Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Agosto 13, 2006
antes e depois
Luís David
mais de uma Cahora Bassa
Acontece por vezes. Pode acontecer muitas vezes. Duas ou mais pessoas empregarem as mesmas palavras, utilizarem os mesmos termos. Mas não se entenderem, não estarem a falar da mesma coisa. É que as palavras e os termos, sendo os mesmos, podem não estar a ser utilizados com o mesmo sentido, com o mesmo significado. E, isto nas questões mais simples como nas mais complexas. Em termos presentes, exemplo de aparente desencontro é Cahora Bassa. É que, muito que se tem dito, muito que se tem escrito, sobre ou acerca da Barragem. Sendo que a dúvida que sobressai, a questão que se pode colocar, é se todos os actores, se todos os autores, estão a pronunciar-se sobre uma e a mesma coisa. Se Cahora Bassa é, afinal, coisa única. E se, mesmo sendo coisa única, é possível dela termos uma visão única. E unificada. Ou se, mesmo sendo coisa única, a posição e o posicionamento individual de cada um, conduz, ou pode conduzir a percepções diferentes. Nesta perspectiva, poderão existir tantas Cahora Bassa quantos os observadores, tantas Cahora Bassa quanto a percepção de cada um dos observadores. Sejam eles muitos ou poucos.
Todos sabemos que Cahora Bassa é um assunto, é um tema caro a muitos moçambicanos. Obviamente, que não só pela Barragem em si própria. Mas, pelo que ela significa, pelo que ela simboliza. Também, e sobretudo, por motivo do longo, entortado e torturante processo de negociação. Que tem por objectivo, que se pretende conduza à passagem do seu controlo para o Estado moçambicano. Que tem por objectivo, repita-se, ainda não alcançado. Ora, parece ser precisamente aqui que surgem as tais diferentes visões sobre uma mesma Cahora Bassa. Muito provavelmente, por falta de um exercício que conduza ao recordar dos factos e à avaliação da história das últimas três décadas. Mas, também, de um exercício que permita avaliar se a Cahora Bassa a que se referem os Acordos de Lusaca é a mesma de que estamos a falar no presente. Ou se não é. No concreto, parece ser aqui que se confrontam as diferentes percepções sobre Cahora Bassa. Por um lado, há quem pense ser possível trazer, hoje, para a mesa das negociações a Barragem tal como existia e era vista e entendida em 1975. Por outro lado, pode haver quem entenda recordar que as mais de 600 torres de transporte de energia para a África do Sul não caíram com o vento. Que foram derrubadas, que foram sabotadas em nome de uma causa. Que até poderá ter encontrado simpatia por parte de pessoas próximas a sucessivos Governos de Portugal. Quando não apoio, mais ou menos camuflado. Assim vista a questão, poderá haver mais de uma Cahora Bassa.
domingo, agosto 13, 2006
sexta-feira, agosto 11, 2006
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Agosto 6, 2006
antes e depois
Luís David
traça a política quem tem o dinheiro
A crise no Médio Oriente, o conflito entre Israel e o Líbano, parece longe do fim. Ao certo, a Conferência de Roma não produziu os resultados desejados, não foi conseguido um cessar-fogo. Não importa neste espaço, saber quem tem ou não tem razão. È que, para além da razão, há aspectos que parece importante reter. Há aspectos em que vale a pena pensar. Meditar. Por exemplo, no número de mortos, de um e de outro lado. Na destruição de edifícios e de infra-estruturas. No quanto irá custar reconstruir o que foi destruído em poucos dias. Certamente, muitas centenas de milhar de dólares norte-americanos. A que se terá de adicionar o custo do armamento. Que alguém terá de pagar a alguém. Infalivelmente. É cedo para vaticinar quem irá ganhar e quem irá perder esta guerra. O que se pode afirmar é que quem está a ganhar são as indústrias de armamento. Mas, como todos o sabemos, o mundo tem muitas injustiças. Tem destas injustiças. Uns, podem comprar as mais sofisticadas armas para se matarem, para se liquidarem reciprocamente. Outros, poucos são os meios que possuem para evitar morrer devido a uma doença banal e de fácil cura. Quando não devido à fome.
Autoridade sanitárias nacionais divulgaram, há poucos dias, que a malária matou mais de três mil pessoas em Moçambique, apenas no primeiro semestre do corrente ano. Um número de mortes elevado, um número de mortes deveras elevado. Provocado pela simples picada de um mosquito. Certamente, muitos mais milhares perderam a vida por toda a África, no mesmo espaço de tempo. Ora, a malária é uma doença que tem cura. Digamos, até, que é de fácil diagnóstico e de fácil tratamento. Que há muito devia ter sido erradicada do nosso Continente. E que se o não foi, como de facto não foi, não é por falta de conhecimentos científicos. É por motivos outros e bem diferentes. É, muito simplesmente, por falta de dinheiro para comprar medicamentos. É, muito simplesmente por falta de dinheiro para construir fábricas e produzir medicamentos a baixo custo. Quer a doença se chame malária ou HIV/SIDA. É, muito simplesmente, porque ninguém investe numa fábrica de medicamentos quando, depois, não há dinheiro para comprar esses mesmos medicamentos. E aqui chegados, pode colocar-se uma questão. Bem simples. A questão de saber quantas fábricas de medicamentos poderiam ter sido construídas em países africanos com os milhões de dólares já gastos na guerra entre Israel e o Líbano. Ou, até, sendo mais modestos, com o dinheiro gasto em actividades diplomáticas para conseguir o fim do conflito. Certamente, muitas. E, certamente, também, muitos milhares de pessoas deixariam de continuar a morrer por doenças tão facilmente curáveis como a malária. O que sendo, de facto, uma questão de dinheiro também é, em primeiro lugar, uma questão política. Ou seja, que traça a política quem tem o dinheiro.
antes e depois
Luís David
traça a política quem tem o dinheiro
A crise no Médio Oriente, o conflito entre Israel e o Líbano, parece longe do fim. Ao certo, a Conferência de Roma não produziu os resultados desejados, não foi conseguido um cessar-fogo. Não importa neste espaço, saber quem tem ou não tem razão. È que, para além da razão, há aspectos que parece importante reter. Há aspectos em que vale a pena pensar. Meditar. Por exemplo, no número de mortos, de um e de outro lado. Na destruição de edifícios e de infra-estruturas. No quanto irá custar reconstruir o que foi destruído em poucos dias. Certamente, muitas centenas de milhar de dólares norte-americanos. A que se terá de adicionar o custo do armamento. Que alguém terá de pagar a alguém. Infalivelmente. É cedo para vaticinar quem irá ganhar e quem irá perder esta guerra. O que se pode afirmar é que quem está a ganhar são as indústrias de armamento. Mas, como todos o sabemos, o mundo tem muitas injustiças. Tem destas injustiças. Uns, podem comprar as mais sofisticadas armas para se matarem, para se liquidarem reciprocamente. Outros, poucos são os meios que possuem para evitar morrer devido a uma doença banal e de fácil cura. Quando não devido à fome.
