terça-feira, setembro 12, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Setembro 10, 2006

antes e depois

Luís David


Uma espiral de morte


Nas últimas semanas, a cidade de Maputo registou, no mínimo, três casos de tiroteio. Envolvendo ou contra agentes da Polícia. Houve feridos, houve mortos. No primeiro caso, registado no Bairro do Triunfo, foi morto um chefe de brigada. Num bar, pouco distante de uma Esquadra, foras das suas horas de serviço. E, ao que parece, sem tido tempo para esboçar gesto de defesa. Terá sido assassinado à queima-roupa. No segundo caso, poucos dias depois, dois agentes que, ao que parece, pertenciam à brigada do falecido foram alvo de tentativa de assassinato. Ao princípio da noite, perto da Praça Robert Mugab. Ficaram feridos. No terceiro e último caso, dois agentes da Polícia e um terceiro homem, foram mortos pela Polícia. Em circunstâncias pouco claras. Em circunstâncias algo polémicas e que estão a permitir alimentar diferentes versões. Convenhamos que são demasiados casos e muitos mortos em tão curto espaço de tempo. Principalmente por nesses casos, em todos estes casos, terem estado envolvidos agentes da Polícia. Sem se pretender tirar conclusões precipitadas, parece importante fazer uma reflexão séria e profunda. É necessário que quem tem por missão garantir a segurança e a ordem públicas faça um exercício de reflexão e, para além de palavras de ocasião, através de comunicado deixe claro o que se passa. O que se está a passar.


Da avaliação dos relatos da Informação escrita, fruto de investigação jornalística ou de declarações oficiosas, resulta alguma preocupação. Pode ficar a preocupação de ter existido alguma relação promíscua, alguma ligação perigosa, algum acordo secreto entre agente policial e criminoso. E que quando uma das partes violou esse acordo, as armas disseram de sua justiça. Porque ambas as partes, agente policial e criminoso, estão armadas. É suposto que a arma do criminoso é para praticar o crime. E que a arma do agente policial é para combater o crime. Para defender, para proteger o cidadão do criminoso. Pode não estar a acontecer assim. Hoje, expressões como vingança, traição e ajuste de contas, tornaram-se frequentes. E tornaram-se em tentativas de justificativo para os confrontos armados entre polícias e bandidos. O que em nada ajudando a compreender, menos ainda ajuda a combater o fenómeno. Pode, até, ser motivo de preocupação. E é, certamente. Ora, aceitando como verdade que os dois agentes da FIR, mortos na Matola Rio, eram perigosos bandidos, há muito procurados pela Polícia, fica uma única certeza. A certeza de que, neste momento, não temos certeza nenhuma. Que não é possível, que não nos é possível, neste exacto momento, saber se, quando estamos perante um agente policial estamos perante um agente policial que nos protege ou perante um serviçal dos criminosos. De um agente da polícia ao serviço e pago por criminosos. Sejamos claros e frios no pensar. Ao pensar. Ainda há tempo, parece ainda haver tempo para inverter a situação. Com medidas claras e concretas. Caso não, podemos estar a abrir espaço para uma espiral de violência. Uma espiral de morte.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Setembro 3, 2006


antes e depois

Luís David


ainda não mudou

Quando em Angola foram dados os primeiros tiros, os tiros anunciadores do caminho para a independência, Salazar proferiu uma frase que ficou célebre: Para Angola e em força. Uma frase que era, em simultâneo, a definição e a afirmação de uma política. Da sua política. Mas, também, da política que iria perdurar, que iria ser seguida mesmo para além da sua morte. Que iria ter, exactamente, a mesma duração temporal do regime. E que terminou quando o regime terminou, quando o regime caiu de podre. A 25 de Abril e com o 25 de Abril. As vozes e os sentimentos, agora, eram outros. Era novo o sentir e era novo o pensar. E, frase do ditador encontrava resposta noutras. De recusa em continuar a guerra, de recusa em participar na guerra. Para a guerra nunca mais. Nem mais um soldado para o Ultramar. No tempo passado, ficavam venturas e desventuras. Hoje, cantadas e contadas por quem tem arte e engenho para tanto. Ou a tal de propõe. Para trás, ficavam, muitas centenas, milhares de desertores. De migrantes forçados, como solução para não participar na guerra. E ficavam, também, muitas imagens de dor e de sofrimento, de choro e de ansiedade. De angústia. De homens e de mulheres. De pais e de mães. De filhos e de irmãos. De noivas ou de esposas. Era a hora da partida. De uma partida sem certeza de regresso.

