domingo, setembro 30, 2007

África deve boicotar a Cimeira de Lisboa

Chamam-lhe de Cimeira África-Europa. Mas, é suposto que se realize na Europa. Mais precisamente e muito claramente em Lisboa. Caso, efectivamente, venha a realizar-se. Então e só por isso, pelo facto de pretender reunir dirigentes europeus e africanos em país europeu, deveria chamar-se de Cimeira Europa-África. Mas não. Os colonialistas decidiram pelo inverso. E tentam impor o inverso. Porque, não tenhamos ilusões, são eles quem decide. Ou pensa que decide. Ou que pensa que é quem decide melhor. O motivo que parece querer impedir o Presidente do Zimbabwé em participar na referida Cimeira, estão escondidos. Não são os da sua boa ou má governação. Não são o que ele possa ter de bom ou de mau pelos seus governados. O que está em causa, isso sim, é que paira uma ameaça sobre os interesses económicos da Coroa Britânica em terras que foram colonizadas por Cecil Rhodes. Rhodes, como todos o sabemos, deu o seu nome às terras por si usurpadas e ocupadas em nome da Coroa. E teve como projecto maior, estabelecer a ligação ferroviária entre o Cabo e o Cairo. Nunca o conseguiu, para bem ou para mal da Região. Por isso, por o não ter conseguido, ainda hoje as vias ferroviárias são o que são. Partem do interior para o mar.


A escolha do local para a realização desta chamada Cimeira África-Europa parece ser, de todo, infeliz. Por vários e variados motivos. E, o mais importante parece ser o de Portugal não ter descolonizado. Quando foi possível e se apresentava como viável descolonizar. Portugal foi obrigado a descolonizar. Depois de ter perdido a guerra em todas as frentes militares. Portugal, é bom que se fique claro, saiu derrotado, em termos militares, naquilo que eram as suas colónias da Guiné, de Angola e de Moçambique. Mas, mais e talvez pior. No mesmo período, apoiou a Guerra de Secessão no Biafra. Para o efeito fez exilar, a mando de Marcelo Caetano, Mário Soares para São Tomé. Donde era coordenado e dirigido o apoio americano aos secessionistas. Para tentar manter o poder na Guiné-Bissau, invadiu a Guine-Conacri. Estamos no tempo de Spínola, que tinha como homem de mão Alpoim Galvão. No mesmo período, transformou Savimbi em colaborador da PIDE e em informador do Exército colonial, para tentar evitar nova derrota militar. Também e igualmente, sem sucesso, em Moçambique, apoiou uma RENAMO que, a conquistar o poder seria defensora dos seus interesses colonialistas. Hoje, e em termos históricos, sabendo nós o que sabemos da história recente, parece fazer todo o sentido a posição assumida pela SADC. E, a menos que mudem os termos e as exigências sobre os participantes, faz todo o sentido que África boicote a projectada Cimeira de Lisboa. E que deixe os colonialistas em monólogo uns com os outros. Muito embora consciente de que o preço a pagar pelo boicote possa ser elevado. O que está em questão para a ida ou não ida do Presidente do Zimbabwé a Lisboa não é forma como ele governa o seu país. É a forma como ele trata os interesses económicos estrangeiros, particularmente britânicos. Para além de que, todos o sabemos, ouro, diamantes e petróleo são, desde há muito, motivo de cobiça e de guerras. São as causas de todas as guerras actuais. Nesta perspectiva, África deve boicotar a Cimeira de Lisboa.

