domingo, fevereiro 20, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de 20 de Fevereiro, 2005

antes e depois

Luís David


em Moçambique manda o chumbo


Logo que o novo Governo entrou em funções e que foram conhecidos os métodos de trabalho de alguns dos seus membros, surgiram, daqui e de além, comentários de apoio e de desagrado. Estranho seria acontecer de forma diferente. Houve, até, quem tivesse vindo a público, talvez com certa timidez, afirmar que estamos perante uma Ofensiva. Uma Ofensiva Política e Organizacional para evocar o que aconteceu no tempo de Samora Machel. Em minha opinião, estamos perante algo diferente. Estamos a assistir à tentativa de ensaio de um modo de governar diferente. A uma forma de governar actuando em bloco e em diferentes frentes. Isto dado que, se o tempo de Samora era ele o único protagonista do processo, no tempo presente os protagonistas são, no momento, vários. E, também, porque se no tempo de Samora estávamos em plena época revolucionária, hoje, no momento presente, vivemos num Estado de Direito. Lógico, muitos dos métodos utilizados nesse tempo é impensável que possam ser utilizados hoje. Embora os objectivos a atingir possam não ser muito diferentes. Sem perder de vista que se no tempo passado o objectivo principal era mudar a mentalidade do homem, criar o chamado Homem Novo, hoje já se percebeu ser necessário alterar estruturas, aperfeiçoar e modificar leis.


É demasiado cedo, é prematuro, tentar fazer qualquer tipo de avaliação sobre o que cada um dos membros do Governo fez ou deixou de fazer. Mas, sem tentar influir nas suas agendas de trabalho, nas suas prioridades, parece lícito deixar expresso o que se pensa em ralação a algumas questões consideradas importantes. Assim, em primeiro lugar, coloque-se a questão de saber a quem serve ou quem se serve do Regulamento do Regime Jurídico do Condomínio. Na prática, nunca foi aplicado. Em Moçambique, tal como foi copiado da legislação que vigora em Portugal, não tem a mínima hipótese de o vir a ser. Este Regulamento é, em última análise, uma nado morto. Mas, um nado morto, porque assim se quis que fosse para proteger certos interesses pouco claros. Em segundo e último lugar, por hoje, importa saber que motivos ou que interesses económicos impediram e impedem a actualização da legislação sobre funerais. No caso em que os corpos venham do exterior ou sejam depositados em jazigos. Porquê que continuamos a aplicar legislação que vigorou em Portugal há mais de quatro décadas. Porquê, a questão está em saber o motivo pelo qual continuamos a exigir urnas de chumbo e recusamos urnas de zinco. A questão está em saber, também, qual o motivo pelo qual não adequamos a nossa legislação à legislação nos países da região em que nos situamos. Por exemplo, África do Sul. Um documento, da Associação dos Directores das Funerárias Independentes deste país, datado de 8 de Janeiro de 2001, dirigido A quem possa interessar diz que Confirma-se que na África do Sul, as urnas de chumbo foram substituídas por zinco desde há 40 anos, sem experiência de qualquer problema. Recentemente, muito recentemente, passam poucos meses, e este não é caso único, um corpo em caixão de zinco, depois de velado na Igreja da Polana não teve autorização para ser depositado em jazigo de família no Cemitério de Lhanguene. A direcção de Saúde da Cidade de Maputo exigiu caixão de chumbo. E, como quem manda pode, mesmo quando manda mal, o corpo, depois de velado, de encomendado a Deus pelo padre, regressou, foi obrigado a regressar a uma das capelas do Hospital Central de Maputo. Aí passou a noite, a última noite entre os vivos, certamente desconhecendo a dor e o sofrimento que a decisão estava a provocar aos familiares. Vivos. Para, depois de trocado o zinco pelo chumbo poder seguir, no dia seguinte, para sua última morada. De facto, apesar de recusado em muitos países, em Moçambique manda o chumbo.

