Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Novembro 19, 2006
antes e depois
Luís David
agir perante a nossa realidade concreta
É, nos seus aspectos mais visíveis, a sociedade moçambicana uma sociedade extremamente complexa. E, cheia de curiosidades e de particularidades. Que para além da complexidade comum a outras ou a todas as sociedades, parece ter curiosidades e particularidades próprias. Digamos, inéditas ou exclusivas. Mas cuja repetição, cuja banalização tende ou pode transformar-se em hábito. Em norma, em normalidade. O que se afigura perigoso quando o precedente tende a ser a regra ou o rotina. Ora, anormal e inédita foi a cena ocorrida numa das artérias da Baixa da cidade de Maputo. Na última sexta-feira. Pelo que pudemos ver através da imagens da televisão. Aconteceu, então, uma senhora que transportava diversos, géneros alimentares, entre os quais óleo de cozinha, ser interceptada por agentes da Polícia. Suspeitando, certamente, os polícias de giro estarem perante perigosa ladra, daí a algemarem-na terá sido questão de segundos. Só que a suspeita parece não ser pessoa para se dar por vencida com facilidade. Vai daí, agarrou o polícia, ao qual estava ligada pela corrente da algema, pela camisa. E, como que numa aparente promessa de não o querer largar, justificou a sua atitude. Falou sobre a falta de identificação do agente em causa e, disse mais. Disse, para a quem a quis ouvir, não ter qualquer problema em deslocar-se à Esquadra, quando transportada em viatura da Polícia, conduzida por polícias devidamente identificados. O que parece ter acontecido. Depois, o que se possa ter passado depois, terão sido apenas detalhes. O que nada podem vir a alterar o fundamental da história.
O número de crimes violentos ocorridos nos últimos dias continua extremamente alto. Principalmente no que se refere a roubos de viaturas e assaltos a residências. O assassinato, também com armas de fogo, de agentes da chamada “brigada mamba”, elevou o número de vítimas para cinco. Havemos de convir, todos, que é muito agente da polícia morto num curto espaço de tempo. Felizmente, a fase dos linchamentos, a fase da “justiça pelas próprias mãos”, parece ter passado. Esperemos que em definitivo. No geral, o cenário, aquilo de que nos apercebemos, pode ser completado com o aparecimento, também nas televisões, da Polícia Comunitária. Uma Polícia que, salvo melhor entender ou outra explicação, parece mais preocupada em evitar o linchamento de possíveis ladrões do que em evitar o roubo e o crime. Trata-se, até prova em contrário, de uma Polícia com pouca ou nenhuma capacidade de intervenção na protecção dos cidadãos. E, no mínimo, uma Polícia com uma actuação algo controversa. O que, em última análise, pode conduzir a uma perda de confiança na sua actuação. Aqui chegados, muitas são as questões que poderiam ser colocadas. Uma, é a de saber o que fazem, a que comando obedecem ou a quem protegem esses agentes que, desarmados, percorrem as artérias de Maputo. Naturalmente, só e apenas enquanto somos iluminados pelo Sol. Outra questão que pode, e deve, ser colocada, não é de saber quantos carros roubados foram recuperados mas, isso sim, quantos ladrões de carros foram presos. Quem são e onde estão presos. Se é que algum está. Por fim, e esta parece ser uma questão muito mais complicada e complexa, importa saber se existe ou não “espírito de corpo” na Polícia. Aqui, em última instância, estamos perante uma questão doutrinária. Se sim, tudo bem. Que haja manifestações de solidariedade para com os colegas assassinados. Que todos se empenham em descobrir quem assassinou os colegas. Se não, a solução possível, no mínimo plausível, é militarizar a Polícia. E, militarizar a Polícia, na nossa realidade, actual, significa tomar a ofensiva no combate ao criminoso. Significa persuadir e intimidar. Significa ocupar o espaço onde hoje actua, impune, o criminoso. Significa fazer circular o blindado onde, todos o sabemos, circula, impune, agora, o carro do ladrão e do assassino armado. De facto, e esta é a realidade, não temos muito espaço para podermos ser diferentes. Temos de saber e querer agir perante a nossa realidade concreta.
quinta-feira, novembro 23, 2006
domingo, novembro 12, 2006
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Novembro 12, 2006
antes e depois
Luís David
os limites do real e da verdade
De seu nome José Rodrigues dos Santos, nasceu na cidade da Beira, em Moçambique, no ano de 1964, onde viveu os primeiros dez anos da sua vida. Iniciou a sua carreira jornalística na Rádio Macau. Trabalhou na BBC, em Londres, entre 1987 e 1990, donde seguiu para a RTP onde começou a apresentar o 24 Horas. Em 1991 passou para a apresentação do Telejornal e tornou-se colaborador permanente da CNN. Doutorado em Ciências da Comunicação e professor universitário, foi por duas vezes director de informação da RTP. Galardoado com vários prémios profissionais e académico, é autor de diversos livros, o mais recente dos quais “A Verdade da Guerra” (258 páginas), que conheceu a sua sexta edição em 2005. Sobre este livro, escreveu Manuel Maria Carrilho, que foi Ministro da Cultura de Portugal, em o “Diário de Notícias”: Rodrigues dos Santos assumiu uma posição rara mas certeira – a da rejeição da noção de objectividade no jornalismo, abrindo assim caminho a duas ideias importantes: a da cumplicidade dos jornalistas com a encenação dos factos [...] e a do condicionamento de tudo o que um jornalista diz pela sua particular perspectiva. Num tempo e num espaço em que tanto se fala sobre independência e manipulação da informação, sobre pressões e objectividade, faz bem ler um livro como a “Verdade da Guerra”.
Numa longa mas não fastidiosa abordagem, digamos, mesmo, uma história do jornalismo de guerra, que vai da Primeira Guerra Mundial até a “As guerras do século XXI”, Rodrigues dos Santos escreve, logo no primeiro capítulo, (pag. 37): [...] O conceito de que tudo no universo é relativo veio dar credibilidade ao relativismo, que defende que a verdade varia consoante o seu enunciador, enquanto o princípio da incerteza reforçou o subjectivismo, que preconiza o primado do sujeito na concepção do objecto. Se as coisas não são o que parecem, como demonstra a teoria da relatividade, e se o princípio de causa-efeito não é fenomenologicamente universal, como revela e mecânica quântica, para quê então insistir nessas ilusões?. E, ainda sobre o acesso ao real, escreve na página seguinte: [...] É que, ao abrir espaço para o acaso, a imprevisibilidade e o aleatório fenomenológico no estudo do comportamento da matéria, o princípio da incerteza permitiu perceber que o observador altera sempre o objecto observado, o que significa, consequentemente, que não existem observações objectivas da realidade. Mais adiante, (pag. 45), o autor cita David Krech e Richard Crutchfield que em 1948 estabeleceram o conceito de que a percepção é funcionalmente selectiva, o que significa que existe um elevado grau de distorção na forma como apreendemos as manifestações do real. “Ninguém capta tudo o que existe ‘lá fora’. Já no capítulo seguinte, “A objectividade do discurso jornalístico”, escreve (pag. 56): Muitos jornalistas consideram que a objectividade está para além das ideologias, quando na verdade, a crença na objectividade é, ela própria, de raiz ideológica. [...] A ingenuidade parte do facto de se acreditar que a objectividade é possível, quando, na verdade, o problema é que ela é inatingível, a começar pela subjectividade inerente ao discurso e aos seus valores intrínsecos. Em resumo, e por o espaço também ser pouco, pode concluir-se que estamos perante uma obra de interesse para todos os estudantes da área da comunicação social. Embora nem só. E que, numa perspectiva mais ampla, mais alargada, bem pode servir de base para um debate sobre os limites do real e da verdade.
antes e depois
Luís David
os limites do real e da verdade
De seu nome José Rodrigues dos Santos, nasceu na cidade da Beira, em Moçambique, no ano de 1964, onde viveu os primeiros dez anos da sua vida. Iniciou a sua carreira jornalística na Rádio Macau. Trabalhou na BBC, em Londres, entre 1987 e 1990, donde seguiu para a RTP onde começou a apresentar o 24 Horas. Em 1991 passou para a apresentação do Telejornal e tornou-se colaborador permanente da CNN. Doutorado em Ciências da Comunicação e professor universitário, foi por duas vezes director de informação da RTP. Galardoado com vários prémios profissionais e académico, é autor de diversos livros, o mais recente dos quais “A Verdade da Guerra” (258 páginas), que conheceu a sua sexta edição em 2005. Sobre este livro, escreveu Manuel Maria Carrilho, que foi Ministro da Cultura de Portugal, em o “Diário de Notícias”: Rodrigues dos Santos assumiu uma posição rara mas certeira – a da rejeição da noção de objectividade no jornalismo, abrindo assim caminho a duas ideias importantes: a da cumplicidade dos jornalistas com a encenação dos factos [...] e a do condicionamento de tudo o que um jornalista diz pela sua particular perspectiva. Num tempo e num espaço em que tanto se fala sobre independência e manipulação da informação, sobre pressões e objectividade, faz bem ler um livro como a “Verdade da Guerra”.
