quinta-feira, maio 31, 2007

um caso por encerrar

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 27, 2007

antes e depois

Luís David

Com maiores ou menores intervalos no tempo, jornais e jornalistas recordam-nos que existe, preso, um criminoso que ficou conhecido e que se assume como “Anibalzinho”. Com reconhecida capacidade de imaginação e de pretenso realismo, procuram transportar-nos para a realidade do detido. Fazem suposições e levantam suspeitas. No mínimo, sugerem. Publicam texto manuscrito com autoria atribuída ao preso. Foi assim esta semana em pelo menos dois semanários. Que dedicaram largos espaços ao tema “Anibalzinho”. Pode ter sido simples coincidência. Como pode não. Considerando que num dos jornais o objectivo parece ter sido o de alertar, o de precaver, uma possível eliminação física do condenado. No outro, a tónica aponta mais para o drama, para o melodramático. É aqui que o preso aparece a dizer que “fui muito usado pela fraqueza de ser pobre”. E, mais, que “hoje prefiro ser fuzilado por tudo o que estou a passar e a sofrer neste comando da Policia”. Pela retórica do texto, se mais não houver, ficamos a saber que ser pobre é uma fraqueza. E que a morte é o melhor processo para eliminar o sofrimento.


Parece não ser pelo retomar periódico do assunto “Anibalzinho” que algo de novo veio a público sobre o que foi provado no julgamento do chamado “Caso Carlos Cardoso”. Sequer parece ter havido, até hoje, arrependimento dos criminosos. Muito menos revelações novas e públicas que possam levar a pensar não terem sido justas as penas. Ou, em caso extremo, podermos estar perante um hipotético erro judicial. O que há, pelo menos o que parece existir, são enormes zonas de penumbra nas quais ninguém deseja penetrar. Nem o próprio condenado que tenta, que procura, neste presente, chamar a atenção pública para as suas condições prisionais. Que tenta, ou alguém por ele, apresentar-se como vítima de uma situação em relação à qual pouco tem a ver. As coisas não são, nunca foram bem assim. É para além do crime, pela prática do qual foi condenado, o assumido “Anibalzinho” saiu duas vezes da cadeia. Enquanto decorria o julgamento. E é neste aspecto que pode contribuir para esclarecer o muito que ficou por esclarecer. É no dizer quem lhe facilitou a saída da prisão. E, sobretudo, no dizer quem lhe criou a logística necessária para entrar e permanecer na África do Sul. Mais tarde, para chegar ao Canadá. Talvez, quem o sabe, a troco de algumas revelações possa passar a ter direito a banhos de sol diários. Até lá, há o direito de admitir que estamos perante um caso por encerrar.

o retorno dos fascistas

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 20, 2007

antes e depois

Luís David

Vive o moçambicano, grande número de moçambicanos, cativo das flutuações dos preços. Pelo menos, o moçambicano urbanizado. Por motivo das importações, em razão de parte substancial do seu consumo serem produtos importados. E, importados com recurso a uma moeda cuja tendência é, maior parte das vezes, a da depreciação. Raramente, quase nunca, a da apreciação. As estatísticas, que valem o que valem, dão-nos aumentos, agravamentos insignificantes nos preços. Logo, de pouco ou nenhum significado no aumento do custo de vida. Mas, o aumento do custo de vida não é medível, não é mensurável através de dados estatísticos. Por mais sérios, honestos e credíveis que possam parecer. Que possam ser. O aumento, o agravamento do custo de vida, na prática, tem a sua última e única expressão na contabilidade doméstica. Quando cada um de nós verifica, quando cada cidadão se apercebe que com o salário do mês corrente só pode comprar menos produtos ou serviços dos que adquiriu em mês anterior. Caso contrário, caso pretenda comprar o mesmo a preço mais elevado, entra, fatalmente, num processo de endividamento. Ora, sair desta realidade, desta dependência exige, em primeiro lugar, produzir mais. Produzir mais e com menores custos de produção. Mas, sobretudo, produzir.


