Há, hoje, ao que parece, muitas definições para Revolução Verde. No saber, no conhecer e na simplicidade de Lina Magaia, Revolução Verde é produzir para comer. Guebuza não precisa de dizer como se faz a Revolução Verde. Ela faz-se produzindo (Magazine, 22 do corrente). Para mim, guardo uma visão, talvez, mais académica. Menos prática. Mais teórica. Passa por querer saber como se pode e se deve fazer esse produzir para comer. E se produzir para comer é uma primeira ambição, um primeiro objectivo, se se deve ficar por aí. Se não é necessário produzir para além das necessidades imediatas, básicas, primárias. Se não é preciso produzir excedentes. Se não é preciso produzir para o mercado. E, se para se produzir para o mercado, se torna imperioso ou não que esse mercado exista. Ora, se não existe, tem de ser criado. Logo, em paralelo com o aumento da produção e da produtividade, com a criação de excedentes, não podem ser ignorados os meios e os mecanismos que permitam a troca. O funcionamento do mercado. Mas, convenhamos, a Revolução Verde não é um processo mecânico nem mecanicista. Não se limita à mera produção de produtos agrícolas. Passa pela sua transformação. Passa pela produção animal. Pela abertura e melhoramento das vias de circulação. Pelos meios de circulação. Pela expansão dos meios de comunicação para os centros urbanos rurais. Como o telefone, a rádio, a televisão. Exige, sem dúvida e por último, uma forte intervenção do Estado. Aos mais diversos níveis. A começar pela tentativa de quebrar resistências à mudança. A começar pela tentativa de alteração de hábitos e de costumes, que se verifiquem como entraves ao processo. Que é global.
Nesta semana que terminou, Maputo acolheu mais uma reunião da Via Campesina. Ao que parece a primeira em África. Esta organização foi criada em 1992. Trata-se de um movimento autónomo, pluralista, mas com ligações políticas e económicas. A avaliar pelos pronunciamentos públicos feitos na capital moçambicana, é contra a Revolução Verde. Reprova a Revolução Verde. Ao que parece e pelo que se ouviu, de forma absoluta e radical. Fundamentalista. O que não poderá conduzir a nada de bom nem de positivo. Aconselha o saber feito de experiência que se deve ser mais ponderado. Mais pragmático. Ora, que se seja contra uma revolução verde feita à base de sementes geneticamente modificadas, todos somos. Porque, para além de outras questões, deixa o camponês dependente de novas sementes em cada sementeira. Ou seja, dependente de multinacionais para quem a fome dos camponeses é o objectivo do seu negócio. Mas, atenção. Uma coisa é ser-se contra uma revolução verde feita à base de sementes geneticamente modificadas. Outra, é ser-se contra a Revolução Verde. Nós por cá, nós em Moçambique, somos a favor da Revolução Verde.
domingo, outubro 26, 2008
domingo, outubro 19, 2008
somos potenciais alvos dos criminosos
Com certa regularidade, a Polícia vem a público informar o que foi a actividade criminosa em determinado período de tempo. Ou num certo espaço geográfico. Quase, ou sempre, vem prestar essa informação em determinado ou certo dia da semana. Sempre à mesma hora e no mesmo local. Como acontece com as missas dominicais. A que os crentes assistem, um pouco por todo o país. Ou a que se obrigam a assistir. Porque querem e a isso os move a sua crença. Já em termos de informação policial, em termos de informação sobre a segurança a ordem públicas, as coisas deveriam ser diferentes. Deveríamos saber mais, muito mais do que aquilo que nos é dado saber. E, em tempo útil. Enquanto não, continuaremos a saber do assalto aqui, do roubo além, depois, muito depois de consumados. Em momento algum, que a memória recorde, terá havido notícia da antecipação da actividade policial. E que terá vindo a público dizer isso mesmo e aconselhar os cidadãos sobre a forma de se protegerem. De se precaverem de assaltantes e de ladrões. Fornecendo, inclusive, números de telefones para chamadas de emergência. Numa acção diária e concertada. Repetida. Através de jornais, de rádios, de televisões. Que é, que devia ser assim, ninguém o ignora. Se não é feito assim, talvez seja porque outros e diferentes interesses se levantam. Porque outras e mais altas vozes se fazem ouvir. Ou escutar. Ou são ouvidas.
Parece haver alguns tipos de crime em relação aos quais a Polícia está a evitar reportar. Divulgar dados, números e contornos. A chamar a atenção. A alertar o cidadão para que este se possa precaver e evitar ser vítima de bandos criminosos. Repito, de bandos de criminosos. Que estão e continuam a actuar, impunemente, na capital do país. Trata-se de casos que, não tendo sido divulgados publicamente, foram reportados à Polícia. Que aconteceram. E, acontecerem á relativamente bastante tempo, como estão a acontecer no presente. Como estão a repetir-se no presente. São os casos de indivíduos que, em certas zonas da cidade, se atiram contra viaturas em movimento. E que simulam terem sido atropelados. A partir daí, choram e clamam por socorro. Simulam fracturas múltiplas. Umas vezes nas pernas. Outras nos braços. Outros, contusões no tórax. Querem ser, todos eles, transportados até ao hospital na viatura que dizem os ter atropelado. Mas, não sós. Na companhia de amigo pedestre que, entretanto, chega local. Ou de amigo que, por “acaso” passava na sua viatura. Quando descoberto no Hospital, se aí consegue chegar, o vigarista ensaia a fuga. A Policia sabe que está a acontecer assim. Sabe e tem provas de vários casos protagonizados pelo mesmo indivíduo no espaço de poucos dias. Em diferentes pontos de Maputo. Sabe que um mesmo indivíduo simulou ter sido atropelado num espaço de poucos dias. Terá registos das ocorrências. Se fez alguma coisa para o neutralizar, será segredo policial. Como sempre acontece. Que fez coisa nenhuma para evitar possíveis novas vítimas, fez. Quer dizer, não fez. Mas, para além de não ter feito, como habitualmente não faz, ou faz mal, evitou alertar o cidadão para os novos processos utilizados pelos criminosos. Daqui resulta, em último, que todos nós somos potenciais alvos dos criminosos.
