Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Novembro 6, 2005
antes e depois
Luís David
uma forma de evitar investigar e descobrir a verdade
O caminho mais curto para evitar a verdade, para tentar travar a investigação sobre a verdade, é tentar perpetuar um dogma. Insistir no mito e criar o rito. Para que ambos, amanhã, sejam apresentados, sejam transformados em história. Como verdade. Absoluta. Ora, muito provavelmente, história e verdade podem ser processos incompatíveis. Por serem sempre processos. E, sendo processos, nada nos darem de definitivo. A não ser a dúvida. Não há, não terá havido até hoje, uma verdade definitiva. Como não houve uma história acabada. Verdade e história podem ser, neste plano, apenas conceitos. Conceitos que se adoptam como bons, como certos, como correctos. Válidos num determinado tempo, relativamente a um determinado espaço. Mas que, amanhã, podem mudar. Podem valer nada, coisa nenhuma. Basta para tal que aumente o nosso conhecimento, que surjam factos novos. Não aceitar que a descoberta de factos novos pode mudar a nossa visão da história, é missão do dogmático. Pior. O dogmático ao recusar o princípio da dúvida, como método de investigação, tenta fazer perpetuar o dogma. E, ao tentar perpetuar o dogma, tenta impedir a aquisição de visão outra, de visão diferente, sobre o que não sendo único, nem unilateral, pode bem ser diverso e ser diferente. Digamos, em resumo, que o dogmático, ao tentar impedir outra visão, visão diferente da sua, daquilo a que chamamos história, não passa de um medíocre falsificador da história. Ou, em termo popular, numa perspectiva história, hoje, o dogmático, equivale ao que, em termos económicos, o povo classifica como de informal.
Tudo o que existe, tudo o sabemos ou julgamos saber existir, hoje, tem um antes e tem um depois. Isto para que, alguns mais distraídos e pouco dados à investigação, possam entender, definitivamente, que para poderem perceber o que aconteceu num determinado momento, necessitam saber o que se passou antes desse momento. E, em nome da verdade, não digam apenas disparates sobre o que se passou depois. Especuladores, de lá e de cá tendem, hoje, ambos os dois, em vender a sua verdade, o seu dogma, sobre a morte de Samora Machel. Um, faz, em livro, leitura diferentes de documentos conhecidos publicamente, vai para vinte anos. De investigação, apresenta nada. Outro, nem isso. Repete, simplesmente, aquilo a chama de investigação. Feita por outros, Não por si. E, neste repetir o que outros escreveram, fica-se na dúvida sobre o que se pretende encobrir. Sobre o que se pretende que não seja, jamais, matéria de investigação. Sente-se que há medos sobre um investigação, jornalística, séria, honesta e imparcial. Sendo certo que investigar dá trabalho, também teremos de aceitar que investigar pode trazer algumas surpresas. Riscos. Que os assumidos detentores da verdade oficial não desejam correr. Samora Machel foi, sem a mínima dúvida, em missão de paz. Caso tivesse regressado a Moçambique, e todos os seus acompanhantes tivessem cumprido a sua missão, a situação na África Austral poderia ter sido radicalmente alterada. Continuar a tentar atribuir a morte de Samora Machel, unicamente, ao regime sul-africano da época, é simples e fácil. Mas continua, também, uma forma de evitar investigar e descobrir a verdade.
domingo, novembro 06, 2005
sábado, novembro 05, 2005
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Outubro 30, 2005
Luís David
Trata-se de um desafio
Um homem foi morto. Mais um homem foi brutalmente assassinado. E, o homem que desta vez foi assassinado, com um tiro no coração, à queima-roupa, era director da Cadeia Central de Maputo. Fosse ele homem de fino trato ou de trato grosseiro, pouco importa. No caso em análise. O que importa é que foi morto um, mais um homem que tinha por missão proteger a nossa segurança, as nossas vidas. Como simples cidadãos. O que importa é que foi assassinado um homem que, em vida, tinha por missão manter distante do cidadão comum e indefeso, o criminoso. Tenha ou não o director da Cadeia Central de Maputo sido avisado de que iria ser morto, em nada altera o facto de ter sido, efectivamente, assassinado. Porque o facto de ter sido morto, de ter sido assassinado, nas circunstâncias publicamente conhecidas, a única coisa que pode demonstrar é, efectivamente, onde está o poder. Quem manda em quem. Só pode ser um alerta, a todos nós. Uma chamada de atenção e uma advertência. Poderá ter sido. Poderá ser. Será, É. Mas, uma advertência séria. O que aconteceu, ontem, a este director de cadeia, pode acontecer, amanhã, a um chefe de Esquadra ou a um comandante de polícia. Ao mais alto nível. Provavelmente, a um general do exército. Com ou sem aviso.
Em os “Os senhores do Crime – As novas máfias contra a democracia”, o suíço Jean Ziegler, leva-nos a partilhar o seu trabalho de investigação sobre o crime organizado em diferentes países da Europa. No verso da capa do livro, pode ler-se: Estes novos “padrinhos” actuam sob disfarce. Vivem na sombra dispõem de “homens de mão” e usam nomes falsos: ninguém sabe quais são os seus nomes verdadeiros. Por vezes controlam o próprio poder político”. Das mais de 250 páginas escritas pelo investigador suíço e seus colaboradores, que não é possível resumir, parece importante reter a seguinte passagem (pag. 255): O crime organizado assemelha-se à Hidra, a serpente monstruosa de vária cabeças, da mitologia grega. Corta-se-lhe uma cabeça... e logo nascem outras duas. Para liquidar definitivamente o crime organizado, seria necessário utilizar os mesmos métodos que Hércules e Iolas utilizaram para matar a Hidra de Lerna: enquanto Hércules cortava as cabeças, Iolas aplicava nas feridas um ferro em brasa. Por outras palavras, o crime organizado só será vencido no dia em que a sociedade democrática ocidental recuperar os seus valores fundadores, o sentido de um destino colectivo e dos comportamentos comuns baseados na solidariedade e na justiça. Convenhamos que não é apenas com leis, com sentenças espectaculares, com cadeias, com polícias, por mais competentes e honestos que sejam, que se pode combater o crime organizado. Os senhores do crime avançam, ao que parece, num passo triunfante. A questão está em saber se estamos dispostos a mobilizar os valores que estão adormecidos na nossa memória e na nossa sociedade. E, na nossa cultura. Trata-se de um desafio.
Luís David
Trata-se de um desafio
Um homem foi morto. Mais um homem foi brutalmente assassinado. E, o homem que desta vez foi assassinado, com um tiro no coração, à queima-roupa, era director da Cadeia Central de Maputo. Fosse ele homem de fino trato ou de trato grosseiro, pouco importa. No caso em análise. O que importa é que foi morto um, mais um homem que tinha por missão proteger a nossa segurança, as nossas vidas. Como simples cidadãos. O que importa é que foi assassinado um homem que, em vida, tinha por missão manter distante do cidadão comum e indefeso, o criminoso. Tenha ou não o director da Cadeia Central de Maputo sido avisado de que iria ser morto, em nada altera o facto de ter sido, efectivamente, assassinado. Porque o facto de ter sido morto, de ter sido assassinado, nas circunstâncias publicamente conhecidas, a única coisa que pode demonstrar é, efectivamente, onde está o poder. Quem manda em quem. Só pode ser um alerta, a todos nós. Uma chamada de atenção e uma advertência. Poderá ter sido. Poderá ser. Será, É. Mas, uma advertência séria. O que aconteceu, ontem, a este director de cadeia, pode acontecer, amanhã, a um chefe de Esquadra ou a um comandante de polícia. Ao mais alto nível. Provavelmente, a um general do exército. Com ou sem aviso.
