domingo, dezembro 09, 2007

brincadeiras perigosas

Com frequência, ficamos a saber, através de diferentes órgãos de Informação, de fugas de presos das mais diversas cadeias. Ou da captura dos fugitivos. Fugitivos que, em muitos dos casos, há quem diga serem perigosos cadastrados. Logo, quando a Polícia captura um desses fugitivos, não capturou um pilantra, um ladrão de galinhas ou um sacador de telemóveis. Capturo um perigoso cadastrado. E, o atributivo, ou se assim se quiser, o adjectivo, em primeiro lugar dá jeito à Polícia. Afinal, ela, Polícia, sem ou com poucos meios, tem saberes e conheceres, tem artes e manhas para capturar prisioneiros fugitivos. E, estes sabem, também, que quando capturados adquirem e passam a ter novo estatuto. Perante a população prisional e perante a sociedade civil. Passam a figurar como perigosos cadastrados. Mesmo que, antes, nunca o tenham sido. Então, fica a dúvida. Fica a dúvida sobre se muitas das histórias rocambolescas, que têm direito a letra de Imprensa, servem para mais do que à criação de mitos. Ou de falsos heróis. Seja do herói bandido ou do bandido herói. Que em última análise vence o polícia. Símbolo e representante da Lei, da Ordem, do Poder e do Estado.


Conhecemos e sabemos das fragilidades do nosso sistema prisional E do sistema de Justiça. Que não julga com celeridade nem com rapidez. Acontece que, para além destes aí pouco ou nada sabemos. Mas, é, afigura-se importante saber. Para não termos de continuar a ser confrontados que versões de sucedidos que sequer convencem crianças do ensino primário. Por exemplo, quando se diz que “Anibalzinho” não aderiu ao plano de fuga do tal perigoso cadastrado, agora capturado, temos de saber o que se pretende dizer e o que se pretende encobrir. Teremos de saber, com clareza, se quem manda nas Cadeias são os criminosos os polícias. E, se estes têm poderes discricionários para deixar sair uns e matar outros. Ou em última hipótese, ambos os poderes. Se a fuga deste tal de “Todinho” ainda está envolta em mistérios, a sua captura não deixa de o estar menos. E, pode, até, sugerir, pelos relatos da Imprensa, que tenha estado a funcionar como agente “duplo”. Sendo que, ao ter falhado no plano para libertar “Anibalzinho”, tenha regressado à cela donde não devia ter sido. Donde devia ter evitado sair. A realidade dos factos, parece apontar para uma realidade inequívoca. Que é a de agora prendo eu, amanhã solta tu. Sendo que o inverso contem a mesma verdade: Agora solto eu, amanhã prendes tu. Haja por bem entender-se que o exercício do poder não se compadece com qualquer género de brincadeira. Sobretudo, com estas brincadeiras perigosas.

domingo, dezembro 02, 2007

uma festa exclusivamente moçambicana

Um pouco por todo o país, o dia da última terça-feira foi dia de festa. De alegria. Houve quem tivesse classificado este 26 de Novembro como dia da segunda independência. Para além da carga emotiva que a afirmação possa conter ou da diferente perspectiva de quem opina, foi, sem dúvida, um dia muito especial para Moçambique. Por constituir um marco importante na história política e económica do país. Haja, embora, quem ainda pensa e continue a afirmar que a HCB não é do Estado moçambicano mas, sim, dos financeiros estrangeiros. Um pensar errado, que o Presidente da República terá, uma vez mais, corrigido a partir do Songo. Com efeito, foi a vila do Songo que acolheu as cerimónias principais que assinalaram, publicamente, a reversão irreversível da posse da Barragem por parte de Moçambique. Dada a importância da cerimónia, ali se fizeram presentes várias individualidades africanas, que se misturaram com o povo local e assistiram a muito cantar e a muito dançar. A muita alegria. Uma alegria nacional e moçambicana.