A partir de amanhã, segunda-feira, o pão está mais caro. O pão, como todos os sabemos, é feito com farinha de trigo. E, também como todos sabemos, o trigo, de que é feita farinha, é importado. Ao longo dos tempos, terá aumentado de custo. No exterior. Não está aqui em questão a justiça do aumento imposto por panificadores. Embora seja importante referir que se trata, na generalidade, de um aumento na ordem dos 40 por cento. Também, neste mês de Maio, a gasolina subiu de preço. O mesmo é válido para a energia eléctrica. Quer dizer, não temos solução outra que não seja comprar, hoje, menos combustível e consumir menos energia do que a que tínhamos acesso, ontem, com o mesmo dinheiro, com o mesmo vencimento, com o mesmo salário. Pior, mais grave, é o que acontece com a nova taxa de recolha de lixo. Aqui, em muitos casos, o agravamento é superior a 300 por cento. Como se o consumo de energia eléctrica fosse, em algum momento ou em alguma circunstância, directamente proporcional à produção de lixo doméstico. Não foi e não é. Para satisfação de alguns, talvez poucos, nunca o será. A justiça social, sobretudo na nossa realidade concreta, exige parâmetros de avaliação mais claros e mais objectivos. Perante esta realidade, que é a de tantos e tão significativos e profundos aumentos, fica por saber qual a percentagem de aumento que irá ter o salário mínimo. É que, mesmo sabendo que quem aufere o salário mínimo não vive nos prédios da capital, repugnam e enojam algumas afirmações dos novos colonialistas. Algumas, profundamente racistas. Como, por exemplo, a de que quem não dinheiro para viver no prédio, deve voltar para a palhota. Todos o sabemos, para os portugueses, no tempo presente, Salazar ainda existe. Foi um grande homem. Terá sido um homem bom, o maior, o salvador da pátria. Não está vivo mas vive na alma, no ser e no estar, nas recordações e nas memórias de muito saudosistas do fascismo. São estes, são estes fascistas, muitos deles antigos agentes da PIDE, que retornam. Que estão a retornar. Aparentemente, quase na realidade, estamos perante o retorno dos fascistas

O direito de poder pensar

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 13, 2007

antes e depois

Luís David

Hoje mesmo, nesta tarde de sexta-feira, alguém me perguntou o significado de antes e de depois. Tive dificuldade em responder. Não só tive, como tenho. Continuo a ter. Porque o que para muitos parece claro, o não é para outros. Antes, não é mais do que isso. É antes. Depois, também não é mais do que isso. É depois. Antes, é sempre o que já aconteceu. É o acontecido, é o ido. É o ido e o acontecido. Que não podemos modificar nem alterar. O depois é o futuro. Talvez o presente futuro. Mas, se por hipótese presente não é presente, havemos de nos haver entre passado e futuro. De esquecer, de ignorar, o presente. Neste contexto, nesta realidade concreta, o antes é precisamente isso. O que sabemos e o que não conhecemos do antes. O depois não pode ser diferente nem diverso. É o que somos ou parecemos ser a partir do que sabemos, ou julgamos saber, do antes. Do que foi, embora o que foi possa parecer o que não foi.. Ora, digamos, o que parece ter sido, pode não ser o que, realmente, é. Por exclusão de partes, tudo o que não é, é. Digamos, assim, que não pode haver um antes sem que lhe suceda um depois, sem que o depois tenha antecedido um antes.. Mas, cuidado. Se para haver um depois tem de haver um antes e se a existência de um antes obriga a existência de um depois, caso não exista um antes, também não haverá espaço para a existência de um depois.



