Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de 20 de Março, 2005
antes e depois
Luís David
o mistério por esclarecer
Todos os dias ocorre, em diferentes partes do mundo, um número quase infinito de acontecimentos. Graças às novas tecnologias da informação, a maioria fica acessível ao nosso conhecimento. Ontem, um ano atrás, o volume da informação que nos chegava, que era colocada ao nosso alcance, era bem menor. Como infinitamente bem menor era o nosso acesso à informação e ao conhecimentos. Recuemos um pouco mais no tempo para perceber como há quatro ou cinco décadas passadas sabíamos incomparavelmente menos do que sabemos hoje. Naturalmente, por sabermos muito mais e muito mais rápido isso, só por si, pode não alterar absolutamente nada da nossa rotina. Pode não modificar coisa nenhuma em relação à ordem estabelecida e aceite. Mas, casos poderá haver que obriguem a raciocínio diferente. E a ter de concluir que amanhã nada será como hoje. Uma conclusão difícil para alguns. Talvez para muitos. Dolorosa, até, para uma grande maioria. E a razão, se razão há, se razão existe, parece simples. É que temos um grande receio, um grande medo, de questionar o passado. Por, ao questionar o passado, ao investigar o passado, podermos vir a descobrir que a história do passado que nos deram a conhecer poder não ser única nem verdadeira. Poder ser, apenas, dogma. E, aí, se abaladas as nossas convicções sobre a verdade que aceitámos, e que constituiu, afinal, o fundamento da nossa maneira de ser e de estar, podemos enfrentar o complexo dilema de, sabendo que o passado possa não ter sido o que nos foi dito que foi, termos referências poucas ou nenhumas para pensar o amanhã. Para recear o amanhã, como simples devir.
No plano da literatura, se assim se pode dizer, são escritos e editados livros que em nada alteram a nossa maneira de ser e de pensar. Que, em muitos casos, são poucos os exemplares que saem das prateleiras das livrarias. Outros, estão destinados a vender milhões de exemplares, nas mais diversas línguas. Provocam debates e polémicas, originam investigações com perspectivas diferentes. E, podem abalar as nossas convicções e fazer repensar a nossa maneira de ser e de estar. Muitos dos nossos conceitos. Alguns dos conceitos pelos quais possa ter sido guiada e moldada a nossa existência. Estamos a referir-nos, neste caso concreto, a “O Código Da Vinci”. Não só à obra em si e à visão que procura transmitir sobre a forma como a religião de Cristo chegou aos nossos dias, mas, e sobretudo, a hipotéticas especulações e a posteriores investigações. E dos muitos mistérios, ainda por descobrir, sobre o relacionamento entre s Cristo e Maria Madalena. Mas, não menos importante, para qualquer interessado na matéria, sobre a sua descendência. E, sobre a história e as doutrinas da Igreja Cristã, estabelecidas no Concílio de Niceia, reunido em 325 d. C., numa época em que Constantino era contestado à frente dos destinos do Império Romano e queria uma Igreja harmoniosa, sem divisões, de forma a promover a paz e prosperidade e estava preocupado com a dissensão interna provocada pelo Arianismo (...), como diz Siomon Cox, em “O Código Da Vinci Descodificado – O guia não autorizado dos factos por detrás da ficção”. Para além de todas a especulação possível, para além de toda a verdade conhecida e comprovada, fica a dúvida se estamos ou não perante dois mil anos de mentira. E, aí, precisamente, parece residir o mistério por esclarecer.
quarta-feira, março 23, 2005
segunda-feira, março 14, 2005
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Março 13, 2005
antes e depois
Luís David
nem tudo o que parece é fácil
Por tendência, estamos todos bem. Assim parece, assim o afirmamos. Falamos de reformas, dizemos que estamos a reformar isto mais aquilo. Esquecemos, fazemos por esquecer, ignoramos, fazemos por ignorar, que qualquer reforma implica mudança. E que toda a mudança, por mais superficial que seja, implica resistência, motiva reacção. Teoricamente, já mudámos muito. Na prática, mudámos coisa nenhuma. Até porque o tempo que está a demorar a mudança, por mínima e mais superficial que seja, joga sempre a favor de quem é contra a mudança. De quem se opõe, de forma declarada ou encoberta, contra a mudança. Depois, parece que também por tendência, gostamos de aligeirar, de facilitar aqui, de complicar, de dificultar mais além. Ou, em situações semelhantes e idênticas agir de forma diversa. Pareça ou não, tanto facilitar e aligeirar como complicar e dificultar são, em si, procedimentos em que pode assentar aquilo a que se convencionou chamar corrupção. A corrupção não existe no abstracto. A corrupção é, sempre, um procedimento contra determinada norma ou contra determinada convenção.
Em tempos já distantes, em tempos há muito idos, em tempos que a memória não guarda, foi noticiada a venda de motores de aviões para o estrangeiro. Noutra ocasião, antes ou depois pouco importa, foi noticiada a descoberta de urânio enriquecido numa artéria de Maputo. Agora, em dias recentes e no nosso tempo presente, foi noticiado que um camião transportando vinte reactores de aviões foi retido na fronteira de Ressano Garcia, quando tentava sair do país. E mandado regressar por quem tinha poderes para o fazer. Posteriormente, noticiado foi, com excessivo e desnecessário destaque, que transformados os ditos motores em sucata, esta podia seguir o seu destino. Que tudo já estava em ordem, que tudo havia acabado em bem. Aparentemente, tentaram transmitir-nos a mensagem de que terá havido algum equívoco. E que tudo o que se passou, se é que alguma coisa se passou, não passou de uma simples questão técnica. De um erro derivado da má interpretação de um acordo cujo conteúdo só alguns conhecem. Como se fazer sair do país motores de avião e fazer sair do país sucata de motores de avião possa ser uma simples questão técnica. Como se o valor de motores de avião e de sucata de motores de avião, num qualquer país estrangeiro, fosse, exactamente, o mesmo. Claro que não é. Como não constitui segredo algumas das formas de actuação da mafia russa, após o desmembramento da URSS, nos negócios de material militar por alguns considerado e classificado como obsoleto. Pareça ou não, esta história, moçambicana, da retenção, na fronteira de Ressano Garcia, de um camião com motores de avião é uma história, ingenuamente, mal contada. Parece, pelo que foi publicamente divulgado, ser necessário ir um pouco mais além. E, neste caso concreto, ir um pouco mais além resulta em querer saber a quem pertencia o camião que transportava os motores de avião, quem era o seu condutor, o nome de quem enviou e o nome de quem devia receber os referidos motores. É que, até hoje, em questão de nomes, nada foi divulgado. Sabemos, isso sim, que em vez de documentos originais foram usadas fotocópias. Parece pouco, é demasiado pouco. Mais uma vez, poderemos estar, hipoteticamente, perante mais caso de crime sem criminoso. Ou um criminoso sem rosto e sem nome. De facto, nem tudo o que parece é fácil.
antes e depois
Luís David
nem tudo o que parece é fácil
Por tendência, estamos todos bem. Assim parece, assim o afirmamos. Falamos de reformas, dizemos que estamos a reformar isto mais aquilo. Esquecemos, fazemos por esquecer, ignoramos, fazemos por ignorar, que qualquer reforma implica mudança. E que toda a mudança, por mais superficial que seja, implica resistência, motiva reacção. Teoricamente, já mudámos muito. Na prática, mudámos coisa nenhuma. Até porque o tempo que está a demorar a mudança, por mínima e mais superficial que seja, joga sempre a favor de quem é contra a mudança. De quem se opõe, de forma declarada ou encoberta, contra a mudança. Depois, parece que também por tendência, gostamos de aligeirar, de facilitar aqui, de complicar, de dificultar mais além. Ou, em situações semelhantes e idênticas agir de forma diversa. Pareça ou não, tanto facilitar e aligeirar como complicar e dificultar são, em si, procedimentos em que pode assentar aquilo a que se convencionou chamar corrupção. A corrupção não existe no abstracto. A corrupção é, sempre, um procedimento contra determinada norma ou contra determinada convenção.
