segunda-feira, maio 30, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 22, 2005

antes e depois

Luís David

Salazar está vivo e vive em Moçambique

Há quem afirme que a história se repete. Podendo ser que não, em Moçambique a história parece repetir-se. Possam os actores, de ontem e de hoje, ser diferentes. Ontem, passam poucas semanas, aconteceu na fronteira do sul, na fronteira com a África do Sul. Eram camiões que transportavam material bélico, classificado como sucata. Hoje, há poucos dias, escrevia o “Notícias”, a toda a largura da sua primeira página, que Simulados de sucata em contentores “Artefactos de guerra descobertos em Nacala”. E, acrescentava tratar-se de granadas, roquetes, bazucas e peças de aviões de combate. Admitamos, para não ficarmos como ingénuos, que para além destas duas tentativas frustradas para fazer sair, ilegalmente, do país material de guerra, outras operações poderão ter tido sucesso. Mas, atenhamo-nos apenas nestas duas últimas. Por serem as mais recentes. E por serem, em quase tudo, iguais. Por a única diferença entre ambas ser a via de saída. Por terra no sul, por mar no norte. De resto, para além disto, nada mais foi dito, nada mais foi divulgado. Não se conhece, nem num nem noutro caso, a quantidade do material que foi tentado fazer sair do país. Logo, não é possível saber o seu valor no mercado negro internacional. Também não se conhece o nome do exportador, como não se conhece o nome do destinatário. Como não se conhecem nomes de, possíveis, intermediários. Como os contentores não têm pés para andar por si próprios, nem cérebro, nem memória artificial, afigura-se como sendo um acto de inteligência divulgar quem os fez chegar aos locais onde foram detectados.


No mesmo jornal “Notícias”, da mesma sexta-feira última, pode ler-se que no bairro Militar, vulgo “Colômbia”, foram “Identificadas 15 residências usadas para o tráfico de droga”. Afinal, e isso parece já ser bom. Ficámos todos a saber o número de residências onde se vende e compra droga. Mas, também aqui, não sabemos quais são as residências. Como não sabemos quem compra mas, fundamentalmente, quem vende a droga. Muito menos as medidas tomadas para acabar com o negócio. Negócio, sem dúvida ilegal. Como continuamos a não saber os nomes dos destinatários da droga, que se diz ter sido transportada em diferentes partes do corpo, aprendida mulheres vindas do Brasil. Podem pensar alguns pensantes, e pensam quase de certeza, que ao permitirem que se diga que aqui, que aqui em Moçambique, há tráfico de drogas e de armas, já podemos dormir todos descansados. Mas, convenhamos que não. Convenhamos que não pode ser assim. Que não pode, nem deve, ser exactamente assim. Convenhamos que, a partir do momento, em que se denunciam crimes públicos é necessário investigar quem são os criminosos. Afinal, todos sabemos, hoje, que o tráfico ilegal de drogas e de material bélico tem bases do país. Mas, os nomes dos traficantes ficam escondidos. Como escondidos permanecem os nomes dos jornalistas ditos corruptos. Aparentemente, até prova em contrário, há por aqui um processo de chantagem psicológica. Parece estar a tentar-se silenciar os jornalistas. Parece que o que se está a dizer, de forma subtil, aos jornalistas, é que se os jornalistas denunciam a corrupção e os corruptos eles também não poderão deixar de ser denunciados como corruptos. No termo da análise, parece pensarem alguns, o ideal é criar uma sociedade de medo, instituir o terror. Longe no tempo, o fascismo agiganta-se perto de nós. O que, em última análise, pode permitir dizer que Salazar está vivo e vive em Moçambique.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 15, 2005

