terça-feira, junho 06, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de 4 de Junho, 2006

antes e depois

Luís David


a falta de gás é uma questão de preço


Maputo enfrenta uma aguda crise de falta de gás doméstico. O que, à partida, podendo parecer um problema doméstico, caseiro, não o é. A falta de gás doméstico na capital do país, é mais do que a simples escassez, é mais do que a simples falte de um produto. Pode ser entendida como um problema nacional e um problema político. De nada adianta, hoje, atirar culpas para o vizinho, para refinarias estrangeiras. Porque o que salta à vista é a nossa vulnerabilidade, a nossa falta de capacidade de armazenamento, a nossa dependência do exterior. Pode custar a acreditar, mas parece ser a realidade. Como parece ser realidade que, fontes alternativas de fornecimento e aumento da capacidade de reserva nunca terão sido devidamente encaradas. Embora sendo, como parece ser, o gás doméstico, um produto estratégico. Hoje, perante a crise, de nada vale carpir. Mas, a situação perece aconselhar, aponta para a necessidade de uma reflexão profunda.


Hoje, restam poucas dúvidas sobre a existência de petróleo em Moçambique. Se as reservas são pequenas ou são grandes, é outra questão. A partir de que preço no mercado internacional é rentável a sua exploração, apresenta-se como novo ponto. O que constitui facto, o que é realidade é que Moçambique possui gás. Que explora e é um país exportador de gás. Nesta lógica, parece fazer pouco sentido que possa enfrentar uma crise de falta de gás doméstico. Mesmo reconhecendo-se que há diferenças entre o gás que exportamos e o tipo de gás que importamos. Podendo, até, acontecer que o importador do gás moçambicano não é o mesmo que exporta gás para Moçambique. Convenhamos que sim. Mas se sim, podem não ter sido devidamente acautelados interesses dos consumidores moçambicanos. De resto, muito se fala em capacidade de reserva nacional, em tempo de duração dessa reserva. Pouco, quase nada ou nada se diz sobre quanto custa aumentar essa capacidade. Não custa muito prever que a actual crise de falta de gás seja prelúdio de novo aumento de preço. Para não se ter de dizer que esta crise, como muitas outras crises, é uma crise artificial. Sendo mais benevolente, é uma crise que podia ter sido evitada. Sendo mais claro, a falta de gás é uma questão de preço.

sábado, maio 27, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 28, 2006

antes e depois

Luís David


mais do que meros números


“Duas datas marcaram vincadamente o século XX: 1914 e 1945. A primeira data marcou o início da chamada Grande Guerra – um dos mais absurdos conflitos na história humana. Esses quatro anos de combates deixaram dez milhões de mortos e um número muito maior de mutilados e doentes mentais. Também se apoderaram de uma Europa próspera e em franco progresso e deixaram-na prostrada. A tragédia reside na estupidez de reis, políticos e generais que desejaram e avaliaram de forma errada as proporções que o conflito iria assumir e a simplória vaidade de pessoas que pensavam que a guerra era uma festa – um caleidoscópio de vistosos uniformes, coragem masculina, admiração feminina, desfiles de moda e a alegre despreocupação da juventude imortal.[As guerras coloniais deviam ter servido como uma advertência, mas o uso de armas automáticas e de repetição contra “selvagens” deixou intacta a confiança do homem branco. Entretanto, a guerra dos Bóeres na África do Sul, onde os Britânicos sofreram terríveis baixas, devia ter insuflado um prudente temor. Nada disso: uma década depois, a mortandade causada pelas metralhadoras nos campos da Flandres parece ter sido recebida como grande surpresa. Comandantes obtusos calcularam com impecável lógica que venceria o exército que mantivesse os seus soldados de pé e a atirar até ao fim. Os generais obtiveram promoções, medalhas e estátuas, normalmente equestres. Os seus homens morreram na lama.”