Numa longa mas não fastidiosa abordagem, digamos, mesmo, uma história do jornalismo de guerra, que vai da Primeira Guerra Mundial até a “As guerras do século XXI”, Rodrigues dos Santos escreve, logo no primeiro capítulo, (pag. 37): [...] O conceito de que tudo no universo é relativo veio dar credibilidade ao relativismo, que defende que a verdade varia consoante o seu enunciador, enquanto o princípio da incerteza reforçou o subjectivismo, que preconiza o primado do sujeito na concepção do objecto. Se as coisas não são o que parecem, como demonstra a teoria da relatividade, e se o princípio de causa-efeito não é fenomenologicamente universal, como revela e mecânica quântica, para quê então insistir nessas ilusões?. E, ainda sobre o acesso ao real, escreve na página seguinte: [...] É que, ao abrir espaço para o acaso, a imprevisibilidade e o aleatório fenomenológico no estudo do comportamento da matéria, o princípio da incerteza permitiu perceber que o observador altera sempre o objecto observado, o que significa, consequentemente, que não existem observações objectivas da realidade. Mais adiante, (pag. 45), o autor cita David Krech e Richard Crutchfield que em 1948 estabeleceram o conceito de que a percepção é funcionalmente selectiva, o que significa que existe um elevado grau de distorção na forma como apreendemos as manifestações do real. “Ninguém capta tudo o que existe ‘lá fora’. Já no capítulo seguinte, “A objectividade do discurso jornalístico”, escreve (pag. 56): Muitos jornalistas consideram que a objectividade está para além das ideologias, quando na verdade, a crença na objectividade é, ela própria, de raiz ideológica. [...] A ingenuidade parte do facto de se acreditar que a objectividade é possível, quando, na verdade, o problema é que ela é inatingível, a começar pela subjectividade inerente ao discurso e aos seus valores intrínsecos. Em resumo, e por o espaço também ser pouco, pode concluir-se que estamos perante uma obra de interesse para todos os estudantes da área da comunicação social. Embora nem só. E que, numa perspectiva mais ampla, mais alargada, bem pode servir de base para um debate sobre os limites do real e da verdade.
domingo, novembro 05, 2006
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Novembro 5, 2006
antes e depois
Luís David
uma realidade que não pode ser escamoteada
O fenómeno dos linchamentos, principalmente em Maputo, está a gerar vários movimentos. Por um lado, de condenação. Como era de esperar e é de desejar. Por outro lado, de análise e de tentativa de interpretação e de compreensão das suas causas mais profundas. Que, muito provavelmente, serão várias e diversas. E, aqui, parece redundante afirmar ser importante escutar e ler o que especialistas na matéria dizem e escrevem. Mesmo quando não se concorde com as suas opiniões. Mas, é importante saber, conhecer, que medidas apontam para combater as causas do fenómeno. E ter presente, sobretudo, que não bastam, apenas, medidas punitivas contra os linchadores. Estas, em última instância, tem apenas efeitos sobre casos já passados, já ocorridos. E, parece necessário ir mais além. Para prevenir e evitar.
De Francis Fukuyama, lemos, recentemente, “A Terceira Vaga” e “O Fim da História”. Agora chega-nos “A Construção de Estados – Governação e Ordem Mundial no Século XX!”. Desta última obra se diz que o autor sistematiza o que sabemos – e, sobretudo, o que não sabemos – sobre como criar instituições públicas bem-sucedidas em países em vias de desenvolvimento, de forma que estas beneficiem os seus cidadãos. Logo no início do livro (pag. 16), Fukuyama afirma que Os Estados modernos (...) são tudo menos universais. Não existiram de todo em vastas regiões do mundo, como é o caso da África subsariana antes do colonialismo europeu. Após a Segunda Guerra Mundial a descolonização conduziu a um frenesim de construção de Estados por todo o mundo em vias de desenvolvimento, que foi bem sucedida em países como a Índia e a China, mas que apenas teve lugar no plano formal em muitas outras partes da África, Ásia e Médio Oriente. Mais adiante (pag19), questiona se os Estados Unidos têm um Estado forte ou fraco. E, depois de explicar o processo de construção do Estado norte-americano, escreve: Por outro lado, o Estado americano pode ser considerado muito forte noutro sentido. Max Weber (1946) definiu o Estado como “uma comunidade humana que (com êxito) reclama o monopólio do uso legítimo da força física dentro de um determinado território”. A essência do Estado é, por outras palavras, a coacção: A capacidade fundamental de colocar alguém no terreno com um uniforme e uma arma para forçar as pessoas a cumprir as leis do Estado. Neste aspecto, o Estado americano é extraordinariamente forte: possui uma enorme variedade de meios de coacção a nível federal, estadual e local, para fazer cumprir tudo, desde regras de trânsito ao direito comercial, ou para evitar as violações fundamentais dos direitos dos cidadãos. (...) Voltando à questão inicial dos linchamentos, talvez se possa concluir que constituem um exemplo de Estado fraco. Não o único, infelizmente. Mas que constitui uma realidade que deve ser tida em conta na análise global do fenómeno. Que é uma realidade que não pode ser escamoteada.
antes e depois
Luís David
uma realidade que não pode ser escamoteada
O fenómeno dos linchamentos, principalmente em Maputo, está a gerar vários movimentos. Por um lado, de condenação. Como era de esperar e é de desejar. Por outro lado, de análise e de tentativa de interpretação e de compreensão das suas causas mais profundas. Que, muito provavelmente, serão várias e diversas. E, aqui, parece redundante afirmar ser importante escutar e ler o que especialistas na matéria dizem e escrevem. Mesmo quando não se concorde com as suas opiniões. Mas, é importante saber, conhecer, que medidas apontam para combater as causas do fenómeno. E ter presente, sobretudo, que não bastam, apenas, medidas punitivas contra os linchadores. Estas, em última instância, tem apenas efeitos sobre casos já passados, já ocorridos. E, parece necessário ir mais além. Para prevenir e evitar.
De Francis Fukuyama, lemos, recentemente, “A Terceira Vaga” e “O Fim da História”. Agora chega-nos “A Construção de Estados – Governação e Ordem Mundial no Século XX!”. Desta última obra se diz que o autor sistematiza o que sabemos – e, sobretudo, o que não sabemos – sobre como criar instituições públicas bem-sucedidas em países em vias de desenvolvimento, de forma que estas beneficiem os seus cidadãos. Logo no início do livro (pag. 16), Fukuyama afirma que Os Estados modernos (...) são tudo menos universais. Não existiram de todo em vastas regiões do mundo, como é o caso da África subsariana antes do colonialismo europeu. Após a Segunda Guerra Mundial a descolonização conduziu a um frenesim de construção de Estados por todo o mundo em vias de desenvolvimento, que foi bem sucedida em países como a Índia e a China, mas que apenas teve lugar no plano formal em muitas outras partes da África, Ásia e Médio Oriente. Mais adiante (pag19), questiona se os Estados Unidos têm um Estado forte ou fraco. E, depois de explicar o processo de construção do Estado norte-americano, escreve: Por outro lado, o Estado americano pode ser considerado muito forte noutro sentido. Max Weber (1946) definiu o Estado como “uma comunidade humana que (com êxito) reclama o monopólio do uso legítimo da força física dentro de um determinado território”. A essência do Estado é, por outras palavras, a coacção: A capacidade fundamental de colocar alguém no terreno com um uniforme e uma arma para forçar as pessoas a cumprir as leis do Estado. Neste aspecto, o Estado americano é extraordinariamente forte: possui uma enorme variedade de meios de coacção a nível federal, estadual e local, para fazer cumprir tudo, desde regras de trânsito ao direito comercial, ou para evitar as violações fundamentais dos direitos dos cidadãos. (...) Voltando à questão inicial dos linchamentos, talvez se possa concluir que constituem um exemplo de Estado fraco. Não o único, infelizmente. Mas que constitui uma realidade que deve ser tida em conta na análise global do fenómeno. Que é uma realidade que não pode ser escamoteada.
