Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Julho 15, 2007
antes e depois
Luís David
Vivemos uma fase, uma época, um tempo de austeridade. Em termos de gastos e de utilização do dinheiro público. Assim nos dizem. E, como tal e consequência, assim o praticamos. Alguns. Nem todos nós. O que é e está errado. Quando falamos em termos de utilização, de gasto do dinheiro público, parece necessário haver uma atitude colectiva. Quer na poupança, quer nos critérios do gasto. Mesmo mais do que na poupança, na utilização criteriosa. É que o dinheiro que ao cidadão é feito pagar, quer sob a forma de impostos ou de taxas, tem o cidadão o direito e o dever de exigir ver a sua aplicação útil. Quando útil significa no interesse e em favor do bem comum. O dinheiro cobrado ao cidadão, quer sob a forma de impostos ou de taxas tem, forçosamente, de ter um retorno útil. Em favor do cidadão pagante, da colectividade. Seja do colectivo de cidadãos ou da sociedade. Se assim for, quando assim é, tudo bem. Podemos dizer que se materializa um dos aspectos do princípio de ser o Estado pessoa de bem. E, em principio e por princípio, o Estado é sempre pessoa de bem.
Já neste espaço se deu conta, já aqui foi escrito sobre algo que parece errado. Trata-se da forma como certos organismos e instituições do Estado fazem uso dos órgãos de Informação. Para divulgar o que devem divulgar. Em nome, ao que parece, da transparência de governação. A questão é que a transparência de governação, segundo critérios nada objectivos, pode custar mais ou menos dinheiro. Ao cidadão que somos. A transparência de governação, segundo critérios que não partilhamos, parece depender da dimensão do anúncio que se faz publicar, do trabalho gráfico, do número ou da frequência de vezes que é publicado ou emitido. A verdade, sem qualquer hipótese de contraditório, tudo tem um custo. Um preço. Um valor. Logo, em termos de gestão, deve ter uma contrapartida. Todos sabemos e todos sentimos, desde há alguns meses, que a nossa conta de electricidade foi engrossada com o aumento da taxa de remoção do lixo. Se a situação melhorou, sequer importa Nem queremos aqui discutir o falacioso critério em que assenta a decisão municipal. È que sendo a inércia o principio do movimento, também aqui a ilógica pode ser aceite como principio da lógica. Mesmo quando, em bom tempo, possa tratar-se de uma lógica irracional. A questão de fundo, assenta nos gastos desnecessários e na ausência do principio de austeridade na utilização do dinheiro público. Nada justifica, hoje, depois de estarmos a pagar, desde há meses, a nova taxa de remoção de lixo, a publicação de anúncios de página inteira sobre as novas taxas. Trata-se de um gasto injustificado. Talvez, de uma forma, pouco elaborada, quiçá desajeitada, de tentar dizer que se fez sem ter feito. De demagogia. Só que, não estamos em tempo de demagogia.
domingo, julho 15, 2007
domingo, julho 08, 2007
O combate ao crime é um problema estrutural
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Julho 8, 2007
antes e depois
Luís David
Para quem chegue pela primeira vez a Moçambique, num destes dias anormalmente frios de Julho, Maputo é uma cidade calma. Uma cidade onde se pode passear calmamente em qualquer artéria. Na qual não se detectam sinais de violência. De banditismo. De criminalidade. De assaltos. De roubo. Seja com recurso a ameaça com arma branca, seja por esticão. Enfim, por um qualquer método ou artimanha de que se socorre o ladrão menor. O ladrão de ocasião. Digamos mesmo que, nos tempos que passam, o tipo de ladrão ocasional a que as polícias pouca atenção prestam. Depois, aqui em Maputo, até estão aí essas patrulhas apeadas. De três ou mais agentes. Caminhando calmamente de artéria em artéria. Carregando as suas armas, cano apontado para o chão. Como que a tentarem dizer que aqui nada acontece de anormal, aqui nada vos pode acontecer. Como que a tentar dizer, nós cuidados da vossa segurança. Mas, esta imagem de segurança, de protecção, pode ser uma imagem de ilusão. É que estes polícias, estes homens e mulheres, que pensam poder estar garantir a nossa segurança podem ser tão vulneráveis como qualquer cidadão. E, até são. A forma calma como se movimentam, pode não ser mais do que uma calma inconsciente perante o perigo que correm. Pelo perigo que enfrentam, sem o saberem. Um inconsciência ou uma negligência que os pode transformar em alvo ou em vítimas do crime violento. Pelo simples facto de serem portadores de armas.
Durante bastante tempo, o argumento para a fragilidade no combate ao crime violento foi a falta de meios. Hoje, com os mesmos ou com mais meios, parece um argumento ultrapassado. Na realidade, o que estamos a assistir, o que estamos a verificar, é que o bandido, o ladrão, o criminoso mudou de táctica e de métodos de actuação. Tomou a iniciativa e tomou a dianteira. Não esperou para ver. Diz a realidade, que alguns dos crimes registados nas últimas semanas já deviam ter levado a um outro tipo de análise. No mínimo, a uma análise. E á concepção e divulgação de um plano de emergência, tendo em vista enfrentar e inverter a situação. É que permitir que se roube uma viatura parqueada numa esquadra, depois de recuperada a ladrões, não é normal. Como não é normal que os assaltantes a uma dependência bancária o façam com recursos a armas roubadas minutos antes a uma patrulha policial. Estranho não deixa de ser que, um agente que manda parar um condutor seja assassinado em circunstâncias pouco claras. Ora, perante a realidade destes casos recentes, parece necessário falar em preparação, em prontidão, em mobilização e em engajamento no combate ao crime. Mas, também e sobretudo na actualização constante do conhecimento sobre os métodos a que recorre o criminoso. Não nos deixemos cair, de novo, na ilusão de que o combate ao crime é um problema de falta de meios. Por, objectivamente o não ser. Quando agentes da polícia são desapossados das suas armas em acção de patrulha, a situação é bem mais complexa e mais perigosa do que parece. Quando ladrões entram em esquadra de polícia e retiram viatura recuperada a ladrões, desvanece-se toda a nossa ilusão de segurança. Toda a ilusão de que uma esquadra é o último local seguro a que o comum dos cidadãos pode recorrer em caso de ameaça. Como se sabe em nenhum dos dois casos pode ser invocada falta de meios. Nesta lógica, muito provavelmente o combate ao crime não é uma questão conjuntural. Não é, hoje, um problema de meios. É, isso sim, de vontades. Na nossa sociedade, na sociedade moçambicana actual, o combate ao crime é um problema estrutural.
antes e depois
Luís David
Para quem chegue pela primeira vez a Moçambique, num destes dias anormalmente frios de Julho, Maputo é uma cidade calma. Uma cidade onde se pode passear calmamente em qualquer artéria. Na qual não se detectam sinais de violência. De banditismo. De criminalidade. De assaltos. De roubo. Seja com recurso a ameaça com arma branca, seja por esticão. Enfim, por um qualquer método ou artimanha de que se socorre o ladrão menor. O ladrão de ocasião. Digamos mesmo que, nos tempos que passam, o tipo de ladrão ocasional a que as polícias pouca atenção prestam. Depois, aqui em Maputo, até estão aí essas patrulhas apeadas. De três ou mais agentes. Caminhando calmamente de artéria em artéria. Carregando as suas armas, cano apontado para o chão. Como que a tentarem dizer que aqui nada acontece de anormal, aqui nada vos pode acontecer. Como que a tentar dizer, nós cuidados da vossa segurança. Mas, esta imagem de segurança, de protecção, pode ser uma imagem de ilusão. É que estes polícias, estes homens e mulheres, que pensam poder estar garantir a nossa segurança podem ser tão vulneráveis como qualquer cidadão. E, até são. A forma calma como se movimentam, pode não ser mais do que uma calma inconsciente perante o perigo que correm. Pelo perigo que enfrentam, sem o saberem. Um inconsciência ou uma negligência que os pode transformar em alvo ou em vítimas do crime violento. Pelo simples facto de serem portadores de armas.