A reversão, definitiva, da Barragem de Cahora Bassa para o controlo do Estado moçambicano, poderá ter tido dois aspectos negativos. Duas grandes falhas. O primeiro aspecto negativo poderá ter sido o de a tolerância de ponto no dia da festa realizada na vila do Songo, ter abrangido apenas a província de Tete. Em nossa modesta opinião, o país inteiro merecia ter tido tolerância de ponto para poder assistir à cerimónia, à festa do Songo. Através da televisão, como parece óbvio. Mas, como se soube e dado que tal tolerância não foi declarada, houve o recurso a soluções locais. Marcha de apoio aqui e ali, mais concentração acolá, Governador de província a convidar governados para pavilhão desportivo. E, assim, poderem estar, sem terem estado, no Songo. O segundo aspecto, a segunda grande falha negativa, situa-se no nível da delegação de Portugal. Que, ao que se diz e devido ao arrastamento nas negociações, em Maputo, sequer se deslocou ao Songo. Ou, se de facto ali se deslocou, terá passado desapercebida. Digamos, mesmo, não terá sido notada. Que terá sido ignorada. E, dada a importância do acontecimento, o caso não era para menos. Perante esta realidade, perante a realidade, concreta e objectiva, Portugal terá perdido a última oportunidade de descolonizar com dignidade. Portugal perdeu, em concreto e em definitivo, a possibilidade de afirmar que tendo colonizado mal, podia descolonizar bem. E, assim, passar a figurar na História mundial. Mas, tal não aconteceu. E, não tendo acontecido já não existe tempo para que possa vir a acontecer. Assim, a festa no Songo, neste último 27 de Novembro, ficará registada na história como uma festa exclusivamente moçambicana.

domingo, novembro 25, 2007

uma aliança espúria

É Moçambique um país de muitas e de múltiplas carências. Daí o recurso ao donativo e à oferta externa para tentar reduzir a diferença entre o que possuímos e entre o que necessitamos. Por vezes, e também, à solidariedade interna. Como aconteceu, recentemente, aquando das explosões do Paiol de Maputo. Naturalmente, perante estas e outras situações reais, como diz o ditado, “quem dá o que pode a mais não é obrigado”. Até aqui, parece estarmos de acordo. Mas, dar o que se pode, dar o que se pode dar, nem sempre significa dar o que pode ser útil e necessário a quem recebe. Ora, parece ter sido o que aconteceu com o recente donativo da Câmara do Porto (Portugal) à Cidade da Beira. É que entre os diversos artigos da oferta, constava uma camião para a recolha do lixo. Mas, um camião já cansado para não dizer velho. Tinha 25 anos de uso, de utilização. E, aqui, cabe perguntar para que serve um camião com 25 anos de uso. Certamente, para nada. Ou, em última hipótese para criar novos problemas ou para ser vendido para a sucata. Ora, se assim pensou o Presidente do Conselho Municipal da Beira, cidade a quem se destinava a oferta, pensou bem. Nem poderia ter pensado melhor. E, se pensou bem, melhor agiu. Ao recusar receber a oferta. Em último lugar, poderá ter criado um facto político. Nada mais do que isso. A não ser o de ter contribuído para o anedotário tuga.


Muito já foi dito e escrito sobre as cadeias nacionais. Na generalidade, em defesa dos reclusos e das más condições prisionais. Em outros casos, sobre a ilegalidade de muitos dos detidos. E, parece bom, parece positiva esta tomada de posição, esta tomada de consciência. Sobre a necessidade de mudar, sobre a necessidade de alterar o que mal está. Fica a dúvida se tal, se tal posicionamento, encontra confirmação prática. É que, recentemente, surgiu um fenómeno novo e curioso. Estamos a referir o facto de se levar equipas de futebol federado para disputar jogos de futebol com reclusos no interior da B.O. O que, em si, até pode ser bom e positivo. Para alguns reclusos. Mas o que já parece menos bom, é que estes jogos de futebol estejam a ter uma cobertura jornalística que, em nada justificam. Mais, que até pode ser condenável. Em termos de Ética. E é. Não se percebe, muito menos se entende, como algumas equipas prestigiadas se prestam a este tipo de jogos. A estas futeboladas. Como não se percebe como, a coberto destes jogos, condenados a pena maior apareçam como vedetas em páginas de muito jornal da praça. Com direito a entrevista. Acompanhada de foto. Para dizerem e, vejam só, para elogiarem a forma como são tratados na prisão. De facto, algumas equipas do futebol estão no bom caminho. Estão a contribuir para que, condenados em Tribunal, manifestem a sua opinião, sobre as condições do cárcere. E, mais, sobre a justiça da pena que lhes foi aplicada. Que a nossa Justiça é deficiente, é público e assumido. Que o futebol nacional não passa de medíocre, não vê quem não quer ver. Agora, esta aliança entre sistema prisional e equipas de futebol, é uma aliança estranha. E não é normal. Digamos, trata-se de uma aliança espúria.