Autoridade sanitárias nacionais divulgaram, há poucos dias, que a malária matou mais de três mil pessoas em Moçambique, apenas no primeiro semestre do corrente ano. Um número de mortes elevado, um número de mortes deveras elevado. Provocado pela simples picada de um mosquito. Certamente, muitos mais milhares perderam a vida por toda a África, no mesmo espaço de tempo. Ora, a malária é uma doença que tem cura. Digamos, até, que é de fácil diagnóstico e de fácil tratamento. Que há muito devia ter sido erradicada do nosso Continente. E que se o não foi, como de facto não foi, não é por falta de conhecimentos científicos. É por motivos outros e bem diferentes. É, muito simplesmente, por falta de dinheiro para comprar medicamentos. É, muito simplesmente por falta de dinheiro para construir fábricas e produzir medicamentos a baixo custo. Quer a doença se chame malária ou HIV/SIDA. É, muito simplesmente, porque ninguém investe numa fábrica de medicamentos quando, depois, não há dinheiro para comprar esses mesmos medicamentos. E aqui chegados, pode colocar-se uma questão. Bem simples. A questão de saber quantas fábricas de medicamentos poderiam ter sido construídas em países africanos com os milhões de dólares já gastos na guerra entre Israel e o Líbano. Ou, até, sendo mais modestos, com o dinheiro gasto em actividades diplomáticas para conseguir o fim do conflito. Certamente, muitas. E, certamente, também, muitos milhares de pessoas deixariam de continuar a morrer por doenças tão facilmente curáveis como a malária. O que sendo, de facto, uma questão de dinheiro também é, em primeiro lugar, uma questão política. Ou seja, que traça a política quem tem o dinheiro.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Julho 23, 2006
antes e depois
Luís David
um cheque “careca”
Bem andou Joaquim Chissano, enquanto Presidente da República, ao tentar fazer reverter a hidroeléctrica de Cahora Bassa para Moçambique. Já perto do fim do seu mandato manifestou, até, publicamente, o desejo de deixar encerrado o “dossier” HCB antes de deixar a Presidência da República. Não haveria de o conseguir. Apesar de as promessas serem muitas e ao mais alto nível. Apesar de ter havido alguns avanços nas conversações. Mas, a realidade é que os recuos foram sempre maiores. Depois, a Chissano sucedeu Guebuza. E, o desejo de ver revertida a HCB para Moçambique foi renovado e repetido. O processo de negociação, bastas vezes interrompido por crises políticas em Portugal, retomado. O montante a pagar por Moçambique, acordado. Finalmente, em Novembro do ano passado, os dois países assinaram um memorando de entendimento. Em Lisboa e ao mais alto nível. Parecia que, assim, estava a ser virada uma página na história dos dois países, Mas, não. Sabe-se hoje que não. É que Portugal, por si só, não pode, não tem poderes, não está credenciado para vender o que é seu. O que construiu em país terceiro, embora com objectivos colonialistas. De facto, quanto pode a globalização. Como é grande o poder dos globalizadores de hoje.
Por maior que tenha sido a pressão de Moçambique para assinar, em Novembro do ano passado, o memorando de entendimento com Portugal, algo de estranho deverá ter sucedido então. Ou, outra hipótese, algo de anormal aconteceu de Novembro para cá. É que custa perceber que, no acto da assinatura, o governante português não soubesse que a União Europeia tinha, como parece continuar a ter, a última palavra a dizer sobre o negócio. Mas, até podemos conceder o benefício da dúvida. Até podemos admitir que não sabia. Neste caso, nesta hipótese, seria correcto vir dizer, publicamente, que não conhecia as implicações para o seu país, do documento que assinou em nome de Portugal. O que, para alguns ou visto à distância, no tempo e no espaço, poderia ser interpretado como uma prova de fraqueza. Digamos, mesmo, de incompetência. Mas, por outro lado, se sabia, se sabia que o documento que assinou só tem validade quando sancionado por órgão competente da União Europeia, deveria tê-lo dito na ocasião. É que assim, vistas as coisas como as estamos a observar no momento actual, fica-se com a sensação que algo não correu bem. Que as palavras foram apenas palavras de ocasião. E que pouco ou nada têm a ver com os actos. Logo, que as intenções manifestadas não passaram, até hoje, disso mesmo. De intenções. Ou, se quisermos usar uma linguagem bancária, o memorando de entendimento sobre a HCB tem, para Moçambique, o valor que tem um cheque sem cobertura, um cheque sem provisão. Ou, como é dizer do povo, deram-nos um cheque “careca”.
antes e depois
Luís David
um cheque “careca”
Bem andou Joaquim Chissano, enquanto Presidente da República, ao tentar fazer reverter a hidroeléctrica de Cahora Bassa para Moçambique. Já perto do fim do seu mandato manifestou, até, publicamente, o desejo de deixar encerrado o “dossier” HCB antes de deixar a Presidência da República. Não haveria de o conseguir. Apesar de as promessas serem muitas e ao mais alto nível. Apesar de ter havido alguns avanços nas conversações. Mas, a realidade é que os recuos foram sempre maiores. Depois, a Chissano sucedeu Guebuza. E, o desejo de ver revertida a HCB para Moçambique foi renovado e repetido. O processo de negociação, bastas vezes interrompido por crises políticas em Portugal, retomado. O montante a pagar por Moçambique, acordado. Finalmente, em Novembro do ano passado, os dois países assinaram um memorando de entendimento. Em Lisboa e ao mais alto nível. Parecia que, assim, estava a ser virada uma página na história dos dois países, Mas, não. Sabe-se hoje que não. É que Portugal, por si só, não pode, não tem poderes, não está credenciado para vender o que é seu. O que construiu em país terceiro, embora com objectivos colonialistas. De facto, quanto pode a globalização. Como é grande o poder dos globalizadores de hoje.
Por maior que tenha sido a pressão de Moçambique para assinar, em Novembro do ano passado, o memorando de entendimento com Portugal, algo de estranho deverá ter sucedido então. Ou, outra hipótese, algo de anormal aconteceu de Novembro para cá. É que custa perceber que, no acto da assinatura, o governante português não soubesse que a União Europeia tinha, como parece continuar a ter, a última palavra a dizer sobre o negócio. Mas, até podemos conceder o benefício da dúvida. Até podemos admitir que não sabia. Neste caso, nesta hipótese, seria correcto vir dizer, publicamente, que não conhecia as implicações para o seu país, do documento que assinou em nome de Portugal. O que, para alguns ou visto à distância, no tempo e no espaço, poderia ser interpretado como uma prova de fraqueza. Digamos, mesmo, de incompetência. Mas, por outro lado, se sabia, se sabia que o documento que assinou só tem validade quando sancionado por órgão competente da União Europeia, deveria tê-lo dito na ocasião. É que assim, vistas as coisas como as estamos a observar no momento actual, fica-se com a sensação que algo não correu bem. Que as palavras foram apenas palavras de ocasião. E que pouco ou nada têm a ver com os actos. Logo, que as intenções manifestadas não passaram, até hoje, disso mesmo. De intenções. Ou, se quisermos usar uma linguagem bancária, o memorando de entendimento sobre a HCB tem, para Moçambique, o valor que tem um cheque sem cobertura, um cheque sem provisão. Ou, como é dizer do povo, deram-nos um cheque “careca”.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Julho 23, 2006
antes e depois
Luís David
ministro não é fiscal
Um pouco por todo o país, existem edifícios públicos construídos há muitas dezenas de anos. Na maioria dos casos, trata-se de construções sólidas. Logo, de custo elevado. Na maioria dos casos, serão construções pensadas e concebidas para durar longas décadas. Possam ou não, no tempo presente, necessitar de trabalhos de manutenção ou de reabilitação. O tempo e o uso, assim o podem exigir. Acontece agora, hoje, que muitos dos edifícios públicos parece que são construídos a pensar num tempo de duração medido em anos. Não em décadas. Mas, pior do que esta falta de visão, pior que esta (má) estratégia, é a péssima qualidade do trabalho, da construção em si mesma. Que parece ninguém ver ou não querer ver. Muito recentemente, aí tivemos o que todos o que todos vimos com as casas do Fundo de Fomento da Habitação. Esta semana, foi o governador de Sofala, a fazer de fiscal de obras públicas. A fazer o trabalho que os fiscais não fizeram. Ou fizeram mal. Aconteceu em Marínguè. Onde um escola nova não possuía sanitários para raparigas. E, cúmulo dos cúmulos, as janelas não tinham dobradiças. De facto, a fazer fé nos relatos vindos a público, quando mais se caminha para longe das capitais provinciais, mais distante fica, também, a qualidade do trabalho realizado. Sem qualquer justificação plausível.
