domingo, junho 29, 2008

Temos o direito de exigir mais e melhor trabalho

Um pouco por todo o país, presidentes de Conselhos Municipais têm vindo a público fazer balanço do seu desempenho. Dizer o que fizeram. Dizer o que não conseguiram fazer. Isto, a pouco meses do final do mandato para que foram eleitos. Sobre Maputo, sem que o tenha sido dito, podemos dizer ter sido feito muito. Mas que muito há por fazer. Pode dizer ter sido feito e estar em curso trabalho de vulto em termos de reparação de vias de circulação, de saneamento, de fornecimento de água, de iluminação pública. Como pode dizer-se estarem longe de obter sucesso os esforços desenvolvidos para uma adequada e eficaz recolha do lixo, na disciplina na circulação do trânsito automóvel, principalmente no que diz respeito aos semi-colectivos e no enquadramento dos chamados vendedores de esquina. Mas, existem, também, aquilo a que poderíamos chamar de manchas negras. Uma, é a da destruição ou do desaparecimento do cadastro dos terrenos municipais. Outra, a actuação, tantas vezes desastrada ou desastrosa, da polícia municipal. Nas mais diversas situações. Mas e na generalidade contra cidadãos indefesos. Agora e por fim, o aparente uso excessivo e de força desnecessária para destruir uma construção no Bairro da Coop. Neste caso, admitindo que a actuação municipal possa ter sido legal, fica a dúvida se foi legítima. Se não, ou e se não, pode colocar-se a dúvida se em vez da solução do problema não estaremos perante a causa, ou as causas do problema. Dos muitos problemas por resolver.

Na sua última e recente visita à cidade de Maputo, em chamada presidência aberta, o Presidente da República ter-se-á apercebido de alguns conflitos. De conflitos entre governantes e governados. Muito provavelmente, muito possivelmente, de conflitos de interesses. Económicos, pois não. Daí o ter dado prazo aos senhores do Conselho Municipal para se sentarem à mesma mesa com os informais. E resolveram as divergências. Ao que parece, solução de consenso foi encontrada. Quanto à polícia municipal, actua em função dos poderes que lhe foram concedidos. Que tanto podem ser muitos como nenhum. Ninguém sabe. Também ninguém quer saber. Muito menos clarificar publicamente o âmbito da sua competência e da sua acção. Constitui o exemplo acabado do eu quero, posso e mando. Logo, da prepotência e da ilegalidade. Por fim, dizer que sobre a demolição do Splash, não há nada a dizer. Por mera questão de lógica. Pode, isso sim, comentar-se. Que foi desnecessário um tal aparato de força perante questão assim tão menor. Não fez sentido nem tem qualquer justificação. Não estamos, de certeza, no país de Mugabe em aparente desespero de causa. Mas estamos em ano de eleições em Moçambique. E, esta demonstrada falta de estratégia política pode ter reflexo nas urnas. Não foi para este tipo de espectáculo nem para esta demonstração de força gratuita e objectivamente desproporcionada que elegemos os actuais gestores da cidade de Maputo. Temos o direito de exigir mais e melhor trabalho.

domingo, junho 22, 2008

quem violou o código secreto e porque motivo

No mesmo dia, provavelmente quase à mesma hora, deveriam ter-se iniciado dois julgamentos em que Moçambique, como Estado, é parte interessada. Porque envolvem moçambicanos. Um dos julgamentos, deveria ter tido lugar em Tribunal de Pretória. O outro, em Tribunal de Maputo. Em ambos os casos, estão envolvidos jovens moçambicanos. No primeiro, raparigas. No segundo, rapazes. Em ambas as situações, haverá menores. Ou, se assim se preferir, a utilização de menores em práticas ilícitas. Ilegais. Aconteceu, porém, ambos os julgamentos terem sido adiados. Pelo mesmo motivo. Por motivos iguais. Seja que foi, falta de tradutores. Na África do Sul, terá sido a falta de tradutor de inglês para português o motivo, a razão do adiamento. Em Moçambique, em Maputo, o motivo, a razão do adiamento terá sido a falta de tradutor de português para turco. Não se duvida que, em ambos os caos, os Tribunais tenham agido em pleno respeito pela Lei. De cada um dos países, Mas, também podemos admitir a hipótese de se estar em presença de artifícios legais para adiar os julgamentos. Para fazer retardar os processos. Para tentar ganhar tempo. Com objectivos que só a alguns interessam. Mas, que não custa especular sobre quais possam ser. Contudo, só o devir, só o depois o dirá.


