sábado, fevereiro 18, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Fevereiro 12, 2005

antes e depois

Luís David


Outra Vez?

Começa a ser frequente encontrar, em alguns jornais nacionais, títulos e artigos que, por vezes, chocam. Títulos que podem ter nada a ver com o conteúdo da notícia. Notícias e comentários que mais parecem insultos primários. Ofensivos e atentatórios à dignidade dos visados. Como seres humanos, como cidadãos. Digamos que a ética e a deontologia nem sempre são observadas. Que deixaram, ou tendem a deixar, de ser património do presente, que pertencem ao passado. Com a agravante de que, agora, até permitimos que qualquer estrangeiro nos insulte a partir da sua terra. Que um burocrata da ASDI em Estocolmo, como o próprio se classifica, nos brinde com uma página de generalidades e de banalidades, escrita no bom, e ao que parece ainda não desaparecido, estilo eurocentrista. Muito embora, temos de lhe reconhecer essa virtude, a determinado passo tenha a franqueza de afirmar: Acho incontestável que a comunidade doadora também teve um papel no desenvolvimento da corrupção em Moçambique. Infelizmente não há muita vontade da parte dos doadores em discutir essa cumplicidade. Ora, como autor também nos diz, um dos doadores de Moçambique é a Suécia, através da ASDI. Afinal, tudo claro como água.

O artigo em questão vem publicado na última edição do jornal “ Savana”. Ao longo de uma página, o autor defende a sua “dama” e a sua concepção de cooperação. Como ele gostaria que fosse feita a cooperação com Moçambique. E, como já vimos, aproveita o espaço para enviar alguns recados para o interior do seu país. Talvez para o seu Governo. Talvez por este não se ter apercebido que Está bem patente que isso (a origem dos fundos) é um aspecto que muito manda-chuvas moçambicanos que roubam dinheiro da ajuda não estão cientes. O dinheiro da ajuda não cai do céu. Vem das carteiras dos trabalhadores e funcionários bem intencionados (...). Ora, até aqui estamos todos de acordo. Como de acordo estamos quando afirma que Não há dúvida nenhuma que a corrupção é um problema muito sério em Moçambique. Mas, já não estamos de acordo quando afirma que Muitos suecos que trabalharam em Moçambique nos anos 80 desconfiam do presidente Guebuza. È que, muitos parece demasiado vago. Muitos, tanto pode significar 10, 50, 500 como mil ou 10 mil. Aqui, de todo em todo, seria necessário quantificar. Na mesma linha populista e demagógica, o autor ainda nos brinda com este brilhante naco de prosa: Alguns compatriotas fazem um comentário sobre Guebuza e a corrupção: “Ele é o mais corrupto de todos. Como é que ele pode lutar contra a corrupção?”. A conclusão seria brilhante, não fosse o vago alguns. Forma primária mas ultrapassada de tentar fazer agitação. Ou pior do que isso, ausência de ética e falta de imaginação para alinhar meia dúzia de linhas coerentes. Com dados e factos. Que, quase de certeza, até existem. Só assim faria sentido, só assim teria justificação o título Outra Vez?.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 5 de Fevereiro, 2006


antes e depois

Luís David


discussão fútil e inútil

Acabámos de comemorar o 3 de Fevereiro. Dia dos Heróis. Dia dos Heróis Moçambicanos. Diz-nos a História, nossa e dos povos, que a definição de herói aparece sempre ligada ao passado. Que herói só é herói quando está, porque está morto. O nosso conceito de herói é ,na sua essência, um conceito vitimista. Fatalista. E, a razão, o motivo de assim ser, parece simples de explicar. É que temos, todos nós, um medo terrível, um medo fóbico, de apontar como herói um vivo. Pela razão primária e primeira de que ao elegermos um vivo como herói ele nos venha dizer, ele nos possa vir dizer que não é um modelo de virtudes, que não reúne as virtude que, nós outros, pensamos ser necessárias reunir para se ser classificado como herói. Ora, é este medo, esta cobardia nossa, pessoal e colectiva, que nos leva, nos motiva e nos obriga a só eleger como heróis pessoas mortas. De facto, os mortos não podem defender-se. Não podem vir dizer-nos que não foram, exactamente, aquilo que nós pensamos que foram. Mas, sim, que foram homens com defeitos e com virtudes. Naturalmente, muitas. E que, tendo vivido num determinado tempo, histórico, souberam tirar proveito de circunstâncias particulares, ocasionais ou de momento, para se distinguirem, para serem diferentes dos seus pares. De outros seus semelhantes ou seus iguais.


