Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Abril 16, 2006
antes e depois
Luís David
não é caso único
Nos últimos têm sido, entre nós, sistemáticos, os apelos ao passado. A um passado recente. Desejamos, ao que parece, regressar ao passado. Viver no passado. Porque, pensam e dizem os nostálgicos, o passado foi bom. No passado tudo foi bom. O presente, esse é mau. No presente, tudo é mau. Aqui, parece implícita uma falta de capacidade de leitura da história e de interpretação da história. De contextuar a história. Mesmo quando recente. E, isto, para perceber, para entender, que o aconteceu ontem, num determinado contexto, não se pode repetir hoje, em contexto diferente. Por mais forte que seja o nosso desejo, por mais sincera que seja a nossa vontade de repetição. E, esta saudade do passado, este desejo quase mórbido de ver o passado ser presente, pode não ser mais do que a falta de capacidade para encarar o futuro. Talvez reflicta, até, um inconsciente medo do futuro.
Em “O Mundo é Plano”, bestseller nos EUA, Thomas L. Friedman, oferece-nos “Uma breve história do século XXI”. Livro interessante, por demais interessante, que nos permite entender a que velocidade alguns países caminham para produzirem riqueza. Alguns, repita-se. Assim como as reformas a que procederam, onde e quando tiveram sucesso. Assim como e onde não tiveram. Por exemplo, depois de explicar como a China ultrapassou o México como principal fornecedor dos Estados Unidos, escreve: A China não quer apenas enriquecer. Quer ser poderosa. A China não quer apenas aprender a fabricar automóveis da General Motors (GM). Quer ser a GM e retirar a GM do negócio. Quem quer que duvide disto devia passar algum tempo junto dos jovens chineses. E, logo a seguir, citando Luis Rubio, Presidente do Centro de Investigação e Desenvolvimento do México: Quanto mais autoconfiança temos, mais as nossas mitologias e complexos diminuem. Um dos aspectos mais fantásticos do México no início da década de 90 foi o facto de os mexicanos terem percebido que eram capazes de fazer as coisas. Opina o mesmo mexicano que a falta de autoconfiança leva a que um país continue virado para o passado e que a falta de confiança que existe no México significa que a mentalidade prevalecente é a que os Estados Unidos os vão reduzir a empregados de limpeza. O autor do livro, cita um humorista norte americano do século XX, Will Rogers, a dizer: “Mesmo que estejas no caminho certo, serás atropelado se ficares sentado”. E, conclui: Quanto mais plano e mundo se torna, mais rapidamente isso irá acontecer. O México conseguiu entrar no caminho certo com as reformas “por atacado”, mas, depois, devido a inúmeras razões tangíveis e intangíveis, ficou sentado e as reformas “a retalho” não aconteceram. Quanto mais tempo o México ficar sentado, mais facilmente será atropelado, e não será caso único. Concordemos que não será caso único. Admitamos que não é caso único.
sábado, abril 15, 2006
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Abril 9, 2006
antes e depois
Luís David
abrimos mais uma porta à dependência externa
Somos, sem a menor dúvida, um país cuja população está exposta às mais variadas e diferentes doenças. Mas, para além de todas as muitas doenças que todos conhecemos, das muitas doenças contra as quais nos procuramos prevenir, há outras. Outras doenças, igualmente mortais, que constituem ameaça de morte. Uma delas é a raiva, que “ameaça saúde pública no país”, segundo o “Notícias” ( edição de 5 do corrente, primeira página). O mesmo matutino informa que “No ano passado cerca de 40 pessoas morreram vítimas da doença”. E, para que não restem dúvidas sobre os perigos da dita doença, para que os já cautelosos se acautelem ainda mais, começa por escrever que “o aparecimento de animais vadios, como cães, macacos, gatos e ratos em diferentes pontos do país coloca em perigo a vida de muitos cidadãos”. Ao que parece, estaremos perante um perigo nacional. Um perigo para a saúde pública. Mais um. Outro, que querem fazer acreditar também perigo para a saúde pública, foi inventado muito recentemente e foi localizado na Praia do Bilene. Há quem queira, teimosamente, afirmar e repetir que as águas da lagoa estão contaminadas por óleo. Que constituem perigo para a saúde pública. Só que não conseguindo provar a sua tese, passaram à segunda fase da mentira. Passaram a dizer que as águas estão contaminadas pelos esgotos. Ora, e parece muito difícil provar o contrário, o fenómeno que provocou a morte de peixes e o aparecimento de algas à superfície na Lagoa do Bilene terá sido o mesmo que, na mesma ocasião, cobriu as águas da Baía de Maputo com algas. Para os mais teimosos e aos ignorantes, fica o desafio de provarem que os fortes ventos sentidos no Bilene, fez sexta-feira última um mês, não provocaram a eliminação do oxigénio nas águas da lagoa. Causa única, até prova em contrário, da morte de peixes e de algas. Depois terão igualmente de provar, como trabalho suplementar de investigação, qual o fenómeno que motivou que ramos de árvores, plantas e, sobretudo milho estavam, sábado, secos. Deixemos de ser alarmistas.
Uma outra moda nos tempos que correm, uma outra moda alarmistas, é a da gripe das aves. Há quem diga que sim, que constitui um perigo, como há quem diga que não, que constitui perigo nenhum. Ao que parece, em resumo, dizer que sim, dizer que a gripe das aves é coisa perigosa, alimenta vários tipos de negócio. Gastar dinheiro na elaboração de planos de prevenção da gripe das aves é, em definitivo, um exercício inútil. Sejamos mais claros, um exercício ridículo. E é, em definitivo e sem hipótese de desmentido, um exercício que procura desviar as atenções dos grandes problemas nacionais, dos grandes objectivos nacionais. A gripe das aves não é um problema, muito menos um perigo nacional. E, parece ser difícil tentar provar o contrário. Talvez acrescentar, fazer recordar aos que tentam fazer por esquecer, que o vírus da gripe das aves foi descoberto há nove anos no Vietname. Desde então, morreram apenas nove pessoas em todo o mundo. E, mais, não está provado que a gripe das aves se transmita aos humanos. O que há a certeza, isso sim, é que por detrás desta alarme, talvez deste falso alarme, se escondem fabulosos negócios de venda de medicamentos. Houve, já, compra e venda de marcas de medicamentos e de laboratórios. Criaram-se monopólios, por detrás dos quais estão insuspeitas figuras da política mundial. Questionemos, por fim, que interesse servem ou procuram servir esta posição alarmista nacional, esta postura alarmista indígena. Não é, certamente, por ingenuidade, que estamos a abrir mais uma porta para a dependência externa. Que abrimos mais uma porta à dependência externa.