domingo, setembro 23, 2007

Cerveja e água são negócio

Jornais, rádios e televisões, muitas vezes nos surpreendem em matéria de publicidade. Pela negativa. Naturalmente e para que não restem dúvidas. Digamos que, por vezes, talvez muitas, se nos depara aquilo a que bem se pode chamar de publicidade enganosa. Outras vezes, a publicidade será a produtos de duvidosa qualidade. Também acontece serem publicitados produtos estrangeiros numa linguagem e em termos que nada tem a ver com a realidade nacional. Ou com a cultura indígena local, se assim o permitirem que o digamos. Não se quer dizer, com o atrás dito, que a publicidade, em si própria seja má. Não. O que se está a dizer é que é bem pior do quer má. E, quando se está dizer que é pior do que má, já se poupa, já se evita o recurso ao vernáculo apropriado. Adequado. Pois, bem, o que se está a dizer, o que se está a procurar fazer entender, é que a dita publicidade deve obedecer a regras e a normas. Para que o potencial comprador possa encontrar o produto ou o serviço publicitado. Tal como foram publicitados. E não, como parece poder acontecer, como pode ter acontecido, de formas e maneiras diferentes. Para que quem se dê ao trabalho de procurar o produto ou o serviço publicitado não corra o risco de sofrer desilusão. E de ter de pagar caro. Veja-se só, quanta publicidade enganosa não anda por aí. Podemos, até, citar como mais recente aquela que foi feita pela tvcabo. Que prometeu e deu, mas que depois retirou. Sem mais. É caso para dizer, que em terra de cegos, quem tem um olho é rei. Ou para questionar, se faz sentido Moçambique ir participar na Cimeira Europa-África.


Atenho-me e atento-me, já num tempo mais recente, numa outra peça publicitária. Numa obra prima de anúncio publicitário. Obra prima, será de deixar claro, desde já, pela negativa. Trata-se, aqui, de um anúncio da Águas de Moçambique, que insulta quem comprou a última edição do “Magazine” (19 de Setembro de 2007), quem gosta de beber cerveja nacional e quem paga, pontualmente, a água que consome. Perguntam os senhores a quem, para nossa desdita e má sorte, foi atribuído o direito de fazerem chegar a água a nossas casas, se Sabia que? E, o anúncio, matreco e saloio, em estilo copofónico, dá a resposta. Diz, em legenda sobre quatro garrafas, que 2,5 litros de cerveja custam 125, 00 Mt. Em outras legenda, sobre uns tantos jerricans de plástico, afirma que 10.000 Litros de Água, seu consumo mínimo mensal, custam 120.00 Mt. E, apela de forma carinhosa, infantil e burrical: Pague a sua factura de água, contribuindo assim para a melhoria do serviço. Claro que sim. Mesmo que seja impossível deixar de reconhecer que a melhoria do serviço não se compadece com a exigência de comprovativos de pagamento. Nas tardes de sexta-feira. E de dívidas que nunca existiram. Aquilino Ribeiro, cujos restos mortais repousam desde há poucos dias no Panteão Nacional, em Lisboa, fez da literatura uma causa. E da sua causa uma luta. E não lutou, com toda a certeza, para que estes pedaços de asno, exportados para Moçambique, para aqui fossem enviados com a missão confundir cerveja com água. Sejamos claros: Em Moçambique, cerveja é cerveja, água é água. Cerveja e água são negócio.

domingo, setembro 16, 2007

ter coragem para transformar o colonialismo em passado

Parece incontroverso, que contra factos não há argumentos. E, os factos são que a RENAMO possui homens armados em Marínguè. Ninguém o desmente, todos o confirmam. E, confirmam quando justificam ou tentam justificar a razão para a sua existência. Ora, à partida, estamos perante uma razão sem razão. E, uma razão sem razão é uma razão que não existe. É, em princípio, a negação da razão. Ora, vejamos o que se diz e escreve sobre o acontecido, recentemente, em Marínguè. Para o “Zambeze”, a confusão começou quando um grupo de militares da segurança da Renamo decidiu sair à rua armados e devidamente fardados, numa operação de patrulha nalgumas das artérias da vila, começando pela pista do aeródromo local e a zona onde se encontra instalada a sede distrital da Renamo naquele distrito (...). Por sua vez, o “Savana” cita o secretário - geral da Renamo a reconhecer a existência de homens armados da RENAMO na vila de Marínguè, mas justificou a sua presença com a necessidade de proteger infra-estruturas do partido. Mais escreve, que Mamade revelou que a RENAMO possui um efectivo de 20 mil homens na reserva que poderão ser mobilizados caso o partido seja provocado. Ora, até aqui e desde já, pelo menos duas conclusões podem ser tiradas. A primeira, é a de que a RENAMO, efectivamente, tem e está a utilizar homens armados e fardados com determinados objectivos. Seus. Partidários. A segunda, é de possuindo 20 mil reservistas que podem ser mobilizados caso possa ser provocada, significa exactamente isso. Significa que se esses reservistas não foram mobilizados foi pelo simples facto de ninguém ter provocado a RENAMO. Para além da dúvida sobre a capacidade em mobilizar 20 homens armados. Uma leitura do livro do general Xisto Pereira, chefe de um dos muitos serviços secretos portugueses, sobre o apoio de Portugal à RENAMO durante a chamada guerra dos 16 anos, aconselha alguma prudência nos números.