Aqui, como em qualquer outro país do mundo, não é mais difícil nem mais fácil definir quem deva ser considerado herói nacional. É igual. O que temos de perceber é, entre nós, que uma comissão ou um Ministro da Educação e Cultura, por mais educado e culto que possa ser, não tem legitimidade para apresentar proposta nenhuma sobre o conceito de Herói Moçambicano. O conceito de herói é, convenhamos, um conceito mítico. Os povos, todos os povos, necessitam de criar e de alimentar os seus mitos. E, depois de criarem os seus mitos, necessitam de os ritualizar. É o rito que alimenta e perpetua o mito. E, em sociedades como a nossa, em sociedades como a moçambicana, de forte pendor rural, o mito funciona como elemento de equilíbrio e de estabilização entre as sociedades dos vivos e dos mortos. Entre o viver dos vivos e o estar dos mortos. Herói não pode, pois, ser definido por decreto. Herói é, pura e simplesmente, exemplo. E, mesmo que forçosamente, tem de ser símbolo de unidade. A Nação que queremos e desejamos ser, não se revê nem se reencontra neste tipo de discussões de comissários. A democracia, em si própria, pode não ser um dado adquirido ou irreversível. Mas, temos, hoje, um grupo de anciãos, um grupo de conselheiros, agrupados no Conselho de Estado, que pode, com toda a legitimidade, dizer-nos, caso a caso, quem deve ser considerado Herói Nacional. O resto, tudo o resto, pode não passar de simples manobra de distracção. Ou de discussão fútil e inútil.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Janeiro 29, 2006

antes e depois

Luís David


não alimentemos ilusões a nós próprios


O fenómeno acidentes de viação e mortes na estrada, é universal. As causas é que podem ser várias e diferentes. Variarem de país para país. Mas, no geral, são factores a ter em conta o estado mecânico das viaturas, o estado das estradas, a perícia dos condutores e a falta de respeito pelas regras de trânsito. Mas, podem juntar-se a condição sob o efeito de drogas e de bebidas alcoólicas, o excesso de velocidade e muitas outras. Ora, não é Moçambique excepção a esta realidade. Como todos sabemos, todos os anos centenas de pessoas perdem a vida em acidentes de viação. Uma situação que urge alterar. Uma situação que só pode ser alterada com a união de esforços de todas as entidades ligadas ao controlo da circulação automóvel. Mas, talvez, não só. E que passa, inevitavelmente, e talvez em primeiro lugar, por campanhas de sensibilização dos automobilistas. Pela sua educação, como automobilistas e, em primeiro lugar, como cidadãos. Que passa pela tomada de consciência, por parte de cada um, sobre o que, obrigatoriamente, deve respeitar. E que deve começar por campanha de educação dos automobilistas. Para, depois, castigar quantos ponham em perigo a vida de terceiros.