antes e depois

Luís David


retratem-se e peçam desculpas públicas

Começam a surgir alguns sinais de estarmos a viver numa sociedade sem ideias. Sem ideias novas, no mínimo. Talvez, para se ser mais preciso e mais concreto, numa sociedade que alguém classificou de “sociedade normalizada”. Só que a tal “sociedade normalizada” resulta, ou assenta, em consensos. Pode não ser, exactamente, o nosso caso. E, efectivamente, não o é. Basta recordar o que se passou na última sessão do Parlamento. O debate, em torno dos documentos apresentados, produziram pouco mais do que nada. Em termos de ideias, produziram nada. Coisa nenhuma. Quem apresentou os documentos, tinha a certeza que, por ter a maioria, eles seriam aprovados. Quem os criticou, criticou sabendo que, estando em minoria, não tinha a mínima possibilidades de impedir a sua aprovação. De facto, neste sistema e com este sistema parlamentar, sequer é necessário ter ideias. Basta algum dom de oratória, duas mãos para poder bater palmas, que agora se exigem ritmadas, e a qualidade para proferir e aceitar o insulto. Embora insulto seja, assim o entendemos, arma de fracos. Arma dos sem argumento. Venha de que bancada venha. E, ali naquela Casa, no Parlamento, onde é suposto todos estarmos representados, o que não falta é o insulto. Barato, bacoco, despropositado, ofensivo, ridículo. Mas, também não falta o discurso bajulatório a que se podem adicionar os mesmos objectivos. Agora, quanto a ideias, a ideias novas, essas são nenhumas. Bem haja, quem não pode, não quer ou não sabe pensar.


Foi dito por aí, apregoado e titulado, na semana passada, que há Corrupção muito forte na classe jornalística. Claro que sim, claro que há. E, nem era necessário ter esperado por uma sexta-feira 13, nem pelo 13 de Maio, Dia das Aparições em Portugal, como aconteceu, para fazer esta revelação. Todos sabemos que assim é. E, mais do que isso, todos sabemos que pode haver corrupção entre médicos, professores, engenheiros, funcionários, advogados, magistrados. Certamente que haverá. Quase de certeza que há. A corrupção existe entre profissionais de todas as classe e em todos os países. O que não há, o que não existe num único país, é homens completamente bons e homens completamente maus. Todos os homens têm algo de bom e algo de mau. Não existe o homem absolutamente bom, como não existe o homem absolutamente mau. O homem é. E, o Homem é o que é. Mas, deixemos a discussão filosófica a atenhamo-nos na frase é fácil entrar num jornal e pagar a um jornalista para escrever sobre um assunto. Quem assim o disse, segundo o jornal “Savana”, foi Isabel Rupia, directora da Unidade Anti-Corrupção. Alice Mabota, presidente da Liga dos Direitos Humanos, durante o mesmo encontro, organizado por países nórdicos, terá falado em termos semelhantes. Ora, a questão que se coloca às duas ilustres juristas é muito simples: Se sabem que há jornalistas corruptos o que as impede de revelar os seus nomes. Mais, o que impede a senhora que dirige a Unidade Anti-Corrupção de mover um processo, de agir no foro judicial, contra os jornalistas que julga saber serem corruptos. Claramente, há diferentes formas de cada um fazer plasmar o seu nome nos jornais. E, de nos vir dizer que está a combater a corrupção. Esta, é, parece ser, simplesmente ridícula. Caso contrário, caso possam provar o que afirmam, divulguem, publicamente nomes. Caso não, caso não tenham coragem para apresentar nomes de jornalistas corruptos, retratem-se e peçam desculpas públicas.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 8, 2005

antes e depois

Luís David

um governo sem legitimidade

Começo, hoje, por onde era suposto dever terminar. Exactamente, pelo fim. E, o fim, seria uma Nota de Autor. Solicitada e autorizada por quem tem poder para assim decidir. É que, sucede, algumas vezes aquilo que se escreve, a mensagem e a ideia que se pretendem transmitir não são exactamente o que sai impresso. Dizem-me, e quero aceitar que assim seja, que de outra forma não faz sentido ser, que se trata do resultado, do preço a pagar pela introdução de novas tecnologias. Que seja. Agora, o que podemos é regatear, negociar o preço para que não seja demasiado elevado. E, convenhamos, quando se troca ou se repete o título de um texto, o “preço” é sempre elevado para o autor. Pretende justificar este longo intróito a explicação para o facto de o título do meu texto publicado na última edição ser o mesmo da edição anterior. Ora, quem se tenha dado ao trabalho de ler o texto do último domingo, terá entendido que o título correcto seria Agir em defesa do deixa continuar. Sem culpa, ficam as desculpas.


