domingo, janeiro 09, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 9 de Janeiro, 2005

antes e depois

Luís David


o devir tem de ser assumido hoje


Pela terceira vez, a RENAMO-União Eleitoral contesta o resultado das eleições. É um direito que lhe assiste, por Lei. É um direito que assiste a todos os partidos que julguem ter sido prejudicados. Há, porém, neste protesto, nesta reclamação, uma forma nova e inovadora de protestar e de reclamar. Uma forma nova e inovadora para exigir o que se reclama como direito. Diz, então, ameaça a RENAMO-União Eleitoral, que nenhum dos deputados eleitos pelas suas listas irá sentar-se no Parlamento acaso a sua pretensão venha a não ser atendida. Como diz que o seu presidente recusa tomar posse como membro do Conselho de Estado. Por isto, por tudo e pelo mais que, muito certamente, escapa à nossa compreensão, um dirigente de um partido integrante da União Eleitoral veio a público falar de crise política. Mais. Foi mais longe. Mesmo sem revelar, mesmo sem dizer quais os contornos dessa crise política, veio oferecer-se para mediador do que entende por crise. Para salvar a estabilidade nacional. Que nunca esteve, sequer está, em causa. Ora, para além de poder parecer, e de ser, uma maneira desajeitada de apanhar a última carruagem com o combóio em andamento, afigura-se, também, como maneira desastrosa e desastrada de tentar criar um facto político. Só que, os factos político são criados, para poderem ter resultados, de forma bem mais sofisticada. Não é assim que o poder instituído cai, não por estes processos canhestros que se consegue protagonismo. Muito menos conquista o poder.


Vamos admitir, por hipótese, que sim. Vamos admitir que os deputados, eleitos por voto secreto, nas listas da RENAMO-União Eleitoral recusam, em bloco, tomar os seus lugares no Parlamento. Vamos admitir que o presidente da RENAMO recusa tomar o lugar que lhe está reservado no Conselho de Estado. No campo das hipótese, se tal vier a acontecer, o que sucede em termos de estabilidade política nacional é, muito simplesmente, igual a nada. Muito embora, convenhamos, as regras da alternância democrática possam estar definitivamente feridas. E, feridas de morte. Porque, claramente, aquilo que se procura apresentar como crise política nacional, não passa de uma crise, desejamos que passageira, no interior do maior partido da oposição. Do segundo partido mais votado. E que ao pretender abdicar do mandato que lhe foi conferido pelos eleitores, está, muito simplesmente, a trair a democracia e os valores democráticos já conquistados. Definitivamente, caso a RENAMO-União Eleitoral não consiga resolver as suas crises intestinais, a FRELIMO poderá ter de governar, nos próximos cinco anos, sem opositor, sem oposição no Parlamento. O que a acontecer, e poderá, no campo das hipóteses, vir a acontecer, será uma perda para a democracia. Será uma perda democrática. E, se tal acontecer, se tal vier a acontecer, por hipótese, porque pode acontecer, que ninguém venha a apresentar queixa, que ninguém venha lamentar-se. O futuro, o devir tem de ser assumido hoje.


domingo, janeiro 02, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 2 de Janeiro, 2005


antes e depois

Luís David


quem manda é a Mãe Natureza

Acabámos de entrar no ano de 2005. Temos poucas horas, ainda, de 2005. E, o ano que vem, o Ano Novo é, sempre e tradicionalmente, um ano de esperança. Todos os anos que começam são anos de esperança. Como todos os anos que terminam são, na generalidade, anos de desesperança. O Ano Novo é, sempre, na nossa crença, o Ano Bom como o ano velho é o ano mau. Vivemos o mito, deixamo-nos enredar no misticismo. Aproveitamos os últimos momentos de cada ano para deitar fora, para deitar no lixo, tudo o que nos pareça velho e inútil. Tudo o que nos pareça ser lixo. Inutilidade. E fazemo-lo, por vezes, com desastrada e com desastrosa sonoridade. Está por investigar, ou talvez não, o motivo pelo qual a passagem de um ano para outro deva ser assinalada de forma barulhenta. Em muitos casos, uma barulheira esquizofrénica e patológica. Se é que barulho, rebentamento de petardos ou disparos de armas de fogo significa alegria, ainda ninguém tentou provar que assim é.