quinta-feira, outubro 26, 2006
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Outubro 22, 2006
antes e depois
Luís David
saber entender e interpretar
Com prefácio da edição portuguesa assinado pelo Padre Vítor Melícias, “O Fim da Pobreza – como consegui-lo na nossa geração”, teve a sua segunda edição em Junho passado. Ao longo de mais de 500 páginas, Jeffrey Sachs, conselheiro do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, dá-nos a conhecer a sua experiência de mais de vinte anos, em diferentes países do mundo. Da Bolívia à Polónia, da Rússia à China, da Índia ao Quénia. Naturalmente, África merece espaço especial e, logo na pag. 17, o autor escreve: Em particular, gostaria de agradecer à nova geração africana de líderes democráticos que vão apontando o caminho a seguir, e que inclui o anterior Presidente Alberto Chissano de Moçambique (...).Ao referir-se à situação na Rússia, em meados da década passada, escreve Jeffrey Sachs (pag. 222): No final da década (de 90), o optimismo tinha desaparecido, e os Russos estavam novamente à procura de um líder forte com poder centralizado. Quando os reformadores não conseguiram a ajuda de que necessitavam, eram substituídos por cinzentos apparatchiks corruptos e mercenários.][O pior ocorreu em 1995 e 1996, época em que eu observava da bancada. Durante aqueles dois anos, as privatizações tornaram-se uma actividade desavergonhada e criminosa. Em resumo, um grupo corrupto de denominados homens de negócios, que mais tarde vieram a ser colectivamente conhecidos como os novos oligarcas da Rússia, conseguiram deitar as mãos a dezenas de milhares de milhões de dólares de riqueza sob a forma de recursos naturais, principalmente nos conglomerados de petróleo e gás do estado russo. As melhores estimativas são de cerca de 100.000 milhões de dólares de petróleo, gás e outras matérias-primas valiosas transferidas para mãos privadas em troca de talvez não mais de 1.000 milhões de dólares de receitas de privatização recebidas pelo Tesouro. Criaram-se bilionários da noite para o dia: os orgulhosos (e novos ricos) proprietários da indústria russa de petróleo e gás.][ Quando o simulacro processo de privatização foi anunciado, através de um esquema pouco transparente de troca de acções por empréstimos, no qual os insiders conseguiam acesso às acções de uma empresa em troca de empréstimos do estado, tentei avisar os governos dos (...).][ O ocidente deixou isto acontecer sem um murmúrio.
Acabam de ser assinalados os vinte anos da morte de Samora Machel. Apontado como exemplo de honestidade, de verticalidade, de frontalidade. De homem íntegro, de defensor da ética do Estado, de valores morais irrepreensíveis. Hoje, á distância de vinte anos pode ouvir-se com frequência que “se Samora fosse vivo, nada disto acontecia”. A frase, em si própria, tanto pode ser interpretada como um elogio como uma crítica. Tanto pode significar saudade e respeito como sentimento patológico. Digamos que a frase, tantas vezes pronunciada nos últimos tempos, reflecte respeito e admiração por Samora. Talvez saudade do gesto, da palavra e da acção do homem Samora. Mas, pode, igualmente, ter leituras e interpretações diferentes. Depende de quem pronuncia. Depende de quem afirma. Cabe a cada um saber entender e interpretar.
antes e depois
Luís David
saber entender e interpretar
Com prefácio da edição portuguesa assinado pelo Padre Vítor Melícias, “O Fim da Pobreza – como consegui-lo na nossa geração”, teve a sua segunda edição em Junho passado. Ao longo de mais de 500 páginas, Jeffrey Sachs, conselheiro do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, dá-nos a conhecer a sua experiência de mais de vinte anos, em diferentes países do mundo. Da Bolívia à Polónia, da Rússia à China, da Índia ao Quénia. Naturalmente, África merece espaço especial e, logo na pag. 17, o autor escreve: Em particular, gostaria de agradecer à nova geração africana de líderes democráticos que vão apontando o caminho a seguir, e que inclui o anterior Presidente Alberto Chissano de Moçambique (...).Ao referir-se à situação na Rússia, em meados da década passada, escreve Jeffrey Sachs (pag. 222): No final da década (de 90), o optimismo tinha desaparecido, e os Russos estavam novamente à procura de um líder forte com poder centralizado. Quando os reformadores não conseguiram a ajuda de que necessitavam, eram substituídos por cinzentos apparatchiks corruptos e mercenários.][O pior ocorreu em 1995 e 1996, época em que eu observava da bancada. Durante aqueles dois anos, as privatizações tornaram-se uma actividade desavergonhada e criminosa. Em resumo, um grupo corrupto de denominados homens de negócios, que mais tarde vieram a ser colectivamente conhecidos como os novos oligarcas da Rússia, conseguiram deitar as mãos a dezenas de milhares de milhões de dólares de riqueza sob a forma de recursos naturais, principalmente nos conglomerados de petróleo e gás do estado russo. As melhores estimativas são de cerca de 100.000 milhões de dólares de petróleo, gás e outras matérias-primas valiosas transferidas para mãos privadas em troca de talvez não mais de 1.000 milhões de dólares de receitas de privatização recebidas pelo Tesouro. Criaram-se bilionários da noite para o dia: os orgulhosos (e novos ricos) proprietários da indústria russa de petróleo e gás.][ Quando o simulacro processo de privatização foi anunciado, através de um esquema pouco transparente de troca de acções por empréstimos, no qual os insiders conseguiam acesso às acções de uma empresa em troca de empréstimos do estado, tentei avisar os governos dos (...).][ O ocidente deixou isto acontecer sem um murmúrio.
Acabam de ser assinalados os vinte anos da morte de Samora Machel. Apontado como exemplo de honestidade, de verticalidade, de frontalidade. De homem íntegro, de defensor da ética do Estado, de valores morais irrepreensíveis. Hoje, á distância de vinte anos pode ouvir-se com frequência que “se Samora fosse vivo, nada disto acontecia”. A frase, em si própria, tanto pode ser interpretada como um elogio como uma crítica. Tanto pode significar saudade e respeito como sentimento patológico. Digamos que a frase, tantas vezes pronunciada nos últimos tempos, reflecte respeito e admiração por Samora. Talvez saudade do gesto, da palavra e da acção do homem Samora. Mas, pode, igualmente, ter leituras e interpretações diferentes. Depende de quem pronuncia. Depende de quem afirma. Cabe a cada um saber entender e interpretar.
segunda-feira, outubro 16, 2006
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Outubro 15, 2006
antes e depois
Luís David
a situação preocupa
O tempo a que me refiro, é o tempo presente. É o tempo actual. É o de hoje. O espaço, o espaço é o da cidade de Maputo. E de suas periferias. De suas várias e múltiplas periferias. Ora, é neste tempo e neste espaço, neste tempo presente e neste espaço bem delimitado, que começa a ser difícil viver. Talvez e melhor, sobreviver ou continuar vivo. Quando se é honesto, quando se é cidadão honesto. E, neste como em todos os casos e situações similares, semelhantes, iguais, ser não é parecer. Ser é, exactamente, significa exactamente, ser. Porque o crime violento, o assalto com arma de fogo, está a aumentar. Está a crescer. De forma alarmante. O cidadão. Qualquer cidadão, hoje, na cidade de Maputo, corre o risco de sentir apontada uma arma de fogo à cabeça. Para lhe roubarem carro e bens pessoais. Depois, depois, procede como qualquer cidadão honesto pensa ser correcto proceder. Comunica a ocorrência à esquadra de polícia mais próxima. E, aí, a partir daí, começa o calvário, tem início o martírio. Um doloroso percurso. É que o início da investigação parece, ao cidadão honesto, estar a ser retardado. Que o processo está a demorar mais tempo que o necessário, que o justificável para chegar ao investigador. Cinco dias depois de ser roubado com uma arma apontada à cabeça, o cidadão honesto fica a saber que, sequer, a ocorrência foi comunicada aos postos fronteiriços. Para tentar evitar a saída da viatura do país. Sequer, à Interpol. Mais, que nessa tarde de sexta-feira não já não há ninguém para receber mensagens do lado de lá da fronteira. Logo, qualquer comunicação às Polícias dos países vizinhos só será feita segunda-feira seguinte. Naturalmente, e sem qualquer ofensa aos cidadãos honesto deste país, a questão que, obrigatoriamente, tem de ser colocada é se este comportamento pode ser enquadrado no combate ao crime ou ser visto como colaboração com o criminoso. Sem que se pretenda tirar conclusões precipitadas, parece poder concluir-se que, em certos casos, haverá alguma promiscuidade entre polícia e ladrão. Ou, então, concedendo o benefício da dúvida, as nossas polícias estão, ainda, amarradas a processos burocráticos tão antiquados, que só ao ladrão beneficiam.