A televisão, as televisões têm a força que têm. E o poder para nos fazer transportar onde entendem que devemos estar. Ou, muito simplesmente, para nos mostrar aquilo que entendem que devemos ver. Aquilo que desejam que seja visto por nós. Não poucas vezes, em directo, em tempo real. É assim que, decorridas que são mais de quatro décadas, aquelas imagens parecem repetir-se. Parecem ser as mesmas. E, neste caso, é a televisão do Portugal que as oferece. Em directo. Concordamos que o cenário seja outro. Mudou. O local de partida já não é o mesmo. O Cais de Alcântara deu lugar ao Aeroporto de Figo Maduro. Mas a dor e o sofrimento, o choro e ansiedade, estão lá. Nos mesmos rostos. Ou, até pode acontecer que os rostos sejam outros. Que sejam, neste tempo, já de netos e avós. Afinal, o tempo passa e passa lesto. E o passar do tempo parece, tantas vezes, fazer apagar a memória. Sobretudo a memória colectiva. O que não faz, o que não pode fazer, é mudar a consciência. Para quem sabe o que isso é. Para quem a possui. Mas, para além do cenário, para além do local de embarque, algo mais mudou. Mudou, parece ter mudado, o sentimento do dever, e o sentimento, a obrigatoriedade de cumprir o dever. Ou, um dever. Por isso, hoje, nos tempos que correm, já não há desertores. Já não há contestação. Pela simples razão lógica de ter deixado de haver quem conteste. Quem tem vontade de contestar. Ou, porque quando se contesta, quando alguém contesta tenta abafar-se-lhe a voz. O que, nem sempre produz bons resultados. O que nem sempre produz os resultados desejados. A prova aí está. A prova é Cahora Bassa. Por isso, Cahora Bassa continua motivo de contestação. Cahora Bassa está em Moçambique. Cahora Bassa é produto moçambicano. Caso não, haveremos de concluir que Portugal não mudou. Que, mais de quarenta anos depois do 25 de abril, ainda não mudou.
Publicado em Maputo, Moçcambique no Jornal Domingo de Agosto 27, 2006

antes e depois

Luís David

uma sociedade de medo

Temos de concordar que há certas situações que todos sabemos existirem. Quando não por conhecimento directo, por conhecimento indirecto. Até que um dia, um certo dia, surge a confirmação pública. Então, aquilo que até então poderia parecer um boato, aquilo que até então poderia parecer uma simples suposição, deixa de ser boato e deixa de ser suposição. Passa a ser facto e passa a ser verdade. Pois então, se estamos a falar de carros roubados e estamos, efectivamente, a falar de carros roubados e de carros traficados, ficámos todos a saber que existe uma rede que actua a partir do Chókwè. Quem o confirma (ver o jornal “Zambeze” de 24 do corrente mês), é o governador da província, para quem a situação está sob controlo. E, indo mais longe, para tentar dar credibilidade à sua afirmação, até terá dito mais. Terá dito que “já foram identificadas as pessoas que se dedicam a está prática”. Mais disse, ainda, mas o que disse mais não vem a propósito citar. Agora, o que não disse, e isso não disse, é que esses de tais que diz estarem identificados irão ser detidos e presentes a Tribunal. Porque confirmar que há redes de traficantes de carros que actuam entre a África do Sul e Moçambique não tem qualquer significado. Todos nós sabemos, por ser público, que em tempos não muito distantes o governo de Cabo Delgado comprou carros roubados. Todos nós sabemos, por ser público, que se vendem carros roubados em Moçambique. E, aqui, a cidade da Matola até parece ter créditos antigos. Um exercício que deve ser feito, terá de ser no sentido de procurar saber o que faz a Polícia perante este manancial de conhecimentos de acções criminosas que lhe são fornecidos. O que, podendo não ser um exercício fácil, é um exercício necessário. Enquanto assim não acontecer, sequer vale a pena afirmar que se está a fazer combate ao crime.