domingo, novembro 18, 2007

O último colonizador a abandonar África

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Novembro 18, 2007
antes e depois

Luís David

Desde sempre e até aos nossos dias, as técnicas de combate à guerrilha parecem ter-se saldado por insucessos. Na generalidade. Parece não haver registo nem memória de um exército convencional ter vencido uma insurreição com apoio popular. Também terá sido assim em Moçambique. Mas, influenciado pelas teorias norte-americanas da época, Kaulza de Arriaga pensava diferente. E, pensava errado. Mas, também pensava mal. Sendo que pensar errado e pensar mal são coisas diferentes e bem diversas. Pensava o mentor e executor da operação “Nó Górdio” que, quanto mais se avançava para o norte da Europa, mais os homens eram inteligentes. Maior era o coeficiente de inteligência dos homens. E, se assim pensava, assim o disse e assim o escreveu o general. Sem receio de que lhe chamassem racista ou fascista, defendeu o general que os nórdicos eram mais inteligentes que os restantes povos europeus. O estrafega militar português, habitual frequentador de cursos de altos estudos militares nos Estados Unidos, entre os muitos erros que cometeu, existe um que lhe poderá ter sido fatal. Terá sido o do factor tempo. De facto, Kaúlza não terá contado, na sua estratégia militar, com o tempo necessário para ver concluída a construção da Barragem de Cahora Bassa. Muito menos para a construção das restantes seis barragens, até ao mar. E, menos ainda, com o tempo necessário para a fixação de um milhão de colonos portugueses no Vale do Zambeze. E, assim, impedir o avanço da guerrilha para sul. Para não ferir susceptibilidades, digamos, apenas, que Kaúlza de Arriaga estava atrasado no tempo. Embora apenas algumas décadas, mas estava.


Mais de trinta e dois anos depois de Moçambique ter feito arrear e de ter procedido à entrega, formal, à potência colonial da sua última bandeira nacional, vai acontecer cerimonial com significado idêntico. Vai acontecer Moçambique assumir, definitivamente, o controlo de Cahora Bassa. Para trás, fica, naturalmente, um longo e sinuoso percurso. Como fica, também, a percepção de que sendo Portugal a parte mais interessada no normal funcionamento da Barragem e no regular fornecimento de energia à África do Sul, foi, de forma inequívoca, o principal responsável pela destruição de cerca de mil torres. E pela interrupção de uma fonte de receita que interessava mais a si do que a terceiros. A história de Cahora Bassa, é uma história que pode ser escrita hoje, amanhã, depois de amanhã. Não é uma história que, para ser escrita, necessite da abertura de arquivos secretos. Dentro de dias, como se anuncia, quando aí vier o Primeiro Ministro de Portugal, para assistir à passagem da gestão de Cahora Bassa para Moçambique, pede-se lhe uma coisa muito simples. Pede-se lhe, apenas, que assuma a derrota de Portugal em Alcácer Quibir. E que diga que dom Sebastião haverá nunca mais de voltar. Que o sebastianismo é um mito. Mas que diga, também, que tenha a coragem de dizer, que os apetites coloniais de Portugal se prolongaram até 2007. E que ele, este e actual Primeiro Ministro de Portugal, aqui virá como último colonizador africano. Queiramos ou não, a história haverá de registar quem foi o último colonizador a abandonar África.