Em tempos já distantes, em tempos há muito idos, em tempos que a memória não guarda, foi noticiada a venda de motores de aviões para o estrangeiro. Noutra ocasião, antes ou depois pouco importa, foi noticiada a descoberta de urânio enriquecido numa artéria de Maputo. Agora, em dias recentes e no nosso tempo presente, foi noticiado que um camião transportando vinte reactores de aviões foi retido na fronteira de Ressano Garcia, quando tentava sair do país. E mandado regressar por quem tinha poderes para o fazer. Posteriormente, noticiado foi, com excessivo e desnecessário destaque, que transformados os ditos motores em sucata, esta podia seguir o seu destino. Que tudo já estava em ordem, que tudo havia acabado em bem. Aparentemente, tentaram transmitir-nos a mensagem de que terá havido algum equívoco. E que tudo o que se passou, se é que alguma coisa se passou, não passou de uma simples questão técnica. De um erro derivado da má interpretação de um acordo cujo conteúdo só alguns conhecem. Como se fazer sair do país motores de avião e fazer sair do país sucata de motores de avião possa ser uma simples questão técnica. Como se o valor de motores de avião e de sucata de motores de avião, num qualquer país estrangeiro, fosse, exactamente, o mesmo. Claro que não é. Como não constitui segredo algumas das formas de actuação da mafia russa, após o desmembramento da URSS, nos negócios de material militar por alguns considerado e classificado como obsoleto. Pareça ou não, esta história, moçambicana, da retenção, na fronteira de Ressano Garcia, de um camião com motores de avião é uma história, ingenuamente, mal contada. Parece, pelo que foi publicamente divulgado, ser necessário ir um pouco mais além. E, neste caso concreto, ir um pouco mais além resulta em querer saber a quem pertencia o camião que transportava os motores de avião, quem era o seu condutor, o nome de quem enviou e o nome de quem devia receber os referidos motores. É que, até hoje, em questão de nomes, nada foi divulgado. Sabemos, isso sim, que em vez de documentos originais foram usadas fotocópias. Parece pouco, é demasiado pouco. Mais uma vez, poderemos estar, hipoteticamente, perante mais caso de crime sem criminoso. Ou um criminoso sem rosto e sem nome. De facto, nem tudo o que parece é fácil.
terça-feira, março 08, 2005
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Março 6, 2005
antes e depois
Luís David
Um país diferente do não acontece nada
O anúncio publicado, recentemente, pelo jornal “Notícias” a pedir “Um casal de raça branca de preferência origem portuguesa (...)”, terá provocado um natural mal estar. A primeira reacção pública, terá sido da Ministra do Trabalho, através do seu Gabinete, em Comunicado de Imprensa. Depois, também a Procuradoria Geral da Cidade de Maputo reagiu ao conteúdo do anúncio. Porém, o anúncio em si pode bem ser apenas uma ponta, a ponta visível, de um aiceberg, cujas dimensões tentamos evitar conhecer. Porque, da mesma forma que não se pode desejar o que não se conhece, também não se pode combater o que se deseja ignorar. Contudo, entre anúncios, comunicado e posições públicas, parece haver alguns aspectos que não devem passar sem reparo. Mesmo que breve e ligeiro. Aligeirado.
Comecemos, então, pelo princípio. Por onde é lógico que se comece. Diz, logo nas primeiras linhas, o Comunicado do Gabinete da Ministra do Trabalho, que o anúncio “pode ser considerado uma forma subtil de discriminação racial (...)”. Discordo, por pensar diferente. Por pensar que se trata de uma forma declarada e aberrante de racismo primário. Na sua última edição, o jornal “ Savana” também aborda o assunto, em tom crítico. E diz, a determinada altura, que a vaga se destinava “a um posto de trabalho no Reino da Swazilândia, facto que se demostrou não ser verdade”. Mas, fosse verdade. Fosse até o pedido feito para Portugal, para os Estados Unidos ou para a Jamaica. Tal facto, o país ou o local geográfico da vaga, não elimina, em si, o carácter racista do anúncio. Tendo presente o que está convencionado internacionalmente sobre a matéria. Refere e cita, o mesmo jornal “Savana”, um comunicado da direcção de trabalho (qual?) que parece não ter sido tornado público. Esse texto, cujo conteúdo não se conhece, cita vários artigos da Constituição, entre os quais o 39. Que diz, exactamente, o seguinte: “Todos os actos visando atentar contra a dignidade nacional, prejudicar a harmonia nacional, criar divisionismo, situações de privilégio ou discriminação com base na cor, raça, sexo, origem étnica, lugar de nascimento, religião, grau de instrução, posição social, condição físico ou mental, estado civil dos pais, profissão ou opção política, são punidos nos termos da lei”. O mesmo semanário, na mesma edição, dá conta da posição da Procuradoria Geral da Cidade de Maputo, do conteúdo da carta que dirigiu ao director do jornal “Notícias” e do facto de ter dado conhecimento do conteúdo da mesma ao Conselho Superior de Comunicação Social. Com aparente ingenuidade, esquece de dizer qual a posição assumida pela Procuradoria da República perante aquilo que se pode considerar de crime público, condenado internacionalmente. O artigo citado é claro. Este tipo de crimes, em Moçambique, são punidos por lei. E, em Moçambique, existem funcionários pagos, por via dos impostos, para fazerem cumprir a lei. Aparentemente, estes funcionários do Estado parecem convictos que, recomendando em vez de agir, podem continuar a viver na “paz podre” em que se habituaram a viver. O cidadão comum espera e exige mais. E, também sabe que pode exigir mais. Sabe, sobretudo, que tem possibilidade de viver num país diferente. Um país diferente do não acontece nada.
antes e depois
Luís David
Um país diferente do não acontece nada
O anúncio publicado, recentemente, pelo jornal “Notícias” a pedir “Um casal de raça branca de preferência origem portuguesa (...)”, terá provocado um natural mal estar. A primeira reacção pública, terá sido da Ministra do Trabalho, através do seu Gabinete, em Comunicado de Imprensa. Depois, também a Procuradoria Geral da Cidade de Maputo reagiu ao conteúdo do anúncio. Porém, o anúncio em si pode bem ser apenas uma ponta, a ponta visível, de um aiceberg, cujas dimensões tentamos evitar conhecer. Porque, da mesma forma que não se pode desejar o que não se conhece, também não se pode combater o que se deseja ignorar. Contudo, entre anúncios, comunicado e posições públicas, parece haver alguns aspectos que não devem passar sem reparo. Mesmo que breve e ligeiro. Aligeirado.
Comecemos, então, pelo princípio. Por onde é lógico que se comece. Diz, logo nas primeiras linhas, o Comunicado do Gabinete da Ministra do Trabalho, que o anúncio “pode ser considerado uma forma subtil de discriminação racial (...)”. Discordo, por pensar diferente. Por pensar que se trata de uma forma declarada e aberrante de racismo primário. Na sua última edição, o jornal “ Savana” também aborda o assunto, em tom crítico. E diz, a determinada altura, que a vaga se destinava “a um posto de trabalho no Reino da Swazilândia, facto que se demostrou não ser verdade”. Mas, fosse verdade. Fosse até o pedido feito para Portugal, para os Estados Unidos ou para a Jamaica. Tal facto, o país ou o local geográfico da vaga, não elimina, em si, o carácter racista do anúncio. Tendo presente o que está convencionado internacionalmente sobre a matéria. Refere e cita, o mesmo jornal “Savana”, um comunicado da direcção de trabalho (qual?) que parece não ter sido tornado público. Esse texto, cujo conteúdo não se conhece, cita vários artigos da Constituição, entre os quais o 39. Que diz, exactamente, o seguinte: “Todos os actos visando atentar contra a dignidade nacional, prejudicar a harmonia nacional, criar divisionismo, situações de privilégio ou discriminação com base na cor, raça, sexo, origem étnica, lugar de nascimento, religião, grau de instrução, posição social, condição físico ou mental, estado civil dos pais, profissão ou opção política, são punidos nos termos da lei”. O mesmo semanário, na mesma edição, dá conta da posição da Procuradoria Geral da Cidade de Maputo, do conteúdo da carta que dirigiu ao director do jornal “Notícias” e do facto de ter dado conhecimento do conteúdo da mesma ao Conselho Superior de Comunicação Social. Com aparente ingenuidade, esquece de dizer qual a posição assumida pela Procuradoria da República perante aquilo que se pode considerar de crime público, condenado internacionalmente. O artigo citado é claro. Este tipo de crimes, em Moçambique, são punidos por lei. E, em Moçambique, existem funcionários pagos, por via dos impostos, para fazerem cumprir a lei. Aparentemente, estes funcionários do Estado parecem convictos que, recomendando em vez de agir, podem continuar a viver na “paz podre” em que se habituaram a viver. O cidadão comum espera e exige mais. E, também sabe que pode exigir mais. Sabe, sobretudo, que tem possibilidade de viver num país diferente. Um país diferente do não acontece nada.