Parece haver alguns tipos de crime em relação aos quais a Polícia está a evitar reportar. Divulgar dados, números e contornos. A chamar a atenção. A alertar o cidadão para que este se possa precaver e evitar ser vítima de bandos criminosos. Repito, de bandos de criminosos. Que estão e continuam a actuar, impunemente, na capital do país. Trata-se de casos que, não tendo sido divulgados publicamente, foram reportados à Polícia. Que aconteceram. E, acontecerem á relativamente bastante tempo, como estão a acontecer no presente. Como estão a repetir-se no presente. São os casos de indivíduos que, em certas zonas da cidade, se atiram contra viaturas em movimento. E que simulam terem sido atropelados. A partir daí, choram e clamam por socorro. Simulam fracturas múltiplas. Umas vezes nas pernas. Outras nos braços. Outros, contusões no tórax. Querem ser, todos eles, transportados até ao hospital na viatura que dizem os ter atropelado. Mas, não sós. Na companhia de amigo pedestre que, entretanto, chega local. Ou de amigo que, por “acaso” passava na sua viatura. Quando descoberto no Hospital, se aí consegue chegar, o vigarista ensaia a fuga. A Policia sabe que está a acontecer assim. Sabe e tem provas de vários casos protagonizados pelo mesmo indivíduo no espaço de poucos dias. Em diferentes pontos de Maputo. Sabe que um mesmo indivíduo simulou ter sido atropelado num espaço de poucos dias. Terá registos das ocorrências. Se fez alguma coisa para o neutralizar, será segredo policial. Como sempre acontece. Que fez coisa nenhuma para evitar possíveis novas vítimas, fez. Quer dizer, não fez. Mas, para além de não ter feito, como habitualmente não faz, ou faz mal, evitou alertar o cidadão para os novos processos utilizados pelos criminosos. Daqui resulta, em último, que todos nós somos potenciais alvos dos criminosos.
domingo, outubro 12, 2008
Assim haja vontade
A corrupção não é fenómeno típico nacional. Moçambicano. Existe por aí. Existe pelo mundo fora. Embora revestido ou vestido com as mais diversas e diferentes roupagens. As mais diversas formas de camuflagem. A corrupção, pode ser comparada a uma hidra. Está e vive onde há dinheiro. Começa onde há dinheiro. Acaba quando acaba o dinheiro. Mas, como dinheiro nunca acaba, apenas muda de mãos ou de local, ensaia transformação. O que se passa no sector das estradas, pode ser apenas um caso. Talvez exemplar. Como parece ter confirmado a 7ª Reunião Anual da Associação dos Fundos de Manutenção de Estradas em África. Esta semana realizada em Maputo. E, no decorrer da qual terá havido consenso entre os participantes que a corrupção nos concursos públicos para obras de manutenção de estradas constitui uma séria ameaça para as economias de muitos países africanos por conduzir ao descaminhos de elevadas somas do erário público. (Notícias de 8 do corrente). E, a local adianta que uma das propostas apresentadas vai no sentido de os países africanos simplificarem os procedimentos que regem a gestão dos concursos públicos, o que pode ser alcançado através da redução do número de pessoas envolvidas tanto na negociação como na celebração dos contratos. Acreditamos e aceitamos que a proposta tenha sido elaborada por sábios. Só que os tais procedimentos, muitas das vezes, são impostos pelos doadores. E, havemos, também, de reflectir que entre os doadores não há sempre nem só homens puros, Honestos, Também os há com as suas fraquezas. Com os seus fracos pelo dinheiro. Quer dizer, menos sérios, menos honestos. Talvez, até e em última análise, desonestos. Corruptos.
Em termos de corrupção e de desvios de dinheiro do Estado, continuamos sem motivos para alegria nenhuma. Muito pelo contrário. Primeiro, foram as detenções relacionadas com o chamado “Caso dos 220 milhões do MINT”. Até ao presente sem grande evolução. Depois, agora, muito se escreve sobre a forma de gestão da empresa Aeroportos de Moçambique. A serem verdadeiros os dados e os números divulgados, estamos perante um escândalo. Mais um. Envolvendo, neste caso, figuras que se consideravam de reputadas. Acima de qualquer suspeita. Figuras a que alguns chamam de colunáveis. Possa acontecer, por hipótese, que paguem para o ser. Ou o parecer ser. Mas, isso, até pouco importa. Serão questões menores. A questão de fundo, é muito outra. É a de saber o destino a ser dado aos bens que possam ter adquirido com o dinheiro que constitui motivo de detenção. É a questão de saber se, acaso condenados e depois de cumprida a pena, continuam na posse e beneficiar dos bens adquiridos com dinheiro obtido de forma ilegal. Ou se, pelo contrário, quando comprovado o desvio de fundos, esses bens revertem para o Estado. De resto, já é tempo de se investigarem muitos sinais exteriores de riqueza. Capacidade para tanto parece existir. Assim haja vontade.
