Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Julho 2, 2006
antes e depois
Luís David
interesses cruzados
Decorria o ano de 1985 quando a RENAMO destruiu cerca de 300 torres de transporte de energia de Cahora Bassa para a África do sul. Ao tempo, Portugal não terá reagido. Não terá tomado uma posição pública de condenação. É necessário entender que era um tempo em que, de forma aberta ou encoberta, apoiava, de diferentes maneiras, o movimento que Afonso Dhlakama já dirigia. Mesmo perante elevados prejuízos financeiros. Como terá sido o caso, pela sua qualidade de principal accionista da hidroeléctrica. Ora, acontece que a guerra, todas as guerras, obedecem a estratégias complicadas, difíceis de entender. Sem lógica. As referências, tantas vezes feitas, ao envolvimento a militares no activo ou a serviços secretos, parecem querer dizer exactamente isso. Parecem provar que os objectivos pelos quais se diz declarar uma guerra podem não ser aqueles que se pretendem atingir. E, esta guerra passou, sem margem para dúvidas pelos interesses do eixo Salisbúria-Pretória-Lisboa. Negar que assim não foi, será como negar a história. Como será negar a história não entender que as motivações e os objectivos de quem lutava não eram exactamente os mesmos de quem, do exterior, mandava destruir, raptar, matar.
Após prolongadas e demoradas conversações, o processo parecia próximo do fim. Parecia que Portugal, finalmente, havia aceite fazer uma negociação séria. Havia compreendido que os objectivos que ditaram a construção da barragem pertencem ao passado, pertencem a outro tempo, pertencem ao tempo do senhor António de Oliveira Salazar. Numa palavra e em resumo, parecia ter entendido que a Barragem de Cahora Bassa foi construída numa perspectiva colonial – fascista. E, acrescente-se, de acordo com uma estratégia militar que visava, em ultima análise, permitir a continuidade da permanência de Portugal em Moçambique. Como país dominador, obviamente. E que havendo entendido, o que afinal parece não ter ainda percebido, havia aceite passar a accionista minoritário da Hidroeléctrica de Cahora Bassa. Mas, ao que se verifica, enganou-se quem pensou que outros assim haviam pensado, que outros eram movidos por esta visão. É que, entre os outros, há alguns com desejos e com interesses bem diversos, bem diferentes. Diferenciados. E, a prova aí está, através de declarações públicas, recentes, de governantes portugueses. Cuja argumentação é menos do que falaciosa. O pode querer dizer, o que bem pode significar, que os objectivos e os interesses de quem fala não os mesmos que quem manda falar. Que há interesses escondidos, que há interesses cruzados.
sábado, julho 08, 2006
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Junho 25, 2006
antes e depois
Luís David
o petróleo tem muita força
Ouro, diamantes, petróleo. Três importantes fontes de riqueza. Três importantes elementos, três importantes factores de convulsão política. De lutas pelo poder político. Em casos extremos, motivo de guerra. Naturalmente fratricidas. Hoje, mais do que nunca antes, o petróleo constitui-se – ou pode constituir – factor destabilizador de um país, de uma região. Vivemos, desde há alguma décadas, numa economia assente, baseada, no petróleo. Numa época em que o desenvolvimento exige o consumo de mais e mais petróleo. Logo, parece compreensível que seja o petróleo que mais exércitos faz movimentar. Quer para o controlo das reservas, quer para o controlo das rotas de transporte. É assim no mundo inteiro. E, África faz parte do mundo. Sudão e Nigéria são exemplos actuais. Maus exemplos, claramente. Mas, são exemplos reais de lutas internas pelo controlo da exploração e pela distribuição da riqueza gerada com a sua venda no exterior. Em ambos os casos, que não serão os únicos a nível do Continente, podem existir conflitos étnicos e religiosos. Há sinais da existência de um profundo conflito entre cristianismo e Islão. Neste contexto, embora, aparentemente, possamos estar perante guerras de baixa intensidade, estaremos, igualmente, perante conflitos de duração prolongada. E, logo, só por si, consumidores de uma riqueza que se pretende equitativamente distribuída.
A um outro nível, ao nível dos países integrantes da CPLP, Angola foi o que serviu de cenário ao conflito mais prolongado. No período posterior à independência de cada um. Poderá dizer-se, sem margem para acusação de especulação, que à guerra angolana não é estranho o facto da existência de diamantes e de petróleo. Principalmente petróleo. Ao longo da sua história recente, a Guiné-Bissau tem sido, terra de golpes e de contra-golpes. Mas, também ali há petróleo. A São Tomé e Príncipe, em tempos idos terra de escravos e da monocultura do cacau, bastou o cheiro do petróleo. Logo começaram as lutas internas pelo poder. Pela posse da riqueza. Mais recentemente, foi a vez de Timor-Leste engrossar a lista dos países em convulsão política por culpa do petróleo. Também aqui, como em muitas outras partes do mundo, o petróleo está a fazer movimentar exércitos. Já está a fazer movimentar exércitos. De países vizinhos, uns, como a Austrália. De país bem longínquo, outro, como Portugal. Subjacente a esta crise política e institucional, podem estar, e parecem estar, conflitos entre elites locais. Obviamente, com interesses radicados no exterior. Mas, e talvez pior do que isso, podemos estar perante o reacender de um conflito religioso secular. Que teve a sua origem quando o primeiro português ali chegado pretendeu criar meia ilha cristã num mar de ilhas muçulmanas .Meia ilha cristã, repita-se, como espinho encravado no país com maior população muçulmana do mundo. Naturalmente, haverá muitos outros factores que conduziram ao despoletar da presente crise. Há. E há, sobretudo, muito oportunismo. Que pouco ou nada terá a ver com os interesses nacionais, com os interesses do povo timorense. Os próximos dias serão decisivos para se saber quem vence. Se vence o petróleo ou se vence a religião. Na certeza, porém, de que o vencedor de hoje poderá não ser um vencedor definitivo. E com a certeza de que o petróleo tem muita força.
antes e depois
Luís David
o petróleo tem muita força
Ouro, diamantes, petróleo. Três importantes fontes de riqueza. Três importantes elementos, três importantes factores de convulsão política. De lutas pelo poder político. Em casos extremos, motivo de guerra. Naturalmente fratricidas. Hoje, mais do que nunca antes, o petróleo constitui-se – ou pode constituir – factor destabilizador de um país, de uma região. Vivemos, desde há alguma décadas, numa economia assente, baseada, no petróleo. Numa época em que o desenvolvimento exige o consumo de mais e mais petróleo. Logo, parece compreensível que seja o petróleo que mais exércitos faz movimentar. Quer para o controlo das reservas, quer para o controlo das rotas de transporte. É assim no mundo inteiro. E, África faz parte do mundo. Sudão e Nigéria são exemplos actuais. Maus exemplos, claramente. Mas, são exemplos reais de lutas internas pelo controlo da exploração e pela distribuição da riqueza gerada com a sua venda no exterior. Em ambos os casos, que não serão os únicos a nível do Continente, podem existir conflitos étnicos e religiosos. Há sinais da existência de um profundo conflito entre cristianismo e Islão. Neste contexto, embora, aparentemente, possamos estar perante guerras de baixa intensidade, estaremos, igualmente, perante conflitos de duração prolongada. E, logo, só por si, consumidores de uma riqueza que se pretende equitativamente distribuída.