antes e depois
Luís David
abrimos mais uma porta à dependência externa
Somos, sem a menor dúvida, um país cuja população está exposta às mais variadas e diferentes doenças. Mas, para além de todas as muitas doenças que todos conhecemos, das muitas doenças contra as quais nos procuramos prevenir, há outras. Outras doenças, igualmente mortais, que constituem ameaça de morte. Uma delas é a raiva, que “ameaça saúde pública no país”, segundo o “Notícias” ( edição de 5 do corrente, primeira página). O mesmo matutino informa que “No ano passado cerca de 40 pessoas morreram vítimas da doença”. E, para que não restem dúvidas sobre os perigos da dita doença, para que os já cautelosos se acautelem ainda mais, começa por escrever que “o aparecimento de animais vadios, como cães, macacos, gatos e ratos em diferentes pontos do país coloca em perigo a vida de muitos cidadãos”. Ao que parece, estaremos perante um perigo nacional. Um perigo para a saúde pública. Mais um. Outro, que querem fazer acreditar também perigo para a saúde pública, foi inventado muito recentemente e foi localizado na Praia do Bilene. Há quem queira, teimosamente, afirmar e repetir que as águas da lagoa estão contaminadas por óleo. Que constituem perigo para a saúde pública. Só que não conseguindo provar a sua tese, passaram à segunda fase da mentira. Passaram a dizer que as águas estão contaminadas pelos esgotos. Ora, e parece muito difícil provar o contrário, o fenómeno que provocou a morte de peixes e o aparecimento de algas à superfície na Lagoa do Bilene terá sido o mesmo que, na mesma ocasião, cobriu as águas da Baía de Maputo com algas. Para os mais teimosos e aos ignorantes, fica o desafio de provarem que os fortes ventos sentidos no Bilene, fez sexta-feira última um mês, não provocaram a eliminação do oxigénio nas águas da lagoa. Causa única, até prova em contrário, da morte de peixes e de algas. Depois terão igualmente de provar, como trabalho suplementar de investigação, qual o fenómeno que motivou que ramos de árvores, plantas e, sobretudo milho estavam, sábado, secos. Deixemos de ser alarmistas.
Uma outra moda nos tempos que correm, uma outra moda alarmistas, é a da gripe das aves. Há quem diga que sim, que constitui um perigo, como há quem diga que não, que constitui perigo nenhum. Ao que parece, em resumo, dizer que sim, dizer que a gripe das aves é coisa perigosa, alimenta vários tipos de negócio. Gastar dinheiro na elaboração de planos de prevenção da gripe das aves é, em definitivo, um exercício inútil. Sejamos mais claros, um exercício ridículo. E é, em definitivo e sem hipótese de desmentido, um exercício que procura desviar as atenções dos grandes problemas nacionais, dos grandes objectivos nacionais. A gripe das aves não é um problema, muito menos um perigo nacional. E, parece ser difícil tentar provar o contrário. Talvez acrescentar, fazer recordar aos que tentam fazer por esquecer, que o vírus da gripe das aves foi descoberto há nove anos no Vietname. Desde então, morreram apenas nove pessoas em todo o mundo. E, mais, não está provado que a gripe das aves se transmita aos humanos. O que há a certeza, isso sim, é que por detrás desta alarme, talvez deste falso alarme, se escondem fabulosos negócios de venda de medicamentos. Houve, já, compra e venda de marcas de medicamentos e de laboratórios. Criaram-se monopólios, por detrás dos quais estão insuspeitas figuras da política mundial. Questionemos, por fim, que interesse servem ou procuram servir esta posição alarmista nacional, esta postura alarmista indígena. Não é, certamente, por ingenuidade, que estamos a abrir mais uma porta para a dependência externa. Que abrimos mais uma porta à dependência externa.
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Abril 02, 2006
antes e depois
Luís David
assim não iremos longe
O desporto nacional é de fraca qualidade. Talvez, por hipótese, o desporto nacional atravessa o seu período de mais baixa qualidade desde que Moçambique é país. Quase todas as modalidades, quando não mesmo todas, atravessam um período de declínio. De aparamento. È, como se não existissem. Quer sejam modalidades colectivas, quer sejam individuais. Como excepção, única e honrosa, temos Lurdes Mutola. O que é pouco, demasiado pouco para a dimensão e em relação à população do país. Depois, exceptuando Lurdes Mutola, a caminhar para o apogeu da sua carreira, temos nada. Temos pouco. Muito pouco. Temos pouco a nível de África, temos nada a nível mundial. Esta nossa realidade é devida, deriva, entre outros possíveis factores, da ausência de uma política de fomento desportivo. Mas, também, de organização, de incentivos, de apoio. Digamos, com mágoa e tristeza, o desporto entre nós não é. Foi. Ora, organizar o CAN/2010 pode ser bom. Pode trazer prestígio ao país. Mas não vem, muito longe disso, resolver o problema do desporto nacional. Organizar o CAN/2010 pode transformar Moçambique em notícia a nível de África e do mundo. Mas, apenas durante alguns dias, durante poucas semanas. Podemos colher dividendos políticos durante uns poucos dias ou algumas semanas. Não mais do que isso. Depois, depois dessa irrealidade, desse sonho, desse desejo de ser o que não somos, haverá que se sobrepor a realidade. A nossa realidade.
Exemplo da nossa falta de organização, exemplo da nossa desorganização desportiva, está aí. Mais uma vez evidente. Exemplo, mais um. E, exemplo fresco. Como fresco é o peixe acabado de sair do mar. A provar que a improvisação dominou, continua a dominar, a organização. È assim, por falta de organização ou por força do improviso, que a Taça da Liga já não começa hoje. Como havia sido previsto começar. Dizem, publicamente e sem vergonha, os senhores que mandam no futebol nacional não terem conseguido os necessários e previstos patrocínios. Que haverão de os conseguir. E que quando os conseguirem, então sim, haverá, haverá de haver Taça. Ora haja, venha a haver ou não haja Taça, haja ou não haja patrocínio para a Taça, fica mais uma mancha no futebol nacional. Dizer que a organização do CAN/2010 não poderá ser afectada por esta incompetência interna, por esta desorganização, provavelmente organizada, é pura ingenuidade. No desporto, como na política, as coisas não acontecem por acaso. São programadas. Mas, convenhamos, assim não iremos longe.
antes e depois
Luís David
assim não iremos longe
O desporto nacional é de fraca qualidade. Talvez, por hipótese, o desporto nacional atravessa o seu período de mais baixa qualidade desde que Moçambique é país. Quase todas as modalidades, quando não mesmo todas, atravessam um período de declínio. De aparamento. È, como se não existissem. Quer sejam modalidades colectivas, quer sejam individuais. Como excepção, única e honrosa, temos Lurdes Mutola. O que é pouco, demasiado pouco para a dimensão e em relação à população do país. Depois, exceptuando Lurdes Mutola, a caminhar para o apogeu da sua carreira, temos nada. Temos pouco. Muito pouco. Temos pouco a nível de África, temos nada a nível mundial. Esta nossa realidade é devida, deriva, entre outros possíveis factores, da ausência de uma política de fomento desportivo. Mas, também, de organização, de incentivos, de apoio. Digamos, com mágoa e tristeza, o desporto entre nós não é. Foi. Ora, organizar o CAN/2010 pode ser bom. Pode trazer prestígio ao país. Mas não vem, muito longe disso, resolver o problema do desporto nacional. Organizar o CAN/2010 pode transformar Moçambique em notícia a nível de África e do mundo. Mas, apenas durante alguns dias, durante poucas semanas. Podemos colher dividendos políticos durante uns poucos dias ou algumas semanas. Não mais do que isso. Depois, depois dessa irrealidade, desse sonho, desse desejo de ser o que não somos, haverá que se sobrepor a realidade. A nossa realidade.