Em termos de corrupção e de desvios de dinheiro do Estado, continuamos sem motivos para alegria nenhuma. Muito pelo contrário. Primeiro, foram as detenções relacionadas com o chamado “Caso dos 220 milhões do MINT”. Até ao presente sem grande evolução. Depois, agora, muito se escreve sobre a forma de gestão da empresa Aeroportos de Moçambique. A serem verdadeiros os dados e os números divulgados, estamos perante um escândalo. Mais um. Envolvendo, neste caso, figuras que se consideravam de reputadas. Acima de qualquer suspeita. Figuras a que alguns chamam de colunáveis. Possa acontecer, por hipótese, que paguem para o ser. Ou o parecer ser. Mas, isso, até pouco importa. Serão questões menores. A questão de fundo, é muito outra. É a de saber o destino a ser dado aos bens que possam ter adquirido com o dinheiro que constitui motivo de detenção. É a questão de saber se, acaso condenados e depois de cumprida a pena, continuam na posse e beneficiar dos bens adquiridos com dinheiro obtido de forma ilegal. Ou se, pelo contrário, quando comprovado o desvio de fundos, esses bens revertem para o Estado. De resto, já é tempo de se investigarem muitos sinais exteriores de riqueza. Capacidade para tanto parece existir. Assim haja vontade.
domingo, outubro 05, 2008
não podemos viver na ambiguidade
O país que somos, parece viver sob a lógica da contradição. Ou sob o síndroma da contradição. Talvez nem seja o país. Não o é. Com toda a certeza. Será apenas uma parte do país. Uma parte pequena. Talvez ínfima. Digamos que a elite. Mas, muito provavelmente, nem ela. Nem toda ela. Que seja, então, apenas uma parte dela. E, uma parte da parte que lê e escreve para jornais. Que se pode fazer ouvir nos audiovisuais. O que leva a ter de colocar a questão se. E, se, como. Ou seja, se essa minoria, se esses tantos poucos, possui capacidade para exercer influência, para influenciar os outros. Para influir na maneira de pensar dos outros. Não só na maneira de pensar. Também na maneira de agir e de se comportarem. Trata-se de um exercício difícil de resolver. De solucionar. O que não significa que não possa ser resolvido. Ou que não tenha solução. Em teoria, nada é impossível. Em teoria não há impossíveis. Da mesma forma que havemos de reconhecer que quanto sabemos e conhecemos, resulta de descobertas. Não de invenções. De descobertas do existente e, até então, por descobrir. Amanhã, depois, poderá ser diferente. Até ao presente, até ontem, foi assim. Foi convencionado que devia ser assim.
Temos o raro condão, talvez o mérito de desejar, de pedir, hoje, o que recusamos amanhã. Possa até nem ser mérito. Possa ser demérito. Hoje, clamamos pelo combate à corrupção. Dizemos que queremos saber quem se apropriou de bens alheios. De bens e de dinheiro do Estado. Em proveito próprio. Amanhã, quando nos apresentam nomes, dizemos não. E, se facto são esses os supostos, deixem-nos em liberdade. Parece ser o que está a acontecer. Parece ser o que se está a passar perante a detenção de uma dezena de funcionários do Estado. Não de um estado qualquer. Do nosso Estado. Que parece estar a provocar alguma intranquilidade. Algum receio, algum medo. Não questionamos. Parece que se perdeu a capacidade de raciocínio. Ninguém pergunta, ainda ninguém perguntou, quantos postos de saúde ou quantas salas de aulas podiam ter sido construídos com o dinheiro desviado. Quantas motas e quantos carros, quantos sistemas de comunicações ou quantos pares de fardamento poderiam ter sido adquiridos com o dinheiro desviado. Até prova em contrário, parece ter havido desvio de dinheiro do Ministério do Interior. Quem desviou ou quem não desviou, é outra questão. De concreto, sem possibilidade para desmentido, é ter havido desvio de fundos do Estado. Perante esta realidade, coloca-se uma segunda. Que é a de não se acreditar na Justiça quando não tenta fazer Justiça. E de não se acreditar na Justiça quando tenta fazer Justiça. Estamos, sem dúvida, perante uma contradição. Que não é aparente e pode ser resultante de conflitos de interesses. Ou de acções programadas de desinformação. O que parece claro e concreto, é que não podemos viver na ambiguidade.