Esta semana, em Maputo, dois agentes da Polícia foram atacados e feridos com armas de fogo, como foi amplamente noticiado. Anteriormente, o chefe da brigada a que pertencem havia sido morto. Ao que parece, sem hipótese nem possibilidade de defesa. Sem possibilidade de dizer uma palavra, sequer. Digamos que, sumariamente morto. Assassinado a sangue frio. Perante esta e a outra realidade, de nada serve dizer, de nada adianta dizer que somos fortes. E que andam por aí a tentar dizer que somos fracos. É que a questão não está em dizer. A questão está em demonstrar e, mais do que demonstrar, em provar. E, a Polícia tem, tem de ter, homens treinados e especializados para combater este tipo de crime. Porque, ao que se sabe, sempre teve. As redes de traficantes de carros não surgiram hoje. A sua existência era conhecida há vinte, talvez vinte e cinco anos atrás. E se, até hoje não foram, ao que parece nenhuma foi desmantelada, não terá sido por falta de meios. Terá sido por tudo menos por falta de meios. E, dizer que foi por falta de vontade pode parecer violento. Temos de convir e de dizer, em abono da verdade, que nestas últimas décadas algumas dezenas de moçambicanos deram as suas vida, muitas das vezes, talvez com elevada dose de ingenuidade, por causa que era sua e por causa que lhes disseram ser comum. Pura mentira. Pura propaganda. Poderá, é certo, não ter sido um sacrifício em vão. Poderá não ter sido um sacrifício em vão. Mas, não foi suficiente, não terá sido suficiente para evitar que continuemos a viver, cada dia mais, naquela a que bem se pode chamar uma sociedade de medo.
Publicado em Maputo, Moçcambique no Jornal Domingo de Agosto 19, 2006

antes e depois

Luís David


o medo do criminoso pode fazer alterar a lógica

O crime organizado é isso mesmo. É crime e é organizado. O crime organizado, para além de ser crime, tem como base uma organização. Um sistema. Uma hierarquia. O crime organizado, nunca foi e alguma vez será, aquilo que conhecemos como quadrilha de ladrões. Como a quadrilha que actua no bairro, durante a noite, ou em pleno dia numa qualquer artéria citadina. Que rouba telefone móvel, artigos diversos, valores mais ou menos elevados destinados ao pagamento de salários a trabalhadores. E que, de quando em quando, tiro para cá, tiro para lá, deixa umas tantas vítimas caídas por aí. O crime organizado parece, e é, coisa bem diferente. Bem mais sofisticada. Com métodos de actuação, aparentemente, irrepreensíveis. Integrando pessoas, aparentemente, honestas. Mas que, convenhamos, não olham a meios para atingir os seus fins. E, os seus fins são o crime. Digamos que, em última análise, o crime organizado pode, até, integrar os mais insuspeitos. Gente que a gente se habituou a ver como gente boa. Como aquilo a que se chama, erradamente, gente de bem. Gente sorridente bem falante. Mas que, pode bem acontecer, tem ao seu serviço todo um exército que lhe obedece e que está sempre pronto a executar as suas ordens, a cumprir os eus desígnios. O crime organizado, como hoje o conhecemos, como hoje é, tem tentáculos, tem ramificações por onde menos se possa imaginar. Usa, utiliza a ameaça e a chantagem. Para conseguir, para impor o silêncio. Daí o silêncio, os muitos silêncios. As muitas vozes silenciadas.