domingo, novembro 11, 2007

as nossa prioridades nacionais

Enfrenta o país Moçambique um conjunto de necessidades básicas. E, fundamentais. Para alcançar novos e diferentes níveis de desenvolvimento. Garantir água potável, Saúde, Educação, energia eléctrica e vias e meios de comunicação a um número crescente de pessoas, são desafios que o Governo tem procurado vencer. Mas, mais do que desafios, são, constituem parte integrante de um processo de desenvolvimento integrante de um processo de desenvolvimento integrado. Seja sustentável, como parece ser grato a uns. E caricato para outros. Em paralelo, informar, educar, divertir, formar, são preocupações a não perder de vista. Aí se expandem e se cruzam as ondas de rádio e de televisão. Perguntar, hoje, quantos moçambicanos têm acesso à rádio e à televisão, poderá ser um pergunta sem resposta. Ou com resposta tendo como base estimativas. Pesando os esforços desenvolvidos nesta área, a todos os títulos louváveis, digamos que estão longe de permitir cobertura nacional. Mesmo que, em termos técnicos, vastas áreas do país possam estar abrangidas pelos sinais de rádio e de televisão, as condições para os receber são limitadas. São diminutas. Sobretudo, por falta de energia eléctrica. Ora, números redondos, talvez não mais de seis milhões de habitantes possam aceder, hoje, com regularidade, ao sinal de televisão. Quanto ao número dos que possam ter acesso à internet, será infinitamente decimal.


Professor em universidade de Lisboa, credenciado, viajou até Maputo para dar conselho. E aconselhou, com as devidas e mestras reservas, (“Notícias”, de 6 de Novembro de 2007), que “Moçambique deve caminhar para o voto electrónico”. Mas, escreve o Jornal, Repito que estou a lançar um desafio para o país fazer um estudo, não estou a dizer que isto deve acontecer de imediato. Diz, também, o diário, que o douto doutor defendeu a introdução do voto antecipado. Um voto que no seu entender, no entender do douto doutor, seria a forma mais justa de permitir a participação de todos os cidadãos, desde os doentes e aqueles votantes que eventualmente se desloquem para fora do país em missão de serviço ou por outros motivos durante o período que antecede a votação. Diria eu, no meu simples dizer, que se apresenta mais fácil às elites nacionais do meu tempo colocar um moçambicano no espaço do que haver condições para a tal dita votação electrónica. De resto e por fim, o tal dito douto doutor, às questões que, por mérito, conhecimento e sabedoria era mister responder, limita-se a dizer não posso dizer. Claro, o segredo, através dos tempos, sempre foi a alma do negócio. Para o mal e para o bem, aí o teremos, de volta, em breve. Para, como consultor e pago com muitos milhares de dólares, nos vir dizer, amanhã, o que hoje disse que não posso dizer. Que o homem pode dizer, pode. A questão é que não quer dizer. Enquanto não lhe pagarem para dizer. Então, paguem lá ao homem para ele dizer o que diz ter para dizer. Ou, em alternativa, caso não tenha nada de útil para dizer, paguem-lhe a passagem de regresso. Mas, antes da ida sem regresso, levem-no até à cidade da Beira ou à Ilha de Moçambique. Pelo menos, se assim, o douto doutor ficará a conhecer o que é o fecalismo a céu aberto. E, tenhamos consciência, poderá ficar mais claro sobre nossas realidades nacionais. E, se assim quiser perceber, assim irá perceber quais as nossa prioridades nacionais.

domingo, novembro 04, 2007

as estradas estão cheias de corpos de mortos

Não fosse o assunto demasiado sério, haveríamos de escrever, haveríamos de afirmar que o fim da guerra, que esta situação pós Acordos de Roma é a principal causa do elevado índice de mortandade nas estradas nacionais. E é. Devido às novas facilidades e necessidades de deslocação, aumentou o número de veículos em circulação. A melhoria do piso de muitas vias veio permitir um aumento de velocidade. Na nossa realidade de hoje, muitas viaturas circulam em péssimo estado técnico. Outras, são conduzidas por indivíduos cansados. Muitas vezes, embriagados. A necessidade de realizar o dinheiro exigido, diariamente, pelo patrão, pelo dono da viatura, é outra realidade. É uma outra triste realidade que não pode ser descartada numa análise séria sobre as causas do elevado e crescente número de acidentes nas estradas nacionais. Com um não menos importante número de mortos.


