domingo, janeiro 30, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de 30 de Janeiro, 2005

antes e depois

Luís David

Basta não ter medo de enfrentar a verdade

Parece estar a haver, nos últimos tempos, um redobrado interesse, por parte de investigadores portugueses, sobre a forma de actuação do colonialismo português em África nas últimas décadas que antecederam a sua derrocada. O seu colapso. Na generalidade, são teses de doutoramento ou textos elaborados e adaptados, para livro, a partir das mesmas. O último dos três que me chegou, tem por título “A Igreja Católica e o Estado Novo em Moçambique”. É uma obra da autoria de Pedro Ramos Brandão, cientista e mestre em várias áreas. Que, na introdução, nos adverte que este livro foi objecto de um acordo de edição entre a Editorial Noticias e o Arquivo Histórico de Moçambique, em que foi previamente acordado o tamanho da obra. Quer dizer, para além do que o leitor pode encontrar nas cerca de 250 páginas, muito ficou por escrever. Como ficou a promessa de mais ser escrito sobre o que aconteceu em Moçambique entre 1930 e 1974, e a forma como Portugal lidou com a sua presença em Moçambique. Não sendo possível resumir, em poucas linhas, o conteúdo da obra, parece suficiente deixar claro que são colocadas em confronto as posições defendidas, na época e no espírito do Concílio Vaticano II, por D. Sebastião Soares de Resende, primeiro Bispo da Beira, por D. Manuel Vieira Pinto, Bispo de Nampula e pelos Padres de Burgos e do Macúti, e, por outro lado, do Estado Novo, de Salazar, dos radicais do regime e do Arcebispo de Lourenço Marques, D. Custódio Alvim Pereira que, como está comprovado, participou, pessoalmente, em interrogatórios feitos pela PIDE a nacionalistas moçambicanos.


Tenho para mim, que “A Igreja Católica e o Estado Novo em Moçambique” é um livro inacabado. Um trabalho que necessita ir muito mais além. Muito mais longe. E, escrevo-o sem receio de desmentido. Por, pelo menos, duas razões óbvias. A primeira, é a da limitação de espaço imposta ao autor sobre a obra em referência. A segunda, mas talvez também não última nem definitiva, é a de D. Sebastião Soares de Resende ter deixado um “Diário” com cerca de 12.000 páginas. Até ao momento, praticamente inédito. Que está em poder de José Capela, autor do prefácio da obra em apreço. Mas, também ele estudioso e autor de muitas obras sobre a realidade moçambicana, a mais conhecida das quais poderá ser “Vinho para Preto”. Ora, José Capela não é mais do que o pseudónimo literário do dr. José Soares Martins, sobrinho de D. Sebastião Soares de Resende e que com ele viveu, muitos anos, na Diocese de Beira. Creio que, para as gerações moçambicanas futuras, o conhecimento deste passado recente, de poucas décadas, deve ser considerado importante. Deve constituir, também, referência para saber entender o presente e projectar o futuro. A perda ou o deixar cair no esquecimento tão valioso património, pode representar uma perda definitiva de importantes fontes de informação sobre as formas de actuação do colonialismo em Moçambique. Creio não ser de todo impossível estabelecer plataformas de trabalho, de investigação, entre moçambicanos e portugueses para que possam vir a ser melhor conhecidos os processos e os métodos de colonização no último meio século. Sobretudo, para que se possa ficar a saber quem foi quem. Quem esteve do lado dos opressores e quem esteve do lado dos oprimidos. Parece fácil. E é. Basta não ter medo de enfrentar a verdade.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 23 de Janeiro, 2005