Temos o raro condão, talvez o mérito de desejar, de pedir, hoje, o que recusamos amanhã. Possa até nem ser mérito. Possa ser demérito. Hoje, clamamos pelo combate à corrupção. Dizemos que queremos saber quem se apropriou de bens alheios. De bens e de dinheiro do Estado. Em proveito próprio. Amanhã, quando nos apresentam nomes, dizemos não. E, se facto são esses os supostos, deixem-nos em liberdade. Parece ser o que está a acontecer. Parece ser o que se está a passar perante a detenção de uma dezena de funcionários do Estado. Não de um estado qualquer. Do nosso Estado. Que parece estar a provocar alguma intranquilidade. Algum receio, algum medo. Não questionamos. Parece que se perdeu a capacidade de raciocínio. Ninguém pergunta, ainda ninguém perguntou, quantos postos de saúde ou quantas salas de aulas podiam ter sido construídos com o dinheiro desviado. Quantas motas e quantos carros, quantos sistemas de comunicações ou quantos pares de fardamento poderiam ter sido adquiridos com o dinheiro desviado. Até prova em contrário, parece ter havido desvio de dinheiro do Ministério do Interior. Quem desviou ou quem não desviou, é outra questão. De concreto, sem possibilidade para desmentido, é ter havido desvio de fundos do Estado. Perante esta realidade, coloca-se uma segunda. Que é a de não se acreditar na Justiça quando não tenta fazer Justiça. E de não se acreditar na Justiça quando tenta fazer Justiça. Estamos, sem dúvida, perante uma contradição. Que não é aparente e pode ser resultante de conflitos de interesses. Ou de acções programadas de desinformação. O que parece claro e concreto, é que não podemos viver na ambiguidade.
domingo, setembro 21, 2008
a lógica do poder do soberano
Em edições da semana passada, pelo menos dois semanários dedicaram largos espaços ao tráfico. De pessoas e de drogas. Trata-se, como se sabe, de negócios milionários. Que datam de há muitos anos. Que têm raízes no tempo. E, da forma que questionam o que questionam, os semanários também podiam questionar mais. Podiam questionar, por exemplo, sobre o negócio do urânio enriquecido. Como podiam, também e noutra eventualidade, interrogar sobre a venda de motores de aviões e de helicópteros soviéticos. E, isto, apenas para sublinhar que o nosso país pode ser uma plataforma, uma placa giratória de negócios ilegais muito mais ampla do que aquilo que parece ser. Em relação aos dois textos dos dois semanários, uma coisa parece clara. Ambos apresentam dados, números, nomes de traficados e de possíveis traficantes. Ambos constituem um libelo acusatório. Pior. Ambos os textos, ambos os trabalhos jornalísticos, ao que se lê, terão sido elaborados, pelo menos em parte, com base em informações fornecidas pela investigação policial. Com base em dados fornecidos por quem o dever de investigar. E, de prevenir e de punir o crime organizado. Através de um trabalho profundo.
Possa ou não parecer repetitivo, é importante voltar a reflectir. Os negócios de seres humanos e de drogas podem colocar em questão a segurança do Estado. E, isto é apenas uma repetição do escrito em anterior. Por muito que possa parecer maldade, talvez seja apenas desconhecimento. A questão, a verdadeira questão, a questão de fundo, é que o Estado não está a fazer nada para se defender. Para se proteger das investidas das mafias do crime organizado. O nosso Estado parece estar a ficar cada dia mais frágil. Por vontade própria. Ou por vontades pessoais de alguns dos seus agentes. Para depois, por fim, nos virem dizer que de nada sabiam. Só que as coisas não são assim. Nunca foram assim. Possivelmente, nunca virão a ser assim. A segurança do Estado não é uma questão de nacionalidade. Nem de cueca. A segurança do Estado não assenta, unicamente, na Lei. O conceito ultrapassa a Lei. Vai para depois de Lei. Em termos práticos, necessita de legitimidade. Assenta na necessidade de uma lógica que possa dar legitimidade à Lei. E, essa lógica, só pode ser a lógica do poder do soberano.
Possa ou não parecer repetitivo, é importante voltar a reflectir. Os negócios de seres humanos e de drogas podem colocar em questão a segurança do Estado. E, isto é apenas uma repetição do escrito em anterior. Por muito que possa parecer maldade, talvez seja apenas desconhecimento. A questão, a verdadeira questão, a questão de fundo, é que o Estado não está a fazer nada para se defender. Para se proteger das investidas das mafias do crime organizado. O nosso Estado parece estar a ficar cada dia mais frágil. Por vontade própria. Ou por vontades pessoais de alguns dos seus agentes. Para depois, por fim, nos virem dizer que de nada sabiam. Só que as coisas não são assim. Nunca foram assim. Possivelmente, nunca virão a ser assim. A segurança do Estado não é uma questão de nacionalidade. Nem de cueca. A segurança do Estado não assenta, unicamente, na Lei. O conceito ultrapassa a Lei. Vai para depois de Lei. Em termos práticos, necessita de legitimidade. Assenta na necessidade de uma lógica que possa dar legitimidade à Lei. E, essa lógica, só pode ser a lógica do poder do soberano.