O texto acima transcrito abre o capítulo 27 (pag. 523), de “A Riqueza e a Pobreza das Nações – Porque são algumas tão ricas e outras tão pobres”, da autoria de David S. Landes. Trata-se, naturalmente, de uma obra que nos faz viajar ao longo de vários séculos. E que se apresenta hoje, mais do que nunca, de extrema utilidade. Principalmente, quando teimamos em ignorar fenómenos que nos estão próximos. Ou quando pretendemos transformar o nosso desejo em realidade e damos importância ao que significa pouco mais do que nada. Digamos que, em última análise, estamos perante uma obra de leitura obrigatória. Não só para quantos lidam e trabalham com questões ligadas ao desenvolvimento, mas, também e especialmente, membros de organizações não governamentais. Como princípio, como base para a compreensão de que não são projectos isolados que motivam o desenvolvimento de um país. Tão pouco apenas dinheiro ou donativos. Que, se úteis e necessários, apenas mitigam situações ocasionais, apenas podem resolver problemas conjunturais. Pouco mais do que isso. Talvez nada mais do que isso. Desenvolvimento exige, naturalmente, planos concertados e concentrados. Resultantes ou que vão ao encontro de uma vontade e de uma motivação internas, nacionais. O desenvolvimento pode fazer-se com ajuda, pode requerer ajuda externa. Mas é, inevitavelmente, um processo interno. Um processo que não pode ser feito de fora para dentro. E cujos resultados não se situam apenas no terreno das percentagens. Consistem em mais do que meros números.
Publicado em Mpauto, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 21, 2006

antes e depois

Luís David


no fundo da gaveta do esquecimento


Coloquemos a questão, façamos a pergunta: Acaso alguém sabe quantas toneladas de drogas pesadas já foram apreendidas neste país? Digamos, por exemplo, nos últimos dez anos. Muito provavelmente, a resposta será evasiva. Se não, mesmo, negativa. Mas, também poderemos questionar quantas toneladas dessas drogas apreendidas foram, efectivamente, destruídas. Também aqui, muito provavelmente, não teremos uma resposta concreta, uma resposta única, uma resposta oficial. De resto – e isso todos o sabemos – a droga não foi produzida para ser destruída. Foi produzida e corre mundo para ser consumida. Por quem dela depende. Interessante, curioso, é saber que várias toneladas de droga aprendidas em Inhambane, há alguns anos, ainda aguardam por oportunidade pare serem destruídas. E que foi necessária uma visita de trabalho do Presidente do Tribunal Supremo àquela província, para se decidir a sua transferência para Maputo. Por falta de condições locais para a destruição. Aceitemos que sim. Mas, concordemos, dois/três anos é muito tempo, é uma longa espera. Tempo demasiado para criar a tentação do desvio. O apetite do negócio por conta própria.


Passa mais de uma semana que foi noticiada a apreensão de uma tonelada de haxixe, na cidade de Maputo. Apreensão efectuada de forma algo bizarra, algo estranha, segundo os relatos da época. Acontece, os dias continuam a passar calmos. O tempo corre sereno. Nomes dos traficantes, continuamos a não ter o direito de saber. Resultados das investigações já efectuadas, nada. Só há segredo. A única coisa que há, é segredo. Um segredo misterioso. Como misterioso terá sido o desaparecimento do suposto proprietário da droga. Em pleno dia, no populoso Bairro do Aeroporto. Um desaparecimento que, certamente, perante o olhar mais atento de quantos lhe estavam próximo, só terá sido possível por artes mágicas. Ou se assim convier, com o apoio ou os favores de algum deus menor. A história recente do crime organizado, em Moçambique, já nos mostrou como se pode invocar a protecção divida, ou a inspiração numa divindade, como alibi para a fuga de uma cadeia. Mas, deixando para além a fuga do suposto proprietário, hoje parece não se saber se a droga ainda está ou não no armazém onde foi descarregada. Ao certo, ninguém confirma, ninguém arrisca em dizer que sim. Mas, também ninguém desmente, ninguém diz que não. Aparentemente, parece haver um mal disfarçado interesse para arrumar o assunto na gaveta do esquecimento. Lá bem no fundo da gaveta do esquecimento.
Publicado em Maputo, Moçambique jo Jornal Domingo de Maio 14, 2006