Durante alguns anos, após a assinatura dos Acordos de Roma, predominou a tese de que a RENAMO teria muitas dificuldades em transformar-se em partido político. Em abandonar as armas, em definitivo. A realidade e os acontecimentos mais recente, provam exactamente que assim é. Que estamos, ainda, perante um movimento armado e não perante um partido político. Perante um movimento que continua a procurar defender as suas ideias e os seus ideais através dos fuzis. Ora, levanta-se aqui já uma outra questão. E esta já não se situa no campo na razão. Talvez possa e deva situar-se no campo da Lógica. Mas, também, do Direito. E a questão que se levanta, é a de procurar resposta para saber como um membro do Conselho de Estado tem capacidade para mobilizar 20 homens. Que a serem mobilizados não o serão, em momento nenhum, para defender interesses do Estado. Há, acreditamos que haja, no meio de todos estes percursos sinuosos, em todas estas curvas e transgressões, motivos mais do que suficientes para se repensar sobre o que se pretende com a realização da Cimeira Europa-África. É que seja muito, seja pouco, seja nada, a participação de Moçambique deve ter como condição a retirada de apoios a uma RENAMO armada. E o retornar dos antigos agentes da PIDE para aqui progressivamente, enviados. É necessário, sobretudo, ter coragem para transformar o colonialismo em passado.

domingo, setembro 02, 2007

Os desafios são muitos e constituem desafio à imaginação moçambicana

Reitores das Universidades públicas da Região Austral de África estiveram, esta semana, reunidos em Maputo. E terão definido o desenvolvimento da agricultura e o desenvolvimento das zonas rurais como uma das prioridades dos currículos de ensino e aprendizagem. A definição, em princípio e até prova em contrário, não poderia ter sido mais justa, mais clara, nem mais correcta. Mas, e parece ser essa a questão de fundo, não basta formar. Torna-se necessário levar os formados para o campo, para os distritos. Torna-se necessário que os formados em técnicas agrícolas, pecuárias, silvicultoras não sejam colocados em gabinetes nas cidades. E, em simultâneo que, quando colocados no campo, lhes sejam proporcionados meios de investigação. E, meios para que, os resultados desta, possam, efectivamente, beneficiar o camponês. A introdução da semente melhorada é, na generalidade, um primeiro e importante passo para o aumento da produção agrícola. Mas, não será o único nem o decisivo. Não menos importante, parece ser o trabalho que conduza à eliminação do uso da enxada de cabo curto. E á introdução de meios tecnológicos de produção agrícola mais modernos. Logo, que permitam ao camponês gastar menos energias na sua produção. De outra forma, produzir mais e melhor com o mesmo gasto de energia. Humana. Sem perder de vista que a proibição de sementes genéticas é condição essencial para eliminar o ciclo da perpetuação da pobreza. Como todos sabemos, a semente genética tem um único ciclo de vegetação. E o camponês a quem seja fornecida hoje semente genética, necessita de semente genética para produzir na próxima campanha. O mesmo é dizer que caiu no ciclo infernal de dependência das multinacionais. E que, no próximo ano, só poderá produzir com nova semente. Obrigatoriamente importada. Vinda do estrangeiro.