De quando em quando, de quando em vez, de tempos em tempos, perante a pressão da opinião pública e dos roubados, dos baleados e dos assassinados, surge reacção. Infelizmente, e sem possibilidade de desmentido, apenas a nível de discurso político. Como foi o caso desta semana. Quem leu a primeira página do jornal “Notícias” da última sexta-feira, ficou informado que os “Comandantes da PRM prometem repor a ordem”. Isto na zona sul do país. Logo, se prometem repor a ordem, significa que neste momento não há não existe ordem. E, na verdade não existe. Mais, que são os próprios comandantes a reconhecer que não existe ordem. Aliás, as primeiras linhas da referida notícia são claras e elucidativas: A onda de criminalidade que nos tempos que correm ganhou contornos alarmantes, com a ocorrência de crimes violentos, nomeadamente com recurso a armas de fogo, poderá reduzir nos próximos tempos, com a concretização de acções coordenadas entre as unidades policiais estacionadas nas três províncias da região sul do país, incluindo a cidade de Maputo. Acrescenta a notícia que Esta promessa foi feita por Luís Magueza, novo comandante da PRM na capital, durante os trabalhos da sexta reunião dos governadores do sul, realizada esta semana na Namaacha. Ora, salvo melhor opinião, o que nós, o que todos nós queremos, como cidadãos honestos, pagadores de impostos, é bem mais do que promessas. É algo vá para além do discurso político. O que queremos, o que temos o direito de exigir é acção. E, perante a realidade que se vive na capital do país, o que queremos é que, se necessário, o senhor comandante vista o seu colete à prova de bala e dirija pessoalmente operações contra criminosos. A não ser assim, corremos o risco de ver aumentar o número de linchamentos. Até de inocentes. Como pode já estar a acontecer. Com toda a responsabilidade, no mínimo moral, das autoridades policiais. E, quando acontecem linchamentos, quando se sucedem os casos de justiça pelas próprias mãos, podemos estar a caminhar para uma situação sem retorno. Desejamos que não. É que a etapa seguinte, é o poder cair na rua. Mesmo que não, mesmo que o discurso político possa tentar ser tranquilizante, tranquilizador, a situação preocupa.
antes e depois
Luís David
a situação preocupa
O tempo a que me refiro, é o tempo presente. É o tempo actual. É o de hoje. O espaço, o espaço é o da cidade de Maputo. E de suas periferias. De suas várias e múltiplas periferias. Ora, é neste tempo e neste espaço, neste tempo presente e neste espaço bem delimitado, que começa a ser difícil viver. Talvez e melhor, sobreviver ou continuar vivo. Quando se é honesto, quando se é cidadão honesto. E, neste como em todos os casos e situações similares, semelhantes, iguais, ser não é parecer. Ser é, exactamente, significa exactamente, ser. Porque o crime violento, o assalto com arma de fogo, está a aumentar. Está a crescer. De forma alarmante. O cidadão. Qualquer cidadão, hoje, na cidade de Maputo, corre o risco de sentir apontada uma arma de fogo à cabeça. Para lhe roubarem carro e bens pessoais. Depois, depois, procede como qualquer cidadão honesto pensa ser correcto proceder. Comunica a ocorrência à esquadra de polícia mais próxima. E, aí, a partir daí, começa o calvário, tem início o martírio. Um doloroso percurso. É que o início da investigação parece, ao cidadão honesto, estar a ser retardado. Que o processo está a demorar mais tempo que o necessário, que o justificável para chegar ao investigador. Cinco dias depois de ser roubado com uma arma apontada à cabeça, o cidadão honesto fica a saber que, sequer, a ocorrência foi comunicada aos postos fronteiriços. Para tentar evitar a saída da viatura do país. Sequer, à Interpol. Mais, que nessa tarde de sexta-feira não já não há ninguém para receber mensagens do lado de lá da fronteira. Logo, qualquer comunicação às Polícias dos países vizinhos só será feita segunda-feira seguinte. Naturalmente, e sem qualquer ofensa aos cidadãos honesto deste país, a questão que, obrigatoriamente, tem de ser colocada é se este comportamento pode ser enquadrado no combate ao crime ou ser visto como colaboração com o criminoso. Sem que se pretenda tirar conclusões precipitadas, parece poder concluir-se que, em certos casos, haverá alguma promiscuidade entre polícia e ladrão. Ou, então, concedendo o benefício da dúvida, as nossas polícias estão, ainda, amarradas a processos burocráticos tão antiquados, que só ao ladrão beneficiam.
De quando em quando, de quando em vez, de tempos em tempos, perante a pressão da opinião pública e dos roubados, dos baleados e dos assassinados, surge reacção. Infelizmente, e sem possibilidade de desmentido, apenas a nível de discurso político. Como foi o caso desta semana. Quem leu a primeira página do jornal “Notícias” da última sexta-feira, ficou informado que os “Comandantes da PRM prometem repor a ordem”. Isto na zona sul do país. Logo, se prometem repor a ordem, significa que neste momento não há não existe ordem. E, na verdade não existe. Mais, que são os próprios comandantes a reconhecer que não existe ordem. Aliás, as primeiras linhas da referida notícia são claras e elucidativas: A onda de criminalidade que nos tempos que correm ganhou contornos alarmantes, com a ocorrência de crimes violentos, nomeadamente com recurso a armas de fogo, poderá reduzir nos próximos tempos, com a concretização de acções coordenadas entre as unidades policiais estacionadas nas três províncias da região sul do país, incluindo a cidade de Maputo. Acrescenta a notícia que Esta promessa foi feita por Luís Magueza, novo comandante da PRM na capital, durante os trabalhos da sexta reunião dos governadores do sul, realizada esta semana na Namaacha. Ora, salvo melhor opinião, o que nós, o que todos nós queremos, como cidadãos honestos, pagadores de impostos, é bem mais do que promessas. É algo vá para além do discurso político. O que queremos, o que temos o direito de exigir é acção. E, perante a realidade que se vive na capital do país, o que queremos é que, se necessário, o senhor comandante vista o seu colete à prova de bala e dirija pessoalmente operações contra criminosos. A não ser assim, corremos o risco de ver aumentar o número de linchamentos. Até de inocentes. Como pode já estar a acontecer. Com toda a responsabilidade, no mínimo moral, das autoridades policiais. E, quando acontecem linchamentos, quando se sucedem os casos de justiça pelas próprias mãos, podemos estar a caminhar para uma situação sem retorno. Desejamos que não. É que a etapa seguinte, é o poder cair na rua. Mesmo que não, mesmo que o discurso político possa tentar ser tranquilizante, tranquilizador, a situação preocupa.
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Outubro 8, 2006
antes e depois
Luís David
libertar Cahora Bassa dos colonialistas
No fecho dos seus serviços noticiosos, está a TVM a apresentar pequenos excertos de intervenções públicas de Samora Machel. Intervenções feitas nos mais diversos contextos, ao longo do tempo, e que surgem, agora, por ocasião da passagem dos vinte anos da sua morte. Foi assim que, num destes últimos dias, vimos e ouvimos Samora Machel a falar em Lisboa. Aquando da sua primeira visita a Portugal. Era, na altura, Presidente da antiga potência colonizadora o General Ramalho Eanes. Ao que a memória nos recorda, o único Presidente de Portugal que visitou, até hoje, Moçambique independente. E que teve uma recepção apoteótica. Curiosamente, ou talvez não, constituiu tema de conversa de Samora com jornalistas portugueses, em Lisboa, nessa sua visita, a situação de Cahora Bassa. Defendeu Samora, como parece óbvio que o tenha feito, a reversão da barragem para a posse de Moçambique. E, explicou, na ocasião, de forma didáctica e pedagógica, os motivos pelos quais os prejuízos acumulados por Portugal com a gestão de Cahora Bassa eram da inteira responsabilidade de Portugal. Explicou, detalhou, também, os motivos pelos quais não cabia a Moçambique qualquer responsabilidade pelo facto de a energia produzida em Cahora Bassa não estar a chegar, não poder estar a ser vendida, aos seus potenciais compradores. Se os jornalistas que conversaram, nesse dia, com Samora Machel entenderam ou não a sua mensagem, é uma incógnita. Que o Governo de Portugal não entendeu a mensagem, é uma realidade. Foi uma realidade há mais de vinte anos, como a é hoje.