Em os “Os senhores do Crime – As novas máfias contra a democracia”, o suíço Jean Ziegler, leva-nos a partilhar o seu trabalho de investigação sobre o crime organizado em diferentes países da Europa. No verso da capa do livro, pode ler-se: Estes novos “padrinhos” actuam sob disfarce. Vivem na sombra dispõem de “homens de mão” e usam nomes falsos: ninguém sabe quais são os seus nomes verdadeiros. Por vezes controlam o próprio poder político”. Das mais de 250 páginas escritas pelo investigador suíço e seus colaboradores, que não é possível resumir, parece importante reter a seguinte passagem (pag. 255): O crime organizado assemelha-se à Hidra, a serpente monstruosa de vária cabeças, da mitologia grega. Corta-se-lhe uma cabeça... e logo nascem outras duas. Para liquidar definitivamente o crime organizado, seria necessário utilizar os mesmos métodos que Hércules e Iolas utilizaram para matar a Hidra de Lerna: enquanto Hércules cortava as cabeças, Iolas aplicava nas feridas um ferro em brasa. Por outras palavras, o crime organizado só será vencido no dia em que a sociedade democrática ocidental recuperar os seus valores fundadores, o sentido de um destino colectivo e dos comportamentos comuns baseados na solidariedade e na justiça. Convenhamos que não é apenas com leis, com sentenças espectaculares, com cadeias, com polícias, por mais competentes e honestos que sejam, que se pode combater o crime organizado. Os senhores do crime avançam, ao que parece, num passo triunfante. A questão está em saber se estamos dispostos a mobilizar os valores que estão adormecidos na nossa memória e na nossa sociedade. E, na nossa cultura. Trata-se de um desafio.
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Outubro 23, 2005
antes e depois
Luís David
pode não ser simples acaso
Aconteceu durante semanas, ao longo de meses. Sempre em dias certos. Sempre pelas mesmas artérias da cidade de Maputo. Era a marcha ou desfile dos ex-trabalhadores na extinta RDA. Foi a forma que encontraram para reclamar direitos que defendiam ter. E, convenhamos, todos, todos têm o direito de defender os seus direitos. De reclamar e de protestar, quando sentem ou entendem que esses direitos não estão a ser respeitados. Outro aspecto, não menos importante, é que os direitos de uns acabam onde começam os direitos de outros. Quando se envereda pelo caminho da intimidação. Quando cidadãos pacíficos, quando transeuntes ocasionais de uma qualquer artéria, são ameaçados. E, ameaçados por nada. Quando se tenta negar a outros, o que através do protesto se quer defender. Ou, quando se ocupa propriedade alheia, quando se ocupa propriedade estrangeira. Aí, ao enveredar-se pelo caminho do excesso, corre-se o risco de perder a razão. A causa do protesto corre o risco de perder legitimidade. Corre o risco de perder legitimidade para protestar, quem por estes meios reclama.
Esta semana, estudantes bolseiros da Universidade Eduardo Mondlane entenderam reclamar. Reclamar, o que julgam ser direito seu e dever da parte contra quem protestam e reclamam. Protestar, no que foi apresentado como motivo público, contra o Regulamento das Bolsas. Assiste-lhes, sem reservas, todo o direito e toda a legitimidade para o fazer. Em sede própria, de forma pacífica e ordeira. O que não lhes assiste, é o direito de bloquear artérias e tentar impedir que outros cidadãos por elas circulem. O que não lhes assiste é o direito ao distúrbio, o direito de atentarem contra os direitos de outros cidadãos. Desta forma, ao procederem desta forma, perdem toda a legitimidade de protestar. Perde razão o protesto. A causa do protesto deixa de ter razão. Perde toda a legitimidade pretender defender opiniões, ou mesmo o que pensa ser direitos, violando o que é direito de outros. Publicamente consagrado. Possa ou não ser coincidência, a forma de protesto dos antigos trabalhadores na extinta RDA e a forma de protesto deste grupo de estudantes, encontra muitas semelhanças. Pode ser simples coincidência. Como pode não ser simples acaso.
antes e depois
Luís David
pode não ser simples acaso
Aconteceu durante semanas, ao longo de meses. Sempre em dias certos. Sempre pelas mesmas artérias da cidade de Maputo. Era a marcha ou desfile dos ex-trabalhadores na extinta RDA. Foi a forma que encontraram para reclamar direitos que defendiam ter. E, convenhamos, todos, todos têm o direito de defender os seus direitos. De reclamar e de protestar, quando sentem ou entendem que esses direitos não estão a ser respeitados. Outro aspecto, não menos importante, é que os direitos de uns acabam onde começam os direitos de outros. Quando se envereda pelo caminho da intimidação. Quando cidadãos pacíficos, quando transeuntes ocasionais de uma qualquer artéria, são ameaçados. E, ameaçados por nada. Quando se tenta negar a outros, o que através do protesto se quer defender. Ou, quando se ocupa propriedade alheia, quando se ocupa propriedade estrangeira. Aí, ao enveredar-se pelo caminho do excesso, corre-se o risco de perder a razão. A causa do protesto corre o risco de perder legitimidade. Corre o risco de perder legitimidade para protestar, quem por estes meios reclama.
Esta semana, estudantes bolseiros da Universidade Eduardo Mondlane entenderam reclamar. Reclamar, o que julgam ser direito seu e dever da parte contra quem protestam e reclamam. Protestar, no que foi apresentado como motivo público, contra o Regulamento das Bolsas. Assiste-lhes, sem reservas, todo o direito e toda a legitimidade para o fazer. Em sede própria, de forma pacífica e ordeira. O que não lhes assiste, é o direito de bloquear artérias e tentar impedir que outros cidadãos por elas circulem. O que não lhes assiste é o direito ao distúrbio, o direito de atentarem contra os direitos de outros cidadãos. Desta forma, ao procederem desta forma, perdem toda a legitimidade de protestar. Perde razão o protesto. A causa do protesto deixa de ter razão. Perde toda a legitimidade pretender defender opiniões, ou mesmo o que pensa ser direitos, violando o que é direito de outros. Publicamente consagrado. Possa ou não ser coincidência, a forma de protesto dos antigos trabalhadores na extinta RDA e a forma de protesto deste grupo de estudantes, encontra muitas semelhanças. Pode ser simples coincidência. Como pode não ser simples acaso.