A produção de riqueza nacional, ou, dito de forma diferente e por oposição ao chamado combate à pobreza, pode ter de passar por estratégias diferentes. E, em definitivo, deve passar. Primeiro, parece necessário criar oposição à concepção fundamentalista dominante, imposta do exterior, sobre trabalho de menores, conservação da natureza e ecologia. E, incentivar o camponês a produzir a galinha, o pato, o coelho, o cabrito. Mas, também, e sem receio, a caçar a gazela, o chango, o cabrito bravo, a galinha do mato, o javali, o porco preto. Para melhoria da sua dieta alimentar e para a comercialização. Como fonte de rendimento. Da mesma forma, parece útil e necessário, fundamentalmente e sobretudo, garantir condições para a conservação da produção nacional e a sua transferência. Dos locais de produção para os centros de consumo. Quer no país, quer no estrangeiro. Os desafios são muitos e constituem desafio à imaginação moçambicana.

domingo, agosto 26, 2007

como pode defender-se o cidadão comum

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Agosto 26, 2007

antes e depois

Luís David


As palavras valem pelo que valem. Mas, também valem por quem as pronuncia. Assim, por exemplo, uma palavra, uma frase, pronunciada por um agente da Polícia, tem um valor. A mesma palavra, a mesma frase pronunciada por um comandante ou por um director nacional da Polícia, tem outro peso. Pode ter outro valor, outro significado. Ora, depois de tempos e de tempos, de anos e de anos a dizer-se que a Polícia tinha falta de meios para combater o crime, este argumento acaba de ser derrubado. Acaba de ser deitado por terra. Acaba de perder toda a sua consistência. É que na sua edição da última sexta-feira, titula o jornal “Notícias” (página 2), que “Para o combate à criminalidade – Problema da Polícia não é falta de meios”. E atribui a afirmação a Bazílio Monteiro, director nacional da Ordem no Comando-Geral da PRM, para quem se pode fazer melhor com o que existe. Naturalmente, vinda de quem vem, a afirmação tem o peso e o valor que tem. E que, convenhamos, é muito.

No texto em referência, pode ler-se, a determinado passo que “Mesmo admitindo que a Polícia enfrenta sérios problemas de meios operacionais, Bazílio Monteiro explica que se pode fazer algo melhor para combater o mal que grassa o nosso país. Para ele, urge capitalizar as capacidades humanas existentes por forma a trazer vantagens comparativas ao défice, acreditando no verdadeiro Homem-polícia que, a todo o custo deve se sentir com motivação recuperada”. Noutra passagem, depois de se falar sobre as preocupações causadas pelo crime nas cidades de Maputo e Matola, diz-se que “Aliás, as hierarquias do Ministério do Interior e do Comando-Geral da PRM, apesar de aconselharem as pessoas a manterem-se calmas e atentas a qualquer movimento de indivíduos estranhos, reconhecem que muito ainda há por fazer para combater não só a criminalidade, mas também os circuitos que deixam escapar informações de operações de natureza complexa esboçadas pela corporação.” Quer dizer, se ainda existe lógica, se a lógica ainda tem lógica, em vez de um, passou a haver dois combates a travar. Por, simplesmente, ter passado a haver dois tipos de inimigos públicos. O primeiro, será o ladrão, o salteador, o assaltante, o criminoso armado. O segundo, mas não necessariamente por esta ordem por a ordem poder ser invertida, são os circuitos que deixam escapar informações de operações de natureza complexa esboçadas pela corporação. Quer dizer, ou pode permitir concluir-se, a Polícia está infiltrada. O que parece, também, não ser segredo nem novidade. Isto, sem rodeios e por palavras claras. De resto, crime, negócios ilegais, empresas de fachada, receptadores de bens roubados vai, segundo as más línguas de café, muito para além dos vendedores de esquina e do chamado comércio informal. A questão que fica por saber é a de como pode defender-se o cidadão comum.