Não tem, obviamente, este breve apontamento por objectivo falar de Samora Machel. Tem, isso sim, mostrar, talvez demonstrar sem dificuldades nenhuma, que a reversão de Cahora Bassa para Moçambique é uma questão de interesse nacional, é uma questão de soberania, é uma questão de Estado, que, desde sempre, tem vindo a ser colocada. Que é colocada desde 25 de Junho de 1975. Nunca terá sido, ao que se sabe, e muito pelo contrário, diferente a posição de Joaquim Chissano enquanto Chefe do Estado. Não o é, igualmente, o posicionamento de Armando Guebuza, como actual Presidente da República. Para resumir e concluir, podemos afirmar que, nestas últimas três décadas, tem sido manifesto o empenho de Moçambique em fazer reverter para a sua soberania a mais colossal obra, talvez o símbolo último, do colonialismo português em terras africanas. Também, e porque não, da ditadura e do fascismo português. O estranho, o mais estranho, é que, hoje, homens que se dizem democratas e socialistas, que tem o poder que pensam ter, comunguem e estejam perfilados ao lado de António de Oliveira Salazar e de Marcelo Caetano. Como o tem estado, aliás, durante estas últimas três décadas. E como, estoicamente, lutam por permanecer, por continuar em estar. E que pretendem, como é público, continuar a ditar ordens para as antigas colónias a partir do Terreiro do Paço, em Lisboa. Sabemos todos, que aqui aportaram, nestas terras índicas, em tempos coloniais republicanos, Américo Tomás e Marcelo Caetano. Depois, derrubado que foi o colonialismo, apenas um Presidente veio. Ramalho Eanes. Fica, naturalmente, e por direito próprio, neste espaço, uma palavra em memória de Sá Carneiro. Pelo que fez e pelo muito que poderia ter feito no que respeita à normalização das relações entre os dois países. Entre os dois Estados. Sem recalques nem complexos racistas. Depois, hoje, agora, parece só restar que Cavaco Silva esteja na disposição de redimir os erros dos seus antecessores. Os erros de um passado recente. E, talvez, até, voltar a visitar Moçambique. Para, definitivamente, libertar Cahora Bassa dos colonialistas.
antes e depois
Luís David
libertar Cahora Bassa dos colonialistas
No fecho dos seus serviços noticiosos, está a TVM a apresentar pequenos excertos de intervenções públicas de Samora Machel. Intervenções feitas nos mais diversos contextos, ao longo do tempo, e que surgem, agora, por ocasião da passagem dos vinte anos da sua morte. Foi assim que, num destes últimos dias, vimos e ouvimos Samora Machel a falar em Lisboa. Aquando da sua primeira visita a Portugal. Era, na altura, Presidente da antiga potência colonizadora o General Ramalho Eanes. Ao que a memória nos recorda, o único Presidente de Portugal que visitou, até hoje, Moçambique independente. E que teve uma recepção apoteótica. Curiosamente, ou talvez não, constituiu tema de conversa de Samora com jornalistas portugueses, em Lisboa, nessa sua visita, a situação de Cahora Bassa. Defendeu Samora, como parece óbvio que o tenha feito, a reversão da barragem para a posse de Moçambique. E, explicou, na ocasião, de forma didáctica e pedagógica, os motivos pelos quais os prejuízos acumulados por Portugal com a gestão de Cahora Bassa eram da inteira responsabilidade de Portugal. Explicou, detalhou, também, os motivos pelos quais não cabia a Moçambique qualquer responsabilidade pelo facto de a energia produzida em Cahora Bassa não estar a chegar, não poder estar a ser vendida, aos seus potenciais compradores. Se os jornalistas que conversaram, nesse dia, com Samora Machel entenderam ou não a sua mensagem, é uma incógnita. Que o Governo de Portugal não entendeu a mensagem, é uma realidade. Foi uma realidade há mais de vinte anos, como a é hoje.
Não tem, obviamente, este breve apontamento por objectivo falar de Samora Machel. Tem, isso sim, mostrar, talvez demonstrar sem dificuldades nenhuma, que a reversão de Cahora Bassa para Moçambique é uma questão de interesse nacional, é uma questão de soberania, é uma questão de Estado, que, desde sempre, tem vindo a ser colocada. Que é colocada desde 25 de Junho de 1975. Nunca terá sido, ao que se sabe, e muito pelo contrário, diferente a posição de Joaquim Chissano enquanto Chefe do Estado. Não o é, igualmente, o posicionamento de Armando Guebuza, como actual Presidente da República. Para resumir e concluir, podemos afirmar que, nestas últimas três décadas, tem sido manifesto o empenho de Moçambique em fazer reverter para a sua soberania a mais colossal obra, talvez o símbolo último, do colonialismo português em terras africanas. Também, e porque não, da ditadura e do fascismo português. O estranho, o mais estranho, é que, hoje, homens que se dizem democratas e socialistas, que tem o poder que pensam ter, comunguem e estejam perfilados ao lado de António de Oliveira Salazar e de Marcelo Caetano. Como o tem estado, aliás, durante estas últimas três décadas. E como, estoicamente, lutam por permanecer, por continuar em estar. E que pretendem, como é público, continuar a ditar ordens para as antigas colónias a partir do Terreiro do Paço, em Lisboa. Sabemos todos, que aqui aportaram, nestas terras índicas, em tempos coloniais republicanos, Américo Tomás e Marcelo Caetano. Depois, derrubado que foi o colonialismo, apenas um Presidente veio. Ramalho Eanes. Fica, naturalmente, e por direito próprio, neste espaço, uma palavra em memória de Sá Carneiro. Pelo que fez e pelo muito que poderia ter feito no que respeita à normalização das relações entre os dois países. Entre os dois Estados. Sem recalques nem complexos racistas. Depois, hoje, agora, parece só restar que Cavaco Silva esteja na disposição de redimir os erros dos seus antecessores. Os erros de um passado recente. E, talvez, até, voltar a visitar Moçambique. Para, definitivamente, libertar Cahora Bassa dos colonialistas.
Publicado em Maputo, Moçambique, no Jornal Domingo de Outubro 1, 2006
antes e depois
Luís David
o retorno à “política da canhoeira”
Há, naturalmente, diferentes formas, diferentes maneiras de estar na vida. Como na política. Uma, é ser sério e honesto, respeitador e cumpridor das normas e das regras que regulam as relações entre os homens e entre os homens e a sociedade. No seu todo. Em resumo, cumprir com os compromissos assumidos, quer sejam escritos ou verbais. Como se entende, muito do que coloca para um bom entendimento e um bom relacionamento entre cidadãos, é válido para um bom entendimento e um bom relacionamento entre Estados. Entre homens que representam Estados. Entre homens que têm poder para assinar compromissos entre Estados, compromissos que comprometem e obrigam Estados. Ora, a outra forma de estar na vida como na política, entre várias formas possíveis, situa-se no campo inverso. Logo, significa não ser sério nem honesto, não ser respeitador das normas e das regras que regulam as relações entre os homens e entre os homens e a sociedade. Também, não cumprir com compromissos assumidos, quer sejam escritos ou verbais. Quer dizer, não respeitar nada nem ninguém. Impor a sua vontade recorrendo, se para tanto for necessário ao subterfúgio, quando não à mentira. Para, repita-se, não cumprir com a palavra dada. Ora, se esta atitude, se este tipo de comportamento é mau no relacionamento entre homens, dentro de uma determinada sociedade, parece pior no relacionamento entre Estados. Em tempo não muito distantes, mas durante décadas, talvez séculos, a esta forma de impor a vontade de um à vontade do outro, houve quem chamasse de “política da canhoeira”. Em nada fica mal recordar o passado histórico, para entender o presente e ponderar o futuro.