segunda-feira, outubro 17, 2005
Publicado em Maputo, Moçambique, no jornal Domingo de Outubro 16, 2005
antes e depois
Luís David
Mesmo quando não tenham de ser assinados papéis
O Acordo de Roma foi assinado fez treze anos. Não será, não terá sido, poderá não ter sido um Acordo perfeito. Mas, não há acordos perfeitos. Há acordos possíveis. Simplesmente possíveis. Que, bons ou maus, em situações semelhantes, permitem assegurar uma situação de paz. Como foi o caso, até hoje, até à data presente. Um acordo que, na sua essência e no seu espírito, terá sido respeitado, durante treze anos, por ambas as partes. E, isto, muito provavelmente, por ambas as partes haverem concluído não haver mais espaço, nem motivo nem razão para continuarem com a guerra. Ora, repetindo o que parece ter-se tornado lugar comum, digamos que a paz veio para ficar. Então, recuando no tempo e para sermos justos e honestos, o Acordo de Roma não deve conter, não pode conter cláusula que permita a uma das partes manter homens armados clandestinos. Homens armados escondidos nas matas. Por ser contra os princípios que regem qualquer Estado de Direito. Menos sentido parece fazer, sentido nenhum faz, hoje, tentar nova interpretação para o que foi escrito e assinado fez treze anos. Não podemos, hoje, defender que o referido Acordo quis dizer, pretendeu dizer, o que nele não foi nem está, certamente, escrito. Sob pena e risco de desonestidade moral e intelectual. Sob pena e risco de se estar a tentar falsificar a história recente. De Moçambique.
Após encontro, recente, com o Ministro do Interior, o presidente da RENAMO é citado a dizer (“Notícias” de 13 do mês corrente): Podemos entregar as armas e os homens para formação, desde que eles continuem sob nossa alçada. Não vamos entregá-los em definitivo ao Governo. Preferimos manter a nossa segurança porque “os segurança” da Frelimo não fazem o que deve ser feito em matéria de segurança para os elementos da Renamo. Somos espancados na presença da polícia, daí que preferimos que eles sejam treinados e equipados mas continuam sob o nosso comando. Ora, a afirmação é, em primeira e em última análise, confusa. Digamos, mesmo, que faz pouco sentido. Que faz sentido nenhum. Que não tem lógica, que não prima pela lógica. Ora, interroguemos, coloquemos a dúvida: Que Estado, que Estado de Direito, pode aceitar treinar e integrar elementos nas suas forças de polícias que, posteriormente, obedeçam ao comando de um partido da oposição. Que Estado de Direito aceita, ou aceitou, integrar nas suas fileiras elementos que não controla. Claramente, nenhum. Por se tratar de uma aberração. Que dirigentes de partidos da oposição tenham direito a segurança pessoal, faz todo o sentido. Que essa força de protecção seja treinada, integrada nas forças da Polícia, paga pelo Estado, e obedeça não a um comando central mas ao dirigente de um partido de oposição é, no mínimo, ridículo. Não faz sentido. E sabe, perfeitamente, que não faz sentido quem defende esta posição, como sabe que não faz sentido quem a aconselha, quem está a aconselhar, e a pagar. A paz em Moçambique, a paz moçambicana, só pode ser efectiva e continuada com o diálogo sob a copa de árvore frondosa. O Acordo de Roma foi apenas um acidente. Foi uma etapa no processo. Indispensável. Mas, sejamos claros, o verdadeiro Acordo de Paz terá de ser firmado cá dentro. Mesmo quando não tenham de ser assinados papéis.
antes e depois
Luís David
Mesmo quando não tenham de ser assinados papéis
O Acordo de Roma foi assinado fez treze anos. Não será, não terá sido, poderá não ter sido um Acordo perfeito. Mas, não há acordos perfeitos. Há acordos possíveis. Simplesmente possíveis. Que, bons ou maus, em situações semelhantes, permitem assegurar uma situação de paz. Como foi o caso, até hoje, até à data presente. Um acordo que, na sua essência e no seu espírito, terá sido respeitado, durante treze anos, por ambas as partes. E, isto, muito provavelmente, por ambas as partes haverem concluído não haver mais espaço, nem motivo nem razão para continuarem com a guerra. Ora, repetindo o que parece ter-se tornado lugar comum, digamos que a paz veio para ficar. Então, recuando no tempo e para sermos justos e honestos, o Acordo de Roma não deve conter, não pode conter cláusula que permita a uma das partes manter homens armados clandestinos. Homens armados escondidos nas matas. Por ser contra os princípios que regem qualquer Estado de Direito. Menos sentido parece fazer, sentido nenhum faz, hoje, tentar nova interpretação para o que foi escrito e assinado fez treze anos. Não podemos, hoje, defender que o referido Acordo quis dizer, pretendeu dizer, o que nele não foi nem está, certamente, escrito. Sob pena e risco de desonestidade moral e intelectual. Sob pena e risco de se estar a tentar falsificar a história recente. De Moçambique.
Após encontro, recente, com o Ministro do Interior, o presidente da RENAMO é citado a dizer (“Notícias” de 13 do mês corrente): Podemos entregar as armas e os homens para formação, desde que eles continuem sob nossa alçada. Não vamos entregá-los em definitivo ao Governo. Preferimos manter a nossa segurança porque “os segurança” da Frelimo não fazem o que deve ser feito em matéria de segurança para os elementos da Renamo. Somos espancados na presença da polícia, daí que preferimos que eles sejam treinados e equipados mas continuam sob o nosso comando. Ora, a afirmação é, em primeira e em última análise, confusa. Digamos, mesmo, que faz pouco sentido. Que faz sentido nenhum. Que não tem lógica, que não prima pela lógica. Ora, interroguemos, coloquemos a dúvida: Que Estado, que Estado de Direito, pode aceitar treinar e integrar elementos nas suas forças de polícias que, posteriormente, obedeçam ao comando de um partido da oposição. Que Estado de Direito aceita, ou aceitou, integrar nas suas fileiras elementos que não controla. Claramente, nenhum. Por se tratar de uma aberração. Que dirigentes de partidos da oposição tenham direito a segurança pessoal, faz todo o sentido. Que essa força de protecção seja treinada, integrada nas forças da Polícia, paga pelo Estado, e obedeça não a um comando central mas ao dirigente de um partido de oposição é, no mínimo, ridículo. Não faz sentido. E sabe, perfeitamente, que não faz sentido quem defende esta posição, como sabe que não faz sentido quem a aconselha, quem está a aconselhar, e a pagar. A paz em Moçambique, a paz moçambicana, só pode ser efectiva e continuada com o diálogo sob a copa de árvore frondosa. O Acordo de Roma foi apenas um acidente. Foi uma etapa no processo. Indispensável. Mas, sejamos claros, o verdadeiro Acordo de Paz terá de ser firmado cá dentro. Mesmo quando não tenham de ser assinados papéis.
segunda-feira, outubro 10, 2005
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Outubro 9, 2005
antes e depois
Luís David
um fenómeno nacional difícil de entender
De verdade, nem sempre podemos dizer que a Natureza nos seja favorável. Porque não é. Porque muitas vezes não é. Fustiga-nos, agride-nos, maltrata-nos, com demasiada frequência. Secas hoje, inundações amanhã, ciclones e vendavais ao terceiro dia. Hoje, aqui ou além, a terra fica seca ou ressequida. Plantas, animais e homens não resistem. Sucumbem. Amanhã, chove em demasia. Plantas animais e homens são impotentes para enfrentar a força e a fúria das águas. Depois, os ventos que tudo varrem, tudo levam na sua frente. Tudo arrastam com a sua força destruidora. Guardamos, certamente, todos, ou muitos de nós, memórias recentes das consequências de uma e das outras situações. Memórias de dramas humanos. Memórias de sofrimento, de desespero, de dor. Memórias de ontem a que se sucedem imagens de hoje. Já de produção e de alento. Imagens de e da vontade de vencer. De se não entregar como vencido. Imagens dos frutos e com os frutos dessa vontade de vencer. Dos frutos de se não ter dado por vencido.