A um outro nível, ao nível dos países integrantes da CPLP, Angola foi o que serviu de cenário ao conflito mais prolongado. No período posterior à independência de cada um. Poderá dizer-se, sem margem para acusação de especulação, que à guerra angolana não é estranho o facto da existência de diamantes e de petróleo. Principalmente petróleo. Ao longo da sua história recente, a Guiné-Bissau tem sido, terra de golpes e de contra-golpes. Mas, também ali há petróleo. A São Tomé e Príncipe, em tempos idos terra de escravos e da monocultura do cacau, bastou o cheiro do petróleo. Logo começaram as lutas internas pelo poder. Pela posse da riqueza. Mais recentemente, foi a vez de Timor-Leste engrossar a lista dos países em convulsão política por culpa do petróleo. Também aqui, como em muitas outras partes do mundo, o petróleo está a fazer movimentar exércitos. Já está a fazer movimentar exércitos. De países vizinhos, uns, como a Austrália. De país bem longínquo, outro, como Portugal. Subjacente a esta crise política e institucional, podem estar, e parecem estar, conflitos entre elites locais. Obviamente, com interesses radicados no exterior. Mas, e talvez pior do que isso, podemos estar perante o reacender de um conflito religioso secular. Que teve a sua origem quando o primeiro português ali chegado pretendeu criar meia ilha cristã num mar de ilhas muçulmanas .Meia ilha cristã, repita-se, como espinho encravado no país com maior população muçulmana do mundo. Naturalmente, haverá muitos outros factores que conduziram ao despoletar da presente crise. Há. E há, sobretudo, muito oportunismo. Que pouco ou nada terá a ver com os interesses nacionais, com os interesses do povo timorense. Os próximos dias serão decisivos para se saber quem vence. Se vence o petróleo ou se vence a religião. Na certeza, porém, de que o vencedor de hoje poderá não ser um vencedor definitivo. E com a certeza de que o petróleo tem muita força.
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Junho 18, 2006
antes e depois
Luís David
assim haja vontade
Foi há um tempo que a memória não sabe precisar. Passam meses. Muitos. Seguramente algumas dezenas. Aconteceu em Maputo, como muitos de nós estão recordados. Aconteceu na zona central da cidade. Aconteceu que um prédio, com vários andares, destinados a habitação, ruiu. Enquanto estava a ser construído. Melhor dizendo, auto-cosntruído. O que, como foi dito na ocasião, é ilegal. Para averiguar as causas da derrocada, foi aberto um inquérito. Cujos resultados, ao que parece, ainda não foram divulgados. Ou, caso sim, passarem desapercebidos. Embora, no caso vertente, inquérito tenha sido um exercício inútil. Por desnecessário. Saltava à vista de quem quis ver, que a construção não reunia um mínimo de condições para se manter de pé. De resto, idêntica ou igual forma de construir parece estar enraizada um pouco por todo o Moçambique. Raro é passar uma semana em que não aparece notícia sobre escola ou posto de saúde. Nesta ou naquela província. Pior em épocas de chuva intensa, de temporal, de vendaval. Mas, a par desta “calamidade nacional”, podemos observar, somos, muitas das vezes, informados de outra. A de obras públicas por concluir. A de obras públicas por concluir, mas pagas. Como isto acontece, como é possível isto continuar a acontecer, em pleno ano de 2006, nunca alguém se dignou explicar. E, aqui, não é uma questão de não saber. É uma questão de não querer. É uma questão de não ser abrigado a. Logo e em resumo, é uma questão de poder.
Foi noticiado esta semana. No ano de 2000, o Fundo de Fomento da Habitação mandou construir 100 casas nos arredores de Maputo. Que, de acordo com o contratado, era suposto estarem concluídas em 2002. Mas, acontece, todos o sabemos, estamos quase a entrar na segunda metade de 2006. E de casas, pelo menos de casas com um mínimo de qualidade, de casas que justifiquem o pagamento, pelo Estado, de 320 mil contos por cada uma, poucas existem. Serão, no máximo, vinte. Quem o verificou no local, terá sido o Ministro das Obras Públicas e Habitação. Em pessoa. E que, logo ali, no local, terá dito que construtores que não respeitem os padrões de qualidade acordados, devem ser excluídos de futuros concursos para obras públicas. Entende-se que o posicionamento é, em tudo, correcto. Em termos de futuro, em termos de acautelar os interesses do Estado nos tempos que hão de vir. Mas, não impede nem evita que tenham de ser colocadas algumas questões quanto ao passado. Ao ontem. Então algumas das muitas questões que podem ser colocadas, aí ficam. Seria importante, pelo menos parece ser importante, saber o motivo pelo qual só quatro anos depois do prazo previsto para a entrega das casas se verificou que a construção não respeita as normas acordadas. Depois, se os construtores irão ser ou não responsabilizados por não terem entregue as casas conforme o estabelecido. A seguir, sem ser necessariamente por fim, o que lhes pode acontecer a eles, construtores, e aos funcionários do Estado que permitiram que tivessem construído com a qualidade que construíram. Este, ao que parece, será um dos muitos casos de conhecimento público que poderá permitir abrir caminho no sentido da moralização dos negócios públicos. Basta que, para tanto, assim haja vontade.
antes e depois
Luís David
assim haja vontade
Foi há um tempo que a memória não sabe precisar. Passam meses. Muitos. Seguramente algumas dezenas. Aconteceu em Maputo, como muitos de nós estão recordados. Aconteceu na zona central da cidade. Aconteceu que um prédio, com vários andares, destinados a habitação, ruiu. Enquanto estava a ser construído. Melhor dizendo, auto-cosntruído. O que, como foi dito na ocasião, é ilegal. Para averiguar as causas da derrocada, foi aberto um inquérito. Cujos resultados, ao que parece, ainda não foram divulgados. Ou, caso sim, passarem desapercebidos. Embora, no caso vertente, inquérito tenha sido um exercício inútil. Por desnecessário. Saltava à vista de quem quis ver, que a construção não reunia um mínimo de condições para se manter de pé. De resto, idêntica ou igual forma de construir parece estar enraizada um pouco por todo o Moçambique. Raro é passar uma semana em que não aparece notícia sobre escola ou posto de saúde. Nesta ou naquela província. Pior em épocas de chuva intensa, de temporal, de vendaval. Mas, a par desta “calamidade nacional”, podemos observar, somos, muitas das vezes, informados de outra. A de obras públicas por concluir. A de obras públicas por concluir, mas pagas. Como isto acontece, como é possível isto continuar a acontecer, em pleno ano de 2006, nunca alguém se dignou explicar. E, aqui, não é uma questão de não saber. É uma questão de não querer. É uma questão de não ser abrigado a. Logo e em resumo, é uma questão de poder.