A posição do actual Governo de Portugal, sobre o entendimento a que chegou com o Governo de Moçambique, relativamente a Cahora Bassa é, no mínimo, uma posição que causa muitas preocupações. De facto, é verdade, nunca nenhum anterior Governo de Portugal assinou o que quer que fosse. E, não tendo assinado assumiu compromisso nenhum. Mas, este Governo assinou. E, ao assinar assumiu um compromisso. E, um compromisso entre Estados. Não estamos, como todos sabemos, a falar de compromissos assinados em décadas passadas. Entre outros Governos que representavam os mesmos Estados. Estamos a falar de compromissos assinados a 2 de Novembro de 2005. Ao mais alto nível. Entre governantes, de um e de outro Estado, que estavam e permanecem no poder. Ora, hoje, quase um ano após, quase um ano depois de assumido o compromisso, por escrito, uma das partes utiliza os mais patéticos subterfúgios para não cumprir aquilo que assumiu como sendo seu dever, como dever próprio, cumprir. Mas, esta falta de seriedade, esta falta de honestidade, parece ir mais longe, Vai, mesmo mais longe. É que, até ao momento, estão por explicar os motivos que levaram o Primeiro-Ministro de Portugal a não se ter encontrado com o Presidente da República de Moçambique. Na cidade de Nova Iorque. Por ocasião da Assembleia Geral da ONU. Admitamos que não foi por falta de respeito. Motivos ponderosos e, certamente, de Estado, terão sido soberanos na decisão. A questão está em saber quais, que conclusões tirar deste desencontro e que consequências daí poderão resultar. Para as relações entre os dois Estados. Por certo, ninguém de bom senso admite que se esteja perante o retorno à “política da canhoeira”.
antes e depois
Luís David
o retorno à “política da canhoeira”
Há, naturalmente, diferentes formas, diferentes maneiras de estar na vida. Como na política. Uma, é ser sério e honesto, respeitador e cumpridor das normas e das regras que regulam as relações entre os homens e entre os homens e a sociedade. No seu todo. Em resumo, cumprir com os compromissos assumidos, quer sejam escritos ou verbais. Como se entende, muito do que coloca para um bom entendimento e um bom relacionamento entre cidadãos, é válido para um bom entendimento e um bom relacionamento entre Estados. Entre homens que representam Estados. Entre homens que têm poder para assinar compromissos entre Estados, compromissos que comprometem e obrigam Estados. Ora, a outra forma de estar na vida como na política, entre várias formas possíveis, situa-se no campo inverso. Logo, significa não ser sério nem honesto, não ser respeitador das normas e das regras que regulam as relações entre os homens e entre os homens e a sociedade. Também, não cumprir com compromissos assumidos, quer sejam escritos ou verbais. Quer dizer, não respeitar nada nem ninguém. Impor a sua vontade recorrendo, se para tanto for necessário ao subterfúgio, quando não à mentira. Para, repita-se, não cumprir com a palavra dada. Ora, se esta atitude, se este tipo de comportamento é mau no relacionamento entre homens, dentro de uma determinada sociedade, parece pior no relacionamento entre Estados. Em tempo não muito distantes, mas durante décadas, talvez séculos, a esta forma de impor a vontade de um à vontade do outro, houve quem chamasse de “política da canhoeira”. Em nada fica mal recordar o passado histórico, para entender o presente e ponderar o futuro.
A posição do actual Governo de Portugal, sobre o entendimento a que chegou com o Governo de Moçambique, relativamente a Cahora Bassa é, no mínimo, uma posição que causa muitas preocupações. De facto, é verdade, nunca nenhum anterior Governo de Portugal assinou o que quer que fosse. E, não tendo assinado assumiu compromisso nenhum. Mas, este Governo assinou. E, ao assinar assumiu um compromisso. E, um compromisso entre Estados. Não estamos, como todos sabemos, a falar de compromissos assinados em décadas passadas. Entre outros Governos que representavam os mesmos Estados. Estamos a falar de compromissos assinados a 2 de Novembro de 2005. Ao mais alto nível. Entre governantes, de um e de outro Estado, que estavam e permanecem no poder. Ora, hoje, quase um ano após, quase um ano depois de assumido o compromisso, por escrito, uma das partes utiliza os mais patéticos subterfúgios para não cumprir aquilo que assumiu como sendo seu dever, como dever próprio, cumprir. Mas, esta falta de seriedade, esta falta de honestidade, parece ir mais longe, Vai, mesmo mais longe. É que, até ao momento, estão por explicar os motivos que levaram o Primeiro-Ministro de Portugal a não se ter encontrado com o Presidente da República de Moçambique. Na cidade de Nova Iorque. Por ocasião da Assembleia Geral da ONU. Admitamos que não foi por falta de respeito. Motivos ponderosos e, certamente, de Estado, terão sido soberanos na decisão. A questão está em saber quais, que conclusões tirar deste desencontro e que consequências daí poderão resultar. Para as relações entre os dois Estados. Por certo, ninguém de bom senso admite que se esteja perante o retorno à “política da canhoeira”.
quinta-feira, setembro 28, 2006
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Setembro 24, 2006
antes e depois
Luís David
só o trabalho permite reduzir a pobreza
Sem que seja ainda prática corrente, já se registam gestos de solidariedade entre moçambicanos. Um pouco de todo o país, surgem notícias de apoio, de ajuda a necessitados. Uma ajuda que se destina a resolver situações pontuais. Contudo, pode muito bem reflectir, parece reflectir, alguma capacidade e desejo de minorar sofrimentos de quem nada tem. Nada possui. De tudo carece. Parece ser, e pode muito bem ser, o despertar de um sentimento que, certamente, pode ser ampliado. Que deve ser ampliado. Como iniciativa local e nacional. Como movimento de ajuda de moçambicanos a moçambicanos. Como movimento de carácter permanente. Enquadrado, dirigido, controlado por instituições ou associações existentes ou a criar. A quem os interessados possam fazer chegar, de forma regular e organizada, os seus donativos. A realidade recente mostra existir vontade de ajudar, mostra existir alguma capacidade interna para ajudar, mostra existir um sentimento de solidariedade latente. Que se revela e que se manifesta útil em situações pontuais. Mas que pode não estar a ser devidamente aproveitado. E que bem poderia ser incentivado e orientado para caminhos bem úteis. Como seja, por exemplo o apoio à velhice. Através da construção e apoio na manutenção de lares para idosos. Que, certamente, deixariam de ter necessidade de mendigar pelas artérias das principais cidades. Neste contexto, a criação de uma associação de amigos dos idosos pode não ser uma utopia. Pode ser uma realidade.
Os gestos de solidariedade tornados públicos até agora, são pessoais, pontuais e isolados. O que em nada tira mérito a quem pratica essas acções. Muito pelo contrário. Podem e devem ser apontados como exemplos a seguir. O que parece errado, o que parece abusivo, é que estejam, em alguns casos, a ser noticiados como exemplos de combate à pobreza. Não são nem nunca poderão ser exemplo de combate a nenhum tipo de pobreza. São, isso sim, ajuda. São apoios úteis e necessários para resolver situações pontuais e casos de necessidades pontuais. E, ainda bem que os resolvem. Bom seria, até, que mais houvessem. Que mais pessoas de predispusessem a apoiar outras pessoas em situação de carências extremas. Agora, teremos de ter algum cuidado quando pretendemos enquadrar gestos de solidariedade no combate à pobreza. Primeiro, porque o combate à pobreza não se faz isoladamente nem com donativos. Segundo, porque podemos estar a criar uma ilusão que conduza a relaxar motivações já existentes para o trabalho. Porque, naturalmente, só o trabalho permite gerar riqueza e reduzir a pobreza. Digamos, aceitemos, que na nossa realidade, o trabalho pode não ser tudo. Que não é tudo. Claro que não. Mas, o trabalho não é tudo na nossa realidade, como o não foi em realidade nenhuma. Em nenhuma outra parte do mundo. O que parece certo, sem risco de desmentido, é que só o trabalho permite reduzir a pobreza.
