quinta-feira, outubro 26, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Outubro 22, 2006


antes e depois

Luís David


saber entender e interpretar

Com prefácio da edição portuguesa assinado pelo Padre Vítor Melícias, “O Fim da Pobreza – como consegui-lo na nossa geração”, teve a sua segunda edição em Junho passado. Ao longo de mais de 500 páginas, Jeffrey Sachs, conselheiro do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, dá-nos a conhecer a sua experiência de mais de vinte anos, em diferentes países do mundo. Da Bolívia à Polónia, da Rússia à China, da Índia ao Quénia. Naturalmente, África merece espaço especial e, logo na pag. 17, o autor escreve: Em particular, gostaria de agradecer à nova geração africana de líderes democráticos que vão apontando o caminho a seguir, e que inclui o anterior Presidente Alberto Chissano de Moçambique (...).Ao referir-se à situação na Rússia, em meados da década passada, escreve Jeffrey Sachs (pag. 222): No final da década (de 90), o optimismo tinha desaparecido, e os Russos estavam novamente à procura de um líder forte com poder centralizado. Quando os reformadores não conseguiram a ajuda de que necessitavam, eram substituídos por cinzentos apparatchiks corruptos e mercenários.][O pior ocorreu em 1995 e 1996, época em que eu observava da bancada. Durante aqueles dois anos, as privatizações tornaram-se uma actividade desavergonhada e criminosa. Em resumo, um grupo corrupto de denominados homens de negócios, que mais tarde vieram a ser colectivamente conhecidos como os novos oligarcas da Rússia, conseguiram deitar as mãos a dezenas de milhares de milhões de dólares de riqueza sob a forma de recursos naturais, principalmente nos conglomerados de petróleo e gás do estado russo. As melhores estimativas são de cerca de 100.000 milhões de dólares de petróleo, gás e outras matérias-primas valiosas transferidas para mãos privadas em troca de talvez não mais de 1.000 milhões de dólares de receitas de privatização recebidas pelo Tesouro. Criaram-se bilionários da noite para o dia: os orgulhosos (e novos ricos) proprietários da indústria russa de petróleo e gás.][ Quando o simulacro processo de privatização foi anunciado, através de um esquema pouco transparente de troca de acções por empréstimos, no qual os insiders conseguiam acesso às acções de uma empresa em troca de empréstimos do estado, tentei avisar os governos dos (...).][ O ocidente deixou isto acontecer sem um murmúrio.

Acabam de ser assinalados os vinte anos da morte de Samora Machel. Apontado como exemplo de honestidade, de verticalidade, de frontalidade. De homem íntegro, de defensor da ética do Estado, de valores morais irrepreensíveis. Hoje, á distância de vinte anos pode ouvir-se com frequência que “se Samora fosse vivo, nada disto acontecia”. A frase, em si própria, tanto pode ser interpretada como um elogio como uma crítica. Tanto pode significar saudade e respeito como sentimento patológico. Digamos que a frase, tantas vezes pronunciada nos últimos tempos, reflecte respeito e admiração por Samora. Talvez saudade do gesto, da palavra e da acção do homem Samora. Mas, pode, igualmente, ter leituras e interpretações diferentes. Depende de quem pronuncia. Depende de quem afirma. Cabe a cada um saber entender e interpretar.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Outubro 15, 2006