antes e depois

Luís David


há muitas outras dúvidas por esclarecer


Cada dia que passa, apresentam-se como mais dramáticos os contornos da tragédia que atingiu diferentes países banhados pelo Oceano Índico. Muito provavelmente, jamais será conhecido o número exacto de mortos. Mas, para além do número, para além dos números, ficará na memória de todos o drama, a dor e o luto. O sofrimento humano dos sobreviventes, a memória que, por certo e para todo o sempre, irão guardar da tragédia. De uma tragédia que tendo tido, até ao momento, uma explicação científica aceitável bem pode não estar a responder a muitas dúvidas. Pode, poderá, até estar a esconder algumas verdades. Como aconteceu o movimento das placas no fundos dos mares, já todos sabemos. O que não sabemos, o que não conhecemos, o que ainda ninguém explicou foi como e porquê ocorreu esse movimento, essa deslocação. Sabemos, sabem os cientistas da área, muito sobre o El Nino e a El Nina. Conhecem as origens, ou dizem conhecer, do fenómeno e como e quando ele se manifesta. Os alertas, neste campo, parece m ser atempados. As suas consequências previsíveis. Sabemos, também, o que homem está a exigir da Natureza mais do que ela pode dar, mais do que ela quer dar. Depois, depois dos estragos humanos sobre a natureza, há muito quem apareça como seu defensor. Pode ser tarde. Pode ser demasiado tarde.


O maremoto que vitimou mais de centena e meia de milhar de pessoas em diferentes países banhados pelo Índico, poderá ter sido um fenómeno natural. Mas, também poderá não ter sido. As explicações públicas sobre o fenómeno estão longe de ser convincente. Muito longe, mesmo. Talvez demorem décadas a chegar. Poderá acontecer que nunca cheguem. Recordam-se os mais velhos que no início dos anos 60 um terrível tremor de terra destruiu por completo a cidade de Agadir, no norte de África. Causando dezenas de milhar de mortos. Muitos, mas muitos, anos depois foi admitida a hipótese de a tragédia poder ter sido provocada por uma explosão nuclear no Deserto de Nevada, nos Estados Unidos. Estudos mais aturados e cuidados revelaram, posteriormente, a existência de uma fenda subterrânea que, passando por terra e mar, tinha como ponto mais frágil a cidade destruída. Mais recentemente, já no início dos anos 70, foi registado na estação moçambicana de Changalane, um abalo sísmico de fraca intensidade. Que não terá provocado danos materiais nem humanos. O Dr. Pepe, ao tempo director do então Serviço Meteorológico de Moçambique, admitia a hipótese de o fenómeno poder ter sido originado por uma explosão nuclear feita pela África do Sul, algures no Índico. Ao largo da costa comum, em ponto indeterminado, mas que era possível provar, no tempo, ter acontecido. Quer dizer, que a explosão nuclear foi feita numa determinada data, não existiam dúvidas. As dúvidas que existiam e que, muito provavelmente, nunca foram esclarecidas, nem serão, é se esse ensaio nuclear foi ou não motivo do registo em Changalane. Como esta, há muitas outras dúvidas por esclarecer.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 16 de Janeiro, 2005

antes e depois

Luís David


O poder é para ser exercido


A campanha eleitoral, que antecedeu as últimas eleições, terá sido um período de grande pressão sobre vários órgãos de Informação. Principalmente os de prestação de serviço público. Sempre foi, mais ou menos assim. Cada um contesta e reclama sobre o espaço ou o tempo que lhe foi concedido. Cada outro, protesta por ao outro ter sido concedido mais espaço e mais tempo do que a si. Na hora de balanço, na hora de fazer o balanço dos resultados eleitorais, parece ser da mais elementar honestidade perguntar quantas reuniões públicas, quantos quilómetros por estrada e por ar percorreu cada um. Para, depois, em função destes dados, em função do que foi actividade política pública, averiguar se houve ou não desequilíbrio, favoritismo em termos de tratamento informativo. Pode ser que sim, como pode ser que não. O que parece realidade é que, hoje, poucas semanas depois das eleições, a Informação, no geral, terá voltado a guiar-se pela sua agenda editorial. Sem pressões.