Perante a gravidade da situação, o Governo decidiu chamar a si o enfrentar do problema. Só que sendo o problema um problema complexo, a solução não poderá deixar de ser complexa. Pode até acontecer que, sendo o problema complexo, como o é, a sua análise por um único ângulo, por um único prisma, impeça que a solução venha a ser eficaz. Digamos, mesmo, em última análise, errada. Ou que poderemos a estar a administrar analgésicos para curar uma doença que exige tratamento de choque. Ora, hoje, a grande discussão, o cerne da questão dos acidentes de viação provocados por condutores embriagados, parece ter sido desviado para as bombas de combustível que foram autorizadas a vender bebidas alcoólicas. Naturalmente, admitamos que sim, não custa conceder o benefício da dúvida, podem ser parte do problema. Mas não são o problema. O problema está, em primeiro lugar, em quem bebe e conduz. Depois, em quem faz muito pouco para que quem bebe não seja impedido de conduzir. Se há abusos nas bombas, que se punem esses abusos. Mas, sejamos muito claros. No dia em que se deixar de vender bebidas alcoólicas nas bombas de combustível, surgirá outra forma de a oferta satisfazer a procura. Por ali perto, a poucas dezenas de metros. Seja dia, seja noite. O negócio não irá acabar. Vai, isso sim, apenas mudar de mãos, mudar de dono. E, se não for muito imaginativo assim pensar, qualquer bombeiro prestável não irá recusar servir de intermediário na compra de bebidas para um cliente de combustível. Até poderá montar negócio próprio e criar suplemento salarial com um simples colmam. Aconteça ou não aconteça assim, o que não podemos é pensar, criar a ilusão, que o problema das mortes na estrada será resolvido ou atenuado com esta interdição. Porque não está. Então, não alimentemos ilusões a nós próprios.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Janeiro 22, 2006

antes e depois

Luís David


Nada mais que a intenção


A ideia é boa. Pode não ser nova, não ser inédita. Mas, é boa. Também não interessa, neste caso concreto, saber donde partir a iniciativa. Diga-se, apenas, que o projecto “Jovem no Distrito” é uma iniciativa louvável. Que os objectivos que se propõe atingir são meritórios. Daí, certamente, o facto de ter motivado o interesse e a adesão de duas centenas e meia de estudantes universitários. De estudantes universitários que pretendem passar cerca de trinta dias das sua férias escolares em diferentes distritos do norte do país. Afinal, uma forma de ensinar e de contribuir para reduzir carências de conhecimentos onde elas são mais gritantes. Mas, também, de aprender, de tomar contacto com o país real. De conhecer o outro e o diferente. De aprender a vencer dificuldades. Lá, onde existem e muitas serão. Para tanto, para saberem ao que iam, para lhes dar a conhecer as realidades e as dificuldades do distrito, foi organizado um seminário. Que encerrou com discurso, elogioso, do titular da pasta da Educação. Assim como que em jeito de benção pela atitude, pelo gesto. De terem sabido assumir responsabilidade como jovens. Mas, também, por quererem compartilhar a sua responsabilidade na melhoria das condições de vida dos cidadãos.



Naturalmente, a nossa realidade não é feita apenas de boas notícias. Também é feita de más notícias. E, a má notícia surgiu logo no dia imediato (Notícias, 19.01.2006, pag. 6). Tinha como título: Garantida ida de apenas 12 dos 80 jovens previstos, para os distritos. O motivo, como é possível de adivinhar, reside na falta de fundos para a compra de passagens. Ora, ao que parece, dos 250 voluntários, dos 250 jovens que se ofereceram, que acreditaram no projecto “Jovem no Distrito”, estava previsto fazer deslocar apenas 80. Sendo assim ou não, terão sido 250 os estudantes que participaram no seminário de capacitação. E, terão sido 250 os estudantes para quem o Ministro da Educação e Cultura falou. A quem elogiou. Não se compreende, custa a entender como é possível mobilizar e criar expectativas a tão elevado número de universitários sem estarem criadas as necessárias condições para a sua deslocação. Como não de compreende, custa a entender como é possível levar um Ministro a falar para jovens que acreditaram no projecto “Jovens no Distrito”. Um projecto que, afinal, não existe. Um projecto que nunca terá existido. Ou, acaso tenha existido, não era, como nos tempos correntes se diz, um projecto sustentável. O mais provável é que tenha existido projecto nenhum. Ou que possa ter sido, apenas, uma forma matreira e ardilosa para tentar dizer ao chefe que estamos a trabalhar. Não. Não é por este caminho que vamos chegar a parte alguma. A ideia é boa, mas ficou pela intenção. Nada mais que a intenção.

