domingo, janeiro 27, 2008

obras de fachada

Não deve, não pode, ser ignorado esforço do Governo no sentido de elevar o nível de saúde das populações. Na dimensão nacional. Quer construindo centros de saúde, quer projectando no vos hospitais, quer reabilitando infra-estruturas existentes. Quer, também, dotando os principais hospitais do país com novos e modernos meios de diagnóstico. Para além deste exercício, apresentam-se como relevantes as acções que visam melhorar as condições de atendimento aos doentes. A começar pela indisciplina que impera em algumas dessas unidades. Ao desleixo. Quando não ao favoritismo no atendimento. Para não falar em corrupção. Expressão tão cara a alguns. Mesmo aos corruptos. Mas, e aqui, parece, devemos estar todos de acordo. Acordo no facto de que é preciso evitar que a excepção se transforme em regra. Que a corrupção passe a regra.


No campo da Saúde parece haver, há, porém questões que ultrapassam o entendimento do simples espectador. Que somos todos nós. E, se assim não, vejamos em diante. Na sua edição de 19 do corrente, titulava o jornal “Notícias” em primeira página: Nampula: Centros de Saúde encerram por falta de equipamento. E, logo no primeiro parágrafo da notícia, o noticiarista escrevia: Pelo menos sete grandes centros de Saúde, de um total de 18 construídos pelos governos distritais da província de Nampula, encontram-se encerrados e os restantes a operar com dificuldades devido à falta de equipamentos indispensáveis para o seu funcionamento. E, em jeito de comentário, pode ler-se na local que Esta situação preocupa as populações beneficiárias dessas infra-estruturas, que já manifestaram o seu desagrado junto das autoridades provinciais da Saúde. É momento para dizer que sim. Que têm a razão para estar desagradadas. E que, também nós não estamos menos desagrados. Por uma razão simples. Ou, pela simples razão de não caber no entendimento comum como é que governos distritais gastam dinheiro na construção de centros de Saúde que, logo após, são encerrados por falta de meios. Á partida, aquando da construção desses centros de Saúde, sabia-se duas coisas elementares. Uma, é que só poderiam funcionar com equipamentos. A segunda, é que, para funcionarem a médio e longo prazos necessitam de verbas de manutenção. Sobre o que se terá, efectivamente, passado a notícia não esclarece. De concreto, ficámos a saber que 18 centros de Saúde foram encerrados. O que permite concluir o óbvio e o evidente. E, o óbvio e o evidente é que parece estarmos perante obras de fachada.

domingo, janeiro 20, 2008

cheias e inundações são a mesma coisa

Hoje, como desde sempre, as palavras têm o significado que têm. Ou, muito por hipótese, podem mudar de significado. Adquirir o oposto, até. Como podem, como acontece, também, caírem em desuso. Podem, de igual forma, resistir ao avanço tecnológico. E, tendo sido utilizadas ontem para uma coisa, hoje o serem para coisa diversa. Diferente. Se assim, caso concreto, entre nós, é o da utilização do termo Machimbombo. Ora, o dicionário nos diz que Machimbombo é um ascensor mecânico, para ladeiras íngremes. Ora, pode supor-se, pode-se especular, que o termo para aqui tenha trazido aquando da introdução dos primeiros transportes públicos colectivos. Que foram os desaparecidos carros eléctricos. E que, quando dada por finada a actividade e o uso destes, a definição permaneceu no tempo, Por falta de melhor, de outra mais consequente com o fala popular. E, assim permanece, assim continua a ser utilizada, em paralelo com o neologismo Chapa. Que, quase de certeza, após cumprir a sua missão histórica e vier a ser substituído, a definição irá perdurar. Para os casos ambos aqui referenciados, o que importa concluir é que é a necessidade de comunicação que impõe os termos adequados a cada situação e em cada momento. Aos linguistas e aos dicionaristas, fica uma ingrata missão. Não a de ensinar ou de dizer como se deve falar. Ou não deve falar. O que é falar bem e o que é falar mal. Mas, isso sim, investigar os fenómenos da comunicação. E, explicar o que hajam por bem entender explicar. E, por fim, fixar a língua. Em nenhum momento nem período da História da Humanidade, a língua resultou de coisa outra que não tenha sido a necessidade de comunicação entre os humanos.