As imagens e as notícias de regiões onde os efeitos da seca podem ser, e muitas vezes são, dramáticos, também têm o seu oposto. E, o oposto, são as imagens e as notícias de regiões onde o incentivo à produção agrícola deu resultados positivos. Significativamente positivos. Mas, também aqui, com um outro senão. O de essa produção não estar a ser devidamente comercializada, não estar a ser encaminhada para os mercados consumidores. Com um aspecto agravante. Importamos, continuamos a autorizar a importação, de países vizinhos – e, em alguns casos, nem só de países vizinhos – conseguimos transportar de países vizinhos e de outros de mais de longe, o não conseguimos fazer transportar dentro de Moçambique. Conseguimos – assim parece ser a nossa realidade, resultado da nossa mentalidade – fazer o transporte de mercadorias entre o mar e o interior, entre o mar e os países vizinhos. Também entre os países vizinhos e o mar. Mas, temos dificuldades em transportar o nosso produto, o que produzimos no país, entre distritos, entre províncias, entre o norte e o sul. Naturalmente, é difícil entender esta continuada ausência de protecção ao produto, à produção nacional. Mais. É preocupante saber que a batata reno e o ananás, a batata doce e o tomate, a cebola e o pimento, para citar, apenas, exemplos primários, produzidos por agricultores moçambicanos correm o risco de apodrecer, ao sair da terra. Por falta de uma política de comercialização. Por falta de uma política de incentivo ao agricultor e, no geral, ao produtor nacional. Sobretudo, também, por falta de medidas restritivas a importações de produtos que, produzidos no país, com muito melhor qualidade, correm o risco de apodrecer antes de chegarem ao mercado mais próximo. Convenhamos, não estamos perante uma calamidade, não estamos perante um fenómeno natural que não possamos dominar. Estamos, isso sim, perante um fenómeno nacional difícil de entender.
antes e depois
Luís David
um fenómeno nacional difícil de entender
De verdade, nem sempre podemos dizer que a Natureza nos seja favorável. Porque não é. Porque muitas vezes não é. Fustiga-nos, agride-nos, maltrata-nos, com demasiada frequência. Secas hoje, inundações amanhã, ciclones e vendavais ao terceiro dia. Hoje, aqui ou além, a terra fica seca ou ressequida. Plantas, animais e homens não resistem. Sucumbem. Amanhã, chove em demasia. Plantas animais e homens são impotentes para enfrentar a força e a fúria das águas. Depois, os ventos que tudo varrem, tudo levam na sua frente. Tudo arrastam com a sua força destruidora. Guardamos, certamente, todos, ou muitos de nós, memórias recentes das consequências de uma e das outras situações. Memórias de dramas humanos. Memórias de sofrimento, de desespero, de dor. Memórias de ontem a que se sucedem imagens de hoje. Já de produção e de alento. Imagens de e da vontade de vencer. De se não entregar como vencido. Imagens dos frutos e com os frutos dessa vontade de vencer. Dos frutos de se não ter dado por vencido.
As imagens e as notícias de regiões onde os efeitos da seca podem ser, e muitas vezes são, dramáticos, também têm o seu oposto. E, o oposto, são as imagens e as notícias de regiões onde o incentivo à produção agrícola deu resultados positivos. Significativamente positivos. Mas, também aqui, com um outro senão. O de essa produção não estar a ser devidamente comercializada, não estar a ser encaminhada para os mercados consumidores. Com um aspecto agravante. Importamos, continuamos a autorizar a importação, de países vizinhos – e, em alguns casos, nem só de países vizinhos – conseguimos transportar de países vizinhos e de outros de mais de longe, o não conseguimos fazer transportar dentro de Moçambique. Conseguimos – assim parece ser a nossa realidade, resultado da nossa mentalidade – fazer o transporte de mercadorias entre o mar e o interior, entre o mar e os países vizinhos. Também entre os países vizinhos e o mar. Mas, temos dificuldades em transportar o nosso produto, o que produzimos no país, entre distritos, entre províncias, entre o norte e o sul. Naturalmente, é difícil entender esta continuada ausência de protecção ao produto, à produção nacional. Mais. É preocupante saber que a batata reno e o ananás, a batata doce e o tomate, a cebola e o pimento, para citar, apenas, exemplos primários, produzidos por agricultores moçambicanos correm o risco de apodrecer, ao sair da terra. Por falta de uma política de comercialização. Por falta de uma política de incentivo ao agricultor e, no geral, ao produtor nacional. Sobretudo, também, por falta de medidas restritivas a importações de produtos que, produzidos no país, com muito melhor qualidade, correm o risco de apodrecer antes de chegarem ao mercado mais próximo. Convenhamos, não estamos perante uma calamidade, não estamos perante um fenómeno natural que não possamos dominar. Estamos, isso sim, perante um fenómeno nacional difícil de entender.
domingo, outubro 02, 2005
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Outubro 2, 2005
antes e depois
Luís David
a hipótese de existência de petróleo é sempre uma tentação
Desde a Segunda Guerra Mundial, todas as guerras, todos os conflitos armados, foram classificados como conflitos de baixa ou de pequena intensidade. Por peritos e por especialistas militares. Isto é, de guerras onde se procura investir o mínimo de dinheiro e envolver o menor número possível de homens e de armas. Contudo, não deixam de ser guerras sangrentas, não deixam de ser guerras destruidoras. Não deixam de ser guerras que provocam dezenas, centenas de milhares de mortos. Não deixam de ser guerras que levam à destruição de indispensáveis infra-estruturas sociais colectivas. Que provocam, em última análise, a destruição do tecido social. Na Ásia e em África, principalmente, todos guardamos memórias recentes de conflitos, de confrontos armados sangrentos. Por motivos étnicos, por motivos religiosos, por motivos raciais, por motivos políticos ou ideológicos. Também por motivos económicos. E, aqui, o petróleo, parece ser, é, determinante na maioria dos casos, na maioria dos conflitos. Seja qual tenha sido o motivo, Moçambique viveu um período de treze anos de conflito armado. Um conflito entre moçambicanos desentendidos, desavindos.