A má qualidade de obras públicas não começa nem termina em escolas, postos de saúde ou hospitais. Atinge também artérias urbanas e estradas nacionais onde são investidos muitos milhares de biliões de meticais. Mesmo que da nova família. E, exemplo à vista de todos é o da Estrada Nacional Número Um. Em que a qualidade do trabalho realizado é diferente de troço para troço. Como diferente é o dia da noite. Aqui, temos um pavimento liso e impecável. Mais além, um piso diferente e onde começam a aparecer buracos. Noutro local, onde existe obra de arte, o terreno começa a ceder, a dar origem a sulcos declives com vários centímetros de desnível. Um perigo, já, para a circulação automóvel. Quanto à sinalização vertical, nem vale a pena falar. É, em si mesma um desastre. Com placas a autorizar 100 quilómetros por hora dentro de centros urbanos e, pior, após as quais existem lombas. Simplesmente ridículo e revelador de incompetência. Mas tem mais, tem placas a dar por findo o limite de uma determinada velocidade, sem que exista, anteriormente, qualquer placa de limitação. É caso para perguntar, uma vez mais, por onde anda a fiscalização. O que fazem ou o que fizeram os fiscais da obra. A resposta, terá de ser que não fizeram nada. Que não fizeram o trabalho que é a razão de ser da sua existência e, pelo qual, são pagos. O motivo pelo qual não fizeram o trabalho que deveriam ter feito, fica ao critério da imaginação de cada um. O que não custa prever, é que não irá passar muito tempo sem termos, de novo, um ministro no papel de fiscal. Embora, convenhamos, todos o sabemos, ministro não é fiscal.
antes e depois
Luís David
ministro não é fiscal
Um pouco por todo o país, existem edifícios públicos construídos há muitas dezenas de anos. Na maioria dos casos, trata-se de construções sólidas. Logo, de custo elevado. Na maioria dos casos, serão construções pensadas e concebidas para durar longas décadas. Possam ou não, no tempo presente, necessitar de trabalhos de manutenção ou de reabilitação. O tempo e o uso, assim o podem exigir. Acontece agora, hoje, que muitos dos edifícios públicos parece que são construídos a pensar num tempo de duração medido em anos. Não em décadas. Mas, pior do que esta falta de visão, pior que esta (má) estratégia, é a péssima qualidade do trabalho, da construção em si mesma. Que parece ninguém ver ou não querer ver. Muito recentemente, aí tivemos o que todos o que todos vimos com as casas do Fundo de Fomento da Habitação. Esta semana, foi o governador de Sofala, a fazer de fiscal de obras públicas. A fazer o trabalho que os fiscais não fizeram. Ou fizeram mal. Aconteceu em Marínguè. Onde um escola nova não possuía sanitários para raparigas. E, cúmulo dos cúmulos, as janelas não tinham dobradiças. De facto, a fazer fé nos relatos vindos a público, quando mais se caminha para longe das capitais provinciais, mais distante fica, também, a qualidade do trabalho realizado. Sem qualquer justificação plausível.
A má qualidade de obras públicas não começa nem termina em escolas, postos de saúde ou hospitais. Atinge também artérias urbanas e estradas nacionais onde são investidos muitos milhares de biliões de meticais. Mesmo que da nova família. E, exemplo à vista de todos é o da Estrada Nacional Número Um. Em que a qualidade do trabalho realizado é diferente de troço para troço. Como diferente é o dia da noite. Aqui, temos um pavimento liso e impecável. Mais além, um piso diferente e onde começam a aparecer buracos. Noutro local, onde existe obra de arte, o terreno começa a ceder, a dar origem a sulcos declives com vários centímetros de desnível. Um perigo, já, para a circulação automóvel. Quanto à sinalização vertical, nem vale a pena falar. É, em si mesma um desastre. Com placas a autorizar 100 quilómetros por hora dentro de centros urbanos e, pior, após as quais existem lombas. Simplesmente ridículo e revelador de incompetência. Mas tem mais, tem placas a dar por findo o limite de uma determinada velocidade, sem que exista, anteriormente, qualquer placa de limitação. É caso para perguntar, uma vez mais, por onde anda a fiscalização. O que fazem ou o que fizeram os fiscais da obra. A resposta, terá de ser que não fizeram nada. Que não fizeram o trabalho que é a razão de ser da sua existência e, pelo qual, são pagos. O motivo pelo qual não fizeram o trabalho que deveriam ter feito, fica ao critério da imaginação de cada um. O que não custa prever, é que não irá passar muito tempo sem termos, de novo, um ministro no papel de fiscal. Embora, convenhamos, todos o sabemos, ministro não é fiscal.
sábado, julho 08, 2006
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Julho 9, 2006
antes e depois
Luís David
nada será como dantes
Há alguns meses, tive necessidade de fazer um exame médico. De uma das clínicas da cidade, enviaram-me para o serviço competente no Hospital Central de Maputo. No dia e na hora marcados, lá fui. Enquanto aguardava para ser atendido, aproxima-se de mim alguém com quem não cruzava desde há muito tempo. Ar jovial, sorriso aberto, pergunta: “Já não se lembra de mim?”. “Claro que lembro”, respondo. E, como que a tentar provar que me lembrava de verdade, concluo: “Tanta vez tomávamos café juntos, no Lobito, andava você na Faculdade de Medicina”. E, como que a provar não ter estado parado durante todos estes anos, remata: “Pois, desse tempo, hoje somos todos cirurgiões”. Ora, ao falar “desse tempo”, o meu amigo estava a referir-se aos finais dos anos setenta. Nesse tempo, o café Lobito, que ainda hoje existe, ali na Eduardo Mondlane, funcionava um pouco como centro social do Ministério da Saúde. Mas era, também, frequentado por alguns jornalistas da Revista “Tempo”. De passagem para a Faculdade de Medicina, ali paravam, também, alguns estudantes. As mesas eram poucas, o espaço reduzido. Este condicionalismo ajudava ao convívio, à convivência, à conversa sobre os assuntos mais diversos. É que cada um, ao chegar, sentava-se na mesa onde havia cadeira vaga. Quando havia. Recordo que, entre os frequentadores habituais do Lobito, havia também alguns timorenses. Um belo dia, a conversa girava em torno de curso e de trabalho, de emprego. Foi quando, em tom de brincadeira, talvez em tom de provocação, alguém perguntou a um a dos refugiados daquela colónia portuguesa: “E tu, quando concluíres o curso, o que pensas fazer?”. A resposta, certamente impensada, veio rápida e curta: “Quero ser cooperante”.