domingo, fevereiro 13, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de 13 de Fevereiro, 2005


antes e depois

Luís David


quem trava esta falta de moral e de ética

No nosso país, com não rara frequência, falamos da falta de valores. Da perda de valores. Elaboramos sobre comportamentos que consideremos errados. Á imagem do que foram os comportamentos de ontem. Que tomamos como modelo, como ideal. Dizemos que já não há Ética nem Moral. Mais e invariavelmente, o mal é dos outros, o mal está nos outros. Com os pais que não sabem educar os filhos ou com os filhos que não respeitam os pais. O mesmo é dizer, os mais velhos. Temos, quase sempre, um horizonte curto. Limitado. Não no atingir da vista mas no alcançar do pensamento. Pensamos curto. E, pensar curto, pensar que o mundo e o mundo actual ainda não vai para além da nossa rua, do nosso bairro, da nossa cidade, do nosso país é limitar, à partida, a solução. Queremos viver, queremos fazer repor a ordem antiga. Por pretendermos que seja melhor do que a actual. Queremos viver no presente o passado. Não percebemos que o passado foi, o presente é, o futuro será. Apelamos para a ajuda da Igreja, pedimos à sociedade civil para agir. Uma sociedade civil que ninguém sabe, nem mais nem menos, o que é. Que hipoteticamente só possa existir em teoria. E, esquecemos, ou fazemos, voluntariamente, por esquecer, dois elementos que parecem ser fundamentais: Nós próprios, cada um de nós, e o Estado. Ou, se assim se preferir, por ordem inversa, o Estado e cada um de nós. Onde, cada um de nós não pode abdicar da missão de pressionar o Estado no sentido de impor, repito, impor aquilo que devam ser os valores éticos e morais dominantes.


Pode parecer repetitivo afirmar que estamos a viver numa fase de capitalismo selvagem. Numa fase de capitalismo sem regras, sem normas, sem ética, sem moral. Pode parecer mas não é. Basta tomarmos como exemplo as campanhas publicitárias que estão a ser desenvolvidas pelos dois operadores de telefonia móvel. Campanhas essas que estão a custar muitos milhões de contos. Para concluir ser necessária e urgente a intervenção do Estado. Diz o anuncio de uma dessas empresas: Josefina, te agramo muito. Trata-se, obviamente, de um texto escrito por um burro. E, como os burros, nas últimas eleições, não tiveram direito a voto, deve ser tornado público quem escreveu o texto. Sobretudo, para que as nossas crianças e os adolescentes não adoptem este mau exemplo de escrever português. A outra empresa de telefonia móvel, que tem revelado um total incapacidade para escrever textos, bons ou maus, optou por utilizar imagens de símbolos e de Heróis Nacionais. Craveirinha e Samora fizeram bem mais por Moçambique do que aquilo que pretende que eles possam ter feito para poderem, para se darem ao direito, de utilizarem as suas imagens em campanhas publicitárias de medíocre qualidade. Sem criatividade, muito menos imaginação. Gostava também de saber, apenas por simples curiosidade, se os familiares de Samora e de Craveirinha autorizaram a utilização das fotografias dos seus mortos em anúncios publicitários. Se sim, tudo bem. Devem ter recebido muitos milhões e devem dizer, publicamente, quantos. Se não, devem dizer, igualmente, como pensam proceder. Ao Estado, ao Estado moçambicano, deixo o pedido, singelo e humilde, de esclarecimento se imagens de Heróis Nacionais podem ser vulgarizadas em campanhas publicitárias, em minha opinião, medíocres. Que enfermam de um mínimo de imaginação e que se situam no campo do oportunismo político. Bem sei, a mediocridade e a incompetência nunca pagaram imposto. E, terá sido o que valeu a muitos. Mas, hoje, o desafio está sem saber quem trava esta falta de moral e de ética.