Amanhã, melhor, depois do amanhã, completam-se treze anos que em Roma foi assinado o Acordo Geral de Paz. Significa isto, entende-se, assim, que passam treze anos que vivemos em paz. Mas, esta paz, acordada em Roma, parece ser, cada dia que passa, uma paz jugulada. Uma paz cativa de ameaças e de pronunciamentos belicistas. Uma paz assente na chantagem. Sobre a possibilidade, talvez hipotética e remota, do retomar da guerra. Entre irmãos, entre famílias moçambicanas. De voltar a opor moçambicanos a moçambicanos. De dar ordens a moçambicanos para assassinarem moçambicanos. A paz, objectivamente, passa por caminhos diferentes. Talvez opostos. Passa, para além do silenciar das armas, por saber trilhar o caminho da reconciliação. Caminho difícil, sem dúvida. Mas, talvez único para quem se assuma como patriota. Sejam de quem sejam as culpas, os acontecimentos de Montepuez e Mocímboa da Praia constituem perigosos incidentes. Talvez, mesmo, perigosos precedentes. Mas, pior, mais perigoso, parece ser continuar a permitir, segundo declarações públicas, que existem homens armados, que existem exércitos privados em determinadas regiões do país. O Estado, o Estado moçambicano, sendo, que é, um Estado unitário, não deve nem pode permitir estes desafios. Não deve, nem pode, permitir este tipo de provocações. Não deve e tem obrigação de impedir manobras que tenham como objectivo desencadear guerras de secessão. Sendo que o espaço para tal seja cada dia mais reduzido, a hipótese de existência de petróleo é sempre uma tentação.
antes e depois
Luís David
a hipótese de existência de petróleo é sempre uma tentação
Desde a Segunda Guerra Mundial, todas as guerras, todos os conflitos armados, foram classificados como conflitos de baixa ou de pequena intensidade. Por peritos e por especialistas militares. Isto é, de guerras onde se procura investir o mínimo de dinheiro e envolver o menor número possível de homens e de armas. Contudo, não deixam de ser guerras sangrentas, não deixam de ser guerras destruidoras. Não deixam de ser guerras que provocam dezenas, centenas de milhares de mortos. Não deixam de ser guerras que levam à destruição de indispensáveis infra-estruturas sociais colectivas. Que provocam, em última análise, a destruição do tecido social. Na Ásia e em África, principalmente, todos guardamos memórias recentes de conflitos, de confrontos armados sangrentos. Por motivos étnicos, por motivos religiosos, por motivos raciais, por motivos políticos ou ideológicos. Também por motivos económicos. E, aqui, o petróleo, parece ser, é, determinante na maioria dos casos, na maioria dos conflitos. Seja qual tenha sido o motivo, Moçambique viveu um período de treze anos de conflito armado. Um conflito entre moçambicanos desentendidos, desavindos.
Amanhã, melhor, depois do amanhã, completam-se treze anos que em Roma foi assinado o Acordo Geral de Paz. Significa isto, entende-se, assim, que passam treze anos que vivemos em paz. Mas, esta paz, acordada em Roma, parece ser, cada dia que passa, uma paz jugulada. Uma paz cativa de ameaças e de pronunciamentos belicistas. Uma paz assente na chantagem. Sobre a possibilidade, talvez hipotética e remota, do retomar da guerra. Entre irmãos, entre famílias moçambicanas. De voltar a opor moçambicanos a moçambicanos. De dar ordens a moçambicanos para assassinarem moçambicanos. A paz, objectivamente, passa por caminhos diferentes. Talvez opostos. Passa, para além do silenciar das armas, por saber trilhar o caminho da reconciliação. Caminho difícil, sem dúvida. Mas, talvez único para quem se assuma como patriota. Sejam de quem sejam as culpas, os acontecimentos de Montepuez e Mocímboa da Praia constituem perigosos incidentes. Talvez, mesmo, perigosos precedentes. Mas, pior, mais perigoso, parece ser continuar a permitir, segundo declarações públicas, que existem homens armados, que existem exércitos privados em determinadas regiões do país. O Estado, o Estado moçambicano, sendo, que é, um Estado unitário, não deve nem pode permitir estes desafios. Não deve, nem pode, permitir este tipo de provocações. Não deve e tem obrigação de impedir manobras que tenham como objectivo desencadear guerras de secessão. Sendo que o espaço para tal seja cada dia mais reduzido, a hipótese de existência de petróleo é sempre uma tentação.
segunda-feira, setembro 26, 2005
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Setembro 25, 2005
antes e depois
Luís David
Fica o alerta
O aumento rápido, acelerado, do parque automóvel nacional tem, naturalmente, reflexos na circulação. Muito claramente, na cidade de Maputo. Primeiro, devido à falta de espaços de estacionamento em muitas zonas. Segundo, devido a congestionamentos e engarrafamentos. Em determinadas artérias e a certas horas. Situação agravada, situação que tem como factor agravante o facto de a maioria dos sinais luminosos reguladores do trânsito estarem avariados. O que origina, em última análise, um número elevado de acidentes. Um número exagerado de acidentes, que bem podiam ser evitados. Que não se encontra justificação para que aconteçam. Mas, voltemos ao princípio, voltemos à questão do congestionamento em diversas artérias e a determinadas horas. A situação, o caos a que chegou o trânsito, parece justificar um estudo sério. Com vista a encontrar alternativas e soluções. Digamos, mesmo, a situação exige soluções rápidas e urgentes. Uma das quais, poderá, eventualmente, ser o estabelecimento de vias de sentido único. Durante todo o dia, com carácter permanente. Ou, em alternativa, com sentido único, em determinados períodos do dia. Consoante o sentido do maior fluxo de trânsito. Naturalmente, como se disse, qualquer solução exige estudos adequados. E, qualquer solução passa, também, por uma maior colaboração e uma mais efectiva presença da Polícia de Trânsito onde era suposto dever estar presente. Mas, raramente está. Por último, poderá ser necessário estudar, poderá ser necessário analisar, se as dezenas de viaturas de instrução que circulam pela cidade constituem são ou não factor agravante do actual caos. Se sim, se a conclusão for sim, há que limitar a sua circulação a determinadas artérias e em determinadas horas do dia.