A quadra dita festiva, e que antecedeu a entrada no Novo Ano, em Moçambique, ficou marcada de forma algo dramática. Elevado número de acidentes de viação provocaram algumas dezenas de mortes. Muitas foram as famílias que, em vez de festa, tiveram luto. Na nossa zona marinha, na zona do Oceano Índico, a que pertencemos e de que somo parte integrante, a destruição, a morte e o luto ocuparam o tempo e o espaço da festa programada e desejada. A dor e o luto ocuparam o espaço da anunciada ruidosa festa. Não terá havido fogo de artifício. Nem tempo para o erguer da taça de champanhe ao bater das doze badaladas. Mais de cem mil mortos, dezenas de milhar de desaparecidos, milhões de deslocados é um cenário, aparentemente, irrealista. Mas é, sem dúvida a realidade. E a realidade é, também e sobretudo, muito para além daquilo que as câmaras de televisão nos mostram, aquilo que não mostram. Porque o que mostram, repetitivamente, são turistas desesperados E, aquilo que não mostram é, sobretudo, o destino dos muitos milhares de mortos, dos mortos que haverão de ter, por falta de identificação, como destino último, a vala comum. Quando para isso houver espaço. E, estes, em termos de história, nunca serão mais do que um número. Um número impreciso, pouco fiável e de pouco significado. Este maremoto, esta catástrofe que se abateu sobre a nossa região, parece querer dizer que, afinal, os homens continuam com pouco poder para determinar e gerir os destinos da Humanidade e do Planeta Terra. Parece querer dizer que quem manda é a Mãe Natureza.

domingo, dezembro 26, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 26 de Dezembro, 2004


antes e depois

Luís David

saber perder é uma questão de dignidade

A história repete-se. Parece repetir-se. Ciclicamente, de cinco em cinco anos. Sempre que há eleições, o discurso da oposição repete-se. É um discurso sempre igual. Aberrante, chato, enfadonho. Porque é, sempre e invariavelmente, o discurso da fraude. Por antecipação, o discurso da fraude. Do género se eu perder é porque houve fraude. E, sendo por antecipação o discurso da fraude, pode ser também, é também, o discurso de quem, em consciência, parte derrotado para a corrida eleitoral para o mais alto cargo da República. Nesta perspectiva, sendo, como parece, um discurso infantil de candidato antecipadamente derrotado, é, acima de tudo um discurso masoquista. O discurso de quem se propôs auto-flagelar-se com a derrota. O discurso do injustiçado. O discurso de quem, sabendo e tendo consciência que tinha condições poucas ou nenhumas para ser eleito Presidente da República, reclama, agora, dever ter sido o eleito se... Exactamente se...



No antes das eleições agora realizadas, a RENAMO terá começado por cantar vitória fácil. Aparentemente, ensaiou um discurso confiante. Um discurso, digamos, triunfante. Um discurso triunfalista. Mas, discurso que só poderia convencer quem o proferia. E, mais do que tudo, quem aconselhava a proferi-lo. E, aquilo a que a alguns poderá ter parecido uma jogada de antecipação, poderá não ter sido mais do que um erro de estratégia. E, nestes casos, erros de estratégia pagam-se com derrotas, pagam-se com o adiar, por mais cinco anos, a conquista do poder. É que, a realidade nem sempre, ou raramente, corresponde ao desejo ou ao sonho. E, quando se acorda do sonho, do dormir suave e tranquilo, da ilusão por alguns criada e por outros alimentada, e a realidade é outra, é difícil ter de aceitar a realidade tal como é. É difícil ter de aceitar a derrota. Mesmo quando, ou sobretudo, aqueles a quem tanto se pediu protecção, aqueles a quem tanto se pediu observação isenta e imparcial aí estão, muito clara e inequivocamente, a confirmar a vitória de quem venceu. União Europeia, França, Estados Unidos da América não tiveram dúvidas sobre quem venceu as eleições, em felicitar, no imediato, o vencedor. Ora, quando perante esta realidade, que parece contrariar o sonho de alguém, se registam novas ameaças, corremos a ousadia de ter de afirmar, por muito que pareça paradoxo, que as eleições, sendo o que foram, deveriam ter sido coisa diferente. Para consentir a vitória a quem se dizia vencedor. Sem dúvida, ninguém gosta de perder. Mas, convenhamos, saber perder é uma questão de dignidade.
Publicado em Maputo, Moçammbique no Jornal Domingo de 19 de Dezembro, 2004