domingo, setembro 14, 2008
um negócio ilegal
Temos e vivemos num país que tem tendência para esquecer. Para o esquecimento. Óbvio é, que país não tem aqui o significado de espaço geográfico. Nem de território. Vai para além destas duas e de possíveis outras mais definições. País, aqui, são gentes, pessoas, homens e mulheres. Que ocupam e habitam esse território. Esse espaço geográfico. Moçambique, portanto. Ora, quando se diz que são os homens e as mulheres, não significa que estejamos perante um dado absoluto. Que sejam todos os homens e todas as mulheres. Não. Serão apenas uma parte do todo. Uma parte de todos os homens e de todas as mulheres. Mas, o que parece importante, é tratar-se da parte do todo que não devia esquecer. Que parece ter por dever não esquecer. Mas que por motivos não conhecidos, não esclarecidos, tende em tentar conduzir-nos para ou ao esquecimento. A tentar apagar das nossas memórias individuais o que devia ser motivo de investigação e de esclarecimento. Público. Cabal e convincente. Como já deve ter sido entendido, estamos a falar de casos recentes. Oficiais e públicos. Primeiro, dos jovens trazidos do norte para o sul do país. Transportados em condições desumanas. Para estudarem, cá no Sul. Depois, das jovens que uma tal de Diana fez transportar desde a Praia da Costa do Sol até à África do Sul. Onde terão sido internadas em bordéis. Por último, mas não necessariamente por fim, também nos foi dado a conhecer a situação de cerca de duas dezenas de jovens moçambicanos. Que viviam numa vivenda da cidade de Maputo. A expensas de cidadãos turcos. Que residiam ilegalmente em Moçambique. Que haviam entrado ilegalmente no país. Com naturais e indispensáveis cumplicidades locais. Ora, são todos estes casos recentes. Mas não esquecidos. E que, por questões de ética e de moral, importa não esquecer. Mas, também e sobretudo de soberania. E, de segurança do Estado.
Mais recentemente, foi noticiado que “Cinco menores terão sido raptados para a RAS” e que “Uma sexta criança conseguiu escapar de um mini-bus que as transportava” (Notícias de 10 do corrente). Neste, como em caso anterior, a denúncia dos raptos parte de uma das vítimas. Que terá conseguido escapar aos raptores. Segundo a versão da Polícia. Ao que parece, ao que se sabe, em nenhum dos casos terá havido investigação jornalística. Nem investigação independente. Para investigar este novo fenómeno. Que bem pode ter algo a ver a realização do Mundial de Futebol de 2010 na África do Sul. E que bem pode vir a transformar Moçambique num reservatório de prostitutas. Hoje, são suficientemente conhecidos os métodos e os processos pelos quais dezenas de crianças e de jovens oriundas de vários países, da América Latina, da Europa e de África entram em Espanha. Sobretudo raptadas na Nigéria e com recurso à feitiçaria, para as manter submissas. Recurso primeiro e último das mafias. O rapto de menores, de crianças, para os mais diversos fins, é, hoje um fenómeno universal. Um fenómeno que não pode ser tratado de forma ingénua. Por detrás do rapto de um criança, está sempre escondido um negócio, E, um negócio ilegal.
Mais recentemente, foi noticiado que “Cinco menores terão sido raptados para a RAS” e que “Uma sexta criança conseguiu escapar de um mini-bus que as transportava” (Notícias de 10 do corrente). Neste, como em caso anterior, a denúncia dos raptos parte de uma das vítimas. Que terá conseguido escapar aos raptores. Segundo a versão da Polícia. Ao que parece, ao que se sabe, em nenhum dos casos terá havido investigação jornalística. Nem investigação independente. Para investigar este novo fenómeno. Que bem pode ter algo a ver a realização do Mundial de Futebol de 2010 na África do Sul. E que bem pode vir a transformar Moçambique num reservatório de prostitutas. Hoje, são suficientemente conhecidos os métodos e os processos pelos quais dezenas de crianças e de jovens oriundas de vários países, da América Latina, da Europa e de África entram em Espanha. Sobretudo raptadas na Nigéria e com recurso à feitiçaria, para as manter submissas. Recurso primeiro e último das mafias. O rapto de menores, de crianças, para os mais diversos fins, é, hoje um fenómeno universal. Um fenómeno que não pode ser tratado de forma ingénua. Por detrás do rapto de um criança, está sempre escondido um negócio, E, um negócio ilegal.
domingo, setembro 07, 2008
Pensar e decidir diferente é direito fundamental
Desde há muitas décadas, que Moçambique se firmou como importante produtor de tabaco. De diferentes variedade. E, para além de produtor de tabaco, fabricante de cigarros. Com fábricas pertencentes a diferentes grupos económicos. Cada um disputando o crescente mercado interno e os mercados externos, com as suas diferentes marcas. Algumas das quais o tempo viria a tornar afamadas. Para além das fronteiras nacionais. Depois, terá sido o ocaso, como que um período de hibernação. O tempo, os tempos terão ditado uma nova ordem. Que ditado desde a falência, à morte, à resistência e ao ressurgimentos de plantações e de fábricas. A novos processos e a novas formas de produção de tabaco para o mercado interno e para a exportação. Com significativo peso, com não menor impacto social. No que respeita à criação de postos de trabalho e na melhoria das condições sociais e de vida de significativos segmentos da população. De uma população que se dedica à produção do tabaco e à sua transformação. Seja para o abastecimento da indústria nacional de produção de cigarros seja para a exportação. Hoje, como desde sempre o foi, em Moçambique, a produção de tabaco é uma cultura de rendimento. Uma cultura legal. Acarinhada e apadrinhada ao mais alto nível da governação.