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de 6 de Fevereiro, 2005

antes e depois

Luís David


uma visão deturpada da história colonial


Entre outros muitos convidados, a cerimónia de investidura de Armando Guebuza contou com a presença de Jorge Sampaio. Ora, Jorge Sampaio é Presidente da República Portuguesa e é com Portugal que Moçambique tem vindo a negociar aquilo a que se convencionou chamar de “dossier Cahora Bassa”. Sabia Jorge Sampaio, como sabíamos todos nós, que esta seria uma questão que a Informação lhe iria colocar. Quanto mais não fosse pelo facto de Joaquim Chissano ter manifestado, publicamente, o seu desejo de ver o assunto encerrado antes de terminar o seu mandato. Não o conseguiu. E, só por isso, só por não o ter conseguido, era motivo mais do que suficiente para confrontar Jorge Sampaio com a questão. O que aconteceu e que mereceu como resposta que “A bola está do lado moçambicano”. Ora, sem dúvida, a frase é bonita, pode ter algum efeito mediático mas vale por não acrescentar absolutamente nada para a resolução do problema. Além de que sendo bonita pode, muito bem, não reflectir, exactamente a verdade. E, depois, se a bola está do lado de cá, pode ser atirada para fora do campo. Mas o campo também fica cá. A maioria dos adeptos são de cá. E, os adeptos de cá podem, muito bem, não desejar ver continuado o jogo com esta bola. Por considerarem que não possui as características aprovadas internacionalmente para jogos de tamanha envergadura. Podem considerar, e tem todo o direito de assim considerar, que a bola está viciada. Neste caso, é necessário procurar nova bola. Mas, concluamos, para que se possa procurar segunda bola, é necessário que tenha havido uma primeira. Que nunca, ao que parece, alguém alguma vez viu. Ora, se ninguém viu bola alguma, a bola não existe. E, por exclusão de partes, se a bola não existe a bola não pode estar do lado moçambicano. A bola é, assim, e coisa outra jamais poderá ser, produto de imaginação. Por hipótese, sonho.


Para se compreender os objectivos que levaram à construção de Cahora Bassa, temos de nos saber situar no tempo. Temos de compreender, minimamente, a geo-estratégia definida para esta sub-região da região austral de África. Assim, recuando no tempo, e de forma muito resumida, os colonos brancos haviam declarado a independência unilateral da Rodésia do Sul. A África do Sul era governada por um regime branco minoritário. O Malawi, governado por Banda, aliado de Portugal, ambicionava acesso directo ao mar, através do Porto de Nacala. Salazar, juntamente com os radicais do sistema, alguns anos antes da queda que lhe viria a determinar a morte, terá pensado, mas mal e erradamente, que a construção da barragem seria a forma de evitar o avanço da guerrilha da FRELIMO para sul. E, assim, e com a fixação de um milhão de colonos portugueses no Vale do Zambeze, manter a presença colonial portuguesa nesta sub-região de África e a continuidade dos regimes minoritários da época. A Barragem de Cahora Bassa era, na sua essência e na época, um projecto que visava perpetuar o colonialismo e retardar a independência de Moçambique. Na sua essência, enquadrava-se na estratégia militar do megalómano Kaúlza de Arriaga. Pouco ou em nada estava previsto que daí viesse a beneficiar o moçambicano. Mais recentemente, a destruição de mais de 500 torres de transporte de energia para a África do Sul contou, e disso não há dúvidas, com o apoio dado à RENAMO por Governos de Portugal. Postos estes dados, e muitos outros que podem ser postos, em cima da mesa, parece haver alguma desonestidade política quando se afirma que “A bola está do lado moçambicano”. Mas, para não ter de se chegar a uma posição tão extrema, deve, no mínimo, dizer-se que Jorge Sampaio tem uma visão deturpada da história colonial.

domingo, janeiro 30, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de 30 de Janeiro, 2005