Para fazer, ao que parece, o seu balanço dos resultados eleitorais, a RENAMO realizou, esta semana, o seu Conselho Nacional, na cidade da Beira. Terá sido, ao que os relatos indicam, uma reunião pacífica. Mas, a questão está em que mesmo quando os políticos parecem tomar e assumir posições ditas moderadas e ponderadas, há quem não se conforme com tal posicionamento. Poderá haver quem pretenda criar a ilusão do líder todo poderoso, do líder que detendo todo o poder, cede, entrega e abdica de exercer o poder por uma causa que não explica. Ou explica mal. Por uma causa, pela qual tendo lutado, agora abdica. De forma santa e beatífica. Ora, quando o “Zambeze”, na sua última edição, titula, a toda a largura da página dois, que “Dhlakama recusa ceder à pressão da ala dura para tomar o poder pela força das armas”, não está a transmitir a imagem de um vencedor mas, sim, de um vencido. De um vencido nas urnas e de um vencido no interior do seu partido. Porque, claramente, neste momento, podendo a RENAMO ter capacidade para praticar actos de terrorismo em diferentes pontos do país, não possui qualquer capacidade para tomar o poder pela força das armas. Sequer, os seus apoiantes estrangeiros lhe iriam permitir tal diatribe, tal veleidade. Ninguém está interessado numa guerra civil nem numa guerra de secessão. Ninguém acredita em federalismo. E, cada um tem, efectivamente, o poder que quem. E o poder que cada um tem pode ser, e talvez seja, bem diferente daquele que uns pretendem e outros dizem ter. O poder não se divide. O poder não é para ser divido. O poder é para ser exercido.


domingo, janeiro 09, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 9 de Janeiro, 2005

antes e depois

Luís David


o devir tem de ser assumido hoje


Pela terceira vez, a RENAMO-União Eleitoral contesta o resultado das eleições. É um direito que lhe assiste, por Lei. É um direito que assiste a todos os partidos que julguem ter sido prejudicados. Há, porém, neste protesto, nesta reclamação, uma forma nova e inovadora de protestar e de reclamar. Uma forma nova e inovadora para exigir o que se reclama como direito. Diz, então, ameaça a RENAMO-União Eleitoral, que nenhum dos deputados eleitos pelas suas listas irá sentar-se no Parlamento acaso a sua pretensão venha a não ser atendida. Como diz que o seu presidente recusa tomar posse como membro do Conselho de Estado. Por isto, por tudo e pelo mais que, muito certamente, escapa à nossa compreensão, um dirigente de um partido integrante da União Eleitoral veio a público falar de crise política. Mais. Foi mais longe. Mesmo sem revelar, mesmo sem dizer quais os contornos dessa crise política, veio oferecer-se para mediador do que entende por crise. Para salvar a estabilidade nacional. Que nunca esteve, sequer está, em causa. Ora, para além de poder parecer, e de ser, uma maneira desajeitada de apanhar a última carruagem com o combóio em andamento, afigura-se, também, como maneira desastrosa e desastrada de tentar criar um facto político. Só que, os factos político são criados, para poderem ter resultados, de forma bem mais sofisticada. Não é assim que o poder instituído cai, não por estes processos canhestros que se consegue protagonismo. Muito menos conquista o poder.


Vamos admitir, por hipótese, que sim. Vamos admitir que os deputados, eleitos por voto secreto, nas listas da RENAMO-União Eleitoral recusam, em bloco, tomar os seus lugares no Parlamento. Vamos admitir que o presidente da RENAMO recusa tomar o lugar que lhe está reservado no Conselho de Estado. No campo das hipótese, se tal vier a acontecer, o que sucede em termos de estabilidade política nacional é, muito simplesmente, igual a nada. Muito embora, convenhamos, as regras da alternância democrática possam estar definitivamente feridas. E, feridas de morte. Porque, claramente, aquilo que se procura apresentar como crise política nacional, não passa de uma crise, desejamos que passageira, no interior do maior partido da oposição. Do segundo partido mais votado. E que ao pretender abdicar do mandato que lhe foi conferido pelos eleitores, está, muito simplesmente, a trair a democracia e os valores democráticos já conquistados. Definitivamente, caso a RENAMO-União Eleitoral não consiga resolver as suas crises intestinais, a FRELIMO poderá ter de governar, nos próximos cinco anos, sem opositor, sem oposição no Parlamento. O que a acontecer, e poderá, no campo das hipóteses, vir a acontecer, será uma perda para a democracia. Será uma perda democrática. E, se tal acontecer, se tal vier a acontecer, por hipótese, porque pode acontecer, que ninguém venha a apresentar queixa, que ninguém venha lamentar-se. O futuro, o devir tem de ser assumido hoje.