antes e depois

Luís David


uma extrema aberração


Em diferentes ocasiões e por diferentes motivos, fala-se em lusófono e em lusofonia. Há, até, reuniões, congressos, festivais de lusófonos e em nome da lusofonia. Pretende-se, ao que parece, nestas reuniões em que se encontram homens e mulheres de origens e de culturas diferentes e diversas, tentar afirmar que, afinal as partes constituem um todo. Pretende-se, em síntese e em tese, ao que parece, tentar fazer acreditar que os colonizados de ontem, ao assumirem ou ao terem sido forçados a assumir certos valores do colonizador, são hoje seus iguais. Fazem parte do seu mundo cultural, étnico e linguistico. Que todos se identificam numa cultura lusófona. Que ninguém sabe o que é, por em momento nenhum ter sido estudada, menos ainda definida. Que é, por exclusão de partes, coisa nenhuma. Que não existe. Ou, melhor, existe apenas e unicamente como neologismo. Não passa de uma palavra nova. Que, podendo não ser mais do que isso, também o pode ser. Pode ser uma palavra, pode ser um neologismo, com um sentido e um significado neocolonialista. Certamente que assim pode ser, que assim é.


No seu ensaio filosófico, a que deu o título “O Enigma Português”, F. Cunha Leão, falecido em 19774, busca as origens da fundação e da sobrevivência de Portugal ao longo dos séculos. E, escreve (pag. 89): Herculano contestou com veemência a filiação lusitana dos portugueses fundada na história de Roma e defendida pelo renascimento eborense. Segundo ele as sucessivas invasões e razias que o território sofreu por tão diversos povos reduzem a mera soberbia infundada essa tentativa genealógica de ir buscar fama a Sertório e a Viriato. Nas suas “20 Teses” sobre o tema referido, talvez a parte mais importante da obra, parece bem claro: 1) Uma parte da Galiza e outra da Lusitânia formaram Portugal. (...) 3) Lusos e galaicos distinguem-se, posto que povos individualizados em finisterra, de parentesco próximo e afinidades incontestáveis. 4) O português é uma síntese de lusitano e galaico, um luso-galego e só metaforicamente lusitano. Mais diz o filósofo, que escrevia em 1960 (tese 14), Os descobrimentos e a colonização constituem por isso a suprema afirmação dos portugueses, a linhas das comeadas do seu contorno histórico, e bem assim o complexo fenomenal que mais aproveita à interpretação da Grei. Ora, se bem entendo e se bem interpreto o filósofo, o lusitano nunca existiu. E, nesta linha de pensamento, se o lusitano não existiu, se não existiu no seu estado puro ou se existiu apenas como mestiçagem, como produto de um caldear de culturas, não poderá ser outra coisa se não um híbrido. Assim, assim não existindo, como parece não existir, o luso ou o lusitano, menos motivos parece haver para que possam existir lusófonos e lusofonia. De resto, e por fim, à luz do exposto, parece fazer sentido nenhum que homens e mulheres de origem e de cultura baniu alguma vez possam vir a ser lusófonos. Estamos, no mínimo, perante um equívoco, uma extrema aberração.