Morrer num acidente de viação não é, em parte alguma do mundo, um acto heróico. Mas, também não será uma fatalidade. Em Moçambique, não sendo uma coisa nem outra, é uma realidade quotidiana. E, por certo, das muitas causas que podem servir de justificação para os acidentes, aí temos a falta de respeito pelas regras de trânsito. E, isto, tanto fora como dentro da capital do país. Aqui, a ultrapassagem irregular, o cortar a prioridade, o avançar com o sinal luminoso vermelho, passaram a ser a regra. E, não poucas vezes, o parar no sinal vermelho é recompensado com forte buzinada. Donde logo se conclui que o problema ca circulação na capital do país não é um problema de semáforos. É, isso sim, um problema de educação. Ou, mais claramente, de falta de educação. Sobretudo de falta de respeito pelos direitos dos outros. Mas se os “chapeiros” são o que são e o que todos sabemos que são, parece começar a haver bem pior. Trata-se uma nova geração de taxistas que não olha a meios para conseguir os seus fins. E que bem poderíamos classificar de assassinos encartados. Sendo que, no mínimo, possuem carta de condução. Talvez muitos não a possuam. Mas, essa realidade a ninguém importuna. Da acção das polícias, nada é preciso acrescentar. Tanto a de Trânsito como a Municipal, parecem ambas de boa saúde. E seguir a recomendação dos três macaquinhos. Não sei, não vi, não ouvi. Se servem, uma ou outra, para alguma coisa, ninguém lhes conhece a serventia. Isto, tendo em vista evitar e prevenir acidentes. E evitar mais mortes. Talvez seja tempo para que, quem tem poder e mando, definir uma estratégia de combate às causas dos acidentes de viação. Para isso, acordem.. O primeiro passo a dar é acordarem. Para poderem ver que as estradas estão cheias de corpos de mortos.

domingo, outubro 28, 2007

que seja o Estado a defender os interesses dos consumidores

A guerra, todas as guerras, na generalidade, permitem que alguns consigam lucros fáceis. E façam fortunas rápidas a comprar aqui e a vender mais ali. Nem sempre, ou na maioria dos casos, por processos legais. Moçambique, não terá fugido à lógica do mercado, segundo a qual quando a procura é maior do que a oferta o preço do produto sobe. Sem esquecer que quanto maior é o risco no processo de compra e venda, maior é a percentagem de lucro. E, neste contexto, numa situação de funcionamento anormal do mercado, a questão da qualidade passa a segundo plano. Pode, até deixar de ser colocada. O que importa, isso sim, é o produto em si. A sua existência física, a sua disponibilidade. Ora, hoje, passado que é o risco de guerra e o risco de comerciar com e em Moçambique, merece referência e elogio a actividade desenvolvida pela inspecção. Quer dizer, é, a todos os títulos louvável, actividade que está a ser noticiada da Inspecção do Ministério da Indústria e Comércio. Em defesa dos direitos do consumidor e da Saúde Pública. Quer dizer, o Estado assumiu, de forma clara e frontal, a defesa dos direitos do consumidor. Deixando na sua peugada, associações que, de defesa do consumidor têm, apenas, o nome. Só o nome. Nada mais.