antes e depois

Luís David

Basta não ter medo de enfrentar a verdade

Parece estar a haver, nos últimos tempos, um redobrado interesse, por parte de investigadores portugueses, sobre a forma de actuação do colonialismo português em África nas últimas décadas que antecederam a sua derrocada. O seu colapso. Na generalidade, são teses de doutoramento ou textos elaborados e adaptados, para livro, a partir das mesmas. O último dos três que me chegou, tem por título “A Igreja Católica e o Estado Novo em Moçambique”. É uma obra da autoria de Pedro Ramos Brandão, cientista e mestre em várias áreas. Que, na introdução, nos adverte que este livro foi objecto de um acordo de edição entre a Editorial Noticias e o Arquivo Histórico de Moçambique, em que foi previamente acordado o tamanho da obra. Quer dizer, para além do que o leitor pode encontrar nas cerca de 250 páginas, muito ficou por escrever. Como ficou a promessa de mais ser escrito sobre o que aconteceu em Moçambique entre 1930 e 1974, e a forma como Portugal lidou com a sua presença em Moçambique. Não sendo possível resumir, em poucas linhas, o conteúdo da obra, parece suficiente deixar claro que são colocadas em confronto as posições defendidas, na época e no espírito do Concílio Vaticano II, por D. Sebastião Soares de Resende, primeiro Bispo da Beira, por D. Manuel Vieira Pinto, Bispo de Nampula e pelos Padres de Burgos e do Macúti, e, por outro lado, do Estado Novo, de Salazar, dos radicais do regime e do Arcebispo de Lourenço Marques, D. Custódio Alvim Pereira que, como está comprovado, participou, pessoalmente, em interrogatórios feitos pela PIDE a nacionalistas moçambicanos.


Tenho para mim, que “A Igreja Católica e o Estado Novo em Moçambique” é um livro inacabado. Um trabalho que necessita ir muito mais além. Muito mais longe. E, escrevo-o sem receio de desmentido. Por, pelo menos, duas razões óbvias. A primeira, é a da limitação de espaço imposta ao autor sobre a obra em referência. A segunda, mas talvez também não última nem definitiva, é a de D. Sebastião Soares de Resende ter deixado um “Diário” com cerca de 12.000 páginas. Até ao momento, praticamente inédito. Que está em poder de José Capela, autor do prefácio da obra em apreço. Mas, também ele estudioso e autor de muitas obras sobre a realidade moçambicana, a mais conhecida das quais poderá ser “Vinho para Preto”. Ora, José Capela não é mais do que o pseudónimo literário do dr. José Soares Martins, sobrinho de D. Sebastião Soares de Resende e que com ele viveu, muitos anos, na Diocese de Beira. Creio que, para as gerações moçambicanas futuras, o conhecimento deste passado recente, de poucas décadas, deve ser considerado importante. Deve constituir, também, referência para saber entender o presente e projectar o futuro. A perda ou o deixar cair no esquecimento tão valioso património, pode representar uma perda definitiva de importantes fontes de informação sobre as formas de actuação do colonialismo em Moçambique. Creio não ser de todo impossível estabelecer plataformas de trabalho, de investigação, entre moçambicanos e portugueses para que possam vir a ser melhor conhecidos os processos e os métodos de colonização no último meio século. Sobretudo, para que se possa ficar a saber quem foi quem. Quem esteve do lado dos opressores e quem esteve do lado dos oprimidos. Parece fácil. E é. Basta não ter medo de enfrentar a verdade.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 23 de Janeiro, 2005

antes e depois

Luís David


há muitas outras dúvidas por esclarecer


Cada dia que passa, apresentam-se como mais dramáticos os contornos da tragédia que atingiu diferentes países banhados pelo Oceano Índico. Muito provavelmente, jamais será conhecido o número exacto de mortos. Mas, para além do número, para além dos números, ficará na memória de todos o drama, a dor e o luto. O sofrimento humano dos sobreviventes, a memória que, por certo e para todo o sempre, irão guardar da tragédia. De uma tragédia que tendo tido, até ao momento, uma explicação científica aceitável bem pode não estar a responder a muitas dúvidas. Pode, poderá, até estar a esconder algumas verdades. Como aconteceu o movimento das placas no fundos dos mares, já todos sabemos. O que não sabemos, o que não conhecemos, o que ainda ninguém explicou foi como e porquê ocorreu esse movimento, essa deslocação. Sabemos, sabem os cientistas da área, muito sobre o El Nino e a El Nina. Conhecem as origens, ou dizem conhecer, do fenómeno e como e quando ele se manifesta. Os alertas, neste campo, parece m ser atempados. As suas consequências previsíveis. Sabemos, também, o que homem está a exigir da Natureza mais do que ela pode dar, mais do que ela quer dar. Depois, depois dos estragos humanos sobre a natureza, há muito quem apareça como seu defensor. Pode ser tarde. Pode ser demasiado tarde.