Exemplo da nossa falta de organização, exemplo da nossa desorganização desportiva, está aí. Mais uma vez evidente. Exemplo, mais um. E, exemplo fresco. Como fresco é o peixe acabado de sair do mar. A provar que a improvisação dominou, continua a dominar, a organização. È assim, por falta de organização ou por força do improviso, que a Taça da Liga já não começa hoje. Como havia sido previsto começar. Dizem, publicamente e sem vergonha, os senhores que mandam no futebol nacional não terem conseguido os necessários e previstos patrocínios. Que haverão de os conseguir. E que quando os conseguirem, então sim, haverá, haverá de haver Taça. Ora haja, venha a haver ou não haja Taça, haja ou não haja patrocínio para a Taça, fica mais uma mancha no futebol nacional. Dizer que a organização do CAN/2010 não poderá ser afectada por esta incompetência interna, por esta desorganização, provavelmente organizada, é pura ingenuidade. No desporto, como na política, as coisas não acontecem por acaso. São programadas. Mas, convenhamos, assim não iremos longe.
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Março 19, 2006
antes e depois
Luís David
o país real não se afasta de nós
Fala-se e escreve-se muito sobre inflação. Defendem-se teorias, as mais diversas, sobre os benefícios e os malefícios de uma inflação baixa. Entre nós, inflação baixa foi elevada ao nível do mito. Como se, aqui como em qualquer outra parte do mundo, manter a inflação baixa pudesse ser sinónimo de boa governação. Não o é. Objectivamente, nunca o foi em parte alguma do mundo e nunca o poderá ser aqui. Tenhamos presente, à partida, que uma coisa é inflação baixa e outra coisa, por completo diferente, é inflação controlada. Controlar a inflação é, sem margem para qualquer para dúvida, bom. Muito bom. Manter a inflação pode não ter qualquer significado. Ou, em alternativa, pode significar, muito simplesmente, um travão ao desenvolvimento da economia. Tendo presente, e parece importante destacar este aspecto, que pode haver crescimento sem haver desenvolvimento. Neste contexto, Moçambique pode ser um caso paradigmático. Pode ser visto, pode ser apresentado como o exemplo de um país que apresentando um elevado nível de crescimento, tal nível, tal apregoada percentagem de crescimento, nada tem a ver, pouco tem a ver com crescimento. Pouco tem a ver com a melhoria do nível de vida das populações. E, aqui, parece residir o grande defeito da teoria neo-liberal. Da forma como a teoria neo-liberal tem vindo a ser executada em nós. Em Moçambique. Que é, muito simplesmente, a de não entender, de não aceitar, que qualquer reforma ou qualquer reajustamento estrutural, só faz sentido quando se caminha para que os pobres fiquem menos pobres. Quando se caminha para reduzir as ilhas de pobreza e não para as aumentar como tem sido, objectivamente, o caso moçambicano. Talvez não seja descabido concluir que a política económica moçambicana tem vindo a ser, nos últimos muitos anos, uma política de subserviência, uma política de submissão a interesses e a modelos externos. E que o modelo imposto e que, repetidamente, nos dizem ser bom, só poderá gerar dividendos para quem o impôs. Não passsamos ou, por outras palavras, não somos mais do que aquilo a que se chama uma economia obediente. Vencer a pobreza, como todos desejamos, implica eliminar falsos conceitos e falsas concepções de desenvolvimento económico. Implica ter coragem para provocar a ruptura. E ter coragem para mostrar que há alternativas.
Só muito recentemente se admitiu que, no ano passado, que a inflação ultrapassou os 14 por cento. Até então, nunca havia atingido os chamados dois dígitos. Como se isso tivesse alguma coisa a ver com que chega ou já não chega às nossas barrigas. Mas, mesmo que os ditos 14 por cento não passem de uma ilusão, de uma miragem, que sejam um número que peca por defeito, atentemos na realidade. Olhemos para a realidade dos nossos todos os dias. Atentemos na realidade dos preços do peixe e da carne, da farinha e do leite condensado, da energia eléctrica e da água. Dos transportes colectivos, também. Mas, se quisermos ser mais realistas, teremos de sair do centro das nossa cidades. Teremos de ir até onde começa o país real. E, não é necessário percorrer quilómetros muitos. Basta percorrer algumas dezenas, por estrada de alcatrão. Então, fica a saber-se quanto custa, hoje, uma pequena bacia de mandioca ou de batata doce, de citrinos ou de tomate. E, então, fica a perceber-se que custa quase o dobro do que custava há meia dúzia de meses atrás. E, é pegar ou largar. Não há espaço para discutir o preço. Não á desconto. Não vale a pena pedir para diminuir o preço. Este é, em definitivo, o país real. Este é o país que não consta nas estatísticas. Este é o país que foge à lógica da análise das teorias neo-liberais. Assim sendo, por muito que isso possa custar, sendo que posa não ser fácil deglutir, muitos de nós, talvez alguns de nós, estão a afastar-se do país real. Mesmo assim, talvez por isso mesmo, o país real não se afasta de nós.
antes e depois
Luís David
o país real não se afasta de nós
Fala-se e escreve-se muito sobre inflação. Defendem-se teorias, as mais diversas, sobre os benefícios e os malefícios de uma inflação baixa. Entre nós, inflação baixa foi elevada ao nível do mito. Como se, aqui como em qualquer outra parte do mundo, manter a inflação baixa pudesse ser sinónimo de boa governação. Não o é. Objectivamente, nunca o foi em parte alguma do mundo e nunca o poderá ser aqui. Tenhamos presente, à partida, que uma coisa é inflação baixa e outra coisa, por completo diferente, é inflação controlada. Controlar a inflação é, sem margem para qualquer para dúvida, bom. Muito bom. Manter a inflação pode não ter qualquer significado. Ou, em alternativa, pode significar, muito simplesmente, um travão ao desenvolvimento da economia. Tendo presente, e parece importante destacar este aspecto, que pode haver crescimento sem haver desenvolvimento. Neste contexto, Moçambique pode ser um caso paradigmático. Pode ser visto, pode ser apresentado como o exemplo de um país que apresentando um elevado nível de crescimento, tal nível, tal apregoada percentagem de crescimento, nada tem a ver, pouco tem a ver com crescimento. Pouco tem a ver com a melhoria do nível de vida das populações. E, aqui, parece residir o grande defeito da teoria neo-liberal. Da forma como a teoria neo-liberal tem vindo a ser executada em nós. Em Moçambique. Que é, muito simplesmente, a de não entender, de não aceitar, que qualquer reforma ou qualquer reajustamento estrutural, só faz sentido quando se caminha para que os pobres fiquem menos pobres. Quando se caminha para reduzir as ilhas de pobreza e não para as aumentar como tem sido, objectivamente, o caso moçambicano. Talvez não seja descabido concluir que a política económica moçambicana tem vindo a ser, nos últimos muitos anos, uma política de subserviência, uma política de submissão a interesses e a modelos externos. E que o modelo imposto e que, repetidamente, nos dizem ser bom, só poderá gerar dividendos para quem o impôs. Não passsamos ou, por outras palavras, não somos mais do que aquilo a que se chama uma economia obediente. Vencer a pobreza, como todos desejamos, implica eliminar falsos conceitos e falsas concepções de desenvolvimento económico. Implica ter coragem para provocar a ruptura. E ter coragem para mostrar que há alternativas.
