domingo, junho 26, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Junho 26, 2005

Antes e depois

Luís david

A hipocrisia é uma arma e um truque barato dos imbecis

Moçambique comemorou, ontem, trinta anos como país independente. Há trinta anos, com a independência de Moçambique passava a existir mais um país no seio das nações. Nesse dia, foi feita a despedida de uma bandeira e o içar de uma outra. Nova e diferente. Um momento histórico e sem repetição da história de um povo. Daí, as lágrimas do choro da alegria. As lágrimas ampliadas pela chuva que fez questão de cair. Que caiu, copiosamente, nessa noite, no Estádio da Machava. E, depois, os tiros. Os tiros, as rajadas das armas libertadoras, disparados para o ar. Como afirmação da vitória. Tiros de alegria. Como de alegria eram as expressões faciais de um povo libertado. De um povo liberto. Os abraços e os risos, os sorrisos, eram, afinal o culminar de um sonho lindo. Bonito. Primeiro, de uns poucos. Depois, de muitos. Por fim, de todos. África e o mundo contavam, a partir de 25 de Junho de 1975, com mais uma nação. Portugal, perdia a sua segunda colónia. Depois da independência unilateral, reconhecida pelas Nações Unidas, da Guiné-Bissau. Seria o fim, a derrocada, do Império Colonial Português, com a posterior independência de Angola.


Vista há distância de trinta anos, a independência de Moçambique é um acto inquestionável. E é, constitui, até ao momento presente, a festa maior do povo moçambicano. Vista numa perspectiva de unicidade. Naturalmente, pode e deve questionar-se o que foi e o que não foi feito em trinta anos. Como pode levantar-se a questão de saber pela qual o que foi feito de uma determinada maneira não foi feito de maneira diferente. Questione-se o Governo. Pelo que fez e como fez. Também, pelo que não fez. Mas, tenhamos presente que, o Estado que somos e a nação que estamos a construir, são realidades objectivas para além do pensamento de certas mentes deformadas. De cá e de lá. E, neste contexto, a questão parece simples. É que quando se critica, quando se insinua que Moçambique fez pouco, que poderia ter feito mais em trinta anos de independência, devemos colocar alguns termos de referência. Ora, Portugal, segundo a história, tornou-se independente em 1143. Séculos mais tarde, por motivos que aqui não importa referir, passou a ser domínio de Espanha. Passados sessenta anos, libertou-se do domínio espanhol. Definitivamente. E, caminhou, depois, num sentido mais universal. De acordo com o pensamento e o conhecimento da época. A queda da Monarquia, é sucedida por muitos governos provisórios. E, quando Salazar chega ao poder, na década de trinta, Portugal era um país rural e endividado. Sendo que o ditador equilibrou as finanças públicas, não modernizou o país. Mais de vinte anos depois do seu consulado, água potável era bem raro, energia eléctrica era luxo de minorias. Predominavam a vela de cera e o petróleo de iluminação. Também a lenha e o carvão, como combustíveis, para ter alimentos quentes. Pode, de facto, Moçambique ter feito pouco em benefícios das populações, nestes trinta anos de independência. Mas, fez o que lhe foi permitido fazer. Fez o que lhe deixaram fazer. E, terá feito pouco aos olhos de estrangeiros fazendo, em três décadas, o que os colonialistas não fizeram em séculos. De dominação e de exploração. A hipocrisia não passa de um truque barato da política. A hipocrisia não mata a fome nem ajuda o desenvolvimento. A hipocrisia é uma arma e um truque barato dos imbecis.

domingo, junho 19, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Junho 19, 2005