Parece irrelevante repetir, hoje, as condições em que foram mortos, recentemente, três cidadãos na zona da Costa do Sol, cidade de Maputo .O que há de relevante é o de saber, é o de repetir, que foram mortos com tiros na cabeça. Disparados a curta distância. E sem possibilidade de defesa. Dos vário inquéritos mandados instaurar sobre o incidente, resultaram posições diferentes. Diversas, No concreto e em resumo, mesmo que se aceite não haver esquadrões da morte como tal, há um fenómeno que preocupa. E esse fenómeno, essa realidade, provada e confirmada, é a de haver quem tem acesso e usa armas de fogo e a viaturas com matrícula policial para matar supostos criminosos. De forma sumária. Ora, quando chegamos a este ponto, quando chegamos a um ponto que parece incontroverso, só acrescem duvidas. Acrescem mais duvidas, Só restam duvidas. E, perante a duvida, cada qual, cada um, é livre de pensar o que quiser. Pelo menos, ainda resta a cada um o direito de pensar. O direito de poder pensar.
.

terça-feira, maio 08, 2007

muita coisa irá ficar encoberta

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 6, 2007

antes e depois

Luís David

De tempos em tempos, somos confrontados com o conhecimento de determinados crimes violentos. Digamos, com assassinatos de certo modo espectaculares. Praticados entre ou contra estrangeiros. Alguns praticados em plena via pública e em pleno dia. Na maioria dos casos, parecendo apontar para ajustes de contas. Hipoteticamente, entre grupos rivais. Entre grupos que possam estar a disputar um mesmo negócio. Entre grupos que possam estar a entrar ou tenham entrado em terreno que outro pretenda seu. Em exclusivo. Curiosamente, trata-se de um tipo de crime cujo resultado da investigação não consta alguma vez ter vindo a público. Ou porque nunca tenha sido conclusiva, ou porque possa ser mais forte o desejo para fazer esquecer do que para clarificar o crime. Neste campo, nesta área, diga-se de passagem, também a investigação jornalística em nada tem contribuído para ajudar a esclarecer o fenómeno. Em nada tem sido mais feliz do que a investigação policial. E, parece importante que o tivesse sido ou venha a sê-lo. Quanto mais não seja para limpar e desfazer muitas das especulações que se sucedem a este tipo de casos de morte violenta.


Parece haver, na maioria destes casos de crime violento, alguns aspectos comuns. Alguns aspectos coincidentes. Um deles, é o das vítimas serem identificadas como empresários ou comerciantes. Outro aspecto, é o de serem identificados como cidadãos de origem paquistanesa. Ainda um outro aspecto, ao que parece, também comum em todos os casos recentes, é o de tanto as vítimas como os assassinos serem portadores de armas de fogo. Aliás, na foto publicada pelo jornal “Savana”, na sua última edição, é bem visível uma arma no interior da viatura da vítima. Logo, é possível concluir que a vítima circulava armada, em pleno dia e em plena cidade de Maputo. O que fica por esclarecer, até que os investigadores o esclareçam, o digam publicamente, é se a arma é legal ou é ilegal. Se está registada e, caso sim, em nome de quem foi passada a licença. Depois, seria importante conhecer que tipo de actividade legal exercia a vítima mortal e o seu acompanhante ferido. E, por fim, saber se essa actividade legal justifica, em circunstância alguma, que as vítimas circulassem armadas em pleno dia, em plena cidade de Maputo. É que, aceitando, simplesmente, ter o assassinato resultado de um ajuste de contas, muita coisa fica por esclarecer. Ou, entrando no campo das especulações e dito de ponto de vista inverso, muita coisa irá ficar encoberta.

o informal não é um caso de polícia

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Abril 29, 2007


antes e depois

Luís David

Durante muitos anos, funcionaram em Moçambique escolas chamadas de artes e ofícios. Escolas destinadas a preparar jovens com alguns saberes. Sobretudo, com o saber fazer. Tiveram, naturalmente, os deméritos e os méritos que um tal tipo de ensino podia ter na época em que funcionou. Por razões históricas, que no contexto em que se escreve pouco adianta abordar, foram desaparecendo. Desapareceram, por completo. Mais recentemente, num tempo presente e actual, começou-se a ouvir falar em ensino técnico - profissional. Não como simples hipótese de um novo tipo de ensino, não como abordagem programática. Mas, e ao que tudo indica, como estratégia governamental de preparação para o trabalho. E, sem que este modo, este género de ensino possa ser considerado como substituto do anterior, os seus objectivos são, no essencial, idênticos. Ou seja, o que se pretende, neste presente actual, é dotar os jovens com habilidades, competência, saberes e conhecimentos que lhes permita desenvolver uma actividade produtiva. E, logicamente, lucrativa. Não se trata, ao que nos é dado entender, de preparar jovens para conseguirem emprego. Ou, como se diz por terras das europa, para conseguirem o primeiro emprego. Trata-se, pela inversa, de preparar jovens para o trabalho. De preparar jovens para que, começando por ser simples trabalhadores, possam, eles próprios, encontrar forma de dar trabalho a outros jovens. Muito por hipótese, fora da ultrapassada concepção de emprego. Mas, ao abrigo da concepção, hoje já universal, do informal.