domingo, dezembro 12, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de 12 de Dezembro, 2004

antes e depois

Luís David


algo está errado

Parece não existiram muitas dúvidas que a abstenção em processos eleitorais é, hoje e desde há muito tempo, um fenómeno à escala mundial. Universal. Um fenómeno que, diga-se, deixou de ser fenómeno para entrar, para fazer parte da normalidade. Embora a todos preocupe e todos os Estados democráticos, de uma forma geral, procurem meios para combater a abstenção. Sempre, repita-se, sempre tendo em atenção a relação custo/benefício. Isto é, que qualquer processo alternativo ao tradicional depósito do voto na urna não provoque aumento de custos. Esta é a posição divulgada, recentemente, pelo Instituto para a Democracia e Apoio Eleitoral (IDEA), um centro de investigação sediado em Estocolmo, na Suécia. Um sistema com resultados comprovados, segundo o IDEA, em relação a diversos países da Europa, tem sido o voto pelo correio. Que, em alguns casos está em fase experimental e noutros consolidado. Hoje, segundo a mesma fonte, cerca de quatro por cento dos votantes na Grã-Bretanha e 40 por cento da Finlândia votam pelo correio. Na Suécia, desde 1942, todos os cidadãos, sem aviso prévio, podem dirigir-se a um posto dos Correios e votar em impressos próprios para o efeito. Isto acontece, claramente, em países onde os Correios funcionam e onde a realidade é completamente diferente da nossa. Mas, independente de todas as considerações que se queiram fazer e admitir, serve para demonstrar que em Estados onde a democracia tem muitas e muitas décadas, o chamado fenómeno abstenção começou a ser combatido há mais de meio século.


Tem sido dito e repetido, com mais do que demasiada insistência, que a elevada percentagem de abstenção nas últimas eleições representa um aviso aos políticos. Uma ameaça aos futuros governantes. E, até se não com algum exagero, que quem vier a governar, por eleito, com tão reduzido número de votos, pouco ou nenhuma legitimidade terá para governar. São, obviamente, leituras possíveis, leituras respeitáveis, opiniões a não desconsiderar. Temos, no entanto, de aceitar que leitura diferente não deva ser rejeitada. Não deva ser recusada. Isto é, que uma leitura moçambicana de melhoria de vida e de mudança possa não ser, exactamente, aquela que outros tentam fazer. E que, talvez, é necessário admitir, terão dificuldade em comunicar. Comparar o último processo eleitoral com os anteriores, como, em alguns casos tem sido tentado, parece um processo arriscado. Por falta de contexto. As realidades sociais e económicas reinantes e dominantes em cada um dos momentos são completamente diferentes. E, aceitemos, os motivos que levaram a votar ontem podem não ser os mesmos que levaram a votar hoje, Assim como os motivos que levaram a votar ontem podem ser os mesmo que levaram a não votar hoje. Mas, convenhamos, em última análise, a questão principal parece não ser a do motivo pelo qual muitos não votaram. Mas a de criar novas e diferentes condições para que mais possam votar. Ou, e talvez seja o caso, como titulava o “Notícias”, na sua edição da última quinta-feira, uma questão de Simplificar o processo de votação. Caso assim seja, e parece que assim é, tudo o resto é um exercício inútil. Basta que estejamos todos de acordo no essencial. No fundamental. E que acordemos para a realidade de que o fenómeno das abstenções, em processos eleitorais democráticos, começou a ser estudado há mais de cinco décadas. E, se situações semelhantes ou idênticas se repetem em tão diferentes países não é, certamente, por o eleitor estar errado. Embora, concordemos, algo está errado.
Publicado em Mpauto, Moçambique, no Jornal Domingo, de 5 de Dezembro, 2004