Foi noticiado esta semana. No ano de 2000, o Fundo de Fomento da Habitação mandou construir 100 casas nos arredores de Maputo. Que, de acordo com o contratado, era suposto estarem concluídas em 2002. Mas, acontece, todos o sabemos, estamos quase a entrar na segunda metade de 2006. E de casas, pelo menos de casas com um mínimo de qualidade, de casas que justifiquem o pagamento, pelo Estado, de 320 mil contos por cada uma, poucas existem. Serão, no máximo, vinte. Quem o verificou no local, terá sido o Ministro das Obras Públicas e Habitação. Em pessoa. E que, logo ali, no local, terá dito que construtores que não respeitem os padrões de qualidade acordados, devem ser excluídos de futuros concursos para obras públicas. Entende-se que o posicionamento é, em tudo, correcto. Em termos de futuro, em termos de acautelar os interesses do Estado nos tempos que hão de vir. Mas, não impede nem evita que tenham de ser colocadas algumas questões quanto ao passado. Ao ontem. Então algumas das muitas questões que podem ser colocadas, aí ficam. Seria importante, pelo menos parece ser importante, saber o motivo pelo qual só quatro anos depois do prazo previsto para a entrega das casas se verificou que a construção não respeita as normas acordadas. Depois, se os construtores irão ser ou não responsabilizados por não terem entregue as casas conforme o estabelecido. A seguir, sem ser necessariamente por fim, o que lhes pode acontecer a eles, construtores, e aos funcionários do Estado que permitiram que tivessem construído com a qualidade que construíram. Este, ao que parece, será um dos muitos casos de conhecimento público que poderá permitir abrir caminho no sentido da moralização dos negócios públicos. Basta que, para tanto, assim haja vontade.
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Junho 11, 2006
antes e depois
Luís David
uma atitude irrepreensível.
Foi há quatro décadas. A Sociedade Portuguesa de Escritores premiava “Luuanda”, de Luandino Vieira. Salazar, homem pouco dado a coisas da cultura, não terá gostado da brincadeira. É que, para além de outros prováveis motivos, o laureado encontrava-se preso no Tarrafal. Por motivos políticos. Vai daí, mandou dissolver a referida sociedade e prender alguns dos membros do júri. A decisão do ditador bem poderá ser sido um, mais um, erro. É que, bem poderá ter fomentado o desejo em possuir o livro, como coisa proibida. E fomentou. Como chamou a atenção e deu nome a um escritor encarcerado. Nome e, possivelmente, mais força para continuar a escrever. Ora, hoje, passados mais de quarenta anos, o autor de “Luanda” é confrontado com nova realidade. E, ao que parece, para alguns, volta a ser incómodo. Não terá gostado que lhe tenham atribuído o “ Prémio Camões”. Recusou. As razões, são suas. Pessoais. E, a ninguém assiste o direito de as negar. Seja a que pretexto for, seja com o argumento que seja. Em última análise, pode dizer-se que a recusa é o reflexo de uma maneira de ser e de estar. Ou, entrando no campo da especulação, que reflecte um posicionamento político.
Muito naturalmente, a recusa do escritor angolano em deixar-se premiar levantou celeuma. Parece, até, ter criado embaraços aos promotores do prémio. Pois, bem se vê, não é todos os dias que aparece alguém a recusar cem mil euros. Sequer a recusa está prevista em regulamento. Logo, vem ao de cima a mentalidade mercantil. Começam as dúvidas e as conjecturas sobre o destino a dar ao dinheiro. Ora, e esta parece ser a questão de fundo, o escritor não recusou o dinheiro. Recusou, isso sim, o prémio. Acaso houvesse aceite receber o dinheiro para, depois, o doar a qualquer instituição, implicava aceitar o prémio. E o que Luandino disse sem dizer, foi que não queria o prémio. Que não aceitava o prémio. Está no seu pleno direito. Até é muito provável que outros tivessem gostado, antes dele, de ter assumido idêntica posição. Que, no plano da ética, parece uma atitude irrepreensível.
antes e depois
Luís David
uma atitude irrepreensível.
Foi há quatro décadas. A Sociedade Portuguesa de Escritores premiava “Luuanda”, de Luandino Vieira. Salazar, homem pouco dado a coisas da cultura, não terá gostado da brincadeira. É que, para além de outros prováveis motivos, o laureado encontrava-se preso no Tarrafal. Por motivos políticos. Vai daí, mandou dissolver a referida sociedade e prender alguns dos membros do júri. A decisão do ditador bem poderá ser sido um, mais um, erro. É que, bem poderá ter fomentado o desejo em possuir o livro, como coisa proibida. E fomentou. Como chamou a atenção e deu nome a um escritor encarcerado. Nome e, possivelmente, mais força para continuar a escrever. Ora, hoje, passados mais de quarenta anos, o autor de “Luanda” é confrontado com nova realidade. E, ao que parece, para alguns, volta a ser incómodo. Não terá gostado que lhe tenham atribuído o “ Prémio Camões”. Recusou. As razões, são suas. Pessoais. E, a ninguém assiste o direito de as negar. Seja a que pretexto for, seja com o argumento que seja. Em última análise, pode dizer-se que a recusa é o reflexo de uma maneira de ser e de estar. Ou, entrando no campo da especulação, que reflecte um posicionamento político.
Muito naturalmente, a recusa do escritor angolano em deixar-se premiar levantou celeuma. Parece, até, ter criado embaraços aos promotores do prémio. Pois, bem se vê, não é todos os dias que aparece alguém a recusar cem mil euros. Sequer a recusa está prevista em regulamento. Logo, vem ao de cima a mentalidade mercantil. Começam as dúvidas e as conjecturas sobre o destino a dar ao dinheiro. Ora, e esta parece ser a questão de fundo, o escritor não recusou o dinheiro. Recusou, isso sim, o prémio. Acaso houvesse aceite receber o dinheiro para, depois, o doar a qualquer instituição, implicava aceitar o prémio. E o que Luandino disse sem dizer, foi que não queria o prémio. Que não aceitava o prémio. Está no seu pleno direito. Até é muito provável que outros tivessem gostado, antes dele, de ter assumido idêntica posição. Que, no plano da ética, parece uma atitude irrepreensível.
terça-feira, junho 06, 2006
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de 4 de Junho, 2006
antes e depois
Luís David
a falta de gás é uma questão de preço
Maputo enfrenta uma aguda crise de falta de gás doméstico. O que, à partida, podendo parecer um problema doméstico, caseiro, não o é. A falta de gás doméstico na capital do país, é mais do que a simples escassez, é mais do que a simples falte de um produto. Pode ser entendida como um problema nacional e um problema político. De nada adianta, hoje, atirar culpas para o vizinho, para refinarias estrangeiras. Porque o que salta à vista é a nossa vulnerabilidade, a nossa falta de capacidade de armazenamento, a nossa dependência do exterior. Pode custar a acreditar, mas parece ser a realidade. Como parece ser realidade que, fontes alternativas de fornecimento e aumento da capacidade de reserva nunca terão sido devidamente encaradas. Embora sendo, como parece ser, o gás doméstico, um produto estratégico. Hoje, perante a crise, de nada vale carpir. Mas, a situação perece aconselhar, aponta para a necessidade de uma reflexão profunda.