O caso dos cidadão turcos detidos em Maputo, parece ter chocado a opinião pública nacional. Talvez menos pelos turcos e mais pelos moçambicanos apresentados como vítimas. Mas além disso, para além do possível choque, deveria também alertar as autoridades. Para uma realidade que se repete. Para uma realidade que começa a repetir-se. Que começa a ser repetitiva. A partir ou com começo em Cabo Delgado. É neste contexto que a falta de tradutor para o início dos cidadão turcos parece pormenor. Apenas pormenor e irrelevante. Importante, isso sim, afigura-se a questão de conhecer os verdadeiros objectivos da vinda e fixação dos turcos em Moçambique. Ao que se diz, inicialmente quatro. Um, terá morrido. Outro, terá ido. Logo, ficaram dois. Importante, repita-se, será esclarecer como vieram e como chegaram. Como e com que documentos entraram no país. De quem é a casa onde viviam e quem lha alugou. Quanto e a quem pagavam o arrendamento. Quem pagava imposto ao Estado sobre o aluguer. Donde provinha o dinheiro para subsistirem e sustentarem os 17 jovens com quem viviam. E conviviam há cerca de dois anos. Como e em que língua se comunicavam com esses mesmos jovens. Depois, tratando-se de jovens entre 10 e 17 anos, parece pouco crível estarmos perante caso de pedofilia. Parece mais adequado falar em sodomia. Pergunte-se, ainda, como é que indo esses jovens frequentar, todos os dias, escolas públicas nunca lhes passou pela cabeça abandonarem o local onde eram maltratados e violentados. Denunciar as condições em que viviam. Ou, sendo tantos e, alguns, em idade adulta, qual o motivo que os impediu, em caso extremo, de passarem de agredidos a agressores. Competindo, agora, ao Tribunal julgar, cabe também ao Tribunal esclarecer. E, entre os vários aspectos a esclarecer está o de saber se estamos perante um caso de cativeiro, de cárcere consentido ou não. Quais eram as regras que regulavam as relações entre dominadores e dominados. Qual o código ou as regras secretas que ambas as partes haviam assumido respeitar e uma deles violou. Em síntese, quem violou o código secreto e porque motivo.

domingo, junho 15, 2008

mentir e fazer mentir é feio

Desde que foi divulgada, a situação interna no Instituto Nacional de Segurança Social já fez correr muita tinta. Em tudo quanto é órgão de Informação escrita. E muita mais tinta poderá e deverá fazer correr. Só assim irá saber-se quem é quem em todo o processo. Quem desviou dinheiro. Quanto dinheiro, exactamente, foi desviado. E, como e quem irá responsabilizar-se por repor o dinheiro desviado. Dinheiro que, diga-se, é produto da contribuição de muitos milhares de trabalhadores. E, das respectivas empresas empregadoras. Terá feito bem, terá procedido correctamente a Primeira Ministra quando, há dias, veio a público com um discurso que pretende tranquilizador. Ao anunciar a realização de uma nova auditoria ao INSS. Auditoria essa, incumbida a departamentos especializados do Ministério das Finanças. E que, em nosso modesto entender, deverá ocupar-se não apenas em conhecer sobre métodos e processo de investimentos. Deverá, ir mais ao fundo das questões. Deverá averiguar quais os métodos e processos utilizados no cálculo das pensões. E da sua actualização. Mais ainda, se uma direcção ou um conselho de administração do INSS tem competência legal para fixar pensões. Ou, se assim não estamos perante um competência usurpada ao Governo, representado pelo Ministério do Trabalho.