antes e depois

Luís David

saber criar

Coisa difícil, parece ser, é, não escrever após as eleições sem ser sobre eleições. E, escrever sobre as recentes eleições, neste momento, é, terá de ser, evitar engrossar a corrente, aparentemente dominante e dominadora, daqueles que se perfilam, que se perfilaram, para pedir estudos e investigação do que consideram como fenómeno da abstenção. Querem saber uns, querem conhecer outros, o motivo, a causa, a razão que levou o camponês a preterir a mesa de voto em alternativa à machamba e o citadino a optar pela praia ou pelo copo na barraca em alternativa a cumprir com o seu dever cívico. São, logicamente, preocupações legítimas. Intelectualmente legítimas. Talvez, arrisco sugerir, desfasadas da realidade cultural nacional. Se sim ou se não, os estudos, a fazer no curto e no médio prazos, pagos, muito hipoteticamente, por quem suportou os custos destas eleições, irão surgir. Irão, virão dizer-nos, virão tentar provar aquilo que já foi dito e ficou provado em eleições anteriores. Este modelo, caro, demasiado caro para a nossa realidade e que se presta a grosseiras intromissões estrangeiras, está esgotado. Na pior das hipóteses, é necessário pensar. Mesmo quando todos sabemos que pensar é exercício difícil. E, arriscado. Principalmente quando os bonzos já estão perfilados.


Pessoalmente, mal conheci António de Almeida Santos. Doutor em Leis, formado na Universidade de Coimbra, aqui se fez radicar há muitas décadas. Depois do 25 de Abril, regressado a Portugal, fez parte de diferentes governos. Foi Presidente da Assembleia da República. Na Minerva, descobri, um dia, textos e fotografias da sua vinda a Moçambique. Numa casa de venda de discos, que existiu no prédio das arcadas, hoje EMOSE, recordo ter comprado, já a preço de saldo e pouco antes de encerrar, vários exemplares de um disco seu, com fados de Coimbra. Um disco dos seus tempos de fadista e de boémio. Mais recente, mais recentemente, tive oportunidade de ler dois dos últimos dos muitos livros que escreveu ao longo da sua vida. Num, com cerca de 400 páginas “Por favor preocupem-se”, cuja quarta edição tem data de 1999, revela as suas preocupações sobre os problemas actuais, manifesta o seu cepticismo em relação à democracia participativa perante os avanços das novas tecnologias e escreve: O velho expediente de reunir no adro da igreja todos os cidadãos de uma minúscula unidade política para, de braço no ar, decidirem o que achavam melhor para a respectiva comunidade regressará, tecnologicamente alargado, ao espaço nacional, continental, universal amanhã. Mas antes, muito antes, logo na página 8 da mesma obra nos havia advertido: Tendemos a rejeitar o que nos desagrada. Em contraponto acreditamos facilmente no que desejamos. Daí que as posições confiadas e relaxantes colham mais adesões do que as advertências pesadas. Ou, parafraseando Nietzsche, Não é no conhecimento, mas sim na criação que está a nossa salvação. Então, para além de conhecer, do muito conhecer, por muito se poder vir a investigar e conhecer, há que saber criar. Assim, temos e havemos de saber criar. Porque, assim o diz o filósofo, a nossa salvação não está no imitar. Não está no copiar. Não está no saber copiar. Afinal, estas, tarefa medíocre, tarefa de medíocres, tarefa de bonzos. A nossa tarefa está em criar. Em saber criar.

terça-feira, novembro 30, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 28 de Novembro, 2004

antes e depois

Luís David

É coisa diferente


Estamos a poucas horas do fim da campanha eleitoral para as eleições presidenciais e legislativas de Dezembro próximo. O muito ou o pouco que aqui possa dizer-se, em nada poderá influir sobre o voto do potencial eleitor. Contudo, parece não ser de menor importância fazer uma breve reflexão sobre a pressão e as acusações feitas, por partidos da oposição, a alguns órgãos de Informação nacionais por não fazerem uma cobertura das suas actividades. Mesmo quando, e este parece ser aspecto fundamental, recusaram informar a que horas e onde iriam ser desenvolvidas dessas suas actividades de campanha. Aparentemente, este tipo de estratégia foi mal escolhido. Mas, antes de passarmos adiante, importa recordar que, passam já muitos anos, um correspondente estrangeiro disse ter visto, e por isso terá divulgado o que disse ter visto, aviões a sobrevoarem Maputo. Convidado a justificar a veracidade da notícia pelo então Ministro da Informação, não terá sido convincente. Por esse motivo, por divulgar uma mentira, foi expulso de Moçambique. Mais recentemente, no final das últimas eleições, outro jornalista, também estrangeiro, igualmente português, divulgou para o mundo que a RENAMO e o seu presidente haviam ganho as eleições. Feitas as contas, não era bem assim. Tratava-se de mais uma mentira. Mas, de uma mentira não inocente. De uma mentira paga, de uma mentira bem paga, de uma mentira paga a peso de ouro. Em última análise, de uma tentativa para desestabilizar e para desacreditar o processo eleitoral. Na sua totalidade.