Antes e depois

Luís david


é perigoso brincar com a história

Desde há alguns anos, vários historiadores e investigadores, consagrados, publicaram versões diferentes da história que era suposto ser a verdadeira. Vaclav Ravel escreveu a “Arena”, obra que bem poderá ser considerada como pioneira e de referência sobre a matéria e em que, fundamentalmente, faz uma comparação entre os crimes cometidos por Hitler e por Estaline. E, na sua versão, que encontra suporte em estudos posteriores, Estaline mandou matar muitos mais seres humanos do que Hitler. Devendo precisar-se, desde já, que estamos a falar numa escala de milhões e que estes dois grandes criminosos da história recente são responsáveis pelo desaparecimento físico de milhões de seres humanos. Depois, continuando a falar sobre livros, também surgiu “Os Dez Maiores Monstros da História”. Mais recentemente, em Fevereiro do corrente ano foi editado, em língua portuguesa, “Anatomia do Terror”, que tem como subtítulo “Uma história do Terrorismo” . Seu autor é Andrew Sinclair e, pelo verso da contra capa, ficamos a saber que vivemos numa época de terror. (...) Que nunca houve, desde o tempo de Homero à era de Ossana Bin Laden. Logo na abertura do livro, em página ainda sem numeração, o autor cita William Blake: Dizem que este mistério nunca acabará: O sacerdote fomenta a guerra, e o soldado a paz. Estamos perante uma análise profunda sobres as causas das guerras ao longo dos séculos. Fundamentalmente, das suas causas religiosas. É assim que, logo no capítulo 2, com o título “Os textos do terror religioso”, o autor escreve: Das três religiões fundamentais do Próximo Oriente, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo, só os Judeus fundaram Israel devido a uma forma de genocídio. Moisés afirmou que o Senhor ordenara o aniquilamento e a submissão dos habitantes originais de Cannaã numa guerra santa. E, a seguir, cita que o que foi escrito no Deuteronómio. Parece não existirem muitas dúvidas, no momento presente, que as guerras actuais, todas as guerras dos tempos recentes, são guerras religiosas. São guerras santas. São guerras provocadas, em última análise, por interpretações fundamentalistas da Bíblia, do Corão e da Tora.


A história dos movimentos de libertação africanos é, terá sido, um percurso sinuoso e sangrento. Neste contexto, não é possível excluir ou diferenciar as realidades de, fundamentalmente, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique. Porque sendo percursos históricos não simétricos são, todos eles, todos os três, percursos semelhantes. E, são semelhantes pela necessidade de afirmação nacionalista. Como podem não o ser pelas escolhas para essa afirmação. Do pensamento e da acção, situados no seu tempo histórico e num determinado espaço. Falamos de um Eduardo Mondlane, de um Amilcar Cabral, de um Agostinho Neto, de um Samora Machel. Sendo pouco, quase nenhuma, a investigação feita por moçambicanos nesta área, também aqui portugueses se anteciparam. Ana Cabrita publicou, pelo menos, duas obras sobre o tema. Que justificam uma leitura atenta. Enquanto nós, por cá, continuamos, ao que parece, a brincar com a história. E, temos alguma dificuldade em passar do diz-que-diz. Da intriga política de ocasião para o assumir da história. A história, todos o sabemos, não mata a fome, não enche barriga de quem tem fome. Mas, a história, quando volta a ser mal contada, ou contada numa versão que é difícil comprovar, pode alimentar ódios recalcados. Pode, sobretudo, acordar fantasmas que estavam adormecidos. Que estavam acomodados. Esta forma de tentar baralhar a história recente não passa de uma brincadeira. Mesmo quando todos sabemos, ou deveríamos saber, que é perigoso brincar com a história.

terça-feira, junho 14, 2005

Publicado em Mpauto, Moçambique no Jornal Domingo de Junho 12, 2005


Antes e depois

Luís david


Ser coerente não dói nada


Os estudos, as sondagens, as amostragens, têm o valor que têm. No fundamental, têm um valor relativo. Valem o que valem. Mas, valem sempre alguma coisa. Quanto mais não seja quando chamam, quando nos chamam a atenção para algo que não sabíamos. Para algo que não estávamos sensibilizados em saber que existia. Que era realidade. Que era quotidiano. Que era parte da nossa vida, do nosso viver, da nossa vivência. Sem mais ser necessário elaborar, um estudo recente, divulgado esta semana, sobre o consumo de drogas em quatro escolas de Maputo, trouxe a público a realidade nessas escolas. Que pode, muito bem, ser diferente e diversa da realidade do país. Da maioria das escolas do país. Mas, o que nos diz esse estudo é que, dos estudantes inquiridos, e foram mil, cerca de 60 por cento consomem drogas. Entre lícitas e ilícitas. Nas drogas lícitas, os autores do estudo incluem o tabaco e as bebidas alcoólicas. Nas ilícitas, todas as restantes, as chamadas drogas pesadas. Pois bem, pensando seguir o raciocínio dos autores do referido estudo, podemos questionar qual o motivo que impediu que fosse questionado quem consome, em excesso, por exemplo, café, coca-cola ou rebuçados. Temos de aceitar, é necessário aceitar que temos, todos nós, a maioria de nós, muitos vícios. Que somos, a maioria de nós viciados. Pela simples razão de que temos, a maioria de nós, muitos defeitos.