A gestão corrente, de curto e de médio prazos, pouco importa aos contribuintes do INSS como é feita. Interessa-lhes outras e mais profundas questões. Interessa-lhes saber que o dinheiro por si descontado está a ser bem rentabilizado. Que foi aplicado em operações financeiras sérias, honestas e seguras. Que está a receber o juro mais elevado praticado no país. Como lhes interessa ter a garantia que sempre que o Governo decrete ajustamento salarial e de pensões, a decisão é cumprida. Isto porque, ao que se pode provar, a partir de certo momento o INSS deixou de actualizar as pensões. Deixou de actualizar as pensões acima do valor da pensão mínima. Simplificando, o INSS está a actualizar todas as pensões apenas no valor correspondente à pensão mínima. A justificação, quando solicitada, é verbal. E, o argumento é de que o INSS não possui fundos para actualizar pensões mais altas do que a pensão mínima. Verdade ou mentira, cabe à nova auditoria esclarecer. E, também, saber quem deu à Primeira-Ministra a informação falsa, segundo a qual as pensões quando são pagas anualmente elas são actualizadas. Não é verdade que assim esteja a acontecer. Alguém mentiu à Primeira – Ministra. Qual a intenção da mentira, o que se pretende encobrir com a mentira, são questões que podem ser averiguadas. E, devem. Mas, e em última análise, mentir e fazer mentir é feio.

domingo, junho 08, 2008

o que mais há é dinheiro

Desvios de fundos, não são fenómenos novos. Querem aconteçam em instituições privadas, públicas ou do Estado. E, isto em Moçambique como em diferentes e muitos outros países. Pode é ser diferente a sua abordagem e a forma do seu tratamento. Até a sua definição. Por exemplo, hoje, no nosso país, parece ter passado a chamar-se rombo ao roubo. Não passa, naturalmente, de um eufemismo. Mas, e é muito provável que assim possa ser. Procura-se, então, distinguir duas categorias de crime. E de ladrões. Uma, o assaltante, o ladrão à mão armada. Seja a arma branca ou, como vulgarmente se diz, tipo pistola. A outra, o chamado ladrão de colarinho branco. No primeiro tipo de crime, impera a violência. Que pode ir até à morte do assaltado. Há tiros, há barulho, há sangue, há confusão. No segundo caso, trata-se de crime silencioso. Em muitos casos silenciado. Como se compreende, não ficaria bem equiparar um a outro tipos de crimes. E de criminosos. Sabemos, está escrito, em diferentes países da América Latina muitos dos chamados rombos foram, pura e simplesmente silenciados. Abafados. O FMI terá sugerido aos Governos locais para cobrirem os montantes roubados. De acordos com as suas políticas e os seus modelos de desenvolvimento. Ou seja, que o Estado deveria repor os montantes roubados. Com o dinheiro dos impostos. Em defesa do bom nome, da estabilidade e do prestígio dos defraudados. Ao que rezam as crónicas e os estudos e as investigações, a sugestão terá sido acolhida. Logo, tudo terminou em bem.