Na presente campanha eleitoral, o principal partido da oposição, terá adoptado, inicialmente, uma estratégia diferente. A tónica deixou de ser colocada na fraude eleitoral e desviou-se para o trabalho, para a forma de actuação dos órgãos de Informação, especialmente os do serviço público. Quer-se dizer, e esta foi a mensagem que foi tentado passar, se o referido partido e o seu candidato perderem, a responsabilidade será, toda ela, de quem não cobriu, ampliou ou divulgou a sua mensagem. Em termos simples e lineares, o “bode expiatório”, em caso de derrota, deixou de ser o STAE e CNE para passar a ser a Informação. Uma certa informação. Muito claramente a de prestação do serviço público Mais precisamente a TVM. Mas, e há sempre um mas, como a mentira, por tão rasteira, não ter ganhado raízes, necessário era trepar. Trepar às arvores. Trepar à copa das árvores. E, lá do alto, lá de cima, gritar bem alto que há por aí quem pretende assassinar Dhlakama. Que o presidente da RENAMO é um alvo a abater pela segurança do Estado. E, foi assim, nestes termos, mais ponto menos vírgula, que Lusa e RTPÁfrica se fizeram eco dessa declaração. Sem investigarem. Sem procederem a qualquer investigação. Sem confrontarem a informação com nenhuma outra fonte. Dizem, alguns, menos avisados, que estes são jornalismos e jornalistas de referência. Creio mais no inverso. Creio que estes jornalistas, por nunca o terem sido, por nunca terem sido jornalistas, são tudo menos jornalistas. Sobretudo porque ser jornalista em Moçambique, hoje, não pode passar pelos critérios do jornalismo neo-colonialista. O jornalismo moçambicano é outra coisa. É coisa diferente.




terça-feira, novembro 23, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 21 de Novembro, 2004

antes e depois

Luís David


uma questão de Estado

A campanha eleitoral para as próximas eleições terá entrado, segundo os mais entendidos na matéria, naquilo a que chamam de recta final. Aceito que sim. E, aceito que sim pelo simples facto de que em qualquer percurso há sempre uma recta final. Mesmo quando aquilo a que se possa chamar de recta final tenha pouca a ver com recta e com final. E, isto, porque, no meu entender em política não há rectas nem final. Haverá, isso sim, curvas, muitas curvas, e objectivos. Sendo que o objectivo único e final é o da conquista do poder. E, conquistar o poder, começa por saber conquistar o eleitorado, quem tem a possibilidade ou o poder de votar. Para tanto, para conquistar o eleitorado, necessário é prometer. Prometer tudo e mais alguma coisa. Prometer o que pode ser realizado, como prometer utopias. Como prometer o que não tem qualquer possibilidade de ser realizado. E, no contexto nacional moçambicano do momento, prometer emprego para todos é mais do que utopia. É uma mentira. É enganar o eleitorado. Pelo simples facto de que, a nível mundial, o emprego é cada dia um bem mais raro. Pelo simples facto de que, a nível mundial, quem tem emprego luta por conservá-lo. Quem o não tem, poucas são as possibilidades de vir a tê-lo. Hoje, o que se oferece, o que está disponível é trabalho. E trabalho não é, nem de longe nem de perto, o mesmo que emprego. Que o digam, que o confirmem ou o desmintam os parceiros sociais moçambicanos empenhados na revisão da Lei do Trabalho.