Hoje, restam poucas dúvidas sobre a existência de petróleo em Moçambique. Se as reservas são pequenas ou são grandes, é outra questão. A partir de que preço no mercado internacional é rentável a sua exploração, apresenta-se como novo ponto. O que constitui facto, o que é realidade é que Moçambique possui gás. Que explora e é um país exportador de gás. Nesta lógica, parece fazer pouco sentido que possa enfrentar uma crise de falta de gás doméstico. Mesmo reconhecendo-se que há diferenças entre o gás que exportamos e o tipo de gás que importamos. Podendo, até, acontecer que o importador do gás moçambicano não é o mesmo que exporta gás para Moçambique. Convenhamos que sim. Mas se sim, podem não ter sido devidamente acautelados interesses dos consumidores moçambicanos. De resto, muito se fala em capacidade de reserva nacional, em tempo de duração dessa reserva. Pouco, quase nada ou nada se diz sobre quanto custa aumentar essa capacidade. Não custa muito prever que a actual crise de falta de gás seja prelúdio de novo aumento de preço. Para não se ter de dizer que esta crise, como muitas outras crises, é uma crise artificial. Sendo mais benevolente, é uma crise que podia ter sido evitada. Sendo mais claro, a falta de gás é uma questão de preço.
antes e depois
Luís David
a falta de gás é uma questão de preço
Maputo enfrenta uma aguda crise de falta de gás doméstico. O que, à partida, podendo parecer um problema doméstico, caseiro, não o é. A falta de gás doméstico na capital do país, é mais do que a simples escassez, é mais do que a simples falte de um produto. Pode ser entendida como um problema nacional e um problema político. De nada adianta, hoje, atirar culpas para o vizinho, para refinarias estrangeiras. Porque o que salta à vista é a nossa vulnerabilidade, a nossa falta de capacidade de armazenamento, a nossa dependência do exterior. Pode custar a acreditar, mas parece ser a realidade. Como parece ser realidade que, fontes alternativas de fornecimento e aumento da capacidade de reserva nunca terão sido devidamente encaradas. Embora sendo, como parece ser, o gás doméstico, um produto estratégico. Hoje, perante a crise, de nada vale carpir. Mas, a situação perece aconselhar, aponta para a necessidade de uma reflexão profunda.
Hoje, restam poucas dúvidas sobre a existência de petróleo em Moçambique. Se as reservas são pequenas ou são grandes, é outra questão. A partir de que preço no mercado internacional é rentável a sua exploração, apresenta-se como novo ponto. O que constitui facto, o que é realidade é que Moçambique possui gás. Que explora e é um país exportador de gás. Nesta lógica, parece fazer pouco sentido que possa enfrentar uma crise de falta de gás doméstico. Mesmo reconhecendo-se que há diferenças entre o gás que exportamos e o tipo de gás que importamos. Podendo, até, acontecer que o importador do gás moçambicano não é o mesmo que exporta gás para Moçambique. Convenhamos que sim. Mas se sim, podem não ter sido devidamente acautelados interesses dos consumidores moçambicanos. De resto, muito se fala em capacidade de reserva nacional, em tempo de duração dessa reserva. Pouco, quase nada ou nada se diz sobre quanto custa aumentar essa capacidade. Não custa muito prever que a actual crise de falta de gás seja prelúdio de novo aumento de preço. Para não se ter de dizer que esta crise, como muitas outras crises, é uma crise artificial. Sendo mais benevolente, é uma crise que podia ter sido evitada. Sendo mais claro, a falta de gás é uma questão de preço.
sábado, maio 27, 2006
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 28, 2006
antes e depois
Luís David
mais do que meros números
“Duas datas marcaram vincadamente o século XX: 1914 e 1945. A primeira data marcou o início da chamada Grande Guerra – um dos mais absurdos conflitos na história humana. Esses quatro anos de combates deixaram dez milhões de mortos e um número muito maior de mutilados e doentes mentais. Também se apoderaram de uma Europa próspera e em franco progresso e deixaram-na prostrada. A tragédia reside na estupidez de reis, políticos e generais que desejaram e avaliaram de forma errada as proporções que o conflito iria assumir e a simplória vaidade de pessoas que pensavam que a guerra era uma festa – um caleidoscópio de vistosos uniformes, coragem masculina, admiração feminina, desfiles de moda e a alegre despreocupação da juventude imortal.[As guerras coloniais deviam ter servido como uma advertência, mas o uso de armas automáticas e de repetição contra “selvagens” deixou intacta a confiança do homem branco. Entretanto, a guerra dos Bóeres na África do Sul, onde os Britânicos sofreram terríveis baixas, devia ter insuflado um prudente temor. Nada disso: uma década depois, a mortandade causada pelas metralhadoras nos campos da Flandres parece ter sido recebida como grande surpresa. Comandantes obtusos calcularam com impecável lógica que venceria o exército que mantivesse os seus soldados de pé e a atirar até ao fim. Os generais obtiveram promoções, medalhas e estátuas, normalmente equestres. Os seus homens morreram na lama.”
O texto acima transcrito abre o capítulo 27 (pag. 523), de “A Riqueza e a Pobreza das Nações – Porque são algumas tão ricas e outras tão pobres”, da autoria de David S. Landes. Trata-se, naturalmente, de uma obra que nos faz viajar ao longo de vários séculos. E que se apresenta hoje, mais do que nunca, de extrema utilidade. Principalmente, quando teimamos em ignorar fenómenos que nos estão próximos. Ou quando pretendemos transformar o nosso desejo em realidade e damos importância ao que significa pouco mais do que nada. Digamos que, em última análise, estamos perante uma obra de leitura obrigatória. Não só para quantos lidam e trabalham com questões ligadas ao desenvolvimento, mas, também e especialmente, membros de organizações não governamentais. Como princípio, como base para a compreensão de que não são projectos isolados que motivam o desenvolvimento de um país. Tão pouco apenas dinheiro ou donativos. Que, se úteis e necessários, apenas mitigam situações ocasionais, apenas podem resolver problemas conjunturais. Pouco mais do que isso. Talvez nada mais do que isso. Desenvolvimento exige, naturalmente, planos concertados e concentrados. Resultantes ou que vão ao encontro de uma vontade e de uma motivação internas, nacionais. O desenvolvimento pode fazer-se com ajuda, pode requerer ajuda externa. Mas é, inevitavelmente, um processo interno. Um processo que não pode ser feito de fora para dentro. E cujos resultados não se situam apenas no terreno das percentagens. Consistem em mais do que meros números.