Para além da realidade que o estudo referido revela, para além do que não revela, há, existem, realidades outras. Que são as realidades do país real, as realidades do país que somos. E as realidades do país que somos são, em última análise, aquilo que somos. Nada existe, nada pode existir, para além nem para aquém do somos. E, o país real, o país que somos, é um país onde a cultura do tabaco é uma cultura de rendimento. Onde cultivar tabaco faz parte do combate à pobreza. Onde cultivar, manipular e exportar tabaco é permitido por lei. Mais, é incentivado. Mais ainda, a realidade, a nossa realidade quotidiana é a de um país onde o consumo de tabaco e de bebidas alcoólicas são publicitados publicamente. Ora, a questão que parece pertinente colocar, é a de saber o que impede que se elimine a publicidade a estes produtos nocivos à saúde. Muito possivelmente, o facto de serem negócios milionários. Mais do que milionários. Poderá haver quem argumente perda de receitas. Aceitemos que sim. Mas aqui, também aqui, parece possível pensar diferente. Que se crie e aplique uma taxa sobre o consumo de cigarros e de bebidas alcoólicas. Que pode constituir, sem dúvida, uma inestimável fonte de receita para órgãos de Informação que prestam serviço público. E uma alternativa às chamadas taxas. O que temos de ser, o que devemos ser é, no mínimo, coerentes. O que não podemos é permitir publicidade a marcas de cigarros e de bebidas alcoólicas e, logo a seguir, gastar dinheiro em seminários e em inquéritos para tentar demonstrar que o seu consumo trás perigo para a saúde humana. Afinal, ser coerente não custa dinheiro. Ser coerente não dói nada.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Junho 5, 2005

Antes e depois

Luís david


consciências pouco tranquilas

A língua que utilizamos como oficial, é uma língua viva. É uma língua em permanente evolução, em permanente mudança. É uma língua que todos os dias absorve novas palavras. É uma língua aberta à criação e à inovação dos seus falantes. Que somos, afinal, muitos milhões. Enraizados por todo o mundo. E, todos nós, cada um de nós, tem o direito de criar palavra nova. De apadrinhar ou de amadrinhar um neologismo. Ou, se assim se entender, a utilizar com significado diferente do encontrado em dicionários, palavras antigas. A escolha é livre. Depende do critério de cada um. Dizer, neste contexto, que palavra muito utilizada, nos últimos tempos, em certos órgãos de Informação, tem sido a palavra bufo. Mais recentemente, passou, até, a falar-se de bufaria. Ora, se no contexto em que a palavra bufo tem sido empregue parece significar apenas polícia secreta, em termos de calão pode ser aceite como significando delator ou denunciante. Isto, estas dúvidas, terão existido até dias muito recentes em relação a bufo. Mais ainda, repita-se, a bufaria. É que, parece, mais correcto, seria escrever bufoaria. Mas, deixemos os neologismos para quem deles gosta.



As dúvidas sobre o significado de bufo e de bufaria, parece terem começado a desaparecer. Esta semana. Finalmente. Finalmente, houve um esclarecimento. E, ficamos todos a saber que, hoje e agora, bufos não são só os polícias. Que, afinal há mais, que há por aí muito profissional que, como classe, cabe na definição de bufo. Quem o afirma é o “Zambeze”, na sua última edição, com o título “Agitação na bufaria: sem necessidade”. E, o articulista, em texto que parece pretender ser didáctico e pedagógico, também analítico e tranquilizador, para si próprio, procura ser claro: A agitação tomou conta dos bufos, classificados e entendidos aqui como sendo, na generalidade, profissionais que lidam com a informação classificada e sensível do País. ] [ Como se vem notando desde há cerca de três – quatro anos, os bufos não são apenas os gendarmes nem os dos serviços secretos.] [ Bufos, nos tempos que correm, são os investigadores que manejam informação sensível, tais como jornalistas, os próprios da secreta, os polícias, os advogados e procuradores de vários níveis. Quero acreditar que, por esquecimento ou omissão, não terá ficado ninguém de fora na lista, na definição de bufos. O que a acontecer, a ter acontecido, até poderia parecer injustiça. E, grave. Num momento em que parece começarem a revelar-se muitas consciências pouco tranquilas.