Só muito recentemente se admitiu que, no ano passado, que a inflação ultrapassou os 14 por cento. Até então, nunca havia atingido os chamados dois dígitos. Como se isso tivesse alguma coisa a ver com que chega ou já não chega às nossas barrigas. Mas, mesmo que os ditos 14 por cento não passem de uma ilusão, de uma miragem, que sejam um número que peca por defeito, atentemos na realidade. Olhemos para a realidade dos nossos todos os dias. Atentemos na realidade dos preços do peixe e da carne, da farinha e do leite condensado, da energia eléctrica e da água. Dos transportes colectivos, também. Mas, se quisermos ser mais realistas, teremos de sair do centro das nossa cidades. Teremos de ir até onde começa o país real. E, não é necessário percorrer quilómetros muitos. Basta percorrer algumas dezenas, por estrada de alcatrão. Então, fica a saber-se quanto custa, hoje, uma pequena bacia de mandioca ou de batata doce, de citrinos ou de tomate. E, então, fica a perceber-se que custa quase o dobro do que custava há meia dúzia de meses atrás. E, é pegar ou largar. Não há espaço para discutir o preço. Não á desconto. Não vale a pena pedir para diminuir o preço. Este é, em definitivo, o país real. Este é o país que não consta nas estatísticas. Este é o país que foge à lógica da análise das teorias neo-liberais. Assim sendo, por muito que isso possa custar, sendo que posa não ser fácil deglutir, muitos de nós, talvez alguns de nós, estão a afastar-se do país real. Mesmo assim, talvez por isso mesmo, o país real não se afasta de nós.
sábado, março 04, 2006
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Março 5, 2006
antes e depois
Luís David
pensar antes de agir
É de certa forma uma preocupação. A situação começa a preocupar. Acontece que, desde há algumas semanas, sucedem-se, em diferentes jornais, artigos que causam algum alarme, que chocam, uns, que parece afastarem-se do rigor da verdade, outros. Em alguns casos, as fontes de informação resguardam-se no anonimato. Em outros, muitas pessoas pensam que ou segundo as mesmas correntes de opinião para, em ambas as situações tentar convencer o leitor e para sustentar a opinião, a tese, do autor do texto. Aparentemente, trata-se de desinformação. Quer seja consciente ou inconsciente. Digamos que, em determinados casos valem todos os meios para atingir determinados fins. E o fim acaba por ser, na maioria dos casos, quer disso haja ou não consciência, perturbar quem trabalha e procura melhorar a organização. Quem procura mudar, alterar, situações. Como pode ser o pacato cidadão, quando colocado perante situações que não esperava, em relação às quais ignora como agir. E, aqui, tanto podemos falar de saúde, como de televisão, como de tremores de terra. Talvez, também, por hipótese, de gripe das aves. De um modo geral, sem generalizar, o cenário que nos é apresentado é o da catástrofe eminente. Do terror ou do horror. Da ida sem regresso, sem retorno.
Andou bem e célere a Associação dos Médicos de Moçambique, quando veio a público demarcar-se de um anunciado “movimento grevista dos trabalhadores de saúde, incluindo médicos”. “Cujo decurso” como refere em comunicado, teria como consequência muita morte nos hospitais, por desmotivação do pessoal médico.” Acrescenta o texto, que “uma greve que anteveja a morte de doentes fere a essência da Medicina e choca frontalmente com a consciência do ser médico.” Outra posição não seria de esperar, dado que “a profissão médica reger-se por princípios ético-morais nobres e superiores que, mesmo em situação de greve, qualquer que seja a sua motivação, jamais permitiriam que alguma reivindicação pusesse em risco a vida dos doentes.” Difícil seria pensar-se que pudesse ser diferente. Difícil é, também, ter de pensar e de aceitar que, afinal, há quem pensa diferente. E, ao que parece, não se coíbe de recorrer à ameaça e à chantagem para tentar fazer valer direitos que julga legítimos. E que até podem ser legítimos. Mas que nunca poderão ser legitimados pelo processo utilizado. Pelo método usado. É que aqui, numa situação destas, mais do que em qualquer outra, os meios não podem justificar os fins. E a admitir-se, só por si, um tal princípio permissivo, estaríamos a abrir o caminho para a derrocada moral da sociedade. É bom que haja tempo para pensar antes de agir.
antes e depois
Luís David
pensar antes de agir
É de certa forma uma preocupação. A situação começa a preocupar. Acontece que, desde há algumas semanas, sucedem-se, em diferentes jornais, artigos que causam algum alarme, que chocam, uns, que parece afastarem-se do rigor da verdade, outros. Em alguns casos, as fontes de informação resguardam-se no anonimato. Em outros, muitas pessoas pensam que ou segundo as mesmas correntes de opinião para, em ambas as situações tentar convencer o leitor e para sustentar a opinião, a tese, do autor do texto. Aparentemente, trata-se de desinformação. Quer seja consciente ou inconsciente. Digamos que, em determinados casos valem todos os meios para atingir determinados fins. E o fim acaba por ser, na maioria dos casos, quer disso haja ou não consciência, perturbar quem trabalha e procura melhorar a organização. Quem procura mudar, alterar, situações. Como pode ser o pacato cidadão, quando colocado perante situações que não esperava, em relação às quais ignora como agir. E, aqui, tanto podemos falar de saúde, como de televisão, como de tremores de terra. Talvez, também, por hipótese, de gripe das aves. De um modo geral, sem generalizar, o cenário que nos é apresentado é o da catástrofe eminente. Do terror ou do horror. Da ida sem regresso, sem retorno.
Andou bem e célere a Associação dos Médicos de Moçambique, quando veio a público demarcar-se de um anunciado “movimento grevista dos trabalhadores de saúde, incluindo médicos”. “Cujo decurso” como refere em comunicado, teria como consequência muita morte nos hospitais, por desmotivação do pessoal médico.” Acrescenta o texto, que “uma greve que anteveja a morte de doentes fere a essência da Medicina e choca frontalmente com a consciência do ser médico.” Outra posição não seria de esperar, dado que “a profissão médica reger-se por princípios ético-morais nobres e superiores que, mesmo em situação de greve, qualquer que seja a sua motivação, jamais permitiriam que alguma reivindicação pusesse em risco a vida dos doentes.” Difícil seria pensar-se que pudesse ser diferente. Difícil é, também, ter de pensar e de aceitar que, afinal, há quem pensa diferente. E, ao que parece, não se coíbe de recorrer à ameaça e à chantagem para tentar fazer valer direitos que julga legítimos. E que até podem ser legítimos. Mas que nunca poderão ser legitimados pelo processo utilizado. Pelo método usado. É que aqui, numa situação destas, mais do que em qualquer outra, os meios não podem justificar os fins. E a admitir-se, só por si, um tal princípio permissivo, estaríamos a abrir o caminho para a derrocada moral da sociedade. É bom que haja tempo para pensar antes de agir.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Fevereiro 26, 2006
antes e depois
Luís David
uma responsabilidade acrescida
Secas, inundações, terramotos ou maremotos, são fenómenos naturais. Que, com maior ou menor frequência, que com maior ou menor gravidade, acontecem um pouco por todo o mundo. Que tingem e afectam países ricos e países pobres. Hoje, se é possível saber, com alguma antecedência, os efeitos de fenómenos como o El Nino ou El Nina, o mesmo parece não suceder no que respeita a terramotos e a maremotos. Reside ainda, certamente, na memória de muitos de nós a recente catástrofe que atingiu vários países asiáticos. Sobretudo as imagens das ondas gigantes a arrastarem vidas humanas e a destruírem estâncias turísticas, residências, florestas, centros urbanos. Perante o desespero, a incapacidade e a impotência dos humanos para fazer frente e contrariar a força dos ventos e fúria das águas. Em situações destas, em situações deste género, o homem age, invariavelmente, á posteriori. Para acudir, para salvar, para dar assistência às vítimas. Para reparar os estragos, também. Em alguns casos, convenhamos, estes fenómenos são previsíveis por antecipação. Com maior ou menos margem de tempo. O que geralmente acontece, é que não é possível prever é quando irão acontecer, que regiões irão afectar com maior intensidade. A ciência, hoje, pode conhecer o que se passa no fundo dos mares ou no interior da terra. Mas, pouco mais do que isso.