domingo, janeiro 02, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 2 de Janeiro, 2005


antes e depois

Luís David


quem manda é a Mãe Natureza

Acabámos de entrar no ano de 2005. Temos poucas horas, ainda, de 2005. E, o ano que vem, o Ano Novo é, sempre e tradicionalmente, um ano de esperança. Todos os anos que começam são anos de esperança. Como todos os anos que terminam são, na generalidade, anos de desesperança. O Ano Novo é, sempre, na nossa crença, o Ano Bom como o ano velho é o ano mau. Vivemos o mito, deixamo-nos enredar no misticismo. Aproveitamos os últimos momentos de cada ano para deitar fora, para deitar no lixo, tudo o que nos pareça velho e inútil. Tudo o que nos pareça ser lixo. Inutilidade. E fazemo-lo, por vezes, com desastrada e com desastrosa sonoridade. Está por investigar, ou talvez não, o motivo pelo qual a passagem de um ano para outro deva ser assinalada de forma barulhenta. Em muitos casos, uma barulheira esquizofrénica e patológica. Se é que barulho, rebentamento de petardos ou disparos de armas de fogo significa alegria, ainda ninguém tentou provar que assim é.


A quadra dita festiva, e que antecedeu a entrada no Novo Ano, em Moçambique, ficou marcada de forma algo dramática. Elevado número de acidentes de viação provocaram algumas dezenas de mortes. Muitas foram as famílias que, em vez de festa, tiveram luto. Na nossa zona marinha, na zona do Oceano Índico, a que pertencemos e de que somo parte integrante, a destruição, a morte e o luto ocuparam o tempo e o espaço da festa programada e desejada. A dor e o luto ocuparam o espaço da anunciada ruidosa festa. Não terá havido fogo de artifício. Nem tempo para o erguer da taça de champanhe ao bater das doze badaladas. Mais de cem mil mortos, dezenas de milhar de desaparecidos, milhões de deslocados é um cenário, aparentemente, irrealista. Mas é, sem dúvida a realidade. E a realidade é, também e sobretudo, muito para além daquilo que as câmaras de televisão nos mostram, aquilo que não mostram. Porque o que mostram, repetitivamente, são turistas desesperados E, aquilo que não mostram é, sobretudo, o destino dos muitos milhares de mortos, dos mortos que haverão de ter, por falta de identificação, como destino último, a vala comum. Quando para isso houver espaço. E, estes, em termos de história, nunca serão mais do que um número. Um número impreciso, pouco fiável e de pouco significado. Este maremoto, esta catástrofe que se abateu sobre a nossa região, parece querer dizer que, afinal, os homens continuam com pouco poder para determinar e gerir os destinos da Humanidade e do Planeta Terra. Parece querer dizer que quem manda é a Mãe Natureza.

domingo, dezembro 26, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 26 de Dezembro, 2004


antes e depois

Luís David

saber perder é uma questão de dignidade

A história repete-se. Parece repetir-se. Ciclicamente, de cinco em cinco anos. Sempre que há eleições, o discurso da oposição repete-se. É um discurso sempre igual. Aberrante, chato, enfadonho. Porque é, sempre e invariavelmente, o discurso da fraude. Por antecipação, o discurso da fraude. Do género se eu perder é porque houve fraude. E, sendo por antecipação o discurso da fraude, pode ser também, é também, o discurso de quem, em consciência, parte derrotado para a corrida eleitoral para o mais alto cargo da República. Nesta perspectiva, sendo, como parece, um discurso infantil de candidato antecipadamente derrotado, é, acima de tudo um discurso masoquista. O discurso de quem se propôs auto-flagelar-se com a derrota. O discurso do injustiçado. O discurso de quem, sabendo e tendo consciência que tinha condições poucas ou nenhumas para ser eleito Presidente da República, reclama, agora, dever ter sido o eleito se... Exactamente se...