segunda-feira, maio 30, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 29, 2005

antes e depois

Luís David


acabar com alguns equívocos


Muitas das vezes, até podemos não nos aperceber disso. Mas, acontece. Acontece sermos surpreendidos por uma palavra, por uma expressão nova. Outras, não sendo nova a palavra, ela é, começa a ser, utilizada para tentar definir realidades e situações diferentes. Diferentes daquelas que, anteriormente, definia. Digamos que as palavras são como o vestuário. Têm as suas épocas, passam por modas. Por vezes, talvez muitas vezes, as palavras que hoje parecem novas nem o são tanto assim. Estavam, porventura, esquecidas, adormecidas. Haviam caído em desuso, digamos. Haviam sido substituídas por outras palavras, digamos que mais modernas, para expressar a mesma realidade. Mas, de quando em quando, de longe em longe, de tempos em tempos, surge quem tem a ideia de trazer essas palavras esquecidas, adormecidas, mas não mortas, para o nosso comunicar de todos os dias. Precisamente, por a palavra, nenhuma palavra, morrer. E, é assim, ao que se pensa, que algumas palavras antigas surgem e parecem ser hoje moda. Bastou que alguém, bastou que um qualquer atrevido pouco respeitador de convenções gramaticais, lhes vestisse nova roupagem, lhes desse novo sentido, diferente utilidade. Acontece, então, vezes sem limite, cada um repetir a palavra nova ou que havia caído no esquecimento, sem saber o que ela significa. Muito menos o motivo pelo qual a está a utilizar.


Em tempos recentes, a nossa falácia, a nossa comunicação, a nossa necessidade de nos comunicarmos, passou a integrar duas novas expressões. Ou que, podendo não ser novas, foram feitas moda. Muito pomposamente, todos falamos de sociedade civil. Também gostamos, sempre que para tal temos oportunidade, de nos referirmos, às comunidades locais. O que uma e outra expressão significam, parece que ninguém está interessado em explicar. Ninguém sabe, exactamente, na nossa realidade concreta, onde começa e onde acaba a dita sociedade civil. Como não menos equívoco pode ser aquilo que se pretende apresentar como comunidades locais. Mas, diferentes actores nos processos, parecem confortados na nebulosa. Sem perceberem, sem se aperceberem, ou mesmo percebendo que, à partida, há o risco de se estar a cair no erro de atribuir conteúdos ideológicos a certas expressões. Quando elas o não possuem. Nem podem possuir. Assim, clarificar o que se entende por sociedade, civil apresenta-se como uma necessidade. Da mesma forma que parece inequívoco que todas as comunidades são locais. Pelo simples motivo de não poder haver comunidade sem lugar, sem local. Mesmo que possa estar a plagiar ideia de Alexandre Melo, quando citou, em “Globalização da Cultura”, que a cultura é sempre a cultura de um lugar e de uma comunidade ligada a esse lugar. Parece, pois, ser tempo de acabar com alguns equívocos.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 22, 2005

antes e depois

Luís David

Salazar está vivo e vive em Moçambique

Há quem afirme que a história se repete. Podendo ser que não, em Moçambique a história parece repetir-se. Possam os actores, de ontem e de hoje, ser diferentes. Ontem, passam poucas semanas, aconteceu na fronteira do sul, na fronteira com a África do Sul. Eram camiões que transportavam material bélico, classificado como sucata. Hoje, há poucos dias, escrevia o “Notícias”, a toda a largura da sua primeira página, que Simulados de sucata em contentores “Artefactos de guerra descobertos em Nacala”. E, acrescentava tratar-se de granadas, roquetes, bazucas e peças de aviões de combate. Admitamos, para não ficarmos como ingénuos, que para além destas duas tentativas frustradas para fazer sair, ilegalmente, do país material de guerra, outras operações poderão ter tido sucesso. Mas, atenhamo-nos apenas nestas duas últimas. Por serem as mais recentes. E por serem, em quase tudo, iguais. Por a única diferença entre ambas ser a via de saída. Por terra no sul, por mar no norte. De resto, para além disto, nada mais foi dito, nada mais foi divulgado. Não se conhece, nem num nem noutro caso, a quantidade do material que foi tentado fazer sair do país. Logo, não é possível saber o seu valor no mercado negro internacional. Também não se conhece o nome do exportador, como não se conhece o nome do destinatário. Como não se conhecem nomes de, possíveis, intermediários. Como os contentores não têm pés para andar por si próprios, nem cérebro, nem memória artificial, afigura-se como sendo um acto de inteligência divulgar quem os fez chegar aos locais onde foram detectados.