Temos vindo a navegar, muitos de nós, nas águas nem sempre límpidas e nem sempre calmas, que dificultam permitir perceber os significados de emprego e de trabalho. No tempo de hoje, na realidade espacial moçambicana. Mas, também e não só. Em termos mais latos, em termos universais, se por aí formos, o emprego tende a desaparecer. Pode, até deixar de existir. Hoje, quem tem emprego, conserva-o, defende-o, protege-se para o conseguir manter. Quem o não tem, poderá nunca o conseguir ter. Por muito que lute. É que a verdadeira batalha deixou de ser para conseguir emprego mas, muito simplesmente, para ter trabalho. De resto, o combate à pobreza passa muito mais pelo trabalho do que pela criação de empregos. É, pois, neste sentido, que merece reflexão a entrevista concedida pelo director geral do Instituto Nacional de Emprego e Formação Profissional ao jornal “Magazine” (edição da última quinta-feira). Contrariando aquela que pode ser definida como a concepção dominante, começa por afirmar: O perfil social da mão-de-obra moçambicana mostra que não está desenvolvida de uma forma colectiva a cultura do empreendedorismo, do ponto de vista do emprego. Os recursos humanos estão tradicionalmente preparados para procurar emprego e não para criar o seu próprio emprego. Ainda na resposta à mesma pergunta, e depois de reflectir sobre a situação global e nacional, afirma: Estas pessoas precisam de oportunidades para serem produtivas para si, suas famílias e para a sociedade. Hoje, o sector informal é a esponja que absorve essencialmente a mulher empreendedora em Moçambique e assegura a saída de muitas famílias dos níveis de pobreza absoluta. Certamente que sim. Claramente que estamos de acordo. Pelo menos nós os dois. Em termos de princípios e de objectivos. Mas, causa alguma preocupação, provoca alguma dor, a forma como os informais continuam a ser tratados. Diria eu, talvez em termos abusivos, discriminados. Parece, diz-se por aí, há muita inveja. Então, tudo se faz, tudo é feito no sentido de o informal nunca passar disso mesmo. É que sendo e permanecendo informal, tem direito nenhum a crédito para desenvolver o seu negócio. Mas tem o dever de pagar taxas legais e protecções ilegais. Isto é, fica obrigado a dividir parcos lucros com corruptos e, logo, sem qualquer possibilidade de criar, por si, capital próprio. Para poder desenvolver e ampliar o seu negócio. Para conseguir sair do que alguns chamam de informal, e passarem para o que chamam de formal. Isto é, passar do lado dos maus para se acolher no lado dos bons. Se nega, se procura sair deste ciclo diabólico, leva porrada. A nível da cidade de Maputo, esta realidade é particularmente gritante. Vergonhosa. E, justifica e exige intervenção ao mais alto nível. A barreira entre comércio informal e formal, na nossa realidade concreta, pode não passar de uma questão psicológica. Uma forma de perceber e entender, mal ou bem, certos fenómenos sociais. De perceber, antes de qualquer outra concepção, que o informal não é um caso de polícia.