Pelo que nos é dado ler em jornais e ver em televisões de todo o mundo, em tempo de eleições tornou-se hábito que esposas de candidatos presidenciais façam campanha ao lado de seus maridos. Acontece assim na Europa, vimos que assim foi, muito recentemente, nos Estados Unidos da América. Onde, onde, repita-se, a esposa de um dos candidatos, que viria a ser o candidato perdedor, se afirmava, por o ser, de origem portuguesa e nascida em Moçambique. Creio eu que nos deu alguma satisfação ver esta mulher a defender os ideais do seu marido, ver esta mulher ao lado do seu marido e ver esta mulher a afirmar, em quantas línguas domina, defender um projecto comum e nacional. Nacionalista. Nós por cá, pensamos diferente. Pensamos que é bom viram europeus e americanos fiscalizar as eleições. Mas pensamos que é mau, estamos agora a saber que é mau quando os candidatos, quando um candidato, leva a sua mulher para campanha eleitoral. Quando um dos candidatos procura mostrar ao eleitorado que tem família, que tem uma família que o apoia num projecto de governação. Como fazem europeus e americanos. Mas, se outros candidatos às presidenciais moçambicanas não tem mulher ou, podendo ter mulher, não a querem expor ao eleitorado, não a querem mostrar, o erro, se nisso há erro, não está em quem mostrou na companhia de quem pretende governar. Está em quem não soube ou não pode mostrar na companhia de quem pretende governar. Até ao momento, apenas conhecemos a mulher de um dos candidatos à presidência da República. Se os outros não tem mulher ou se têm muitas, permanece como incógnita. Embora sendo, como todos o sabemos, uma questão de Estado.

domingo, novembro 14, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 14 de Novembro, 2004

antes e depois

Luís David

a todos uma boa viagem


A adesão de Moçambique ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional terá sido decidida após amplas e profundas discussões internas. E, uma vez decidido que sim, decidido que Moçambique deveria passar a ser membro do BM e do FMI, uma segunda questão se colocava. Esta, era do modelo a seguir, o modelo a adoptar. Como sempre acontece nestas situações, confrontaram-se duas posições. A dos que defendiam uma transformação lenta e progressiva da economia nacional e a dos que defendiam aquilo a que habitualmente se classifica como “tratamento de choque”. Terá saído triunfante a posição destes últimos. Cujos mais acérrimos defensores, pouco tempo depois, estavam colocados em postos de relevo de diferentes organismos internacionais. Onde permanecem. Com deslocações poucas, ou nenhumas, a Moçambique. Entretanto, ou posteriormente, começam as negociações no Clube de Paris. Recordamos todos, os que não temos memórias curtas, que, inicialmente, nos era concedido muito menos que pedíamos, do que considerávamos necessário para os nossos programas. Para a nossa sobrevivência. Depois, com o avançar do tempo, a situação foi-se alterando. O montante concedido passou a ser muito semelhante ao montante solicitado. Por fim, aconteceu, aconteceu já, o montante concedido foi superior ao pedido. O que pode ter dois significados. Um, é o de que merecemos todo o crédito de instituições internacionais por sabermos aplicar correctamente os fundos que nos são atribuídos. Outro, é o de quem concedeu dinheiro e dinheiro não solicitado se sentir no direito de dizer e de impor o que devemos fazer. Se é ou não uma forma moderna de neocolonialismo, deixo correr o tempo para ver.


Na crónica que assina no semanário “Savana”, Machado da Graça dedica-me esta sexta-feira algumas linhas. E, pergunta-me, sobre o que escrevi neste espaço, domingo passado, quem pagará as próximas eleições, se a EU não voltar. Devo dizer, desde já, que podendo parecer pertinente, por parte de quem a faz, para mim a pergunta é absolutamente irrelevante. Por não fazer sentido. Entendo eu, no meu fraco e modesto entender, que a questão que deve ser colocada é para saber como fazer e que mecanismos desenvolver para reduzir e eliminar este tipo de financiamentos. Estes financiamentos para áreas tão sensíveis como são as eleições. Em última análise, o que podemos e devemos fazer, em conjunto, para termos em conjunto, como Moçambique, fundos para realizar eleições moçambicanas fiscalizadas por estrangeiros de acordos com a legislação moçambicana. Creio eu, mas posso estar errado, que este derrotismo, esta falta de visão de futuro, esta falta de nacionalismo e esta falta de sentir que se deve e pode fazer diferente ou diverso é, em si, um aceitar antecipado da derrota. É, em última análise, aquilo a que os eurocentristas chamaram e continuam a chamar de afro-pessimismo. Que em última análise, nada mais é do que uma nova forma de colonialismo. Pois, e para terminar, dizer o que já disse, reafirmar o que pode não ser necessário reafirmar. Então, por outras ou por palavras diferentes, desejar a todos uma boa viagem.