O maremoto que vitimou mais de centena e meia de milhar de pessoas em diferentes países banhados pelo Índico, poderá ter sido um fenómeno natural. Mas, também poderá não ter sido. As explicações públicas sobre o fenómeno estão longe de ser convincente. Muito longe, mesmo. Talvez demorem décadas a chegar. Poderá acontecer que nunca cheguem. Recordam-se os mais velhos que no início dos anos 60 um terrível tremor de terra destruiu por completo a cidade de Agadir, no norte de África. Causando dezenas de milhar de mortos. Muitos, mas muitos, anos depois foi admitida a hipótese de a tragédia poder ter sido provocada por uma explosão nuclear no Deserto de Nevada, nos Estados Unidos. Estudos mais aturados e cuidados revelaram, posteriormente, a existência de uma fenda subterrânea que, passando por terra e mar, tinha como ponto mais frágil a cidade destruída. Mais recentemente, já no início dos anos 70, foi registado na estação moçambicana de Changalane, um abalo sísmico de fraca intensidade. Que não terá provocado danos materiais nem humanos. O Dr. Pepe, ao tempo director do então Serviço Meteorológico de Moçambique, admitia a hipótese de o fenómeno poder ter sido originado por uma explosão nuclear feita pela África do Sul, algures no Índico. Ao largo da costa comum, em ponto indeterminado, mas que era possível provar, no tempo, ter acontecido. Quer dizer, que a explosão nuclear foi feita numa determinada data, não existiam dúvidas. As dúvidas que existiam e que, muito provavelmente, nunca foram esclarecidas, nem serão, é se esse ensaio nuclear foi ou não motivo do registo em Changalane. Como esta, há muitas outras dúvidas por esclarecer.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 16 de Janeiro, 2005

antes e depois

Luís David


O poder é para ser exercido


A campanha eleitoral, que antecedeu as últimas eleições, terá sido um período de grande pressão sobre vários órgãos de Informação. Principalmente os de prestação de serviço público. Sempre foi, mais ou menos assim. Cada um contesta e reclama sobre o espaço ou o tempo que lhe foi concedido. Cada outro, protesta por ao outro ter sido concedido mais espaço e mais tempo do que a si. Na hora de balanço, na hora de fazer o balanço dos resultados eleitorais, parece ser da mais elementar honestidade perguntar quantas reuniões públicas, quantos quilómetros por estrada e por ar percorreu cada um. Para, depois, em função destes dados, em função do que foi actividade política pública, averiguar se houve ou não desequilíbrio, favoritismo em termos de tratamento informativo. Pode ser que sim, como pode ser que não. O que parece realidade é que, hoje, poucas semanas depois das eleições, a Informação, no geral, terá voltado a guiar-se pela sua agenda editorial. Sem pressões.


Para fazer, ao que parece, o seu balanço dos resultados eleitorais, a RENAMO realizou, esta semana, o seu Conselho Nacional, na cidade da Beira. Terá sido, ao que os relatos indicam, uma reunião pacífica. Mas, a questão está em que mesmo quando os políticos parecem tomar e assumir posições ditas moderadas e ponderadas, há quem não se conforme com tal posicionamento. Poderá haver quem pretenda criar a ilusão do líder todo poderoso, do líder que detendo todo o poder, cede, entrega e abdica de exercer o poder por uma causa que não explica. Ou explica mal. Por uma causa, pela qual tendo lutado, agora abdica. De forma santa e beatífica. Ora, quando o “Zambeze”, na sua última edição, titula, a toda a largura da página dois, que “Dhlakama recusa ceder à pressão da ala dura para tomar o poder pela força das armas”, não está a transmitir a imagem de um vencedor mas, sim, de um vencido. De um vencido nas urnas e de um vencido no interior do seu partido. Porque, claramente, neste momento, podendo a RENAMO ter capacidade para praticar actos de terrorismo em diferentes pontos do país, não possui qualquer capacidade para tomar o poder pela força das armas. Sequer, os seus apoiantes estrangeiros lhe iriam permitir tal diatribe, tal veleidade. Ninguém está interessado numa guerra civil nem numa guerra de secessão. Ninguém acredita em federalismo. E, cada um tem, efectivamente, o poder que quem. E o poder que cada um tem pode ser, e talvez seja, bem diferente daquele que uns pretendem e outros dizem ter. O poder não se divide. O poder não é para ser divido. O poder é para ser exercido.