antes e depois
Luís David
só o trabalho permite reduzir a pobreza
Sem que seja ainda prática corrente, já se registam gestos de solidariedade entre moçambicanos. Um pouco de todo o país, surgem notícias de apoio, de ajuda a necessitados. Uma ajuda que se destina a resolver situações pontuais. Contudo, pode muito bem reflectir, parece reflectir, alguma capacidade e desejo de minorar sofrimentos de quem nada tem. Nada possui. De tudo carece. Parece ser, e pode muito bem ser, o despertar de um sentimento que, certamente, pode ser ampliado. Que deve ser ampliado. Como iniciativa local e nacional. Como movimento de ajuda de moçambicanos a moçambicanos. Como movimento de carácter permanente. Enquadrado, dirigido, controlado por instituições ou associações existentes ou a criar. A quem os interessados possam fazer chegar, de forma regular e organizada, os seus donativos. A realidade recente mostra existir vontade de ajudar, mostra existir alguma capacidade interna para ajudar, mostra existir um sentimento de solidariedade latente. Que se revela e que se manifesta útil em situações pontuais. Mas que pode não estar a ser devidamente aproveitado. E que bem poderia ser incentivado e orientado para caminhos bem úteis. Como seja, por exemplo o apoio à velhice. Através da construção e apoio na manutenção de lares para idosos. Que, certamente, deixariam de ter necessidade de mendigar pelas artérias das principais cidades. Neste contexto, a criação de uma associação de amigos dos idosos pode não ser uma utopia. Pode ser uma realidade.
Os gestos de solidariedade tornados públicos até agora, são pessoais, pontuais e isolados. O que em nada tira mérito a quem pratica essas acções. Muito pelo contrário. Podem e devem ser apontados como exemplos a seguir. O que parece errado, o que parece abusivo, é que estejam, em alguns casos, a ser noticiados como exemplos de combate à pobreza. Não são nem nunca poderão ser exemplo de combate a nenhum tipo de pobreza. São, isso sim, ajuda. São apoios úteis e necessários para resolver situações pontuais e casos de necessidades pontuais. E, ainda bem que os resolvem. Bom seria, até, que mais houvessem. Que mais pessoas de predispusessem a apoiar outras pessoas em situação de carências extremas. Agora, teremos de ter algum cuidado quando pretendemos enquadrar gestos de solidariedade no combate à pobreza. Primeiro, porque o combate à pobreza não se faz isoladamente nem com donativos. Segundo, porque podemos estar a criar uma ilusão que conduza a relaxar motivações já existentes para o trabalho. Porque, naturalmente, só o trabalho permite gerar riqueza e reduzir a pobreza. Digamos, aceitemos, que na nossa realidade, o trabalho pode não ser tudo. Que não é tudo. Claro que não. Mas, o trabalho não é tudo na nossa realidade, como o não foi em realidade nenhuma. Em nenhuma outra parte do mundo. O que parece certo, sem risco de desmentido, é que só o trabalho permite reduzir a pobreza.
Publicado em Mpauto, Moçambique no Jornal Domingo de Setembro 17, 2006
antes e depois
Luís David
Pensar e decidir
Ainda não desapareceu, por completo, o eco das vozes que se fizeram ouvir sobre os últimos acontecimentos envolvendo agentes policiais. Também não o das afirmações feitas em nome do esclarecimento dos factos. Que, diga-se em abono da verdade, pouco esclareceram. Que trouxeram mais dúvidas que certezas. Talvez, e esta é uma hipótese, uma simples hipótese, um dia, um dia mais tarde, venham a ser conhecidas as causas do sucedido na Matola-Rio. As causas e os contornos. A verdadeira dimensão da ocorrência. É que três morte, três mortes à queima-roupa, tem o valor e o peso que tem que ter três mortes. E o esclarecimento do que se passou antes e depois da ocorrência não pode ficar numa simples declaração pública. Mesmo quando ou só pelo facto de essa declaração ter sido feita por um ministro. Pese o respeito que merecem e que devem merecer todos os ministros. É que matar, matar da forma que vimos, através de imagens televisivas, não pode transformar-se em banal cena do quotidiano. A morte, a morte violenta, seja a vítima polícia ou ladrão, não pode ser banalizada. A violência, o acto violento que antecede a morte ou a imagem da consequência desse acto, ainda menos. Sob pena e risco de nos tornarmos insensíveis à violências. E às imagens de morte violenta. Incapazes de distinguir o bem do mal. Incapazes de distinguir o bom do mau. Incapazes de destrinçar quem cumpre e quem viola a lei. Em caso extremo, de, por falta de referências, caminharmos para uma sociedade sem ética e sem moral. Já estivemos mais longe do que estamos. Mas, ainda estamos a tempo, assim o parece, de inverter o percurso.
Não constitui segredo. É por muitos conhecido. Digamos, é público. E, o que é conhecido e é público é o mau comportamento e a forma errada de actuação de alguns agentes policiais, para além dos casos citados. Ainda recentemente, nas colunas deste Semanário, era denunciada a forma de actuação de alguns agentes da Polícia de Trânsito. E, mais, mencionados os locais preferidos da sua actuação. Da sua indigna e ilegal actuação. Mas, muito provavelmente, ninguém terá lido o que foi escrito. Ou se leu, se acaso leu, não agiu. Se leu, decidiu não agir. As razões, os motivos, só quem tinha o dever de agir e não agiu pode explicar. É que esses “caçadores” de multas continuam, lá vão ficando, dia após dia emboscados. Onde muito bem lhes apetece. Escondidos atrás de viaturas ou de árvores. Em vez de fazerem o serviço que lhes compete, de terem um papel activo e necessário para um melhor fluir do trânsito. Principalmente nos cruzamentos e em horas de maior movimento. Mas não. Como intocáveis que parecem ser e agindo à margem de qualquer comando, lá vão continuando a “fazer pela vida”. É que ninguém acredita, ninguém honesto pode acreditar, que a forma de actuar destes polícias de trânsito resulte de uma ordem superior. Se resulta, se o tipo de trabalho que estão a executar é, de facto, o que lhes foi mandado fazer, estamos muito mal. Estamos francamente mal. Podemos estar a criar, a partir de dentro, e a alimentar um complexo sistema, uma teia de corrupção difícil de eliminar. Naturalmente, e sem muitas delongas, quase tudo do que aqui foi escrito é válido para a Polícia Municipal. É aplicável à Polícia Municipal. Uma e outra necessitam, urgentemente, de avaliar o comportamento individual dos seus membros. E, também, de rever os seus métodos de actuação no terreno. Precisam de uma reciclagem. Precisam de aprender a fazer cumprir a lei que todos conhecem. Não aquela que só alguns conhecem. Aquela que só eles parece conhecerem. A lei do mais forte. E, como estamos a ver, como estamos a assistir, a lei do mais forte é a lei daquele que possui arma. É tempo, ainda temos tempo de parar para pensar. Pensar e decidir.
antes e depois
Luís David
Pensar e decidir
Ainda não desapareceu, por completo, o eco das vozes que se fizeram ouvir sobre os últimos acontecimentos envolvendo agentes policiais. Também não o das afirmações feitas em nome do esclarecimento dos factos. Que, diga-se em abono da verdade, pouco esclareceram. Que trouxeram mais dúvidas que certezas. Talvez, e esta é uma hipótese, uma simples hipótese, um dia, um dia mais tarde, venham a ser conhecidas as causas do sucedido na Matola-Rio. As causas e os contornos. A verdadeira dimensão da ocorrência. É que três morte, três mortes à queima-roupa, tem o valor e o peso que tem que ter três mortes. E o esclarecimento do que se passou antes e depois da ocorrência não pode ficar numa simples declaração pública. Mesmo quando ou só pelo facto de essa declaração ter sido feita por um ministro. Pese o respeito que merecem e que devem merecer todos os ministros. É que matar, matar da forma que vimos, através de imagens televisivas, não pode transformar-se em banal cena do quotidiano. A morte, a morte violenta, seja a vítima polícia ou ladrão, não pode ser banalizada. A violência, o acto violento que antecede a morte ou a imagem da consequência desse acto, ainda menos. Sob pena e risco de nos tornarmos insensíveis à violências. E às imagens de morte violenta. Incapazes de distinguir o bem do mal. Incapazes de distinguir o bom do mau. Incapazes de destrinçar quem cumpre e quem viola a lei. Em caso extremo, de, por falta de referências, caminharmos para uma sociedade sem ética e sem moral. Já estivemos mais longe do que estamos. Mas, ainda estamos a tempo, assim o parece, de inverter o percurso.