Durante bastante tempo, o argumento para a fragilidade no combate ao crime violento foi a falta de meios. Hoje, com os mesmos ou com mais meios, parece um argumento ultrapassado. Na realidade, o que estamos a assistir, o que estamos a verificar, é que o bandido, o ladrão, o criminoso mudou de táctica e de métodos de actuação. Tomou a iniciativa e tomou a dianteira. Não esperou para ver. Diz a realidade, que alguns dos crimes registados nas últimas semanas já deviam ter levado a um outro tipo de análise. No mínimo, a uma análise. E á concepção e divulgação de um plano de emergência, tendo em vista enfrentar e inverter a situação. É que permitir que se roube uma viatura parqueada numa esquadra, depois de recuperada a ladrões, não é normal. Como não é normal que os assaltantes a uma dependência bancária o façam com recursos a armas roubadas minutos antes a uma patrulha policial. Estranho não deixa de ser que, um agente que manda parar um condutor seja assassinado em circunstâncias pouco claras. Ora, perante a realidade destes casos recentes, parece necessário falar em preparação, em prontidão, em mobilização e em engajamento no combate ao crime. Mas, também e sobretudo na actualização constante do conhecimento sobre os métodos a que recorre o criminoso. Não nos deixemos cair, de novo, na ilusão de que o combate ao crime é um problema de falta de meios. Por, objectivamente o não ser. Quando agentes da polícia são desapossados das suas armas em acção de patrulha, a situação é bem mais complexa e mais perigosa do que parece. Quando ladrões entram em esquadra de polícia e retiram viatura recuperada a ladrões, desvanece-se toda a nossa ilusão de segurança. Toda a ilusão de que uma esquadra é o último local seguro a que o comum dos cidadãos pode recorrer em caso de ameaça. Como se sabe em nenhum dos dois casos pode ser invocada falta de meios. Nesta lógica, muito provavelmente o combate ao crime não é uma questão conjuntural. Não é, hoje, um problema de meios. É, isso sim, de vontades. Na nossa sociedade, na sociedade moçambicana actual, o combate ao crime é um problema estrutural.
quarta-feira, julho 04, 2007
já sabemos quem não é herói nacional
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Julho 1, 2007
antes e depois
Luís David
Desde há bastante tempo que se fez instalar a polémica. Ou, sendo-se mais generoso, digamos, imparcial, a dúvida. Aliás, até é bom e útil e positivo que a dúvida exista. Mesmo quando se trata de saber, de procurar o consenso, possível, sobre quem deve ser considerado como herói nacional. Para tanto, para procurar definição justa e ajustada, para encontrar critério de classificação foi, em tempos, criada uma comissão. Se realizou ou não trabalho de mérito nada se sabe. Ao que parece, nada foi divulgado publicamente. Muito por hipótese, não será fácil nem prático definir e regular por lei, onde começa e onde acaba o acto de patriotismo. Muito recentemente, a polémica foi reacendida. Talvez de forma muito localizada. Talvez de forma provincial ou provinciana. Quando na cidade da Beira foi entendido, como justo e correcto, atribuir nome de André Matsangaíssa a praça local. Que sim, que o faça quem tem poder para o fazer. Mas parece necessário deixar claro, desde já, que desejo e vontade não serão, exactamente, o mesmo que poder. Caso contrário, sempre que se verifique alternância política na governação teremos novas mudanças. Seria a confusão instalada.
Declarações públicas recentes de alguns fundadores da RENAMO, parece tenderem para acalmar a polémica. Reduzir o campo da dúvida. É que se, até aqui, a versão que tínhamos da história era, unicamente, a versão dos vencedores, agora começamos a ter a versão dos vencidos. Primeiro, foi Máximo Dias. Depois, o segundo a vir a público com a sua versão, foi Carlitos Relógio. Ambos se assumem como fundadores da RENAMO. E ambos estão de acordo em que os objectivos do movimento que criaram não era o que lhe foi destinado. Por factores e por forças externas. Diz Carlitos José (“Notícias” de 29.06.07), que quando alguns de nós, incluindo o Doutor Máximo Dias, fundámos a Resistência Nacional de Moçambique, hoje partido Renamo, a ideia foi lutarmos para acabarmos com algumas práticas comunistas como as aldeias comunais, a lei do chamboco, a proibição de praticarmos livremente e religião e outros males que até certo ponto atentavam contra as liberdades mais fundamentais dos cidadãos. E, acrescenta que quando a determinado momento da luta somos confrontados com actuações piores do que as do comunismo, então começamos a interrogarmo-nos sobre a essência da luta que travávamos. Em nenhum momento a RENAMO original tinha como objectivo promover matanças, violações, destruições e sabotagens a alvos vitais para a economia nacional. (...). Colocada a questão nos termos e nos limites das declarações dos dois fundadores da RENAMO, podemos avançar por exclusão de partes. Não sabemos ainda, temos dúvida, sobre quem deve ser considerado herói nacional. Não temos dúvida e sabemos, já sabemos quem não é herói nacional.
antes e depois
Luís David
Desde há bastante tempo que se fez instalar a polémica. Ou, sendo-se mais generoso, digamos, imparcial, a dúvida. Aliás, até é bom e útil e positivo que a dúvida exista. Mesmo quando se trata de saber, de procurar o consenso, possível, sobre quem deve ser considerado como herói nacional. Para tanto, para procurar definição justa e ajustada, para encontrar critério de classificação foi, em tempos, criada uma comissão. Se realizou ou não trabalho de mérito nada se sabe. Ao que parece, nada foi divulgado publicamente. Muito por hipótese, não será fácil nem prático definir e regular por lei, onde começa e onde acaba o acto de patriotismo. Muito recentemente, a polémica foi reacendida. Talvez de forma muito localizada. Talvez de forma provincial ou provinciana. Quando na cidade da Beira foi entendido, como justo e correcto, atribuir nome de André Matsangaíssa a praça local. Que sim, que o faça quem tem poder para o fazer. Mas parece necessário deixar claro, desde já, que desejo e vontade não serão, exactamente, o mesmo que poder. Caso contrário, sempre que se verifique alternância política na governação teremos novas mudanças. Seria a confusão instalada.