antes e depois

Luís David


informações evasivas


Parece confirmado que Moçambique é um corredor de droga. Que há droga que entra e que sai, que passa, que circula pelo território nacional. Indo e vindo das mais diversas partes do mundo. Transportada por barco ou por avião. Muito possivelmente, também por terra. Confirmado pode estar, também, que nunca se saberá quem é o verdadeiro dono do produto. Esta semana, as Alfândegas apreenderam mais uma tonelada de droga. Que entrara no país, desta vez, através do Porto de Maputo. Mas, até ao momento, com nome e com rosto, existe apenas o motorista que transportou o contentor até um bairro da periferia. Contratado, horas antes, na praça onde se perfilam viaturas de aluguer. Quem enviou e quem recebeu o contentor, os nomes do remetente e do receptor, ninguém sabe. Ou, se sabe, ninguém quer dizer. O que se sabe, é que quem contratou o motorista teve tempo para fugir. Quando o contentor começava a ser descarregado. Deixando abandonada, também, a viatura em que se fazia transportar. Terminada a história, as Alfândegas dizem ter cumprido a sua missão. Que daqui por diante, o assunto é com a Polícia. A Polícia, diz que nada diz. O que, à partida, significar que a história se repete. Que, mais ou menos detalhe, a história pode vir a repetir-se.


É, a todos os títulos, compreensível que a Polícia não pode divulgar aquilo que não sabe. Ou, não tem a certeza de saber. Como é aceitável que evite divulgar qualquer informação que possa vir a comprometer o trabalho de investigação. Mas, convenhamos, há limites para tudo. Até para o sigilo da investigação. É que o sigilo ou o segredo, quando levados ao extremo, podem levar à falta de transparência na investigação. Como podem ser sua consequência directa. Dizer, informar, simplesmente, que o assunto está a ser investigado, é o mesmo que dizer nada. Ou a justificação por não ter feito nada. Pior ainda, pode ser uma forma, primária, para tentar esconder o que já se conhece e deseja que não seja do domínio público. Invariavelmente, a falta de informação correcta, a falta do relato de factos verdadeiros, conduz à especulação. Conduz ao boato e leva à intriga, cria a suspeição a suspeita. Ora, neste caso concreto, no caso da apreensão, esta semana, de uma tonelada de droga, não revelar o nome do destinatário ou do intermediário significa, no mínimo falta de transparência. Mais, e sem entrar no campo da especulação, pode haver quem entenda esta atitude como de encobrimento de nomes. De protecção a traficantes, mesmo que involuntária. Há que reter, sobretudo, que depois dos espaços informativos que o assunto mereceu, não é possível ficar calado. Ou, pior, prestar informações evasivas.

terça-feira, maio 09, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Maio 7, 2006

antes e depois

Luís David


cuidado com os abutres


O termo corrupção aparece com relativa frequência na nossa linguagem. Na linguagem do dia-a-dia, na linguagem de todos os dias. Mas e infelizmente, na maioria dos casos, a corrupção doméstica continua sem produzir corruptos. Será, em última análise ou em última instância, um fenómeno híbrido. Pelo menos, assim o parece querer fazer acreditar quem defende que não há corruptos sem corruptores. O que é verdade. Como verdade é o inverso. Como é verdade que não há corruptores sem corruptos. Ora, a afirmação primeira, a firmação de que não há corruptos sem corruptores, encerra, à partida, um perigo. O perigo de constituir não só o primeiro passo para a aceitar a corrupção mas a aceitação, implícita, da conivência com os corruptos. Pode até ser, em última análise, a forma acabada para legitimar a corrupção. Mesmo sabendo e sabendo-se que se corrupção representa um custo ou um prejuízo para o cidadão, em nada ou em caso algum pode beneficiar o Estado. Pode, na generalidade dos casos, ter reflexos, maiores ou menores, nas receitas públicas. Logo, no geral, todos os cidadãos saem prejudicados.