Cinco anos depois, pouco ou nada se sabe, publicamente, sobre o assassinato de Siba-Siba Macuácua. Ou, por outra, sabemos, todos, o que todos sabem. Que era um homem bom e honesto, que foi incumbido de uma missão. Depois, bem, depois foi assassinado. Sabemos, também, como foi praticado o crime. Continuamos a não saber, também, quem o praticou. Agora, neste tempo de hoje, colocam-se as perguntas que sempre se colocam neste tipo de assassinatos. Como, por exemplo, a quem interessava a morte da vítima. Pensa-se, admite-se, talvez de forma errada, que aos devedores ao Banco Austral. Mas, poderá não ser assim. Poderá ser útil colocar outras hipóteses de investigação, outras hipóteses de trabalho. Assim, poderá ser útil alertar para outros caminhos, para outras vias de investigação. Bloqueadas, aparentemente, até hoje. Por exemplo, pode ser útil, em termos de investigação e de busca da verdade, conhecer mais do que o nome dos devedores. Saber, conhecer, os nomes dos gestores que autorizaram os empréstimos. Saber quem concedeu os créditos. O que, até hoje, permanece segredo. É que há, continua a haver, nomes de devedores, mas não há nomes de quem autorizou os empréstimos, nomes de quem é responsável pelas dívidas. Depois, a questão lógica que se coloca, que se coloca em relação a este crime, deve ser colocada em relação a outros. Anteriores. A pergunta, pode ser colocada nos mesmos termos. A quem interessou a morte de Carlos Cardoso, a quem interessou, anteriormente, a morte de Samora Machel. É facto, comprovado, que o crime organizado tem uma lógica. A lógica do criminoso. Já não é facto comprovado que o crime organizado seja lógico. O factor medo, aqui, pode ter um peso determinante. Ou seja, o medo do criminoso pode fazer alterar a lógica.

domingo, agosto 13, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Agosto 13, 2006

antes e depois

Luís David


mais de uma Cahora Bassa

Acontece por vezes. Pode acontecer muitas vezes. Duas ou mais pessoas empregarem as mesmas palavras, utilizarem os mesmos termos. Mas não se entenderem, não estarem a falar da mesma coisa. É que as palavras e os termos, sendo os mesmos, podem não estar a ser utilizados com o mesmo sentido, com o mesmo significado. E, isto nas questões mais simples como nas mais complexas. Em termos presentes, exemplo de aparente desencontro é Cahora Bassa. É que, muito que se tem dito, muito que se tem escrito, sobre ou acerca da Barragem. Sendo que a dúvida que sobressai, a questão que se pode colocar, é se todos os actores, se todos os autores, estão a pronunciar-se sobre uma e a mesma coisa. Se Cahora Bassa é, afinal, coisa única. E se, mesmo sendo coisa única, é possível dela termos uma visão única. E unificada. Ou se, mesmo sendo coisa única, a posição e o posicionamento individual de cada um, conduz, ou pode conduzir a percepções diferentes. Nesta perspectiva, poderão existir tantas Cahora Bassa quantos os observadores, tantas Cahora Bassa quanto a percepção de cada um dos observadores. Sejam eles muitos ou poucos.


Todos sabemos que Cahora Bassa é um assunto, é um tema caro a muitos moçambicanos. Obviamente, que não só pela Barragem em si própria. Mas, pelo que ela significa, pelo que ela simboliza. Também, e sobretudo, por motivo do longo, entortado e torturante processo de negociação. Que tem por objectivo, que se pretende conduza à passagem do seu controlo para o Estado moçambicano. Que tem por objectivo, repita-se, ainda não alcançado. Ora, parece ser precisamente aqui que surgem as tais diferentes visões sobre uma mesma Cahora Bassa. Muito provavelmente, por falta de um exercício que conduza ao recordar dos factos e à avaliação da história das últimas três décadas. Mas, também, de um exercício que permita avaliar se a Cahora Bassa a que se referem os Acordos de Lusaca é a mesma de que estamos a falar no presente. Ou se não é. No concreto, parece ser aqui que se confrontam as diferentes percepções sobre Cahora Bassa. Por um lado, há quem pense ser possível trazer, hoje, para a mesa das negociações a Barragem tal como existia e era vista e entendida em 1975. Por outro lado, pode haver quem entenda recordar que as mais de 600 torres de transporte de energia para a África do Sul não caíram com o vento. Que foram derrubadas, que foram sabotadas em nome de uma causa. Que até poderá ter encontrado simpatia por parte de pessoas próximas a sucessivos Governos de Portugal. Quando não apoio, mais ou menos camuflado. Assim vista a questão, poderá haver mais de uma Cahora Bassa.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Agosto 6, 2006