Declarações públicas recentes de alguns fundadores da RENAMO, parece tenderem para acalmar a polémica. Reduzir o campo da dúvida. É que se, até aqui, a versão que tínhamos da história era, unicamente, a versão dos vencedores, agora começamos a ter a versão dos vencidos. Primeiro, foi Máximo Dias. Depois, o segundo a vir a público com a sua versão, foi Carlitos Relógio. Ambos se assumem como fundadores da RENAMO. E ambos estão de acordo em que os objectivos do movimento que criaram não era o que lhe foi destinado. Por factores e por forças externas. Diz Carlitos José (“Notícias” de 29.06.07), que quando alguns de nós, incluindo o Doutor Máximo Dias, fundámos a Resistência Nacional de Moçambique, hoje partido Renamo, a ideia foi lutarmos para acabarmos com algumas práticas comunistas como as aldeias comunais, a lei do chamboco, a proibição de praticarmos livremente e religião e outros males que até certo ponto atentavam contra as liberdades mais fundamentais dos cidadãos. E, acrescenta que quando a determinado momento da luta somos confrontados com actuações piores do que as do comunismo, então começamos a interrogarmo-nos sobre a essência da luta que travávamos. Em nenhum momento a RENAMO original tinha como objectivo promover matanças, violações, destruições e sabotagens a alvos vitais para a economia nacional. (...). Colocada a questão nos termos e nos limites das declarações dos dois fundadores da RENAMO, podemos avançar por exclusão de partes. Não sabemos ainda, temos dúvida, sobre quem deve ser considerado herói nacional. Não temos dúvida e sabemos, já sabemos quem não é herói nacional.
Estão sempre a ir e vir
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Junho 27, 2007
antes e depois
Luís David
Depois de, em 2006, haver editado “Crónica da Rua 513.2”, João Paulo Borges Coelho oferece-nos agora “Campo de Trânsito”. São pouco mais de 200 páginas para romancear, a história, a desdita ou a dita, que tem como protagonista um tal de J. Mungau. Um trabalhador, como tantos outros, que numa certa noite é acordado com pancadas ritmadas na porta do seu apartamento. Era, assim o diz o romance, o Bexigoso e seus acompanhantes, que o fazem descer as escadas e o transportam até ao comando. Ao longo do percurso, Mungau interroga-se várias vezes, sobre de que o acusam. Admite, em pensamento, chega a admitir, que possa ter havido engano. Depois, é confrontado com uma comunicação do seu despedimento. Que, sem alternativa, acaba por assinar. Aqui, começa a longa viagem a permanência no “Campo de Trânsito”. Possa ou não parecer, trata-se de uma história actual e de um tempo recente, do país que todos somos. Onde não falta, sequer, o conflito entre tradição e modernidade. Levado ao desconforto do quase ridículo das posições de alguns dos intervenientes. Como se ou a defenderem tradição como algo de estático. Antes de passar além, dizer apenas que o romance em questão merecia uma tiragem bem maior do que os 500 exemplares da primeira edição. Aguardemos para ver o que o futuro lhe reserva.
Penso que, na maioria dos casos, se afigura presunção fazer crítica a obra literária. Principalmente quando o autor não é novato nem estreante. E conta com quase uma dezena de obras editadas. Mas já pode ser interessante transcrever um dois parágrafos, uma dezenas de linhas da sua obra. Então, retiradas das duas últimas páginas do livro, aqui ficam: Começa a cair uma chuva miudinha que ajuda a apagar o resto das fogueiras, quase cinza. A sombra da noite esgueira-se para os lados da ponte, ali onde a horda invadirá o Campo de Trânsito. No chão, arrastam-se os mais valentes, homens e mulheres capazes ainda de algum movimento, os primeiros que irão descobrir que tudo tem um fim. E, na página seguinte e última: De cima do camião do Bexigoso, pronto a partir, Mungau vê-os chegar enquanto atira furtivamente as colheres que tem no bolso para os desacordados prisioneiros, como se as semeasse. Para se ver livre delas e para que eles possam enfrentar as papas do futuro – se ainda as houver – de colher na mão. E, a terminar, mesmo que terminar possa não ter como significado atingir o fim: O Bexigoso acena-lhes de longe. Está tão ansioso por regressar à cidade que resolveu partir mesmo antes de o combate acontecer. Houve-se, mero acaso, mera especulação, necessidade de concluir algo, de ir para além do que o autor de o “Campo de Trânsito” escreve, seria para acrescentar que este país teve muitos `bexigosos`. Que partiram antes de o combate acontecer. Mas que, como o Bexigoso da história, do romance, também estão sempre ansiosos por regressar à cidade. Digamos que partiram mas não foram. Partiram não indo. Partiram ficando. Partiram por convicção. Ficaram por interesses. Por isso regressam. Estão sempre a regressar. Estão sempre a ir e vir.
antes e depois
Luís David
Depois de, em 2006, haver editado “Crónica da Rua 513.2”, João Paulo Borges Coelho oferece-nos agora “Campo de Trânsito”. São pouco mais de 200 páginas para romancear, a história, a desdita ou a dita, que tem como protagonista um tal de J. Mungau. Um trabalhador, como tantos outros, que numa certa noite é acordado com pancadas ritmadas na porta do seu apartamento. Era, assim o diz o romance, o Bexigoso e seus acompanhantes, que o fazem descer as escadas e o transportam até ao comando. Ao longo do percurso, Mungau interroga-se várias vezes, sobre de que o acusam. Admite, em pensamento, chega a admitir, que possa ter havido engano. Depois, é confrontado com uma comunicação do seu despedimento. Que, sem alternativa, acaba por assinar. Aqui, começa a longa viagem a permanência no “Campo de Trânsito”. Possa ou não parecer, trata-se de uma história actual e de um tempo recente, do país que todos somos. Onde não falta, sequer, o conflito entre tradição e modernidade. Levado ao desconforto do quase ridículo das posições de alguns dos intervenientes. Como se ou a defenderem tradição como algo de estático. Antes de passar além, dizer apenas que o romance em questão merecia uma tiragem bem maior do que os 500 exemplares da primeira edição. Aguardemos para ver o que o futuro lhe reserva.