Escolheu o jornal “Notícias”, para título principal da sua edição da última quinta-feira: “Comerciantes desonestos sob pressão da inspecção”. E, ao reportar sobre uma reunião entre estruturas governamentais e comerciantes, a dado passo, escreve: Não fixação de preços, uso de pesos e medidas viciados, falta de higiene, produtos com rotulagem irregular, são alguns dos problemas apresentados como estando, juntamente com a venda de produtos fora de prazo, a perigar a saúde dos consumidores. Mais à frente, pode ler-se: (...) parte do produto fora do prazo apreendido pelos inspectores foi declarado nocivo ao consumo humano. Na lista destes produtos figuravam batatas fritas (chips), cervejas, iogurtes, manteiga, sumo e outros, importados da África do Sul e da China. Se me é permitido ajudar a inspecção, acrescento que na lista dos fornecedores de produtos fora de prazo deve ser acrescentado Portugal, e à dos falsificados o Dubai. Depois, e também a título de informação, qualquer um de nós pode mencionar o elevado número de latas enferrujadas e opadas que se encontram nas prateleiras de muitos estabelecimentos comerciais. O que por si só, constitui atentado à saúde pública. Dizer ainda, que segundo a mesma notícia Os proprietários das mercearias acusam os armazenistas de sempre importarem produtos que estão quase a expirar o prazo. Os armazenistas, por seu turno, “endossam” as culpas aos fornecedores. Em termos de prazos de produtos, a questão é demasiado simples para que possa ser complicada. Quer em países da Europa, quer na África do Sul, um produto com a validade de um ano tem um preço. O mesmo produto com a validade de um mês tem um custo mais baixo. O mesmo produto com a validade de oito dias, custa ainda menos. Quando o comprador o aceita, já está fora de prazo, vale quase nada para quem vende. Em Moçambique, como todos o sabemos, até ao momento, o produto fora do prazo de validade no exterior, tem custado, ao consumidor, o mesmo preço. Pois que, a Inspecção do Ministério da Indústria e Comércio trave a irregularidade. E que na falta de melhor, ou mesmo contra alguns hipotéticos interesses instalados, que seja o Estado a defender os interesses dos consumidores.

domingo, outubro 21, 2007

continua a chateação

O livro tem como título “O Português Que Nos Pariu”. A autora dá pelo nome de Angela Dutra de Menezes. O que, sem dificuldade, dá para intuir ser brasileira. E o é, de facto. Aliás, dúvidas não existem quando, em subtítulo, escreve: “Uma visão brasileira sobre a história dos portugueses”. Ainda antes de tomar contacto com o livro, quando o vi referenciado na internet, logo disse: Bem feito. Bem feito que tenham escrito este livro. Bem feito que alguém tenha escrito uma história ao contrário. Seja, do lado contrário, O que, bem entendido, nada tem a ver com contra-história. E depois, como se tanto não tivesse sido já ousadia, tem mais. A capa é ocupada com uma imagem que se prende da figura do infante dom Henrique. Em posição normal. A contracapa reproduz a mesma imagem. Mas, invertida. Bem sei, acredito, é normal que as quase 190 páginas de prosa possam cair mal a meia dúzia. De outra forma, houvesse o livro sido escrito por moçambicano e teríamos contestação dos de fora. Dos que dizem terem vindo para nos ajudar. Que, no seu dizer, vieram dar o seu valioso contributo ao desenvolvimento deste país. Mas não, o livro foi escrito no Brasil. E, ao que parece, na cabeça, nas mentes sábias e altruístas de uns tantos, o que nos torna diferentes do Brasil é o facto de ainda não termos o mesmo estatuto do Brasil. De nos assumirem, simplesmente, como ex-colónia.