domingo, agosto 19, 2007

para evitar mais pressões e intervenções externas

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Agosto 19, 2007

antes e depois

Luís David


Vivemos, desde há alguns anos, em democracia. Vivemos num sistema político, ao qual se convencionou chamar democracia. Que não sendo, naturalmente, um sistema perfeito, é o melhor de todos os sistemas conhecidos. Assim a definiu um ilustre estadista europeu. Por palavras diferentes e há muitas décadas. Ora, a nossa jovem democracia é isso mesmo. É jovem. Mas, para além de ser jovem e novata, está a crescer e a procurar firmar-se num Estado também jovem. Ainda não consolidado. Num Estado que é o que é. Num estado que, não custa admitir, tem mais de valores, de vontades e de imposições externas do de quereres e de vontades internas. Num Estado que se procura impor como modelo, para consumo externo. Mesmo quando esse Estado possa estar a afastar e a afastar-se dos fundamentos básicos da Nação. Da criação da Nação e da consolidação da Nação moçambicana. No que ela necessita para se afirmar, para se firmar e para se poder impor. Ora, a tudo isto e, certamente a bem mais, se ajunta o facto de a nossa democracia, assim como a conhecemos e assim com a temos, apenas ter pai. Apenas ter quem se afirma como pai. E que, até hoje, nunca revelou quem é a mãe. A nossa democracia é, assim, uma democracia de pai assumido e de mãe desconhecida. Pode, pois e muito bem, não passar de uma democracia enjeitada.


O tempo parece passar rápido. Os anos somam-se aos anos. Completam décadas. De um passado recente. De um passado de partido único que, alguns preferem evitar recordar e, outros, pior, não assumir. Nesse passado recente, houve um determinado período de tempo em que Moçambique, talvez mais em particular Maputo, viveu situações anormais. Da análise do que se estava a passar resultou a publicação de um panfleto, talvez de uma brochura, como lhe queiram chamar, a que terá sido dado o título “Como Age o Inimigo”. O boato, a sabotagem, a destruição de bens públicos e privados, os assaltos com recurso a armas de fogo, retornaram. Talvez, com uma ou duas inovações. Como seja o assassinato de agentes da Polícia e a prova da inutilidade, da ineficiência e da ineficácia das empresas de segurança privada. Perante a realidades dos últimos assaltos a instituições privadas, perante os últimos actos de violência criminal, parece necessário fazer alguma reflexão. Profunda. Pelo menos, assim o aconselho o bom senso. E, mais, tornar público o resultado dessa reflexão. Impõe-se, sobretudo, que haja a coragem para se dizer, antes de Dezembro próximo, se o que está a acontecer são simples actos de pura ladroagem. Se são meros actos de criminosos internos. Ou se não. Se pelo contrário, estamos perante acções ou operações concertadas com apoio externo. Com o objectivo de criar uma situação de desgoverno. Moçambique, os moçambicanos, tem suficiente capacidade para uma análise do que se está a passar. Do que está a acontecer. Independentemente de opções partidárias. Em última análise, para evitar mais pressões e intervenções externas.

domingo, agosto 12, 2007

É obrigatório que isso não venha a acontecer

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Agosto 12, 2007

antes e depois

Luís David


Gostava de poder ter vivido no tempo em que se diz que os animais falavam. Haverão de ter sido tempos maravilhosos para viver. Tempos de diálogo. Tempos de compreensão. Tempos de entendimento e, também, de desentendimento. Mas, tempos em que todos falavam. Pelo menos, tempos em que todos podiam falar. Agora, no hoje, neste tempo nosso, neste tempo de nós, no tempo actual, tudo parece meio diferente. Já só falem os homens. Os animais, esses, é verdade, continuam com o direito de poder pensar. Mas, já não podem falar. Foi-lhes retirado o direito de falar. Compreende-se porquê e porquê assim. É que constitui um grande risco, nos bons tempos que correm, permitir que os animais falem. Que os animais continuem a falar. Constitui um grande risco dar a palavra aqueles que pensam. Assim, pensaram os senhores do mando, é preferível tirar a palavra aos que pensam. Aos animais e aos sábios. Também aos doutos e aos sages. Silenciados uns, calados outros, impedidos de expressarem e seu conhecimento mais alguns e a sua experiência outros, ficou aberto o campo para o avançar da ignorância e da incompetência. Também da intolerância, da maledicência e da maldade. Mas pior, o pior de tudo, é tentar colocar a ambição pessoal acima dos interesses colectivos. Sociais. Nacionais. Pergunte-se, então, se Estaline terá sido pior ou melhor do que Hitler. A resposta, pode ser irrelevante. Ambos estão situados entre os maiores criminosos dos tempos modernos. A história assim o regista, de forma com poucas possibilidades de desmentido.