Penso que, na maioria dos casos, se afigura presunção fazer crítica a obra literária. Principalmente quando o autor não é novato nem estreante. E conta com quase uma dezena de obras editadas. Mas já pode ser interessante transcrever um dois parágrafos, uma dezenas de linhas da sua obra. Então, retiradas das duas últimas páginas do livro, aqui ficam: Começa a cair uma chuva miudinha que ajuda a apagar o resto das fogueiras, quase cinza. A sombra da noite esgueira-se para os lados da ponte, ali onde a horda invadirá o Campo de Trânsito. No chão, arrastam-se os mais valentes, homens e mulheres capazes ainda de algum movimento, os primeiros que irão descobrir que tudo tem um fim. E, na página seguinte e última: De cima do camião do Bexigoso, pronto a partir, Mungau vê-os chegar enquanto atira furtivamente as colheres que tem no bolso para os desacordados prisioneiros, como se as semeasse. Para se ver livre delas e para que eles possam enfrentar as papas do futuro – se ainda as houver – de colher na mão. E, a terminar, mesmo que terminar possa não ter como significado atingir o fim: O Bexigoso acena-lhes de longe. Está tão ansioso por regressar à cidade que resolveu partir mesmo antes de o combate acontecer. Houve-se, mero acaso, mera especulação, necessidade de concluir algo, de ir para além do que o autor de o “Campo de Trânsito” escreve, seria para acrescentar que este país teve muitos `bexigosos`. Que partiram antes de o combate acontecer. Mas que, como o Bexigoso da história, do romance, também estão sempre ansiosos por regressar à cidade. Digamos que partiram mas não foram. Partiram não indo. Partiram ficando. Partiram por convicção. Ficaram por interesses. Por isso regressam. Estão sempre a regressar. Estão sempre a ir e vir.
terça-feira, junho 19, 2007
o pai que temos da democracia que não queremos
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Junho 17, 2007
antes e depois
Luís David
Cada qual, cada um de nós é livre de ter a concepção de democracia que melhor lhe aprouver. Sendo, embora, que democracia não é um conceito elástico. Nem uma realidade que se adapte ao desejo e à vontade de quem a proclama. Ou dela, da democracia, se proclama. Por exemplo, não tem sentido, não faz sentido, que alguém apele à violação de códigos ou de leis para se afirmar, publicamente, como democrata. Que apele à violação de lei ou de código em defesa e protecção do violador. Que apele à autoridade legalmente constituída para violar a lei. Que apele à autoridade, legalmente constituída, para violar lei, em defesa de pretensos valores democráticos. Em defesa de conceitos pessoais de democracia. Ora, aqui e agora, não estamos a defender a democracia. Mas, muito provavelmente o contrário. O inverso. Estamos, podemos estar, a defender o contrário da democracia. E, podemos estar a abrir a porta de entrada que dá acesso à estrada larga do vazio do poder. Ou, o que pode ser mais perigoso, para um poder pessoal e autoritário.
Foi, há dias, o líder da RENAMO, vítima de acidente de viação. Internado, acamado, recebeu em leito hospitalar a visita do Presidente da República. De quem recebeu palavras de solidariedade. De apoio. Depois, dias mais tarde, terá vindo a público, através de porta-voz. pedir a libertação do causador do acidente. Do condutor da viatura que embateu naquela em que se fazia transportar, Por, ao que se diz, não ter respeitado o sinal vermelho de paragem obrigatória. Logo, por haver cometido infracção punível por lei. Ora, é aqui que reside a questão. Se o líder da RENAMO quer ou não quer ser indemnizado dos prejuízos que sofreu, trata-se de uma questão pessoal. Está no seu direito em dizer que não. Que nada quer receber. O que já não pode, pelo menos não deve, é de, em caso de ter havido crime público, influenciar para que não seja feita justiça. E, desta forma, passar a ser normal, passar a norma violar, avançar quando o sinal vermelho obriga a parar. Ora, a ser assim, a vir a ser assim, estaríamos perante aquilo a que poderíamos chamar de “lei da selva”. De resto, registemos se estamos, ou não, perante um acto de democracia ou de populoso político. Talvez estejamos perante o pai que temos da democracia que não queremos.
antes e depois
Luís David
Cada qual, cada um de nós é livre de ter a concepção de democracia que melhor lhe aprouver. Sendo, embora, que democracia não é um conceito elástico. Nem uma realidade que se adapte ao desejo e à vontade de quem a proclama. Ou dela, da democracia, se proclama. Por exemplo, não tem sentido, não faz sentido, que alguém apele à violação de códigos ou de leis para se afirmar, publicamente, como democrata. Que apele à violação de lei ou de código em defesa e protecção do violador. Que apele à autoridade legalmente constituída para violar a lei. Que apele à autoridade, legalmente constituída, para violar lei, em defesa de pretensos valores democráticos. Em defesa de conceitos pessoais de democracia. Ora, aqui e agora, não estamos a defender a democracia. Mas, muito provavelmente o contrário. O inverso. Estamos, podemos estar, a defender o contrário da democracia. E, podemos estar a abrir a porta de entrada que dá acesso à estrada larga do vazio do poder. Ou, o que pode ser mais perigoso, para um poder pessoal e autoritário.
Foi, há dias, o líder da RENAMO, vítima de acidente de viação. Internado, acamado, recebeu em leito hospitalar a visita do Presidente da República. De quem recebeu palavras de solidariedade. De apoio. Depois, dias mais tarde, terá vindo a público, através de porta-voz. pedir a libertação do causador do acidente. Do condutor da viatura que embateu naquela em que se fazia transportar, Por, ao que se diz, não ter respeitado o sinal vermelho de paragem obrigatória. Logo, por haver cometido infracção punível por lei. Ora, é aqui que reside a questão. Se o líder da RENAMO quer ou não quer ser indemnizado dos prejuízos que sofreu, trata-se de uma questão pessoal. Está no seu direito em dizer que não. Que nada quer receber. O que já não pode, pelo menos não deve, é de, em caso de ter havido crime público, influenciar para que não seja feita justiça. E, desta forma, passar a ser normal, passar a norma violar, avançar quando o sinal vermelho obriga a parar. Ora, a ser assim, a vir a ser assim, estaríamos perante aquilo a que poderíamos chamar de “lei da selva”. De resto, registemos se estamos, ou não, perante um acto de democracia ou de populoso político. Talvez estejamos perante o pai que temos da democracia que não queremos.
compreender a diferença entre roubo e sabotagem
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Junho 10, 2007
antes e depois
Luís David
Em termos de língua de comunicação, temos de convir, nem sempre nos entendemos. Ou, na melhor das hipóteses, entendemos menos bem. Sendo que a culpa não pode ser atribuída à língua portuguesa, só pode ser atribuída a nós próprios. Que empregados ou utilizamos mal determinada palavra ou expressão num certo contexto. Por exemplo, perante acontecimentos recentes em Moçambique, fala-se muito de roubo. A questão é se estaremos, de facto, perante casos de roubo ou de sabotagem. Aqui é ou parece claro que, em termos psicológicos, roubar é coisa do quotidiano. Todos os dias há notícias de quem rouba e quem é roubado. Sabotar, não. Sabotar, parece palavra mais arredia do léxico popular. Mesmo do entendimento de muitos. Então, o que pode acontecer é que ao definirmos, ao classificarmos, certos acontecimentos como roubo, estarmos a aligeirar o seu real objectivo.