As actuais cheias em alguns rios do Centro do país, parece estarem a criar algumas confusões de linguagem. È que há quem pensa, é que há quem considera que se trata de cheias e de inundações. E se assim pensou, assim entendeu dever ser. Dever passar a ser. E, para que uma invenção, uma invencionada, ganhe o estatuto de verdade, nada melhor do que fazer coincidir vozes e textos de jornalistas. E, para tanto, os convencer a divulgarem a espúria concepção. E que, em boa lógica metódica, as populações deste país, passaram a ser obrigadas a fazer acrescer um novo termo ao seu vocabulário. Trata-se da palavra inundações. Ora, quando na memória colectiva destes muitos povos são as cheias que fazem parte da memória colectiva, falar de inundações, não passa de termo para enfeitar relatórios. Depois, e por fim, cheias e inundações significam a mesma coisa.

domingo, janeiro 13, 2008

uma questão de agenda nacional

A maioria dos países do mundo, tem vindo a aprovar legislação sobre o consumo do tabaco. Para além de aprovação de legislação sobre os locais onde se pode ou não se pode fumar, fica a forma como a lei é interpretada e aplicada. É assim que, em alguns dos estados dos Estados Unidos fumar na própria residência pode ser objecto de punição. Enquanto na Irlanda a legislação em vigor parece deixar nenhuma margem de fuga ao seu cumprimento. No extremo oposto, parece situar-se a Espanha. Que tendo, também, legislação muito semelhante a outros países, será mais pragmática na sua aplicação. Sendo que no que respeita à indústria hoteleira, a deixa ao critério dos proprietários dos estabelecimentos. Isto é, quem entende dever proibir fumar, proíbe. Quem não, não proíbe. Trata-se de uma posição que tem lógica. Que a ninguém prejudica e que outros terão seguido. Tenhamos presente, que o radicalismo nunca foi bom conselheiro em termos de governação. Diria cidadão brasileiro, em ocasião própria e por motivo diverso, sobre legislação do seu país: Deixa legislar que a gente abandalha.


Também Moçambique aprovou recentemente, legislação sobre a proibição do consumo de tabaco em locais públicos. Logo, e logicamente, em defesa da saúde pública. Em boa lógica, aceitamos, como vem inscrito nos maços de cigarros, que Fumar prejudica a saúde. Podemos até ir mais longe e dizer que fumar é um vício. Como vício é beber coca-cola, café ou chá. Sendo que o chá é mais prejudicial à saúde do que o café. Por conter uma mais elevada percentagem de cafeína. Obviamente, nada que se afirma assenta em base científica. São simples hipóteses e, no melhor dos casos, convenções. De ciência certa, isso sim, sabemos apenas que a água natural não vicia. Por ser indispensável à vida e condição da vida no planeta em que vivemos. Mas, repita-se, a água natural. E só essa. A água em estado natural. Ora, num país com vinte milhões de habitantes, como Moçambique, fica por saber quantas pessoas podem frequentar locais fechados onde passou a ser proibido fumar. Falamos de pavilhões, restaurantes, repartições públicas. Podemos falar de dois milhões, talvez um milhão ou, no máximo, duzentos mil. Como mera hipótese. Depois, sendo ponto aceite que Fumar prejudica a saúde, proibir fumar em determinados locais, na realidade nacional, pode não ter significar pouco em termos de economia de gastos com a protecção da saúde pública. Possivelmente, até, nada. E, se nada apresenta-se como mais urgente, como mais prioritário, concentrar atenções no combate à malária, à cólera, à tuberculose pulmonar. Em última análise, poderá tratar-se de uma questão de agenda nacional.

