitalismo selvagem. E, aí, começa a sua desumanização. Mais grave, ainda. Renega, esforços, valores e vidas, perdidas no passado, para apostar numa via que sabe, ou devia saber, não ter futuro. Ou ter futuro mais do que duvidoso.
Recordar, aqui, o que tem sido o descalabro da gestão da EDM nos últimos anos é, no seu todo, um exercício inútil. Voltar a escrever sobre a forma como foi introduzida e é cobrada a taxa de recolha de lixo, sequer faz sentido. Porque ninguém age, ninguém quer saber quando se apontam ilegalidades. Mas, mesmo sabendo que assim é, que assim vai sendo, há factos mais recentes que não devem ser aceites como normais. Por exemplo, na minha zona, o prazo limite para o pagamento dos consumos de energia foi, durante muito tempo, o dia 10 de cada mês. Até Julho do corrente ano, assim foi. Depois, em Agosto, passou para o dia 5 e 25. Quer dizer, dois pagamentos num único mês. Já no mês de Setembro, o limite foi o dia 20. No mês em que estamos, vamos ter de pagar até ao próximo dia 15. Quer dizer, para quem possa não estar a perceber bem o que se passa, impera o caos e a desorganização na EDM. Com uma situação agravante. Quando são emitidas duas facturas num mês, como foi o caso de Agosto, são cobradas duas vezes a taxa de rádio e de recolha de lixo. Onde fica ou para onde vai este dinheiro cobrado ilegalmente, é questão que importa esclarecer. Por quem deve e tem poder para o fazer. Mas, tem mais em matéria de ilegalidade e da forma subtil utilizada pela EDM para extorquir dinheiro aos seus consumidores. A situação não é nova, há muito foi denunciada. Mas a vigarice continua. Estamos a falar dos tão publicitados credelec. Estes aparelhos, que para uns parece serem milagreiros e para outros milagrosos, comportam-se, mais coisa menos coisa, como as máquinas de casino, as conhecidas “caça-níqueis”. O lucro é sempre para o dono, o dono jamais perde. Primeiro, porque ninguém gosta de perder e, segundo, porque a máquina foi programada para ganhar sempre, foi programada para não perder. Pois, então, o dito credelec também está programado para que sempre que o consumidor compre energia pague a taxa para a RM. Sempre. Independentemente do valor da compra. Quem compra cem contos de energia, paga dez contos. Quem compra 500 ou mil contos, paga os mesmos dez contos. Quem compra energia três vezes por mês, pagas três vezes a taxa para a RM. Quem compra uma vez, paga uma vez. Questão última, é a de saber como a EDM controla esta cobrança, abusiva e ilegal, de taxas e como faz a sua entrega à RM. Ou se, simplesmente, faz uma entrega por estimativa. Possa perecer que não, em época de eleições estas pequenas coisas, estes pequenos esclarecimentos podem ter algum significado. E, se nos soubermos situar na nossa realidade, podem ter um grande significado.
segunda-feira, outubro 04, 2004
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 3 de Outubro, 2004
antes e depois
Luís David
a continuação da paz é possível
Assinala-se, amanhã, mais um aniversário da assinatura dos Acordos de Roma. É uma data que se junta a muitas outras da história recente de Moçambique. É uma data que significa paz. E que tem a particularidade de, no acontecimento que deu origem à comemoração, ter sido protagonizada por dois moçambicanos, ambos vivos. Um, Joaquim Chissano, que está prestes a deixar a Presidência da República. O outro, Afonso Dhlakama, candidato ao lugar que vai ficar vago. E, foi há poucos dias, quando procedeu à entrega dos documentos para a sua candidatura a Presidente da República, que o presidente da RENAMO fez questão de deixar claro que a paz será um dado adquirido. Irreversível, como todos desejamos. Disse, na ocasião, aceitar os resultados das próximas eleições, sejam quais venham a ser. Como teve palavras elogiosas para com o actual Governo dirigido pela FRELIMO. Mais, palavras de reconciliação. Ou, se assim o quisermos entender, uma postura de Estado. Esperemos, e façamos votos, para que as cerimónias do dia de amanhã confirmem, venham confirmar as previsões de hoje e garantir um futuro de paz. Ou a paz no futuro. O que podendo parecer não é, exactamente, a mesma coisa.