No antes das eleições agora realizadas, a RENAMO terá começado por cantar vitória fácil. Aparentemente, ensaiou um discurso confiante. Um discurso, digamos, triunfante. Um discurso triunfalista. Mas, discurso que só poderia convencer quem o proferia. E, mais do que tudo, quem aconselhava a proferi-lo. E, aquilo a que a alguns poderá ter parecido uma jogada de antecipação, poderá não ter sido mais do que um erro de estratégia. E, nestes casos, erros de estratégia pagam-se com derrotas, pagam-se com o adiar, por mais cinco anos, a conquista do poder. É que, a realidade nem sempre, ou raramente, corresponde ao desejo ou ao sonho. E, quando se acorda do sonho, do dormir suave e tranquilo, da ilusão por alguns criada e por outros alimentada, e a realidade é outra, é difícil ter de aceitar a realidade tal como é. É difícil ter de aceitar a derrota. Mesmo quando, ou sobretudo, aqueles a quem tanto se pediu protecção, aqueles a quem tanto se pediu observação isenta e imparcial aí estão, muito clara e inequivocamente, a confirmar a vitória de quem venceu. União Europeia, França, Estados Unidos da América não tiveram dúvidas sobre quem venceu as eleições, em felicitar, no imediato, o vencedor. Ora, quando perante esta realidade, que parece contrariar o sonho de alguém, se registam novas ameaças, corremos a ousadia de ter de afirmar, por muito que pareça paradoxo, que as eleições, sendo o que foram, deveriam ter sido coisa diferente. Para consentir a vitória a quem se dizia vencedor. Sem dúvida, ninguém gosta de perder. Mas, convenhamos, saber perder é uma questão de dignidade.
Publicado em Maputo, Moçammbique no Jornal Domingo de 19 de Dezembro, 2004

antes e depois

Luís David


uma extrema aberração


Em diferentes ocasiões e por diferentes motivos, fala-se em lusófono e em lusofonia. Há, até, reuniões, congressos, festivais de lusófonos e em nome da lusofonia. Pretende-se, ao que parece, nestas reuniões em que se encontram homens e mulheres de origens e de culturas diferentes e diversas, tentar afirmar que, afinal as partes constituem um todo. Pretende-se, em síntese e em tese, ao que parece, tentar fazer acreditar que os colonizados de ontem, ao assumirem ou ao terem sido forçados a assumir certos valores do colonizador, são hoje seus iguais. Fazem parte do seu mundo cultural, étnico e linguistico. Que todos se identificam numa cultura lusófona. Que ninguém sabe o que é, por em momento nenhum ter sido estudada, menos ainda definida. Que é, por exclusão de partes, coisa nenhuma. Que não existe. Ou, melhor, existe apenas e unicamente como neologismo. Não passa de uma palavra nova. Que, podendo não ser mais do que isso, também o pode ser. Pode ser uma palavra, pode ser um neologismo, com um sentido e um significado neocolonialista. Certamente que assim pode ser, que assim é.