Viajante assíduo entre Maputo e o sul de Gaza, habituei-me a ir comprando, ao longo da estrada, alguma coisa do já muito que é oferecido. Fruta e legumes aqui, peixe e caju mais além, loiça de barro e pássaros noutro local, galinhas e carvão onde estão expostos. Estranhei, em ida recente, não ver vendeiras de banana, mandioca e batata doce nos passeios da principal artéria da vila da Manhiça. . Investiguei, no regresso e, depois de ter desfrutado a magnífica vista sobre o Incomáti, fui encontrá-las numa transversal. Sem movimento e sem compradores. No Bilene, o enorme mercado permanece sem vendedores desde que foi construído. Na sua frente, na marginal, vende-se de tudo um pouco o que se pode encontrar em loja ou supermercado de Maputo. Assim como alguns produtos locais. Na parte de trás, não faltam diversas variedades de peixe, camarão e caranguejo. Digamos, este mercado é uma obra inútil para a população local. Com o dinheiro ali gasto poderia ter sido construído um óptimo posto de saúde ou duas razoáveis salas de aulas. Em Maputo, na cidade de Maputo, na cidade que é a capital do país, parece estar a haver algumas tentativas de recuperar métodos de governação de um passado recente. Mas de triste memória. Em que a norma era o recurso à violência. E, através da violência, a confiscação de produtos a cidadãos pacíficos. A questão que se coloca, hoje e agora, parece ser muito simples. Simples de mais para a mentalidade e para a capacidade de compreensão dos fenómenos sociais por parte de alguns dos actuais vereadores de Maputo. Ao que parece, constitui violação de posturas, que ninguém conhece, ocupar passeios algures. Mas, ao que parece, e a realidade manda dizer que assim é, não constitui violação de posturas ocupar passeios com exposição e venda de flores e de artesanato em outras artérias de Maputo. Como é o caso concreto da Marginal e das Avenidas 24 de Julho e Nyerere, entre outras. Começa a ser cansativa e a causar preocupação, também algum nojo, esta aplicação dual da lei. E, a prosseguir-se por este caminho, adivinha-se o risco de tendo um governo legal, termos um governo sem legitimidade.

segunda-feira, maio 02, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Maio 1, 2005


antes e depois

Luís David

agir em defesa do deixa continuar


No período que antecedeu a independência, foi Moçambique destino para muitos milhares de veraneantes, de turistas de países vizinhos. Especialmente oriundos da África do Sul e da então Rodésia. A cidade da Beira e a então cidade de Lourenço Marques constituíam os principais pontos de atracção, sem perder de vista a longa costa entre uma e outra cidade. Nas quadras festivas e em épocas de férias estudantis nos países vizinhos, aí tínhamos muitos milhares de visitantes. Alojavam-se em hotéis, pensões e residências particulares uns, acampavam outros. Cada um, cada grupo, escolhia a forma de passar uma dezena ou uma quinzena de dias de acordo com as suas capacidades financeiras. O seu objectivo era ter acesso ao mar, passar alguns dias relaxados à beira-mar, sem grandes despesas. Daí o terem, a certa alguma, sido definidos como “turistas da banana”. Dado que pouco compravam, pouco consumiam. Depois, veio a independência e mais depois veio a guerra. Com a guerra, durante a guerra, este movimento, este desejo de vir até ao mar, praticamente desapareceu. Mais tarde, voltou a paz. E, com paz, renasceu o desejo de voltar, de visitar de novo as praias índicas. Até, de as ocupar. Diz quem sabe, afirma quem pode, que os turistas de hoje trazem tudo o que necessitam. Depois, regressam com carregamentos de peixe e de mariscos, altamente valiosos. Que quando vendidos nos seus países, rendem o suficiente para custear todo o período de férias em terras moçambicanas. A razão de assim ser, de assim continuar acontecer, parece mistério. Queira eu, queira qualquer outro alguém, ao viajar de avião, transportar dois quilos de peixe ou de marisco, tal só é possível com autorização do Ministério das Pescas. Digamos, afirmemos, que os critérios utilizados nos aeroportos são diferentes dos que estão a ser seguidos nas fronteiras terrestres. Embora as polícias presentes, num e noutro local, sejam as mesmas. Há, convenhamos, uma estranha dualidade de critérios na aplicação da lei.