No mesmo jornal “Notícias”, da mesma sexta-feira última, pode ler-se que no bairro Militar, vulgo “Colômbia”, foram “Identificadas 15 residências usadas para o tráfico de droga”. Afinal, e isso parece já ser bom. Ficámos todos a saber o número de residências onde se vende e compra droga. Mas, também aqui, não sabemos quais são as residências. Como não sabemos quem compra mas, fundamentalmente, quem vende a droga. Muito menos as medidas tomadas para acabar com o negócio. Negócio, sem dúvida ilegal. Como continuamos a não saber os nomes dos destinatários da droga, que se diz ter sido transportada em diferentes partes do corpo, aprendida mulheres vindas do Brasil. Podem pensar alguns pensantes, e pensam quase de certeza, que ao permitirem que se diga que aqui, que aqui em Moçambique, há tráfico de drogas e de armas, já podemos dormir todos descansados. Mas, convenhamos que não. Convenhamos que não pode ser assim. Que não pode, nem deve, ser exactamente assim. Convenhamos que, a partir do momento, em que se denunciam crimes públicos é necessário investigar quem são os criminosos. Afinal, todos sabemos, hoje, que o tráfico ilegal de drogas e de material bélico tem bases do país. Mas, os nomes dos traficantes ficam escondidos. Como escondidos permanecem os nomes dos jornalistas ditos corruptos. Aparentemente, até prova em contrário, há por aqui um processo de chantagem psicológica. Parece estar a tentar-se silenciar os jornalistas. Parece que o que se está a dizer, de forma subtil, aos jornalistas, é que se os jornalistas denunciam a corrupção e os corruptos eles também não poderão deixar de ser denunciados como corruptos. No termo da análise, parece pensarem alguns, o ideal é criar uma sociedade de medo, instituir o terror. Longe no tempo, o fascismo agiganta-se perto de nós. O que, em última análise, pode permitir dizer que Salazar está vivo e vive em Moçambique.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 15, 2005

antes e depois

Luís David


retratem-se e peçam desculpas públicas

Começam a surgir alguns sinais de estarmos a viver numa sociedade sem ideias. Sem ideias novas, no mínimo. Talvez, para se ser mais preciso e mais concreto, numa sociedade que alguém classificou de “sociedade normalizada”. Só que a tal “sociedade normalizada” resulta, ou assenta, em consensos. Pode não ser, exactamente, o nosso caso. E, efectivamente, não o é. Basta recordar o que se passou na última sessão do Parlamento. O debate, em torno dos documentos apresentados, produziram pouco mais do que nada. Em termos de ideias, produziram nada. Coisa nenhuma. Quem apresentou os documentos, tinha a certeza que, por ter a maioria, eles seriam aprovados. Quem os criticou, criticou sabendo que, estando em minoria, não tinha a mínima possibilidades de impedir a sua aprovação. De facto, neste sistema e com este sistema parlamentar, sequer é necessário ter ideias. Basta algum dom de oratória, duas mãos para poder bater palmas, que agora se exigem ritmadas, e a qualidade para proferir e aceitar o insulto. Embora insulto seja, assim o entendemos, arma de fracos. Arma dos sem argumento. Venha de que bancada venha. E, ali naquela Casa, no Parlamento, onde é suposto todos estarmos representados, o que não falta é o insulto. Barato, bacoco, despropositado, ofensivo, ridículo. Mas, também não falta o discurso bajulatório a que se podem adicionar os mesmos objectivos. Agora, quanto a ideias, a ideias novas, essas são nenhumas. Bem haja, quem não pode, não quer ou não sabe pensar.