antes e depois
Luís David
mais do que meros números
“Duas datas marcaram vincadamente o século XX: 1914 e 1945. A primeira data marcou o início da chamada Grande Guerra – um dos mais absurdos conflitos na história humana. Esses quatro anos de combates deixaram dez milhões de mortos e um número muito maior de mutilados e doentes mentais. Também se apoderaram de uma Europa próspera e em franco progresso e deixaram-na prostrada. A tragédia reside na estupidez de reis, políticos e generais que desejaram e avaliaram de forma errada as proporções que o conflito iria assumir e a simplória vaidade de pessoas que pensavam que a guerra era uma festa – um caleidoscópio de vistosos uniformes, coragem masculina, admiração feminina, desfiles de moda e a alegre despreocupação da juventude imortal.[As guerras coloniais deviam ter servido como uma advertência, mas o uso de armas automáticas e de repetição contra “selvagens” deixou intacta a confiança do homem branco. Entretanto, a guerra dos Bóeres na África do Sul, onde os Britânicos sofreram terríveis baixas, devia ter insuflado um prudente temor. Nada disso: uma década depois, a mortandade causada pelas metralhadoras nos campos da Flandres parece ter sido recebida como grande surpresa. Comandantes obtusos calcularam com impecável lógica que venceria o exército que mantivesse os seus soldados de pé e a atirar até ao fim. Os generais obtiveram promoções, medalhas e estátuas, normalmente equestres. Os seus homens morreram na lama.”
O texto acima transcrito abre o capítulo 27 (pag. 523), de “A Riqueza e a Pobreza das Nações – Porque são algumas tão ricas e outras tão pobres”, da autoria de David S. Landes. Trata-se, naturalmente, de uma obra que nos faz viajar ao longo de vários séculos. E que se apresenta hoje, mais do que nunca, de extrema utilidade. Principalmente, quando teimamos em ignorar fenómenos que nos estão próximos. Ou quando pretendemos transformar o nosso desejo em realidade e damos importância ao que significa pouco mais do que nada. Digamos que, em última análise, estamos perante uma obra de leitura obrigatória. Não só para quantos lidam e trabalham com questões ligadas ao desenvolvimento, mas, também e especialmente, membros de organizações não governamentais. Como princípio, como base para a compreensão de que não são projectos isolados que motivam o desenvolvimento de um país. Tão pouco apenas dinheiro ou donativos. Que, se úteis e necessários, apenas mitigam situações ocasionais, apenas podem resolver problemas conjunturais. Pouco mais do que isso. Talvez nada mais do que isso. Desenvolvimento exige, naturalmente, planos concertados e concentrados. Resultantes ou que vão ao encontro de uma vontade e de uma motivação internas, nacionais. O desenvolvimento pode fazer-se com ajuda, pode requerer ajuda externa. Mas é, inevitavelmente, um processo interno. Um processo que não pode ser feito de fora para dentro. E cujos resultados não se situam apenas no terreno das percentagens. Consistem em mais do que meros números.
Publicado em Mpauto, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 21, 2006
antes e depois
Luís David
no fundo da gaveta do esquecimento
Coloquemos a questão, façamos a pergunta: Acaso alguém sabe quantas toneladas de drogas pesadas já foram apreendidas neste país? Digamos, por exemplo, nos últimos dez anos. Muito provavelmente, a resposta será evasiva. Se não, mesmo, negativa. Mas, também poderemos questionar quantas toneladas dessas drogas apreendidas foram, efectivamente, destruídas. Também aqui, muito provavelmente, não teremos uma resposta concreta, uma resposta única, uma resposta oficial. De resto – e isso todos o sabemos – a droga não foi produzida para ser destruída. Foi produzida e corre mundo para ser consumida. Por quem dela depende. Interessante, curioso, é saber que várias toneladas de droga aprendidas em Inhambane, há alguns anos, ainda aguardam por oportunidade pare serem destruídas. E que foi necessária uma visita de trabalho do Presidente do Tribunal Supremo àquela província, para se decidir a sua transferência para Maputo. Por falta de condições locais para a destruição. Aceitemos que sim. Mas, concordemos, dois/três anos é muito tempo, é uma longa espera. Tempo demasiado para criar a tentação do desvio. O apetite do negócio por conta própria.
Passa mais de uma semana que foi noticiada a apreensão de uma tonelada de haxixe, na cidade de Maputo. Apreensão efectuada de forma algo bizarra, algo estranha, segundo os relatos da época. Acontece, os dias continuam a passar calmos. O tempo corre sereno. Nomes dos traficantes, continuamos a não ter o direito de saber. Resultados das investigações já efectuadas, nada. Só há segredo. A única coisa que há, é segredo. Um segredo misterioso. Como misterioso terá sido o desaparecimento do suposto proprietário da droga. Em pleno dia, no populoso Bairro do Aeroporto. Um desaparecimento que, certamente, perante o olhar mais atento de quantos lhe estavam próximo, só terá sido possível por artes mágicas. Ou se assim convier, com o apoio ou os favores de algum deus menor. A história recente do crime organizado, em Moçambique, já nos mostrou como se pode invocar a protecção divida, ou a inspiração numa divindade, como alibi para a fuga de uma cadeia. Mas, deixando para além a fuga do suposto proprietário, hoje parece não se saber se a droga ainda está ou não no armazém onde foi descarregada. Ao certo, ninguém confirma, ninguém arrisca em dizer que sim. Mas, também ninguém desmente, ninguém diz que não. Aparentemente, parece haver um mal disfarçado interesse para arrumar o assunto na gaveta do esquecimento. Lá bem no fundo da gaveta do esquecimento.
antes e depois
Luís David
no fundo da gaveta do esquecimento
Coloquemos a questão, façamos a pergunta: Acaso alguém sabe quantas toneladas de drogas pesadas já foram apreendidas neste país? Digamos, por exemplo, nos últimos dez anos. Muito provavelmente, a resposta será evasiva. Se não, mesmo, negativa. Mas, também poderemos questionar quantas toneladas dessas drogas apreendidas foram, efectivamente, destruídas. Também aqui, muito provavelmente, não teremos uma resposta concreta, uma resposta única, uma resposta oficial. De resto – e isso todos o sabemos – a droga não foi produzida para ser destruída. Foi produzida e corre mundo para ser consumida. Por quem dela depende. Interessante, curioso, é saber que várias toneladas de droga aprendidas em Inhambane, há alguns anos, ainda aguardam por oportunidade pare serem destruídas. E que foi necessária uma visita de trabalho do Presidente do Tribunal Supremo àquela província, para se decidir a sua transferência para Maputo. Por falta de condições locais para a destruição. Aceitemos que sim. Mas, concordemos, dois/três anos é muito tempo, é uma longa espera. Tempo demasiado para criar a tentação do desvio. O apetite do negócio por conta própria.