A paz acordada em Roma foi, inquestionavelmente, uma paz moçambicana. Uma paz que visou permitir à família moçambicana viver em harmonia, trabalhar, movimentar-se, circular, produzir para si, beneficiar de recursos que lhe pertencem. Mas, eis que parece não acontecer exactamente assim. Eis que, a avaliar pelos relatos dos jornais, está a acontecer uma ocupação desenfreada de terra moçambicana por estrangeiros. Principalmente das zonas costeiras. Sem respeito por nada nem por ninguém. Na Ponta do Ouro, sem ser, certamente, caso único, chegámos já ao escândalo de deixar construir sobre dunas e de permitir a vedação de artérias públicas, impedindo o acesso da população ao mar. Não terá gostado do que viu, como nenhum moçambicano certamente gostaria, a governadora da província de Maputo. Daí o ter dito que as 31 casas construídas ilegalmente deveriam ser demolidas. Vem hoje, vem nesta quinta-feira, o semanário “Zambeze” dizer, em título, que a “Comissão de Guebuza não vai destruir as 31 casas”. E, acrescenta, ao que parece, em forma de justificação, que “Boers” gastaram 300 mil rands subornando funcionários do Estado. Como se o facto de terem subornado funcionários do Estado, como se o facto de ter havido funcionários do Estado que se deixaram subornar, constitua motivo para não serem penalizados e legitime a ilegalidade que aceitam ter cometido. Ora, em termos de conclusão se, neste caso concreto, houve funcionários do Estado que foram subornados, devem ser punidos. Se há provas de que houve corruptores, devem igualmente ser punidos. Expulso e impedidos de voltar a entrar no país. Por mais volumoso que possa ter sido o investimento. Em minha modesta opinião, o que não podemos é afirmar que estamos a combater o “deixa andar” e, logo após, proceder em plano inverso. Isto é, agir em defesa do deixa continuar.

terça-feira, abril 19, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Abril 17, 2005

antes e depois

Luís David


As surpresas podem ser mais do que muitas


O crime organizado, todos o sabemos, está ramificado. Ramificou-se por tudo quanto é mundo. E, quando falamos de crime organizado, não estamos a fazer qualquer distinção. Estamos a falar de organizações de malfeitores. Na generalidade. Quer o objecto do crime seja o tráfico de menores ou de órgãos humanos, de motores de aviões ou de droga, de urânio ou de tecnologias de ponta. Na maioria dos campos de actuação das organizações criminosas, as polícias de diferentes países reconhecem a sua incapacidade para um combate eficaz. E, por várias razões. Uma delas, é a de o crime organizado ter acesso fácil e rápido às mais modernas tecnologias de comunicação e de informação. De andar sempre à frente das polícias em termos de meios. De poder comprar o que quer e onde quer. Sem necessidade de abrir concursos públicos. Sem necessidade de respeitar dotações orçamentais. Em alguns países, já se percebeu que o combate ao crime organizado não se compadece com esse velho e anquilosado sistema de serem necessárias três cotações para comprar meia dúzia de resmas de papel. Ou umas tantas caixas de papel higiénico. Percebeu-se, ao que parece, que legalidade é uma coisa e legitimidade é outra. Bem diferente. Mas, e ao que parece, terá havido também a percepção de que, em última análise, o crime organizado poderá ser, hoje, a mais séria ameaça para qualquer sistema democrático. Que poderá conduzir à criminalização do aparelho do Estado e, em última instância ao derrube do governo.


Ao que se diz e ao que ao que se pode concluir do que tem vindo a ser divulgado, as várias polícias moçambicanas tem estado, nos últimos tempos, bastante activas no combate ao crime organizado. Principalmente, no combate ao tráfico de drogas. As mais diversas. Curiosamente, toda a droga apreendida provinha do Brasil, passou por Joanesburgo e foi apreendida em Maputo. Mais precisamente no seu aeroporto internacional. Curiosamente, os transportadores, os “pombos correios”, foram sempre, até hoje, mulheres. Ao que parece e a avaliar pelos seus depoimentos tornados públicos, raparigas, jovens ingénuas e incrédudas. Nenhuma soube dizer quem lhe entregou o “produto” ou a quem o mesmo se destinava. Embora algumas o transportassem bem escondido nas entranhas. Nestes casos, que parece terem sido a maioria, terá prevalecido o faro canino dos agentes policiais de serviço e alguns dedos atrevidos. Já acusados – os ditos dedos – de terem atentado contra os direitos humanos. Por terem penetrado onde era suposto, e ao que parece de direito, não haverem nunca de penetrar. Ora, se é justo pensar é justo afirmar que nenhuma rede de tráfico de droga continua a utilizar o mesmo processo e a mesma rota depois de, sucessivamente, os seus “pombos correios” serem detectados. Naturalmente, as nossas polícias estão a dizer-nos a verdade quando divulgam que apanharam transportadoras de droga. Mas, também podem estar a ser enganadas. Podem estar a ser mal informadas ou a ser informadas por uma de duas organizações em conflito. Como também pode acontecer, por hipótese, ser a organização criminosa a informar sobre os seus transportadores de pequenas quantidades de droga. Por forma a desviar as atenções. Como forma de permitir às polícias informarem a opinião pública que estão empenhadas no combate ao tráfico de droga. Para que assim possam, por ingenuidade ou conivência, conseguir que a droga entre no país por outras vias e por outros meios. Possam ou não as nossas polícias ser ingénuas, os cidadãos podem não o ser tanto. É que parece haver muita história mal contada. Ou, contada com certa infantilidade. Com uma ingenuidade infantil. Mas, ao que perece, a novela ainda mal começou. Aguardemos pelos próximos capítulos. As surpresas podem ser mais do que muitas.