No seu ensaio filosófico, a que deu o título “O Enigma Português”, F. Cunha Leão, falecido em 19774, busca as origens da fundação e da sobrevivência de Portugal ao longo dos séculos. E, escreve (pag. 89): Herculano contestou com veemência a filiação lusitana dos portugueses fundada na história de Roma e defendida pelo renascimento eborense. Segundo ele as sucessivas invasões e razias que o território sofreu por tão diversos povos reduzem a mera soberbia infundada essa tentativa genealógica de ir buscar fama a Sertório e a Viriato. Nas suas “20 Teses” sobre o tema referido, talvez a parte mais importante da obra, parece bem claro: 1) Uma parte da Galiza e outra da Lusitânia formaram Portugal. (...) 3) Lusos e galaicos distinguem-se, posto que povos individualizados em finisterra, de parentesco próximo e afinidades incontestáveis. 4) O português é uma síntese de lusitano e galaico, um luso-galego e só metaforicamente lusitano. Mais diz o filósofo, que escrevia em 1960 (tese 14), Os descobrimentos e a colonização constituem por isso a suprema afirmação dos portugueses, a linhas das comeadas do seu contorno histórico, e bem assim o complexo fenomenal que mais aproveita à interpretação da Grei. Ora, se bem entendo e se bem interpreto o filósofo, o lusitano nunca existiu. E, nesta linha de pensamento, se o lusitano não existiu, se não existiu no seu estado puro ou se existiu apenas como mestiçagem, como produto de um caldear de culturas, não poderá ser outra coisa se não um híbrido. Assim, assim não existindo, como parece não existir, o luso ou o lusitano, menos motivos parece haver para que possam existir lusófonos e lusofonia. De resto, e por fim, à luz do exposto, parece fazer sentido nenhum que homens e mulheres de origem e de cultura baniu alguma vez possam vir a ser lusófonos. Estamos, no mínimo, perante um equívoco, uma extrema aberração.

domingo, dezembro 12, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de 12 de Dezembro, 2004

antes e depois

Luís David


algo está errado

Parece não existiram muitas dúvidas que a abstenção em processos eleitorais é, hoje e desde há muito tempo, um fenómeno à escala mundial. Universal. Um fenómeno que, diga-se, deixou de ser fenómeno para entrar, para fazer parte da normalidade. Embora a todos preocupe e todos os Estados democráticos, de uma forma geral, procurem meios para combater a abstenção. Sempre, repita-se, sempre tendo em atenção a relação custo/benefício. Isto é, que qualquer processo alternativo ao tradicional depósito do voto na urna não provoque aumento de custos. Esta é a posição divulgada, recentemente, pelo Instituto para a Democracia e Apoio Eleitoral (IDEA), um centro de investigação sediado em Estocolmo, na Suécia. Um sistema com resultados comprovados, segundo o IDEA, em relação a diversos países da Europa, tem sido o voto pelo correio. Que, em alguns casos está em fase experimental e noutros consolidado. Hoje, segundo a mesma fonte, cerca de quatro por cento dos votantes na Grã-Bretanha e 40 por cento da Finlândia votam pelo correio. Na Suécia, desde 1942, todos os cidadãos, sem aviso prévio, podem dirigir-se a um posto dos Correios e votar em impressos próprios para o efeito. Isto acontece, claramente, em países onde os Correios funcionam e onde a realidade é completamente diferente da nossa. Mas, independente de todas as considerações que se queiram fazer e admitir, serve para demonstrar que em Estados onde a democracia tem muitas e muitas décadas, o chamado fenómeno abstenção começou a ser combatido há mais de meio século.