domingo, janeiro 09, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 9 de Janeiro, 2005

antes e depois

Luís David


o devir tem de ser assumido hoje


Pela terceira vez, a RENAMO-União Eleitoral contesta o resultado das eleições. É um direito que lhe assiste, por Lei. É um direito que assiste a todos os partidos que julguem ter sido prejudicados. Há, porém, neste protesto, nesta reclamação, uma forma nova e inovadora de protestar e de reclamar. Uma forma nova e inovadora para exigir o que se reclama como direito. Diz, então, ameaça a RENAMO-União Eleitoral, que nenhum dos deputados eleitos pelas suas listas irá sentar-se no Parlamento acaso a sua pretensão venha a não ser atendida. Como diz que o seu presidente recusa tomar posse como membro do Conselho de Estado. Por isto, por tudo e pelo mais que, muito certamente, escapa à nossa compreensão, um dirigente de um partido integrante da União Eleitoral veio a público falar de crise política. Mais. Foi mais longe. Mesmo sem revelar, mesmo sem dizer quais os contornos dessa crise política, veio oferecer-se para mediador do que entende por crise. Para salvar a estabilidade nacional. Que nunca esteve, sequer está, em causa. Ora, para além de poder parecer, e de ser, uma maneira desajeitada de apanhar a última carruagem com o combóio em andamento, afigura-se, também, como maneira desastrosa e desastrada de tentar criar um facto político. Só que, os factos político são criados, para poderem ter resultados, de forma bem mais sofisticada. Não é assim que o poder instituído cai, não por estes processos canhestros que se consegue protagonismo. Muito menos conquista o poder.


Vamos admitir, por hipótese, que sim. Vamos admitir que os deputados, eleitos por voto secreto, nas listas da RENAMO-União Eleitoral recusam, em bloco, tomar os seus lugares no Parlamento. Vamos admitir que o presidente da RENAMO recusa tomar o lugar que lhe está reservado no Conselho de Estado. No campo das hipótese, se tal vier a acontecer, o que sucede em termos de estabilidade política nacional é, muito simplesmente, igual a nada. Muito embora, convenhamos, as regras da alternância democrática possam estar definitivamente feridas. E, feridas de morte. Porque, claramente, aquilo que se procura apresentar como crise política nacional, não passa de uma crise, desejamos que passageira, no interior do maior partido da oposição. Do segundo partido mais votado. E que ao pretender abdicar do mandato que lhe foi conferido pelos eleitores, está, muito simplesmente, a trair a democracia e os valores democráticos já conquistados. Definitivamente, caso a RENAMO-União Eleitoral não consiga resolver as suas crises intestinais, a FRELIMO poderá ter de governar, nos próximos cinco anos, sem opositor, sem oposição no Parlamento. O que a acontecer, e poderá, no campo das hipóteses, vir a acontecer, será uma perda para a democracia. Será uma perda democrática. E, se tal acontecer, se tal vier a acontecer, por hipótese, porque pode acontecer, que ninguém venha a apresentar queixa, que ninguém venha lamentar-se. O futuro, o devir tem de ser assumido hoje.


domingo, janeiro 02, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 2 de Janeiro, 2005


antes e depois

Luís David


quem manda é a Mãe Natureza

Acabámos de entrar no ano de 2005. Temos poucas horas, ainda, de 2005. E, o ano que vem, o Ano Novo é, sempre e tradicionalmente, um ano de esperança. Todos os anos que começam são anos de esperança. Como todos os anos que terminam são, na generalidade, anos de desesperança. O Ano Novo é, sempre, na nossa crença, o Ano Bom como o ano velho é o ano mau. Vivemos o mito, deixamo-nos enredar no misticismo. Aproveitamos os últimos momentos de cada ano para deitar fora, para deitar no lixo, tudo o que nos pareça velho e inútil. Tudo o que nos pareça ser lixo. Inutilidade. E fazemo-lo, por vezes, com desastrada e com desastrosa sonoridade. Está por investigar, ou talvez não, o motivo pelo qual a passagem de um ano para outro deva ser assinalada de forma barulhenta. Em muitos casos, uma barulheira esquizofrénica e patológica. Se é que barulho, rebentamento de petardos ou disparos de armas de fogo significa alegria, ainda ninguém tentou provar que assim é.