Em matéria de dinheiro desviado, aí temos mais um escândalo. Trata-se do rombo sofrido pelo Instituto Nacional de Segurança Social. Estimado em oito milhões de dólares norte-americanos. Dinheiro este descontado pelos trabalhadores moçambicanos. Ao longo de muitos anos. E que era suposto ter tido aplicações rentáveis. Por forma a terem assegurada um pensão condigna. Mas não. Não será bem assim. Grande parte do dinheiro descontado pelos trabalhadores e pelas respectivas empresas, terá ido parar às contas de uns tantos funcionários. Desonestos. Agora descobertos. Para que tal acontecesse, valeu a intervenção da Ministra do Trabalho. Ao mandar abrir e instaurar inquérito. Numa linha de actuação que tem vindo a seguir e que só pode merecer referência positiva. Tanto no plano ético, como no plano moral, como no da justiça e da justiça social. É este posicionamento correcto e consistente, coerente, que a obrigam a ter de ir mais além. Para assumir e dizer como e quem terá de repor os valores desviados. Roubados. De resto, sem um posicionamento claro, fica a dúvida se valerá a pena descontar para a Segurança Social. Tanto mais que a actualização das pensões é feita com base na pensão mínima. Não com base na pensão de cada um. Que corresponde e foi calculada em função do que cada um descontou. Neste campo, Moçambique será caso único. E exemplo de negação do que se entende por segurança e por justiça social. Cabe à Ministra repor essa justiça social. Para tanto, não falta dinheiro. A verdade dos factos diz que o que mais há é dinheiro.

domingo, junho 01, 2008

os valores que ditam aceitação e rejeição

Ele há coisas que me causam algum espanto. Que me levantam muitas dúvidas. Sobre o porquê assim. Uma delas, entre várias, diferentes e diferenciadas outras, é o das reduzidas tiragens de certos livros. Escritos por moçambicanos, sim. Sobre a cultura dos moçambicanos, também. Livros esses, obras essas que, penso, deveriam estar disponíveis em todo o país. Que deveriam estar acessíveis em tudo quanto é país. Moçambique, portanto. Mas não, não é possível. Melhor, possível é. Mas, assim não acontece. Apesar de considerar que deveriam ser de leitura obrigatória. Em certos círculos. Ditos, chamados, intelectuais. De estudo. De reflexão. Também, em escolas e universidades que leccionam a matéria. Ou não. Convenhamos, desde já, que editar 750 exemplares de um livro sobre a cultura de um povo moçambicano parece nada. Mas, infelizmente, até poderá vir a provar-se ser muito. O que significa que parte significativa da edição esteja destinada a apodrecer nas prateleiras das poucas livrarias onde venha a ser exposta. Muito por hipótese, apenas na cidade de Maputo. Esperar mais, poderá ser esperar muito. Mas, num momento em que se começa a assistir a um salutar movimento para reactivar e apetrechar bibliotecas, há que pensar o com quê. Com que tipo e com que género de livros.

Manifestei o meu espanto por um determinado livro ter merecido, apenas, a edição de 750 exemplares. Neste ano de 2008. Apesar de patrocinado por empresa nacional. Se assim não, provavelmente teria sido imprimido exemplar nenhum. Ora, o livro em questão tem como título “O povo macua e a sua cultura”. O autor é Francisco Lerma Martínez, missionário da Consolata. Actualmente, Superior da Casa Regional dos Missionários da Consolata em Maputo. Trata-se, como explica o autor, de um estudo e trabalho de campo realizado durante um período determinado no tempo e no espaço (Maúa e distritos limítrofes de Niassa, 1971-1985), e de um texto de tese doutoral. Teve, o autor, como colega de estudos, em Roma, o padre Filipe Couto. Actual Reitor da UEM. Da apresenta a esta 2ª edição da obra se encarregou Brazão Mazula, antigo Reitor da mesma UEM. Na introdução, procurando situar o âmbito e o espaço do seu trabalho, o autor escreve: Procurarei apresentar o povo macua a partir de onde comecei a conhecê-lo, o distrito de Maúa, província do Niassa, no norte de Moçambique (...) Foi aí que conheci alguns dos valores culturais deste povo, os quais procurarei transmitir neste trabalho. Se o objectivo terá sido conseguido ou não, é tarefa de outros. Fica a mensagem de que se trata de um livro que muitos devem ler. E debater. Para entenderem onde acaba e onde começa tradição e a modernidade. Onde tradição e modernidade são afluentes ou confluentes. Quais os valores que ditam aceitação e rejeição.