domingo, abril 22, 2007

as autoridades estão a ser esvaziadas de poder

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Abril 22, 2007

antes e depois

Luís David

A realidade de um país é dúplice. E, invariavelmente, comporta vários aspectos. Uns bons, outros maus. Comporta lados melhores e lados piores. Mas, ao que parece, todos, ou quase todos, não contornáveis. Ainda na semana que passou, vieram ao de cima, vieram à tona, foram atirados para a superfície, dois aspectos do lado mau. Duas situações ou duas realidades do país real, que país que temos e que somos. Duas realidades que nos obrigam a termos de meditar, de reflectir, no que somos. Que vão para além ou que, por hipótese, se situam num campo diverso do crescimento económico, da inflação baixa, da chamada boa governação. Que nada, neste caso nem por hipótese, têm a ver com dados de macroeconomia. Duas realidades que podem, só por si, comprometer todo um esforço para dar de Moçambique uma imagem positiva. Mesmo quando se sabe que pode bem ser a derradeira forma para apresentar como boas certas políticas, que o podem ser menos. Mas que a permitir-se dizer que o não são ou que o são menos, colocaria em risco lugares e cargos de funcionários de organismos e de organizações internacionais. Digamos que a esta forma de verdade não é alheia a realidade. Ou que, indo pela inversa, a realidade é o resultado e a consequência desta hipótese de verdade.


O país pode, até e muito bem, não ser o que parece. Ou o que alguns dizem ser. Ou pretendem que fosse. O país é, simplesmente, o que é. Porque é real. Muito por hipótese, possa não ser de todo reconfortante ter de aceitar o real. E, aqui, o real, é extinção da chamada “Brigada Mamba”, pela Polícia. A referida brigada havia sido criada há mais de cinco anos para combate ao crime violento. Na origem da decisão, terão estado as emboscadas constantes aos seus integrantes, dez dos quais perderam a vida. Dito por outras palavras, e sem querer ser demasiado duro, as redes do crime organizado já haviam tomado a iniciativa. E dominavam um terreno, um território, que era suposto ser ocupado e defendido pela Polícia. Mas, perceber e entender esta realidade custou dez vidas humanas. Também no campo do real, ouvimos o que o Procurador-Geral da República disse no Parlamento. E não pode deixar de causar preocupação o ter reconhecido, entre outros aspectos não menos graves, que há arguidos que se recusam a comparecer a audiências legais. Ora, se recusam é pela simples razão de terem poder para recusar. E por estarem convictos que consequência alguma advirá da sua recusa. Aqui chegados, podem surgir dúvidas sobre a utilidade, actual e futura, do Gabinete Central de Combate à Corrupção. Ou se, por hipótese, não será correcto admitir a possibilidade de vir a ter o mesmo fim que foi encontrado para a “Brigada Mamba”. Temos de convir que estas são facetas do país real. Haveremos de reconhecer que as autoridades estão a ser esvaziadas de poder.

domingo, abril 15, 2007

Os abutres já estão a ser atraídos pelo cheiro do sangue fresco

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Abril 15, 2007

antes e depois

Luís David

Foram tornadas públicas, quinta-feira que passou, as conclusões da comissão de inquérito, criada pelo Presidente da República para investigar as causas das últimas explosões no Paiol de Malhazine. Transcrevemos do jornal “Notícias”, do dia 13 passado: Uma combinação de vários factores, entre os quais o período de vida útil dos artefactos, as condições de manuseamento, armazenamento e conservação, os efeitos climatéricos (exposição ao sol, calor chuva e frio) e erro humano terão sido as eventuais causas das explosões ocorridas no passado dia 22 de Março no paiol de Malhazine. No mesmo texto, que cita um comunicado da Presidência da República, afirma-se que as conclusões são partilhadas na essência, pelo Chefe do Estado, Armando Emílio Guebuza, que depois de analisar preliminarmente o relatório, concordou em considerar as recomendações nas medidas organizativas em curso. Ora, se recordarmos que, anteriormente, já o Governo havia aprovado a criação de um gabinete para apoiar as vítimas, significa isto que o Estado assumiu, na sua plenitude, os estragos e as consequências dos danos causados pelas explosões. Nem seria de esperar diferente sabendo-se que, também aqui, o Estado se preocupa em ser pessoa de bem. Possa, embora, haver quem procure dar imagem contrária. Muito provavelmente, para consumo externo. Muito provavelmente para, assim procedendo, conseguir lugar em aéropago internacional.