Ontem, quinta-feira, cerca das 20 horas, a calma, em muitas residências da zona alta de Maputo, foi interrompida por tiroteio. Soube, mais tarde, que dois polícias haviam sido barbaramente assassinados e um terceiro ferido. Por bandidos armados. Na noite anterior, na cidade da Beira, dois camiões, que rebocaram tanques com combustível, foram incendiados. Mais antes, dias antes, um polícia, desses alcunhados de municipais, que dizem ter disparado inadvertidamente a sua arma, feriu cinco pessoas. Que nada tinham a ver com nada. Que eram simples transeuntes. E que tiveram, simplesmente, o azar de estar no local e no momento errado. Onde, por mero acaso ou não, estava, também, um polícia errado. Ao que se diz, como sempre, para retirar esses inconvenientes vendedores de esquina. Esses pés descalços que ocupam espaços que, em outras áreas da cidade, são concedidos a bancos e a restantes de luxo. Mais inquérito menos inquérito, o que se sabe, até hoje, é nada. Aqui, entre nós, os inquéritos são simples falácia. De resto, também assim aconteceu, também assim sempre o foram, nos tempos de Hitler e de Estaline. O problema do pobre em Moçambique é, simplesmente o de ser pobre. E daí, o de ter de esperar até Dezembro, para ver eliminada a criminalidade. Até lá, até esse Dezembro próximo, muita gente empenhada no combate ao crime poderá vir a perder a vida. É obrigatório que isso não venha a acontecer.

domingo, agosto 05, 2007

Explosivos não se transportam como batata ou tomate

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Agosto 5, 2007

antes e depois

Luís David

É bem provável que os anos de sacrifício consentidos para conquistar a independência, tenha marcado muitos homens e mulheres. De forma profunda e para todo o tempo das suas vidas. Depois, a guerra chamadas dos 16 anos, poderá ter deixado outros e outras, quando não os mesmos e as mesmas, insensíveis à morte. Ou ao risco e à aventura de viver. Porque viver sob permanente ameaça de morte é, de facto, um risco e uma aventura. Mais. O contacto diário com a morte, embora de outros, pode imunizar muitos perante a morte. O perigo da morte. Pode, até, retirar significado e sentido ao conceito de morte. Em último caso, pode travestir ou ter travestido o sentido de morte. Nos mais diversos planos e aos mais diferentes níveis. Desde o ético ao moral, passando pelo religioso. Do mítico ao psicológico. Do colectivo ao pessoal. Morrer e ver morrer, sofrer para morrer e ver sofrer para morrer, deixa de ser excepção. Condenável. Poderá ter passado a ser, poderá ter sido, em diferentes momentos e em diversos locais, simples regra. Em muitas circunstâncias e de forma consciente ou resíduo do subconsciente, a morte poderá ter deixado de ter valor. Ou, melhor, a vida. A vida poderá ter deixado de ter valor, perante a banalização da morte.