Não resisto a transcrever uns poucos parágrafos de “O Português Que Nos Pariu”, como forma de se começar a conhecer o pensamento da autora. E perceber o a que me refiro. Então, o livro começa assim (Pag. 13): No século XVI, nenhum colonizador invadiu nenhuma praia com posse e porte de ONG. Nem podia, claro – cada época, cada sina. [ ] Hoje, convivemos com os “politicamente corrector”. Na minha opinião, tentativa perigosa de nos recolonizar. [ ] Não gosto dos “politicamente correctos”, também não gosto de ONGs. Não gosto de nada pronto. Quero o prazer e o luxo de poder pensar sozinha. Se é para ser colonizada, que seja como já fomos – ao menos sabíamos quem era quem. [ ] Sabendo, nos conhecemos. Por isso fiz este livro. E, a autora continua com referências a Alcácer Quibir e aos mouros e avança com a “Receita do Português”, para concluir que o Brasil é um país de cristãos-novos, ou judeus, convertidos à força. Os famosos degredados na maior parte das vezes eram judeus se escondendo, tentando sobreviver sem abdicar da fé. E, depois de muita história de degola, de intervenção do Vaticano, de fogueira e de guerra santa contra os infiéis, a autora oferece-nos esta prosa: Em Elvas repetiu-se o drama. A fama de na cidade viveram as mouras mais belas da península, teve alto preço. Os cristão degolaram todos os homens, violaram as mulheres, não deixaram pedra sobre pedra. Elvas marca o momento em que as tropas portuguesas já não paravam para pensar. Destruíam e seguiam em frente para cortar mais gargantas. [ ] Nesta confusão generalizada – nos intervalos, cristãos e muçulmanos estapeavam seus pares -, os cavaleiros lusos acabaram por encurralar o inimigo no Algarve. As guerras de reconquista terminaram. Em 1249, o último mouro atirou-se no Mediterrâneo disposto a morrer afogado para se livrar dos portugueses. Já não aguentava mais tanta chateação. Como todos sabemos, o Mediterrâneo fica lá e mouros por aqui não há. Mais de sete séculos e meio após o episódio, agora pelas bandas do Índico, continua a chateação.

domingo, outubro 14, 2007

água é negócio

Desde há muitas décadas, que a água da Namaacha é conhecida. O seu nome é, por si só, uma referência. Talvez por isso, num determinado momento, em princípios dos anos 70, quando faltaram rolhas de cortiça para os garrafões, a censura cortou a local. Não seria conveniente que o “Notícias” desse a conhecer aos citadinos da então cidade de Lourenço Marques o motivo que os impedia de ter acesso à por si tão apreciada água. Isto, numa altura em que a situação militar em Moçambique já estava degrada. Em que já havia grande descontentamento dos civis europeus em relação ao comportamento do exército colonial. Por essa mesma ocasião ou pouco depois, pretendeu o proprietário da nascente da água da Namacha publicitar a sua água. Como colaborador, então, de uma agência de publicidade, foi-me solicitada a elaboração de um texto publicitário. Das ideias e documentos apresentados, destaca-se um. O relatório da análise laboratorial da referida água. Que pouco mais adiantava do que tratar-se de uma água bacteriologicamente pura. Este facto, terá sido pouco encorajados para os donos da nascente. Que terão desistido de investir em publicidade. Já em tempos mais recentes, parece também não ter tido também sucesso a exploração industrial da água da Namaacha. Isto, em tempos da UNOMOZ.


Rodaram os tempos, e o que se terá passado desde esse então até ao presente, não vem para a crónica. O certo é que o nome de Água da Namaacha voltou a tornar-se familiar. E a ser consumida sem reservas. Eis quando não, voltou a desaparecer do mercado. Foi impedida de ser vendida. Por via de um processo, de um método, ainda e aparentemente pouco claro. Que necessita de ser clarificado. É que até ao momento, ainda nenhuma entidade disse, claramente, por escrito, os motivos e as causas pelas quais a referida água foi apreendida. Ninguém disse se estamos ou não perante um caso de crime de saúde pública. E é necessário clarificar a situação. O silêncio é inimigo da verdade. Sendo, como todos o sabemos, que água é negócio.