terça-feira, março 01, 2005
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 27 de Fevereiro, 2005
antes e depois
Luís David
o vazio legal é sempre espaço apetecido pelos oportunistas
Em diferentes ocasiões e por diferentes motivos, veio a público a necessidade de uma definição clara sobre quem deve ser considerado ou não deve ser considerado herói nacional. Ao que a memória recorda, a questão levantou-se, em momentos diferentes, invariavelmente, pelo facto de se desejar saber onde iriam ser depositados os resto mortais do falecido. A questão levantou-se, sempre, em tempos recentes, perante um caso consumado de morte. E, devido ao vazio legislativo e normativo sobre a matéria. Ora, sendo Moçambique um Estado laico, é Moçambique um país fortemente influenciado pela cultura indo-judaico-cristã. E, se no contexto desta realidade tem grande importância o local onde o corpo é depositado e a forma como é depositado, para além do ritual da morte, do ritual do funeral, outras questões devem, obrigatoriamente, ser colocadas. Aparentemente, a primeira questão está em saber quais os deveres que o Estado assume quando declara um seu cidadão herói nacional. Que deveres assume o Estado, perante a Nação, quando declara um cidadão como herói nacional. Entendendo-se que, ao fazê-lo, o faz por o considerar um símbolo e um exemplo de e na vida. E que, como tal deve ser seguido, Mas, também quais os direitos e os deveres que, no contexto da consagração, são devidos aos familiares. Mais, se esse símbolo nacional pode, e em que circunstâncias pode, ser utilizado em publicidade. E em que tipo de publicidade, desde refrigerantes a bebidas alcoólicas, passando por sabonetes, automóveis, pomada para as borbulhas ou celulares. Mais, mas por fim, quem tem autoridade e quem poder para autorizar a utilização de um símbolo nacional em campanhas publicitárias. Se o Estado ou se os familiares do falecido.
.
Foi Tomás Vieira Mário quem primeiro opinou sobre o direito de utilização de símbolos nacionais em campanhas publicitárias. Voltou ao assunto e referiu-se a texto por mim escrito, posteriormente ao seu primeiro, sobre o mesmo assunto. Também Lina Magaia refere o meu nome e a minha posição em artigo mais recente, na última edição do jornal “Zambeze”. Pelo que já foi escrito sobre o assunto, penso ter entendido que o assunto merece não terminar nem ficar pela opinião nossa. Pela opinião de três escribas. Penso que deve partir-se das opiniões conhecidas para se alargar o debate e conhecer opiniões outras. Sensibilidades diferentes. Contrárias. Por necessárias para se poder legislar sobre a matéria. E, legislar sobre a matéria é, em última análise, deixar claro se os heróis nacionais podem emprestar a sua imagem, o seu rosto, o seu corpo, os seus gestos, a campanhas de publicidade. Se sim, em relação a que produtos, em que circunstâncias e em que momento. Que se diga que sim. E como. Se não, que se diga claramente que não. Enquanto não se disser claramente se sim ou se não, fica um vazio legal. E o vazio legal é sempre espaço apetecido pelos oportunistas.
antes e depois
Luís David
o vazio legal é sempre espaço apetecido pelos oportunistas
Em diferentes ocasiões e por diferentes motivos, veio a público a necessidade de uma definição clara sobre quem deve ser considerado ou não deve ser considerado herói nacional. Ao que a memória recorda, a questão levantou-se, em momentos diferentes, invariavelmente, pelo facto de se desejar saber onde iriam ser depositados os resto mortais do falecido. A questão levantou-se, sempre, em tempos recentes, perante um caso consumado de morte. E, devido ao vazio legislativo e normativo sobre a matéria. Ora, sendo Moçambique um Estado laico, é Moçambique um país fortemente influenciado pela cultura indo-judaico-cristã. E, se no contexto desta realidade tem grande importância o local onde o corpo é depositado e a forma como é depositado, para além do ritual da morte, do ritual do funeral, outras questões devem, obrigatoriamente, ser colocadas. Aparentemente, a primeira questão está em saber quais os deveres que o Estado assume quando declara um seu cidadão herói nacional. Que deveres assume o Estado, perante a Nação, quando declara um cidadão como herói nacional. Entendendo-se que, ao fazê-lo, o faz por o considerar um símbolo e um exemplo de e na vida. E que, como tal deve ser seguido, Mas, também quais os direitos e os deveres que, no contexto da consagração, são devidos aos familiares. Mais, se esse símbolo nacional pode, e em que circunstâncias pode, ser utilizado em publicidade. E em que tipo de publicidade, desde refrigerantes a bebidas alcoólicas, passando por sabonetes, automóveis, pomada para as borbulhas ou celulares. Mais, mas por fim, quem tem autoridade e quem poder para autorizar a utilização de um símbolo nacional em campanhas publicitárias. Se o Estado ou se os familiares do falecido.
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Foi Tomás Vieira Mário quem primeiro opinou sobre o direito de utilização de símbolos nacionais em campanhas publicitárias. Voltou ao assunto e referiu-se a texto por mim escrito, posteriormente ao seu primeiro, sobre o mesmo assunto. Também Lina Magaia refere o meu nome e a minha posição em artigo mais recente, na última edição do jornal “Zambeze”. Pelo que já foi escrito sobre o assunto, penso ter entendido que o assunto merece não terminar nem ficar pela opinião nossa. Pela opinião de três escribas. Penso que deve partir-se das opiniões conhecidas para se alargar o debate e conhecer opiniões outras. Sensibilidades diferentes. Contrárias. Por necessárias para se poder legislar sobre a matéria. E, legislar sobre a matéria é, em última análise, deixar claro se os heróis nacionais podem emprestar a sua imagem, o seu rosto, o seu corpo, os seus gestos, a campanhas de publicidade. Se sim, em relação a que produtos, em que circunstâncias e em que momento. Que se diga que sim. E como. Se não, que se diga claramente que não. Enquanto não se disser claramente se sim ou se não, fica um vazio legal. E o vazio legal é sempre espaço apetecido pelos oportunistas.
domingo, fevereiro 20, 2005
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de 20 de Fevereiro, 2005
antes e depois
Luís David
em Moçambique manda o chumbo
Logo que o novo Governo entrou em funções e que foram conhecidos os métodos de trabalho de alguns dos seus membros, surgiram, daqui e de além, comentários de apoio e de desagrado. Estranho seria acontecer de forma diferente. Houve, até, quem tivesse vindo a público, talvez com certa timidez, afirmar que estamos perante uma Ofensiva. Uma Ofensiva Política e Organizacional para evocar o que aconteceu no tempo de Samora Machel. Em minha opinião, estamos perante algo diferente. Estamos a assistir à tentativa de ensaio de um modo de governar diferente. A uma forma de governar actuando em bloco e em diferentes frentes. Isto dado que, se o tempo de Samora era ele o único protagonista do processo, no tempo presente os protagonistas são, no momento, vários. E, também, porque se no tempo de Samora estávamos em plena época revolucionária, hoje, no momento presente, vivemos num Estado de Direito. Lógico, muitos dos métodos utilizados nesse tempo é impensável que possam ser utilizados hoje. Embora os objectivos a atingir possam não ser muito diferentes. Sem perder de vista que se no tempo passado o objectivo principal era mudar a mentalidade do homem, criar o chamado Homem Novo, hoje já se percebeu ser necessário alterar estruturas, aperfeiçoar e modificar leis.