quarta-feira, abril 13, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Abril 10, 2005

antes e depois

Luís David


Esperemos para ver


Muito do que hoje sabemos e conhecemos sobre a Igreja Católica, está em dívida para com a Arte. O que sabemos, no que nos foi dado a saber e a conhecer, a Arte representou um papel central e fundamental. Digamos que, ao longo dos séculos, a Arte imortalizou a religião católica. E, não o inverso como até certo momento pareceu ser aceite. Bem, entendido, seja através da escrita, da pintura ou da escultura, a história que nos chegou, a história que nos é transmitida foi, sempre, a história dos vencedores. Mas, longe e distantes ficam os séculos em que a Arte estava ao serviço da religião. Hoje, nos nossos dias, a Arte cedeu o seu lugar à Informação. Exemplo recente, é o da transmissão televisiva, em directo, das exéquias fúnebres de João Paulo II. Muitas estações televisivas estiveram em cadeia, milhões de pessoas puderam assistir à última viagem do Papa. Ele que foi, desde sempre, um Papa viageiro. Mas, se assim aconteceu, foi por o Vaticano o ter querido e o ter desejado. Um Vaticano que, sendo o maior empório do mundo, sabe, de forma exemplar, utilizar, em seu favor e em seu proveito, as mais modernas tecnologias da Informação. Para tentar dar a ideia que mudou, sem ter mudado. Seja quem venha a ser o novo Papa, a Igreja Católica Apostólica Romana irá continuar a ser conservadora. Para o exterior, poderá dar de si uma imagem de progressista. No seu interior permanecerá, para todo o sempre, conservadora. A teologia da libertação continuará, fatal e inevitavelmente, a ser dominada pela teologia da opressão. Foi isto o que nos quis dizer e nos disse a presença de um tão elevado número de Chefes de Estado em Roma na última sexta-feira. A igreja dos pobres, a igreja dos oprimidos, a Igreja de Cristo é, cada dia que passa, uma utopia mais distante.


Conhecido e empossado que foi, o novo Governo de Moçambique começou, desde logo, desde muito cedo, a ser questionado no que respeita aos elementos que o integram. Que o compõem. Para muitos analistas e críticos, o combate ao chamado “deixa andar” não pode ser feito pelos mesmos governantes que, no seu dizer, são os responsáveis por esse mesmo “deixa andar” que agora pretendem combater. Tenho as minhas dúvidas, tenho muitas dúvidas, se a análise é correcta. Primeiro, por pensar que o tempo decorrido ainda não é suficiente para se poder formar uma opinião definitiva. Por pensar que o tempo decorrido ainda não permite avaliar se que o que devia mudar, mudou. E, o que não devia mudar, permanece. Uma questão me parece certa. É que, sendo, embora, em parte significativo, o número dos actuais governantes a nível central de antigos dirigentes a outros níveis, há um desequilíbrio. Um desequilíbrio naquilo que era o antigo equilíbrio. Por outras palavras, muitos dos homens são os mesmos mas a correlação de forças, naquilo que é o seu conjunto, é, objectivamente, diferente. Mudou E, será esta alteração, esta modificação na correlação de forças, o factor de mudanças. Esperemos para ver.

domingo, abril 03, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Abril 3, 2005