domingo, maio 25, 2008

o melhor é mesmo perder a memória

Por vezes, a memória não resiste ao tempo. Ao tempo que passou. Que vai passando. E, se isso acontece, se isso pode acontecer, com testemunhas ou declarantes em sede de Tribunal, também pode assim suceder com o jornalista. No caso concreto, prejuízo nenhum acarreta recordar ou não a data do acontecido. Recordar ou não recordar a semana o mês e o ano do acontecido. Importa, isso sim, saber que aconteceu. E, de facto aconteceu. Foi neste mesmo espaço, em tempo sem memória de data, que se escreveu o que se escreveu. Talvez nem uma nem única vez. E, o que se escreveu, neste espaço, está escrito. Consta de arquivo. Talvez recordar que o que foi escrito em tempo passado, foi que Aníbal dos Santos Júnior não havia fugido da prisão. Foi que, por estas ou por palavras diferentes, que lhe haviam abertos a porta para sair. Ou, se se preferir, que o haviam mandado sair. Quem e porquê o possa ter feito, era secundário. À data do escrito. Embora fosse evidente. Mais do que evidente, o quem e o porquê. Hoje, passados anos, depois de um julgamento à revelia e outro presencial, é o próprio condenado que nos vem dizer: Eu nunca escapei. Eu era sempre retirado. (Magazine, 21 de Maio de 2008).


As declarações que têm vindo sendo feitas no decorrer do julgamento do chamado “Caso Albano Silva podem causar algumas preocupações. Levantar dúvidas, até. E, muitas. Uma das dúvidas é, até que ponto as revelações feitas nas últimas semanas em Tribunal podem ou não fazer rever processos e repetir julgamentos. Transitados em julgado ou não. Isto é, até que ponto, em nome da Justiça, se deve ir mais além para fazer Justiça. E, para desmentir ou confirmar afirmações repetidas, tantas vezes feitas. Segundo as quais, há presos que deviam estar fora da prisão e há quem estando em liberdade deveria estar detido. Depois, por fim, para concluir, parece ser importante esclarecer um outro e não menos importante aspecto. É o do assassinato de Siba-Siba Macuácua. Logo se existe, ou se existiu, ligação alguma entre a forma como o dinheiro foi retirado, dos cofres de uma e de outra instituição bancária. Ou seja, dos extintos Banco Comercial de Moçambique e Banco Austral. Há, em todos este processos, muitas áreas de penumbra. Daí as dúvidas sobre onde começa e onde acaba o crime organizado. Ou, até, se ele existe. Que há quem não poupe esforços, nem dinheiro, para fazer divulgar as suas posições em jornais da praça, é um facto. E entre perder a vida e perder a memória, o melhor é mesmo perder a memória

domingo, maio 18, 2008

deixem trabalhar quem quer trabalhar

De tempos em tempos surgem, entre nós, notícias que muito bem nos poderiam deixar alarmados. Preocupados. Mas não, não devem. Não haverá razão, não haverá motivo para tanto. É que, aparentemente, tentam ser denúncias. Denúncias do que se pretende sejam ilegalidades. Denúncias do que se pretendem sejam violações de direitos consagrados universalmente. Por convenções. Mas, as convenções são isso mesmo. São convenções. São convénios. São acordos de princípios. Não são leis. Salvo quando inclusas no ordenamento jurídico interno de um Estado. Assim, as denúncias, muitas dessas pretensas denúncias de pretensas violações podem não ter em vista a defesa dos direitos dos hipotéticos violados. Podem ter objectivos outros. Em completo alheiros aos seus interesses, como pessoas, e ao interesse nacional. Serão, então, denúncias fomentadas e alimentadas por interesses outros. Como começa a tornar-se frequente. Demasiado habitual. Passam uns bons pares de anos, recordo, foi noticiado um caso de prostituição infantil em Chimoio. Que envolvia soldados das Nações Unidas em missão de paz. Notícia que, nas custou perceber, na época, terá sido incentivada por quem queria impor-nos determinados valores morais. Falsos. De falsa moral. Ou, na pior das hipóteses, assentes em premissas falsas. Valeu, na altura, a corajosa intervenção do actual Ministro das Obras Públicas e Habitação. À época governador provincial. Ao explicar que não se tratava de crianças mas de adolescentes. E, por aí em diante. Com argumentos suficientemente convincentes. Para se perceber, para alguns terem percebido, que a moral não é um valor em absoluto. Que não é um valor em si. Ou, se assim, convenhamos, não passa de um valor relativo. Ou variável.