Não constitui segredo. É por muitos conhecido. Digamos, é público. E, o que é conhecido e é público é o mau comportamento e a forma errada de actuação de alguns agentes policiais, para além dos casos citados. Ainda recentemente, nas colunas deste Semanário, era denunciada a forma de actuação de alguns agentes da Polícia de Trânsito. E, mais, mencionados os locais preferidos da sua actuação. Da sua indigna e ilegal actuação. Mas, muito provavelmente, ninguém terá lido o que foi escrito. Ou se leu, se acaso leu, não agiu. Se leu, decidiu não agir. As razões, os motivos, só quem tinha o dever de agir e não agiu pode explicar. É que esses “caçadores” de multas continuam, lá vão ficando, dia após dia emboscados. Onde muito bem lhes apetece. Escondidos atrás de viaturas ou de árvores. Em vez de fazerem o serviço que lhes compete, de terem um papel activo e necessário para um melhor fluir do trânsito. Principalmente nos cruzamentos e em horas de maior movimento. Mas não. Como intocáveis que parecem ser e agindo à margem de qualquer comando, lá vão continuando a “fazer pela vida”. É que ninguém acredita, ninguém honesto pode acreditar, que a forma de actuar destes polícias de trânsito resulte de uma ordem superior. Se resulta, se o tipo de trabalho que estão a executar é, de facto, o que lhes foi mandado fazer, estamos muito mal. Estamos francamente mal. Podemos estar a criar, a partir de dentro, e a alimentar um complexo sistema, uma teia de corrupção difícil de eliminar. Naturalmente, e sem muitas delongas, quase tudo do que aqui foi escrito é válido para a Polícia Municipal. É aplicável à Polícia Municipal. Uma e outra necessitam, urgentemente, de avaliar o comportamento individual dos seus membros. E, também, de rever os seus métodos de actuação no terreno. Precisam de uma reciclagem. Precisam de aprender a fazer cumprir a lei que todos conhecem. Não aquela que só alguns conhecem. Aquela que só eles parece conhecerem. A lei do mais forte. E, como estamos a ver, como estamos a assistir, a lei do mais forte é a lei daquele que possui arma. É tempo, ainda temos tempo de parar para pensar. Pensar e decidir.
terça-feira, setembro 12, 2006
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Setembro 10, 2006
antes e depois
Luís David
Uma espiral de morte
Nas últimas semanas, a cidade de Maputo registou, no mínimo, três casos de tiroteio. Envolvendo ou contra agentes da Polícia. Houve feridos, houve mortos. No primeiro caso, registado no Bairro do Triunfo, foi morto um chefe de brigada. Num bar, pouco distante de uma Esquadra, foras das suas horas de serviço. E, ao que parece, sem tido tempo para esboçar gesto de defesa. Terá sido assassinado à queima-roupa. No segundo caso, poucos dias depois, dois agentes que, ao que parece, pertenciam à brigada do falecido foram alvo de tentativa de assassinato. Ao princípio da noite, perto da Praça Robert Mugab. Ficaram feridos. No terceiro e último caso, dois agentes da Polícia e um terceiro homem, foram mortos pela Polícia. Em circunstâncias pouco claras. Em circunstâncias algo polémicas e que estão a permitir alimentar diferentes versões. Convenhamos que são demasiados casos e muitos mortos em tão curto espaço de tempo. Principalmente por nesses casos, em todos estes casos, terem estado envolvidos agentes da Polícia. Sem se pretender tirar conclusões precipitadas, parece importante fazer uma reflexão séria e profunda. É necessário que quem tem por missão garantir a segurança e a ordem públicas faça um exercício de reflexão e, para além de palavras de ocasião, através de comunicado deixe claro o que se passa. O que se está a passar.
Da avaliação dos relatos da Informação escrita, fruto de investigação jornalística ou de declarações oficiosas, resulta alguma preocupação. Pode ficar a preocupação de ter existido alguma relação promíscua, alguma ligação perigosa, algum acordo secreto entre agente policial e criminoso. E que quando uma das partes violou esse acordo, as armas disseram de sua justiça. Porque ambas as partes, agente policial e criminoso, estão armadas. É suposto que a arma do criminoso é para praticar o crime. E que a arma do agente policial é para combater o crime. Para defender, para proteger o cidadão do criminoso. Pode não estar a acontecer assim. Hoje, expressões como vingança, traição e ajuste de contas, tornaram-se frequentes. E tornaram-se em tentativas de justificativo para os confrontos armados entre polícias e bandidos. O que em nada ajudando a compreender, menos ainda ajuda a combater o fenómeno. Pode, até, ser motivo de preocupação. E é, certamente. Ora, aceitando como verdade que os dois agentes da FIR, mortos na Matola Rio, eram perigosos bandidos, há muito procurados pela Polícia, fica uma única certeza. A certeza de que, neste momento, não temos certeza nenhuma. Que não é possível, que não nos é possível, neste exacto momento, saber se, quando estamos perante um agente policial estamos perante um agente policial que nos protege ou perante um serviçal dos criminosos. De um agente da polícia ao serviço e pago por criminosos. Sejamos claros e frios no pensar. Ao pensar. Ainda há tempo, parece ainda haver tempo para inverter a situação. Com medidas claras e concretas. Caso não, podemos estar a abrir espaço para uma espiral de violência. Uma espiral de morte.
antes e depois
Luís David
Uma espiral de morte
Nas últimas semanas, a cidade de Maputo registou, no mínimo, três casos de tiroteio. Envolvendo ou contra agentes da Polícia. Houve feridos, houve mortos. No primeiro caso, registado no Bairro do Triunfo, foi morto um chefe de brigada. Num bar, pouco distante de uma Esquadra, foras das suas horas de serviço. E, ao que parece, sem tido tempo para esboçar gesto de defesa. Terá sido assassinado à queima-roupa. No segundo caso, poucos dias depois, dois agentes que, ao que parece, pertenciam à brigada do falecido foram alvo de tentativa de assassinato. Ao princípio da noite, perto da Praça Robert Mugab. Ficaram feridos. No terceiro e último caso, dois agentes da Polícia e um terceiro homem, foram mortos pela Polícia. Em circunstâncias pouco claras. Em circunstâncias algo polémicas e que estão a permitir alimentar diferentes versões. Convenhamos que são demasiados casos e muitos mortos em tão curto espaço de tempo. Principalmente por nesses casos, em todos estes casos, terem estado envolvidos agentes da Polícia. Sem se pretender tirar conclusões precipitadas, parece importante fazer uma reflexão séria e profunda. É necessário que quem tem por missão garantir a segurança e a ordem públicas faça um exercício de reflexão e, para além de palavras de ocasião, através de comunicado deixe claro o que se passa. O que se está a passar.
Da avaliação dos relatos da Informação escrita, fruto de investigação jornalística ou de declarações oficiosas, resulta alguma preocupação. Pode ficar a preocupação de ter existido alguma relação promíscua, alguma ligação perigosa, algum acordo secreto entre agente policial e criminoso. E que quando uma das partes violou esse acordo, as armas disseram de sua justiça. Porque ambas as partes, agente policial e criminoso, estão armadas. É suposto que a arma do criminoso é para praticar o crime. E que a arma do agente policial é para combater o crime. Para defender, para proteger o cidadão do criminoso. Pode não estar a acontecer assim. Hoje, expressões como vingança, traição e ajuste de contas, tornaram-se frequentes. E tornaram-se em tentativas de justificativo para os confrontos armados entre polícias e bandidos. O que em nada ajudando a compreender, menos ainda ajuda a combater o fenómeno. Pode, até, ser motivo de preocupação. E é, certamente. Ora, aceitando como verdade que os dois agentes da FIR, mortos na Matola Rio, eram perigosos bandidos, há muito procurados pela Polícia, fica uma única certeza. A certeza de que, neste momento, não temos certeza nenhuma. Que não é possível, que não nos é possível, neste exacto momento, saber se, quando estamos perante um agente policial estamos perante um agente policial que nos protege ou perante um serviçal dos criminosos. De um agente da polícia ao serviço e pago por criminosos. Sejamos claros e frios no pensar. Ao pensar. Ainda há tempo, parece ainda haver tempo para inverter a situação. Com medidas claras e concretas. Caso não, podemos estar a abrir espaço para uma espiral de violência. Uma espiral de morte.
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