antes e depois

Luís David


merece um cacho de bananas

Há certas informações, certas notícias, que pela forma como são divulgadas nos chamam a atenção. Principalmente, quando dizem respeito a questões que alguns de nós nos habituámos a ver de maneira outra, de forma diferente. Por exemplo, o “Notícias” titulava, em edição da semana que passou, que “Sonda da NASA tenta confirmar Einstein”. Pelo conteúdo do texto, poderá não ser exactamente assim. O que a tal sonda parece querer tentar demonstrar é que o bom do homem estava errado quando, há um século , divulgou a sua teoria da relatividade. E, Einstein que, ao que tudo indica, não era pessoa dado a muitos cálculos de matemática, o que tentou demonstrar foi que o espaço e o tempo não são absolutos mas sim relativos. Tanto ao observador como à coisa observada. E que, quando mais rápido for o nosso movimento, mais pronunciados se tornam esses efeitos. Ora, confirmar a teoria da relatividade, como se diz, altera nada de nada. Alterar ou modificar essa teoria, altera, de igual forma, nada de nada. As teorias foram, ontem, como o são hoje, simples convenções. Simples acordos entre cientistas. Que, quando, reunidos em conferência, chegam à conclusão não poder haver conclusão unânime sobre determinada matéria. Possa ou ser interessante, de acrescentar que só no início de década de cinquenta do século passado é que foi aceite uma data definitiva para a idade da Terra. Depois de longos anos de estudos e de controvérsias, Patterson fixou-a em 4550 milhões de anos. A partir desse momento, a Terra passou a ter, finalmente, uma idade. Que, até ao dia de hoje, decorrido meio século, ninguém se atreveu a contestar. Se a idade da Terra é, exactamente, esta ou não é esta, pouco importa. Prevalece o que foi convencionado. E, o que foi convencionado é, em definito, a verdade. A verdade é, sempre foi, uma convenção. Um acordo.


É bom de entender, ao longo dos séculos, das décadas, dos anos, aconteceram muitas outras descobertas. Quiçá, mais importantes. Ou que, possa haver quem assim pense que seja. Ou que possa ser. Um exemplo recente, de ontem, de há dois dias, é o que encontramos na página das Cartas dos Leitores do “Savana”. Um cidadão sueco, em escrita remetida de Estocolmo, interroga, talvez com alguma ingenuidade nórdica: O que aconteceu com os líderes de guerrilha que costumamos apoiar? E, logo a seguir, depois de um ponto final, com direito, óbvio, a parágrafo, não resiste em tirar a conclusão. Exclusivamente sua, pessoal: Hoje, muitos dos ex-líderes da guerrilha e os combatentes pela libertação são presidentes, ministros e membros do parlamento. Os proscritos passaram a ser as novas elites. É. De facto é assim. E assim, terá, fatalmente, de continuar a ser. Pela simples razão de que os proscritos, não lutaram para substituir o colonialismo português pelo moderno colonialismo sueco. Sendo que, o colonialismo dos países nórdicos é, na generalidade, sempre foi, bem pior do que o colonialismo das potências chamadas coloniais. Por ser subtil, por ser feito, modernamente, por via das organizações chamadas não governamentais. Se me permitem, e permitam, aqui deixo o apelo para que este sueco esquizofrénico seja contemplado com um qualquer prémio. Afinal, ele não descobriu que branco que corre à frente de polícia é atleta e preto que corre à frente de polícia é ladrão. Faltou-lhe coragem para o dizer. Mas, mesmo assim, o homem, merece ser premiado. No mínimo, oferecido de boa vontade, merece um cacho de bananas.

sexta-feira, abril 01, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Março 27, 2005

antes e depois

Luís David


saber a quem serve a versão do que foi divulgado


Todos nós, todos os dias, desejamos saber mais, mais e mais, sobre todos ou sobre determinados assuntos. A multiplicidade de órgãos de Informação facilita e permite, pelo menos em parte, a satisfação deste desejo, desta apetência. Pelo menos, partamos do princípio que sim, de forma teórica. É que, as diferentes abordagens, as diferentes perspectivas de análise, a forma diferente como cada qual se coloca e aborda um mesmo assunto, um mesmo tema, permite, naturalmente, ao leitor, uma mais ampla visão sobre a mesma questão. Mas, atenção. Cuidado. Tenhamos sempre presente um princípio que parece fundamental. Que é geral e parece válido em todo o país do mundo. A informação que nos é dada, a informação a que nos é permitido ter acesso serve, em primeiro lugar e, quase sempre exclusivamente, a quem a divulga ou permite que seja divulgada. Digamos que, só depois ao destinatário. Digamos que, também e de forma resumida, a informação tornada pública serve, sempre e em primeiro lugar, a quem tem o poder para a tornar pública. E, só depois e eventualmente a quem a ela tem acesso. Logo, a informação que nos é disponibilizada, a informação a que nos é dado acesso, é apenas uma parte da informação existente. É a parte da informação que interesses ou poderes financeiros, económicos, políticos, desportivos, religiosos, e outros, entendem que devemos conhecer. Por servir, de forma objectiva, os seus interesses particulares.