A quadra dita festiva, e que antecedeu a entrada no Novo Ano, em Moçambique, ficou marcada de forma algo dramática. Elevado número de acidentes de viação provocaram algumas dezenas de mortes. Muitas foram as famílias que, em vez de festa, tiveram luto. Na nossa zona marinha, na zona do Oceano Índico, a que pertencemos e de que somo parte integrante, a destruição, a morte e o luto ocuparam o tempo e o espaço da festa programada e desejada. A dor e o luto ocuparam o espaço da anunciada ruidosa festa. Não terá havido fogo de artifício. Nem tempo para o erguer da taça de champanhe ao bater das doze badaladas. Mais de cem mil mortos, dezenas de milhar de desaparecidos, milhões de deslocados é um cenário, aparentemente, irrealista. Mas é, sem dúvida a realidade. E a realidade é, também e sobretudo, muito para além daquilo que as câmaras de televisão nos mostram, aquilo que não mostram. Porque o que mostram, repetitivamente, são turistas desesperados E, aquilo que não mostram é, sobretudo, o destino dos muitos milhares de mortos, dos mortos que haverão de ter, por falta de identificação, como destino último, a vala comum. Quando para isso houver espaço. E, estes, em termos de história, nunca serão mais do que um número. Um número impreciso, pouco fiável e de pouco significado. Este maremoto, esta catástrofe que se abateu sobre a nossa região, parece querer dizer que, afinal, os homens continuam com pouco poder para determinar e gerir os destinos da Humanidade e do Planeta Terra. Parece querer dizer que quem manda é a Mãe Natureza.

domingo, dezembro 26, 2004

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 26 de Dezembro, 2004


antes e depois

Luís David

saber perder é uma questão de dignidade

A história repete-se. Parece repetir-se. Ciclicamente, de cinco em cinco anos. Sempre que há eleições, o discurso da oposição repete-se. É um discurso sempre igual. Aberrante, chato, enfadonho. Porque é, sempre e invariavelmente, o discurso da fraude. Por antecipação, o discurso da fraude. Do género se eu perder é porque houve fraude. E, sendo por antecipação o discurso da fraude, pode ser também, é também, o discurso de quem, em consciência, parte derrotado para a corrida eleitoral para o mais alto cargo da República. Nesta perspectiva, sendo, como parece, um discurso infantil de candidato antecipadamente derrotado, é, acima de tudo um discurso masoquista. O discurso de quem se propôs auto-flagelar-se com a derrota. O discurso do injustiçado. O discurso de quem, sabendo e tendo consciência que tinha condições poucas ou nenhumas para ser eleito Presidente da República, reclama, agora, dever ter sido o eleito se... Exactamente se...