antes e depois

Luís David

traça a política quem tem o dinheiro

A crise no Médio Oriente, o conflito entre Israel e o Líbano, parece longe do fim. Ao certo, a Conferência de Roma não produziu os resultados desejados, não foi conseguido um cessar-fogo. Não importa neste espaço, saber quem tem ou não tem razão. È que, para além da razão, há aspectos que parece importante reter. Há aspectos em que vale a pena pensar. Meditar. Por exemplo, no número de mortos, de um e de outro lado. Na destruição de edifícios e de infra-estruturas. No quanto irá custar reconstruir o que foi destruído em poucos dias. Certamente, muitas centenas de milhar de dólares norte-americanos. A que se terá de adicionar o custo do armamento. Que alguém terá de pagar a alguém. Infalivelmente. É cedo para vaticinar quem irá ganhar e quem irá perder esta guerra. O que se pode afirmar é que quem está a ganhar são as indústrias de armamento. Mas, como todos o sabemos, o mundo tem muitas injustiças. Tem destas injustiças. Uns, podem comprar as mais sofisticadas armas para se matarem, para se liquidarem reciprocamente. Outros, poucos são os meios que possuem para evitar morrer devido a uma doença banal e de fácil cura. Quando não devido à fome.


Autoridade sanitárias nacionais divulgaram, há poucos dias, que a malária matou mais de três mil pessoas em Moçambique, apenas no primeiro semestre do corrente ano. Um número de mortes elevado, um número de mortes deveras elevado. Provocado pela simples picada de um mosquito. Certamente, muitos mais milhares perderam a vida por toda a África, no mesmo espaço de tempo. Ora, a malária é uma doença que tem cura. Digamos, até, que é de fácil diagnóstico e de fácil tratamento. Que há muito devia ter sido erradicada do nosso Continente. E que se o não foi, como de facto não foi, não é por falta de conhecimentos científicos. É por motivos outros e bem diferentes. É, muito simplesmente, por falta de dinheiro para comprar medicamentos. É, muito simplesmente por falta de dinheiro para construir fábricas e produzir medicamentos a baixo custo. Quer a doença se chame malária ou HIV/SIDA. É, muito simplesmente, porque ninguém investe numa fábrica de medicamentos quando, depois, não há dinheiro para comprar esses mesmos medicamentos. E aqui chegados, pode colocar-se uma questão. Bem simples. A questão de saber quantas fábricas de medicamentos poderiam ter sido construídas em países africanos com os milhões de dólares já gastos na guerra entre Israel e o Líbano. Ou, até, sendo mais modestos, com o dinheiro gasto em actividades diplomáticas para conseguir o fim do conflito. Certamente, muitas. E, certamente, também, muitos milhares de pessoas deixariam de continuar a morrer por doenças tão facilmente curáveis como a malária. O que sendo, de facto, uma questão de dinheiro também é, em primeiro lugar, uma questão política. Ou seja, que traça a política quem tem o dinheiro.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Julho 23, 2006

antes e depois

Luís David


um cheque “careca”

Bem andou Joaquim Chissano, enquanto Presidente da República, ao tentar fazer reverter a hidroeléctrica de Cahora Bassa para Moçambique. Já perto do fim do seu mandato manifestou, até, publicamente, o desejo de deixar encerrado o “dossier” HCB antes de deixar a Presidência da República. Não haveria de o conseguir. Apesar de as promessas serem muitas e ao mais alto nível. Apesar de ter havido alguns avanços nas conversações. Mas, a realidade é que os recuos foram sempre maiores. Depois, a Chissano sucedeu Guebuza. E, o desejo de ver revertida a HCB para Moçambique foi renovado e repetido. O processo de negociação, bastas vezes interrompido por crises políticas em Portugal, retomado. O montante a pagar por Moçambique, acordado. Finalmente, em Novembro do ano passado, os dois países assinaram um memorando de entendimento. Em Lisboa e ao mais alto nível. Parecia que, assim, estava a ser virada uma página na história dos dois países, Mas, não. Sabe-se hoje que não. É que Portugal, por si só, não pode, não tem poderes, não está credenciado para vender o que é seu. O que construiu em país terceiro, embora com objectivos colonialistas. De facto, quanto pode a globalização. Como é grande o poder dos globalizadores de hoje.