Foi no dia 22 de Junho passado que Xanana Gusmão dirigiu uma “mensagem à nação, em tétum, na sua qualidade de Presidente da República de Timor-Leste. Trata-se de uma intervenção pública, feita em plena crise institucional, da qual o “Savana” publica, na sua última edição, excertos traduzidos para português. Um texto que merece, sem dúvida, leitura atenta. Talvez, mais ainda, estudo aprofundado. Dado que, ao que perece, terá sido esta a primeira vez que as profundas divisões entre timorenses foram tornadas públicas. E, conclusão imediata e primeira, é que é bem fácil criar um Estado, mas bem mais difícil construir uma nação. Aqui, neste caso, com a agravante de que não sendo Timor-Leste, ainda, uma nação, o seu Estado é frágil. Depois dos últimos acontecimentos, poderá ter ficado, ainda, mais fragilizado. Logo, a democracia pode estar, pode ter sido colocada em perigo. Se democracia é coisa boa ou má, faz parte de uma outra discussão. O que não parece discutível é falar em democracia e não querer aceitar as regras da democracia. O que é difícil de entender é como uma geração de homens, que se reclamam de patriotas, não conseguem chegar a uma plataforma de entendimento. Não conseguem criar uma base de entendimento e uma plataforma de unidade nacional para, a partir daí, começarem a construir a nação timorense. País pobre, pequeno, com pouca população, Timor-Leste, é a realidade que é. Não pode ser governado de fora, mas também não é possível dividir metade de uma ilha. Neste contexto, que é o da realidade nacional, e no contexto da realidade asiática, quantos enviados especiais aterrarem em Dili, mais fácil será ultrapassar a crise. Com uma certeza, porém: Depois de 22 de Junho de 2006, nada será como dantes.
antes e depois
Luís David
nada será como dantes
Há alguns meses, tive necessidade de fazer um exame médico. De uma das clínicas da cidade, enviaram-me para o serviço competente no Hospital Central de Maputo. No dia e na hora marcados, lá fui. Enquanto aguardava para ser atendido, aproxima-se de mim alguém com quem não cruzava desde há muito tempo. Ar jovial, sorriso aberto, pergunta: “Já não se lembra de mim?”. “Claro que lembro”, respondo. E, como que a tentar provar que me lembrava de verdade, concluo: “Tanta vez tomávamos café juntos, no Lobito, andava você na Faculdade de Medicina”. E, como que a provar não ter estado parado durante todos estes anos, remata: “Pois, desse tempo, hoje somos todos cirurgiões”. Ora, ao falar “desse tempo”, o meu amigo estava a referir-se aos finais dos anos setenta. Nesse tempo, o café Lobito, que ainda hoje existe, ali na Eduardo Mondlane, funcionava um pouco como centro social do Ministério da Saúde. Mas era, também, frequentado por alguns jornalistas da Revista “Tempo”. De passagem para a Faculdade de Medicina, ali paravam, também, alguns estudantes. As mesas eram poucas, o espaço reduzido. Este condicionalismo ajudava ao convívio, à convivência, à conversa sobre os assuntos mais diversos. É que cada um, ao chegar, sentava-se na mesa onde havia cadeira vaga. Quando havia. Recordo que, entre os frequentadores habituais do Lobito, havia também alguns timorenses. Um belo dia, a conversa girava em torno de curso e de trabalho, de emprego. Foi quando, em tom de brincadeira, talvez em tom de provocação, alguém perguntou a um a dos refugiados daquela colónia portuguesa: “E tu, quando concluíres o curso, o que pensas fazer?”. A resposta, certamente impensada, veio rápida e curta: “Quero ser cooperante”.
Foi no dia 22 de Junho passado que Xanana Gusmão dirigiu uma “mensagem à nação, em tétum, na sua qualidade de Presidente da República de Timor-Leste. Trata-se de uma intervenção pública, feita em plena crise institucional, da qual o “Savana” publica, na sua última edição, excertos traduzidos para português. Um texto que merece, sem dúvida, leitura atenta. Talvez, mais ainda, estudo aprofundado. Dado que, ao que perece, terá sido esta a primeira vez que as profundas divisões entre timorenses foram tornadas públicas. E, conclusão imediata e primeira, é que é bem fácil criar um Estado, mas bem mais difícil construir uma nação. Aqui, neste caso, com a agravante de que não sendo Timor-Leste, ainda, uma nação, o seu Estado é frágil. Depois dos últimos acontecimentos, poderá ter ficado, ainda, mais fragilizado. Logo, a democracia pode estar, pode ter sido colocada em perigo. Se democracia é coisa boa ou má, faz parte de uma outra discussão. O que não parece discutível é falar em democracia e não querer aceitar as regras da democracia. O que é difícil de entender é como uma geração de homens, que se reclamam de patriotas, não conseguem chegar a uma plataforma de entendimento. Não conseguem criar uma base de entendimento e uma plataforma de unidade nacional para, a partir daí, começarem a construir a nação timorense. País pobre, pequeno, com pouca população, Timor-Leste, é a realidade que é. Não pode ser governado de fora, mas também não é possível dividir metade de uma ilha. Neste contexto, que é o da realidade nacional, e no contexto da realidade asiática, quantos enviados especiais aterrarem em Dili, mais fácil será ultrapassar a crise. Com uma certeza, porém: Depois de 22 de Junho de 2006, nada será como dantes.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Julho 9, 2006
antes e depois
Luís David
nada será como dantes
Há alguns meses, tive necessidade de fazer um exame médico. De uma das clínicas da cidade, enviaram-me para o serviço competente no Hospital Central de Maputo. No dia e na hora marcados, lá fui. Enquanto aguardava para ser atendido, aproxima-se de mim alguém com quem não cruzava desde há muito tempo. Ar jovial, sorriso aberto, pergunta: “Já não se lembra de mim?”. “Claro que lembro”, respondo. E, como que a tentar provar que me lembrava de verdade, concluo: “Tanta vez tomávamos café juntos, no Lobito, andava você na Faculdade de Medicina”. E, como que a provar não ter estado parado durante todos estes anos, remata: “Pois, desse tempo, hoje somos todos cirurgiões”. Ora, ao falar “desse tempo”, o meu amigo estava a referir-se aos finais dos anos setenta. Nesse tempo, o café Lobito, que ainda hoje existe, ali na Eduardo Mondlane, funcionava um pouco como centro social do Ministério da Saúde. Mas era, também, frequentado por alguns jornalistas da Revista “Tempo”. De passagem para a Faculdade de Medicina, ali paravam, também, alguns estudantes. As mesas eram poucas, o espaço reduzido. Este condicionalismo ajudava ao convívio, à convivência, à conversa sobre os assuntos mais diversos. É que cada um, ao chegar, sentava-se na mesa onde havia cadeira vaga. Quando havia. Recordo que, entre os frequentadores habituais do Lobito, havia também alguns timorenses. Um belo dia, a conversa girava em torno de curso e de trabalho, de emprego. Foi quando, em tom de brincadeira, talvez em tom de provocação, alguém perguntou a um a dos refugiados daquela colónia portuguesa: “E tu, quando concluíres o curso, o que pensas fazer?”. A resposta, certamente impensada, veio rápida e curta: “Quero ser cooperante”.