antes e depois

Luís David


a situação preocupa


O tempo a que me refiro, é o tempo presente. É o tempo actual. É o de hoje. O espaço, o espaço é o da cidade de Maputo. E de suas periferias. De suas várias e múltiplas periferias. Ora, é neste tempo e neste espaço, neste tempo presente e neste espaço bem delimitado, que começa a ser difícil viver. Talvez e melhor, sobreviver ou continuar vivo. Quando se é honesto, quando se é cidadão honesto. E, neste como em todos os casos e situações similares, semelhantes, iguais, ser não é parecer. Ser é, exactamente, significa exactamente, ser. Porque o crime violento, o assalto com arma de fogo, está a aumentar. Está a crescer. De forma alarmante. O cidadão. Qualquer cidadão, hoje, na cidade de Maputo, corre o risco de sentir apontada uma arma de fogo à cabeça. Para lhe roubarem carro e bens pessoais. Depois, depois, procede como qualquer cidadão honesto pensa ser correcto proceder. Comunica a ocorrência à esquadra de polícia mais próxima. E, aí, a partir daí, começa o calvário, tem início o martírio. Um doloroso percurso. É que o início da investigação parece, ao cidadão honesto, estar a ser retardado. Que o processo está a demorar mais tempo que o necessário, que o justificável para chegar ao investigador. Cinco dias depois de ser roubado com uma arma apontada à cabeça, o cidadão honesto fica a saber que, sequer, a ocorrência foi comunicada aos postos fronteiriços. Para tentar evitar a saída da viatura do país. Sequer, à Interpol. Mais, que nessa tarde de sexta-feira não já não há ninguém para receber mensagens do lado de lá da fronteira. Logo, qualquer comunicação às Polícias dos países vizinhos só será feita segunda-feira seguinte. Naturalmente, e sem qualquer ofensa aos cidadãos honesto deste país, a questão que, obrigatoriamente, tem de ser colocada é se este comportamento pode ser enquadrado no combate ao crime ou ser visto como colaboração com o criminoso. Sem que se pretenda tirar conclusões precipitadas, parece poder concluir-se que, em certos casos, haverá alguma promiscuidade entre polícia e ladrão. Ou, então, concedendo o benefício da dúvida, as nossas polícias estão, ainda, amarradas a processos burocráticos tão antiquados, que só ao ladrão beneficiam.


De quando em quando, de quando em vez, de tempos em tempos, perante a pressão da opinião pública e dos roubados, dos baleados e dos assassinados, surge reacção. Infelizmente, e sem possibilidade de desmentido, apenas a nível de discurso político. Como foi o caso desta semana. Quem leu a primeira página do jornal “Notícias” da última sexta-feira, ficou informado que os “Comandantes da PRM prometem repor a ordem”. Isto na zona sul do país. Logo, se prometem repor a ordem, significa que neste momento não há não existe ordem. E, na verdade não existe. Mais, que são os próprios comandantes a reconhecer que não existe ordem. Aliás, as primeiras linhas da referida notícia são claras e elucidativas: A onda de criminalidade que nos tempos que correm ganhou contornos alarmantes, com a ocorrência de crimes violentos, nomeadamente com recurso a armas de fogo, poderá reduzir nos próximos tempos, com a concretização de acções coordenadas entre as unidades policiais estacionadas nas três províncias da região sul do país, incluindo a cidade de Maputo. Acrescenta a notícia que Esta promessa foi feita por Luís Magueza, novo comandante da PRM na capital, durante os trabalhos da sexta reunião dos governadores do sul, realizada esta semana na Namaacha. Ora, salvo melhor opinião, o que nós, o que todos nós queremos, como cidadãos honestos, pagadores de impostos, é bem mais do que promessas. É algo vá para além do discurso político. O que queremos, o que temos o direito de exigir é acção. E, perante a realidade que se vive na capital do país, o que queremos é que, se necessário, o senhor comandante vista o seu colete à prova de bala e dirija pessoalmente operações contra criminosos. A não ser assim, corremos o risco de ver aumentar o número de linchamentos. Até de inocentes. Como pode já estar a acontecer. Com toda a responsabilidade, no mínimo moral, das autoridades policiais. E, quando acontecem linchamentos, quando se sucedem os casos de justiça pelas próprias mãos, podemos estar a caminhar para uma situação sem retorno. Desejamos que não. É que a etapa seguinte, é o poder cair na rua. Mesmo que não, mesmo que o discurso político possa tentar ser tranquilizante, tranquilizador, a situação preocupa.
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Outubro 8, 2006

antes e depois

Luís David


libertar Cahora Bassa dos colonialistas


No fecho dos seus serviços noticiosos, está a TVM a apresentar pequenos excertos de intervenções públicas de Samora Machel. Intervenções feitas nos mais diversos contextos, ao longo do tempo, e que surgem, agora, por ocasião da passagem dos vinte anos da sua morte. Foi assim que, num destes últimos dias, vimos e ouvimos Samora Machel a falar em Lisboa. Aquando da sua primeira visita a Portugal. Era, na altura, Presidente da antiga potência colonizadora o General Ramalho Eanes. Ao que a memória nos recorda, o único Presidente de Portugal que visitou, até hoje, Moçambique independente. E que teve uma recepção apoteótica. Curiosamente, ou talvez não, constituiu tema de conversa de Samora com jornalistas portugueses, em Lisboa, nessa sua visita, a situação de Cahora Bassa. Defendeu Samora, como parece óbvio que o tenha feito, a reversão da barragem para a posse de Moçambique. E, explicou, na ocasião, de forma didáctica e pedagógica, os motivos pelos quais os prejuízos acumulados por Portugal com a gestão de Cahora Bassa eram da inteira responsabilidade de Portugal. Explicou, detalhou, também, os motivos pelos quais não cabia a Moçambique qualquer responsabilidade pelo facto de a energia produzida em Cahora Bassa não estar a chegar, não poder estar a ser vendida, aos seus potenciais compradores. Se os jornalistas que conversaram, nesse dia, com Samora Machel entenderam ou não a sua mensagem, é uma incógnita. Que o Governo de Portugal não entendeu a mensagem, é uma realidade. Foi uma realidade há mais de vinte anos, como a é hoje.