Nesta questão do acelerado e rápido crescimento do parque automóvel nacional, parece importante não perder de vista um outro aspecto. O de ser o resultado de uma política governamental. De uma política que permite a importação, aparentemente, sem qualquer tipo de controlo de qualidade, de viaturas usadas e recondicionadas. Uma política que, temos de o reconhecer, veio facilitar a muitos moçambicanos, talvez milhares, ter acesso a transporte próprio. Mas, uma política é como uma moeda. Tem duas faces. Tem verso e tem anverso. Tem vantagens e tem desvantagens. Daí, talvez por ter mais desvantagens do que vantagens, ter sido proibida a importação deste género de viaturas em alguns países da SADC. Aperceberam-se, alguns, estarem a ser transformados em parques de sucata. Estarem a permitir negócio de sucateiros. Chorudos negócios de sucateiros, ambulantes e errantes. Com todos os perigos. Os perigos e os custos económicos que isso representa. No caso concreto de Moçambique, a descontrolada importação de viaturas usadas parece apresentar vários perigos. Um, será a crise das empresas que importam viaturas novas, às quais garantem assistência. Outro, não menos importante, o envelhecimento prematuro do parque automóvel nacional. O que representa, sem dúvida, elevados custos para o país e para o cidadão. Não custa prever, não custa aceitar, que a maior parte das muitas centenas das reluzentes viaturas que hoje por aí circulam, enfrentam o destino de ficar , definitivamente, parqueadas dentro de poucos anos. O que parece ser um caso para reflexão. Fica o alerta.
antes e depois
Luís David
Fica o alerta
O aumento rápido, acelerado, do parque automóvel nacional tem, naturalmente, reflexos na circulação. Muito claramente, na cidade de Maputo. Primeiro, devido à falta de espaços de estacionamento em muitas zonas. Segundo, devido a congestionamentos e engarrafamentos. Em determinadas artérias e a certas horas. Situação agravada, situação que tem como factor agravante o facto de a maioria dos sinais luminosos reguladores do trânsito estarem avariados. O que origina, em última análise, um número elevado de acidentes. Um número exagerado de acidentes, que bem podiam ser evitados. Que não se encontra justificação para que aconteçam. Mas, voltemos ao princípio, voltemos à questão do congestionamento em diversas artérias e a determinadas horas. A situação, o caos a que chegou o trânsito, parece justificar um estudo sério. Com vista a encontrar alternativas e soluções. Digamos, mesmo, a situação exige soluções rápidas e urgentes. Uma das quais, poderá, eventualmente, ser o estabelecimento de vias de sentido único. Durante todo o dia, com carácter permanente. Ou, em alternativa, com sentido único, em determinados períodos do dia. Consoante o sentido do maior fluxo de trânsito. Naturalmente, como se disse, qualquer solução exige estudos adequados. E, qualquer solução passa, também, por uma maior colaboração e uma mais efectiva presença da Polícia de Trânsito onde era suposto dever estar presente. Mas, raramente está. Por último, poderá ser necessário estudar, poderá ser necessário analisar, se as dezenas de viaturas de instrução que circulam pela cidade constituem são ou não factor agravante do actual caos. Se sim, se a conclusão for sim, há que limitar a sua circulação a determinadas artérias e em determinadas horas do dia.
Nesta questão do acelerado e rápido crescimento do parque automóvel nacional, parece importante não perder de vista um outro aspecto. O de ser o resultado de uma política governamental. De uma política que permite a importação, aparentemente, sem qualquer tipo de controlo de qualidade, de viaturas usadas e recondicionadas. Uma política que, temos de o reconhecer, veio facilitar a muitos moçambicanos, talvez milhares, ter acesso a transporte próprio. Mas, uma política é como uma moeda. Tem duas faces. Tem verso e tem anverso. Tem vantagens e tem desvantagens. Daí, talvez por ter mais desvantagens do que vantagens, ter sido proibida a importação deste género de viaturas em alguns países da SADC. Aperceberam-se, alguns, estarem a ser transformados em parques de sucata. Estarem a permitir negócio de sucateiros. Chorudos negócios de sucateiros, ambulantes e errantes. Com todos os perigos. Os perigos e os custos económicos que isso representa. No caso concreto de Moçambique, a descontrolada importação de viaturas usadas parece apresentar vários perigos. Um, será a crise das empresas que importam viaturas novas, às quais garantem assistência. Outro, não menos importante, o envelhecimento prematuro do parque automóvel nacional. O que representa, sem dúvida, elevados custos para o país e para o cidadão. Não custa prever, não custa aceitar, que a maior parte das muitas centenas das reluzentes viaturas que hoje por aí circulam, enfrentam o destino de ficar , definitivamente, parqueadas dentro de poucos anos. O que parece ser um caso para reflexão. Fica o alerta.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Setembro 18, 2005
antes e depois
Luís David
também em inglês nos entendemos
Está Moçambique situado numa região em que os países fronteiriços foram colonizados por ingleses. Logo, situado, enquadrado, num espaço geográfico em que é dominante a língua inglesa. Ora, tendo sido Portugal metropolitano, durante décadas, pouco mais do que uma colónia económica britânica, Moçambique viria, por este e por outros motivos, a cair, também na órbita do domínio inglês. De tal forma que, principalmente no sul, tinha curso legal a libra inglesa. Da mesma forma que, durante largo período de tempo existiram jornais bilingues. Foram editados jornais em língua portuguesa e em língua inglesa. Não consta nos registos históricos que a administração colonial, local ou metropolitana, alguma vez se tenha oposto à situação. Ou que tenha ensaiado alguma medida para a alterar. Porém, decorridos anos, mais precisamente algumas décadas, aconteceu, era já Moçambique país. E, o que aconteceu foi começar a escutar-se uma alarmada vozearia, desalegrada e insatisfeita, manifestamente, pelo facto de Moçambique estar a preparar-se para eleger, para optar, pela língua inglesa, preterindo a portuguesa. Isto ocorreu por ocasião e na sequência da adesão de Moçambique à Comunidade Britânica. Era, foi, como se viu e como se comprovou, um alarme falso. Foi, como o tempo nos demonstrou, um rebate e um debate falso. Em que as vozes alarmadas e alarmistas de lá encontraram eco e calmosa tranquilidade em vozes aconselhadas mais sensatas do lado de cá. Pareceu assim, definitivamente, o assunto definitivamente encerrado. Para bem de todas as almas e dos justos pensadores de ambas as cotas oceânicas.
Temos de reconhecer, por ser esta a realidade, que foi a independência das antigas colónias portuguesas o factor determinante para que a língua portuguesa tivesse sido adoptada por várias organizações internacionais. De que todos esses países são, hoje, membros de pleno direito. Ora, tal facto, o facto de a língua portuguesa ser, hoje, cada vez mais utilizada em organismos internacionais, em nada fez diminuir a influência da língua inglesa. Digamos, mesmo e sem receio, que a língua inglesa é, hoje, se não a única, pelo menos a primeira língua de comunicação universal. Quer estejamos a tratar de comércio ou de economia, de artes ou de literatura, de ciência ou de tecnologia. De tal forma que, são muitos os termos os termos que, até hoje, não tiveram tradução noutras línguas. Que são utilizados e entendidos, por todos, no original, no inglês. Ignoro, por completo, se foi por estes ou por outros diferentes motivos o recente posicionamento do primeiro-ministro de Portugal. Disse José Sócrates, às televisões do seu país, por ocasião da abertura do ano lectivo, no passado dia 12 do corrente mês, que um país onde não se fale inglês não pode ser competitivo. Convenhamos que é uma posição lúcida. E que pode representar uma viragem na forma de Portugal se relacionar com o mundo. Ora, recuando algumas décadas no tempo, pode colocar-se a dúvida se o medo e os medos então manifestados, de Moçambique poder vir a substituir a língua portuguesa pela inglesa eram receios sinceros. Ou se, pelo contrário, não passaram de casos isolados de xenofobia ou de mal disfarçadas manobras neocoloniais. Seja o que tenha sido, parece ter ficado desfeito o mito da língua. Da língua portuguesa. E, a partir deste momento, podemos dizer também em inglês nos entendemos.