Descartada, posta de lado, que parece estar, qualquer hipótese de as explosões do Paiol terem resultado de mão criminosas ficam, mesmo assim, algumas dúvidas a pedir esclarecimento. Diz a respeitável comissão de inquérito, que realizou um trabalho a todos os título louvável, que as armas explodidas não tinham mercúrio. Ora, se não tinham mercúrio, ficamos sem saber o que tinham. Por hipótese, poderiam ter urânio. Mas, e ainda no campo das hipóteses especulativas, se não tinham mercúrio nem urânio, falta dizer, falta tornar público que tipos de armas explodiram, quantos engenhos explodiram e quantos ainda estão em condições de explodir. Nisto, na divulgação destes dados, não está em questão nenhum segredo de Estado. Muito menos, a segurança do Estado. Está, isso sim, a segurança de centenas ou de milhares de cidadão que vivem nas proximidades das zonas de desmazelado armazenamento de artefactos de guerra. Excluindo, pois, a possibilidade de sabotagem nas explosões e, por exclusão de partes, quaisquer benefícios para a máfia russa, parece necessário algum sinal tranquilizante. Tranquilizador. E, aqui, a questão está em saber qual o destino que irá ser dado a todos aqueles terrenos. Aos terrenos do chamado Paiol de Malhazine. Aos terrenos que, hoje, bem podem estar já a ser objecto de negociatas e de tráfico de influências para a construção de mais um condomínio. Talvez o senhor Presidente da República deva declarar esses terrenos como Reserva do Estado. Ou, terrenos de domínio ou de utilidade pública. Para que, nesses terrenos, ou nessa terra, possa ser construído algo de memorável. Ou, por hipótese, coisa nenhuma. Mas, sobretudo para que essa terra ensanguentada, sangrenta e sangrada de Malhazine seja, por hipótese, terra, terreno de especuladores. Os abutres já estão a ser atraídos pelo cheiro do sangue fresco

apanhar a última carruagem com o combóio em movimento

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Abril 8, 2007

antes e depois

Luís David

Tem este país, Moçambique, alguns aspectos de originalidade. Digamos que aqui despontam, crescem, vivem, multiplicam-se alguns fenómenos. Podemos traduzir fenómeno por coisa anormal. Por anormalidade. Se de outra forma se preferir, por monstruosidade ou por aberração. Ora, uma das aberrações existentes neste país parece ser o de existiram duas aposições ao poder legalmente constituído. Uma, legal, oficial, parlamentar. Resultante do simples facto de tendo concorrido a eleições as não ter vencido. Por isso, como segundo partido mais votado, se constitui, por força do resultado apurado nas urnas, em oposição. A outra, a outra oposição, formou-se por si própria e a si própria se classificou de construtiva. Lá terá as suas razões e as suas motivações para adoptar o qualificativo pelo qual optou. Acontece que esta segunda oposição, a chamada oposição construtiva, não terá gostado de algumas declarações públicas do líder da primeira. Da primeira e da única oposição, de facto. Vai daí, se bem pensou, rápido agiu. E como é público e conhecido, apresentou queixa - crime na Procuradoria Geral da República. Com o argumento de incitação à violência. Ora, é bom, é tranquilizador, é tranquilizante, sabermos o que ficámos a saber. Que há, que existe neste país um Bloco de Oposição Construtiva atento aos pronunciamentos dos membros da outra oposição. Da verdadeira e única. E que quando lhe parece a membros daquela que membros desta última se excedem em termos de linguagem, logo os processa. Naturalmente, em defesa dos legítimos direitos de todo o povo. E, como se dizia, em tempos de triste memória, a Bem da Nação.