Moçambique foi, esta semana, atingido por um tremor de terra. Felizmente, com um reduzido número de vítimas mortais. Mas, que terá causado susto e medo, a muitos milhares de pessoas, nas principais cidades do sul do país. Também ansiedade e nervosismo. Embora precipitação e falta de calam não sejam bons conselheiros em situações do género. Daí o ter andado bem o Conselho de Ministros quando, após reunião de emergência, no mesmo dia do sismo, veio a público apresentar um primeiro balanço dos estragos. De forma calma, serena e convincente. Assim como anunciar medidas para o futuro. Não menos importante foi, horas depois, quando ainda havia o receio de réplicas do primeiro sismo, o Presidente da República ter vindo a público aconselhar calma e serenidade, ter vindo deixa uma mensagem de solidariedade Para trás, ficavam momentos de ansiedade e de desespero para muitos. Isto a avaliar por relato jornalístico. Ora, não podem, não devem, no mínimo, rádios e televisões informar quando não possuem dados concretos para o fazer. Num momento de grande tensão, isso seria fazer aumentar a confusão, talvez, mesmo, gerar o pânico. Parece fazer pouco sentido querer comparar o impacto da informação transmitida por estações estrangeiras com o das estações nacionais. Nesta, como em muitas outras situações, às estações de rádio e de televisão nacionais não é permitido falhar. Não é permitido especular. Precisamente, por terem uma responsabilidade acrescida.
antes e depois
Luís David
uma responsabilidade acrescida
Secas, inundações, terramotos ou maremotos, são fenómenos naturais. Que, com maior ou menor frequência, que com maior ou menor gravidade, acontecem um pouco por todo o mundo. Que tingem e afectam países ricos e países pobres. Hoje, se é possível saber, com alguma antecedência, os efeitos de fenómenos como o El Nino ou El Nina, o mesmo parece não suceder no que respeita a terramotos e a maremotos. Reside ainda, certamente, na memória de muitos de nós a recente catástrofe que atingiu vários países asiáticos. Sobretudo as imagens das ondas gigantes a arrastarem vidas humanas e a destruírem estâncias turísticas, residências, florestas, centros urbanos. Perante o desespero, a incapacidade e a impotência dos humanos para fazer frente e contrariar a força dos ventos e fúria das águas. Em situações destas, em situações deste género, o homem age, invariavelmente, á posteriori. Para acudir, para salvar, para dar assistência às vítimas. Para reparar os estragos, também. Em alguns casos, convenhamos, estes fenómenos são previsíveis por antecipação. Com maior ou menos margem de tempo. O que geralmente acontece, é que não é possível prever é quando irão acontecer, que regiões irão afectar com maior intensidade. A ciência, hoje, pode conhecer o que se passa no fundo dos mares ou no interior da terra. Mas, pouco mais do que isso.
Moçambique foi, esta semana, atingido por um tremor de terra. Felizmente, com um reduzido número de vítimas mortais. Mas, que terá causado susto e medo, a muitos milhares de pessoas, nas principais cidades do sul do país. Também ansiedade e nervosismo. Embora precipitação e falta de calam não sejam bons conselheiros em situações do género. Daí o ter andado bem o Conselho de Ministros quando, após reunião de emergência, no mesmo dia do sismo, veio a público apresentar um primeiro balanço dos estragos. De forma calma, serena e convincente. Assim como anunciar medidas para o futuro. Não menos importante foi, horas depois, quando ainda havia o receio de réplicas do primeiro sismo, o Presidente da República ter vindo a público aconselhar calma e serenidade, ter vindo deixa uma mensagem de solidariedade Para trás, ficavam momentos de ansiedade e de desespero para muitos. Isto a avaliar por relato jornalístico. Ora, não podem, não devem, no mínimo, rádios e televisões informar quando não possuem dados concretos para o fazer. Num momento de grande tensão, isso seria fazer aumentar a confusão, talvez, mesmo, gerar o pânico. Parece fazer pouco sentido querer comparar o impacto da informação transmitida por estações estrangeiras com o das estações nacionais. Nesta, como em muitas outras situações, às estações de rádio e de televisão nacionais não é permitido falhar. Não é permitido especular. Precisamente, por terem uma responsabilidade acrescida.
sábado, fevereiro 18, 2006
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Fevereiro 19, 2005
antes e depois
Luís David
O problema inicial será de mais difícil solução
Está o país dotado de um vasto conjunto de leis, na maioria dos casos recentes. Que têm como finalidade regular as relações entre cidadãos ou entre os cidadãos e diferentes instituições. Convenhamos, desde já que grande parte, ou parte significativa da legislação existente, não é aplicada. Talvez, melhor dizendo, não é cumprida. Ou, quando o é, é apenas parcialmente. Os motivos, obviamente, podem ser vários. E, serão. O primeiro, pode estar no seu desajustamento em relação à realidade. O segundo, entre vários outros, na falta de poder ou de mecanismos para a fazer cumprir. E, aqui, convém esclarecer que quando falamos em falta de poder, estamos a querer dizer falta de vontade política. Ou, em última análise, que há um completo desajuste, que há um completo desencontro, entre o desejo e a vontade de quem legislou e o desejo e vontade de quem por dever fazer aplicar a fazer cumprir o que está legislado Exemplos, se os quisermos, não faltam. E, recentes. Um, está na não aplicação, por parte do Estado e, logo, no não cumprimento do Regulamento do Regime Jurídico do Condomínio. Outro, está na legislação que limita o acesso de menores a locais de diversão nocturnal. Bem entendido, o que se apresenta como válido a nível nacional, não deixa de o ser a nível municipal. Salvaguardando, como é claro, as devidas proporções.
Depois de longo período de paragem, o Conselho Municipal da Cidade de Maputo retomou a “Operação Espelho”. Pretende fazer retirar de diferentes artérias vendedoras e vendedores, que ocupam espaços públicos com os seus negócios. Mais, pretende que essas vendedoras e vendedores passem a fazer os seus negócios em bancas de mercados. Partamos, desde já, do princípio que o objectivo em si, que o objectivo a atingir é, a todos os títulos, louvável. Tenhamos, no entanto, em conta que se trata de um objectivo impossível de atingir a curto prazo e, mesmo, de duvidoso êxito a médio e a longo prazos. Face à sua complexidade, mas não só nem principalmente. Face, se quisermos, a toda uma envolvente social, cultural e económica. A questão de fundo é, pelo menos parece ser, que nem todos os funcionários e agentes municipais, aos mais diversos níveis, comungam ou partilham do mesmo sentimento, da mesma vontade. Que nem todos estão convictos ou convencidos sobre a necessidade de executar esta “Operação Espelho” nos moldes e na forma que é suposto que tenha continuidade. A este propósito, não deixa de ser curiosa a intervenção de um deputado da Assembleia Municipal (“Notícias”, de 17.02.06), quando afirma que os administradores dos distritos municipais não podem continuar alheios a esta operação. Para este deputado, os administradores devem responder pela “Operação Espelho” nas suas áreas de jurisdição. Ressalta daqui, ressalta das palavras do deputado, que terá havido falta de algum trabalho interno, de um profundo trabalho de sensibilização e de integração dos administradores distritais. Ou, em terreno oposto, que os administradores distritais não concordem com a “Operação Espelho”. Se assim, ela terá pouco ou nenhum sucesso. E, mesmo quando possa integrar uma componente repressiva, não será mais do que uma forma para desgastar energias, criar tensões e desviar a atenção de outros problemas. A situação, em si, que se pretende combater, irá continuar. Pior, o problema inicial será de mais difícil solução.