É demasiado cedo, é prematuro, tentar fazer qualquer tipo de avaliação sobre o que cada um dos membros do Governo fez ou deixou de fazer. Mas, sem tentar influir nas suas agendas de trabalho, nas suas prioridades, parece lícito deixar expresso o que se pensa em ralação a algumas questões consideradas importantes. Assim, em primeiro lugar, coloque-se a questão de saber a quem serve ou quem se serve do Regulamento do Regime Jurídico do Condomínio. Na prática, nunca foi aplicado. Em Moçambique, tal como foi copiado da legislação que vigora em Portugal, não tem a mínima hipótese de o vir a ser. Este Regulamento é, em última análise, uma nado morto. Mas, um nado morto, porque assim se quis que fosse para proteger certos interesses pouco claros. Em segundo e último lugar, por hoje, importa saber que motivos ou que interesses económicos impediram e impedem a actualização da legislação sobre funerais. No caso em que os corpos venham do exterior ou sejam depositados em jazigos. Porquê que continuamos a aplicar legislação que vigorou em Portugal há mais de quatro décadas. Porquê, a questão está em saber o motivo pelo qual continuamos a exigir urnas de chumbo e recusamos urnas de zinco. A questão está em saber, também, qual o motivo pelo qual não adequamos a nossa legislação à legislação nos países da região em que nos situamos. Por exemplo, África do Sul. Um documento, da Associação dos Directores das Funerárias Independentes deste país, datado de 8 de Janeiro de 2001, dirigido A quem possa interessar diz que Confirma-se que na África do Sul, as urnas de chumbo foram substituídas por zinco desde há 40 anos, sem experiência de qualquer problema. Recentemente, muito recentemente, passam poucos meses, e este não é caso único, um corpo em caixão de zinco, depois de velado na Igreja da Polana não teve autorização para ser depositado em jazigo de família no Cemitério de Lhanguene. A direcção de Saúde da Cidade de Maputo exigiu caixão de chumbo. E, como quem manda pode, mesmo quando manda mal, o corpo, depois de velado, de encomendado a Deus pelo padre, regressou, foi obrigado a regressar a uma das capelas do Hospital Central de Maputo. Aí passou a noite, a última noite entre os vivos, certamente desconhecendo a dor e o sofrimento que a decisão estava a provocar aos familiares. Vivos. Para, depois de trocado o zinco pelo chumbo poder seguir, no dia seguinte, para sua última morada. De facto, apesar de recusado em muitos países, em Moçambique manda o chumbo.
antes e depois
Luís David
em Moçambique manda o chumbo
Logo que o novo Governo entrou em funções e que foram conhecidos os métodos de trabalho de alguns dos seus membros, surgiram, daqui e de além, comentários de apoio e de desagrado. Estranho seria acontecer de forma diferente. Houve, até, quem tivesse vindo a público, talvez com certa timidez, afirmar que estamos perante uma Ofensiva. Uma Ofensiva Política e Organizacional para evocar o que aconteceu no tempo de Samora Machel. Em minha opinião, estamos perante algo diferente. Estamos a assistir à tentativa de ensaio de um modo de governar diferente. A uma forma de governar actuando em bloco e em diferentes frentes. Isto dado que, se o tempo de Samora era ele o único protagonista do processo, no tempo presente os protagonistas são, no momento, vários. E, também, porque se no tempo de Samora estávamos em plena época revolucionária, hoje, no momento presente, vivemos num Estado de Direito. Lógico, muitos dos métodos utilizados nesse tempo é impensável que possam ser utilizados hoje. Embora os objectivos a atingir possam não ser muito diferentes. Sem perder de vista que se no tempo passado o objectivo principal era mudar a mentalidade do homem, criar o chamado Homem Novo, hoje já se percebeu ser necessário alterar estruturas, aperfeiçoar e modificar leis.
É demasiado cedo, é prematuro, tentar fazer qualquer tipo de avaliação sobre o que cada um dos membros do Governo fez ou deixou de fazer. Mas, sem tentar influir nas suas agendas de trabalho, nas suas prioridades, parece lícito deixar expresso o que se pensa em ralação a algumas questões consideradas importantes. Assim, em primeiro lugar, coloque-se a questão de saber a quem serve ou quem se serve do Regulamento do Regime Jurídico do Condomínio. Na prática, nunca foi aplicado. Em Moçambique, tal como foi copiado da legislação que vigora em Portugal, não tem a mínima hipótese de o vir a ser. Este Regulamento é, em última análise, uma nado morto. Mas, um nado morto, porque assim se quis que fosse para proteger certos interesses pouco claros. Em segundo e último lugar, por hoje, importa saber que motivos ou que interesses económicos impediram e impedem a actualização da legislação sobre funerais. No caso em que os corpos venham do exterior ou sejam depositados em jazigos. Porquê que continuamos a aplicar legislação que vigorou em Portugal há mais de quatro décadas. Porquê, a questão está em saber o motivo pelo qual continuamos a exigir urnas de chumbo e recusamos urnas de zinco. A questão está em saber, também, qual o motivo pelo qual não adequamos a nossa legislação à legislação nos países da região em que nos situamos. Por exemplo, África do Sul. Um documento, da Associação dos Directores das Funerárias Independentes deste país, datado de 8 de Janeiro de 2001, dirigido A quem possa interessar diz que Confirma-se que na África do Sul, as urnas de chumbo foram substituídas por zinco desde há 40 anos, sem experiência de qualquer problema. Recentemente, muito recentemente, passam poucos meses, e este não é caso único, um corpo em caixão de zinco, depois de velado na Igreja da Polana não teve autorização para ser depositado em jazigo de família no Cemitério de Lhanguene. A direcção de Saúde da Cidade de Maputo exigiu caixão de chumbo. E, como quem manda pode, mesmo quando manda mal, o corpo, depois de velado, de encomendado a Deus pelo padre, regressou, foi obrigado a regressar a uma das capelas do Hospital Central de Maputo. Aí passou a noite, a última noite entre os vivos, certamente desconhecendo a dor e o sofrimento que a decisão estava a provocar aos familiares. Vivos. Para, depois de trocado o zinco pelo chumbo poder seguir, no dia seguinte, para sua última morada. De facto, apesar de recusado em muitos países, em Moçambique manda o chumbo.
domingo, fevereiro 13, 2005
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de 13 de Fevereiro, 2005
antes e depois
Luís David
quem trava esta falta de moral e de ética
No nosso país, com não rara frequência, falamos da falta de valores. Da perda de valores. Elaboramos sobre comportamentos que consideremos errados. Á imagem do que foram os comportamentos de ontem. Que tomamos como modelo, como ideal. Dizemos que já não há Ética nem Moral. Mais e invariavelmente, o mal é dos outros, o mal está nos outros. Com os pais que não sabem educar os filhos ou com os filhos que não respeitam os pais. O mesmo é dizer, os mais velhos. Temos, quase sempre, um horizonte curto. Limitado. Não no atingir da vista mas no alcançar do pensamento. Pensamos curto. E, pensar curto, pensar que o mundo e o mundo actual ainda não vai para além da nossa rua, do nosso bairro, da nossa cidade, do nosso país é limitar, à partida, a solução. Queremos viver, queremos fazer repor a ordem antiga. Por pretendermos que seja melhor do que a actual. Queremos viver no presente o passado. Não percebemos que o passado foi, o presente é, o futuro será. Apelamos para a ajuda da Igreja, pedimos à sociedade civil para agir. Uma sociedade civil que ninguém sabe, nem mais nem menos, o que é. Que hipoteticamente só possa existir em teoria. E, esquecemos, ou fazemos, voluntariamente, por esquecer, dois elementos que parecem ser fundamentais: Nós próprios, cada um de nós, e o Estado. Ou, se assim se preferir, por ordem inversa, o Estado e cada um de nós. Onde, cada um de nós não pode abdicar da missão de pressionar o Estado no sentido de impor, repito, impor aquilo que devam ser os valores éticos e morais dominantes.