No antes das eleições agora realizadas, a RENAMO terá começado por cantar vitória fácil. Aparentemente, ensaiou um discurso confiante. Um discurso, digamos, triunfante. Um discurso triunfalista. Mas, discurso que só poderia convencer quem o proferia. E, mais do que tudo, quem aconselhava a proferi-lo. E, aquilo a que a alguns poderá ter parecido uma jogada de antecipação, poderá não ter sido mais do que um erro de estratégia. E, nestes casos, erros de estratégia pagam-se com derrotas, pagam-se com o adiar, por mais cinco anos, a conquista do poder. É que, a realidade nem sempre, ou raramente, corresponde ao desejo ou ao sonho. E, quando se acorda do sonho, do dormir suave e tranquilo, da ilusão por alguns criada e por outros alimentada, e a realidade é outra, é difícil ter de aceitar a realidade tal como é. É difícil ter de aceitar a derrota. Mesmo quando, ou sobretudo, aqueles a quem tanto se pediu protecção, aqueles a quem tanto se pediu observação isenta e imparcial aí estão, muito clara e inequivocamente, a confirmar a vitória de quem venceu. União Europeia, França, Estados Unidos da América não tiveram dúvidas sobre quem venceu as eleições, em felicitar, no imediato, o vencedor. Ora, quando perante esta realidade, que parece contrariar o sonho de alguém, se registam novas ameaças, corremos a ousadia de ter de afirmar, por muito que pareça paradoxo, que as eleições, sendo o que foram, deveriam ter sido coisa diferente. Para consentir a vitória a quem se dizia vencedor. Sem dúvida, ninguém gosta de perder. Mas, convenhamos, saber perder é uma questão de dignidade.
Publicado em Maputo, Moçammbique no Jornal Domingo de 19 de Dezembro, 2004

antes e depois

Luís David


uma extrema aberração


Em diferentes ocasiões e por diferentes motivos, fala-se em lusófono e em lusofonia. Há, até, reuniões, congressos, festivais de lusófonos e em nome da lusofonia. Pretende-se, ao que parece, nestas reuniões em que se encontram homens e mulheres de origens e de culturas diferentes e diversas, tentar afirmar que, afinal as partes constituem um todo. Pretende-se, em síntese e em tese, ao que parece, tentar fazer acreditar que os colonizados de ontem, ao assumirem ou ao terem sido forçados a assumir certos valores do colonizador, são hoje seus iguais. Fazem parte do seu mundo cultural, étnico e linguistico. Que todos se identificam numa cultura lusófona. Que ninguém sabe o que é, por em momento nenhum ter sido estudada, menos ainda definida. Que é, por exclusão de partes, coisa nenhuma. Que não existe. Ou, melhor, existe apenas e unicamente como neologismo. Não passa de uma palavra nova. Que, podendo não ser mais do que isso, também o pode ser. Pode ser uma palavra, pode ser um neologismo, com um sentido e um significado neocolonialista. Certamente que assim pode ser, que assim é.


No seu ensaio filosófico, a que deu o título “O Enigma Português”, F. Cunha Leão, falecido em 19774, busca as origens da fundação e da sobrevivência de Portugal ao longo dos séculos. E, escreve (pag. 89): Herculano contestou com veemência a filiação lusitana dos portugueses fundada na história de Roma e defendida pelo renascimento eborense. Segundo ele as sucessivas invasões e razias que o território sofreu por tão diversos povos reduzem a mera soberbia infundada essa tentativa genealógica de ir buscar fama a Sertório e a Viriato. Nas suas “20 Teses” sobre o tema referido, talvez a parte mais importante da obra, parece bem claro: 1) Uma parte da Galiza e outra da Lusitânia formaram Portugal. (...) 3) Lusos e galaicos distinguem-se, posto que povos individualizados em finisterra, de parentesco próximo e afinidades incontestáveis. 4) O português é uma síntese de lusitano e galaico, um luso-galego e só metaforicamente lusitano. Mais diz o filósofo, que escrevia em 1960 (tese 14), Os descobrimentos e a colonização constituem por isso a suprema afirmação dos portugueses, a linhas das comeadas do seu contorno histórico, e bem assim o complexo fenomenal que mais aproveita à interpretação da Grei. Ora, se bem entendo e se bem interpreto o filósofo, o lusitano nunca existiu. E, nesta linha de pensamento, se o lusitano não existiu, se não existiu no seu estado puro ou se existiu apenas como mestiçagem, como produto de um caldear de culturas, não poderá ser outra coisa se não um híbrido. Assim, assim não existindo, como parece não existir, o luso ou o lusitano, menos motivos parece haver para que possam existir lusófonos e lusofonia. De resto, e por fim, à luz do exposto, parece fazer sentido nenhum que homens e mulheres de origem e de cultura baniu alguma vez possam vir a ser lusófonos. Estamos, no mínimo, perante um equívoco, uma extrema aberração.