Foi no dia 22 de Junho passado que Xanana Gusmão dirigiu uma “mensagem à nação, em tétum, na sua qualidade de Presidente da República de Timor-Leste. Trata-se de uma intervenção pública, feita em plena crise institucional, da qual o “Savana” publica, na sua última edição, excertos traduzidos para português. Um texto que merece, sem dúvida, leitura atenta. Talvez, mais ainda, estudo aprofundado. Dado que, ao que perece, terá sido esta a primeira vez que as profundas divisões entre timorenses foram tornadas públicas. E, conclusão imediata e primeira, é que é bem fácil criar um Estado, mas bem mais difícil construir uma nação. Aqui, neste caso, com a agravante de que não sendo Timor-Leste, ainda, uma nação, o seu Estado é frágil. Depois dos últimos acontecimentos, poderá ter ficado, ainda, mais fragilizado. Logo, a democracia pode estar, pode ter sido colocada em perigo. Se democracia é coisa boa ou má, faz parte de uma outra discussão. O que não parece discutível é falar em democracia e não querer aceitar as regras da democracia. O que é difícil de entender é como uma geração de homens, que se reclamam de patriotas, não conseguem chegar a uma plataforma de entendimento. Não conseguem criar uma base de entendimento e uma plataforma de unidade nacional para, a partir daí, começarem a construir a nação timorense. País pobre, pequeno, com pouca população, Timor-Leste, é a realidade que é. Não pode ser governado de fora, mas também não é possível dividir metade de uma ilha. Neste contexto, que é o da realidade nacional, e no contexto da realidade asiática, quantos enviados especiais aterrarem em Dili, mais fácil será ultrapassar a crise. Com uma certeza, porém: Depois de 22 de Junho de 2006, nada será como dantes.
antes e depois
Luís David
nada será como dantes
Há alguns meses, tive necessidade de fazer um exame médico. De uma das clínicas da cidade, enviaram-me para o serviço competente no Hospital Central de Maputo. No dia e na hora marcados, lá fui. Enquanto aguardava para ser atendido, aproxima-se de mim alguém com quem não cruzava desde há muito tempo. Ar jovial, sorriso aberto, pergunta: “Já não se lembra de mim?”. “Claro que lembro”, respondo. E, como que a tentar provar que me lembrava de verdade, concluo: “Tanta vez tomávamos café juntos, no Lobito, andava você na Faculdade de Medicina”. E, como que a provar não ter estado parado durante todos estes anos, remata: “Pois, desse tempo, hoje somos todos cirurgiões”. Ora, ao falar “desse tempo”, o meu amigo estava a referir-se aos finais dos anos setenta. Nesse tempo, o café Lobito, que ainda hoje existe, ali na Eduardo Mondlane, funcionava um pouco como centro social do Ministério da Saúde. Mas era, também, frequentado por alguns jornalistas da Revista “Tempo”. De passagem para a Faculdade de Medicina, ali paravam, também, alguns estudantes. As mesas eram poucas, o espaço reduzido. Este condicionalismo ajudava ao convívio, à convivência, à conversa sobre os assuntos mais diversos. É que cada um, ao chegar, sentava-se na mesa onde havia cadeira vaga. Quando havia. Recordo que, entre os frequentadores habituais do Lobito, havia também alguns timorenses. Um belo dia, a conversa girava em torno de curso e de trabalho, de emprego. Foi quando, em tom de brincadeira, talvez em tom de provocação, alguém perguntou a um a dos refugiados daquela colónia portuguesa: “E tu, quando concluíres o curso, o que pensas fazer?”. A resposta, certamente impensada, veio rápida e curta: “Quero ser cooperante”.
Foi no dia 22 de Junho passado que Xanana Gusmão dirigiu uma “mensagem à nação, em tétum, na sua qualidade de Presidente da República de Timor-Leste. Trata-se de uma intervenção pública, feita em plena crise institucional, da qual o “Savana” publica, na sua última edição, excertos traduzidos para português. Um texto que merece, sem dúvida, leitura atenta. Talvez, mais ainda, estudo aprofundado. Dado que, ao que perece, terá sido esta a primeira vez que as profundas divisões entre timorenses foram tornadas públicas. E, conclusão imediata e primeira, é que é bem fácil criar um Estado, mas bem mais difícil construir uma nação. Aqui, neste caso, com a agravante de que não sendo Timor-Leste, ainda, uma nação, o seu Estado é frágil. Depois dos últimos acontecimentos, poderá ter ficado, ainda, mais fragilizado. Logo, a democracia pode estar, pode ter sido colocada em perigo. Se democracia é coisa boa ou má, faz parte de uma outra discussão. O que não parece discutível é falar em democracia e não querer aceitar as regras da democracia. O que é difícil de entender é como uma geração de homens, que se reclamam de patriotas, não conseguem chegar a uma plataforma de entendimento. Não conseguem criar uma base de entendimento e uma plataforma de unidade nacional para, a partir daí, começarem a construir a nação timorense. País pobre, pequeno, com pouca população, Timor-Leste, é a realidade que é. Não pode ser governado de fora, mas também não é possível dividir metade de uma ilha. Neste contexto, que é o da realidade nacional, e no contexto da realidade asiática, quantos enviados especiais aterrarem em Dili, mais fácil será ultrapassar a crise. Com uma certeza, porém: Depois de 22 de Junho de 2006, nada será como dantes.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Julho 2, 2006
antes e depois
Luís David
interesses cruzados
Decorria o ano de 1985 quando a RENAMO destruiu cerca de 300 torres de transporte de energia de Cahora Bassa para a África do sul. Ao tempo, Portugal não terá reagido. Não terá tomado uma posição pública de condenação. É necessário entender que era um tempo em que, de forma aberta ou encoberta, apoiava, de diferentes maneiras, o movimento que Afonso Dhlakama já dirigia. Mesmo perante elevados prejuízos financeiros. Como terá sido o caso, pela sua qualidade de principal accionista da hidroeléctrica. Ora, acontece que a guerra, todas as guerras, obedecem a estratégias complicadas, difíceis de entender. Sem lógica. As referências, tantas vezes feitas, ao envolvimento a militares no activo ou a serviços secretos, parecem querer dizer exactamente isso. Parecem provar que os objectivos pelos quais se diz declarar uma guerra podem não ser aqueles que se pretendem atingir. E, esta guerra passou, sem margem para dúvidas pelos interesses do eixo Salisbúria-Pretória-Lisboa. Negar que assim não foi, será como negar a história. Como será negar a história não entender que as motivações e os objectivos de quem lutava não eram exactamente os mesmos de quem, do exterior, mandava destruir, raptar, matar.