domingo, janeiro 15, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Janeiro 15, 2005


antes e depois

Luís David

em nome da transparência governativa

Durante muitos anos, Moçambique andou a duas velocidades. Foi um país dividido em dois. Em que era possível detectar o país real e o país ideal. Depois, as diferenças, as diferenças de velocidade foram sendo atenuadas, aproximaram-se uma da outra. Dito de outra maneira, o conteúdo do discurso político passou a aproximar-se da realidade, do país que somos. Mesmo assim, não deixámos de ser, somos e continuamos a ser um país a duas velocidades. Melhor pensando, melhor dizendo, quando parecia que caminhávamos para o país a uma única velocidade, algo parece ter falhado. Agora, já não somos um país a duas velocidades. Somos, passámos a ser, um país a três velocidades. Só que a terceira velocidade não é mais veloz nem mais lenta que as duas anteriores. É, pura e simplesmente, a marcha atrás. É tempo para dizer dever aceitar-se que a Reforma do Sector Público está a ser feita com a melhor das intenções. Que é necessária. Mas, devemos aceitar, também, que não se faz reforma nenhuma pelo facto de termos hoje mais computadores do que tínhamos ontem. De termos mais computadores ligados em rede. Porque não são os computadores em si que mudam coisa alguma. Não criemos essa ilusão, não alimentemos essa ilusão, não transmitamos essa ilusão. Porque, na realidade, o que está a acontecer é que a introdução de computadores, de muitos computadores em diversos serviços da Administração Pública, está a aumentar o fosso do conhecimento entre o cidadão e o funcionário. O funcionário sabe hoje muito mais do que sabia ontem. O cidadão sabe o mesmo. Por, isso, por esta razão, o cidadão é hoje presa mais fácil do funcionário desonesto. Digamos, em última análise, que aumentou assustadoramente o campo de actuação do funcionário corrupto. E, para concluir, só não percebe o que está a acontecer quem não quer perceber.


O Ministro da Educação e Cultura teve, esta semana, uma postura a todos os títulos louvável. Decidiu visitar algumas escolas de Maputo para se inteirar da forma como estão a decorrer as matrículas. E, encontrou situações anómalas, detectou procedimentos errados. Como qualquer um de nós haveria de ter encontrado, tivesse feito o mesmo exercício. Afinal primário. A questão de fundo, a questão que se torna necessário colocar, parece simples. Pode, até, parecer ridícula. Afinal, se não é necessário recorrer a Cartórios Notariais para reconhecer assinaturas ou autenticar documentos, o que leva tantas pessoas a adoptarem este processo como único. Pode não ser, como parece ser convicção do Ministro, simples falta de informação. Falta de informação de que podem fazer, de que podem legalizar toda a documentação para as matrículas na própria escola. É que, esta falta de informação, este défice de informação, não é, até prova em contrário, entre cidadão e Estado. É, isso sim, entre Ministérios. Então, por uma hora que seja, sentem-se do mesmo lado da mesa Ministérios da Educação e da Justiça e emitam um comunicado. Informem, por favor, quais os procedimentos a seguir no processo de matrículas escolares. Digam, e digam-nos, quais as orientações, de cumprimento obrigatório, que vão transmitir às escolas e aos Serviços de Notariado. Divulguem, publicamente, as vossas decisões. Conjuntas. E, mandem afixá-las onde entenderem por bem. E, se não for pedir muito, tenham a coragem de dizer que o fazem em nome do povo. Ou, em alternativa, digam que o fazem em nome da transparência governativa.