Registaram-se no país, nos últimos tempos, um conjunto de acontecimentos difíceis de explicar. De difícil de explicação e de difícil entendimento. Um, terá sido esclarecido. O das explosões do Paiol. Outro, o do incêndio no Ministério da Agricultura, parece em vias de o ser. Também. Estranhamente, os casos dos roubos de componentes dos sistemas de iluminação das pistas do Aeroporto de Nampula e do acesso ao Porto de Nacala, terão sido encarados como simples “casos de polícia”. Como simples casos de roubo. E quando não há esclarecimento, parece justo e obrigatório colocar a dúvida. Interrogar, se, de facto, estamos perante aquilo que pode ser definido como um roubo normal. Ou não. Se estaremos, isso sim, perante casos de sabotagem. Se isto pode, de alguma forma, contribuir para o aclarar do fenómeno, desde já se deixe claro que uma coisa é roubar um pato ou uma vaca, um telefone móvel ou um carro. Coisa bem diferente, é roubar um míssil. Como o fizeram os dois majores do Exército do Botswana detidos na fronteira de Machipanda. E, por isso, extraditados para serem julgados no seu país. Na mesma lógica, uma coisa é roubar umas tantas lâmpadas de iluminação pública e algumas dezenas de metros de cabo de transporte de energia num bairro de qualquer cidade. Outra coisa, e bem diferente, é colocar fora de serviço todo o sistema de iluminação das pistas de um aeroporto internacional. Ou o sistema de iluminação da balizagem de acesso nocturno a um porto. Como aconteceu com o de Nacala. Muito provavelmente, há uma grande diferença entre os objectivos e as consequências do roubo do pato ou da vaca e os do roubo de componentes dos sistemas de iluminação dos acessos a instalações áreas e portuárias. Isto para dizer que é necessário compreender a diferença entre roubo e sabotagem.
antes e depois
Luís David
Em termos de língua de comunicação, temos de convir, nem sempre nos entendemos. Ou, na melhor das hipóteses, entendemos menos bem. Sendo que a culpa não pode ser atribuída à língua portuguesa, só pode ser atribuída a nós próprios. Que empregados ou utilizamos mal determinada palavra ou expressão num certo contexto. Por exemplo, perante acontecimentos recentes em Moçambique, fala-se muito de roubo. A questão é se estaremos, de facto, perante casos de roubo ou de sabotagem. Aqui é ou parece claro que, em termos psicológicos, roubar é coisa do quotidiano. Todos os dias há notícias de quem rouba e quem é roubado. Sabotar, não. Sabotar, parece palavra mais arredia do léxico popular. Mesmo do entendimento de muitos. Então, o que pode acontecer é que ao definirmos, ao classificarmos, certos acontecimentos como roubo, estarmos a aligeirar o seu real objectivo.
Registaram-se no país, nos últimos tempos, um conjunto de acontecimentos difíceis de explicar. De difícil de explicação e de difícil entendimento. Um, terá sido esclarecido. O das explosões do Paiol. Outro, o do incêndio no Ministério da Agricultura, parece em vias de o ser. Também. Estranhamente, os casos dos roubos de componentes dos sistemas de iluminação das pistas do Aeroporto de Nampula e do acesso ao Porto de Nacala, terão sido encarados como simples “casos de polícia”. Como simples casos de roubo. E quando não há esclarecimento, parece justo e obrigatório colocar a dúvida. Interrogar, se, de facto, estamos perante aquilo que pode ser definido como um roubo normal. Ou não. Se estaremos, isso sim, perante casos de sabotagem. Se isto pode, de alguma forma, contribuir para o aclarar do fenómeno, desde já se deixe claro que uma coisa é roubar um pato ou uma vaca, um telefone móvel ou um carro. Coisa bem diferente, é roubar um míssil. Como o fizeram os dois majores do Exército do Botswana detidos na fronteira de Machipanda. E, por isso, extraditados para serem julgados no seu país. Na mesma lógica, uma coisa é roubar umas tantas lâmpadas de iluminação pública e algumas dezenas de metros de cabo de transporte de energia num bairro de qualquer cidade. Outra coisa, e bem diferente, é colocar fora de serviço todo o sistema de iluminação das pistas de um aeroporto internacional. Ou o sistema de iluminação da balizagem de acesso nocturno a um porto. Como aconteceu com o de Nacala. Muito provavelmente, há uma grande diferença entre os objectivos e as consequências do roubo do pato ou da vaca e os do roubo de componentes dos sistemas de iluminação dos acessos a instalações áreas e portuárias. Isto para dizer que é necessário compreender a diferença entre roubo e sabotagem.
O fundamentalismo ganha terreno
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Junho 3, 2007
antes e depois
Luís David
Numa das minhas poucas idas a Portugal, a companhia em que fiz transportar acabava de proibir o consumo do cigarro a bordo. Em conversa com o pessoal de cabina, houve quem me disse que a decisão tinha mais a ver com a economia de combustível do que, propriamente, com questões de saúde. Se sim ou se não, é uma dúvida que nunca procurei esclarecer. O que é facto é que, aparentemente algo revoltada com a decisão, a hospedeira me permitiu fumar. Viajava eu, como sempre, na última fila de cadeiras. A dado momento, já devia ir no terceiro cigarro, tocou-me delicadamente no ombro e disse: “Já chega”. Respeitei o que me era dito. Já no regresso, as coisas foram bastante diferentes. Não houve nem momento nem oportunidade para fumar. E a ordem de não fumar teve de ser cumprida. Mas, aconteceu algo de curioso e que me parece revelador dos interesses em torno do negócio do tabaco. Interesses muitos e variados. Aconteceu, então, que servida a refeição o pessoal de cabina começou a fazer circular os carrinhos com os vários artigos disponíveis a bordo. Desde relógios a isqueiros, passando pelos lenços de seda até aos cigarros. Cigarros, exactamente. Quer dizer, a bordo do avião não se podia fumar, mas era possível adquirir cigarros. Quando abordado sobre se desejava algum artigo, respondi afirmativo. E perguntei se ao comprar um volume de tabaco podia fumar um cigarro. A resposta foi um, óbvio não, acompanhado com um sorriso amarelado. Pensei e disse, que me parecia provocação oferecer cigarros a quem fuma e num local onde não lhe é permitido fumar. Durante muitas horas. Aliás, uma provocação sádica.
O Dia Mundial Sem Tabaco foi também, como é natural, assinalado em Moçambique. Os malefícios do consumo de tabaco são, hoje, por demais conhecidos. Daí que muitos países estejam a aprovar legislação que limita o número de locais onde é permitido fumar. Mas, convenhamos, só isso ou pouco mais do que isso. Do que foi dito em Moçambique, por ocasião da data, retivemos algumas palavras do Governador de Sofala. Considerou o Alberto Vaquina o vício do tabaco uma epidemia global que está de uma forma crescente a invadir os países e regiões em vias de desenvolvimento. Noutro passo da sua intervenção, alertou que a indústria do tabaco continua a lançar no mercado novas formas de apresentação do tabaco, de forma mais disfarçada, aparentemente pouco prejudiciais à saúde e mais atraentes para os consumidores. Não podiam ser nem mais justas, nem mais acertadas, nem mais correctas as palavras do médico Alberto Vaquina. Só que a problemática do tabaco não começa nem acaba no fumador. Os malefícios do tabaco, esses sim, parecem exclusivos do fumador. Mas o fumador é, em último capítulo, a face visível de uma complexa teia. De interesses os mais diversos. E perversos. É, na generalidade, uma vítima. Uma vítima de um sistema complexo de cruzados interesses económicos. Mas, muitas das vezes também políticos. O cultivador da planta do tabaco, o intermediário, o industrial, o armazenista, o vendedor, não são elementos marginais à sociedade. E tanto o não são que, como sucede em Moçambique, se socorrem do Governo, se acolhem ao Governo, para tentar fazer valer os seus interesses. De resto, a forma, em muitos casos absolutamente iníqua, como se encara o combate ao consumo de tabaco, é prova de que quem menos importa é o fumador. De resto, fumar é um direito de quem quer fumar. Com a única condição de não prejudicar nem atentar contra o direito de quem não quer fumar. Mas, o realismo começa a ser nenhum. O fundamentalismo ganha terreno.