antes e depois
Luís David
O problema inicial será de mais difícil solução
Está o país dotado de um vasto conjunto de leis, na maioria dos casos recentes. Que têm como finalidade regular as relações entre cidadãos ou entre os cidadãos e diferentes instituições. Convenhamos, desde já que grande parte, ou parte significativa da legislação existente, não é aplicada. Talvez, melhor dizendo, não é cumprida. Ou, quando o é, é apenas parcialmente. Os motivos, obviamente, podem ser vários. E, serão. O primeiro, pode estar no seu desajustamento em relação à realidade. O segundo, entre vários outros, na falta de poder ou de mecanismos para a fazer cumprir. E, aqui, convém esclarecer que quando falamos em falta de poder, estamos a querer dizer falta de vontade política. Ou, em última análise, que há um completo desajuste, que há um completo desencontro, entre o desejo e a vontade de quem legislou e o desejo e vontade de quem por dever fazer aplicar a fazer cumprir o que está legislado Exemplos, se os quisermos, não faltam. E, recentes. Um, está na não aplicação, por parte do Estado e, logo, no não cumprimento do Regulamento do Regime Jurídico do Condomínio. Outro, está na legislação que limita o acesso de menores a locais de diversão nocturnal. Bem entendido, o que se apresenta como válido a nível nacional, não deixa de o ser a nível municipal. Salvaguardando, como é claro, as devidas proporções.
Depois de longo período de paragem, o Conselho Municipal da Cidade de Maputo retomou a “Operação Espelho”. Pretende fazer retirar de diferentes artérias vendedoras e vendedores, que ocupam espaços públicos com os seus negócios. Mais, pretende que essas vendedoras e vendedores passem a fazer os seus negócios em bancas de mercados. Partamos, desde já, do princípio que o objectivo em si, que o objectivo a atingir é, a todos os títulos, louvável. Tenhamos, no entanto, em conta que se trata de um objectivo impossível de atingir a curto prazo e, mesmo, de duvidoso êxito a médio e a longo prazos. Face à sua complexidade, mas não só nem principalmente. Face, se quisermos, a toda uma envolvente social, cultural e económica. A questão de fundo é, pelo menos parece ser, que nem todos os funcionários e agentes municipais, aos mais diversos níveis, comungam ou partilham do mesmo sentimento, da mesma vontade. Que nem todos estão convictos ou convencidos sobre a necessidade de executar esta “Operação Espelho” nos moldes e na forma que é suposto que tenha continuidade. A este propósito, não deixa de ser curiosa a intervenção de um deputado da Assembleia Municipal (“Notícias”, de 17.02.06), quando afirma que os administradores dos distritos municipais não podem continuar alheios a esta operação. Para este deputado, os administradores devem responder pela “Operação Espelho” nas suas áreas de jurisdição. Ressalta daqui, ressalta das palavras do deputado, que terá havido falta de algum trabalho interno, de um profundo trabalho de sensibilização e de integração dos administradores distritais. Ou, em terreno oposto, que os administradores distritais não concordem com a “Operação Espelho”. Se assim, ela terá pouco ou nenhum sucesso. E, mesmo quando possa integrar uma componente repressiva, não será mais do que uma forma para desgastar energias, criar tensões e desviar a atenção de outros problemas. A situação, em si, que se pretende combater, irá continuar. Pior, o problema inicial será de mais difícil solução.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Fevereiro 12, 2005
antes e depois
Luís David
Outra Vez?
Começa a ser frequente encontrar, em alguns jornais nacionais, títulos e artigos que, por vezes, chocam. Títulos que podem ter nada a ver com o conteúdo da notícia. Notícias e comentários que mais parecem insultos primários. Ofensivos e atentatórios à dignidade dos visados. Como seres humanos, como cidadãos. Digamos que a ética e a deontologia nem sempre são observadas. Que deixaram, ou tendem a deixar, de ser património do presente, que pertencem ao passado. Com a agravante de que, agora, até permitimos que qualquer estrangeiro nos insulte a partir da sua terra. Que um burocrata da ASDI em Estocolmo, como o próprio se classifica, nos brinde com uma página de generalidades e de banalidades, escrita no bom, e ao que parece ainda não desaparecido, estilo eurocentrista. Muito embora, temos de lhe reconhecer essa virtude, a determinado passo tenha a franqueza de afirmar: Acho incontestável que a comunidade doadora também teve um papel no desenvolvimento da corrupção em Moçambique. Infelizmente não há muita vontade da parte dos doadores em discutir essa cumplicidade. Ora, como autor também nos diz, um dos doadores de Moçambique é a Suécia, através da ASDI. Afinal, tudo claro como água.
O artigo em questão vem publicado na última edição do jornal “ Savana”. Ao longo de uma página, o autor defende a sua “dama” e a sua concepção de cooperação. Como ele gostaria que fosse feita a cooperação com Moçambique. E, como já vimos, aproveita o espaço para enviar alguns recados para o interior do seu país. Talvez para o seu Governo. Talvez por este não se ter apercebido que Está bem patente que isso (a origem dos fundos) é um aspecto que muito manda-chuvas moçambicanos que roubam dinheiro da ajuda não estão cientes. O dinheiro da ajuda não cai do céu. Vem das carteiras dos trabalhadores e funcionários bem intencionados (...). Ora, até aqui estamos todos de acordo. Como de acordo estamos quando afirma que Não há dúvida nenhuma que a corrupção é um problema muito sério em Moçambique. Mas, já não estamos de acordo quando afirma que Muitos suecos que trabalharam em Moçambique nos anos 80 desconfiam do presidente Guebuza. È que, muitos parece demasiado vago. Muitos, tanto pode significar 10, 50, 500 como mil ou 10 mil. Aqui, de todo em todo, seria necessário quantificar. Na mesma linha populista e demagógica, o autor ainda nos brinda com este brilhante naco de prosa: Alguns compatriotas fazem um comentário sobre Guebuza e a corrupção: “Ele é o mais corrupto de todos. Como é que ele pode lutar contra a corrupção?”. A conclusão seria brilhante, não fosse o vago alguns. Forma primária mas ultrapassada de tentar fazer agitação. Ou pior do que isso, ausência de ética e falta de imaginação para alinhar meia dúzia de linhas coerentes. Com dados e factos. Que, quase de certeza, até existem. Só assim faria sentido, só assim teria justificação o título Outra Vez?.
antes e depois
Luís David
Outra Vez?