Já muito depois, passemos ao recentemente. Ao hoje. Ao tempo em que há por aí uns tantos de híbridos e de híbridas que, a coberto de capas de bem fazer, vieram em frente com campanhas a favor do coitadinho. E, o coitadinho é o miúdo ou o jovem que, em mercados ou junto de estabelecimentos comerciais, se propõe transportar compra de quem comprou. A troco de algumas moedas. Não, não se pode ver mal nisso. Ninguém de boa fé pode ver como mal a prestação de um serviço a troco de pagamento. Já no plano inverso, sim. A concepção de coitadinho e a expressão estamos aqui para ajudar, só queremos ajudar, comportam profunda carga racista. Pode ser, e será, involuntária. Inconsciente, até. Mas é, objectivamente, um posicionamento racista. Primário. Ainda esta semana (quarta-feira), o jornal “Notícias” escrevia que “Orfandade propicia mão-de-obra infantil”. E relatava o caso de alguns jovens, dos seus 13 anos, que, na cidade da Beira, vendem ovos para apoiar o sustento familiar. Ora, se os jovens fazem negócio por conta própria, como parece ser o caso, tem mal nenhum. E deveria, isso sim, ser louvada a sua iniciativa. Como deveriam ser divulgadas, enaltecidas e encorajas todas as iniciativas de trabalho. Individual e colectivo. Afinal, do que mais precisamos são de incentivos ao trabalho socialmente útil. Continuamos, cá entre nós, com muitos pruridos importados sobre o trabalho. Uma vezes são as crianças, outras as mulheres, outras ainda a defesa de interesses mesquinhos. Tudo, no conjunto, para impedir de trabalhar quem pretende trabalhar. E, objectivamente, em defesa, não dos direitos de quem trabalha mas de direitos inversos. Então, deixem trabalhar quem quer trabalhar.

domingo, maio 11, 2008

uma linguagem moderada

Parece que já não restam muitas dúvidas. Talvez nenhumas. É que estamos perante um crise alimentar. E, uma crise global. Não uma crise circunscrita. Não uma crise limitada a determinados países ou a determinadas regiões. Não uma crise anunciada. Não uma crise que há-se ou pode vir. Estamos perante uma crise. Que é real, já nos nossos dias. E que poderá levar à morte de muitas centenas de milhões de seres humanos. Uma crise que, segundo o Secretário-Geral das Nações Unidas, se não for tratada adequadamente (...) pode-se desdobrar em múltiplas crises afectando o comércio, o desenvolvimento e mesmo a segurança sócio-política do mundo. A subsistência de centenas de milhões de pessoas está ameaçada. Na opinião de Ban-Ki-moon seria importante estimular o desenvolvimento agrícola, particularmente em África e noutras regiões mais afectadas. Por isso, devem ser tomadas medidas que facilitem o acesso de pequenos produtores rurais a sementes, fertilizantes e outros insumos. De resto, esta crise não começou do nada. Cresceu de mais de uma década de negligência e de políticas ineficazes de desenvolvimento. Precisamos recomeçar, segundo escreve o jornal “Notícias” na sua edição de 7 do corrente.