Temos de concordar que, não raras vezes, o combate à corrupção começa e acaba no discurso oficial. Ou que os resultados das acções desencadeadas não são conhecidos, não são divulgados. A menos que o termo corrupção se preste a uma interpretação de tal forma lata, que não tenha para todos o mesmo sentido. O mesmo significado. Ou que situações que conhecemos, directa ou indirectamente, devam ser definidas como extorsão ou, em última análise, como tentativa de. Desta forma, estaríamos perante casos de corrupção por extorsão. Que os há por aí. Deitando, assim, por terra a tese que não há corrupto sem corruptor. Ora, são conhecidos e corriqueiros os casos das multas sobre infracções ás regras de trânsito. Assim como estes assuntos são resolvidos no local da infracção. Algumas vezes provocadas pelo próprio agente. Como, por exemplo, acontece num dos cruzamentos da Avenida 24 de Julho. Onde uma peanha, aparentemente abandonada, não passa de uma “ratoeira”. É que o agente, que devia regular o trânsito, está metros à frente a mandar parar quem não efectuou a viragem como ele pretendia. Depois, as multas devem ser tantas que seria interessante conhecer as receitas cobradas a favor do Estado. Ou se sequer há controlo sobre o livro de multas. Ora, também há situações, também há casos, bem diferentes. Digamos, mais sofisticados. E, nesta segunda categoria, podem enquadrar-se aqueles que levam o cidadão a recorrer a um qualquer serviço público. Para obter um qualquer documento. Pior, mas muito pior, quando se trata de documento para aceder a benefício concedido pelo Estado. Não que o Estado, como Estado, conceda e não queira entregar o que concedeu. Não é isso. O que parece estar a acontecer é a existências de funcionários que se sentem no direito de partilhar o benefício concedido. E vai daí, ensaiem todo o género de jogadas, todo o género de manobras, para demorar para retardar o processo. Sempre e invariavelmente com recurso às desculpas mais esfarrapadas ou mais exóticas. Num processo que se arrasta por meses. Que chega a demorar mais de um ano, segundo afirma quem está por dentro do assunto. É que, primeiro, a verba já está esgotada. Depois, cerca de dois meses depois, após deslocações e perdas de tempo evitáveis, o mais difícil já está feito. Só falta o director assinar. Venha para a semana. Mais tarde, afinal, nem tudo estava bem: O computador de outra entidade, maldito do computador, não imprimiu as últimas linhas de um documento. É preciso outro. Substituído que foi, parecia que tudo estaria bem. Finalmente. Mas, não, ainda não. O director, para assinar, necessitava de mais um parecer do director que emitira o documento inicial. Algumas semanas mais tarde, o tal parecer fez-se presente. Então, é quando surge nova informação: Parece que a verba já está esgotada. É claro que não estava. Mas tinham passado oito meses desde o início do processo, com alguns recados bem claros pelo meio. Do género: “O chefe acaba de telefonar a dizer que fulano veio falar com ele”. Resposta: “Outra vez? Isso é só para dizer que falou com o chefe. Não adianta nada”. Ora, saber se estamos perante casos de corrupção ou de extorsão, é pura retórica. Mas, cuidado com os abutres.