Por maior que tenha sido a pressão de Moçambique para assinar, em Novembro do ano passado, o memorando de entendimento com Portugal, algo de estranho deverá ter sucedido então. Ou, outra hipótese, algo de anormal aconteceu de Novembro para cá. É que custa perceber que, no acto da assinatura, o governante português não soubesse que a União Europeia tinha, como parece continuar a ter, a última palavra a dizer sobre o negócio. Mas, até podemos conceder o benefício da dúvida. Até podemos admitir que não sabia. Neste caso, nesta hipótese, seria correcto vir dizer, publicamente, que não conhecia as implicações para o seu país, do documento que assinou em nome de Portugal. O que, para alguns ou visto à distância, no tempo e no espaço, poderia ser interpretado como uma prova de fraqueza. Digamos, mesmo, de incompetência. Mas, por outro lado, se sabia, se sabia que o documento que assinou só tem validade quando sancionado por órgão competente da União Europeia, deveria tê-lo dito na ocasião. É que assim, vistas as coisas como as estamos a observar no momento actual, fica-se com a sensação que algo não correu bem. Que as palavras foram apenas palavras de ocasião. E que pouco ou nada têm a ver com os actos. Logo, que as intenções manifestadas não passaram, até hoje, disso mesmo. De intenções. Ou, se quisermos usar uma linguagem bancária, o memorando de entendimento sobre a HCB tem, para Moçambique, o valor que tem um cheque sem cobertura, um cheque sem provisão. Ou, como é dizer do povo, deram-nos um cheque “careca”.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Julho 23, 2006

antes e depois

Luís David


ministro não é fiscal


Um pouco por todo o país, existem edifícios públicos construídos há muitas dezenas de anos. Na maioria dos casos, trata-se de construções sólidas. Logo, de custo elevado. Na maioria dos casos, serão construções pensadas e concebidas para durar longas décadas. Possam ou não, no tempo presente, necessitar de trabalhos de manutenção ou de reabilitação. O tempo e o uso, assim o podem exigir. Acontece agora, hoje, que muitos dos edifícios públicos parece que são construídos a pensar num tempo de duração medido em anos. Não em décadas. Mas, pior do que esta falta de visão, pior que esta (má) estratégia, é a péssima qualidade do trabalho, da construção em si mesma. Que parece ninguém ver ou não querer ver. Muito recentemente, aí tivemos o que todos o que todos vimos com as casas do Fundo de Fomento da Habitação. Esta semana, foi o governador de Sofala, a fazer de fiscal de obras públicas. A fazer o trabalho que os fiscais não fizeram. Ou fizeram mal. Aconteceu em Marínguè. Onde um escola nova não possuía sanitários para raparigas. E, cúmulo dos cúmulos, as janelas não tinham dobradiças. De facto, a fazer fé nos relatos vindos a público, quando mais se caminha para longe das capitais provinciais, mais distante fica, também, a qualidade do trabalho realizado. Sem qualquer justificação plausível.