Na nossa política caseira, doméstica, nativa, indígena, o que parece de todo original é a capacidade imaginativa e criativa. De resto, ninguém poderá negar ausência de talento ou falta de espírito de iniciativa quando, como é o caso, se cria o que é chamado e ficou conhecido como Bloco de Oposição Construtiva. Em termos práticos e na realidade, trata-se de uma oposição à oposição. Mais claramente, de uma oposição fictícia à oposição real. Em termos de lógica, a oposição à oposição não pode ser diferente de oposição à oposição. Logo, e por exclusão de partes, a oposição à oposição parece não poder encontrar outra definição e outro espaço que não seja o de posição. Sendo, assim, a oposição à oposição, posição, logo é concordante com maioria parlamentar e, por inclusão de partes, com as políticas governamentais e com as suas formas de aplicação. Na nossa realidade política interna actual, perante a forma como estão distribuídos os assentos no Parlamento, não há espaço para uma terceira força. Que, em termos reais, nunca poderia ter força alguma. Acreditar que sim, é alimentar uma ilusão. A ilusão de que, fazendo oposição à oposição, é possível ganhar espaço e ter lugar na posição. Arranjar aquilo a que, em linguagem popular ou chula, se chama de tacho. Não um tacho, de barro, alumínio ou esmalte, para fazer comida. Mas, muito simplesmente um tacho. E, um tacho, em termos de política e neste caso, equivale a dizer que um tacho é um tacho. Ou que há quem procure apanhar a última carruagem com o combóio em movimento.

podemos pensar e agir diferente

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Abril 1, 2007


antes e depois

Luís David

Em termos de mortos e de feridos, resultantes das explosões do Paiol de Malhazine, parece haver já um balanço definitivo. O mesmo não acontece em termos de prejuízos materiais. Aqui, uma avaliação real, objectiva e séria, irá levar meses. Quando não, mesmo, anos. O que não implica nem invalida que, no imediato, comece a ser prestado auxílio às vítimas. Até porque, antes ou para além de qualquer considerando, constitui uma obrigação moral. Do Estado. Não é deste ou de qualquer outro Governo. Entendamos bem, é do Estado. Mas, a verdadeira dimensão das explosões do Paiol ultrapassam, vão muito para além da contabilidade dos mortos e dos feridos, dos prejuízos materiais. Muito provavelmente, a verdadeira dimensão da catástrofe que foram as explosões só serão conhecidas daqui a muitos anos. Ou, por hipótese, talvez, até, nunca o venham a ser. Referimo-nos, às centenas ou milhares de crianças e de adultos que possam ter ficado afectados psicologicamente pelos rebentamentos. Pela fuga desordenada, pela perda de contacto com familiares ou com a sua morte. Também ao número daqueles que, hoje, se queixam de problemas respiratórios e outros. Naturalmente, a louvável iniciativa de montar uma tenda a servir de enfermaria nas proximidades do Paiol, não passa disso mesmo. De uma iniciativa louvável. Dizer, à partida e no local, que este ou aquele sintoma, este ou aquele mal estar, de que se queixam residentes na área, não é resultado das explosões, parece conclusão abusiva. Dizer que mercúrio ou urânio não provocam tais sintomas é, no mínimo, procurar situar-se longe da verdade. No mínimo, poderão ser problemas psicológicos. E, se assim, como tal deverão ser encarados. E tratados.


No após das explosões, decidiu o Conselho de Ministros decretar três dias de Luto Nacional. Período durante o qual, a Bandeira da República deveria ser colocada a meia haste nos edifícios públicos. Naturalmente, durante o dia, dado ser prática o seu arrear ao fim da tarde. Hora, tendo o fim-de-semana sido coberto pelo período de Luto Nacional, consta ter havido alteração nenhuma na programação das casas de diversão e de espectáculos nocturnos. Muito provavelmente, estamos perante uma situação de vazio legal. Logo, se não há legislação sobre a matéria, também não há violação de legislação nenhuma. E, o que possa parecer violação, de facto e no concreto, é apenas uma questão moral. Não passível de qualquer punição. Podem até, como aconteceu em Maputo, os artistas subirem ao palco e solidarizarem-se com as vítimas. Depois, cantarem, rirem, galhofarem, contarem anedotas. Sem se preocuparem com o facto de, bem perto, jazer quase uma centena de corpos sem vida. Corpos de crianças, de mulheres, de chefes de família. Chorados por centenas ou milhares de vivos, seus familiares ou amigos, que da sua presença se viram afastados de forma tão repentina e brutal. Neste contexto, perante uma realidade concreta, nacional, nossa, o que importa saber é o que abrange e a quem abrange a declaração de Luto Nacional. De concreto, os Cínicos dariam um resposta contundente. Mas, podemos pensar e agir diferente.