Tem sido dito e repetido, com mais do que demasiada insistência, que a elevada percentagem de abstenção nas últimas eleições representa um aviso aos políticos. Uma ameaça aos futuros governantes. E, até se não com algum exagero, que quem vier a governar, por eleito, com tão reduzido número de votos, pouco ou nenhuma legitimidade terá para governar. São, obviamente, leituras possíveis, leituras respeitáveis, opiniões a não desconsiderar. Temos, no entanto, de aceitar que leitura diferente não deva ser rejeitada. Não deva ser recusada. Isto é, que uma leitura moçambicana de melhoria de vida e de mudança possa não ser, exactamente, aquela que outros tentam fazer. E que, talvez, é necessário admitir, terão dificuldade em comunicar. Comparar o último processo eleitoral com os anteriores, como, em alguns casos tem sido tentado, parece um processo arriscado. Por falta de contexto. As realidades sociais e económicas reinantes e dominantes em cada um dos momentos são completamente diferentes. E, aceitemos, os motivos que levaram a votar ontem podem não ser os mesmos que levaram a votar hoje, Assim como os motivos que levaram a votar ontem podem ser os mesmo que levaram a não votar hoje. Mas, convenhamos, em última análise, a questão principal parece não ser a do motivo pelo qual muitos não votaram. Mas a de criar novas e diferentes condições para que mais possam votar. Ou, e talvez seja o caso, como titulava o “Notícias”, na sua edição da última quinta-feira, uma questão de Simplificar o processo de votação. Caso assim seja, e parece que assim é, tudo o resto é um exercício inútil. Basta que estejamos todos de acordo no essencial. No fundamental. E que acordemos para a realidade de que o fenómeno das abstenções, em processos eleitorais democráticos, começou a ser estudado há mais de cinco décadas. E, se situações semelhantes ou idênticas se repetem em tão diferentes países não é, certamente, por o eleitor estar errado. Embora, concordemos, algo está errado.
Publicado em Mpauto, Moçambique, no Jornal Domingo, de 5 de Dezembro, 2004

antes e depois

Luís David

saber criar

Coisa difícil, parece ser, é, não escrever após as eleições sem ser sobre eleições. E, escrever sobre as recentes eleições, neste momento, é, terá de ser, evitar engrossar a corrente, aparentemente dominante e dominadora, daqueles que se perfilam, que se perfilaram, para pedir estudos e investigação do que consideram como fenómeno da abstenção. Querem saber uns, querem conhecer outros, o motivo, a causa, a razão que levou o camponês a preterir a mesa de voto em alternativa à machamba e o citadino a optar pela praia ou pelo copo na barraca em alternativa a cumprir com o seu dever cívico. São, logicamente, preocupações legítimas. Intelectualmente legítimas. Talvez, arrisco sugerir, desfasadas da realidade cultural nacional. Se sim ou se não, os estudos, a fazer no curto e no médio prazos, pagos, muito hipoteticamente, por quem suportou os custos destas eleições, irão surgir. Irão, virão dizer-nos, virão tentar provar aquilo que já foi dito e ficou provado em eleições anteriores. Este modelo, caro, demasiado caro para a nossa realidade e que se presta a grosseiras intromissões estrangeiras, está esgotado. Na pior das hipóteses, é necessário pensar. Mesmo quando todos sabemos que pensar é exercício difícil. E, arriscado. Principalmente quando os bonzos já estão perfilados.


Pessoalmente, mal conheci António de Almeida Santos. Doutor em Leis, formado na Universidade de Coimbra, aqui se fez radicar há muitas décadas. Depois do 25 de Abril, regressado a Portugal, fez parte de diferentes governos. Foi Presidente da Assembleia da República. Na Minerva, descobri, um dia, textos e fotografias da sua vinda a Moçambique. Numa casa de venda de discos, que existiu no prédio das arcadas, hoje EMOSE, recordo ter comprado, já a preço de saldo e pouco antes de encerrar, vários exemplares de um disco seu, com fados de Coimbra. Um disco dos seus tempos de fadista e de boémio. Mais recente, mais recentemente, tive oportunidade de ler dois dos últimos dos muitos livros que escreveu ao longo da sua vida. Num, com cerca de 400 páginas “Por favor preocupem-se”, cuja quarta edição tem data de 1999, revela as suas preocupações sobre os problemas actuais, manifesta o seu cepticismo em relação à democracia participativa perante os avanços das novas tecnologias e escreve: O velho expediente de reunir no adro da igreja todos os cidadãos de uma minúscula unidade política para, de braço no ar, decidirem o que achavam melhor para a respectiva comunidade regressará, tecnologicamente alargado, ao espaço nacional, continental, universal amanhã. Mas antes, muito antes, logo na página 8 da mesma obra nos havia advertido: Tendemos a rejeitar o que nos desagrada. Em contraponto acreditamos facilmente no que desejamos. Daí que as posições confiadas e relaxantes colham mais adesões do que as advertências pesadas. Ou, parafraseando Nietzsche, Não é no conhecimento, mas sim na criação que está a nossa salvação. Então, para além de conhecer, do muito conhecer, por muito se poder vir a investigar e conhecer, há que saber criar. Assim, temos e havemos de saber criar. Porque, assim o diz o filósofo, a nossa salvação não está no imitar. Não está no copiar. Não está no saber copiar. Afinal, estas, tarefa medíocre, tarefa de medíocres, tarefa de bonzos. A nossa tarefa está em criar. Em saber criar.