Pode parecer repetitivo afirmar que estamos a viver numa fase de capitalismo selvagem. Numa fase de capitalismo sem regras, sem normas, sem ética, sem moral. Pode parecer mas não é. Basta tomarmos como exemplo as campanhas publicitárias que estão a ser desenvolvidas pelos dois operadores de telefonia móvel. Campanhas essas que estão a custar muitos milhões de contos. Para concluir ser necessária e urgente a intervenção do Estado. Diz o anuncio de uma dessas empresas: Josefina, te agramo muito. Trata-se, obviamente, de um texto escrito por um burro. E, como os burros, nas últimas eleições, não tiveram direito a voto, deve ser tornado público quem escreveu o texto. Sobretudo, para que as nossas crianças e os adolescentes não adoptem este mau exemplo de escrever português. A outra empresa de telefonia móvel, que tem revelado um total incapacidade para escrever textos, bons ou maus, optou por utilizar imagens de símbolos e de Heróis Nacionais. Craveirinha e Samora fizeram bem mais por Moçambique do que aquilo que pretende que eles possam ter feito para poderem, para se darem ao direito, de utilizarem as suas imagens em campanhas publicitárias de medíocre qualidade. Sem criatividade, muito menos imaginação. Gostava também de saber, apenas por simples curiosidade, se os familiares de Samora e de Craveirinha autorizaram a utilização das fotografias dos seus mortos em anúncios publicitários. Se sim, tudo bem. Devem ter recebido muitos milhões e devem dizer, publicamente, quantos. Se não, devem dizer, igualmente, como pensam proceder. Ao Estado, ao Estado moçambicano, deixo o pedido, singelo e humilde, de esclarecimento se imagens de Heróis Nacionais podem ser vulgarizadas em campanhas publicitárias, em minha opinião, medíocres. Que enfermam de um mínimo de imaginação e que se situam no campo do oportunismo político. Bem sei, a mediocridade e a incompetência nunca pagaram imposto. E, terá sido o que valeu a muitos. Mas, hoje, o desafio está sem saber quem trava esta falta de moral e de ética.
antes e depois
Luís David
quem trava esta falta de moral e de ética
No nosso país, com não rara frequência, falamos da falta de valores. Da perda de valores. Elaboramos sobre comportamentos que consideremos errados. Á imagem do que foram os comportamentos de ontem. Que tomamos como modelo, como ideal. Dizemos que já não há Ética nem Moral. Mais e invariavelmente, o mal é dos outros, o mal está nos outros. Com os pais que não sabem educar os filhos ou com os filhos que não respeitam os pais. O mesmo é dizer, os mais velhos. Temos, quase sempre, um horizonte curto. Limitado. Não no atingir da vista mas no alcançar do pensamento. Pensamos curto. E, pensar curto, pensar que o mundo e o mundo actual ainda não vai para além da nossa rua, do nosso bairro, da nossa cidade, do nosso país é limitar, à partida, a solução. Queremos viver, queremos fazer repor a ordem antiga. Por pretendermos que seja melhor do que a actual. Queremos viver no presente o passado. Não percebemos que o passado foi, o presente é, o futuro será. Apelamos para a ajuda da Igreja, pedimos à sociedade civil para agir. Uma sociedade civil que ninguém sabe, nem mais nem menos, o que é. Que hipoteticamente só possa existir em teoria. E, esquecemos, ou fazemos, voluntariamente, por esquecer, dois elementos que parecem ser fundamentais: Nós próprios, cada um de nós, e o Estado. Ou, se assim se preferir, por ordem inversa, o Estado e cada um de nós. Onde, cada um de nós não pode abdicar da missão de pressionar o Estado no sentido de impor, repito, impor aquilo que devam ser os valores éticos e morais dominantes.
Pode parecer repetitivo afirmar que estamos a viver numa fase de capitalismo selvagem. Numa fase de capitalismo sem regras, sem normas, sem ética, sem moral. Pode parecer mas não é. Basta tomarmos como exemplo as campanhas publicitárias que estão a ser desenvolvidas pelos dois operadores de telefonia móvel. Campanhas essas que estão a custar muitos milhões de contos. Para concluir ser necessária e urgente a intervenção do Estado. Diz o anuncio de uma dessas empresas: Josefina, te agramo muito. Trata-se, obviamente, de um texto escrito por um burro. E, como os burros, nas últimas eleições, não tiveram direito a voto, deve ser tornado público quem escreveu o texto. Sobretudo, para que as nossas crianças e os adolescentes não adoptem este mau exemplo de escrever português. A outra empresa de telefonia móvel, que tem revelado um total incapacidade para escrever textos, bons ou maus, optou por utilizar imagens de símbolos e de Heróis Nacionais. Craveirinha e Samora fizeram bem mais por Moçambique do que aquilo que pretende que eles possam ter feito para poderem, para se darem ao direito, de utilizarem as suas imagens em campanhas publicitárias de medíocre qualidade. Sem criatividade, muito menos imaginação. Gostava também de saber, apenas por simples curiosidade, se os familiares de Samora e de Craveirinha autorizaram a utilização das fotografias dos seus mortos em anúncios publicitários. Se sim, tudo bem. Devem ter recebido muitos milhões e devem dizer, publicamente, quantos. Se não, devem dizer, igualmente, como pensam proceder. Ao Estado, ao Estado moçambicano, deixo o pedido, singelo e humilde, de esclarecimento se imagens de Heróis Nacionais podem ser vulgarizadas em campanhas publicitárias, em minha opinião, medíocres. Que enfermam de um mínimo de imaginação e que se situam no campo do oportunismo político. Bem sei, a mediocridade e a incompetência nunca pagaram imposto. E, terá sido o que valeu a muitos. Mas, hoje, o desafio está sem saber quem trava esta falta de moral e de ética.
quarta-feira, fevereiro 09, 2005
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de 6 de Fevereiro, 2005
antes e depois
Luís David
uma visão deturpada da história colonial
Entre outros muitos convidados, a cerimónia de investidura de Armando Guebuza contou com a presença de Jorge Sampaio. Ora, Jorge Sampaio é Presidente da República Portuguesa e é com Portugal que Moçambique tem vindo a negociar aquilo a que se convencionou chamar de “dossier Cahora Bassa”. Sabia Jorge Sampaio, como sabíamos todos nós, que esta seria uma questão que a Informação lhe iria colocar. Quanto mais não fosse pelo facto de Joaquim Chissano ter manifestado, publicamente, o seu desejo de ver o assunto encerrado antes de terminar o seu mandato. Não o conseguiu. E, só por isso, só por não o ter conseguido, era motivo mais do que suficiente para confrontar Jorge Sampaio com a questão. O que aconteceu e que mereceu como resposta que “A bola está do lado moçambicano”. Ora, sem dúvida, a frase é bonita, pode ter algum efeito mediático mas vale por não acrescentar absolutamente nada para a resolução do problema. Além de que sendo bonita pode, muito bem, não reflectir, exactamente a verdade. E, depois, se a bola está do lado de cá, pode ser atirada para fora do campo. Mas o campo também fica cá. A maioria dos adeptos são de cá. E, os adeptos de cá podem, muito bem, não desejar ver continuado o jogo com esta bola. Por considerarem que não possui as características aprovadas internacionalmente para jogos de tamanha envergadura. Podem considerar, e tem todo o direito de assim considerar, que a bola está viciada. Neste caso, é necessário procurar nova bola. Mas, concluamos, para que se possa procurar segunda bola, é necessário que tenha havido uma primeira. Que nunca, ao que parece, alguém alguma vez viu. Ora, se ninguém viu bola alguma, a bola não existe. E, por exclusão de partes, se a bola não existe a bola não pode estar do lado moçambicano. A bola é, assim, e coisa outra jamais poderá ser, produto de imaginação. Por hipótese, sonho.