Não tem, obviamente, este breve apontamento por objectivo falar de Samora Machel. Tem, isso sim, mostrar, talvez demonstrar sem dificuldades nenhuma, que a reversão de Cahora Bassa para Moçambique é uma questão de interesse nacional, é uma questão de soberania, é uma questão de Estado, que, desde sempre, tem vindo a ser colocada. Que é colocada desde 25 de Junho de 1975. Nunca terá sido, ao que se sabe, e muito pelo contrário, diferente a posição de Joaquim Chissano enquanto Chefe do Estado. Não o é, igualmente, o posicionamento de Armando Guebuza, como actual Presidente da República. Para resumir e concluir, podemos afirmar que, nestas últimas três décadas, tem sido manifesto o empenho de Moçambique em fazer reverter para a sua soberania a mais colossal obra, talvez o símbolo último, do colonialismo português em terras africanas. Também, e porque não, da ditadura e do fascismo português. O estranho, o mais estranho, é que, hoje, homens que se dizem democratas e socialistas, que tem o poder que pensam ter, comunguem e estejam perfilados ao lado de António de Oliveira Salazar e de Marcelo Caetano. Como o tem estado, aliás, durante estas últimas três décadas. E como, estoicamente, lutam por permanecer, por continuar em estar. E que pretendem, como é público, continuar a ditar ordens para as antigas colónias a partir do Terreiro do Paço, em Lisboa. Sabemos todos, que aqui aportaram, nestas terras índicas, em tempos coloniais republicanos, Américo Tomás e Marcelo Caetano. Depois, derrubado que foi o colonialismo, apenas um Presidente veio. Ramalho Eanes. Fica, naturalmente, e por direito próprio, neste espaço, uma palavra em memória de Sá Carneiro. Pelo que fez e pelo muito que poderia ter feito no que respeita à normalização das relações entre os dois países. Entre os dois Estados. Sem recalques nem complexos racistas. Depois, hoje, agora, parece só restar que Cavaco Silva esteja na disposição de redimir os erros dos seus antecessores. Os erros de um passado recente. E, talvez, até, voltar a visitar Moçambique. Para, definitivamente, libertar Cahora Bassa dos colonialistas.
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Outubro 1, 2006

antes e depois

Luís David


o retorno à “política da canhoeira”


Há, naturalmente, diferentes formas, diferentes maneiras de estar na vida. Como na política. Uma, é ser sério e honesto, respeitador e cumpridor das normas e das regras que regulam as relações entre os homens e entre os homens e a sociedade. No seu todo. Em resumo, cumprir com os compromissos assumidos, quer sejam escritos ou verbais. Como se entende, muito do que coloca para um bom entendimento e um bom relacionamento entre cidadãos, é válido para um bom entendimento e um bom relacionamento entre Estados. Entre homens que representam Estados. Entre homens que têm poder para assinar compromissos entre Estados, compromissos que comprometem e obrigam Estados. Ora, a outra forma de estar na vida como na política, entre várias formas possíveis, situa-se no campo inverso. Logo, significa não ser sério nem honesto, não ser respeitador das normas e das regras que regulam as relações entre os homens e entre os homens e a sociedade. Também, não cumprir com compromissos assumidos, quer sejam escritos ou verbais. Quer dizer, não respeitar nada nem ninguém. Impor a sua vontade recorrendo, se para tanto for necessário ao subterfúgio, quando não à mentira. Para, repita-se, não cumprir com a palavra dada. Ora, se esta atitude, se este tipo de comportamento é mau no relacionamento entre homens, dentro de uma determinada sociedade, parece pior no relacionamento entre Estados. Em tempo não muito distantes, mas durante décadas, talvez séculos, a esta forma de impor a vontade de um à vontade do outro, houve quem chamasse de “política da canhoeira”. Em nada fica mal recordar o passado histórico, para entender o presente e ponderar o futuro.