Começa a ser frequente encontrar, em alguns jornais nacionais, títulos e artigos que, por vezes, chocam. Títulos que podem ter nada a ver com o conteúdo da notícia. Notícias e comentários que mais parecem insultos primários. Ofensivos e atentatórios à dignidade dos visados. Como seres humanos, como cidadãos. Digamos que a ética e a deontologia nem sempre são observadas. Que deixaram, ou tendem a deixar, de ser património do presente, que pertencem ao passado. Com a agravante de que, agora, até permitimos que qualquer estrangeiro nos insulte a partir da sua terra. Que um burocrata da ASDI em Estocolmo, como o próprio se classifica, nos brinde com uma página de generalidades e de banalidades, escrita no bom, e ao que parece ainda não desaparecido, estilo eurocentrista. Muito embora, temos de lhe reconhecer essa virtude, a determinado passo tenha a franqueza de afirmar: Acho incontestável que a comunidade doadora também teve um papel no desenvolvimento da corrupção em Moçambique. Infelizmente não há muita vontade da parte dos doadores em discutir essa cumplicidade. Ora, como autor também nos diz, um dos doadores de Moçambique é a Suécia, através da ASDI. Afinal, tudo claro como água.
O artigo em questão vem publicado na última edição do jornal “ Savana”. Ao longo de uma página, o autor defende a sua “dama” e a sua concepção de cooperação. Como ele gostaria que fosse feita a cooperação com Moçambique. E, como já vimos, aproveita o espaço para enviar alguns recados para o interior do seu país. Talvez para o seu Governo. Talvez por este não se ter apercebido que Está bem patente que isso (a origem dos fundos) é um aspecto que muito manda-chuvas moçambicanos que roubam dinheiro da ajuda não estão cientes. O dinheiro da ajuda não cai do céu. Vem das carteiras dos trabalhadores e funcionários bem intencionados (...). Ora, até aqui estamos todos de acordo. Como de acordo estamos quando afirma que Não há dúvida nenhuma que a corrupção é um problema muito sério em Moçambique. Mas, já não estamos de acordo quando afirma que Muitos suecos que trabalharam em Moçambique nos anos 80 desconfiam do presidente Guebuza. È que, muitos parece demasiado vago. Muitos, tanto pode significar 10, 50, 500 como mil ou 10 mil. Aqui, de todo em todo, seria necessário quantificar. Na mesma linha populista e demagógica, o autor ainda nos brinda com este brilhante naco de prosa: Alguns compatriotas fazem um comentário sobre Guebuza e a corrupção: “Ele é o mais corrupto de todos. Como é que ele pode lutar contra a corrupção?”. A conclusão seria brilhante, não fosse o vago alguns. Forma primária mas ultrapassada de tentar fazer agitação. Ou pior do que isso, ausência de ética e falta de imaginação para alinhar meia dúzia de linhas coerentes. Com dados e factos. Que, quase de certeza, até existem. Só assim faria sentido, só assim teria justificação o título Outra Vez?.
quarta-feira, fevereiro 08, 2006
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de 5 de Fevereiro, 2006
antes e depois
Luís David
discussão fútil e inútil
Acabámos de comemorar o 3 de Fevereiro. Dia dos Heróis. Dia dos Heróis Moçambicanos. Diz-nos a História, nossa e dos povos, que a definição de herói aparece sempre ligada ao passado. Que herói só é herói quando está, porque está morto. O nosso conceito de herói é ,na sua essência, um conceito vitimista. Fatalista. E, a razão, o motivo de assim ser, parece simples de explicar. É que temos, todos nós, um medo terrível, um medo fóbico, de apontar como herói um vivo. Pela razão primária e primeira de que ao elegermos um vivo como herói ele nos venha dizer, ele nos possa vir dizer que não é um modelo de virtudes, que não reúne as virtude que, nós outros, pensamos ser necessárias reunir para se ser classificado como herói. Ora, é este medo, esta cobardia nossa, pessoal e colectiva, que nos leva, nos motiva e nos obriga a só eleger como heróis pessoas mortas. De facto, os mortos não podem defender-se. Não podem vir dizer-nos que não foram, exactamente, aquilo que nós pensamos que foram. Mas, sim, que foram homens com defeitos e com virtudes. Naturalmente, muitas. E que, tendo vivido num determinado tempo, histórico, souberam tirar proveito de circunstâncias particulares, ocasionais ou de momento, para se distinguirem, para serem diferentes dos seus pares. De outros seus semelhantes ou seus iguais.
Aqui, como em qualquer outro país do mundo, não é mais difícil nem mais fácil definir quem deva ser considerado herói nacional. É igual. O que temos de perceber é, entre nós, que uma comissão ou um Ministro da Educação e Cultura, por mais educado e culto que possa ser, não tem legitimidade para apresentar proposta nenhuma sobre o conceito de Herói Moçambicano. O conceito de herói é, convenhamos, um conceito mítico. Os povos, todos os povos, necessitam de criar e de alimentar os seus mitos. E, depois de criarem os seus mitos, necessitam de os ritualizar. É o rito que alimenta e perpetua o mito. E, em sociedades como a nossa, em sociedades como a moçambicana, de forte pendor rural, o mito funciona como elemento de equilíbrio e de estabilização entre as sociedades dos vivos e dos mortos. Entre o viver dos vivos e o estar dos mortos. Herói não pode, pois, ser definido por decreto. Herói é, pura e simplesmente, exemplo. E, mesmo que forçosamente, tem de ser símbolo de unidade. A Nação que queremos e desejamos ser, não se revê nem se reencontra neste tipo de discussões de comissários. A democracia, em si própria, pode não ser um dado adquirido ou irreversível. Mas, temos, hoje, um grupo de anciãos, um grupo de conselheiros, agrupados no Conselho de Estado, que pode, com toda a legitimidade, dizer-nos, caso a caso, quem deve ser considerado Herói Nacional. O resto, tudo o resto, pode não passar de simples manobra de distracção. Ou de discussão fútil e inútil.
antes e depois
Luís David
discussão fútil e inútil
Acabámos de comemorar o 3 de Fevereiro. Dia dos Heróis. Dia dos Heróis Moçambicanos. Diz-nos a História, nossa e dos povos, que a definição de herói aparece sempre ligada ao passado. Que herói só é herói quando está, porque está morto. O nosso conceito de herói é ,na sua essência, um conceito vitimista. Fatalista. E, a razão, o motivo de assim ser, parece simples de explicar. É que temos, todos nós, um medo terrível, um medo fóbico, de apontar como herói um vivo. Pela razão primária e primeira de que ao elegermos um vivo como herói ele nos venha dizer, ele nos possa vir dizer que não é um modelo de virtudes, que não reúne as virtude que, nós outros, pensamos ser necessárias reunir para se ser classificado como herói. Ora, é este medo, esta cobardia nossa, pessoal e colectiva, que nos leva, nos motiva e nos obriga a só eleger como heróis pessoas mortas. De facto, os mortos não podem defender-se. Não podem vir dizer-nos que não foram, exactamente, aquilo que nós pensamos que foram. Mas, sim, que foram homens com defeitos e com virtudes. Naturalmente, muitas. E que, tendo vivido num determinado tempo, histórico, souberam tirar proveito de circunstâncias particulares, ocasionais ou de momento, para se distinguirem, para serem diferentes dos seus pares. De outros seus semelhantes ou seus iguais.