antes e depois
Luís David
também em inglês nos entendemos
Está Moçambique situado numa região em que os países fronteiriços foram colonizados por ingleses. Logo, situado, enquadrado, num espaço geográfico em que é dominante a língua inglesa. Ora, tendo sido Portugal metropolitano, durante décadas, pouco mais do que uma colónia económica britânica, Moçambique viria, por este e por outros motivos, a cair, também na órbita do domínio inglês. De tal forma que, principalmente no sul, tinha curso legal a libra inglesa. Da mesma forma que, durante largo período de tempo existiram jornais bilingues. Foram editados jornais em língua portuguesa e em língua inglesa. Não consta nos registos históricos que a administração colonial, local ou metropolitana, alguma vez se tenha oposto à situação. Ou que tenha ensaiado alguma medida para a alterar. Porém, decorridos anos, mais precisamente algumas décadas, aconteceu, era já Moçambique país. E, o que aconteceu foi começar a escutar-se uma alarmada vozearia, desalegrada e insatisfeita, manifestamente, pelo facto de Moçambique estar a preparar-se para eleger, para optar, pela língua inglesa, preterindo a portuguesa. Isto ocorreu por ocasião e na sequência da adesão de Moçambique à Comunidade Britânica. Era, foi, como se viu e como se comprovou, um alarme falso. Foi, como o tempo nos demonstrou, um rebate e um debate falso. Em que as vozes alarmadas e alarmistas de lá encontraram eco e calmosa tranquilidade em vozes aconselhadas mais sensatas do lado de cá. Pareceu assim, definitivamente, o assunto definitivamente encerrado. Para bem de todas as almas e dos justos pensadores de ambas as cotas oceânicas.
Temos de reconhecer, por ser esta a realidade, que foi a independência das antigas colónias portuguesas o factor determinante para que a língua portuguesa tivesse sido adoptada por várias organizações internacionais. De que todos esses países são, hoje, membros de pleno direito. Ora, tal facto, o facto de a língua portuguesa ser, hoje, cada vez mais utilizada em organismos internacionais, em nada fez diminuir a influência da língua inglesa. Digamos, mesmo e sem receio, que a língua inglesa é, hoje, se não a única, pelo menos a primeira língua de comunicação universal. Quer estejamos a tratar de comércio ou de economia, de artes ou de literatura, de ciência ou de tecnologia. De tal forma que, são muitos os termos os termos que, até hoje, não tiveram tradução noutras línguas. Que são utilizados e entendidos, por todos, no original, no inglês. Ignoro, por completo, se foi por estes ou por outros diferentes motivos o recente posicionamento do primeiro-ministro de Portugal. Disse José Sócrates, às televisões do seu país, por ocasião da abertura do ano lectivo, no passado dia 12 do corrente mês, que um país onde não se fale inglês não pode ser competitivo. Convenhamos que é uma posição lúcida. E que pode representar uma viragem na forma de Portugal se relacionar com o mundo. Ora, recuando algumas décadas no tempo, pode colocar-se a dúvida se o medo e os medos então manifestados, de Moçambique poder vir a substituir a língua portuguesa pela inglesa eram receios sinceros. Ou se, pelo contrário, não passaram de casos isolados de xenofobia ou de mal disfarçadas manobras neocoloniais. Seja o que tenha sido, parece ter ficado desfeito o mito da língua. Da língua portuguesa. E, a partir deste momento, podemos dizer também em inglês nos entendemos.
sábado, setembro 17, 2005
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Setembro 11, 2005
antes e depois
Luís David
aproveitar a oportunidade
Vivemos numa época, numa era, em que a economia e a civilização assentam num recurso natural. Chamado petróleo. Um recurso chamado petróleo que sendo, em princípio e teoricamente, inesgotável, não é renovável. Um recurso cujas reservas mundiais são apenas conhecidas por bem poucos. Mas, também, um recurso cujo aumento do preço de venda no mercado internacional, bem pode fazer derivar a sua exploração para zonas alternativas das tradicionais. Tradicionalmente fornecedoras do produto a baixo custo. Hoje, como desde há décadas, o controlo das zonas de produção de petróleo, das suas rotas e reservas, constituem factores de guerras. Quer acreditemos ou não. Acrescentemos, para melhor nos situarmos, que no início de 2004, os dois países com maiores reservas petrolíferas do mundo – o Iraque e a Arábia Saudita – viram-se atormentados pela violência islâmica. Quem assim escreve é Michael Scheuer, em “Orgulho Imperial: Porque está o Ocidente a perder a guerra contra o terrorismo”. Um livro cuja primeira edição foi publicado sob o pseudónimo de “Anónimo”. Por o autor estar ainda a trabalhar para a CIA. Um livro, sem sombra de dúvida, extremamente crítico sobre a forma como os Estados Unidos e o Ocidente estão a fazer a guerra contra o terrorismo. Em última análise, um livro polémico.
É bem verdade que petróleo, para muitos de nós, significa pouco mais do que o combustível que faz andar a nossa viatura. E que, quando sobe de preço, faz aumentar o preço de tudo – ou de quase tudo – o que consumimos, em espiral. Mas, para além do custo financeiro, o petróleo tem um custo político. Se considerarmos que tem vindo a ser fixado politicamente, e não segundo as regras do mercado. Para este factor nos chama a atenção o autor do livro quando, logo no prefácio, escreve: O petróleo do Golfo Pérsico e a falta de um desenvolvimento sério de energias alternativas por parte dos Estados Unidos são o âmago da questão bin Laden. A troco de petróleo barato e facilmente acessível, Washington e o Ocidente têm sustentado as tiranias muçulmanas que bin Laden e outros islamistas tentam destruir. Não pode haver outra razão para apoiar a Arábia Saudita, um regime que desde a sua fundação tem alimentado deliberadamente uma ideologia islâmica cujos objectivos – ao contrário dos de bin Laden – apenas poderão ser atingidos pela aniquilação de todos os não muçulmanos. Esta guerra poderá prolongar-se para além das vidas dos nossos filhos, e vir a ser principalmente travada em solo americano. Parece necessário esclarecer que o livro foi escrito depois dos ataques de 11 de Setembro de 2201. E que procura ser um alerta para a possibilidade de futuras acções semelhantes. Como já foram registadas. Significativa, no contexto do preço actual do barril de petróleo e dos acontecimentos
antes e depois
Luís David
aproveitar a oportunidade
Vivemos numa época, numa era, em que a economia e a civilização assentam num recurso natural. Chamado petróleo. Um recurso chamado petróleo que sendo, em princípio e teoricamente, inesgotável, não é renovável. Um recurso cujas reservas mundiais são apenas conhecidas por bem poucos. Mas, também, um recurso cujo aumento do preço de venda no mercado internacional, bem pode fazer derivar a sua exploração para zonas alternativas das tradicionais. Tradicionalmente fornecedoras do produto a baixo custo. Hoje, como desde há décadas, o controlo das zonas de produção de petróleo, das suas rotas e reservas, constituem factores de guerras. Quer acreditemos ou não. Acrescentemos, para melhor nos situarmos, que no início de 2004, os dois países com maiores reservas petrolíferas do mundo – o Iraque e a Arábia Saudita – viram-se atormentados pela violência islâmica. Quem assim escreve é Michael Scheuer, em “Orgulho Imperial: Porque está o Ocidente a perder a guerra contra o terrorismo”. Um livro cuja primeira edição foi publicado sob o pseudónimo de “Anónimo”. Por o autor estar ainda a trabalhar para a CIA. Um livro, sem sombra de dúvida, extremamente crítico sobre a forma como os Estados Unidos e o Ocidente estão a fazer a guerra contra o terrorismo. Em última análise, um livro polémico.