As explosões no Paiol de Malhazine, provocaram o número de mortes, de feridos e de estropiados que todos conhecemos. A destruição de engenhos que não haviam explodido, provocou mais mortes na Moamba. Fala-se, repete-se, tratar-se de explosivos obsoletos. Como se o facto de serem obsoletos, por si só, signifique não estarem activos. Não poderem explodir a qualquer momento. Como aconteceu, mais recentemente, na Base Aérea de Mavalane. Ora, sendo de excluir, à partida, ter sido uma acto suicida, parece pertinente colocar algumas questões. A primeira, é o motivo pelo qual a viatura não terá sido abastecida antes de ser carregada com os explosivos. A segunda, é o motivo pelo qual o transporte não foi feito durante a noite. Com uma temperatura mais baixa e menor movimento nas estradas. A terceira, é se, de facto, o responsável pela operação de destruição dos engenhos, ditos obsoletos, seguia ou não noutra viatura a acompanhar as que transportavam as dez toneladas de material a destruir. Claramente, como cidadãos, conforta-nos pouco saber que se está a trabalhar nas condições possíveis. Aliás, preocupa-nos demasiado O transporte e destruição de material explosivo exige e impõe que se trabalhe nas condições ideais. Nunca nas possíveis. E, digamo-lo claramente, esse é um dever e uma obrigação do Estado. Se agora, se esta explosão de uma viatura no Aeroporto de Mavalane custou meia dúzia de feridos, é preciso evitar que possa haver outra que venha a provocar mais feridos e mais mortes. Para tanto, é obrigação transformar aquilo que, de maneira alegórica, se define como condições possíveis em condições totais de segurança. Para o cidadão. Explosivos não se transportam como batata ou tomate.

segunda-feira, julho 30, 2007

caça às bruxas

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Julho 29, 2007

antes e depois

Luís David

Há quem diz que o Desporto é uma escola de virtudes. Mas, pode ser um dito falso. Uma afirmação não verdadeira. Pode não passar de uma vontade. De um desejo. De uma crença. De um mito. O Desporto tem, isso sim, virtudes. Quando praticado dentro de certas normas. Quando praticado de acordo com valores éticos e morais de consenso, com base em regras aceites em comum. Ora, quando surge alguém a violar essas regras ou regulamentos para obter vantagens ou benefícios pessoais, o Desporto perde muita da virtude que se lhe pretende atribuir. Quando a vitória é procurada por meios ilícitos, deixou o Desporto de ter qualquer virtude. Quando alguém tenta aumentar a sua resistência física natural por processos artificiais, o Desporto é o primeiro derrotado. Quando alguém tenta, seja de que forma for, alterar a sua idade ou peso, para poder competir e tentar vencer os com menor idade ou com mais ou menos peso, o Desporto está doente. Neste caso, parece urgente fazer uma radiografia e alguns exames médicos. Não ao Desporto, como parece evidente. Mas a quantos tentam, por métodos e processos fraudulentos, chegar à vitória. Para que a ética e a moral, numa palavra a verdade desportiva não seja derrotada.


Digamos, sem receio de erro, que a realização dos Jogos Desportivos Escolares é uma boa iniciativa. Uma iniciativa feliz. Que permite a competição desportiva em diferentes modalidades e entre jovens de todo o país. Que permite um intercâmbio cultural entre jovens do todo nacional. Que proporciona uns tantos dias de convívio entre rapazes e raparigas, habitualmente, separados por milhares de quilómetros. E que, mais do que conquistar medalhas, talvez a grande vitória esteja na permuta de ideias, de pensamentos, de desejos, de ambições. Se assim, se o objectivo a atingir com os Jogos Desportivos Escolares vai para além da vitória provincial no campo meramente desportivo, algo está errado. Algo tem estado errado, algo pode estar errado na preparação psicológica desses jovens atletas, desses jovens competidores. É que eles podem, muito bem, estar, simplesmente, a ser preparados para serem, apenas, vencedores. Não para saberem aceitar a derrota, não para serem vencidos dignos. Tudo o que se diga ou possa vir a dizer, em nada justifica os casos de falsificação de idades. Verificados nestes Jogos de Quelimane. Menos ainda, as cenas de apedrejamento. De adeptos de vencidos, contra vencedores. Para além do elevado número de doenças diagnosticadas. Que, sem dúvida, afectarem o nível competitivo e de intercâmbio. Ora, a realidade parece indicar que estamos perante um tempo de parar para pensar. E, mais do que pensar, repensar todo o modelo de organização actual dos Jogos Desportivos Escolares. Parece fazer pouco sentido anunciar, hoje, punições severas para jovens falsificadores de idades quando, ontem, se lhes pedia vitórias sem condições. Vitórias a qualquer preço. É tempo de criar mecanismos para fazer respeitar os valores morais e éticos em que, pensamos, pensa quem tem o poder do mando, dever assentar o desporto nacional. Enquanto não, podemos estar apenas perante um processo diabólico. Um processo que, em boa gíria, se chama de caça às bruxas.