sábado, janeiro 14, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Janeiro 8, 2006


antes e depois

Luís David


A ilusão de ter poder

O ano de 2006 aí está. Para quem a ele conseguiu chegar. Evidentemente. Depois de uma festa mais ou menos barulhenta. Fenómeno, ao que parece, universal. Mas, o assinalar da chegada de um novo ano, a entrada num novo ano, não mais do que o fechar de um ciclo. E o abrir de outro. E, como convém, é uma festa rodeada de algum misticismo. Encerra, em si própria, o mito do tempo. Porque, coisa diferente é a contagem do tempo, a divisão do tempo. Que começa por ser matéria de consenso e de convenção. Ora, esta passagem de um ano para outro, este avançar no tempo, criou o mito da pausa, do interregno. Do tempo sem tempo. Do tempo para fazer balanço. Acontece, porém, que não existe presente. Existe, isso sim, passado e futuro. E, o que explica a nossa existência é, sempre, o antes e o depois. Mesmo sabendo que assim é, mesmo sabendo que o tempo não pára, gostamos de dividir em bom e mau o que se passou antes. E, a partir daí, numa perspectiva pessoal ou colegial, classificar acontecimentos e homens em bons e maus. Mesmo sabendo que bom e mau, que bem e mal não existem. Pelo menos, não existem em absoluto. Mesmo sabendo que o que é mau para mim, pode ser bom para outro.


A grande incógnita, a incógnita que colocamos sempre, a nós próprios e aos outros, é a de saber o que nos reserva o ano que começa. Sem podermos prever, menos ainda adivinhar, expressamos desejos. Fazemos votos. Especulamos. Alimentamos, de novo, o mito. Começamos por desejar que tudo o que possa acontecer de bom nos aconteça a nós. E que tudo o que possa acontecer de mau aconteça longe de nós, aconteça a outros. Nem nos damos conta como é grande, afinal, a maldade humana. Digamos mesmo, a crueldade humana. Nem nos damos conta, afinal, que pensando e desejando desta forma estamos a fomentar uma divisão e uma separação artificial entre bom e mau, entre bem e mal. Que podemos estar a fomentar guerras entre países, entre nações, entre regiões, entre vizinhos. Mas é, ao que parece, esta a forma, encontrada por alguns, por uns tantos, para defenderem o conceito de inferioridade e de superioridade. Digamos, o mito da inferioridade e da superioridade. Desta forma, por esta forma, cria-se, também, a ilusão de poder comandar a história. E o mundo. E de o mundo poder continuar, indefinidamente, por todo o tempo, dividido entre senhores e escravos. Sendo os senhores eternamente os mesmo. Sendo os escravos eternamente os mesmo. Ao que parece, algo de diferente já está a acontecer. O que pode significar que o poder está a deslocar-se, que o poder absoluto não resiste ao tempo, que não passa de um mito. Mais, que o poder absoluto é, apenas, uma ilusão. A ilusão de ter poder.

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Dezembro 25, 2005

antes e depois

Luís David


aguardar para ver


O segundo julgamento de “Anibalzinho”, está prestes a chegar ao fim. Falta, apenas a leitura da sentença. Para uns, nada de novo surgiu a público. Para outros, terá surgido pouco. Mas, também é possível fazer leitura diferente de quanto se passou em Tribunal. Para dizer que este julgamento valeu, não pelo que foi dito, ou revelado, mas pelo que não foi, pelo que continua por dizer. E que, para ser dito, para que se tornasse possível ser dito, necessitava de outra investigação, de um tipo de investigação mais aprofundada. A tentar por começar saber e poder afirmar o real motivo do assassinato de Carlos Cardoso. Saber se Carlos Cardoso foi assassinado pelo motivo que se diz ter sido, pelo motivo que alguns acreditam ter sido. Ou, em alternativa, se terá sido por outro. Se, eventualmente, sabia mais do que lhe deram a saber. Se sabia mais do que era desejável saber. Se terá efectuado, realmente, investigação por conta própria. E se, como hipótese de trabalho, como pista que a investigação deveria seguir, essa investigação pessoal conduziu a nomes até hoje citados em Tribunal. Uma coisa parece ser certa. O combate à corrupção, o combate ao crime organizado não é mera questão de discurso político. Não pode resignar-se com tão pouco. Muito pelo contrário, esse anunciado combate perde força, perde expressão, fica sem sentido, quando não são perseguidas todas as pistas que possam levar aos criminosos. Apresenta-se como óbvio que “Anibalzinho” pode, hoje, dizer o que quer. Pode continuar a mentir. Como pode dizer a verdade. Pode dizer, com verdade, quem mandou dar os tiros. Como pode não saber quem, na realidade, mandou executar Carlos Cardoso.