A posição do actual Governo de Portugal, sobre o entendimento a que chegou com o Governo de Moçambique, relativamente a Cahora Bassa é, no mínimo, uma posição que causa muitas preocupações. De facto, é verdade, nunca nenhum anterior Governo de Portugal assinou o que quer que fosse. E, não tendo assinado assumiu compromisso nenhum. Mas, este Governo assinou. E, ao assinar assumiu um compromisso. E, um compromisso entre Estados. Não estamos, como todos sabemos, a falar de compromissos assinados em décadas passadas. Entre outros Governos que representavam os mesmos Estados. Estamos a falar de compromissos assinados a 2 de Novembro de 2005. Ao mais alto nível. Entre governantes, de um e de outro Estado, que estavam e permanecem no poder. Ora, hoje, quase um ano após, quase um ano depois de assumido o compromisso, por escrito, uma das partes utiliza os mais patéticos subterfúgios para não cumprir aquilo que assumiu como sendo seu dever, como dever próprio, cumprir. Mas, esta falta de seriedade, esta falta de honestidade, parece ir mais longe, Vai, mesmo mais longe. É que, até ao momento, estão por explicar os motivos que levaram o Primeiro-Ministro de Portugal a não se ter encontrado com o Presidente da República de Moçambique. Na cidade de Nova Iorque. Por ocasião da Assembleia Geral da ONU. Admitamos que não foi por falta de respeito. Motivos ponderosos e, certamente, de Estado, terão sido soberanos na decisão. A questão está em saber quais, que conclusões tirar deste desencontro e que consequências daí poderão resultar. Para as relações entre os dois Estados. Por certo, ninguém de bom senso admite que se esteja perante o retorno à “política da canhoeira”.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Setembro 24, 2006


antes e depois

Luís David



só o trabalho permite reduzir a pobreza


Sem que seja ainda prática corrente, já se registam gestos de solidariedade entre moçambicanos. Um pouco de todo o país, surgem notícias de apoio, de ajuda a necessitados. Uma ajuda que se destina a resolver situações pontuais. Contudo, pode muito bem reflectir, parece reflectir, alguma capacidade e desejo de minorar sofrimentos de quem nada tem. Nada possui. De tudo carece. Parece ser, e pode muito bem ser, o despertar de um sentimento que, certamente, pode ser ampliado. Que deve ser ampliado. Como iniciativa local e nacional. Como movimento de ajuda de moçambicanos a moçambicanos. Como movimento de carácter permanente. Enquadrado, dirigido, controlado por instituições ou associações existentes ou a criar. A quem os interessados possam fazer chegar, de forma regular e organizada, os seus donativos. A realidade recente mostra existir vontade de ajudar, mostra existir alguma capacidade interna para ajudar, mostra existir um sentimento de solidariedade latente. Que se revela e que se manifesta útil em situações pontuais. Mas que pode não estar a ser devidamente aproveitado. E que bem poderia ser incentivado e orientado para caminhos bem úteis. Como seja, por exemplo o apoio à velhice. Através da construção e apoio na manutenção de lares para idosos. Que, certamente, deixariam de ter necessidade de mendigar pelas artérias das principais cidades. Neste contexto, a criação de uma associação de amigos dos idosos pode não ser uma utopia. Pode ser uma realidade.


Os gestos de solidariedade tornados públicos até agora, são pessoais, pontuais e isolados. O que em nada tira mérito a quem pratica essas acções. Muito pelo contrário. Podem e devem ser apontados como exemplos a seguir. O que parece errado, o que parece abusivo, é que estejam, em alguns casos, a ser noticiados como exemplos de combate à pobreza. Não são nem nunca poderão ser exemplo de combate a nenhum tipo de pobreza. São, isso sim, ajuda. São apoios úteis e necessários para resolver situações pontuais e casos de necessidades pontuais. E, ainda bem que os resolvem. Bom seria, até, que mais houvessem. Que mais pessoas de predispusessem a apoiar outras pessoas em situação de carências extremas. Agora, teremos de ter algum cuidado quando pretendemos enquadrar gestos de solidariedade no combate à pobreza. Primeiro, porque o combate à pobreza não se faz isoladamente nem com donativos. Segundo, porque podemos estar a criar uma ilusão que conduza a relaxar motivações já existentes para o trabalho. Porque, naturalmente, só o trabalho permite gerar riqueza e reduzir a pobreza. Digamos, aceitemos, que na nossa realidade, o trabalho pode não ser tudo. Que não é tudo. Claro que não. Mas, o trabalho não é tudo na nossa realidade, como o não foi em realidade nenhuma. Em nenhuma outra parte do mundo. O que parece certo, sem risco de desmentido, é que só o trabalho permite reduzir a pobreza.
Publicado em Mpauto, Moçambique no Jornal Domingo de Setembro 17, 2006