domingo, julho 22, 2007

pensar mais com a cabeça e menos com o coração

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Julho 22, 2007

antes e depois

Luís David

Parece não ser passível de desmentido o poder da televisão. O poder e a influência que a televisão exerce e que tem no comportamento dos cidadãos. Ou, se melhor se preferir, as televisões. Tudo quanto seja televisão. É que as televisões levam até nossa casa tudo o que é bom. Mas, cuidado, também levam tudo o que é mau. Sendo que, deixemos, desde já o aviso, nada é bom nem mau em absoluto. Num outro plano, as imagens de televisão, vistas como as vemos, podem ser reais. O que nunca são é totais e, muito menos, objectivas. Elas são, em última análise, produto de decisão de um qualquer sujeito. Logo, naturalmente, subjectivas. Sem mais delongas mas para se poder perceber o poder e a influência das imagens de televisão no nosso comportamento, vale a pena uma breve narrativa. A história é verdadeira e aconteceu passam muitos anos. Aconteceu que uma transportadora de passageiros nacional, operando no sul de Moçambique, era periodicamente, alvo de rasgados elogios em tudo quanto fosse jornal nacional. De um momento para o outro, o elogio deu lugar às críticas mais violentas. Interrogado, certo dia, um dos proprietário da empresa em questão sobre o que se estava a passar, respondeu que, simplesmente nada. Acrescentou que a razão e a culpa dessas críticas era da televisão. De facto, a RTP Internacional havia começado a transmitir para Moçambique. E, as imagens que dava dos autocarros que circulavam em Portugal era outra e diferentes dos autocarros que circulavam nas nossas estradas. Logo, e em, boa lógica, o desejo de ter por cá a qualidade do transporte colectivo de passageiros que existia lá, era “culpa” da televisão.


Escrevia o jornal “Notícias”, na segunda-feira que passou, com grande destaque: Formação de polícias vai triplicar no país. E, acrescentava estar Prevista a abertura de mais duas escolas no centro e norte, bem como a incorporação de desmobilizados das FADM. Ora, naturalmente que sim, naturalmente que perante o avanço da criminalidade, a notícia pretende tranquilizar o cidadão. Só que a formação de polícias não é feita de hoje para amanhã. E, pior, o desenvolvimento da notícia deixa claro que um dos centros de formação precisa ser reabilitado. Logo, precisa de financiamento. Quanto ao segundo, o local para a sua construção está ainda por identificar. Logo, e em boa lógica, a formação de polícias, saídos destes dois hipotéticos centros de formação, será uma questão de anos. De muitos anos. Depois, não deixa de ser útil colocar a questão de saber se a questão de fundo da Polícia é uma questão de números, de efectivos. Ou, pelo invés, de preparação e de especialização. E, até prova em contrário, é. Neste campo, seria de todo útil avaliar os resultados da cooperação com a Espanha. Ou, muito claramente, saber os motivos pelos quais essa cooperação e essa tentativa de formação não deu os resultados previstos. Depois, não perder de vista a rapidez com que a notícia do crime praticado em Maputo chega a todo o país. E, também, a forma como o crime praticado noutros países nos chega a casa. Muito por hipótese, admitir que as televisões podem estar a constituir escola e ensinamento de como praticar o crime. Perante polícias paradas no tempo. Desactualizadas. Desatentas. Hoje, o combate ao crime pede mais do que números. Mais do que efectivos. Pede uma estratégia clara. Indica ser necessário pensar mais com a cabeça e menos com o coração.