domingo, janeiro 06, 2008

só o trabalho gera riqueza

O ano de 2007 já nos deixou. Passam alguns, poucos, dias. Dele disse quem tinha algo para dizer. De forma, naturalmente, subjectiva. Nem de outra forma poderia ser. Todos sabemos que o que é bom para mim, ou o que classifico como mau, pode ter apreciação inversa pelo meu amigo ou pelo meu vizinho. É assim, por exemplo, que se, acaso, me fosse pedida opinião sobre o que de pior aconteceu nos finais do ano findado não teria qualquer dúvida em eleger, em escolher. Diria que foi o aumento, escandaloso, nos preços de muitos produtos alimentares. Por outras palavras, a especulação. À custa do nosso bolso. Confortado com o 13º vencimento. Mas, também, em desfavor da nossa barriga. E das barrigas dos nossos mais próximos de nós. Bem tentaram, alguns, argumentar e defender os especuladores. Dizendo que não. Argumentando que, desde há muito, a África do Sul havia feito subir os preços de produtos que ali vamos buscar. Como parece claro, não se trata de argumento. É falácia. Trata-se de desculpa para tentar encobrir a falta de capacidade de fiscalização. Trata-se de capa ou de chapéu – de –chuva para proteger especuladores e oportunistas. Caso não, é preciso saber explicar a razão das diferenças de preços praticados em relação a alguns produtos importados. Como ovos e batatas. Mas, também podemos falar nas diferenças de preços de produtos de produção nacional. Como o leite condensado e os refrescos. Definitivamente, o combate à pobreza também passa pelo combate aos especuladores. O que pode exigir uma mais elevada dose de coragem e, naturalmente, mais patriotismo.



Estamos, pois, em 2008. Todos nós. Quem escreve e quem lê. E, também aqui, neste ano que os homens convencionaram ser de 2008 depois de Cristo, me atenho. É que, acaso me fosse pedida opinião sobre o devir, pouco teria a dizer. Haveria de eleger, apenas um, não mais, tema central. Estou a referir-me à Revolução Verde. Não a essa que já é notícia de jornal, vinda lá do distrito. Como acabada. Muito como mera retórica discursiva. Talvez, quem o sabe, como mero oportunismo político. Na minha modesta opinião, Revolução Verde tem nada a ver com ONG´s e pouco com sociedade civil. Trata-se de um processo que, por hipótese, irá colocar em questão hábitos, crenças, mitos e tradições ancestrais. Talvez, mesmo, violentar. No sentido de obrigar a alterar e a mudar. Formas de viver e de estar. Por isso, se lhe chama de Revolução e se a apelida de Verde. Abnegação, espírito de sacrifício, trabalho. Sobretudo trabalho, são condições para criar riqueza. Porque, e aqui não é conhecida tese contrária, só o trabalho gera riqueza.

domingo, dezembro 09, 2007

brincadeiras perigosas

Com frequência, ficamos a saber, através de diferentes órgãos de Informação, de fugas de presos das mais diversas cadeias. Ou da captura dos fugitivos. Fugitivos que, em muitos dos casos, há quem diga serem perigosos cadastrados. Logo, quando a Polícia captura um desses fugitivos, não capturou um pilantra, um ladrão de galinhas ou um sacador de telemóveis. Capturo um perigoso cadastrado. E, o atributivo, ou se assim se quiser, o adjectivo, em primeiro lugar dá jeito à Polícia. Afinal, ela, Polícia, sem ou com poucos meios, tem saberes e conheceres, tem artes e manhas para capturar prisioneiros fugitivos. E, estes sabem, também, que quando capturados adquirem e passam a ter novo estatuto. Perante a população prisional e perante a sociedade civil. Passam a figurar como perigosos cadastrados. Mesmo que, antes, nunca o tenham sido. Então, fica a dúvida. Fica a dúvida sobre se muitas das histórias rocambolescas, que têm direito a letra de Imprensa, servem para mais do que à criação de mitos. Ou de falsos heróis. Seja do herói bandido ou do bandido herói. Que em última análise vence o polícia. Símbolo e representante da Lei, da Ordem, do Poder e do Estado.