Para se compreender os objectivos que levaram à construção de Cahora Bassa, temos de nos saber situar no tempo. Temos de compreender, minimamente, a geo-estratégia definida para esta sub-região da região austral de África. Assim, recuando no tempo, e de forma muito resumida, os colonos brancos haviam declarado a independência unilateral da Rodésia do Sul. A África do Sul era governada por um regime branco minoritário. O Malawi, governado por Banda, aliado de Portugal, ambicionava acesso directo ao mar, através do Porto de Nacala. Salazar, juntamente com os radicais do sistema, alguns anos antes da queda que lhe viria a determinar a morte, terá pensado, mas mal e erradamente, que a construção da barragem seria a forma de evitar o avanço da guerrilha da FRELIMO para sul. E, assim, e com a fixação de um milhão de colonos portugueses no Vale do Zambeze, manter a presença colonial portuguesa nesta sub-região de África e a continuidade dos regimes minoritários da época. A Barragem de Cahora Bassa era, na sua essência e na época, um projecto que visava perpetuar o colonialismo e retardar a independência de Moçambique. Na sua essência, enquadrava-se na estratégia militar do megalómano Kaúlza de Arriaga. Pouco ou em nada estava previsto que daí viesse a beneficiar o moçambicano. Mais recentemente, a destruição de mais de 500 torres de transporte de energia para a África do Sul contou, e disso não há dúvidas, com o apoio dado à RENAMO por Governos de Portugal. Postos estes dados, e muitos outros que podem ser postos, em cima da mesa, parece haver alguma desonestidade política quando se afirma que “A bola está do lado moçambicano”. Mas, para não ter de se chegar a uma posição tão extrema, deve, no mínimo, dizer-se que Jorge Sampaio tem uma visão deturpada da história colonial.
antes e depois
Luís David
uma visão deturpada da história colonial
Entre outros muitos convidados, a cerimónia de investidura de Armando Guebuza contou com a presença de Jorge Sampaio. Ora, Jorge Sampaio é Presidente da República Portuguesa e é com Portugal que Moçambique tem vindo a negociar aquilo a que se convencionou chamar de “dossier Cahora Bassa”. Sabia Jorge Sampaio, como sabíamos todos nós, que esta seria uma questão que a Informação lhe iria colocar. Quanto mais não fosse pelo facto de Joaquim Chissano ter manifestado, publicamente, o seu desejo de ver o assunto encerrado antes de terminar o seu mandato. Não o conseguiu. E, só por isso, só por não o ter conseguido, era motivo mais do que suficiente para confrontar Jorge Sampaio com a questão. O que aconteceu e que mereceu como resposta que “A bola está do lado moçambicano”. Ora, sem dúvida, a frase é bonita, pode ter algum efeito mediático mas vale por não acrescentar absolutamente nada para a resolução do problema. Além de que sendo bonita pode, muito bem, não reflectir, exactamente a verdade. E, depois, se a bola está do lado de cá, pode ser atirada para fora do campo. Mas o campo também fica cá. A maioria dos adeptos são de cá. E, os adeptos de cá podem, muito bem, não desejar ver continuado o jogo com esta bola. Por considerarem que não possui as características aprovadas internacionalmente para jogos de tamanha envergadura. Podem considerar, e tem todo o direito de assim considerar, que a bola está viciada. Neste caso, é necessário procurar nova bola. Mas, concluamos, para que se possa procurar segunda bola, é necessário que tenha havido uma primeira. Que nunca, ao que parece, alguém alguma vez viu. Ora, se ninguém viu bola alguma, a bola não existe. E, por exclusão de partes, se a bola não existe a bola não pode estar do lado moçambicano. A bola é, assim, e coisa outra jamais poderá ser, produto de imaginação. Por hipótese, sonho.
Para se compreender os objectivos que levaram à construção de Cahora Bassa, temos de nos saber situar no tempo. Temos de compreender, minimamente, a geo-estratégia definida para esta sub-região da região austral de África. Assim, recuando no tempo, e de forma muito resumida, os colonos brancos haviam declarado a independência unilateral da Rodésia do Sul. A África do Sul era governada por um regime branco minoritário. O Malawi, governado por Banda, aliado de Portugal, ambicionava acesso directo ao mar, através do Porto de Nacala. Salazar, juntamente com os radicais do sistema, alguns anos antes da queda que lhe viria a determinar a morte, terá pensado, mas mal e erradamente, que a construção da barragem seria a forma de evitar o avanço da guerrilha da FRELIMO para sul. E, assim, e com a fixação de um milhão de colonos portugueses no Vale do Zambeze, manter a presença colonial portuguesa nesta sub-região de África e a continuidade dos regimes minoritários da época. A Barragem de Cahora Bassa era, na sua essência e na época, um projecto que visava perpetuar o colonialismo e retardar a independência de Moçambique. Na sua essência, enquadrava-se na estratégia militar do megalómano Kaúlza de Arriaga. Pouco ou em nada estava previsto que daí viesse a beneficiar o moçambicano. Mais recentemente, a destruição de mais de 500 torres de transporte de energia para a África do Sul contou, e disso não há dúvidas, com o apoio dado à RENAMO por Governos de Portugal. Postos estes dados, e muitos outros que podem ser postos, em cima da mesa, parece haver alguma desonestidade política quando se afirma que “A bola está do lado moçambicano”. Mas, para não ter de se chegar a uma posição tão extrema, deve, no mínimo, dizer-se que Jorge Sampaio tem uma visão deturpada da história colonial.
domingo, janeiro 30, 2005
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de 30 de Janeiro, 2005
antes e depois
Luís David
Basta não ter medo de enfrentar a verdade
Parece estar a haver, nos últimos tempos, um redobrado interesse, por parte de investigadores portugueses, sobre a forma de actuação do colonialismo português em África nas últimas décadas que antecederam a sua derrocada. O seu colapso. Na generalidade, são teses de doutoramento ou textos elaborados e adaptados, para livro, a partir das mesmas. O último dos três que me chegou, tem por título “A Igreja Católica e o Estado Novo em Moçambique”. É uma obra da autoria de Pedro Ramos Brandão, cientista e mestre em várias áreas. Que, na introdução, nos adverte que este livro foi objecto de um acordo de edição entre a Editorial Noticias e o Arquivo Histórico de Moçambique, em que foi previamente acordado o tamanho da obra. Quer dizer, para além do que o leitor pode encontrar nas cerca de 250 páginas, muito ficou por escrever. Como ficou a promessa de mais ser escrito sobre o que aconteceu em Moçambique entre 1930 e 1974, e a forma como Portugal lidou com a sua presença em Moçambique. Não sendo possível resumir, em poucas linhas, o conteúdo da obra, parece suficiente deixar claro que são colocadas em confronto as posições defendidas, na época e no espírito do Concílio Vaticano II, por D. Sebastião Soares de Resende, primeiro Bispo da Beira, por D. Manuel Vieira Pinto, Bispo de Nampula e pelos Padres de Burgos e do Macúti, e, por outro lado, do Estado Novo, de Salazar, dos radicais do regime e do Arcebispo de Lourenço Marques, D. Custódio Alvim Pereira que, como está comprovado, participou, pessoalmente, em interrogatórios feitos pela PIDE a nacionalistas moçambicanos.