terça-feira, novembro 30, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 28 de Novembro, 2004

antes e depois

Luís David

É coisa diferente


Estamos a poucas horas do fim da campanha eleitoral para as eleições presidenciais e legislativas de Dezembro próximo. O muito ou o pouco que aqui possa dizer-se, em nada poderá influir sobre o voto do potencial eleitor. Contudo, parece não ser de menor importância fazer uma breve reflexão sobre a pressão e as acusações feitas, por partidos da oposição, a alguns órgãos de Informação nacionais por não fazerem uma cobertura das suas actividades. Mesmo quando, e este parece ser aspecto fundamental, recusaram informar a que horas e onde iriam ser desenvolvidas dessas suas actividades de campanha. Aparentemente, este tipo de estratégia foi mal escolhido. Mas, antes de passarmos adiante, importa recordar que, passam já muitos anos, um correspondente estrangeiro disse ter visto, e por isso terá divulgado o que disse ter visto, aviões a sobrevoarem Maputo. Convidado a justificar a veracidade da notícia pelo então Ministro da Informação, não terá sido convincente. Por esse motivo, por divulgar uma mentira, foi expulso de Moçambique. Mais recentemente, no final das últimas eleições, outro jornalista, também estrangeiro, igualmente português, divulgou para o mundo que a RENAMO e o seu presidente haviam ganho as eleições. Feitas as contas, não era bem assim. Tratava-se de mais uma mentira. Mas, de uma mentira não inocente. De uma mentira paga, de uma mentira bem paga, de uma mentira paga a peso de ouro. Em última análise, de uma tentativa para desestabilizar e para desacreditar o processo eleitoral. Na sua totalidade.


Na presente campanha eleitoral, o principal partido da oposição, terá adoptado, inicialmente, uma estratégia diferente. A tónica deixou de ser colocada na fraude eleitoral e desviou-se para o trabalho, para a forma de actuação dos órgãos de Informação, especialmente os do serviço público. Quer-se dizer, e esta foi a mensagem que foi tentado passar, se o referido partido e o seu candidato perderem, a responsabilidade será, toda ela, de quem não cobriu, ampliou ou divulgou a sua mensagem. Em termos simples e lineares, o “bode expiatório”, em caso de derrota, deixou de ser o STAE e CNE para passar a ser a Informação. Uma certa informação. Muito claramente a de prestação do serviço público Mais precisamente a TVM. Mas, e há sempre um mas, como a mentira, por tão rasteira, não ter ganhado raízes, necessário era trepar. Trepar às arvores. Trepar à copa das árvores. E, lá do alto, lá de cima, gritar bem alto que há por aí quem pretende assassinar Dhlakama. Que o presidente da RENAMO é um alvo a abater pela segurança do Estado. E, foi assim, nestes termos, mais ponto menos vírgula, que Lusa e RTPÁfrica se fizeram eco dessa declaração. Sem investigarem. Sem procederem a qualquer investigação. Sem confrontarem a informação com nenhuma outra fonte. Dizem, alguns, menos avisados, que estes são jornalismos e jornalistas de referência. Creio mais no inverso. Creio que estes jornalistas, por nunca o terem sido, por nunca terem sido jornalistas, são tudo menos jornalistas. Sobretudo porque ser jornalista em Moçambique, hoje, não pode passar pelos critérios do jornalismo neo-colonialista. O jornalismo moçambicano é outra coisa. É coisa diferente.