Após prolongadas e demoradas conversações, o processo parecia próximo do fim. Parecia que Portugal, finalmente, havia aceite fazer uma negociação séria. Havia compreendido que os objectivos que ditaram a construção da barragem pertencem ao passado, pertencem a outro tempo, pertencem ao tempo do senhor António de Oliveira Salazar. Numa palavra e em resumo, parecia ter entendido que a Barragem de Cahora Bassa foi construída numa perspectiva colonial – fascista. E, acrescente-se, de acordo com uma estratégia militar que visava, em ultima análise, permitir a continuidade da permanência de Portugal em Moçambique. Como país dominador, obviamente. E que havendo entendido, o que afinal parece não ter ainda percebido, havia aceite passar a accionista minoritário da Hidroeléctrica de Cahora Bassa. Mas, ao que se verifica, enganou-se quem pensou que outros assim haviam pensado, que outros eram movidos por esta visão. É que, entre os outros, há alguns com desejos e com interesses bem diversos, bem diferentes. Diferenciados. E, a prova aí está, através de declarações públicas, recentes, de governantes portugueses. Cuja argumentação é menos do que falaciosa. O pode querer dizer, o que bem pode significar, que os objectivos e os interesses de quem fala não os mesmos que quem manda falar. Que há interesses escondidos, que há interesses cruzados.
antes e depois
Luís David
interesses cruzados
Decorria o ano de 1985 quando a RENAMO destruiu cerca de 300 torres de transporte de energia de Cahora Bassa para a África do sul. Ao tempo, Portugal não terá reagido. Não terá tomado uma posição pública de condenação. É necessário entender que era um tempo em que, de forma aberta ou encoberta, apoiava, de diferentes maneiras, o movimento que Afonso Dhlakama já dirigia. Mesmo perante elevados prejuízos financeiros. Como terá sido o caso, pela sua qualidade de principal accionista da hidroeléctrica. Ora, acontece que a guerra, todas as guerras, obedecem a estratégias complicadas, difíceis de entender. Sem lógica. As referências, tantas vezes feitas, ao envolvimento a militares no activo ou a serviços secretos, parecem querer dizer exactamente isso. Parecem provar que os objectivos pelos quais se diz declarar uma guerra podem não ser aqueles que se pretendem atingir. E, esta guerra passou, sem margem para dúvidas pelos interesses do eixo Salisbúria-Pretória-Lisboa. Negar que assim não foi, será como negar a história. Como será negar a história não entender que as motivações e os objectivos de quem lutava não eram exactamente os mesmos de quem, do exterior, mandava destruir, raptar, matar.
Após prolongadas e demoradas conversações, o processo parecia próximo do fim. Parecia que Portugal, finalmente, havia aceite fazer uma negociação séria. Havia compreendido que os objectivos que ditaram a construção da barragem pertencem ao passado, pertencem a outro tempo, pertencem ao tempo do senhor António de Oliveira Salazar. Numa palavra e em resumo, parecia ter entendido que a Barragem de Cahora Bassa foi construída numa perspectiva colonial – fascista. E, acrescente-se, de acordo com uma estratégia militar que visava, em ultima análise, permitir a continuidade da permanência de Portugal em Moçambique. Como país dominador, obviamente. E que havendo entendido, o que afinal parece não ter ainda percebido, havia aceite passar a accionista minoritário da Hidroeléctrica de Cahora Bassa. Mas, ao que se verifica, enganou-se quem pensou que outros assim haviam pensado, que outros eram movidos por esta visão. É que, entre os outros, há alguns com desejos e com interesses bem diversos, bem diferentes. Diferenciados. E, a prova aí está, através de declarações públicas, recentes, de governantes portugueses. Cuja argumentação é menos do que falaciosa. O pode querer dizer, o que bem pode significar, que os objectivos e os interesses de quem fala não os mesmos que quem manda falar. Que há interesses escondidos, que há interesses cruzados.
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Junho 25, 2006
antes e depois
Luís David
o petróleo tem muita força
Ouro, diamantes, petróleo. Três importantes fontes de riqueza. Três importantes elementos, três importantes factores de convulsão política. De lutas pelo poder político. Em casos extremos, motivo de guerra. Naturalmente fratricidas. Hoje, mais do que nunca antes, o petróleo constitui-se – ou pode constituir – factor destabilizador de um país, de uma região. Vivemos, desde há alguma décadas, numa economia assente, baseada, no petróleo. Numa época em que o desenvolvimento exige o consumo de mais e mais petróleo. Logo, parece compreensível que seja o petróleo que mais exércitos faz movimentar. Quer para o controlo das reservas, quer para o controlo das rotas de transporte. É assim no mundo inteiro. E, África faz parte do mundo. Sudão e Nigéria são exemplos actuais. Maus exemplos, claramente. Mas, são exemplos reais de lutas internas pelo controlo da exploração e pela distribuição da riqueza gerada com a sua venda no exterior. Em ambos os casos, que não serão os únicos a nível do Continente, podem existir conflitos étnicos e religiosos. Há sinais da existência de um profundo conflito entre cristianismo e Islão. Neste contexto, embora, aparentemente, possamos estar perante guerras de baixa intensidade, estaremos, igualmente, perante conflitos de duração prolongada. E, logo, só por si, consumidores de uma riqueza que se pretende equitativamente distribuída.
A um outro nível, ao nível dos países integrantes da CPLP, Angola foi o que serviu de cenário ao conflito mais prolongado. No período posterior à independência de cada um. Poderá dizer-se, sem margem para acusação de especulação, que à guerra angolana não é estranho o facto da existência de diamantes e de petróleo. Principalmente petróleo. Ao longo da sua história recente, a Guiné-Bissau tem sido, terra de golpes e de contra-golpes. Mas, também ali há petróleo. A São Tomé e Príncipe, em tempos idos terra de escravos e da monocultura do cacau, bastou o cheiro do petróleo. Logo começaram as lutas internas pelo poder. Pela posse da riqueza. Mais recentemente, foi a vez de Timor-Leste engrossar a lista dos países em convulsão política por culpa do petróleo. Também aqui, como em muitas outras partes do mundo, o petróleo está a fazer movimentar exércitos. Já está a fazer movimentar exércitos. De países vizinhos, uns, como a Austrália. De país bem longínquo, outro, como Portugal. Subjacente a esta crise política e institucional, podem estar, e parecem estar, conflitos entre elites locais. Obviamente, com interesses radicados no exterior. Mas, e talvez pior do que isso, podemos estar perante o reacender de um conflito religioso secular. Que teve a sua origem quando o primeiro português ali chegado pretendeu criar meia ilha cristã num mar de ilhas muçulmanas .Meia ilha cristã, repita-se, como espinho encravado no país com maior população muçulmana do mundo. Naturalmente, haverá muitos outros factores que conduziram ao despoletar da presente crise. Há. E há, sobretudo, muito oportunismo. Que pouco ou nada terá a ver com os interesses nacionais, com os interesses do povo timorense. Os próximos dias serão decisivos para se saber quem vence. Se vence o petróleo ou se vence a religião. Na certeza, porém, de que o vencedor de hoje poderá não ser um vencedor definitivo. E com a certeza de que o petróleo tem muita força.