Tenho para mim, que “A Igreja Católica e o Estado Novo em Moçambique” é um livro inacabado. Um trabalho que necessita ir muito mais além. Muito mais longe. E, escrevo-o sem receio de desmentido. Por, pelo menos, duas razões óbvias. A primeira, é a da limitação de espaço imposta ao autor sobre a obra em referência. A segunda, mas talvez também não última nem definitiva, é a de D. Sebastião Soares de Resende ter deixado um “Diário” com cerca de 12.000 páginas. Até ao momento, praticamente inédito. Que está em poder de José Capela, autor do prefácio da obra em apreço. Mas, também ele estudioso e autor de muitas obras sobre a realidade moçambicana, a mais conhecida das quais poderá ser “Vinho para Preto”. Ora, José Capela não é mais do que o pseudónimo literário do dr. José Soares Martins, sobrinho de D. Sebastião Soares de Resende e que com ele viveu, muitos anos, na Diocese de Beira. Creio que, para as gerações moçambicanas futuras, o conhecimento deste passado recente, de poucas décadas, deve ser considerado importante. Deve constituir, também, referência para saber entender o presente e projectar o futuro. A perda ou o deixar cair no esquecimento tão valioso património, pode representar uma perda definitiva de importantes fontes de informação sobre as formas de actuação do colonialismo em Moçambique. Creio não ser de todo impossível estabelecer plataformas de trabalho, de investigação, entre moçambicanos e portugueses para que possam vir a ser melhor conhecidos os processos e os métodos de colonização no último meio século. Sobretudo, para que se possa ficar a saber quem foi quem. Quem esteve do lado dos opressores e quem esteve do lado dos oprimidos. Parece fácil. E é. Basta não ter medo de enfrentar a verdade.
antes e depois
Luís David
Basta não ter medo de enfrentar a verdade
Parece estar a haver, nos últimos tempos, um redobrado interesse, por parte de investigadores portugueses, sobre a forma de actuação do colonialismo português em África nas últimas décadas que antecederam a sua derrocada. O seu colapso. Na generalidade, são teses de doutoramento ou textos elaborados e adaptados, para livro, a partir das mesmas. O último dos três que me chegou, tem por título “A Igreja Católica e o Estado Novo em Moçambique”. É uma obra da autoria de Pedro Ramos Brandão, cientista e mestre em várias áreas. Que, na introdução, nos adverte que este livro foi objecto de um acordo de edição entre a Editorial Noticias e o Arquivo Histórico de Moçambique, em que foi previamente acordado o tamanho da obra. Quer dizer, para além do que o leitor pode encontrar nas cerca de 250 páginas, muito ficou por escrever. Como ficou a promessa de mais ser escrito sobre o que aconteceu em Moçambique entre 1930 e 1974, e a forma como Portugal lidou com a sua presença em Moçambique. Não sendo possível resumir, em poucas linhas, o conteúdo da obra, parece suficiente deixar claro que são colocadas em confronto as posições defendidas, na época e no espírito do Concílio Vaticano II, por D. Sebastião Soares de Resende, primeiro Bispo da Beira, por D. Manuel Vieira Pinto, Bispo de Nampula e pelos Padres de Burgos e do Macúti, e, por outro lado, do Estado Novo, de Salazar, dos radicais do regime e do Arcebispo de Lourenço Marques, D. Custódio Alvim Pereira que, como está comprovado, participou, pessoalmente, em interrogatórios feitos pela PIDE a nacionalistas moçambicanos.
Tenho para mim, que “A Igreja Católica e o Estado Novo em Moçambique” é um livro inacabado. Um trabalho que necessita ir muito mais além. Muito mais longe. E, escrevo-o sem receio de desmentido. Por, pelo menos, duas razões óbvias. A primeira, é a da limitação de espaço imposta ao autor sobre a obra em referência. A segunda, mas talvez também não última nem definitiva, é a de D. Sebastião Soares de Resende ter deixado um “Diário” com cerca de 12.000 páginas. Até ao momento, praticamente inédito. Que está em poder de José Capela, autor do prefácio da obra em apreço. Mas, também ele estudioso e autor de muitas obras sobre a realidade moçambicana, a mais conhecida das quais poderá ser “Vinho para Preto”. Ora, José Capela não é mais do que o pseudónimo literário do dr. José Soares Martins, sobrinho de D. Sebastião Soares de Resende e que com ele viveu, muitos anos, na Diocese de Beira. Creio que, para as gerações moçambicanas futuras, o conhecimento deste passado recente, de poucas décadas, deve ser considerado importante. Deve constituir, também, referência para saber entender o presente e projectar o futuro. A perda ou o deixar cair no esquecimento tão valioso património, pode representar uma perda definitiva de importantes fontes de informação sobre as formas de actuação do colonialismo em Moçambique. Creio não ser de todo impossível estabelecer plataformas de trabalho, de investigação, entre moçambicanos e portugueses para que possam vir a ser melhor conhecidos os processos e os métodos de colonização no último meio século. Sobretudo, para que se possa ficar a saber quem foi quem. Quem esteve do lado dos opressores e quem esteve do lado dos oprimidos. Parece fácil. E é. Basta não ter medo de enfrentar a verdade.
segunda-feira, janeiro 24, 2005
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 23 de Janeiro, 2005
antes e depois
Luís David
há muitas outras dúvidas por esclarecer
Cada dia que passa, apresentam-se como mais dramáticos os contornos da tragédia que atingiu diferentes países banhados pelo Oceano Índico. Muito provavelmente, jamais será conhecido o número exacto de mortos. Mas, para além do número, para além dos números, ficará na memória de todos o drama, a dor e o luto. O sofrimento humano dos sobreviventes, a memória que, por certo e para todo o sempre, irão guardar da tragédia. De uma tragédia que tendo tido, até ao momento, uma explicação científica aceitável bem pode não estar a responder a muitas dúvidas. Pode, poderá, até estar a esconder algumas verdades. Como aconteceu o movimento das placas no fundos dos mares, já todos sabemos. O que não sabemos, o que não conhecemos, o que ainda ninguém explicou foi como e porquê ocorreu esse movimento, essa deslocação. Sabemos, sabem os cientistas da área, muito sobre o El Nino e a El Nina. Conhecem as origens, ou dizem conhecer, do fenómeno e como e quando ele se manifesta. Os alertas, neste campo, parece m ser atempados. As suas consequências previsíveis. Sabemos, também, o que homem está a exigir da Natureza mais do que ela pode dar, mais do que ela quer dar. Depois, depois dos estragos humanos sobre a natureza, há muito quem apareça como seu defensor. Pode ser tarde. Pode ser demasiado tarde.
O maremoto que vitimou mais de centena e meia de milhar de pessoas em diferentes países banhados pelo Índico, poderá ter sido um fenómeno natural. Mas, também poderá não ter sido. As explicações públicas sobre o fenómeno estão longe de ser convincente. Muito longe, mesmo. Talvez demorem décadas a chegar. Poderá acontecer que nunca cheguem. Recordam-se os mais velhos que no início dos anos 60 um terrível tremor de terra destruiu por completo a cidade de Agadir, no norte de África. Causando dezenas de milhar de mortos. Muitos, mas muitos, anos depois foi admitida a hipótese de a tragédia poder ter sido provocada por uma explosão nuclear no Deserto de Nevada, nos Estados Unidos. Estudos mais aturados e cuidados revelaram, posteriormente, a existência de uma fenda subterrânea que, passando por terra e mar, tinha como ponto mais frágil a cidade destruída. Mais recentemente, já no início dos anos 70, foi registado na estação moçambicana de Changalane, um abalo sísmico de fraca intensidade. Que não terá provocado danos materiais nem humanos. O Dr. Pepe, ao tempo director do então Serviço Meteorológico de Moçambique, admitia a hipótese de o fenómeno poder ter sido originado por uma explosão nuclear feita pela África do Sul, algures no Índico. Ao largo da costa comum, em ponto indeterminado, mas que era possível provar, no tempo, ter acontecido. Quer dizer, que a explosão nuclear foi feita numa determinada data, não existiam dúvidas. As dúvidas que existiam e que, muito provavelmente, nunca foram esclarecidas, nem serão, é se esse ensaio nuclear foi ou não motivo do registo em Changalane. Como esta, há muitas outras dúvidas por esclarecer.
antes e depois
Luís David
há muitas outras dúvidas por esclarecer
Cada dia que passa, apresentam-se como mais dramáticos os contornos da tragédia que atingiu diferentes países banhados pelo Oceano Índico. Muito provavelmente, jamais será conhecido o número exacto de mortos. Mas, para além do número, para além dos números, ficará na memória de todos o drama, a dor e o luto. O sofrimento humano dos sobreviventes, a memória que, por certo e para todo o sempre, irão guardar da tragédia. De uma tragédia que tendo tido, até ao momento, uma explicação científica aceitável bem pode não estar a responder a muitas dúvidas. Pode, poderá, até estar a esconder algumas verdades. Como aconteceu o movimento das placas no fundos dos mares, já todos sabemos. O que não sabemos, o que não conhecemos, o que ainda ninguém explicou foi como e porquê ocorreu esse movimento, essa deslocação. Sabemos, sabem os cientistas da área, muito sobre o El Nino e a El Nina. Conhecem as origens, ou dizem conhecer, do fenómeno e como e quando ele se manifesta. Os alertas, neste campo, parece m ser atempados. As suas consequências previsíveis. Sabemos, também, o que homem está a exigir da Natureza mais do que ela pode dar, mais do que ela quer dar. Depois, depois dos estragos humanos sobre a natureza, há muito quem apareça como seu defensor. Pode ser tarde. Pode ser demasiado tarde.