quarta-feira, maio 03, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Abril 30, 2006


antes e depois

Luís David

ver o país com olhos moçambicanos

Sem que o facto tenha alguma vez sido explicado, analisado, revelamos uma teimosa tendência para exagerar nos números. Uma teimosa, uma perigosa, tendência para aceitar ler e interpretar números de forma defeituosa. Seguindo normas e preceitos que pouco, muitas das vezes nada, têm a ver com a nossa realidade. Seguindo, talvez, critérios de leitura e de análise impostos. E que podem, em última análise, alterar a realidade caseira. Sendo que conceitos e métodos de análise não são estáticos, sendo que estão em permanente transformação, parece necessária e oportuna alguma explicação. Sobretudo em relação aos critérios seguidos em determinadas circunstâncias, em determinados casos concretos. Se assim não for e enquanto assim não acontecer, continuaremos a correr o risco de só conseguir ver o país através de olhos estrangeiros. Os números, as estatísticas, são úteis e são necessárias. Mas, em absoluto, valem o que valem. Valem aquilo que cada um quiser que valha. E, podem, até, valer pouco ou nada. Sequer vale a pena citar casos concretos.


Depois, aquilo que nos dizem ser bom e verdadeiro, aceitamos. Boamente. Somos, de facto, muito bons. Só assim se entende que aceitemos o que parece inaceitável. Que aceitemos o que parece incrível. Aquilo que na nossa realidade e perante a nossa realidade faz pouco sentido. É que, organismos de estatística de vários países realizaram, recentemente, um inquérito ao sector informal nacional que, segundo dados preliminares, emprega doze milhões de pessoas (“Notícias”, 28 de Abril de 2206). O matutino começa por escrever que O sector informal no país emprega mais de 87 por cento dos cerca de 14.401.500 indivíduos com idades superiores a sete anos. E, acrescenta que o informal movimenta um volume de negócios na ordem de dois mil milhões de meticais por ano. Ora, salvo melhor opinião e com o devido respeito, parece haver alguns equívocos. O primeiro, é que trabalho não significa emprego. Ele há pessoas que podem trabalhar uma vida inteira sem alguma vez terem tido emprego. A menos que emprega não signifique empregar. Signifique dar trabalho. Se assim é, ficamos a saber que se pode trabalhar a partir dos sete anos de idade. Mas, mais e pior, ficamos também a saber que, a partir dos sete anos, já ninguém vai à escola. Está tudo no informal. Ora, a forma absolutista e radical como os números são divulgados, cria uma visão deturpada da realidade do país. A menos que haja alguma conveniência, que haja algum interesse muito bem escondido, para classificar o camponês produtor de algodão, de tabaco ou de milho, o criador de bovinos ou de caprinos, o produtor de carvão e o pescador, como informais. Se assim é, este país é, na sua essência e ele próprio, um país informal. Ora, seja ou não difícil e doloroso, temos de nos habituar a ver o país com olhos moçambicanos.

sábado, abril 15, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Abril 16, 2006

antes e depois

Luís David

não é caso único

Nos últimos têm sido, entre nós, sistemáticos, os apelos ao passado. A um passado recente. Desejamos, ao que parece, regressar ao passado. Viver no passado. Porque, pensam e dizem os nostálgicos, o passado foi bom. No passado tudo foi bom. O presente, esse é mau. No presente, tudo é mau. Aqui, parece implícita uma falta de capacidade de leitura da história e de interpretação da história. De contextuar a história. Mesmo quando recente. E, isto, para perceber, para entender, que o aconteceu ontem, num determinado contexto, não se pode repetir hoje, em contexto diferente. Por mais forte que seja o nosso desejo, por mais sincera que seja a nossa vontade de repetição. E, esta saudade do passado, este desejo quase mórbido de ver o passado ser presente, pode não ser mais do que a falta de capacidade para encarar o futuro. Talvez reflicta, até, um inconsciente medo do futuro.