Passa mais de uma semana que foi noticiada a apreensão de uma tonelada de haxixe, na cidade de Maputo. Apreensão efectuada de forma algo bizarra, algo estranha, segundo os relatos da época. Acontece, os dias continuam a passar calmos. O tempo corre sereno. Nomes dos traficantes, continuamos a não ter o direito de saber. Resultados das investigações já efectuadas, nada. Só há segredo. A única coisa que há, é segredo. Um segredo misterioso. Como misterioso terá sido o desaparecimento do suposto proprietário da droga. Em pleno dia, no populoso Bairro do Aeroporto. Um desaparecimento que, certamente, perante o olhar mais atento de quantos lhe estavam próximo, só terá sido possível por artes mágicas. Ou se assim convier, com o apoio ou os favores de algum deus menor. A história recente do crime organizado, em Moçambique, já nos mostrou como se pode invocar a protecção divida, ou a inspiração numa divindade, como alibi para a fuga de uma cadeia. Mas, deixando para além a fuga do suposto proprietário, hoje parece não se saber se a droga ainda está ou não no armazém onde foi descarregada. Ao certo, ninguém confirma, ninguém arrisca em dizer que sim. Mas, também ninguém desmente, ninguém diz que não. Aparentemente, parece haver um mal disfarçado interesse para arrumar o assunto na gaveta do esquecimento. Lá bem no fundo da gaveta do esquecimento.
Publicado em Maputo, Moçambique jo Jornal Domingo de Maio 14, 2006
antes e depois
Luís David
informações evasivas
Parece confirmado que Moçambique é um corredor de droga. Que há droga que entra e que sai, que passa, que circula pelo território nacional. Indo e vindo das mais diversas partes do mundo. Transportada por barco ou por avião. Muito possivelmente, também por terra. Confirmado pode estar, também, que nunca se saberá quem é o verdadeiro dono do produto. Esta semana, as Alfândegas apreenderam mais uma tonelada de droga. Que entrara no país, desta vez, através do Porto de Maputo. Mas, até ao momento, com nome e com rosto, existe apenas o motorista que transportou o contentor até um bairro da periferia. Contratado, horas antes, na praça onde se perfilam viaturas de aluguer. Quem enviou e quem recebeu o contentor, os nomes do remetente e do receptor, ninguém sabe. Ou, se sabe, ninguém quer dizer. O que se sabe, é que quem contratou o motorista teve tempo para fugir. Quando o contentor começava a ser descarregado. Deixando abandonada, também, a viatura em que se fazia transportar. Terminada a história, as Alfândegas dizem ter cumprido a sua missão. Que daqui por diante, o assunto é com a Polícia. A Polícia, diz que nada diz. O que, à partida, significar que a história se repete. Que, mais ou menos detalhe, a história pode vir a repetir-se.
É, a todos os títulos, compreensível que a Polícia não pode divulgar aquilo que não sabe. Ou, não tem a certeza de saber. Como é aceitável que evite divulgar qualquer informação que possa vir a comprometer o trabalho de investigação. Mas, convenhamos, há limites para tudo. Até para o sigilo da investigação. É que o sigilo ou o segredo, quando levados ao extremo, podem levar à falta de transparência na investigação. Como podem ser sua consequência directa. Dizer, informar, simplesmente, que o assunto está a ser investigado, é o mesmo que dizer nada. Ou a justificação por não ter feito nada. Pior ainda, pode ser uma forma, primária, para tentar esconder o que já se conhece e deseja que não seja do domínio público. Invariavelmente, a falta de informação correcta, a falta do relato de factos verdadeiros, conduz à especulação. Conduz ao boato e leva à intriga, cria a suspeição a suspeita. Ora, neste caso concreto, no caso da apreensão, esta semana, de uma tonelada de droga, não revelar o nome do destinatário ou do intermediário significa, no mínimo falta de transparência. Mais, e sem entrar no campo da especulação, pode haver quem entenda esta atitude como de encobrimento de nomes. De protecção a traficantes, mesmo que involuntária. Há que reter, sobretudo, que depois dos espaços informativos que o assunto mereceu, não é possível ficar calado. Ou, pior, prestar informações evasivas.
antes e depois
Luís David
informações evasivas
Parece confirmado que Moçambique é um corredor de droga. Que há droga que entra e que sai, que passa, que circula pelo território nacional. Indo e vindo das mais diversas partes do mundo. Transportada por barco ou por avião. Muito possivelmente, também por terra. Confirmado pode estar, também, que nunca se saberá quem é o verdadeiro dono do produto. Esta semana, as Alfândegas apreenderam mais uma tonelada de droga. Que entrara no país, desta vez, através do Porto de Maputo. Mas, até ao momento, com nome e com rosto, existe apenas o motorista que transportou o contentor até um bairro da periferia. Contratado, horas antes, na praça onde se perfilam viaturas de aluguer. Quem enviou e quem recebeu o contentor, os nomes do remetente e do receptor, ninguém sabe. Ou, se sabe, ninguém quer dizer. O que se sabe, é que quem contratou o motorista teve tempo para fugir. Quando o contentor começava a ser descarregado. Deixando abandonada, também, a viatura em que se fazia transportar. Terminada a história, as Alfândegas dizem ter cumprido a sua missão. Que daqui por diante, o assunto é com a Polícia. A Polícia, diz que nada diz. O que, à partida, significar que a história se repete. Que, mais ou menos detalhe, a história pode vir a repetir-se.
É, a todos os títulos, compreensível que a Polícia não pode divulgar aquilo que não sabe. Ou, não tem a certeza de saber. Como é aceitável que evite divulgar qualquer informação que possa vir a comprometer o trabalho de investigação. Mas, convenhamos, há limites para tudo. Até para o sigilo da investigação. É que o sigilo ou o segredo, quando levados ao extremo, podem levar à falta de transparência na investigação. Como podem ser sua consequência directa. Dizer, informar, simplesmente, que o assunto está a ser investigado, é o mesmo que dizer nada. Ou a justificação por não ter feito nada. Pior ainda, pode ser uma forma, primária, para tentar esconder o que já se conhece e deseja que não seja do domínio público. Invariavelmente, a falta de informação correcta, a falta do relato de factos verdadeiros, conduz à especulação. Conduz ao boato e leva à intriga, cria a suspeição a suspeita. Ora, neste caso concreto, no caso da apreensão, esta semana, de uma tonelada de droga, não revelar o nome do destinatário ou do intermediário significa, no mínimo falta de transparência. Mais, e sem entrar no campo da especulação, pode haver quem entenda esta atitude como de encobrimento de nomes. De protecção a traficantes, mesmo que involuntária. Há que reter, sobretudo, que depois dos espaços informativos que o assunto mereceu, não é possível ficar calado. Ou, pior, prestar informações evasivas.
terça-feira, maio 09, 2006
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Maio 7, 2006
antes e depois
Luís David
cuidado com os abutres
O termo corrupção aparece com relativa frequência na nossa linguagem. Na linguagem do dia-a-dia, na linguagem de todos os dias. Mas e infelizmente, na maioria dos casos, a corrupção doméstica continua sem produzir corruptos. Será, em última análise ou em última instância, um fenómeno híbrido. Pelo menos, assim o parece querer fazer acreditar quem defende que não há corruptos sem corruptores. O que é verdade. Como verdade é o inverso. Como é verdade que não há corruptores sem corruptos. Ora, a afirmação primeira, a firmação de que não há corruptos sem corruptores, encerra, à partida, um perigo. O perigo de constituir não só o primeiro passo para a aceitar a corrupção mas a aceitação, implícita, da conivência com os corruptos. Pode até ser, em última análise, a forma acabada para legitimar a corrupção. Mesmo sabendo e sabendo-se que se corrupção representa um custo ou um prejuízo para o cidadão, em nada ou em caso algum pode beneficiar o Estado. Pode, na generalidade dos casos, ter reflexos, maiores ou menores, nas receitas públicas. Logo, no geral, todos os cidadãos saem prejudicados.