N.A.
Publicou esta Semanário, na sua última edição (pag. 9), um texto que menciona por diversas vezes o meu nome. Pretende-se, no referido escrito, fazer a defesa de anúncio publicitário por mim criticado, anteriormente, no mesmo periódico. Pode ler-se, no referido texto, que a publicidade objecto de crítica é genuinamente moçambicana, porque concebida moçambicanos. Mais ainda, que a dita publicidade foi alvo de elogios por diversas entidades governamentais e outras individualidades que a viram exposta no pavilhão “a casa das águas”, durante a última edição da FACIM. Acreditamos, queremos acreditar que assim possa ter sido. Mas, os elogios dessas anónimas entidades representam o quê? Servem de referência a quê? Isto, em termos gráficos, de linguagem, de comunicação, de estética, de ética, de cultura, e por aí em diante. Servem de nada por conterem nada de referencial. Positivamente, não chegam a ser argumentos. Nem a favor, nem contra coisa nenhuma. Em circunstâncias semelhantes, o sábio aconselhou ao sapateiro para não ir além da chinela.

domingo, outubro 07, 2007

Puro acto de ilusionismo

Convenhamos que sim. E que todos o devíamos saber. Que todos devíamos saber que a política é a arte do possível. Ou como gostava de dizer e de repetir jornalista há décadas migrado nos Estados Unidos da América, a política é a ciência das putices. Que o seja, que o possa continuar a ser. E, sendo-o, podendo sê-lo, também permite a um político dizer hoje uma coisa e, amanhã, precisamente o inverso, o contrário. Para o efeito, para dizer hoje o contrário do que afirmou ontem, nem precisa de mudar de casaco nem de gravata. . Muito menos de óculos ou de cara. Quer dizer que, com a cara com que hoje diz sim, amanhã pode dizer não. No campo do real, trata-se de um sim e de um não que em nada faz mudar nada. Nem a temperatura do ar, nem o ritmo das marés, nem o ciclo de vegetação das plantas, menos o período reprodutivo dos animais. Assim, desta forma, sim e não significam o mesmo. Anulam-se reciprocamente. E, ao anularem-se, excluem-se. É como se nunca tivessem existido. Sendo mais claro, se ainda é possível: O não existiu em função de um sim. Como o sim não teve razão para existir, logo, por exclusão de partes, o não também não existe. No calendário do tempo, é como se tivéssemos parado antes do sim. De lá até cá, poderíamos convencionar nada ter acontecido. Mas, de facto, como o sim existiu, não é possível evitar reconhecer que existiu o não. Mas, tem mais e talvez de mais difícil solução. O sim transmite uma energia positiva. O não emite uma energia negativa. Deste jeito, sendo que a energia negativa não consegue anular a energia positiva, fica como prevalecente o sim.


Há poucos dias, fez anunciar o presidente da RENAMO o seu desejo de participar nas cerimónias alusivas ao Dia da Paz. Não em todas. Excluiu as que entendeu excluir. Não muito depois, algumas dezenas de horas mais tarde, fez saber que não estaria presente em nada que fosse comemoração do 4 de Outubro. Terá repensado a sua posição e terá mudado de ideias. É seu legítimo direito assim proceder. Só que os argumentos para a mudança de posicionamento parecem pouco coerentes. Pouco convincentes. Serão canhestros e de alguma ingenuidade. Pouco condicentes com o estatuto de dirigente do maior partido da oposição. Falamos, como se entende óbvio, dos argumentos tornados públicos. E, os argumentos tornados públicos dizem da pressão das bases. Falam dos aconselhamentos feitos à direcção do partido pelos membros de base. Mas, como assim? Como é que no espaço de algumas dezenas de horas, essas bases deram a conhecer o seu desejo, a sua vontade à liderança do seu partido? E como é que esse partido inverte, por completo, uma posição publica anteriormente assumida? É muito bem possível ter havido algum erro estratégico na tomada da primeira posição. Depois, o recurso ao argumento da pressão das bases pode ser, de alguma forma, reconfortante. Afinal, o que parece pretender dizer-se são duas coisas simples mas contraditórias. A primeira, é a de que o partido possui uma base de sustentação social que está, a todo o momento, atenta a qualquer possível desvio do seu presidente. A segunda, é a de que o presidente, quando alertado para erro de percurso ou decisão contrária à vontade, ao desejo das suas bases, logo muda de posicionamento. Pura ilusão. Puro acto de ilusionismo.