O suplemento à última edição do “Magazine”, dá a conhecer vários aspectos da produção de tabaco em Moçambique. Da produção e exportação de tabaco por uma empresa sediada em Moçambique. Mais precisamente em Tete. E, os dados estão todos lá. São públicos. Vão desde os números de produção total de 1997 a 2008, que aumentaram mais de dez vezes. Como mostram os parciais e o total de trabalhadores que se beneficia da produção e da actividade transformadora do tabaco. Directa ou indirectamente. Não obstante esta realidade, para além desta realidade, que é a de uma cultura de rendimento que deveria ser incentivada, parece termos voltado a parar no tempo. A parar no tempo para defender interesses estrangeirados. Interesses que em nada têm a ver com a melhoria de vida do camponês, do agricultor moçambicano. Nem do cidadão, no geral. Desde aí, desde este servilismo, desde este vergar da espinha dorsal, foi menos de um passo. Nem chegou sequer a ser meio passo. E, um passo na direcção da falta de respeito e da violação dos direitos dos fumadores. Fumar, é um direito dos fumadores. Com a condição única de não importunarem e de não incomodarem quem não é fumador. Para tanto, deve o Estado regulamentar Lei que decidiu aprovar. Mas, até ao momento, assim não procedeu. O Estado, como pessoa de bem, como assim se pretende, não tem o direito de proceder por forma a como pretende proceder. Ou, como procede. Fumar, tomar café, tomar chá, beber refrigerantes, comer bolos, são, no essencial, direito dos cidadãos. Sejam ou não, todos eles, consumos que provocam hábito e habituação. Logo, vício. E, são. São todos eles produtos que provocam o vício do consumo. Com maior ou menor perigo para a saúde do cidadão. Ora, neste contexto, punir e penalizar, única e exclusivamente o fumador, é uma atitude extrema. Uma atitude de extremosa direita. O país real, o país que vota, o país que irá votar não se conforma nestes limites. De extrema e da extremosa direita. Que parece querer ter o direito de pensar e de decidir pelos outros. Por nós outros. Nesta como em variadas outras questões. Pensar e decidir diferente é direito fundamental.
O suplemento à última edição do “Magazine”, dá a conhecer vários aspectos da produção de tabaco em Moçambique. Da produção e exportação de tabaco por uma empresa sediada em Moçambique. Mais precisamente em Tete. E, os dados estão todos lá. São públicos. Vão desde os números de produção total de 1997 a 2008, que aumentaram mais de dez vezes. Como mostram os parciais e o total de trabalhadores que se beneficia da produção e da actividade transformadora do tabaco. Directa ou indirectamente. Não obstante esta realidade, para além desta realidade, que é a de uma cultura de rendimento que deveria ser incentivada, parece termos voltado a parar no tempo. A parar no tempo para defender interesses estrangeirados. Interesses que em nada têm a ver com a melhoria de vida do camponês, do agricultor moçambicano. Nem do cidadão, no geral. Desde aí, desde este servilismo, desde este vergar da espinha dorsal, foi menos de um passo. Nem chegou sequer a ser meio passo. E, um passo na direcção da falta de respeito e da violação dos direitos dos fumadores. Fumar, é um direito dos fumadores. Com a condição única de não importunarem e de não incomodarem quem não é fumador. Para tanto, deve o Estado regulamentar Lei que decidiu aprovar. Mas, até ao momento, assim não procedeu. O Estado, como pessoa de bem, como assim se pretende, não tem o direito de proceder por forma a como pretende proceder. Ou, como procede. Fumar, tomar café, tomar chá, beber refrigerantes, comer bolos, são, no essencial, direito dos cidadãos. Sejam ou não, todos eles, consumos que provocam hábito e habituação. Logo, vício. E, são. São todos eles produtos que provocam o vício do consumo. Com maior ou menor perigo para a saúde do cidadão. Ora, neste contexto, punir e penalizar, única e exclusivamente o fumador, é uma atitude extrema. Uma atitude de extremosa direita. O país real, o país que vota, o país que irá votar não se conforma nestes limites. De extrema e da extremosa direita. Que parece querer ter o direito de pensar e de decidir pelos outros. Por nós outros. Nesta como em variadas outras questões. Pensar e decidir diferente é direito fundamental.
domingo, agosto 24, 2008
um escândalo nacional
Trata-se de um fenómeno universal. Como o da fome. Aquilo que as crianças aprendem, nos primeiros anos de vida, em casa, com a família, esquecem. Quando entram na escola. A escola, quando a criança aí chega, providencia-lhe como que uma lavagem ao cérebro. Tenta apagar o que ela sabe. E, não dá continuidade ao seu saber e ao seu saber fazer. Não incentiva as suas tendências. Não procura valorizar nem investigar o que a criança tem de diferente. Nem de melhor. E, incentivar a diferença. Valorar e valorizar a diferença. Não. O que a escola tenta fazer, o que a escola faz com exemplar mestria, é mediocrizar. Mediocrizar o diferente, mediocrizar o génio. Fazer baixar o génio ao nível do sofrível. Quando não ao nível do medíocre. Por isso ou para isso, servem os planos e programas de ensino objectivamente medíocres. Neste campo, Moçambique pode não ser apontado como pioneiro. Mas, é exemplo. De resto, ao que se diz, latim e português arcaico a ninguém aproveitam. Como se diz que a criança, o estudante moçambicano é forçado a decorar matérias de valor nenhum e de utilidade nenhuma. Na sua vida prática. Por isso, assim parece, os resultados estão à vista. Acresce, que não se incentivam vocações nem o gosto pelo trabalho. Por uma profissão ou por uma carreira. Criam-se e alimentam-se, isso sim, mentalidades distorcidas. Daí, o síndroma do diploma. Pelo chamado canudo. Que as universidades, principalmente as públicas, têm o dever de ser as primeiras a combater.