Perante as notícias que nos chegam, todos os dias, a conclusão a tirar é a de que estamos perante uma crise alimentar geral. Global. Que já se manifesta em diferentes países e região do mundo. Também em Moçambique. Como parece óbvio. Que temos que produzir mais comida, que temos que produzir maior quantidade de produtos agrícolas no mesmo espaço de terra, sim. Concordemos que sim. Digamos que, em boa hora, a Revolução Verde foi lançada com esse objectivo. Um objectivo que, sem reservas, todos temos o dever de apoiar. Mas, digamos, também, que a Revolução Verde não é, nem pode ser, um processo voluntário. Um processo voluntarioso. Caso contrário, deixaria de ser revolução. De resto, das revoluções verdes bem sucedidas, podemos citar um exemplo. O da Índia. País onde às pachorrentas vacas sagradas era concedido o direito de fazerem parar o trânsito. E onde, a partir de certa altura, foram, obrigatoriamente encurraladas pelos seus donos. Caso não, o Estado assumiu o direito de as abater. Mesmo indo contra hábitos e tradições ancestrais. Contra mitos, tradições e tabus. Uma revolução, seja ela rotulada de verde, cultural, amarela ou azul é, sempre e inevitavelmente, um processo violento. Mas legítimo. Não se faz através de lei nem de decreto. E, como processo, pode ser mais ou menos longo. Mas, não um processo ligeiro ou que possa ser aligeirado. Ora, num contexto de crise alimentar global, o que não devemos é criar falsas expectativas. Criar ilusões. E vir dizer, como já se houve dizer, que podemos vir tirar benefícios dessa crise. Não podemos e, infelizmente, não haveremos de retirar. Em diferentes graus, a crise irá afectar ricos e pobres. Muito menos uns, muito mais outros. Mas, sem dúvida, a gravidade e a dimensão do problema aconselha à ponderação. À reflexão. À calma e a uma análise objectiva e realista. Sobretudo, também, a uma linguagem moderada.

domingo, maio 04, 2008

um modelo desadequado à realidade

Começou o Primeiro de Maio por ser uma data e um símbolo da luta dos trabalhadores. Luta por melhores condições de vida, por melhores salários. Por salários considerados mais justos e, também e fundamentalmente, pela redução do número de horas de trabalho. Digamos, para ser mais concretos, por uma jornada de oito horas diárias de trabalho. Feriado Nacional em alguns países, o Primeiro de Maio sempre foi dia escolhido para manifestações em outros. Desfiles grandiosos ali, dia de repressão aqui. Como se o capital pudesse ter finalidades diferentes. Objectivos diferentes. Em sistemas sociais diferentes. Sistemas sociais, sim. E, entenda-se, o socialismo, até prova em contrário, nunca terá sido um sistema económico. Terá sido um sistema social. Talvez possa não ter sido mais do que uma utopia. No mínimo, e no longo prazo, não conseguiu afirmar-se nem encontrar forma, ou fórmula, para distribuir a riqueza produzida de forma equitativa. Mais justa. Ou não quis, ou não o quiseram os homens. Então, ao que se sabe hoje, nunca esteve ausente nos modos de produção de qualquer país do mundo. Que o socialismo não terá sido mais do que um capitalismo de Estado. E que, passada essa fase, aí temos hoje uma China e uma Índia a disputarem a partilha de quanto se lhes apresenta essencial ao seu desenvolvimento. Desde o petróleo às terras cultiváveis, desde os mercados comerciais aos mercados de trabalho. É que crescer, já cresceram o suficiente. Agora, estão a lutar por se desenvolver.


Em termos de comemorações do Primeiro de Maio, Moçambique poderá ter sido modelo. Em anos seguintes e próximos da independência. Foram grandes e grandiosas as manifestações. Concorridos os comícios. E, diga-se em abono da verdade, ia quem queria ir. Participava quem queria participar. Mesmo quando possa afirmar-se que era obrigatório estar presente, já não era obrigatório mostrar alegria. Nem acenar com bandeiras e com dísticos. Entender que assim foi, implicar recuar no tempo. Situarmo-nos no tempo. Em que a maioria das empresas haviam sido privatizadas. Eram pertença do Estado. A esta fase, decorridos anos, sucedeu uma outra. O que terá, inevitavelmente, provocado um diferente posicionamento dos trabalhadores. E, àquilo que terão sido o que se chamou jornadas de festa e de luta, sucederam-se, apenas, jornadas de luta. Se justa ou não, é outro aspecto. Neste contexto, parece pertinente colocar a questão de saber se o actual modelo de comemorações é válido. Se é justificável. Se é, como se gosta de dizer, sustentável. Se, numa sociedade capitalista, como a nossa, faz sentido presidirem às comemorações do Primeiro de Maio membros do Governo, sindicalista, empresários. Muito provavelmente, estaremos perante um modelo ultrapassado. Digamos, um modelo desadequado à realidade.