Ao longo de mais de seiscentas páginas, Anne Applebaum transporta-nos para o interior de alguns dos milhares de campos de concentração soviéticos. Por onde passaram milhões de pessoas. GULAG, não é um romance. Menos, ainda, uma história de ficção. “Prémio Pulitzer 2004”, GULAG transporta-nos para um passado recente. Contemporâneo. Mas, mais do que isso, mais do que nos fazer viajar, ao longo do tempo e do espaço, mais do que nos fazer entender uma realidade, também nos deixa alguns avisos. Também nos alerta. Diz ela que A velha divisão estalinista entre categorias de homens, entre a elite toda-poderosa e os “inimigos” sem valor vive hoje no arrogante desprezo da elite russa pelos seus concidadãos. E a menos que essa elite reconheça rapidamente o valor e a importância de todos os cidadãos russos, e se disponha a honrar os seus direitos civis e humanos, a Rússia estará destinada a tornar-se em última instância numa espécie de Zaire do Norte, uma terra habitada por camponeses pobres e políticos bilionários com contas nos bancos suíços e jactos privados, com as turbinas a funcionar, nas pistas de descolagem. Impressionante, talvez mais do que isso, talvez motivo de preocupação, é quando a autora nos alerta, para que Este livro não foi escrito “para que nunca mais volte a acontecer”, como diz o cliché. Este livro foi escrito porque provavelmente vai voltar a acontecer. Como, em Moçambique, muito provavelmente, vão voltar a acontecer assassinatos como o praticado por “Anibalzinho”. Esperemos que não. Mas, é necessário aguardar para ver.

domingo, dezembro 18, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Dezembro 18, 2005

antes e depois

Luís David



que haja coragem para assumir o passado


Desde há muitos anos que antigos trabalhadores na extinta RDA reclamam e defendem o que consideram ser seus direitos. . Como trabalhadores moçambicanos naquele país. Desde sempre, também, a posição do Governo, perante as reclamações, parece ter sido pouco clara. Digamos, demasiado defensiva e pouco propensa ao diálogo construtivo. Daí, as marchas, semanais, toleradas, por muitas artérias de Maputo. A ocupação da embaixada alemã em Maputo. E, o mais que fica por dizer. Neste processo, o Governo cedeu aqui, foi cedendo ali. Primeiro, disse que não devia nada. Depois, aceitou ser devedor de alguma quantia. Esta semana, aceitou pagar 50 milhões de dólares norte-americanos e ceder 17 por cento das suas acções num banco de micro - finanças. Mas, o acordo, ao que parece, não é, ainda, de todo pacífico. Não há, não haverá, concordância quanto à forma e ao tempo de pagamento. O que, em última análise, se apresenta, apenas como um aspecto periférico da questão de fundo. E, a questão de fundo é, na sua essência, política. Não é, alguma vez poderá ser, uma questão financeira.