O maremoto que vitimou mais de centena e meia de milhar de pessoas em diferentes países banhados pelo Índico, poderá ter sido um fenómeno natural. Mas, também poderá não ter sido. As explicações públicas sobre o fenómeno estão longe de ser convincente. Muito longe, mesmo. Talvez demorem décadas a chegar. Poderá acontecer que nunca cheguem. Recordam-se os mais velhos que no início dos anos 60 um terrível tremor de terra destruiu por completo a cidade de Agadir, no norte de África. Causando dezenas de milhar de mortos. Muitos, mas muitos, anos depois foi admitida a hipótese de a tragédia poder ter sido provocada por uma explosão nuclear no Deserto de Nevada, nos Estados Unidos. Estudos mais aturados e cuidados revelaram, posteriormente, a existência de uma fenda subterrânea que, passando por terra e mar, tinha como ponto mais frágil a cidade destruída. Mais recentemente, já no início dos anos 70, foi registado na estação moçambicana de Changalane, um abalo sísmico de fraca intensidade. Que não terá provocado danos materiais nem humanos. O Dr. Pepe, ao tempo director do então Serviço Meteorológico de Moçambique, admitia a hipótese de o fenómeno poder ter sido originado por uma explosão nuclear feita pela África do Sul, algures no Índico. Ao largo da costa comum, em ponto indeterminado, mas que era possível provar, no tempo, ter acontecido. Quer dizer, que a explosão nuclear foi feita numa determinada data, não existiam dúvidas. As dúvidas que existiam e que, muito provavelmente, nunca foram esclarecidas, nem serão, é se esse ensaio nuclear foi ou não motivo do registo em Changalane. Como esta, há muitas outras dúvidas por esclarecer.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 16 de Janeiro, 2005
antes e depois
Luís David
O poder é para ser exercido
A campanha eleitoral, que antecedeu as últimas eleições, terá sido um período de grande pressão sobre vários órgãos de Informação. Principalmente os de prestação de serviço público. Sempre foi, mais ou menos assim. Cada um contesta e reclama sobre o espaço ou o tempo que lhe foi concedido. Cada outro, protesta por ao outro ter sido concedido mais espaço e mais tempo do que a si. Na hora de balanço, na hora de fazer o balanço dos resultados eleitorais, parece ser da mais elementar honestidade perguntar quantas reuniões públicas, quantos quilómetros por estrada e por ar percorreu cada um. Para, depois, em função destes dados, em função do que foi actividade política pública, averiguar se houve ou não desequilíbrio, favoritismo em termos de tratamento informativo. Pode ser que sim, como pode ser que não. O que parece realidade é que, hoje, poucas semanas depois das eleições, a Informação, no geral, terá voltado a guiar-se pela sua agenda editorial. Sem pressões.
Para fazer, ao que parece, o seu balanço dos resultados eleitorais, a RENAMO realizou, esta semana, o seu Conselho Nacional, na cidade da Beira. Terá sido, ao que os relatos indicam, uma reunião pacífica. Mas, a questão está em que mesmo quando os políticos parecem tomar e assumir posições ditas moderadas e ponderadas, há quem não se conforme com tal posicionamento. Poderá haver quem pretenda criar a ilusão do líder todo poderoso, do líder que detendo todo o poder, cede, entrega e abdica de exercer o poder por uma causa que não explica. Ou explica mal. Por uma causa, pela qual tendo lutado, agora abdica. De forma santa e beatífica. Ora, quando o “Zambeze”, na sua última edição, titula, a toda a largura da página dois, que “Dhlakama recusa ceder à pressão da ala dura para tomar o poder pela força das armas”, não está a transmitir a imagem de um vencedor mas, sim, de um vencido. De um vencido nas urnas e de um vencido no interior do seu partido. Porque, claramente, neste momento, podendo a RENAMO ter capacidade para praticar actos de terrorismo em diferentes pontos do país, não possui qualquer capacidade para tomar o poder pela força das armas. Sequer, os seus apoiantes estrangeiros lhe iriam permitir tal diatribe, tal veleidade. Ninguém está interessado numa guerra civil nem numa guerra de secessão. Ninguém acredita em federalismo. E, cada um tem, efectivamente, o poder que quem. E o poder que cada um tem pode ser, e talvez seja, bem diferente daquele que uns pretendem e outros dizem ter. O poder não se divide. O poder não é para ser divido. O poder é para ser exercido.
antes e depois
Luís David
O poder é para ser exercido
A campanha eleitoral, que antecedeu as últimas eleições, terá sido um período de grande pressão sobre vários órgãos de Informação. Principalmente os de prestação de serviço público. Sempre foi, mais ou menos assim. Cada um contesta e reclama sobre o espaço ou o tempo que lhe foi concedido. Cada outro, protesta por ao outro ter sido concedido mais espaço e mais tempo do que a si. Na hora de balanço, na hora de fazer o balanço dos resultados eleitorais, parece ser da mais elementar honestidade perguntar quantas reuniões públicas, quantos quilómetros por estrada e por ar percorreu cada um. Para, depois, em função destes dados, em função do que foi actividade política pública, averiguar se houve ou não desequilíbrio, favoritismo em termos de tratamento informativo. Pode ser que sim, como pode ser que não. O que parece realidade é que, hoje, poucas semanas depois das eleições, a Informação, no geral, terá voltado a guiar-se pela sua agenda editorial. Sem pressões.
Para fazer, ao que parece, o seu balanço dos resultados eleitorais, a RENAMO realizou, esta semana, o seu Conselho Nacional, na cidade da Beira. Terá sido, ao que os relatos indicam, uma reunião pacífica. Mas, a questão está em que mesmo quando os políticos parecem tomar e assumir posições ditas moderadas e ponderadas, há quem não se conforme com tal posicionamento. Poderá haver quem pretenda criar a ilusão do líder todo poderoso, do líder que detendo todo o poder, cede, entrega e abdica de exercer o poder por uma causa que não explica. Ou explica mal. Por uma causa, pela qual tendo lutado, agora abdica. De forma santa e beatífica. Ora, quando o “Zambeze”, na sua última edição, titula, a toda a largura da página dois, que “Dhlakama recusa ceder à pressão da ala dura para tomar o poder pela força das armas”, não está a transmitir a imagem de um vencedor mas, sim, de um vencido. De um vencido nas urnas e de um vencido no interior do seu partido. Porque, claramente, neste momento, podendo a RENAMO ter capacidade para praticar actos de terrorismo em diferentes pontos do país, não possui qualquer capacidade para tomar o poder pela força das armas. Sequer, os seus apoiantes estrangeiros lhe iriam permitir tal diatribe, tal veleidade. Ninguém está interessado numa guerra civil nem numa guerra de secessão. Ninguém acredita em federalismo. E, cada um tem, efectivamente, o poder que quem. E o poder que cada um tem pode ser, e talvez seja, bem diferente daquele que uns pretendem e outros dizem ter. O poder não se divide. O poder não é para ser divido. O poder é para ser exercido.
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