É bem verdade que petróleo, para muitos de nós, significa pouco mais do que o combustível que faz andar a nossa viatura. E que, quando sobe de preço, faz aumentar o preço de tudo – ou de quase tudo – o que consumimos, em espiral. Mas, para além do custo financeiro, o petróleo tem um custo político. Se considerarmos que tem vindo a ser fixado politicamente, e não segundo as regras do mercado. Para este factor nos chama a atenção o autor do livro quando, logo no prefácio, escreve: O petróleo do Golfo Pérsico e a falta de um desenvolvimento sério de energias alternativas por parte dos Estados Unidos são o âmago da questão bin Laden. A troco de petróleo barato e facilmente acessível, Washington e o Ocidente têm sustentado as tiranias muçulmanas que bin Laden e outros islamistas tentam destruir. Não pode haver outra razão para apoiar a Arábia Saudita, um regime que desde a sua fundação tem alimentado deliberadamente uma ideologia islâmica cujos objectivos – ao contrário dos de bin Laden – apenas poderão ser atingidos pela aniquilação de todos os não muçulmanos. Esta guerra poderá prolongar-se para além das vidas dos nossos filhos, e vir a ser principalmente travada em solo americano. Parece necessário esclarecer que o livro foi escrito depois dos ataques de 11 de Setembro de 2201. E que procura ser um alerta para a possibilidade de futuras acções semelhantes. Como já foram registadas. Significativa, no contexto do preço actual do barril de petróleo e dos acontecimentos
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Setembro 4, 2005
Luís David
a lei é igual para todos
É gratificador. É, sem dúvida, gratificador saber que casos de ilegalidades, denunciados publicamente, aqui denunciados, mereceram a devida atenção. Por parte de quem tem poder para investigar. E que foram devidamente corrigidas. O que nem sempre acontece. Referimo-nos, no caso concreto, aos negócios de venda de terrenos por parte de uma imobiliária. É que, perante a denúncia da negociata, perante tamanho escândalo público, entendeu o Conselho Municipal de Maputo revogar todas as concessões de terrenos dentro do território municipal cujos concessionários estão a aliená-los através da imobiliária em questão. Assim como decidiu anular todas as licenças de construção já emitidas para os terrenos vendidos pela mesma imobiliária Algarve. Mas, vai mais longe. Sugere ao Ministério da Indústria e Comércio que cancele o alvará da Algarve, por prática de negócio anticonstitucional e por violação da Lei de Terras e seu Regulamento. Sem nos alongarmos demasiado sobre o assunto, seria, de todo, interessante podermos saber quem são os proprietários dessa tal Algarve. E se cometeram ou não crime passível de prisão. Trata-se de simples curiosidade.
Muito provavelmente, esta questão de venda de terrenos por uma dita imobiliária pode não ser caso único. O problema pode, muito bem, ser mais vasto e mais complexo. E, questão de fundo, parece importante saber se há espaço de negócio para o número crescente de empresas que operam nesta área. Que anunciam os seus serviços publicamente, que operam num espaço de negócio legal, bem entendido. Porque, para além destas, que se dão a conhecer através de anúncios na Imprensa, podem existir outras. São aquelas para as quais o escritório é o café. Qualquer café. E que operam através do telefone móvel. Seu único gasto para conseguir comissões. Sem muito trabalho. O que pode levar a ter de questionar se o Estado tem conhecimento deste negócio informal. Que aproveita, fundamentalmente, a estrangeiros. Mais, se o fisco lhes cobra alguns impostos. De facto, uma coisa é ser Moçambique um país aberto ao investimento estrangeiro. Outra, bem diversa e bem diferente, é dar acolhimento a quem nada investe e só fomenta negociatas e negócios ilegais. Cumprir a legislação em vigor no país não pode ser só obrigação para os moçambicanos. Tem de ser para moçambicanos e para estrangeiros. E, felizmente, começam a surgir alguns sinais, positivos, de que a lei é igual para todos.
Luís David
a lei é igual para todos
É gratificador. É, sem dúvida, gratificador saber que casos de ilegalidades, denunciados publicamente, aqui denunciados, mereceram a devida atenção. Por parte de quem tem poder para investigar. E que foram devidamente corrigidas. O que nem sempre acontece. Referimo-nos, no caso concreto, aos negócios de venda de terrenos por parte de uma imobiliária. É que, perante a denúncia da negociata, perante tamanho escândalo público, entendeu o Conselho Municipal de Maputo revogar todas as concessões de terrenos dentro do território municipal cujos concessionários estão a aliená-los através da imobiliária em questão. Assim como decidiu anular todas as licenças de construção já emitidas para os terrenos vendidos pela mesma imobiliária Algarve. Mas, vai mais longe. Sugere ao Ministério da Indústria e Comércio que cancele o alvará da Algarve, por prática de negócio anticonstitucional e por violação da Lei de Terras e seu Regulamento. Sem nos alongarmos demasiado sobre o assunto, seria, de todo, interessante podermos saber quem são os proprietários dessa tal Algarve. E se cometeram ou não crime passível de prisão. Trata-se de simples curiosidade.
Muito provavelmente, esta questão de venda de terrenos por uma dita imobiliária pode não ser caso único. O problema pode, muito bem, ser mais vasto e mais complexo. E, questão de fundo, parece importante saber se há espaço de negócio para o número crescente de empresas que operam nesta área. Que anunciam os seus serviços publicamente, que operam num espaço de negócio legal, bem entendido. Porque, para além destas, que se dão a conhecer através de anúncios na Imprensa, podem existir outras. São aquelas para as quais o escritório é o café. Qualquer café. E que operam através do telefone móvel. Seu único gasto para conseguir comissões. Sem muito trabalho. O que pode levar a ter de questionar se o Estado tem conhecimento deste negócio informal. Que aproveita, fundamentalmente, a estrangeiros. Mais, se o fisco lhes cobra alguns impostos. De facto, uma coisa é ser Moçambique um país aberto ao investimento estrangeiro. Outra, bem diversa e bem diferente, é dar acolhimento a quem nada investe e só fomenta negociatas e negócios ilegais. Cumprir a legislação em vigor no país não pode ser só obrigação para os moçambicanos. Tem de ser para moçambicanos e para estrangeiros. E, felizmente, começam a surgir alguns sinais, positivos, de que a lei é igual para todos.
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