Foi dito por aí, apregoado e titulado, na semana passada, que há Corrupção muito forte na classe jornalística. Claro que sim, claro que há. E, nem era necessário ter esperado por uma sexta-feira 13, nem pelo 13 de Maio, Dia das Aparições em Portugal, como aconteceu, para fazer esta revelação. Todos sabemos que assim é. E, mais do que isso, todos sabemos que pode haver corrupção entre médicos, professores, engenheiros, funcionários, advogados, magistrados. Certamente que haverá. Quase de certeza que há. A corrupção existe entre profissionais de todas as classe e em todos os países. O que não há, o que não existe num único país, é homens completamente bons e homens completamente maus. Todos os homens têm algo de bom e algo de mau. Não existe o homem absolutamente bom, como não existe o homem absolutamente mau. O homem é. E, o Homem é o que é. Mas, deixemos a discussão filosófica a atenhamo-nos na frase é fácil entrar num jornal e pagar a um jornalista para escrever sobre um assunto. Quem assim o disse, segundo o jornal “Savana”, foi Isabel Rupia, directora da Unidade Anti-Corrupção. Alice Mabota, presidente da Liga dos Direitos Humanos, durante o mesmo encontro, organizado por países nórdicos, terá falado em termos semelhantes. Ora, a questão que se coloca às duas ilustres juristas é muito simples: Se sabem que há jornalistas corruptos o que as impede de revelar os seus nomes. Mais, o que impede a senhora que dirige a Unidade Anti-Corrupção de mover um processo, de agir no foro judicial, contra os jornalistas que julga saber serem corruptos. Claramente, há diferentes formas de cada um fazer plasmar o seu nome nos jornais. E, de nos vir dizer que está a combater a corrupção. Esta, é, parece ser, simplesmente ridícula. Caso contrário, caso possam provar o que afirmam, divulguem, publicamente nomes. Caso não, caso não tenham coragem para apresentar nomes de jornalistas corruptos, retratem-se e peçam desculpas públicas.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 8, 2005

antes e depois

Luís David

um governo sem legitimidade

Começo, hoje, por onde era suposto dever terminar. Exactamente, pelo fim. E, o fim, seria uma Nota de Autor. Solicitada e autorizada por quem tem poder para assim decidir. É que, sucede, algumas vezes aquilo que se escreve, a mensagem e a ideia que se pretendem transmitir não são exactamente o que sai impresso. Dizem-me, e quero aceitar que assim seja, que de outra forma não faz sentido ser, que se trata do resultado, do preço a pagar pela introdução de novas tecnologias. Que seja. Agora, o que podemos é regatear, negociar o preço para que não seja demasiado elevado. E, convenhamos, quando se troca ou se repete o título de um texto, o “preço” é sempre elevado para o autor. Pretende justificar este longo intróito a explicação para o facto de o título do meu texto publicado na última edição ser o mesmo da edição anterior. Ora, quem se tenha dado ao trabalho de ler o texto do último domingo, terá entendido que o título correcto seria Agir em defesa do deixa continuar. Sem culpa, ficam as desculpas.


Viajante assíduo entre Maputo e o sul de Gaza, habituei-me a ir comprando, ao longo da estrada, alguma coisa do já muito que é oferecido. Fruta e legumes aqui, peixe e caju mais além, loiça de barro e pássaros noutro local, galinhas e carvão onde estão expostos. Estranhei, em ida recente, não ver vendeiras de banana, mandioca e batata doce nos passeios da principal artéria da vila da Manhiça. . Investiguei, no regresso e, depois de ter desfrutado a magnífica vista sobre o Incomáti, fui encontrá-las numa transversal. Sem movimento e sem compradores. No Bilene, o enorme mercado permanece sem vendedores desde que foi construído. Na sua frente, na marginal, vende-se de tudo um pouco o que se pode encontrar em loja ou supermercado de Maputo. Assim como alguns produtos locais. Na parte de trás, não faltam diversas variedades de peixe, camarão e caranguejo. Digamos, este mercado é uma obra inútil para a população local. Com o dinheiro ali gasto poderia ter sido construído um óptimo posto de saúde ou duas razoáveis salas de aulas. Em Maputo, na cidade de Maputo, na cidade que é a capital do país, parece estar a haver algumas tentativas de recuperar métodos de governação de um passado recente. Mas de triste memória. Em que a norma era o recurso à violência. E, através da violência, a confiscação de produtos a cidadãos pacíficos. A questão que se coloca, hoje e agora, parece ser muito simples. Simples de mais para a mentalidade e para a capacidade de compreensão dos fenómenos sociais por parte de alguns dos actuais vereadores de Maputo. Ao que parece, constitui violação de posturas, que ninguém conhece, ocupar passeios algures. Mas, ao que parece, e a realidade manda dizer que assim é, não constitui violação de posturas ocupar passeios com exposição e venda de flores e de artesanato em outras artérias de Maputo. Como é o caso concreto da Marginal e das Avenidas 24 de Julho e Nyerere, entre outras. Começa a ser cansativa e a causar preocupação, também algum nojo, esta aplicação dual da lei. E, a prosseguir-se por este caminho, adivinha-se o risco de tendo um governo legal, termos um governo sem legitimidade.