Conhecemos e sabemos das fragilidades do nosso sistema prisional E do sistema de Justiça. Que não julga com celeridade nem com rapidez. Acontece que, para além destes aí pouco ou nada sabemos. Mas, é, afigura-se importante saber. Para não termos de continuar a ser confrontados que versões de sucedidos que sequer convencem crianças do ensino primário. Por exemplo, quando se diz que “Anibalzinho” não aderiu ao plano de fuga do tal perigoso cadastrado, agora capturado, temos de saber o que se pretende dizer e o que se pretende encobrir. Teremos de saber, com clareza, se quem manda nas Cadeias são os criminosos os polícias. E, se estes têm poderes discricionários para deixar sair uns e matar outros. Ou em última hipótese, ambos os poderes. Se a fuga deste tal de “Todinho” ainda está envolta em mistérios, a sua captura não deixa de o estar menos. E, pode, até, sugerir, pelos relatos da Imprensa, que tenha estado a funcionar como agente “duplo”. Sendo que, ao ter falhado no plano para libertar “Anibalzinho”, tenha regressado à cela donde não devia ter sido. Donde devia ter evitado sair. A realidade dos factos, parece apontar para uma realidade inequívoca. Que é a de agora prendo eu, amanhã solta tu. Sendo que o inverso contem a mesma verdade: Agora solto eu, amanhã prendes tu. Haja por bem entender-se que o exercício do poder não se compadece com qualquer género de brincadeira. Sobretudo, com estas brincadeiras perigosas.

domingo, dezembro 02, 2007

uma festa exclusivamente moçambicana

Um pouco por todo o país, o dia da última terça-feira foi dia de festa. De alegria. Houve quem tivesse classificado este 26 de Novembro como dia da segunda independência. Para além da carga emotiva que a afirmação possa conter ou da diferente perspectiva de quem opina, foi, sem dúvida, um dia muito especial para Moçambique. Por constituir um marco importante na história política e económica do país. Haja, embora, quem ainda pensa e continue a afirmar que a HCB não é do Estado moçambicano mas, sim, dos financeiros estrangeiros. Um pensar errado, que o Presidente da República terá, uma vez mais, corrigido a partir do Songo. Com efeito, foi a vila do Songo que acolheu as cerimónias principais que assinalaram, publicamente, a reversão irreversível da posse da Barragem por parte de Moçambique. Dada a importância da cerimónia, ali se fizeram presentes várias individualidades africanas, que se misturaram com o povo local e assistiram a muito cantar e a muito dançar. A muita alegria. Uma alegria nacional e moçambicana.


A reversão, definitiva, da Barragem de Cahora Bassa para o controlo do Estado moçambicano, poderá ter tido dois aspectos negativos. Duas grandes falhas. O primeiro aspecto negativo poderá ter sido o de a tolerância de ponto no dia da festa realizada na vila do Songo, ter abrangido apenas a província de Tete. Em nossa modesta opinião, o país inteiro merecia ter tido tolerância de ponto para poder assistir à cerimónia, à festa do Songo. Através da televisão, como parece óbvio. Mas, como se soube e dado que tal tolerância não foi declarada, houve o recurso a soluções locais. Marcha de apoio aqui e ali, mais concentração acolá, Governador de província a convidar governados para pavilhão desportivo. E, assim, poderem estar, sem terem estado, no Songo. O segundo aspecto, a segunda grande falha negativa, situa-se no nível da delegação de Portugal. Que, ao que se diz e devido ao arrastamento nas negociações, em Maputo, sequer se deslocou ao Songo. Ou, se de facto ali se deslocou, terá passado desapercebida. Digamos, mesmo, não terá sido notada. Que terá sido ignorada. E, dada a importância do acontecimento, o caso não era para menos. Perante esta realidade, perante a realidade, concreta e objectiva, Portugal terá perdido a última oportunidade de descolonizar com dignidade. Portugal perdeu, em concreto e em definitivo, a possibilidade de afirmar que tendo colonizado mal, podia descolonizar bem. E, assim, passar a figurar na História mundial. Mas, tal não aconteceu. E, não tendo acontecido já não existe tempo para que possa vir a acontecer. Assim, a festa no Songo, neste último 27 de Novembro, ficará registada na história como uma festa exclusivamente moçambicana.