Com a assinatura dos Acordos de Roma, Moçambique entrou numa nova era. Criadas as condições para a paz, assumida a paz como um bem, foi possível caminhar no sentido da reconstrução e do progresso. Mesmo que relativo, mesmo que mitigado. Aspecto importante e fundamental, é o de ter passado a ser possível a circulação de pessoas e de bens por todo o país. Salvo raras excepções e em zonas bem definidas. Que bem podem, num futuro imediato deixar, também, de ser excepção. O que não impede o entusiasmo com que se fala no desenvolvimento do turismo. Uma indústria que, como todos sabemos, pode vir a ser importante fonte geradora de divisas. Motivo de preocupação é, isso sim, o registos de assaltos, com armas de fogo, a viaturas que circulam por estradas do Sul do país. Principalmente na Nacional 1 e 4. Hoje, informação que passa boca-a-boca ou enviada por correio electrónico, aponta locais dos assaltos, métodos utilizados pelos assaltantes, marca e cor das viaturas em que se fazem transportar. Por estranho que pareça, até ao momento, a Polícia de Trânsito não divulgou nenhum alerta, não emitiu nenhuma informação sobre cuidados a ter em zonas consideradas de circulação perigosa. E, já teve suficiente tempo para o fazer. Esperemos que não seja necessário a perda de vidas humanas para a tomada de medidas que situação aconselha. A paz, convenhamos, não é só a ausência da guerra. Muito menos poderá ser um processo unilateral. A paz só é possível se for um processo global. E, os últimos sinais indicam que, se todos quisermos, a continuação da paz é possível.
antes e depois
Luís David
a continuação da paz é possível
Assinala-se, amanhã, mais um aniversário da assinatura dos Acordos de Roma. É uma data que se junta a muitas outras da história recente de Moçambique. É uma data que significa paz. E que tem a particularidade de, no acontecimento que deu origem à comemoração, ter sido protagonizada por dois moçambicanos, ambos vivos. Um, Joaquim Chissano, que está prestes a deixar a Presidência da República. O outro, Afonso Dhlakama, candidato ao lugar que vai ficar vago. E, foi há poucos dias, quando procedeu à entrega dos documentos para a sua candidatura a Presidente da República, que o presidente da RENAMO fez questão de deixar claro que a paz será um dado adquirido. Irreversível, como todos desejamos. Disse, na ocasião, aceitar os resultados das próximas eleições, sejam quais venham a ser. Como teve palavras elogiosas para com o actual Governo dirigido pela FRELIMO. Mais, palavras de reconciliação. Ou, se assim o quisermos entender, uma postura de Estado. Esperemos, e façamos votos, para que as cerimónias do dia de amanhã confirmem, venham confirmar as previsões de hoje e garantir um futuro de paz. Ou a paz no futuro. O que podendo parecer não é, exactamente, a mesma coisa.
Com a assinatura dos Acordos de Roma, Moçambique entrou numa nova era. Criadas as condições para a paz, assumida a paz como um bem, foi possível caminhar no sentido da reconstrução e do progresso. Mesmo que relativo, mesmo que mitigado. Aspecto importante e fundamental, é o de ter passado a ser possível a circulação de pessoas e de bens por todo o país. Salvo raras excepções e em zonas bem definidas. Que bem podem, num futuro imediato deixar, também, de ser excepção. O que não impede o entusiasmo com que se fala no desenvolvimento do turismo. Uma indústria que, como todos sabemos, pode vir a ser importante fonte geradora de divisas. Motivo de preocupação é, isso sim, o registos de assaltos, com armas de fogo, a viaturas que circulam por estradas do Sul do país. Principalmente na Nacional 1 e 4. Hoje, informação que passa boca-a-boca ou enviada por correio electrónico, aponta locais dos assaltos, métodos utilizados pelos assaltantes, marca e cor das viaturas em que se fazem transportar. Por estranho que pareça, até ao momento, a Polícia de Trânsito não divulgou nenhum alerta, não emitiu nenhuma informação sobre cuidados a ter em zonas consideradas de circulação perigosa. E, já teve suficiente tempo para o fazer. Esperemos que não seja necessário a perda de vidas humanas para a tomada de medidas que situação aconselha. A paz, convenhamos, não é só a ausência da guerra. Muito menos poderá ser um processo unilateral. A paz só é possível se for um processo global. E, os últimos sinais indicam que, se todos quisermos, a continuação da paz é possível.
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