Em “O Mundo é Plano”, bestseller nos EUA, Thomas L. Friedman, oferece-nos “Uma breve história do século XXI”. Livro interessante, por demais interessante, que nos permite entender a que velocidade alguns países caminham para produzirem riqueza. Alguns, repita-se. Assim como as reformas a que procederam, onde e quando tiveram sucesso. Assim como e onde não tiveram. Por exemplo, depois de explicar como a China ultrapassou o México como principal fornecedor dos Estados Unidos, escreve: A China não quer apenas enriquecer. Quer ser poderosa. A China não quer apenas aprender a fabricar automóveis da General Motors (GM). Quer ser a GM e retirar a GM do negócio. Quem quer que duvide disto devia passar algum tempo junto dos jovens chineses. E, logo a seguir, citando Luis Rubio, Presidente do Centro de Investigação e Desenvolvimento do México: Quanto mais autoconfiança temos, mais as nossas mitologias e complexos diminuem. Um dos aspectos mais fantásticos do México no início da década de 90 foi o facto de os mexicanos terem percebido que eram capazes de fazer as coisas. Opina o mesmo mexicano que a falta de autoconfiança leva a que um país continue virado para o passado e que a falta de confiança que existe no México significa que a mentalidade prevalecente é a que os Estados Unidos os vão reduzir a empregados de limpeza. O autor do livro, cita um humorista norte americano do século XX, Will Rogers, a dizer: “Mesmo que estejas no caminho certo, serás atropelado se ficares sentado”. E, conclui: Quanto mais plano e mundo se torna, mais rapidamente isso irá acontecer. O México conseguiu entrar no caminho certo com as reformas “por atacado”, mas, depois, devido a inúmeras razões tangíveis e intangíveis, ficou sentado e as reformas “a retalho” não aconteceram. Quanto mais tempo o México ficar sentado, mais facilmente será atropelado, e não será caso único. Concordemos que não será caso único. Admitamos que não é caso único.
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Abril 9, 2006

antes e depois

Luís David


abrimos mais uma porta à dependência externa

Somos, sem a menor dúvida, um país cuja população está exposta às mais variadas e diferentes doenças. Mas, para além de todas as muitas doenças que todos conhecemos, das muitas doenças contra as quais nos procuramos prevenir, há outras. Outras doenças, igualmente mortais, que constituem ameaça de morte. Uma delas é a raiva, que “ameaça saúde pública no país”, segundo o “Notícias” ( edição de 5 do corrente, primeira página). O mesmo matutino informa que “No ano passado cerca de 40 pessoas morreram vítimas da doença”. E, para que não restem dúvidas sobre os perigos da dita doença, para que os já cautelosos se acautelem ainda mais, começa por escrever que “o aparecimento de animais vadios, como cães, macacos, gatos e ratos em diferentes pontos do país coloca em perigo a vida de muitos cidadãos”. Ao que parece, estaremos perante um perigo nacional. Um perigo para a saúde pública. Mais um. Outro, que querem fazer acreditar também perigo para a saúde pública, foi inventado muito recentemente e foi localizado na Praia do Bilene. Há quem queira, teimosamente, afirmar e repetir que as águas da lagoa estão contaminadas por óleo. Que constituem perigo para a saúde pública. Só que não conseguindo provar a sua tese, passaram à segunda fase da mentira. Passaram a dizer que as águas estão contaminadas pelos esgotos. Ora, e parece muito difícil provar o contrário, o fenómeno que provocou a morte de peixes e o aparecimento de algas à superfície na Lagoa do Bilene terá sido o mesmo que, na mesma ocasião, cobriu as águas da Baía de Maputo com algas. Para os mais teimosos e aos ignorantes, fica o desafio de provarem que os fortes ventos sentidos no Bilene, fez sexta-feira última um mês, não provocaram a eliminação do oxigénio nas águas da lagoa. Causa única, até prova em contrário, da morte de peixes e de algas. Depois terão igualmente de provar, como trabalho suplementar de investigação, qual o fenómeno que motivou que ramos de árvores, plantas e, sobretudo milho estavam, sábado, secos. Deixemos de ser alarmistas.