domingo, novembro 25, 2007

uma aliança espúria

É Moçambique um país de muitas e de múltiplas carências. Daí o recurso ao donativo e à oferta externa para tentar reduzir a diferença entre o que possuímos e entre o que necessitamos. Por vezes, e também, à solidariedade interna. Como aconteceu, recentemente, aquando das explosões do Paiol de Maputo. Naturalmente, perante estas e outras situações reais, como diz o ditado, “quem dá o que pode a mais não é obrigado”. Até aqui, parece estarmos de acordo. Mas, dar o que se pode, dar o que se pode dar, nem sempre significa dar o que pode ser útil e necessário a quem recebe. Ora, parece ter sido o que aconteceu com o recente donativo da Câmara do Porto (Portugal) à Cidade da Beira. É que entre os diversos artigos da oferta, constava uma camião para a recolha do lixo. Mas, um camião já cansado para não dizer velho. Tinha 25 anos de uso, de utilização. E, aqui, cabe perguntar para que serve um camião com 25 anos de uso. Certamente, para nada. Ou, em última hipótese para criar novos problemas ou para ser vendido para a sucata. Ora, se assim pensou o Presidente do Conselho Municipal da Beira, cidade a quem se destinava a oferta, pensou bem. Nem poderia ter pensado melhor. E, se pensou bem, melhor agiu. Ao recusar receber a oferta. Em último lugar, poderá ter criado um facto político. Nada mais do que isso. A não ser o de ter contribuído para o anedotário tuga.


Muito já foi dito e escrito sobre as cadeias nacionais. Na generalidade, em defesa dos reclusos e das más condições prisionais. Em outros casos, sobre a ilegalidade de muitos dos detidos. E, parece bom, parece positiva esta tomada de posição, esta tomada de consciência. Sobre a necessidade de mudar, sobre a necessidade de alterar o que mal está. Fica a dúvida se tal, se tal posicionamento, encontra confirmação prática. É que, recentemente, surgiu um fenómeno novo e curioso. Estamos a referir o facto de se levar equipas de futebol federado para disputar jogos de futebol com reclusos no interior da B.O. O que, em si, até pode ser bom e positivo. Para alguns reclusos. Mas o que já parece menos bom, é que estes jogos de futebol estejam a ter uma cobertura jornalística que, em nada justificam. Mais, que até pode ser condenável. Em termos de Ética. E é. Não se percebe, muito menos se entende, como algumas equipas prestigiadas se prestam a este tipo de jogos. A estas futeboladas. Como não se percebe como, a coberto destes jogos, condenados a pena maior apareçam como vedetas em páginas de muito jornal da praça. Com direito a entrevista. Acompanhada de foto. Para dizerem e, vejam só, para elogiarem a forma como são tratados na prisão. De facto, algumas equipas do futebol estão no bom caminho. Estão a contribuir para que, condenados em Tribunal, manifestem a sua opinião, sobre as condições do cárcere. E, mais, sobre a justiça da pena que lhes foi aplicada. Que a nossa Justiça é deficiente, é público e assumido. Que o futebol nacional não passa de medíocre, não vê quem não quer ver. Agora, esta aliança entre sistema prisional e equipas de futebol, é uma aliança estranha. E não é normal. Digamos, trata-se de uma aliança espúria.

domingo, novembro 18, 2007

O último colonizador a abandonar África

Publicado em Maputo, Moçambique no Jornal Domingo de Novembro 18, 2007
antes e depois

Luís David

Desde sempre e até aos nossos dias, as técnicas de combate à guerrilha parecem ter-se saldado por insucessos. Na generalidade. Parece não haver registo nem memória de um exército convencional ter vencido uma insurreição com apoio popular. Também terá sido assim em Moçambique. Mas, influenciado pelas teorias norte-americanas da época, Kaulza de Arriaga pensava diferente. E, pensava errado. Mas, também pensava mal. Sendo que pensar errado e pensar mal são coisas diferentes e bem diversas. Pensava o mentor e executor da operação “Nó Górdio” que, quanto mais se avançava para o norte da Europa, mais os homens eram inteligentes. Maior era o coeficiente de inteligência dos homens. E, se assim pensava, assim o disse e assim o escreveu o general. Sem receio de que lhe chamassem racista ou fascista, defendeu o general que os nórdicos eram mais inteligentes que os restantes povos europeus. O estrafega militar português, habitual frequentador de cursos de altos estudos militares nos Estados Unidos, entre os muitos erros que cometeu, existe um que lhe poderá ter sido fatal. Terá sido o do factor tempo. De facto, Kaúlza não terá contado, na sua estratégia militar, com o tempo necessário para ver concluída a construção da Barragem de Cahora Bassa. Muito menos para a construção das restantes seis barragens, até ao mar. E, menos ainda, com o tempo necessário para a fixação de um milhão de colonos portugueses no Vale do Zambeze. E, assim, impedir o avanço da guerrilha para sul. Para não ferir susceptibilidades, digamos, apenas, que Kaúlza de Arriaga estava atrasado no tempo. Embora apenas algumas décadas, mas estava.