Necessitamos de recuar no tempo. Só recuando no tempo seremos capazes de entender os motivos, a razão que levou muitos milhares de moçambicanos a irem trabalhar para a então Alemanha Democrática. Para eles, para esses moçambicanos, terá sido, única e exclusivamente, uma oportunidade de trabalho. Uma possibilidade de fuga ao desemprego em Moçambique. Ignorando, por completo, os acordos que possam ter sido assinados entre os Governos dos dois países. Acordos políticos. E, aqui, parece não ser possível esquecer que, algumas décadas antes, também muitos milhares de trabalhadores alemães e polacos, entre de outras nacionalidades, foram levados para a então URSS para trabalharem no GULAG. Para, com o seu trabalho forçado, pagarem as dívidas de guerra dos seus países. Aconteceu assim, como está, hoje, amplamente documentado. É história. Como a história regista que o GULAG só desapareceu, por completo, na era de Gorbatchove, apesar das tentativas de reforma de Beria, chefe da polícia secreta soviética, décadas antes. Com a finalidade de subir ao poder. Como forma de suceder a Estaline. Felizmente, tal não se verificou. Tudo isto, para dizer, por fim, que aquilo que, em Moçambique, parece ser um simples conflito de trabalho, aquilo que parece ser uma questão de dinheiro, de acerto de dinheiro, entre Governo e antigos trabalhadores na extinta RDA, pode ter contornos mais profundos. Pode ser uma questão política. Que deve ser assumida politicamente. Para isso, para haver uma solução definitiva, é preciso haver coragem para assumir o passado. Então, que haja coragem para assumir o passado.

domingo, dezembro 11, 2005

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Dezembro 11, 2005

antes e depois

Luís David


o rabo fora da porta

Filmes policiais, histórias de detectives, séries sobre julgamentos, povoam as memórias de muitos de nós. Histórias, verdadeiras ou de ficção, em que o bem luta por vencer o mal. Histórias, na generalidade, com argumentos excepcionalmente bem concebidos. Muitas das quais, hoje, passadas décadas, permitem fazer recordar que nem sempre o que parece é. Que o que parece ser óbvio é verdadeiro. E que, casos há em que o verdadeiro criminoso pode parecer o mais insuspeito, o mais pacato cidadão. Aconteceu, assim, na ficção. Mas, também pode estar a acontecer igual na realidade. E, a realidade recente pretende mostrar que o crime – especialmente o crime organizado – não terá diminuído. Alterou, isso sim, os métodos de actuação. Modernizou-se. Sofisticou-se. Em última análise, investe, fortemente, nas novas tecnologias de comunicação e de informação. É para este presente, para este hoje, que nos tenta alertar vasta literatura, numerosos trabalhos de investigação editados em tempos recentes. Sobretudo, a partir da queda do Muro de Berlim e, mais recentemente, do desmantelamento da União Soviética. Deixou de ser segredo, sabe-se, hoje, com alguma precisão, com algum rigor, quem controla o tráfico de armas, quem domina as empresas e faz fortunas com a venda ilegal de motores de avião ou de urânio. Naturalmente, resultado do espólio do antigo Exército soviético. Não, necessariamente, apenas no interior do país. Como parece fácil saber alguns nomes de quem está ligado ao tráfico, para o Ocidente, de ouro e de moeda forte. O mesmo pode ser válido em relação aos negócios do petróleo. Contudo, apesar do que se sabe, do que se conhece hoje, a verdadeira dimensão do crime organizado é quase impossível de conhecer. Facto concreto, incontestável, é que o crime organizado, em algumas região do mundo, constitui um perigo para as democracias. Principalmente, para as mais recentes.