Temos de concordar que, não raras vezes, o combate à corrupção começa e acaba no discurso oficial. Ou que os resultados das acções desencadeadas não são conhecidos, não são divulgados. A menos que o termo corrupção se preste a uma interpretação de tal forma lata, que não tenha para todos o mesmo sentido. O mesmo significado. Ou que situações que conhecemos, directa ou indirectamente, devam ser definidas como extorsão ou, em última análise, como tentativa de. Desta forma, estaríamos perante casos de corrupção por extorsão. Que os há por aí. Deitando, assim, por terra a tese que não há corrupto sem corruptor. Ora, são conhecidos e corriqueiros os casos das multas sobre infracções ás regras de trânsito. Assim como estes assuntos são resolvidos no local da infracção. Algumas vezes provocadas pelo próprio agente. Como, por exemplo, acontece num dos cruzamentos da Avenida 24 de Julho. Onde uma peanha, aparentemente abandonada, não passa de uma “ratoeira”. É que o agente, que devia regular o trânsito, está metros à frente a mandar parar quem não efectuou a viragem como ele pretendia. Depois, as multas devem ser tantas que seria interessante conhecer as receitas cobradas a favor do Estado. Ou se sequer há controlo sobre o livro de multas. Ora, também há situações, também há casos, bem diferentes. Digamos, mais sofisticados. E, nesta segunda categoria, podem enquadrar-se aqueles que levam o cidadão a recorrer a um qualquer serviço público. Para obter um qualquer documento. Pior, mas muito pior, quando se trata de documento para aceder a benefício concedido pelo Estado. Não que o Estado, como Estado, conceda e não queira entregar o que concedeu. Não é isso. O que parece estar a acontecer é a existências de funcionários que se sentem no direito de partilhar o benefício concedido. E vai daí, ensaiem todo o género de jogadas, todo o género de manobras, para demorar para retardar o processo. Sempre e invariavelmente com recurso às desculpas mais esfarrapadas ou mais exóticas. Num processo que se arrasta por meses. Que chega a demorar mais de um ano, segundo afirma quem está por dentro do assunto. É que, primeiro, a verba já está esgotada. Depois, cerca de dois meses depois, após deslocações e perdas de tempo evitáveis, o mais difícil já está feito. Só falta o director assinar. Venha para a semana. Mais tarde, afinal, nem tudo estava bem: O computador de outra entidade, maldito do computador, não imprimiu as últimas linhas de um documento. É preciso outro. Substituído que foi, parecia que tudo estaria bem. Finalmente. Mas, não, ainda não. O director, para assinar, necessitava de mais um parecer do director que emitira o documento inicial. Algumas semanas mais tarde, o tal parecer fez-se presente. Então, é quando surge nova informação: Parece que a verba já está esgotada. É claro que não estava. Mas tinham passado oito meses desde o início do processo, com alguns recados bem claros pelo meio. Do género: “O chefe acaba de telefonar a dizer que fulano veio falar com ele”. Resposta: “Outra vez? Isso é só para dizer que falou com o chefe. Não adianta nada”. Ora, saber se estamos perante casos de corrupção ou de extorsão, é pura retórica. Mas, cuidado com os abutres.
antes e depois
Luís David
cuidado com os abutres
O termo corrupção aparece com relativa frequência na nossa linguagem. Na linguagem do dia-a-dia, na linguagem de todos os dias. Mas e infelizmente, na maioria dos casos, a corrupção doméstica continua sem produzir corruptos. Será, em última análise ou em última instância, um fenómeno híbrido. Pelo menos, assim o parece querer fazer acreditar quem defende que não há corruptos sem corruptores. O que é verdade. Como verdade é o inverso. Como é verdade que não há corruptores sem corruptos. Ora, a afirmação primeira, a firmação de que não há corruptos sem corruptores, encerra, à partida, um perigo. O perigo de constituir não só o primeiro passo para a aceitar a corrupção mas a aceitação, implícita, da conivência com os corruptos. Pode até ser, em última análise, a forma acabada para legitimar a corrupção. Mesmo sabendo e sabendo-se que se corrupção representa um custo ou um prejuízo para o cidadão, em nada ou em caso algum pode beneficiar o Estado. Pode, na generalidade dos casos, ter reflexos, maiores ou menores, nas receitas públicas. Logo, no geral, todos os cidadãos saem prejudicados.
Temos de concordar que, não raras vezes, o combate à corrupção começa e acaba no discurso oficial. Ou que os resultados das acções desencadeadas não são conhecidos, não são divulgados. A menos que o termo corrupção se preste a uma interpretação de tal forma lata, que não tenha para todos o mesmo sentido. O mesmo significado. Ou que situações que conhecemos, directa ou indirectamente, devam ser definidas como extorsão ou, em última análise, como tentativa de. Desta forma, estaríamos perante casos de corrupção por extorsão. Que os há por aí. Deitando, assim, por terra a tese que não há corrupto sem corruptor. Ora, são conhecidos e corriqueiros os casos das multas sobre infracções ás regras de trânsito. Assim como estes assuntos são resolvidos no local da infracção. Algumas vezes provocadas pelo próprio agente. Como, por exemplo, acontece num dos cruzamentos da Avenida 24 de Julho. Onde uma peanha, aparentemente abandonada, não passa de uma “ratoeira”. É que o agente, que devia regular o trânsito, está metros à frente a mandar parar quem não efectuou a viragem como ele pretendia. Depois, as multas devem ser tantas que seria interessante conhecer as receitas cobradas a favor do Estado. Ou se sequer há controlo sobre o livro de multas. Ora, também há situações, também há casos, bem diferentes. Digamos, mais sofisticados. E, nesta segunda categoria, podem enquadrar-se aqueles que levam o cidadão a recorrer a um qualquer serviço público. Para obter um qualquer documento. Pior, mas muito pior, quando se trata de documento para aceder a benefício concedido pelo Estado. Não que o Estado, como Estado, conceda e não queira entregar o que concedeu. Não é isso. O que parece estar a acontecer é a existências de funcionários que se sentem no direito de partilhar o benefício concedido. E vai daí, ensaiem todo o género de jogadas, todo o género de manobras, para demorar para retardar o processo. Sempre e invariavelmente com recurso às desculpas mais esfarrapadas ou mais exóticas. Num processo que se arrasta por meses. Que chega a demorar mais de um ano, segundo afirma quem está por dentro do assunto. É que, primeiro, a verba já está esgotada. Depois, cerca de dois meses depois, após deslocações e perdas de tempo evitáveis, o mais difícil já está feito. Só falta o director assinar. Venha para a semana. Mais tarde, afinal, nem tudo estava bem: O computador de outra entidade, maldito do computador, não imprimiu as últimas linhas de um documento. É preciso outro. Substituído que foi, parecia que tudo estaria bem. Finalmente. Mas, não, ainda não. O director, para assinar, necessitava de mais um parecer do director que emitira o documento inicial. Algumas semanas mais tarde, o tal parecer fez-se presente. Então, é quando surge nova informação: Parece que a verba já está esgotada. É claro que não estava. Mas tinham passado oito meses desde o início do processo, com alguns recados bem claros pelo meio. Do género: “O chefe acaba de telefonar a dizer que fulano veio falar com ele”. Resposta: “Outra vez? Isso é só para dizer que falou com o chefe. Não adianta nada”. Ora, saber se estamos perante casos de corrupção ou de extorsão, é pura retórica. Mas, cuidado com os abutres.