A má qualidade de obras públicas não começa nem termina em escolas, postos de saúde ou hospitais. Atinge também artérias urbanas e estradas nacionais onde são investidos muitos milhares de biliões de meticais. Mesmo que da nova família. E, exemplo à vista de todos é o da Estrada Nacional Número Um. Em que a qualidade do trabalho realizado é diferente de troço para troço. Como diferente é o dia da noite. Aqui, temos um pavimento liso e impecável. Mais além, um piso diferente e onde começam a aparecer buracos. Noutro local, onde existe obra de arte, o terreno começa a ceder, a dar origem a sulcos declives com vários centímetros de desnível. Um perigo, já, para a circulação automóvel. Quanto à sinalização vertical, nem vale a pena falar. É, em si mesma um desastre. Com placas a autorizar 100 quilómetros por hora dentro de centros urbanos e, pior, após as quais existem lombas. Simplesmente ridículo e revelador de incompetência. Mas tem mais, tem placas a dar por findo o limite de uma determinada velocidade, sem que exista, anteriormente, qualquer placa de limitação. É caso para perguntar, uma vez mais, por onde anda a fiscalização. O que fazem ou o que fizeram os fiscais da obra. A resposta, terá de ser que não fizeram nada. Que não fizeram o trabalho que é a razão de ser da sua existência e, pelo qual, são pagos. O motivo pelo qual não fizeram o trabalho que deveriam ter feito, fica ao critério da imaginação de cada um. O que não custa prever, é que não irá passar muito tempo sem termos, de novo, um ministro no papel de fiscal. Embora, convenhamos, todos o sabemos, ministro não é fiscal.

sábado, julho 08, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Julho 9, 2006


antes e depois

Luís David


nada será como dantes


Há alguns meses, tive necessidade de fazer um exame médico. De uma das clínicas da cidade, enviaram-me para o serviço competente no Hospital Central de Maputo. No dia e na hora marcados, lá fui. Enquanto aguardava para ser atendido, aproxima-se de mim alguém com quem não cruzava desde há muito tempo. Ar jovial, sorriso aberto, pergunta: “Já não se lembra de mim?”. “Claro que lembro”, respondo. E, como que a tentar provar que me lembrava de verdade, concluo: “Tanta vez tomávamos café juntos, no Lobito, andava você na Faculdade de Medicina”. E, como que a provar não ter estado parado durante todos estes anos, remata: “Pois, desse tempo, hoje somos todos cirurgiões”. Ora, ao falar “desse tempo”, o meu amigo estava a referir-se aos finais dos anos setenta. Nesse tempo, o café Lobito, que ainda hoje existe, ali na Eduardo Mondlane, funcionava um pouco como centro social do Ministério da Saúde. Mas era, também, frequentado por alguns jornalistas da Revista “Tempo”. De passagem para a Faculdade de Medicina, ali paravam, também, alguns estudantes. As mesas eram poucas, o espaço reduzido. Este condicionalismo ajudava ao convívio, à convivência, à conversa sobre os assuntos mais diversos. É que cada um, ao chegar, sentava-se na mesa onde havia cadeira vaga. Quando havia. Recordo que, entre os frequentadores habituais do Lobito, havia também alguns timorenses. Um belo dia, a conversa girava em torno de curso e de trabalho, de emprego. Foi quando, em tom de brincadeira, talvez em tom de provocação, alguém perguntou a um a dos refugiados daquela colónia portuguesa: “E tu, quando concluíres o curso, o que pensas fazer?”. A resposta, certamente impensada, veio rápida e curta: “Quero ser cooperante”.


Foi no dia 22 de Junho passado que Xanana Gusmão dirigiu uma “mensagem à nação, em tétum, na sua qualidade de Presidente da República de Timor-Leste. Trata-se de uma intervenção pública, feita em plena crise institucional, da qual o “Savana” publica, na sua última edição, excertos traduzidos para português. Um texto que merece, sem dúvida, leitura atenta. Talvez, mais ainda, estudo aprofundado. Dado que, ao que perece, terá sido esta a primeira vez que as profundas divisões entre timorenses foram tornadas públicas. E, conclusão imediata e primeira, é que é bem fácil criar um Estado, mas bem mais difícil construir uma nação. Aqui, neste caso, com a agravante de que não sendo Timor-Leste, ainda, uma nação, o seu Estado é frágil. Depois dos últimos acontecimentos, poderá ter ficado, ainda, mais fragilizado. Logo, a democracia pode estar, pode ter sido colocada em perigo. Se democracia é coisa boa ou má, faz parte de uma outra discussão. O que não parece discutível é falar em democracia e não querer aceitar as regras da democracia. O que é difícil de entender é como uma geração de homens, que se reclamam de patriotas, não conseguem chegar a uma plataforma de entendimento. Não conseguem criar uma base de entendimento e uma plataforma de unidade nacional para, a partir daí, começarem a construir a nação timorense. País pobre, pequeno, com pouca população, Timor-Leste, é a realidade que é. Não pode ser governado de fora, mas também não é possível dividir metade de uma ilha. Neste contexto, que é o da realidade nacional, e no contexto da realidade asiática, quantos enviados especiais aterrarem em Dili, mais fácil será ultrapassar a crise. Com uma certeza, porém: Depois de 22 de Junho de 2006, nada será como dantes.
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Julho 9, 2006