antes e depois

Luís David


Pensar e decidir


Ainda não desapareceu, por completo, o eco das vozes que se fizeram ouvir sobre os últimos acontecimentos envolvendo agentes policiais. Também não o das afirmações feitas em nome do esclarecimento dos factos. Que, diga-se em abono da verdade, pouco esclareceram. Que trouxeram mais dúvidas que certezas. Talvez, e esta é uma hipótese, uma simples hipótese, um dia, um dia mais tarde, venham a ser conhecidas as causas do sucedido na Matola-Rio. As causas e os contornos. A verdadeira dimensão da ocorrência. É que três morte, três mortes à queima-roupa, tem o valor e o peso que tem que ter três mortes. E o esclarecimento do que se passou antes e depois da ocorrência não pode ficar numa simples declaração pública. Mesmo quando ou só pelo facto de essa declaração ter sido feita por um ministro. Pese o respeito que merecem e que devem merecer todos os ministros. É que matar, matar da forma que vimos, através de imagens televisivas, não pode transformar-se em banal cena do quotidiano. A morte, a morte violenta, seja a vítima polícia ou ladrão, não pode ser banalizada. A violência, o acto violento que antecede a morte ou a imagem da consequência desse acto, ainda menos. Sob pena e risco de nos tornarmos insensíveis à violências. E às imagens de morte violenta. Incapazes de distinguir o bem do mal. Incapazes de distinguir o bom do mau. Incapazes de destrinçar quem cumpre e quem viola a lei. Em caso extremo, de, por falta de referências, caminharmos para uma sociedade sem ética e sem moral. Já estivemos mais longe do que estamos. Mas, ainda estamos a tempo, assim o parece, de inverter o percurso.


Não constitui segredo. É por muitos conhecido. Digamos, é público. E, o que é conhecido e é público é o mau comportamento e a forma errada de actuação de alguns agentes policiais, para além dos casos citados. Ainda recentemente, nas colunas deste Semanário, era denunciada a forma de actuação de alguns agentes da Polícia de Trânsito. E, mais, mencionados os locais preferidos da sua actuação. Da sua indigna e ilegal actuação. Mas, muito provavelmente, ninguém terá lido o que foi escrito. Ou se leu, se acaso leu, não agiu. Se leu, decidiu não agir. As razões, os motivos, só quem tinha o dever de agir e não agiu pode explicar. É que esses “caçadores” de multas continuam, lá vão ficando, dia após dia emboscados. Onde muito bem lhes apetece. Escondidos atrás de viaturas ou de árvores. Em vez de fazerem o serviço que lhes compete, de terem um papel activo e necessário para um melhor fluir do trânsito. Principalmente nos cruzamentos e em horas de maior movimento. Mas não. Como intocáveis que parecem ser e agindo à margem de qualquer comando, lá vão continuando a “fazer pela vida”. É que ninguém acredita, ninguém honesto pode acreditar, que a forma de actuar destes polícias de trânsito resulte de uma ordem superior. Se resulta, se o tipo de trabalho que estão a executar é, de facto, o que lhes foi mandado fazer, estamos muito mal. Estamos francamente mal. Podemos estar a criar, a partir de dentro, e a alimentar um complexo sistema, uma teia de corrupção difícil de eliminar. Naturalmente, e sem muitas delongas, quase tudo do que aqui foi escrito é válido para a Polícia Municipal. É aplicável à Polícia Municipal. Uma e outra necessitam, urgentemente, de avaliar o comportamento individual dos seus membros. E, também, de rever os seus métodos de actuação no terreno. Precisam de uma reciclagem. Precisam de aprender a fazer cumprir a lei que todos conhecem. Não aquela que só alguns conhecem. Aquela que só eles parece conhecerem. A lei do mais forte. E, como estamos a ver, como estamos a assistir, a lei do mais forte é a lei daquele que possui arma. É tempo, ainda temos tempo de parar para pensar. Pensar e decidir.