Uma outra moda nos tempos que correm, uma outra moda alarmistas, é a da gripe das aves. Há quem diga que sim, que constitui um perigo, como há quem diga que não, que constitui perigo nenhum. Ao que parece, em resumo, dizer que sim, dizer que a gripe das aves é coisa perigosa, alimenta vários tipos de negócio. Gastar dinheiro na elaboração de planos de prevenção da gripe das aves é, em definitivo, um exercício inútil. Sejamos mais claros, um exercício ridículo. E é, em definitivo e sem hipótese de desmentido, um exercício que procura desviar as atenções dos grandes problemas nacionais, dos grandes objectivos nacionais. A gripe das aves não é um problema, muito menos um perigo nacional. E, parece ser difícil tentar provar o contrário. Talvez acrescentar, fazer recordar aos que tentam fazer por esquecer, que o vírus da gripe das aves foi descoberto há nove anos no Vietname. Desde então, morreram apenas nove pessoas em todo o mundo. E, mais, não está provado que a gripe das aves se transmita aos humanos. O que há a certeza, isso sim, é que por detrás desta alarme, talvez deste falso alarme, se escondem fabulosos negócios de venda de medicamentos. Houve, já, compra e venda de marcas de medicamentos e de laboratórios. Criaram-se monopólios, por detrás dos quais estão insuspeitas figuras da política mundial. Questionemos, por fim, que interesse servem ou procuram servir esta posição alarmista nacional, esta postura alarmista indígena. Não é, certamente, por ingenuidade, que estamos a abrir mais uma porta para a dependência externa. Que abrimos mais uma porta à dependência externa.
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Abril 02, 2006

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Luís David


assim não iremos longe

O desporto nacional é de fraca qualidade. Talvez, por hipótese, o desporto nacional atravessa o seu período de mais baixa qualidade desde que Moçambique é país. Quase todas as modalidades, quando não mesmo todas, atravessam um período de declínio. De aparamento. È, como se não existissem. Quer sejam modalidades colectivas, quer sejam individuais. Como excepção, única e honrosa, temos Lurdes Mutola. O que é pouco, demasiado pouco para a dimensão e em relação à população do país. Depois, exceptuando Lurdes Mutola, a caminhar para o apogeu da sua carreira, temos nada. Temos pouco. Muito pouco. Temos pouco a nível de África, temos nada a nível mundial. Esta nossa realidade é devida, deriva, entre outros possíveis factores, da ausência de uma política de fomento desportivo. Mas, também, de organização, de incentivos, de apoio. Digamos, com mágoa e tristeza, o desporto entre nós não é. Foi. Ora, organizar o CAN/2010 pode ser bom. Pode trazer prestígio ao país. Mas não vem, muito longe disso, resolver o problema do desporto nacional. Organizar o CAN/2010 pode transformar Moçambique em notícia a nível de África e do mundo. Mas, apenas durante alguns dias, durante poucas semanas. Podemos colher dividendos políticos durante uns poucos dias ou algumas semanas. Não mais do que isso. Depois, depois dessa irrealidade, desse sonho, desse desejo de ser o que não somos, haverá que se sobrepor a realidade. A nossa realidade.


Exemplo da nossa falta de organização, exemplo da nossa desorganização desportiva, está aí. Mais uma vez evidente. Exemplo, mais um. E, exemplo fresco. Como fresco é o peixe acabado de sair do mar. A provar que a improvisação dominou, continua a dominar, a organização. È assim, por falta de organização ou por força do improviso, que a Taça da Liga já não começa hoje. Como havia sido previsto começar. Dizem, publicamente e sem vergonha, os senhores que mandam no futebol nacional não terem conseguido os necessários e previstos patrocínios. Que haverão de os conseguir. E que quando os conseguirem, então sim, haverá, haverá de haver Taça. Ora haja, venha a haver ou não haja Taça, haja ou não haja patrocínio para a Taça, fica mais uma mancha no futebol nacional. Dizer que a organização do CAN/2010 não poderá ser afectada por esta incompetência interna, por esta desorganização, provavelmente organizada, é pura ingenuidade. No desporto, como na política, as coisas não acontecem por acaso. São programadas. Mas, convenhamos, assim não iremos longe.
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Março 19, 2006