Com “Resultados péssimos”, o “Notícias” de 15 do corrente titulava a sua principal local, referindo-se aos exames extraordinários. E, acrescentava que “Dos 44.525 avaliados da 12ª classe, apenas 21 por cento foi aprovado. Ao que parece, aqui, não estamos perante um desastre ou uma calamidade natural. Estamos, isso sim, perante um escândalo. E um escândalo, só, e só, nacional. Porque é escândalo nacional que, desses mais de 44 mil estudantes adolescentes e adultos, apenas pouco mais de nove mil tenham obtido notas para passar de ano. Quer dizer, de forma clara, os nossos impostos, os impostos que pagamos ao Estado, estão a ser mal geridos. Estão a ser geridos de forma manifestamente incompetente. E, perante a realidade dos números, importa tirar uma conclusão. De entre várias e muitas hipóteses possíveis. A primeira, é de que os estudantes não estudam. Que vão à escola apenas por ir à escola. A segunda, é a de que os programas de estudo não estão adequados à realidade nacional. A terceira, é a de que os professores não estão capacitados para ensinar as matérias que devem ensinar. Objectivamente, sejam quais possam ser as causas de um tão elevado número de reprovações, estamos perante um escândalo. E, este é um escândalo nacional.
Com “Resultados péssimos”, o “Notícias” de 15 do corrente titulava a sua principal local, referindo-se aos exames extraordinários. E, acrescentava que “Dos 44.525 avaliados da 12ª classe, apenas 21 por cento foi aprovado. Ao que parece, aqui, não estamos perante um desastre ou uma calamidade natural. Estamos, isso sim, perante um escândalo. E um escândalo, só, e só, nacional. Porque é escândalo nacional que, desses mais de 44 mil estudantes adolescentes e adultos, apenas pouco mais de nove mil tenham obtido notas para passar de ano. Quer dizer, de forma clara, os nossos impostos, os impostos que pagamos ao Estado, estão a ser mal geridos. Estão a ser geridos de forma manifestamente incompetente. E, perante a realidade dos números, importa tirar uma conclusão. De entre várias e muitas hipóteses possíveis. A primeira, é de que os estudantes não estudam. Que vão à escola apenas por ir à escola. A segunda, é a de que os programas de estudo não estão adequados à realidade nacional. A terceira, é a de que os professores não estão capacitados para ensinar as matérias que devem ensinar. Objectivamente, sejam quais possam ser as causas de um tão elevado número de reprovações, estamos perante um escândalo. E, este é um escândalo nacional.
domingo, agosto 17, 2008
os nossos interesses são os interesses do camponês moçambicano
Desde há muito anos que se fala na perda de parte da produção agrícola pelos camponeses. Quer dizer, os camponeses produzem. E, produzem para além das suas necessidades alimentares. Para além das suas necessidades alimentares básicas imediatas. Mas, depois, não possuem nem meios nem conhecimentos para conservar por longos períodos o excesso da sua produção. Seja ela qual seja. Assim como não conseguem fazer chegar esses seus excedentes agrícolas a outras e diferentes zonas do país. Seja devido à ausência ou ao mau estado das vias de circulação. Seja por motivo da falta de meios de transporte. Seja, ainda, que para além de uns e de outros, o preço do mercado é baixo. O preço no mercado de destino não compensa, não paga, não suporta os custos da produção. Por este e, provavelmente, por outros motivos, em algumas regiões do país há produção em excesso. E, que se estraga. Em outras, poderá haver fome. Há mortes devido à fome, em certas regiões do país. O que indicia estarmos perante um processo distorcido. Se assim, produzir mais, aumentar a produção é igual a perder mais dinheiro. Em termos de matemática, a lógica do camponês é inatacável. Por estes e, provavelmente por outros motivos, em algumas regiões do país a produção agrícola pode reduzir. Estamos, ao que parece, perante realidades antagónicas. O mercado, como todos o sabemos, não é perfeito. Logo, cabe ao Estado assumir o papel de regulador. Cabe ao Estado, seja através da garantia do preço de compra ao camponês, seja através de subsídios ou de isenções possíveis, tornar o preços dos produtos agrícolas competitivos e que compensem o esforço do camponês nacional.