A nossa Justiça parece ter-se colocado, ou querer colocar-se, perante mais uma situação a que podemos chamar de mediática. E, convenhamos, o mediatismo nem sempre joga a favor da Justiça. De uma Justiça ponderada, que se pretende justa. Afirmemos, desde já, que o início do processo de acareação de “Anibalzinho” com outros condenados no chamado“ caso Carlos Cardoso”, deixa algumas dúvidas sobre a sua seriedade. Isto a avaliar pelo que, no imediato, veio a público. É que, e para começar, enquanto se diz e escreve que jornalistas e advogados foram escorraçados, impedidos de ter acesso a locais a que desejavam ter acesso, a que se julgam com direito a ter acesso, por outro, publicam-se relatos, quase minuciosos, do que se terá passado no interior de uma sala a que todos dizem não ter tido acesso. A que dizem ter sido impedidos de aceder. Ora, se de facto foi, como perece ter sido, impedido o acesso de jornalistas e de advogados às instalações onde decorreu a acareação, fica a questão de saber como terá sido possível saber o que foi tornado público. E, aqui, as hipóteses parecem ser poucas. Ou o jornalista inventou o que escreveu, o que se apresenta como hipótese pouco provável, ou escreveu o que alguém lhe disse para escrever, por alguém que tendo assistido à acareação está interessado em tornar pública a versão que veio a público. E, não, exactamente, outra. Embora possa ter pouco ou nada com a realidade, possa nada ter a ver com o que se passou no interior de uma sala a que poucos tiveram acesso. E que possa, ainda menos, ter a ver com a Justiça que se pretende seja feita. Embora, em última análise, possa ser pouco importante saber como e por quais vias veio a público o que veio a público, há um aspecto que deve merecer reflexão. E que constitui preocupação. A preocupação, muito natural e muito legítima, de saber a quem serve a divulgação do que foi divulgado. O que pode levar a firmar que é preciso saber a quem serve a versão do que foi divulgado.

quarta-feira, março 23, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de 20 de Março, 2005

antes e depois

Luís David


o mistério por esclarecer

Todos os dias ocorre, em diferentes partes do mundo, um número quase infinito de acontecimentos. Graças às novas tecnologias da informação, a maioria fica acessível ao nosso conhecimento. Ontem, um ano atrás, o volume da informação que nos chegava, que era colocada ao nosso alcance, era bem menor. Como infinitamente bem menor era o nosso acesso à informação e ao conhecimentos. Recuemos um pouco mais no tempo para perceber como há quatro ou cinco décadas passadas sabíamos incomparavelmente menos do que sabemos hoje. Naturalmente, por sabermos muito mais e muito mais rápido isso, só por si, pode não alterar absolutamente nada da nossa rotina. Pode não modificar coisa nenhuma em relação à ordem estabelecida e aceite. Mas, casos poderá haver que obriguem a raciocínio diferente. E a ter de concluir que amanhã nada será como hoje. Uma conclusão difícil para alguns. Talvez para muitos. Dolorosa, até, para uma grande maioria. E a razão, se razão há, se razão existe, parece simples. É que temos um grande receio, um grande medo, de questionar o passado. Por, ao questionar o passado, ao investigar o passado, podermos vir a descobrir que a história do passado que nos deram a conhecer poder não ser única nem verdadeira. Poder ser, apenas, dogma. E, aí, se abaladas as nossas convicções sobre a verdade que aceitámos, e que constituiu, afinal, o fundamento da nossa maneira de ser e de estar, podemos enfrentar o complexo dilema de, sabendo que o passado possa não ter sido o que nos foi dito que foi, termos referências poucas ou nenhumas para pensar o amanhã. Para recear o amanhã, como simples devir.