domingo, novembro 07, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 7 de Novembro, 2004

antes e depois

Luís David


que seja uma ida sem vinda


Como todos sabemos, o Mundo é redondo. Mas, também é pequeno. Pequeno no sentido em que o que se passa, o que acontece, neste momento, em um qualquer ponto, é conhecido quase no imediato a um nível global. Graças, naturalmente, às modernas tecnologias de informação e de comunicação. Foi por isso e graças a estas tecnologias, que ficámos a saber, em tempo quase real, que os observadores da Organização para a Segurança e Cooperação da Europa (OSCE) haviam sido impedidos de entrar nas assembleias de voto nos Estados Unidos. Um dos deputados europeus disse à Imprensa que “nós não fomos autorizados a entrar nas assembleias de voto”. E, terá acrescentado, “é um problema, pois, embora tenhamos sido convidados oficialmente para seguir estas eleições, não fizeram passar essa mensagem às assembleias de voto”. Pior, segundo o referido observador, foi mandado para trás em três das quatro assembleias de voto que quis visitar. Quer isto dizer, salvo melhor opinião, que os três observadores europeus foram obrigados a cumprir a legislação americana sobre matéria eleitoral. E, tenham ou não gostado, tiveram de a cumprir. E de se calar. E, parece que se calaram como se cala o cordeiro quando se sente ameaçado pelo lobo. Diz, ainda, a mesma notícia, que os observadores da OSCE “recolheram as suas experiências sobre a democracia norte-americana para um relatório a elaborar sobre o mesmo tema”. Mais não diz a citada notícia mas, podemos especular sem risco de erro, entraram no primeiro avião e regressaram aos seus países europeus. Onde, certamente, e é invariavelmente assim, irão afirmar missão cumprida.


Nós por cá, nestas quentes terras do Índico, em tempo de eleições, também recebemos observadores europeus. Ainda bem. Ainda bem, porque é sempre bom receber visitas. Visitantes ilustres, se assim se pode escrever. E, ainda bem porque, sendo Moçambique um país territorialmente bem mais pequeno do que os Estados Unidos da América, teve a honra de acolher, de receber, com muita antecedência, um número de observadores eleitorais europeus muito maior do que aquele que receberam os norte-americanos. Certamente, creio sinceramente, isto não é por sermos um país de pretos nem por os europeus nos considerarem um país de corruptos. Será para nosso bem, na sua óptica. E, eles, assim acreditam, assim o dizem, assim tentam fazer acreditar. Daí, certamente, o seu empenhamento em declarações públicas, as suas conferências de Imprensa onde se podem escutar declarações de intimidação e de ameaça. Em última análise, de chantagem. A estes senhores, ditos observadores, ditos observadores imparciais, não lhes assiste mais nenhum direito que não seja o de observarem e respeitarem a legislação moçambicana. Da mesma forma que respeitaram a legislação norte-americana. Por muito que isso lhes possa ter custado. Em termos de observação eleitoral, a União Europeia não tem o direito de aceitar, num caso, um critério americano e, noutro recusar o mesmo critério moçambicano. Pelo simples facto de ser moçambicano. Indígena de África. Querem não fazer relatório nenhum, querem ir embora, querem regressar à pátria Europa, pois que sim, que vão. Que regressem em paz. Mas, que seja uma ida sem vinda.