terça-feira, setembro 12, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Setembro 10, 2006

antes e depois

Luís David


Uma espiral de morte


Nas últimas semanas, a cidade de Maputo registou, no mínimo, três casos de tiroteio. Envolvendo ou contra agentes da Polícia. Houve feridos, houve mortos. No primeiro caso, registado no Bairro do Triunfo, foi morto um chefe de brigada. Num bar, pouco distante de uma Esquadra, foras das suas horas de serviço. E, ao que parece, sem tido tempo para esboçar gesto de defesa. Terá sido assassinado à queima-roupa. No segundo caso, poucos dias depois, dois agentes que, ao que parece, pertenciam à brigada do falecido foram alvo de tentativa de assassinato. Ao princípio da noite, perto da Praça Robert Mugab. Ficaram feridos. No terceiro e último caso, dois agentes da Polícia e um terceiro homem, foram mortos pela Polícia. Em circunstâncias pouco claras. Em circunstâncias algo polémicas e que estão a permitir alimentar diferentes versões. Convenhamos que são demasiados casos e muitos mortos em tão curto espaço de tempo. Principalmente por nesses casos, em todos estes casos, terem estado envolvidos agentes da Polícia. Sem se pretender tirar conclusões precipitadas, parece importante fazer uma reflexão séria e profunda. É necessário que quem tem por missão garantir a segurança e a ordem públicas faça um exercício de reflexão e, para além de palavras de ocasião, através de comunicado deixe claro o que se passa. O que se está a passar.


Da avaliação dos relatos da Informação escrita, fruto de investigação jornalística ou de declarações oficiosas, resulta alguma preocupação. Pode ficar a preocupação de ter existido alguma relação promíscua, alguma ligação perigosa, algum acordo secreto entre agente policial e criminoso. E que quando uma das partes violou esse acordo, as armas disseram de sua justiça. Porque ambas as partes, agente policial e criminoso, estão armadas. É suposto que a arma do criminoso é para praticar o crime. E que a arma do agente policial é para combater o crime. Para defender, para proteger o cidadão do criminoso. Pode não estar a acontecer assim. Hoje, expressões como vingança, traição e ajuste de contas, tornaram-se frequentes. E tornaram-se em tentativas de justificativo para os confrontos armados entre polícias e bandidos. O que em nada ajudando a compreender, menos ainda ajuda a combater o fenómeno. Pode, até, ser motivo de preocupação. E é, certamente. Ora, aceitando como verdade que os dois agentes da FIR, mortos na Matola Rio, eram perigosos bandidos, há muito procurados pela Polícia, fica uma única certeza. A certeza de que, neste momento, não temos certeza nenhuma. Que não é possível, que não nos é possível, neste exacto momento, saber se, quando estamos perante um agente policial estamos perante um agente policial que nos protege ou perante um serviçal dos criminosos. De um agente da polícia ao serviço e pago por criminosos. Sejamos claros e frios no pensar. Ao pensar. Ainda há tempo, parece ainda haver tempo para inverter a situação. Com medidas claras e concretas. Caso não, podemos estar a abrir espaço para uma espiral de violência. Uma espiral de morte.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Setembro 3, 2006


antes e depois

Luís David


ainda não mudou

Quando em Angola foram dados os primeiros tiros, os tiros anunciadores do caminho para a independência, Salazar proferiu uma frase que ficou célebre: Para Angola e em força. Uma frase que era, em simultâneo, a definição e a afirmação de uma política. Da sua política. Mas, também, da política que iria perdurar, que iria ser seguida mesmo para além da sua morte. Que iria ter, exactamente, a mesma duração temporal do regime. E que terminou quando o regime terminou, quando o regime caiu de podre. A 25 de Abril e com o 25 de Abril. As vozes e os sentimentos, agora, eram outros. Era novo o sentir e era novo o pensar. E, frase do ditador encontrava resposta noutras. De recusa em continuar a guerra, de recusa em participar na guerra. Para a guerra nunca mais. Nem mais um soldado para o Ultramar. No tempo passado, ficavam venturas e desventuras. Hoje, cantadas e contadas por quem tem arte e engenho para tanto. Ou a tal de propõe. Para trás, ficavam, muitas centenas, milhares de desertores. De migrantes forçados, como solução para não participar na guerra. E ficavam, também, muitas imagens de dor e de sofrimento, de choro e de ansiedade. De angústia. De homens e de mulheres. De pais e de mães. De filhos e de irmãos. De noivas ou de esposas. Era a hora da partida. De uma partida sem certeza de regresso.