Mais de trinta e dois anos depois de Moçambique ter feito arrear e de ter procedido à entrega, formal, à potência colonial da sua última bandeira nacional, vai acontecer cerimonial com significado idêntico. Vai acontecer Moçambique assumir, definitivamente, o controlo de Cahora Bassa. Para trás, fica, naturalmente, um longo e sinuoso percurso. Como fica, também, a percepção de que sendo Portugal a parte mais interessada no normal funcionamento da Barragem e no regular fornecimento de energia à África do Sul, foi, de forma inequívoca, o principal responsável pela destruição de cerca de mil torres. E pela interrupção de uma fonte de receita que interessava mais a si do que a terceiros. A história de Cahora Bassa, é uma história que pode ser escrita hoje, amanhã, depois de amanhã. Não é uma história que, para ser escrita, necessite da abertura de arquivos secretos. Dentro de dias, como se anuncia, quando aí vier o Primeiro Ministro de Portugal, para assistir à passagem da gestão de Cahora Bassa para Moçambique, pede-se lhe uma coisa muito simples. Pede-se lhe, apenas, que assuma a derrota de Portugal em Alcácer Quibir. E que diga que dom Sebastião haverá nunca mais de voltar. Que o sebastianismo é um mito. Mas que diga, também, que tenha a coragem de dizer, que os apetites coloniais de Portugal se prolongaram até 2007. E que ele, este e actual Primeiro Ministro de Portugal, aqui virá como último colonizador africano. Queiramos ou não, a história haverá de registar quem foi o último colonizador a abandonar África.

domingo, novembro 11, 2007

as nossa prioridades nacionais

Enfrenta o país Moçambique um conjunto de necessidades básicas. E, fundamentais. Para alcançar novos e diferentes níveis de desenvolvimento. Garantir água potável, Saúde, Educação, energia eléctrica e vias e meios de comunicação a um número crescente de pessoas, são desafios que o Governo tem procurado vencer. Mas, mais do que desafios, são, constituem parte integrante de um processo de desenvolvimento integrante de um processo de desenvolvimento integrado. Seja sustentável, como parece ser grato a uns. E caricato para outros. Em paralelo, informar, educar, divertir, formar, são preocupações a não perder de vista. Aí se expandem e se cruzam as ondas de rádio e de televisão. Perguntar, hoje, quantos moçambicanos têm acesso à rádio e à televisão, poderá ser um pergunta sem resposta. Ou com resposta tendo como base estimativas. Pesando os esforços desenvolvidos nesta área, a todos os títulos louváveis, digamos que estão longe de permitir cobertura nacional. Mesmo que, em termos técnicos, vastas áreas do país possam estar abrangidas pelos sinais de rádio e de televisão, as condições para os receber são limitadas. São diminutas. Sobretudo, por falta de energia eléctrica. Ora, números redondos, talvez não mais de seis milhões de habitantes possam aceder, hoje, com regularidade, ao sinal de televisão. Quanto ao número dos que possam ter acesso à internet, será infinitamente decimal.