antes e depois
Luís David
Numa das minhas poucas idas a Portugal, a companhia em que fiz transportar acabava de proibir o consumo do cigarro a bordo. Em conversa com o pessoal de cabina, houve quem me disse que a decisão tinha mais a ver com a economia de combustível do que, propriamente, com questões de saúde. Se sim ou se não, é uma dúvida que nunca procurei esclarecer. O que é facto é que, aparentemente algo revoltada com a decisão, a hospedeira me permitiu fumar. Viajava eu, como sempre, na última fila de cadeiras. A dado momento, já devia ir no terceiro cigarro, tocou-me delicadamente no ombro e disse: “Já chega”. Respeitei o que me era dito. Já no regresso, as coisas foram bastante diferentes. Não houve nem momento nem oportunidade para fumar. E a ordem de não fumar teve de ser cumprida. Mas, aconteceu algo de curioso e que me parece revelador dos interesses em torno do negócio do tabaco. Interesses muitos e variados. Aconteceu, então, que servida a refeição o pessoal de cabina começou a fazer circular os carrinhos com os vários artigos disponíveis a bordo. Desde relógios a isqueiros, passando pelos lenços de seda até aos cigarros. Cigarros, exactamente. Quer dizer, a bordo do avião não se podia fumar, mas era possível adquirir cigarros. Quando abordado sobre se desejava algum artigo, respondi afirmativo. E perguntei se ao comprar um volume de tabaco podia fumar um cigarro. A resposta foi um, óbvio não, acompanhado com um sorriso amarelado. Pensei e disse, que me parecia provocação oferecer cigarros a quem fuma e num local onde não lhe é permitido fumar. Durante muitas horas. Aliás, uma provocação sádica.
O Dia Mundial Sem Tabaco foi também, como é natural, assinalado em Moçambique. Os malefícios do consumo de tabaco são, hoje, por demais conhecidos. Daí que muitos países estejam a aprovar legislação que limita o número de locais onde é permitido fumar. Mas, convenhamos, só isso ou pouco mais do que isso. Do que foi dito em Moçambique, por ocasião da data, retivemos algumas palavras do Governador de Sofala. Considerou o Alberto Vaquina o vício do tabaco uma epidemia global que está de uma forma crescente a invadir os países e regiões em vias de desenvolvimento. Noutro passo da sua intervenção, alertou que a indústria do tabaco continua a lançar no mercado novas formas de apresentação do tabaco, de forma mais disfarçada, aparentemente pouco prejudiciais à saúde e mais atraentes para os consumidores. Não podiam ser nem mais justas, nem mais acertadas, nem mais correctas as palavras do médico Alberto Vaquina. Só que a problemática do tabaco não começa nem acaba no fumador. Os malefícios do tabaco, esses sim, parecem exclusivos do fumador. Mas o fumador é, em último capítulo, a face visível de uma complexa teia. De interesses os mais diversos. E perversos. É, na generalidade, uma vítima. Uma vítima de um sistema complexo de cruzados interesses económicos. Mas, muitas das vezes também políticos. O cultivador da planta do tabaco, o intermediário, o industrial, o armazenista, o vendedor, não são elementos marginais à sociedade. E tanto o não são que, como sucede em Moçambique, se socorrem do Governo, se acolhem ao Governo, para tentar fazer valer os seus interesses. De resto, a forma, em muitos casos absolutamente iníqua, como se encara o combate ao consumo de tabaco, é prova de que quem menos importa é o fumador. De resto, fumar é um direito de quem quer fumar. Com a única condição de não prejudicar nem atentar contra o direito de quem não quer fumar. Mas, o realismo começa a ser nenhum. O fundamentalismo ganha terreno.
quinta-feira, maio 31, 2007
um caso por encerrar
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 27, 2007
antes e depois
Luís David
Com maiores ou menores intervalos no tempo, jornais e jornalistas recordam-nos que existe, preso, um criminoso que ficou conhecido e que se assume como “Anibalzinho”. Com reconhecida capacidade de imaginação e de pretenso realismo, procuram transportar-nos para a realidade do detido. Fazem suposições e levantam suspeitas. No mínimo, sugerem. Publicam texto manuscrito com autoria atribuída ao preso. Foi assim esta semana em pelo menos dois semanários. Que dedicaram largos espaços ao tema “Anibalzinho”. Pode ter sido simples coincidência. Como pode não. Considerando que num dos jornais o objectivo parece ter sido o de alertar, o de precaver, uma possível eliminação física do condenado. No outro, a tónica aponta mais para o drama, para o melodramático. É aqui que o preso aparece a dizer que “fui muito usado pela fraqueza de ser pobre”. E, mais, que “hoje prefiro ser fuzilado por tudo o que estou a passar e a sofrer neste comando da Policia”. Pela retórica do texto, se mais não houver, ficamos a saber que ser pobre é uma fraqueza. E que a morte é o melhor processo para eliminar o sofrimento.
Parece não ser pelo retomar periódico do assunto “Anibalzinho” que algo de novo veio a público sobre o que foi provado no julgamento do chamado “Caso Carlos Cardoso”. Sequer parece ter havido, até hoje, arrependimento dos criminosos. Muito menos revelações novas e públicas que possam levar a pensar não terem sido justas as penas. Ou, em caso extremo, podermos estar perante um hipotético erro judicial. O que há, pelo menos o que parece existir, são enormes zonas de penumbra nas quais ninguém deseja penetrar. Nem o próprio condenado que tenta, que procura, neste presente, chamar a atenção pública para as suas condições prisionais. Que tenta, ou alguém por ele, apresentar-se como vítima de uma situação em relação à qual pouco tem a ver. As coisas não são, nunca foram bem assim. É para além do crime, pela prática do qual foi condenado, o assumido “Anibalzinho” saiu duas vezes da cadeia. Enquanto decorria o julgamento. E é neste aspecto que pode contribuir para esclarecer o muito que ficou por esclarecer. É no dizer quem lhe facilitou a saída da prisão. E, sobretudo, no dizer quem lhe criou a logística necessária para entrar e permanecer na África do Sul. Mais tarde, para chegar ao Canadá. Talvez, quem o sabe, a troco de algumas revelações possa passar a ter direito a banhos de sol diários. Até lá, há o direito de admitir que estamos perante um caso por encerrar.
antes e depois
Luís David
Com maiores ou menores intervalos no tempo, jornais e jornalistas recordam-nos que existe, preso, um criminoso que ficou conhecido e que se assume como “Anibalzinho”. Com reconhecida capacidade de imaginação e de pretenso realismo, procuram transportar-nos para a realidade do detido. Fazem suposições e levantam suspeitas. No mínimo, sugerem. Publicam texto manuscrito com autoria atribuída ao preso. Foi assim esta semana em pelo menos dois semanários. Que dedicaram largos espaços ao tema “Anibalzinho”. Pode ter sido simples coincidência. Como pode não. Considerando que num dos jornais o objectivo parece ter sido o de alertar, o de precaver, uma possível eliminação física do condenado. No outro, a tónica aponta mais para o drama, para o melodramático. É aqui que o preso aparece a dizer que “fui muito usado pela fraqueza de ser pobre”. E, mais, que “hoje prefiro ser fuzilado por tudo o que estou a passar e a sofrer neste comando da Policia”. Pela retórica do texto, se mais não houver, ficamos a saber que ser pobre é uma fraqueza. E que a morte é o melhor processo para eliminar o sofrimento.