domingo, abril 27, 2008

o acessório não passa de negócio cueca

Maputo era, ainda, Lourenço Marques. E, na então capital da colónia, imperou, durante algum tempo, a lei de um assaltante, de um criminoso. Que era conhecido por “Zeca Russo”. Para alguns e, muito para algumas, descrentes com o rumo que o sistema colonial estava a seguir, tratava-se de um “justiceiro”. E, se assim o diziam, era por assim acreditarem. Diziam, recorde-se, roubava aos ricos para dar aos pobres. Sua mãe, então a residir num primeiro ou segundo andar de prémio situado na Rua da Sé, pensava igual. Para não dizer melhor. Saber do filho e da vida que o filho levava, sabia pouco. Mesmo nada. Há data dos acontecidos actos do jovem também tinha idade para pouco se preocupar. Para nos situarmos no tempo, digamos que passam mais de 35 anos. Aconteceu, porém, certo dia, ter cometido algum erro. Ao tempo do acontecido, houve quem tivesse falado em traição. Em cumplicidades com polícias. E, daí terá “Zeca Russo” sido capturado. E preso. Herói como era considerado por alguns, o “7 de Setembro” permitiu-se adquirir as liberdade e o ser passeado em viatura aberta pelas ruas da cidade. Os acontecimentos futuros permitiram que viesse a adquirir elevado estatuto na então Polícia de Investigação Criminal. Ao tempo de um tristemente célebre director. Ou, um director de triste memória. Então, com o estatuto ganho, voltou às tropelias do antigamente. Lançava, quotidianamente, o terror pelas artérias da capital. No “seu”, roubado, descapotável amarelo. Continuava a roubar e, se necessário, a matar. Até que um dia, talvez cansado, de tanta monotonia, decidiu migrar para a África do Sul. Anos depois, chegaram notícias de ter sido morto. Tanto poderá ser verdade como não. É que, também pode ser acontecido ter, simplesmente, feito uma operação plástica para iludir as autoridades. E ter continuado a viver.


A história do jornalismo em Moçambique fez-se, muitas vezes, de alguns equívocos. Como pode estar a acontecer no presente. Ao conceder demasiados espaços ao crime e ao criminoso. Dando deste, e de ambos, uma imagem que pouco terá a ver com a realidade e com os factos conhecidos. Quando não, adite-se, dando demasiado espaço à exploração e à exposição do sórdido e do anti-social. Talvez, do que foi convencionado ser a moral e a ética. Poderá ser assim que, avançando tempo, chegados aos dias de hoje, aí temos, agora, um tal de “Anibalzinho”. Quase elevado à categoria de vedeta. E, quando se não pede o perdão para os crimes pelos quais já foi julgado, e condenado, já estivemos mais longe. Haverá, muito provavelmente, uma questão de pudor. Agora, o motivo pelo qual tem direito a tanto espaço informativo, continua incógnito. Continua mistério. Assim, também, da mesma forma, é estranho as atenções dadas, os espaços informativos que estão a ser concedidos a um tal Ziqo e a um tal Engrácio. Ou, como outros lhe chamam, Engrácia. Talvez, não devessem merecer tanta atenção nem tanto espaço informativo. Um e outros. Sob risco e pena de estarmos a criar mitos. A produzir novelas. No mau sentido. E, o que perece, definitivamente mau, a desviar as atenções do que é fundamental para o que não passa de acessório. E, aqui, convenhamos, o acessório não passa de negócio cueca.