Aqui, como em qualquer outro país do mundo, não é mais difícil nem mais fácil definir quem deva ser considerado herói nacional. É igual. O que temos de perceber é, entre nós, que uma comissão ou um Ministro da Educação e Cultura, por mais educado e culto que possa ser, não tem legitimidade para apresentar proposta nenhuma sobre o conceito de Herói Moçambicano. O conceito de herói é, convenhamos, um conceito mítico. Os povos, todos os povos, necessitam de criar e de alimentar os seus mitos. E, depois de criarem os seus mitos, necessitam de os ritualizar. É o rito que alimenta e perpetua o mito. E, em sociedades como a nossa, em sociedades como a moçambicana, de forte pendor rural, o mito funciona como elemento de equilíbrio e de estabilização entre as sociedades dos vivos e dos mortos. Entre o viver dos vivos e o estar dos mortos. Herói não pode, pois, ser definido por decreto. Herói é, pura e simplesmente, exemplo. E, mesmo que forçosamente, tem de ser símbolo de unidade. A Nação que queremos e desejamos ser, não se revê nem se reencontra neste tipo de discussões de comissários. A democracia, em si própria, pode não ser um dado adquirido ou irreversível. Mas, temos, hoje, um grupo de anciãos, um grupo de conselheiros, agrupados no Conselho de Estado, que pode, com toda a legitimidade, dizer-nos, caso a caso, quem deve ser considerado Herói Nacional. O resto, tudo o resto, pode não passar de simples manobra de distracção. Ou de discussão fútil e inútil.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Janeiro 29, 2006
antes e depois
Luís David
não alimentemos ilusões a nós próprios
O fenómeno acidentes de viação e mortes na estrada, é universal. As causas é que podem ser várias e diferentes. Variarem de país para país. Mas, no geral, são factores a ter em conta o estado mecânico das viaturas, o estado das estradas, a perícia dos condutores e a falta de respeito pelas regras de trânsito. Mas, podem juntar-se a condição sob o efeito de drogas e de bebidas alcoólicas, o excesso de velocidade e muitas outras. Ora, não é Moçambique excepção a esta realidade. Como todos sabemos, todos os anos centenas de pessoas perdem a vida em acidentes de viação. Uma situação que urge alterar. Uma situação que só pode ser alterada com a união de esforços de todas as entidades ligadas ao controlo da circulação automóvel. Mas, talvez, não só. E que passa, inevitavelmente, e talvez em primeiro lugar, por campanhas de sensibilização dos automobilistas. Pela sua educação, como automobilistas e, em primeiro lugar, como cidadãos. Que passa pela tomada de consciência, por parte de cada um, sobre o que, obrigatoriamente, deve respeitar. E que deve começar por campanha de educação dos automobilistas. Para, depois, castigar quantos ponham em perigo a vida de terceiros.
Perante a gravidade da situação, o Governo decidiu chamar a si o enfrentar do problema. Só que sendo o problema um problema complexo, a solução não poderá deixar de ser complexa. Pode até acontecer que, sendo o problema complexo, como o é, a sua análise por um único ângulo, por um único prisma, impeça que a solução venha a ser eficaz. Digamos, mesmo, em última análise, errada. Ou que poderemos a estar a administrar analgésicos para curar uma doença que exige tratamento de choque. Ora, hoje, a grande discussão, o cerne da questão dos acidentes de viação provocados por condutores embriagados, parece ter sido desviado para as bombas de combustível que foram autorizadas a vender bebidas alcoólicas. Naturalmente, admitamos que sim, não custa conceder o benefício da dúvida, podem ser parte do problema. Mas não são o problema. O problema está, em primeiro lugar, em quem bebe e conduz. Depois, em quem faz muito pouco para que quem bebe não seja impedido de conduzir. Se há abusos nas bombas, que se punem esses abusos. Mas, sejamos muito claros. No dia em que se deixar de vender bebidas alcoólicas nas bombas de combustível, surgirá outra forma de a oferta satisfazer a procura. Por ali perto, a poucas dezenas de metros. Seja dia, seja noite. O negócio não irá acabar. Vai, isso sim, apenas mudar de mãos, mudar de dono. E, se não for muito imaginativo assim pensar, qualquer bombeiro prestável não irá recusar servir de intermediário na compra de bebidas para um cliente de combustível. Até poderá montar negócio próprio e criar suplemento salarial com um simples colmam. Aconteça ou não aconteça assim, o que não podemos é pensar, criar a ilusão, que o problema das mortes na estrada será resolvido ou atenuado com esta interdição. Porque não está. Então, não alimentemos ilusões a nós próprios.
antes e depois
Luís David
não alimentemos ilusões a nós próprios
O fenómeno acidentes de viação e mortes na estrada, é universal. As causas é que podem ser várias e diferentes. Variarem de país para país. Mas, no geral, são factores a ter em conta o estado mecânico das viaturas, o estado das estradas, a perícia dos condutores e a falta de respeito pelas regras de trânsito. Mas, podem juntar-se a condição sob o efeito de drogas e de bebidas alcoólicas, o excesso de velocidade e muitas outras. Ora, não é Moçambique excepção a esta realidade. Como todos sabemos, todos os anos centenas de pessoas perdem a vida em acidentes de viação. Uma situação que urge alterar. Uma situação que só pode ser alterada com a união de esforços de todas as entidades ligadas ao controlo da circulação automóvel. Mas, talvez, não só. E que passa, inevitavelmente, e talvez em primeiro lugar, por campanhas de sensibilização dos automobilistas. Pela sua educação, como automobilistas e, em primeiro lugar, como cidadãos. Que passa pela tomada de consciência, por parte de cada um, sobre o que, obrigatoriamente, deve respeitar. E que deve começar por campanha de educação dos automobilistas. Para, depois, castigar quantos ponham em perigo a vida de terceiros.
Perante a gravidade da situação, o Governo decidiu chamar a si o enfrentar do problema. Só que sendo o problema um problema complexo, a solução não poderá deixar de ser complexa. Pode até acontecer que, sendo o problema complexo, como o é, a sua análise por um único ângulo, por um único prisma, impeça que a solução venha a ser eficaz. Digamos, mesmo, em última análise, errada. Ou que poderemos a estar a administrar analgésicos para curar uma doença que exige tratamento de choque. Ora, hoje, a grande discussão, o cerne da questão dos acidentes de viação provocados por condutores embriagados, parece ter sido desviado para as bombas de combustível que foram autorizadas a vender bebidas alcoólicas. Naturalmente, admitamos que sim, não custa conceder o benefício da dúvida, podem ser parte do problema. Mas não são o problema. O problema está, em primeiro lugar, em quem bebe e conduz. Depois, em quem faz muito pouco para que quem bebe não seja impedido de conduzir. Se há abusos nas bombas, que se punem esses abusos. Mas, sejamos muito claros. No dia em que se deixar de vender bebidas alcoólicas nas bombas de combustível, surgirá outra forma de a oferta satisfazer a procura. Por ali perto, a poucas dezenas de metros. Seja dia, seja noite. O negócio não irá acabar. Vai, isso sim, apenas mudar de mãos, mudar de dono. E, se não for muito imaginativo assim pensar, qualquer bombeiro prestável não irá recusar servir de intermediário na compra de bebidas para um cliente de combustível. Até poderá montar negócio próprio e criar suplemento salarial com um simples colmam. Aconteça ou não aconteça assim, o que não podemos é pensar, criar a ilusão, que o problema das mortes na estrada será resolvido ou atenuado com esta interdição. Porque não está. Então, não alimentemos ilusões a nós próprios.
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