quarta-feira, maio 03, 2006
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Abril 30, 2006
antes e depois
Luís David
ver o país com olhos moçambicanos
Sem que o facto tenha alguma vez sido explicado, analisado, revelamos uma teimosa tendência para exagerar nos números. Uma teimosa, uma perigosa, tendência para aceitar ler e interpretar números de forma defeituosa. Seguindo normas e preceitos que pouco, muitas das vezes nada, têm a ver com a nossa realidade. Seguindo, talvez, critérios de leitura e de análise impostos. E que podem, em última análise, alterar a realidade caseira. Sendo que conceitos e métodos de análise não são estáticos, sendo que estão em permanente transformação, parece necessária e oportuna alguma explicação. Sobretudo em relação aos critérios seguidos em determinadas circunstâncias, em determinados casos concretos. Se assim não for e enquanto assim não acontecer, continuaremos a correr o risco de só conseguir ver o país através de olhos estrangeiros. Os números, as estatísticas, são úteis e são necessárias. Mas, em absoluto, valem o que valem. Valem aquilo que cada um quiser que valha. E, podem, até, valer pouco ou nada. Sequer vale a pena citar casos concretos.
Depois, aquilo que nos dizem ser bom e verdadeiro, aceitamos. Boamente. Somos, de facto, muito bons. Só assim se entende que aceitemos o que parece inaceitável. Que aceitemos o que parece incrível. Aquilo que na nossa realidade e perante a nossa realidade faz pouco sentido. É que, organismos de estatística de vários países realizaram, recentemente, um inquérito ao sector informal nacional que, segundo dados preliminares, emprega doze milhões de pessoas (“Notícias”, 28 de Abril de 2206). O matutino começa por escrever que O sector informal no país emprega mais de 87 por cento dos cerca de 14.401.500 indivíduos com idades superiores a sete anos. E, acrescenta que o informal movimenta um volume de negócios na ordem de dois mil milhões de meticais por ano. Ora, salvo melhor opinião e com o devido respeito, parece haver alguns equívocos. O primeiro, é que trabalho não significa emprego. Ele há pessoas que podem trabalhar uma vida inteira sem alguma vez terem tido emprego. A menos que emprega não signifique empregar. Signifique dar trabalho. Se assim é, ficamos a saber que se pode trabalhar a partir dos sete anos de idade. Mas, mais e pior, ficamos também a saber que, a partir dos sete anos, já ninguém vai à escola. Está tudo no informal. Ora, a forma absolutista e radical como os números são divulgados, cria uma visão deturpada da realidade do país. A menos que haja alguma conveniência, que haja algum interesse muito bem escondido, para classificar o camponês produtor de algodão, de tabaco ou de milho, o criador de bovinos ou de caprinos, o produtor de carvão e o pescador, como informais. Se assim é, este país é, na sua essência e ele próprio, um país informal. Ora, seja ou não difícil e doloroso, temos de nos habituar a ver o país com olhos moçambicanos.
antes e depois
Luís David
ver o país com olhos moçambicanos
Sem que o facto tenha alguma vez sido explicado, analisado, revelamos uma teimosa tendência para exagerar nos números. Uma teimosa, uma perigosa, tendência para aceitar ler e interpretar números de forma defeituosa. Seguindo normas e preceitos que pouco, muitas das vezes nada, têm a ver com a nossa realidade. Seguindo, talvez, critérios de leitura e de análise impostos. E que podem, em última análise, alterar a realidade caseira. Sendo que conceitos e métodos de análise não são estáticos, sendo que estão em permanente transformação, parece necessária e oportuna alguma explicação. Sobretudo em relação aos critérios seguidos em determinadas circunstâncias, em determinados casos concretos. Se assim não for e enquanto assim não acontecer, continuaremos a correr o risco de só conseguir ver o país através de olhos estrangeiros. Os números, as estatísticas, são úteis e são necessárias. Mas, em absoluto, valem o que valem. Valem aquilo que cada um quiser que valha. E, podem, até, valer pouco ou nada. Sequer vale a pena citar casos concretos.
Depois, aquilo que nos dizem ser bom e verdadeiro, aceitamos. Boamente. Somos, de facto, muito bons. Só assim se entende que aceitemos o que parece inaceitável. Que aceitemos o que parece incrível. Aquilo que na nossa realidade e perante a nossa realidade faz pouco sentido. É que, organismos de estatística de vários países realizaram, recentemente, um inquérito ao sector informal nacional que, segundo dados preliminares, emprega doze milhões de pessoas (“Notícias”, 28 de Abril de 2206). O matutino começa por escrever que O sector informal no país emprega mais de 87 por cento dos cerca de 14.401.500 indivíduos com idades superiores a sete anos. E, acrescenta que o informal movimenta um volume de negócios na ordem de dois mil milhões de meticais por ano. Ora, salvo melhor opinião e com o devido respeito, parece haver alguns equívocos. O primeiro, é que trabalho não significa emprego. Ele há pessoas que podem trabalhar uma vida inteira sem alguma vez terem tido emprego. A menos que emprega não signifique empregar. Signifique dar trabalho. Se assim é, ficamos a saber que se pode trabalhar a partir dos sete anos de idade. Mas, mais e pior, ficamos também a saber que, a partir dos sete anos, já ninguém vai à escola. Está tudo no informal. Ora, a forma absolutista e radical como os números são divulgados, cria uma visão deturpada da realidade do país. A menos que haja alguma conveniência, que haja algum interesse muito bem escondido, para classificar o camponês produtor de algodão, de tabaco ou de milho, o criador de bovinos ou de caprinos, o produtor de carvão e o pescador, como informais. Se assim é, este país é, na sua essência e ele próprio, um país informal. Ora, seja ou não difícil e doloroso, temos de nos habituar a ver o país com olhos moçambicanos.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