segunda-feira, maio 02, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Maio 1, 2005


antes e depois

Luís David

agir em defesa do deixa continuar


No período que antecedeu a independência, foi Moçambique destino para muitos milhares de veraneantes, de turistas de países vizinhos. Especialmente oriundos da África do Sul e da então Rodésia. A cidade da Beira e a então cidade de Lourenço Marques constituíam os principais pontos de atracção, sem perder de vista a longa costa entre uma e outra cidade. Nas quadras festivas e em épocas de férias estudantis nos países vizinhos, aí tínhamos muitos milhares de visitantes. Alojavam-se em hotéis, pensões e residências particulares uns, acampavam outros. Cada um, cada grupo, escolhia a forma de passar uma dezena ou uma quinzena de dias de acordo com as suas capacidades financeiras. O seu objectivo era ter acesso ao mar, passar alguns dias relaxados à beira-mar, sem grandes despesas. Daí o terem, a certa alguma, sido definidos como “turistas da banana”. Dado que pouco compravam, pouco consumiam. Depois, veio a independência e mais depois veio a guerra. Com a guerra, durante a guerra, este movimento, este desejo de vir até ao mar, praticamente desapareceu. Mais tarde, voltou a paz. E, com paz, renasceu o desejo de voltar, de visitar de novo as praias índicas. Até, de as ocupar. Diz quem sabe, afirma quem pode, que os turistas de hoje trazem tudo o que necessitam. Depois, regressam com carregamentos de peixe e de mariscos, altamente valiosos. Que quando vendidos nos seus países, rendem o suficiente para custear todo o período de férias em terras moçambicanas. A razão de assim ser, de assim continuar acontecer, parece mistério. Queira eu, queira qualquer outro alguém, ao viajar de avião, transportar dois quilos de peixe ou de marisco, tal só é possível com autorização do Ministério das Pescas. Digamos, afirmemos, que os critérios utilizados nos aeroportos são diferentes dos que estão a ser seguidos nas fronteiras terrestres. Embora as polícias presentes, num e noutro local, sejam as mesmas. Há, convenhamos, uma estranha dualidade de critérios na aplicação da lei.


A paz acordada em Roma foi, inquestionavelmente, uma paz moçambicana. Uma paz que visou permitir à família moçambicana viver em harmonia, trabalhar, movimentar-se, circular, produzir para si, beneficiar de recursos que lhe pertencem. Mas, eis que parece não acontecer exactamente assim. Eis que, a avaliar pelos relatos dos jornais, está a acontecer uma ocupação desenfreada de terra moçambicana por estrangeiros. Principalmente das zonas costeiras. Sem respeito por nada nem por ninguém. Na Ponta do Ouro, sem ser, certamente, caso único, chegámos já ao escândalo de deixar construir sobre dunas e de permitir a vedação de artérias públicas, impedindo o acesso da população ao mar. Não terá gostado do que viu, como nenhum moçambicano certamente gostaria, a governadora da província de Maputo. Daí o ter dito que as 31 casas construídas ilegalmente deveriam ser demolidas. Vem hoje, vem nesta quinta-feira, o semanário “Zambeze” dizer, em título, que a “Comissão de Guebuza não vai destruir as 31 casas”. E, acrescenta, ao que parece, em forma de justificação, que “Boers” gastaram 300 mil rands subornando funcionários do Estado. Como se o facto de terem subornado funcionários do Estado, como se o facto de ter havido funcionários do Estado que se deixaram subornar, constitua motivo para não serem penalizados e legitime a ilegalidade que aceitam ter cometido. Ora, em termos de conclusão se, neste caso concreto, houve funcionários do Estado que foram subornados, devem ser punidos. Se há provas de que houve corruptores, devem igualmente ser punidos. Expulso e impedidos de voltar a entrar no país. Por mais volumoso que possa ter sido o investimento. Em minha modesta opinião, o que não podemos é afirmar que estamos a combater o “deixa andar” e, logo após, proceder em plano inverso. Isto é, agir em defesa do deixa continuar.