Professor em universidade de Lisboa, credenciado, viajou até Maputo para dar conselho. E aconselhou, com as devidas e mestras reservas, (“Notícias”, de 6 de Novembro de 2007), que “Moçambique deve caminhar para o voto electrónico”. Mas, escreve o Jornal, Repito que estou a lançar um desafio para o país fazer um estudo, não estou a dizer que isto deve acontecer de imediato. Diz, também, o diário, que o douto doutor defendeu a introdução do voto antecipado. Um voto que no seu entender, no entender do douto doutor, seria a forma mais justa de permitir a participação de todos os cidadãos, desde os doentes e aqueles votantes que eventualmente se desloquem para fora do país em missão de serviço ou por outros motivos durante o período que antecede a votação. Diria eu, no meu simples dizer, que se apresenta mais fácil às elites nacionais do meu tempo colocar um moçambicano no espaço do que haver condições para a tal dita votação electrónica. De resto e por fim, o tal dito douto doutor, às questões que, por mérito, conhecimento e sabedoria era mister responder, limita-se a dizer não posso dizer. Claro, o segredo, através dos tempos, sempre foi a alma do negócio. Para o mal e para o bem, aí o teremos, de volta, em breve. Para, como consultor e pago com muitos milhares de dólares, nos vir dizer, amanhã, o que hoje disse que não posso dizer. Que o homem pode dizer, pode. A questão é que não quer dizer. Enquanto não lhe pagarem para dizer. Então, paguem lá ao homem para ele dizer o que diz ter para dizer. Ou, em alternativa, caso não tenha nada de útil para dizer, paguem-lhe a passagem de regresso. Mas, antes da ida sem regresso, levem-no até à cidade da Beira ou à Ilha de Moçambique. Pelo menos, se assim, o douto doutor ficará a conhecer o que é o fecalismo a céu aberto. E, tenhamos consciência, poderá ficar mais claro sobre nossas realidades nacionais. E, se assim quiser perceber, assim irá perceber quais as nossa prioridades nacionais.

domingo, novembro 04, 2007

as estradas estão cheias de corpos de mortos

Não fosse o assunto demasiado sério, haveríamos de escrever, haveríamos de afirmar que o fim da guerra, que esta situação pós Acordos de Roma é a principal causa do elevado índice de mortandade nas estradas nacionais. E é. Devido às novas facilidades e necessidades de deslocação, aumentou o número de veículos em circulação. A melhoria do piso de muitas vias veio permitir um aumento de velocidade. Na nossa realidade de hoje, muitas viaturas circulam em péssimo estado técnico. Outras, são conduzidas por indivíduos cansados. Muitas vezes, embriagados. A necessidade de realizar o dinheiro exigido, diariamente, pelo patrão, pelo dono da viatura, é outra realidade. É uma outra triste realidade que não pode ser descartada numa análise séria sobre as causas do elevado e crescente número de acidentes nas estradas nacionais. Com um não menos importante número de mortos.


Morrer num acidente de viação não é, em parte alguma do mundo, um acto heróico. Mas, também não será uma fatalidade. Em Moçambique, não sendo uma coisa nem outra, é uma realidade quotidiana. E, por certo, das muitas causas que podem servir de justificação para os acidentes, aí temos a falta de respeito pelas regras de trânsito. E, isto, tanto fora como dentro da capital do país. Aqui, a ultrapassagem irregular, o cortar a prioridade, o avançar com o sinal luminoso vermelho, passaram a ser a regra. E, não poucas vezes, o parar no sinal vermelho é recompensado com forte buzinada. Donde logo se conclui que o problema ca circulação na capital do país não é um problema de semáforos. É, isso sim, um problema de educação. Ou, mais claramente, de falta de educação. Sobretudo de falta de respeito pelos direitos dos outros. Mas se os “chapeiros” são o que são e o que todos sabemos que são, parece começar a haver bem pior. Trata-se uma nova geração de taxistas que não olha a meios para conseguir os seus fins. E que bem poderíamos classificar de assassinos encartados. Sendo que, no mínimo, possuem carta de condução. Talvez muitos não a possuam. Mas, essa realidade a ninguém importuna. Da acção das polícias, nada é preciso acrescentar. Tanto a de Trânsito como a Municipal, parecem ambas de boa saúde. E seguir a recomendação dos três macaquinhos. Não sei, não vi, não ouvi. Se servem, uma ou outra, para alguma coisa, ninguém lhes conhece a serventia. Isto, tendo em vista evitar e prevenir acidentes. E evitar mais mortes. Talvez seja tempo para que, quem tem poder e mando, definir uma estratégia de combate às causas dos acidentes de viação. Para isso, acordem.. O primeiro passo a dar é acordarem. Para poderem ver que as estradas estão cheias de corpos de mortos.