Terminada que está a primeira semana do julgamento de “Anibalzinho”, parece haver nenhuma novidade a registar. Ou seja, quanto terá sido dito afigura-se como irrelevante no contexto do apuramento da verdade material. Assim sendo, parece que bem andou o Juiz da Causa ao não permitir a transmissão em directo das audiências. Tenha ou não decidido de forma calculada, a decisão pode ser apontada como tendo tido duas virtudes. A primeira, foi a de ter evitado o gasto de elevadas somas de dinheiro do erário público. De que, como se provou, nenhum bem resultaria para o apuramento da verdade. A segunda, foi a de nos ter evitado o triste espectáculo de ter de ver de ouvir um assassino que procura utilizar todos os meios que lhe proporcionam para se tentar apresentar como herói. Como estando acima ou para além da Lei. Se quiserem, como sendo diferente entre iguais. Ressalve-se, esta igualdade deve ser entendida em termos de democracia e nunca de bandidismo. Porque os bandidos, os ladrões, os assassino, também têm os seus códigos. Morais. Como têm sempre presente a chamada “lei da morte”. Bem entendido, certamente que ninguém espera que de uma sala de audiência com espaço tão reduzido possam sair revelações. Nem pequenas, muito menos grandes. Depois, investigar sobre o autor material de um crime é sempre um processo demorado e complexo. Apesar de o que menos falta serem as pistas de investigação. As hipóteses de trabalho. O perigo, em última análise, é que seguir uma pista pode conduzir a um local onde não se pretende chegar. Ou onde, antecipadamente, se sabe não dever chegar. Mas, por hipótese, também pode, muito bem, acontecer, haver alguém que esteja, desde há muito tempo, a tentar lançar a confusão. Que esteja a tentar, por todos os meios, apontar pistas falsas. Neste caso, e pode ser o caso, corre o risco de ao tentar sair do imbróglio que criou deixar a porta aberta. Talvez pior, deixar o rabo entalado na porta, deixar o rabo fora
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Dezembro 4, 2005

antes e depois

Luís David

falsos argumentos

Ele há questões que, dizendo respeito à nossa vida pessoal ou da sociedade no geral, devem merecer a mais ampla discussão pública. A mais ampla divulgação. Outras, não. Ou não tanto. Divulgar quando e o quê, sempre foi, é, continuará a ser questão polémica. Entra no campo polémico de se saber, em absoluto, se se deve optar pelo sim ou, em alternativa, se se deve escolher o não. Mas, convenhamos, como o absoluto é igual a nada, a discussão pode estar, parece estar, viciada desde o início. Em última análise, cabe ao jornalista decidir, tendo presente o que se aceita por interesse público, o que dever ou não divulgar. Aceitemos, assim, que tenha sido correcta a decisão de o Tribunal permitir a transmissão, em directo, do julgamento do assassinato de Carlos Cardoso. Esta aceitação, este posicionamento, perante um facto concreto, num tempo determinado, em nada impede que aceitemos, igualmente, ter sido correcta e acertada a decisão do Tribunal em não autorizar a transmissões, em directo, salvo da primeira e da última sessão, do julgamento em que “Anibalzinho” volta a sentar-se, pelo mesmo crime, no banco dos réus. Ignorando, por completo, os factores que pesaram na decisão do Tribunal que julga, pela segunda vez, “Anibalzinho”, há um motivo que parece evidente. O de recusar a Aníbal dos Santos Júnior a oportunidade para tentar provar, perante a opinião pública, que é o que não será.


Como já se disse, existem, hoje duas correntes de opinião. Uma, que defende como correcta, como boa, a decisão do Tribunal. Ao não permitir a transmissão em directo, quer por rádios, quer por televisões, das sessões do julgamento. Ao que parece, por defender que estamos perante um caso em que compete ao Tribunal julgar. Não à opinião pública. Ou, se for o caso, que deseja que um qualquer homem, considerado mau, não possa manipular no sentido de se apresentar como, socialmente, bom. O mesmo será dizer, não ver transformado um bandido em herói. A outra corrente de opinião, corrente contrária de opinião, defende que o referido julgamento, para ser transparente, devia ter transmissões em directo. O que, até prova em contrário, parece ser um falso argumento. Como é elementar, quem julga não é o jornalista. É o Tribunal. E, mesmo não tendo sido permitida a transmissão de som e de imagens em directo, o jornalista, os jornalista, não foram impedidos de estar presentes. Assim como o público. Apesar do reduzido espaço da sala. Quer-se dizer, o julgamento é público. Sendo que por ser público nada obriga a que tenha de ter transmissões em directo. Vendo a questão pelo plano inverso, não é pelo facto de não terem sido autorizadas transmissões em directo que o julgamento deixou de ser público. Como tal facto nada tem a ver com transparência ou, se se preferir, com falta de transparência. Tudo, muito ou nada do que se diz, pode não ir além de falsos argumentos.