terça-feira, abril 19, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Abril 17, 2005

antes e depois

Luís David


As surpresas podem ser mais do que muitas


O crime organizado, todos o sabemos, está ramificado. Ramificou-se por tudo quanto é mundo. E, quando falamos de crime organizado, não estamos a fazer qualquer distinção. Estamos a falar de organizações de malfeitores. Na generalidade. Quer o objecto do crime seja o tráfico de menores ou de órgãos humanos, de motores de aviões ou de droga, de urânio ou de tecnologias de ponta. Na maioria dos campos de actuação das organizações criminosas, as polícias de diferentes países reconhecem a sua incapacidade para um combate eficaz. E, por várias razões. Uma delas, é a de o crime organizado ter acesso fácil e rápido às mais modernas tecnologias de comunicação e de informação. De andar sempre à frente das polícias em termos de meios. De poder comprar o que quer e onde quer. Sem necessidade de abrir concursos públicos. Sem necessidade de respeitar dotações orçamentais. Em alguns países, já se percebeu que o combate ao crime organizado não se compadece com esse velho e anquilosado sistema de serem necessárias três cotações para comprar meia dúzia de resmas de papel. Ou umas tantas caixas de papel higiénico. Percebeu-se, ao que parece, que legalidade é uma coisa e legitimidade é outra. Bem diferente. Mas, e ao que parece, terá havido também a percepção de que, em última análise, o crime organizado poderá ser, hoje, a mais séria ameaça para qualquer sistema democrático. Que poderá conduzir à criminalização do aparelho do Estado e, em última instância ao derrube do governo.


Ao que se diz e ao que ao que se pode concluir do que tem vindo a ser divulgado, as várias polícias moçambicanas tem estado, nos últimos tempos, bastante activas no combate ao crime organizado. Principalmente, no combate ao tráfico de drogas. As mais diversas. Curiosamente, toda a droga apreendida provinha do Brasil, passou por Joanesburgo e foi apreendida em Maputo. Mais precisamente no seu aeroporto internacional. Curiosamente, os transportadores, os “pombos correios”, foram sempre, até hoje, mulheres. Ao que parece e a avaliar pelos seus depoimentos tornados públicos, raparigas, jovens ingénuas e incrédudas. Nenhuma soube dizer quem lhe entregou o “produto” ou a quem o mesmo se destinava. Embora algumas o transportassem bem escondido nas entranhas. Nestes casos, que parece terem sido a maioria, terá prevalecido o faro canino dos agentes policiais de serviço e alguns dedos atrevidos. Já acusados – os ditos dedos – de terem atentado contra os direitos humanos. Por terem penetrado onde era suposto, e ao que parece de direito, não haverem nunca de penetrar. Ora, se é justo pensar é justo afirmar que nenhuma rede de tráfico de droga continua a utilizar o mesmo processo e a mesma rota depois de, sucessivamente, os seus “pombos correios” serem detectados. Naturalmente, as nossas polícias estão a dizer-nos a verdade quando divulgam que apanharam transportadoras de droga. Mas, também podem estar a ser enganadas. Podem estar a ser mal informadas ou a ser informadas por uma de duas organizações em conflito. Como também pode acontecer, por hipótese, ser a organização criminosa a informar sobre os seus transportadores de pequenas quantidades de droga. Por forma a desviar as atenções. Como forma de permitir às polícias informarem a opinião pública que estão empenhadas no combate ao tráfico de droga. Para que assim possam, por ingenuidade ou conivência, conseguir que a droga entre no país por outras vias e por outros meios. Possam ou não as nossas polícias ser ingénuas, os cidadãos podem não o ser tanto. É que parece haver muita história mal contada. Ou, contada com certa infantilidade. Com uma ingenuidade infantil. Mas, ao que perece, a novela ainda mal começou. Aguardemos pelos próximos capítulos. As surpresas podem ser mais do que muitas.