A televisão, as televisões têm a força que têm. E o poder para nos fazer transportar onde entendem que devemos estar. Ou, muito simplesmente, para nos mostrar aquilo que entendem que devemos ver. Aquilo que desejam que seja visto por nós. Não poucas vezes, em directo, em tempo real. É assim que, decorridas que são mais de quatro décadas, aquelas imagens parecem repetir-se. Parecem ser as mesmas. E, neste caso, é a televisão do Portugal que as oferece. Em directo. Concordamos que o cenário seja outro. Mudou. O local de partida já não é o mesmo. O Cais de Alcântara deu lugar ao Aeroporto de Figo Maduro. Mas a dor e o sofrimento, o choro e ansiedade, estão lá. Nos mesmos rostos. Ou, até pode acontecer que os rostos sejam outros. Que sejam, neste tempo, já de netos e avós. Afinal, o tempo passa e passa lesto. E o passar do tempo parece, tantas vezes, fazer apagar a memória. Sobretudo a memória colectiva. O que não faz, o que não pode fazer, é mudar a consciência. Para quem sabe o que isso é. Para quem a possui. Mas, para além do cenário, para além do local de embarque, algo mais mudou. Mudou, parece ter mudado, o sentimento do dever, e o sentimento, a obrigatoriedade de cumprir o dever. Ou, um dever. Por isso, hoje, nos tempos que correm, já não há desertores. Já não há contestação. Pela simples razão lógica de ter deixado de haver quem conteste. Quem tem vontade de contestar. Ou, porque quando se contesta, quando alguém contesta tenta abafar-se-lhe a voz. O que, nem sempre produz bons resultados. O que nem sempre produz os resultados desejados. A prova aí está. A prova é Cahora Bassa. Por isso, Cahora Bassa continua motivo de contestação. Cahora Bassa está em Moçambique. Cahora Bassa é produto moçambicano. Caso não, haveremos de concluir que Portugal não mudou. Que, mais de quarenta anos depois do 25 de abril, ainda não mudou.
Publicado em Maputo, Moçcambique no Jornal Domingo de Agosto 27, 2006

antes e depois

Luís David

uma sociedade de medo

Temos de concordar que há certas situações que todos sabemos existirem. Quando não por conhecimento directo, por conhecimento indirecto. Até que um dia, um certo dia, surge a confirmação pública. Então, aquilo que até então poderia parecer um boato, aquilo que até então poderia parecer uma simples suposição, deixa de ser boato e deixa de ser suposição. Passa a ser facto e passa a ser verdade. Pois então, se estamos a falar de carros roubados e estamos, efectivamente, a falar de carros roubados e de carros traficados, ficámos todos a saber que existe uma rede que actua a partir do Chókwè. Quem o confirma (ver o jornal “Zambeze” de 24 do corrente mês), é o governador da província, para quem a situação está sob controlo. E, indo mais longe, para tentar dar credibilidade à sua afirmação, até terá dito mais. Terá dito que “já foram identificadas as pessoas que se dedicam a está prática”. Mais disse, ainda, mas o que disse mais não vem a propósito citar. Agora, o que não disse, e isso não disse, é que esses de tais que diz estarem identificados irão ser detidos e presentes a Tribunal. Porque confirmar que há redes de traficantes de carros que actuam entre a África do Sul e Moçambique não tem qualquer significado. Todos nós sabemos, por ser público, que em tempos não muito distantes o governo de Cabo Delgado comprou carros roubados. Todos nós sabemos, por ser público, que se vendem carros roubados em Moçambique. E, aqui, a cidade da Matola até parece ter créditos antigos. Um exercício que deve ser feito, terá de ser no sentido de procurar saber o que faz a Polícia perante este manancial de conhecimentos de acções criminosas que lhe são fornecidos. O que, podendo não ser um exercício fácil, é um exercício necessário. Enquanto assim não acontecer, sequer vale a pena afirmar que se está a fazer combate ao crime.