No plano da literatura, se assim se pode dizer, são escritos e editados livros que em nada alteram a nossa maneira de ser e de pensar. Que, em muitos casos, são poucos os exemplares que saem das prateleiras das livrarias. Outros, estão destinados a vender milhões de exemplares, nas mais diversas línguas. Provocam debates e polémicas, originam investigações com perspectivas diferentes. E, podem abalar as nossas convicções e fazer repensar a nossa maneira de ser e de estar. Muitos dos nossos conceitos. Alguns dos conceitos pelos quais possa ter sido guiada e moldada a nossa existência. Estamos a referir-nos, neste caso concreto, a “O Código Da Vinci”. Não só à obra em si e à visão que procura transmitir sobre a forma como a religião de Cristo chegou aos nossos dias, mas, e sobretudo, a hipotéticas especulações e a posteriores investigações. E dos muitos mistérios, ainda por descobrir, sobre o relacionamento entre s Cristo e Maria Madalena. Mas, não menos importante, para qualquer interessado na matéria, sobre a sua descendência. E, sobre a história e as doutrinas da Igreja Cristã, estabelecidas no Concílio de Niceia, reunido em 325 d. C., numa época em que Constantino era contestado à frente dos destinos do Império Romano e queria uma Igreja harmoniosa, sem divisões, de forma a promover a paz e prosperidade e estava preocupado com a dissensão interna provocada pelo Arianismo (...), como diz Siomon Cox, em “O Código Da Vinci Descodificado – O guia não autorizado dos factos por detrás da ficção”. Para além de todas a especulação possível, para além de toda a verdade conhecida e comprovada, fica a dúvida se estamos ou não perante dois mil anos de mentira. E, aí, precisamente, parece residir o mistério por esclarecer.

segunda-feira, março 14, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Março 13, 2005

antes e depois

Luís David


nem tudo o que parece é fácil


Por tendência, estamos todos bem. Assim parece, assim o afirmamos. Falamos de reformas, dizemos que estamos a reformar isto mais aquilo. Esquecemos, fazemos por esquecer, ignoramos, fazemos por ignorar, que qualquer reforma implica mudança. E que toda a mudança, por mais superficial que seja, implica resistência, motiva reacção. Teoricamente, já mudámos muito. Na prática, mudámos coisa nenhuma. Até porque o tempo que está a demorar a mudança, por mínima e mais superficial que seja, joga sempre a favor de quem é contra a mudança. De quem se opõe, de forma declarada ou encoberta, contra a mudança. Depois, parece que também por tendência, gostamos de aligeirar, de facilitar aqui, de complicar, de dificultar mais além. Ou, em situações semelhantes e idênticas agir de forma diversa. Pareça ou não, tanto facilitar e aligeirar como complicar e dificultar são, em si, procedimentos em que pode assentar aquilo a que se convencionou chamar corrupção. A corrupção não existe no abstracto. A corrupção é, sempre, um procedimento contra determinada norma ou contra determinada convenção.


Em tempos já distantes, em tempos há muito idos, em tempos que a memória não guarda, foi noticiada a venda de motores de aviões para o estrangeiro. Noutra ocasião, antes ou depois pouco importa, foi noticiada a descoberta de urânio enriquecido numa artéria de Maputo. Agora, em dias recentes e no nosso tempo presente, foi noticiado que um camião transportando vinte reactores de aviões foi retido na fronteira de Ressano Garcia, quando tentava sair do país. E mandado regressar por quem tinha poderes para o fazer. Posteriormente, noticiado foi, com excessivo e desnecessário destaque, que transformados os ditos motores em sucata, esta podia seguir o seu destino. Que tudo já estava em ordem, que tudo havia acabado em bem. Aparentemente, tentaram transmitir-nos a mensagem de que terá havido algum equívoco. E que tudo o que se passou, se é que alguma coisa se passou, não passou de uma simples questão técnica. De um erro derivado da má interpretação de um acordo cujo conteúdo só alguns conhecem. Como se fazer sair do país motores de avião e fazer sair do país sucata de motores de avião possa ser uma simples questão técnica. Como se o valor de motores de avião e de sucata de motores de avião, num qualquer país estrangeiro, fosse, exactamente, o mesmo. Claro que não é. Como não constitui segredo algumas das formas de actuação da mafia russa, após o desmembramento da URSS, nos negócios de material militar por alguns considerado e classificado como obsoleto. Pareça ou não, esta história, moçambicana, da retenção, na fronteira de Ressano Garcia, de um camião com motores de avião é uma história, ingenuamente, mal contada. Parece, pelo que foi publicamente divulgado, ser necessário ir um pouco mais além. E, neste caso concreto, ir um pouco mais além resulta em querer saber a quem pertencia o camião que transportava os motores de avião, quem era o seu condutor, o nome de quem enviou e o nome de quem devia receber os referidos motores. É que, até hoje, em questão de nomes, nada foi divulgado. Sabemos, isso sim, que em vez de documentos originais foram usadas fotocópias. Parece pouco, é demasiado pouco. Mais uma vez, poderemos estar, hipoteticamente, perante mais caso de crime sem criminoso. Ou um criminoso sem rosto e sem nome. De facto, nem tudo o que parece é fácil.