antes e depois
Luís David
o petróleo tem muita força
Ouro, diamantes, petróleo. Três importantes fontes de riqueza. Três importantes elementos, três importantes factores de convulsão política. De lutas pelo poder político. Em casos extremos, motivo de guerra. Naturalmente fratricidas. Hoje, mais do que nunca antes, o petróleo constitui-se – ou pode constituir – factor destabilizador de um país, de uma região. Vivemos, desde há alguma décadas, numa economia assente, baseada, no petróleo. Numa época em que o desenvolvimento exige o consumo de mais e mais petróleo. Logo, parece compreensível que seja o petróleo que mais exércitos faz movimentar. Quer para o controlo das reservas, quer para o controlo das rotas de transporte. É assim no mundo inteiro. E, África faz parte do mundo. Sudão e Nigéria são exemplos actuais. Maus exemplos, claramente. Mas, são exemplos reais de lutas internas pelo controlo da exploração e pela distribuição da riqueza gerada com a sua venda no exterior. Em ambos os casos, que não serão os únicos a nível do Continente, podem existir conflitos étnicos e religiosos. Há sinais da existência de um profundo conflito entre cristianismo e Islão. Neste contexto, embora, aparentemente, possamos estar perante guerras de baixa intensidade, estaremos, igualmente, perante conflitos de duração prolongada. E, logo, só por si, consumidores de uma riqueza que se pretende equitativamente distribuída.
A um outro nível, ao nível dos países integrantes da CPLP, Angola foi o que serviu de cenário ao conflito mais prolongado. No período posterior à independência de cada um. Poderá dizer-se, sem margem para acusação de especulação, que à guerra angolana não é estranho o facto da existência de diamantes e de petróleo. Principalmente petróleo. Ao longo da sua história recente, a Guiné-Bissau tem sido, terra de golpes e de contra-golpes. Mas, também ali há petróleo. A São Tomé e Príncipe, em tempos idos terra de escravos e da monocultura do cacau, bastou o cheiro do petróleo. Logo começaram as lutas internas pelo poder. Pela posse da riqueza. Mais recentemente, foi a vez de Timor-Leste engrossar a lista dos países em convulsão política por culpa do petróleo. Também aqui, como em muitas outras partes do mundo, o petróleo está a fazer movimentar exércitos. Já está a fazer movimentar exércitos. De países vizinhos, uns, como a Austrália. De país bem longínquo, outro, como Portugal. Subjacente a esta crise política e institucional, podem estar, e parecem estar, conflitos entre elites locais. Obviamente, com interesses radicados no exterior. Mas, e talvez pior do que isso, podemos estar perante o reacender de um conflito religioso secular. Que teve a sua origem quando o primeiro português ali chegado pretendeu criar meia ilha cristã num mar de ilhas muçulmanas .Meia ilha cristã, repita-se, como espinho encravado no país com maior população muçulmana do mundo. Naturalmente, haverá muitos outros factores que conduziram ao despoletar da presente crise. Há. E há, sobretudo, muito oportunismo. Que pouco ou nada terá a ver com os interesses nacionais, com os interesses do povo timorense. Os próximos dias serão decisivos para se saber quem vence. Se vence o petróleo ou se vence a religião. Na certeza, porém, de que o vencedor de hoje poderá não ser um vencedor definitivo. E com a certeza de que o petróleo tem muita força.
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Junho 18, 2006
antes e depois
Luís David
assim haja vontade
Foi há um tempo que a memória não sabe precisar. Passam meses. Muitos. Seguramente algumas dezenas. Aconteceu em Maputo, como muitos de nós estão recordados. Aconteceu na zona central da cidade. Aconteceu que um prédio, com vários andares, destinados a habitação, ruiu. Enquanto estava a ser construído. Melhor dizendo, auto-cosntruído. O que, como foi dito na ocasião, é ilegal. Para averiguar as causas da derrocada, foi aberto um inquérito. Cujos resultados, ao que parece, ainda não foram divulgados. Ou, caso sim, passarem desapercebidos. Embora, no caso vertente, inquérito tenha sido um exercício inútil. Por desnecessário. Saltava à vista de quem quis ver, que a construção não reunia um mínimo de condições para se manter de pé. De resto, idêntica ou igual forma de construir parece estar enraizada um pouco por todo o Moçambique. Raro é passar uma semana em que não aparece notícia sobre escola ou posto de saúde. Nesta ou naquela província. Pior em épocas de chuva intensa, de temporal, de vendaval. Mas, a par desta “calamidade nacional”, podemos observar, somos, muitas das vezes, informados de outra. A de obras públicas por concluir. A de obras públicas por concluir, mas pagas. Como isto acontece, como é possível isto continuar a acontecer, em pleno ano de 2006, nunca alguém se dignou explicar. E, aqui, não é uma questão de não saber. É uma questão de não querer. É uma questão de não ser abrigado a. Logo e em resumo, é uma questão de poder.
Foi noticiado esta semana. No ano de 2000, o Fundo de Fomento da Habitação mandou construir 100 casas nos arredores de Maputo. Que, de acordo com o contratado, era suposto estarem concluídas em 2002. Mas, acontece, todos o sabemos, estamos quase a entrar na segunda metade de 2006. E de casas, pelo menos de casas com um mínimo de qualidade, de casas que justifiquem o pagamento, pelo Estado, de 320 mil contos por cada uma, poucas existem. Serão, no máximo, vinte. Quem o verificou no local, terá sido o Ministro das Obras Públicas e Habitação. Em pessoa. E que, logo ali, no local, terá dito que construtores que não respeitem os padrões de qualidade acordados, devem ser excluídos de futuros concursos para obras públicas. Entende-se que o posicionamento é, em tudo, correcto. Em termos de futuro, em termos de acautelar os interesses do Estado nos tempos que hão de vir. Mas, não impede nem evita que tenham de ser colocadas algumas questões quanto ao passado. Ao ontem. Então algumas das muitas questões que podem ser colocadas, aí ficam. Seria importante, pelo menos parece ser importante, saber o motivo pelo qual só quatro anos depois do prazo previsto para a entrega das casas se verificou que a construção não respeita as normas acordadas. Depois, se os construtores irão ser ou não responsabilizados por não terem entregue as casas conforme o estabelecido. A seguir, sem ser necessariamente por fim, o que lhes pode acontecer a eles, construtores, e aos funcionários do Estado que permitiram que tivessem construído com a qualidade que construíram. Este, ao que parece, será um dos muitos casos de conhecimento público que poderá permitir abrir caminho no sentido da moralização dos negócios públicos. Basta que, para tanto, assim haja vontade.
antes e depois
Luís David
assim haja vontade
Foi há um tempo que a memória não sabe precisar. Passam meses. Muitos. Seguramente algumas dezenas. Aconteceu em Maputo, como muitos de nós estão recordados. Aconteceu na zona central da cidade. Aconteceu que um prédio, com vários andares, destinados a habitação, ruiu. Enquanto estava a ser construído. Melhor dizendo, auto-cosntruído. O que, como foi dito na ocasião, é ilegal. Para averiguar as causas da derrocada, foi aberto um inquérito. Cujos resultados, ao que parece, ainda não foram divulgados. Ou, caso sim, passarem desapercebidos. Embora, no caso vertente, inquérito tenha sido um exercício inútil. Por desnecessário. Saltava à vista de quem quis ver, que a construção não reunia um mínimo de condições para se manter de pé. De resto, idêntica ou igual forma de construir parece estar enraizada um pouco por todo o Moçambique. Raro é passar uma semana em que não aparece notícia sobre escola ou posto de saúde. Nesta ou naquela província. Pior em épocas de chuva intensa, de temporal, de vendaval. Mas, a par desta “calamidade nacional”, podemos observar, somos, muitas das vezes, informados de outra. A de obras públicas por concluir. A de obras públicas por concluir, mas pagas. Como isto acontece, como é possível isto continuar a acontecer, em pleno ano de 2006, nunca alguém se dignou explicar. E, aqui, não é uma questão de não saber. É uma questão de não querer. É uma questão de não ser abrigado a. Logo e em resumo, é uma questão de poder.