antes e depois

Luís David


nada será como dantes


Há alguns meses, tive necessidade de fazer um exame médico. De uma das clínicas da cidade, enviaram-me para o serviço competente no Hospital Central de Maputo. No dia e na hora marcados, lá fui. Enquanto aguardava para ser atendido, aproxima-se de mim alguém com quem não cruzava desde há muito tempo. Ar jovial, sorriso aberto, pergunta: “Já não se lembra de mim?”. “Claro que lembro”, respondo. E, como que a tentar provar que me lembrava de verdade, concluo: “Tanta vez tomávamos café juntos, no Lobito, andava você na Faculdade de Medicina”. E, como que a provar não ter estado parado durante todos estes anos, remata: “Pois, desse tempo, hoje somos todos cirurgiões”. Ora, ao falar “desse tempo”, o meu amigo estava a referir-se aos finais dos anos setenta. Nesse tempo, o café Lobito, que ainda hoje existe, ali na Eduardo Mondlane, funcionava um pouco como centro social do Ministério da Saúde. Mas era, também, frequentado por alguns jornalistas da Revista “Tempo”. De passagem para a Faculdade de Medicina, ali paravam, também, alguns estudantes. As mesas eram poucas, o espaço reduzido. Este condicionalismo ajudava ao convívio, à convivência, à conversa sobre os assuntos mais diversos. É que cada um, ao chegar, sentava-se na mesa onde havia cadeira vaga. Quando havia. Recordo que, entre os frequentadores habituais do Lobito, havia também alguns timorenses. Um belo dia, a conversa girava em torno de curso e de trabalho, de emprego. Foi quando, em tom de brincadeira, talvez em tom de provocação, alguém perguntou a um a dos refugiados daquela colónia portuguesa: “E tu, quando concluíres o curso, o que pensas fazer?”. A resposta, certamente impensada, veio rápida e curta: “Quero ser cooperante”.


Foi no dia 22 de Junho passado que Xanana Gusmão dirigiu uma “mensagem à nação, em tétum, na sua qualidade de Presidente da República de Timor-Leste. Trata-se de uma intervenção pública, feita em plena crise institucional, da qual o “Savana” publica, na sua última edição, excertos traduzidos para português. Um texto que merece, sem dúvida, leitura atenta. Talvez, mais ainda, estudo aprofundado. Dado que, ao que perece, terá sido esta a primeira vez que as profundas divisões entre timorenses foram tornadas públicas. E, conclusão imediata e primeira, é que é bem fácil criar um Estado, mas bem mais difícil construir uma nação. Aqui, neste caso, com a agravante de que não sendo Timor-Leste, ainda, uma nação, o seu Estado é frágil. Depois dos últimos acontecimentos, poderá ter ficado, ainda, mais fragilizado. Logo, a democracia pode estar, pode ter sido colocada em perigo. Se democracia é coisa boa ou má, faz parte de uma outra discussão. O que não parece discutível é falar em democracia e não querer aceitar as regras da democracia. O que é difícil de entender é como uma geração de homens, que se reclamam de patriotas, não conseguem chegar a uma plataforma de entendimento. Não conseguem criar uma base de entendimento e uma plataforma de unidade nacional para, a partir daí, começarem a construir a nação timorense. País pobre, pequeno, com pouca população, Timor-Leste, é a realidade que é. Não pode ser governado de fora, mas também não é possível dividir metade de uma ilha. Neste contexto, que é o da realidade nacional, e no contexto da realidade asiática, quantos enviados especiais aterrarem em Dili, mais fácil será ultrapassar a crise. Com uma certeza, porém: Depois de 22 de Junho de 2006, nada será como dantes.