Esta semana, em Maputo, dois agentes da Polícia foram atacados e feridos com armas de fogo, como foi amplamente noticiado. Anteriormente, o chefe da brigada a que pertencem havia sido morto. Ao que parece, sem hipótese nem possibilidade de defesa. Sem possibilidade de dizer uma palavra, sequer. Digamos que, sumariamente morto. Assassinado a sangue frio. Perante esta e a outra realidade, de nada serve dizer, de nada adianta dizer que somos fortes. E que andam por aí a tentar dizer que somos fracos. É que a questão não está em dizer. A questão está em demonstrar e, mais do que demonstrar, em provar. E, a Polícia tem, tem de ter, homens treinados e especializados para combater este tipo de crime. Porque, ao que se sabe, sempre teve. As redes de traficantes de carros não surgiram hoje. A sua existência era conhecida há vinte, talvez vinte e cinco anos atrás. E se, até hoje não foram, ao que parece nenhuma foi desmantelada, não terá sido por falta de meios. Terá sido por tudo menos por falta de meios. E, dizer que foi por falta de vontade pode parecer violento. Temos de convir e de dizer, em abono da verdade, que nestas últimas décadas algumas dezenas de moçambicanos deram as suas vida, muitas das vezes, talvez com elevada dose de ingenuidade, por causa que era sua e por causa que lhes disseram ser comum. Pura mentira. Pura propaganda. Poderá, é certo, não ter sido um sacrifício em vão. Poderá não ter sido um sacrifício em vão. Mas, não foi suficiente, não terá sido suficiente para evitar que continuemos a viver, cada dia mais, naquela a que bem se pode chamar uma sociedade de medo.
Publicado em Maputo, Moçcambique no Jornal Domingo de Agosto 19, 2006

antes e depois

Luís David


o medo do criminoso pode fazer alterar a lógica

O crime organizado é isso mesmo. É crime e é organizado. O crime organizado, para além de ser crime, tem como base uma organização. Um sistema. Uma hierarquia. O crime organizado, nunca foi e alguma vez será, aquilo que conhecemos como quadrilha de ladrões. Como a quadrilha que actua no bairro, durante a noite, ou em pleno dia numa qualquer artéria citadina. Que rouba telefone móvel, artigos diversos, valores mais ou menos elevados destinados ao pagamento de salários a trabalhadores. E que, de quando em quando, tiro para cá, tiro para lá, deixa umas tantas vítimas caídas por aí. O crime organizado parece, e é, coisa bem diferente. Bem mais sofisticada. Com métodos de actuação, aparentemente, irrepreensíveis. Integrando pessoas, aparentemente, honestas. Mas que, convenhamos, não olham a meios para atingir os seus fins. E, os seus fins são o crime. Digamos que, em última análise, o crime organizado pode, até, integrar os mais insuspeitos. Gente que a gente se habituou a ver como gente boa. Como aquilo a que se chama, erradamente, gente de bem. Gente sorridente bem falante. Mas que, pode bem acontecer, tem ao seu serviço todo um exército que lhe obedece e que está sempre pronto a executar as suas ordens, a cumprir os eus desígnios. O crime organizado, como hoje o conhecemos, como hoje é, tem tentáculos, tem ramificações por onde menos se possa imaginar. Usa, utiliza a ameaça e a chantagem. Para conseguir, para impor o silêncio. Daí o silêncio, os muitos silêncios. As muitas vozes silenciadas.


Cinco anos depois, pouco ou nada se sabe, publicamente, sobre o assassinato de Siba-Siba Macuácua. Ou, por outra, sabemos, todos, o que todos sabem. Que era um homem bom e honesto, que foi incumbido de uma missão. Depois, bem, depois foi assassinado. Sabemos, também, como foi praticado o crime. Continuamos a não saber, também, quem o praticou. Agora, neste tempo de hoje, colocam-se as perguntas que sempre se colocam neste tipo de assassinatos. Como, por exemplo, a quem interessava a morte da vítima. Pensa-se, admite-se, talvez de forma errada, que aos devedores ao Banco Austral. Mas, poderá não ser assim. Poderá ser útil colocar outras hipóteses de investigação, outras hipóteses de trabalho. Assim, poderá ser útil alertar para outros caminhos, para outras vias de investigação. Bloqueadas, aparentemente, até hoje. Por exemplo, pode ser útil, em termos de investigação e de busca da verdade, conhecer mais do que o nome dos devedores. Saber, conhecer, os nomes dos gestores que autorizaram os empréstimos. Saber quem concedeu os créditos. O que, até hoje, permanece segredo. É que há, continua a haver, nomes de devedores, mas não há nomes de quem autorizou os empréstimos, nomes de quem é responsável pelas dívidas. Depois, a questão lógica que se coloca, que se coloca em relação a este crime, deve ser colocada em relação a outros. Anteriores. A pergunta, pode ser colocada nos mesmos termos. A quem interessou a morte de Carlos Cardoso, a quem interessou, anteriormente, a morte de Samora Machel. É facto, comprovado, que o crime organizado tem uma lógica. A lógica do criminoso. Já não é facto comprovado que o crime organizado seja lógico. O factor medo, aqui, pode ter um peso determinante. Ou seja, o medo do criminoso pode fazer alterar a lógica.