Parece não ser pelo retomar periódico do assunto “Anibalzinho” que algo de novo veio a público sobre o que foi provado no julgamento do chamado “Caso Carlos Cardoso”. Sequer parece ter havido, até hoje, arrependimento dos criminosos. Muito menos revelações novas e públicas que possam levar a pensar não terem sido justas as penas. Ou, em caso extremo, podermos estar perante um hipotético erro judicial. O que há, pelo menos o que parece existir, são enormes zonas de penumbra nas quais ninguém deseja penetrar. Nem o próprio condenado que tenta, que procura, neste presente, chamar a atenção pública para as suas condições prisionais. Que tenta, ou alguém por ele, apresentar-se como vítima de uma situação em relação à qual pouco tem a ver. As coisas não são, nunca foram bem assim. É para além do crime, pela prática do qual foi condenado, o assumido “Anibalzinho” saiu duas vezes da cadeia. Enquanto decorria o julgamento. E é neste aspecto que pode contribuir para esclarecer o muito que ficou por esclarecer. É no dizer quem lhe facilitou a saída da prisão. E, sobretudo, no dizer quem lhe criou a logística necessária para entrar e permanecer na África do Sul. Mais tarde, para chegar ao Canadá. Talvez, quem o sabe, a troco de algumas revelações possa passar a ter direito a banhos de sol diários. Até lá, há o direito de admitir que estamos perante um caso por encerrar.
o retorno dos fascistas
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 20, 2007
antes e depois
Luís David
Vive o moçambicano, grande número de moçambicanos, cativo das flutuações dos preços. Pelo menos, o moçambicano urbanizado. Por motivo das importações, em razão de parte substancial do seu consumo serem produtos importados. E, importados com recurso a uma moeda cuja tendência é, maior parte das vezes, a da depreciação. Raramente, quase nunca, a da apreciação. As estatísticas, que valem o que valem, dão-nos aumentos, agravamentos insignificantes nos preços. Logo, de pouco ou nenhum significado no aumento do custo de vida. Mas, o aumento do custo de vida não é medível, não é mensurável através de dados estatísticos. Por mais sérios, honestos e credíveis que possam parecer. Que possam ser. O aumento, o agravamento do custo de vida, na prática, tem a sua última e única expressão na contabilidade doméstica. Quando cada um de nós verifica, quando cada cidadão se apercebe que com o salário do mês corrente só pode comprar menos produtos ou serviços dos que adquiriu em mês anterior. Caso contrário, caso pretenda comprar o mesmo a preço mais elevado, entra, fatalmente, num processo de endividamento. Ora, sair desta realidade, desta dependência exige, em primeiro lugar, produzir mais. Produzir mais e com menores custos de produção. Mas, sobretudo, produzir.
A partir de amanhã, segunda-feira, o pão está mais caro. O pão, como todos os sabemos, é feito com farinha de trigo. E, também como todos sabemos, o trigo, de que é feita farinha, é importado. Ao longo dos tempos, terá aumentado de custo. No exterior. Não está aqui em questão a justiça do aumento imposto por panificadores. Embora seja importante referir que se trata, na generalidade, de um aumento na ordem dos 40 por cento. Também, neste mês de Maio, a gasolina subiu de preço. O mesmo é válido para a energia eléctrica. Quer dizer, não temos solução outra que não seja comprar, hoje, menos combustível e consumir menos energia do que a que tínhamos acesso, ontem, com o mesmo dinheiro, com o mesmo vencimento, com o mesmo salário. Pior, mais grave, é o que acontece com a nova taxa de recolha de lixo. Aqui, em muitos casos, o agravamento é superior a 300 por cento. Como se o consumo de energia eléctrica fosse, em algum momento ou em alguma circunstância, directamente proporcional à produção de lixo doméstico. Não foi e não é. Para satisfação de alguns, talvez poucos, nunca o será. A justiça social, sobretudo na nossa realidade concreta, exige parâmetros de avaliação mais claros e mais objectivos. Perante esta realidade, que é a de tantos e tão significativos e profundos aumentos, fica por saber qual a percentagem de aumento que irá ter o salário mínimo. É que, mesmo sabendo que quem aufere o salário mínimo não vive nos prédios da capital, repugnam e enojam algumas afirmações dos novos colonialistas. Algumas, profundamente racistas. Como, por exemplo, a de que quem não dinheiro para viver no prédio, deve voltar para a palhota. Todos o sabemos, para os portugueses, no tempo presente, Salazar ainda existe. Foi um grande homem. Terá sido um homem bom, o maior, o salvador da pátria. Não está vivo mas vive na alma, no ser e no estar, nas recordações e nas memórias de muito saudosistas do fascismo. São estes, são estes fascistas, muitos deles antigos agentes da PIDE, que retornam. Que estão a retornar. Aparentemente, quase na realidade, estamos perante o retorno dos fascistas
antes e depois
Luís David
Vive o moçambicano, grande número de moçambicanos, cativo das flutuações dos preços. Pelo menos, o moçambicano urbanizado. Por motivo das importações, em razão de parte substancial do seu consumo serem produtos importados. E, importados com recurso a uma moeda cuja tendência é, maior parte das vezes, a da depreciação. Raramente, quase nunca, a da apreciação. As estatísticas, que valem o que valem, dão-nos aumentos, agravamentos insignificantes nos preços. Logo, de pouco ou nenhum significado no aumento do custo de vida. Mas, o aumento do custo de vida não é medível, não é mensurável através de dados estatísticos. Por mais sérios, honestos e credíveis que possam parecer. Que possam ser. O aumento, o agravamento do custo de vida, na prática, tem a sua última e única expressão na contabilidade doméstica. Quando cada um de nós verifica, quando cada cidadão se apercebe que com o salário do mês corrente só pode comprar menos produtos ou serviços dos que adquiriu em mês anterior. Caso contrário, caso pretenda comprar o mesmo a preço mais elevado, entra, fatalmente, num processo de endividamento. Ora, sair desta realidade, desta dependência exige, em primeiro lugar, produzir mais. Produzir mais e com menores custos de produção. Mas, sobretudo, produzir.