quarta-feira, março 28, 2007

o tempo que aí vem é curto e pouco

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Março 25, 2007

antes e depois

Luís David

Uma vasta zona da cidade da então Lourenço Marques foi, durante décadas, conhecida como Carreira de Tiro. A Carreira de Tiro era, como se pode deduzir, a zona, os terrenos, que as tropas do ocupante, do colonizador, utilizavam para treinamento. Ficavam esses terrenos, então, fora da área habitacional. Mais recentemente, nessa mesma zona viriam a ser construídos quartéis, o chamado Bairro Militar e diversas instalações sociais. Tudo ainda, onde a cidade não chegava. Também o Paiol Militar, quando foi construído, estava bem longe de qualquer zona habitacional. Nada havia em seu redor. Com o correr dos anos, a pressão urbanística colocou a zona da Carreira de Tiro, os quartéis, no meio da cidade. E o Paiol Militar no centro de uma zona densamente habitada e rodeada de instalações industriais e sociais. Com o rodar do tempo, há muito que a Carreira de Tiro havia deixado de o ser. Com a independência e o fim da guerra que se lhe seguiu, os quartéis no centro da cidade de Maputo deixaram de ter qualquer importância militar estratégica. E, apesar de haver quartel ainda centro de treino, o Casão e o Supermercado Militar são hoje instalações alugadas e exploradas, em diversas actividades, por civis. Da mesma forma que o Hospital Militar, deixou de atender em exclusivo militares. Desde há muito atende civis. Só Paiol Militar, hoje no centro de uma zona densamente habitada, resistiu ao tempo e à mudança. A todas as mudanças. Há mudança dos homens, das vontades e das mentalidade. Também, merece a pena não esquecer, a três explosões. A primeira, em 25 de Setembro de 1985, quando Samorá Maciel se encontrava a participar na Assembleia Geral das Nações Unidas. A segunda, em princípios deste corrente ano de 2007. A terceira, na quinta-feira que passou. E se não fossem as consequências trágicas desta última explosão, que provocou cerca de cem mortos e quatrocentos feridos, haveríamos de perguntar quantas vezes mais este paiol irá explodir. Ou, em alternativa, que motivo impede que expluda de uma única vez e que, desta forma, desapareça, como paiol, para todo o sempre.



Perante o drama humano causado pelas explosões no Paiol Militar, o luto, a dor e o sofrimento de muitas centenas ou milhares de pessoas, decidiu o Conselho de Ministros decretar três dias de luto nacional. Mais decidiu, nomear uma comissão de inquérito a quem concedeu um prazo de quinze dias para apresentar relatório. É, desde logo, à partida, uma missão ingrata. Por vários motivos e muitas razões. Primeiro, por ter de dizer se, em boa verdade, o excessivo calor registado na cidade de Maputo foi, efectivamente, factor único e determinante para as explosões, Segundo, que tipo de material se encontrava armazenado no Paiol. Terceiro, se o Paiol ainda funcionava como em 1985, num sistema a que os técnicos chamam de “ilhas”. Se sim, quantas “ilhas” ainda estão intactas, ou seja quantas estão prontas a explodir por acção dessa muito genérica definição de calor. E, por fim, que tipo e que quantidade de material não explodiu. E, obviamente, o motivo pelo qual não explodiu quando, por uma questão lógica, devia ter explodido. Ou se, de facto, explodiu todo o material bélico que se encontrava armazenado no Paiol de Maputo. Logo, se o Paiol de Maputo desapareceu, em definitivo. Para sempre. Se sim, se assim, ainda bem. Não mais haveremos de lamentar a perda de vidas humanas. Se assim não, o tempo começa a ser curto para dizer a verdade. E o tempo que aí vem é curto e pouco.