Foi noticiado esta semana. No ano de 2000, o Fundo de Fomento da Habitação mandou construir 100 casas nos arredores de Maputo. Que, de acordo com o contratado, era suposto estarem concluídas em 2002. Mas, acontece, todos o sabemos, estamos quase a entrar na segunda metade de 2006. E de casas, pelo menos de casas com um mínimo de qualidade, de casas que justifiquem o pagamento, pelo Estado, de 320 mil contos por cada uma, poucas existem. Serão, no máximo, vinte. Quem o verificou no local, terá sido o Ministro das Obras Públicas e Habitação. Em pessoa. E que, logo ali, no local, terá dito que construtores que não respeitem os padrões de qualidade acordados, devem ser excluídos de futuros concursos para obras públicas. Entende-se que o posicionamento é, em tudo, correcto. Em termos de futuro, em termos de acautelar os interesses do Estado nos tempos que hão de vir. Mas, não impede nem evita que tenham de ser colocadas algumas questões quanto ao passado. Ao ontem. Então algumas das muitas questões que podem ser colocadas, aí ficam. Seria importante, pelo menos parece ser importante, saber o motivo pelo qual só quatro anos depois do prazo previsto para a entrega das casas se verificou que a construção não respeita as normas acordadas. Depois, se os construtores irão ser ou não responsabilizados por não terem entregue as casas conforme o estabelecido. A seguir, sem ser necessariamente por fim, o que lhes pode acontecer a eles, construtores, e aos funcionários do Estado que permitiram que tivessem construído com a qualidade que construíram. Este, ao que parece, será um dos muitos casos de conhecimento público que poderá permitir abrir caminho no sentido da moralização dos negócios públicos. Basta que, para tanto, assim haja vontade.
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Junho 11, 2006
antes e depois
Luís David
uma atitude irrepreensível.
Foi há quatro décadas. A Sociedade Portuguesa de Escritores premiava “Luuanda”, de Luandino Vieira. Salazar, homem pouco dado a coisas da cultura, não terá gostado da brincadeira. É que, para além de outros prováveis motivos, o laureado encontrava-se preso no Tarrafal. Por motivos políticos. Vai daí, mandou dissolver a referida sociedade e prender alguns dos membros do júri. A decisão do ditador bem poderá ser sido um, mais um, erro. É que, bem poderá ter fomentado o desejo em possuir o livro, como coisa proibida. E fomentou. Como chamou a atenção e deu nome a um escritor encarcerado. Nome e, possivelmente, mais força para continuar a escrever. Ora, hoje, passados mais de quarenta anos, o autor de “Luanda” é confrontado com nova realidade. E, ao que parece, para alguns, volta a ser incómodo. Não terá gostado que lhe tenham atribuído o “ Prémio Camões”. Recusou. As razões, são suas. Pessoais. E, a ninguém assiste o direito de as negar. Seja a que pretexto for, seja com o argumento que seja. Em última análise, pode dizer-se que a recusa é o reflexo de uma maneira de ser e de estar. Ou, entrando no campo da especulação, que reflecte um posicionamento político.
Muito naturalmente, a recusa do escritor angolano em deixar-se premiar levantou celeuma. Parece, até, ter criado embaraços aos promotores do prémio. Pois, bem se vê, não é todos os dias que aparece alguém a recusar cem mil euros. Sequer a recusa está prevista em regulamento. Logo, vem ao de cima a mentalidade mercantil. Começam as dúvidas e as conjecturas sobre o destino a dar ao dinheiro. Ora, e esta parece ser a questão de fundo, o escritor não recusou o dinheiro. Recusou, isso sim, o prémio. Acaso houvesse aceite receber o dinheiro para, depois, o doar a qualquer instituição, implicava aceitar o prémio. E o que Luandino disse sem dizer, foi que não queria o prémio. Que não aceitava o prémio. Está no seu pleno direito. Até é muito provável que outros tivessem gostado, antes dele, de ter assumido idêntica posição. Que, no plano da ética, parece uma atitude irrepreensível.
antes e depois
Luís David
uma atitude irrepreensível.
Foi há quatro décadas. A Sociedade Portuguesa de Escritores premiava “Luuanda”, de Luandino Vieira. Salazar, homem pouco dado a coisas da cultura, não terá gostado da brincadeira. É que, para além de outros prováveis motivos, o laureado encontrava-se preso no Tarrafal. Por motivos políticos. Vai daí, mandou dissolver a referida sociedade e prender alguns dos membros do júri. A decisão do ditador bem poderá ser sido um, mais um, erro. É que, bem poderá ter fomentado o desejo em possuir o livro, como coisa proibida. E fomentou. Como chamou a atenção e deu nome a um escritor encarcerado. Nome e, possivelmente, mais força para continuar a escrever. Ora, hoje, passados mais de quarenta anos, o autor de “Luanda” é confrontado com nova realidade. E, ao que parece, para alguns, volta a ser incómodo. Não terá gostado que lhe tenham atribuído o “ Prémio Camões”. Recusou. As razões, são suas. Pessoais. E, a ninguém assiste o direito de as negar. Seja a que pretexto for, seja com o argumento que seja. Em última análise, pode dizer-se que a recusa é o reflexo de uma maneira de ser e de estar. Ou, entrando no campo da especulação, que reflecte um posicionamento político.
Muito naturalmente, a recusa do escritor angolano em deixar-se premiar levantou celeuma. Parece, até, ter criado embaraços aos promotores do prémio. Pois, bem se vê, não é todos os dias que aparece alguém a recusar cem mil euros. Sequer a recusa está prevista em regulamento. Logo, vem ao de cima a mentalidade mercantil. Começam as dúvidas e as conjecturas sobre o destino a dar ao dinheiro. Ora, e esta parece ser a questão de fundo, o escritor não recusou o dinheiro. Recusou, isso sim, o prémio. Acaso houvesse aceite receber o dinheiro para, depois, o doar a qualquer instituição, implicava aceitar o prémio. E o que Luandino disse sem dizer, foi que não queria o prémio. Que não aceitava o prémio. Está no seu pleno direito. Até é muito provável que outros tivessem gostado, antes dele, de ter assumido idêntica posição. Que, no plano da ética, parece uma atitude irrepreensível.
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