antes e depois

Luís David


o país real não se afasta de nós


Fala-se e escreve-se muito sobre inflação. Defendem-se teorias, as mais diversas, sobre os benefícios e os malefícios de uma inflação baixa. Entre nós, inflação baixa foi elevada ao nível do mito. Como se, aqui como em qualquer outra parte do mundo, manter a inflação baixa pudesse ser sinónimo de boa governação. Não o é. Objectivamente, nunca o foi em parte alguma do mundo e nunca o poderá ser aqui. Tenhamos presente, à partida, que uma coisa é inflação baixa e outra coisa, por completo diferente, é inflação controlada. Controlar a inflação é, sem margem para qualquer para dúvida, bom. Muito bom. Manter a inflação pode não ter qualquer significado. Ou, em alternativa, pode significar, muito simplesmente, um travão ao desenvolvimento da economia. Tendo presente, e parece importante destacar este aspecto, que pode haver crescimento sem haver desenvolvimento. Neste contexto, Moçambique pode ser um caso paradigmático. Pode ser visto, pode ser apresentado como o exemplo de um país que apresentando um elevado nível de crescimento, tal nível, tal apregoada percentagem de crescimento, nada tem a ver, pouco tem a ver com crescimento. Pouco tem a ver com a melhoria do nível de vida das populações. E, aqui, parece residir o grande defeito da teoria neo-liberal. Da forma como a teoria neo-liberal tem vindo a ser executada em nós. Em Moçambique. Que é, muito simplesmente, a de não entender, de não aceitar, que qualquer reforma ou qualquer reajustamento estrutural, só faz sentido quando se caminha para que os pobres fiquem menos pobres. Quando se caminha para reduzir as ilhas de pobreza e não para as aumentar como tem sido, objectivamente, o caso moçambicano. Talvez não seja descabido concluir que a política económica moçambicana tem vindo a ser, nos últimos muitos anos, uma política de subserviência, uma política de submissão a interesses e a modelos externos. E que o modelo imposto e que, repetidamente, nos dizem ser bom, só poderá gerar dividendos para quem o impôs. Não passsamos ou, por outras palavras, não somos mais do que aquilo a que se chama uma economia obediente. Vencer a pobreza, como todos desejamos, implica eliminar falsos conceitos e falsas concepções de desenvolvimento económico. Implica ter coragem para provocar a ruptura. E ter coragem para mostrar que há alternativas.


Só muito recentemente se admitiu que, no ano passado, que a inflação ultrapassou os 14 por cento. Até então, nunca havia atingido os chamados dois dígitos. Como se isso tivesse alguma coisa a ver com que chega ou já não chega às nossas barrigas. Mas, mesmo que os ditos 14 por cento não passem de uma ilusão, de uma miragem, que sejam um número que peca por defeito, atentemos na realidade. Olhemos para a realidade dos nossos todos os dias. Atentemos na realidade dos preços do peixe e da carne, da farinha e do leite condensado, da energia eléctrica e da água. Dos transportes colectivos, também. Mas, se quisermos ser mais realistas, teremos de sair do centro das nossa cidades. Teremos de ir até onde começa o país real. E, não é necessário percorrer quilómetros muitos. Basta percorrer algumas dezenas, por estrada de alcatrão. Então, fica a saber-se quanto custa, hoje, uma pequena bacia de mandioca ou de batata doce, de citrinos ou de tomate. E, então, fica a perceber-se que custa quase o dobro do que custava há meia dúzia de meses atrás. E, é pegar ou largar. Não há espaço para discutir o preço. Não á desconto. Não vale a pena pedir para diminuir o preço. Este é, em definitivo, o país real. Este é o país que não consta nas estatísticas. Este é o país que foge à lógica da análise das teorias neo-liberais. Assim sendo, por muito que isso possa custar, sendo que posa não ser fácil deglutir, muitos de nós, talvez alguns de nós, estão a afastar-se do país real. Mesmo assim, talvez por isso mesmo, o país real não se afasta de nós.