A partir de amanhã, segunda-feira, o pão está mais caro. O pão, como todos os sabemos, é feito com farinha de trigo. E, também como todos sabemos, o trigo, de que é feita farinha, é importado. Ao longo dos tempos, terá aumentado de custo. No exterior. Não está aqui em questão a justiça do aumento imposto por panificadores. Embora seja importante referir que se trata, na generalidade, de um aumento na ordem dos 40 por cento. Também, neste mês de Maio, a gasolina subiu de preço. O mesmo é válido para a energia eléctrica. Quer dizer, não temos solução outra que não seja comprar, hoje, menos combustível e consumir menos energia do que a que tínhamos acesso, ontem, com o mesmo dinheiro, com o mesmo vencimento, com o mesmo salário. Pior, mais grave, é o que acontece com a nova taxa de recolha de lixo. Aqui, em muitos casos, o agravamento é superior a 300 por cento. Como se o consumo de energia eléctrica fosse, em algum momento ou em alguma circunstância, directamente proporcional à produção de lixo doméstico. Não foi e não é. Para satisfação de alguns, talvez poucos, nunca o será. A justiça social, sobretudo na nossa realidade concreta, exige parâmetros de avaliação mais claros e mais objectivos. Perante esta realidade, que é a de tantos e tão significativos e profundos aumentos, fica por saber qual a percentagem de aumento que irá ter o salário mínimo. É que, mesmo sabendo que quem aufere o salário mínimo não vive nos prédios da capital, repugnam e enojam algumas afirmações dos novos colonialistas. Algumas, profundamente racistas. Como, por exemplo, a de que quem não dinheiro para viver no prédio, deve voltar para a palhota. Todos o sabemos, para os portugueses, no tempo presente, Salazar ainda existe. Foi um grande homem. Terá sido um homem bom, o maior, o salvador da pátria. Não está vivo mas vive na alma, no ser e no estar, nas recordações e nas memórias de muito saudosistas do fascismo. São estes, são estes fascistas, muitos deles antigos agentes da PIDE, que retornam. Que estão a retornar. Aparentemente, quase na realidade, estamos perante o retorno dos fascistas
O direito de poder pensar
Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Maio 13, 2007
antes e depois
Luís David
Hoje mesmo, nesta tarde de sexta-feira, alguém me perguntou o significado de antes e de depois. Tive dificuldade em responder. Não só tive, como tenho. Continuo a ter. Porque o que para muitos parece claro, o não é para outros. Antes, não é mais do que isso. É antes. Depois, também não é mais do que isso. É depois. Antes, é sempre o que já aconteceu. É o acontecido, é o ido. É o ido e o acontecido. Que não podemos modificar nem alterar. O depois é o futuro. Talvez o presente futuro. Mas, se por hipótese presente não é presente, havemos de nos haver entre passado e futuro. De esquecer, de ignorar, o presente. Neste contexto, nesta realidade concreta, o antes é precisamente isso. O que sabemos e o que não conhecemos do antes. O depois não pode ser diferente nem diverso. É o que somos ou parecemos ser a partir do que sabemos, ou julgamos saber, do antes. Do que foi, embora o que foi possa parecer o que não foi.. Ora, digamos, o que parece ter sido, pode não ser o que, realmente, é. Por exclusão de partes, tudo o que não é, é. Digamos, assim, que não pode haver um antes sem que lhe suceda um depois, sem que o depois tenha antecedido um antes.. Mas, cuidado. Se para haver um depois tem de haver um antes e se a existência de um antes obriga a existência de um depois, caso não exista um antes, também não haverá espaço para a existência de um depois.
Parece irrelevante repetir, hoje, as condições em que foram mortos, recentemente, três cidadãos na zona da Costa do Sol, cidade de Maputo .O que há de relevante é o de saber, é o de repetir, que foram mortos com tiros na cabeça. Disparados a curta distância. E sem possibilidade de defesa. Dos vário inquéritos mandados instaurar sobre o incidente, resultaram posições diferentes. Diversas, No concreto e em resumo, mesmo que se aceite não haver esquadrões da morte como tal, há um fenómeno que preocupa. E esse fenómeno, essa realidade, provada e confirmada, é a de haver quem tem acesso e usa armas de fogo e a viaturas com matrícula policial para matar supostos criminosos. De forma sumária. Ora, quando chegamos a este ponto, quando chegamos a um ponto que parece incontroverso, só acrescem duvidas. Acrescem mais duvidas, Só restam duvidas. E, perante a duvida, cada qual, cada um, é livre de pensar o que quiser. Pelo menos, ainda resta a cada um o direito de pensar. O direito de poder pensar.
.
antes e depois
Luís David
Hoje mesmo, nesta tarde de sexta-feira, alguém me perguntou o significado de antes e de depois. Tive dificuldade em responder. Não só tive, como tenho. Continuo a ter. Porque o que para muitos parece claro, o não é para outros. Antes, não é mais do que isso. É antes. Depois, também não é mais do que isso. É depois. Antes, é sempre o que já aconteceu. É o acontecido, é o ido. É o ido e o acontecido. Que não podemos modificar nem alterar. O depois é o futuro. Talvez o presente futuro. Mas, se por hipótese presente não é presente, havemos de nos haver entre passado e futuro. De esquecer, de ignorar, o presente. Neste contexto, nesta realidade concreta, o antes é precisamente isso. O que sabemos e o que não conhecemos do antes. O depois não pode ser diferente nem diverso. É o que somos ou parecemos ser a partir do que sabemos, ou julgamos saber, do antes. Do que foi, embora o que foi possa parecer o que não foi.. Ora, digamos, o que parece ter sido, pode não ser o que, realmente, é. Por exclusão de partes, tudo o que não é, é. Digamos, assim, que não pode haver um antes sem que lhe suceda um depois, sem que o depois tenha antecedido um antes.. Mas, cuidado. Se para haver um depois tem de haver um antes e se a existência de um antes obriga a existência de um depois, caso não exista um antes, também não haverá espaço para a existência de um depois.
Parece irrelevante repetir, hoje, as condições em que foram mortos, recentemente, três cidadãos na zona da Costa do Sol, cidade de Maputo .O que há de relevante é o de saber, é o de repetir, que foram mortos com tiros na cabeça. Disparados a curta distância. E sem possibilidade de defesa. Dos vário inquéritos mandados instaurar sobre o incidente, resultaram posições diferentes. Diversas, No concreto e em resumo, mesmo que se aceite não haver esquadrões da morte como tal, há um fenómeno que preocupa. E esse fenómeno, essa realidade, provada e confirmada, é a de haver quem tem acesso e usa armas de fogo e a viaturas com matrícula policial para matar supostos criminosos. De forma sumária. Ora, quando chegamos a este ponto, quando chegamos a um ponto que parece incontroverso, só acrescem duvidas. Acrescem mais duvidas, Só restam duvidas. E, perante a duvida, cada qual, cada um, é livre de pensar o que quiser. Pelo menos, ainda resta a cada um o direito de pensar. O direito de poder pensar.
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