A perda de excedentes agrícolas nacionais, situa-se em números alarmantes. Segundo o jornal “Notícias” (13 de Agosto corrente), o país perde, anualmente, um milhão de toneladas de comida. Produzida internamente. Com muito esforço. E, por certo, muito sacrifício. Esta quantidade de comida perdida representa cerca de 40 por cento da produção total do país. E do trabalho e do esforço de cerca de 3,7 milhões de camponeses. Trata-se, como se pode verificar, de números impressionantes. Talvez, até, chocantes. Mas que sendo verdadeiros, e tudo indica que sim, nos transportam para outra realidade. Ou, se assim se preferir, para uma outra dimensão da realidade nacional. A de que o problema de Moçambique não é um problema de produção. Que o problema da eliminação da fome não assenta, unicamente, no aumento da produção agrícola. Tem outros vectores, não menos importantes. O primeiro, passa por eliminar o conceito negativo de combate à pobreza. E criar e alimentar o conceito positivo de criação de riqueza. É que todos queremos ser ricos. Pelo menos queremos, hoje, viver melhor do que vivíamos ontem. Através do trabalho honesto. O segundo, é o que de parece esgotada toda a falácia que por aí se houve em nome do camponês. Que é tempo de deixar de se falar em nome do camponês. Para dar a palavra ao camponês. Em substituição do tempo de palavra que se dá, em salas com ar condicionado, a representantes de OGN´s. A que, como todos sabemos, o camponês não tem acesso. Nem, ao que se saiba, alguma vez manifestou interesse em ter. Este dualismo, esta dualidade, implica, obrigatoriamente, uma decisão. Que pode ser dolosa para quem tem o poder e o dever de decidir. Para decidir se opta pela continuação de projectos dispersos ou pela execução de um plano nacional. Que convenha aos interesses nacionais. Tenhamos que ao discurso de ocasião, se sobrepõem os interesses nacionais de longo prazo. Aqui residem os interesses do camponês nacional. E, os nossos interesses. Porque, os nossos interesses são os interesses do camponês moçambicano.
A perda de excedentes agrícolas nacionais, situa-se em números alarmantes. Segundo o jornal “Notícias” (13 de Agosto corrente), o país perde, anualmente, um milhão de toneladas de comida. Produzida internamente. Com muito esforço. E, por certo, muito sacrifício. Esta quantidade de comida perdida representa cerca de 40 por cento da produção total do país. E do trabalho e do esforço de cerca de 3,7 milhões de camponeses. Trata-se, como se pode verificar, de números impressionantes. Talvez, até, chocantes. Mas que sendo verdadeiros, e tudo indica que sim, nos transportam para outra realidade. Ou, se assim se preferir, para uma outra dimensão da realidade nacional. A de que o problema de Moçambique não é um problema de produção. Que o problema da eliminação da fome não assenta, unicamente, no aumento da produção agrícola. Tem outros vectores, não menos importantes. O primeiro, passa por eliminar o conceito negativo de combate à pobreza. E criar e alimentar o conceito positivo de criação de riqueza. É que todos queremos ser ricos. Pelo menos queremos, hoje, viver melhor do que vivíamos ontem. Através do trabalho honesto. O segundo, é o que de parece esgotada toda a falácia que por aí se houve em nome do camponês. Que é tempo de deixar de se falar em nome do camponês. Para dar a palavra ao camponês. Em substituição do tempo de palavra que se dá, em salas com ar condicionado, a representantes de OGN´s. A que, como todos sabemos, o camponês não tem acesso. Nem, ao que se saiba, alguma vez manifestou interesse em ter. Este dualismo, esta dualidade, implica, obrigatoriamente, uma decisão. Que pode ser dolosa para quem tem o poder e o dever de decidir. Para decidir se opta pela continuação de projectos dispersos ou pela execução de um plano nacional. Que convenha aos interesses nacionais. Tenhamos que ao discurso de ocasião, se sobrepõem os interesses nacionais de longo prazo. Aqui residem os interesses do camponês nacional. E, os nossos interesses. Porque, os nossos interesses são os interesses do camponês moçambicano.
domingo, agosto 10, 2008
A “revolução verde” implica a participação do camponês
Por vezes, por dias, em certas ocasiões, parece difícil escrever. Se escrever significa dizer coisas novas, diferentes, originais. Então, se não há, se não existe essa disposição, se não há essa capacidade, resta recorrer a quem sabe mais. A quem viveu, estudou e investigou. Mais. É o caso do repórter polaco Ryszard Kapuscinki, falecido no início de Janeiro de 2007. Do muito que escreveu, principalmente sobre África, conheci, li agora “Os Cínicos Não Servem Para Este Ofício – Conversas Sobre o Bom Jornalismo”. A primeira edição em língua portuguesa tem a chancela do Relógio D´Água, e é datada de Fevereiro de 2008. O curioso, talvez o mais curioso, é que tratando de um livro sobre jornalismo, também é um livro sobre África. Sobre os problemas de África. Ou de como o jornalismo, sobretudo o mau jornalismo, deforma a visão dos problemas reais de África. Ou, para ser mais claro e concreto, dos pobres de África. Ainda estamos na introdução ao livro a já Maria Nadotti escreve, em termos de dúvida. Talvez de provocação: Quem acredita na objectividade da informação, quando o único relato possível é “pessoal e provisório” (pag. 18)
Em resposta a uma questão que lhe foi colocada, o repórter responde (pag. 74): A meu ver, o desaparecimento do mundo camponês do globo é um dos grandes paradoxos do mundo contemporâneo porque produzimos uma quantidade de alimentos cada vez menor para uma população em contínuo crescimento. A eliminação do mundo camponês é um fenómeno sócio-económico à escala mundial, consiste num acto suicida global. O meu campo é África e posso dizer que se trata de um processo tipicamente suicida a que a humanidade por vezes se abandona: o continente que tem cada vez menos alimentos e cada vez mais habitantes está a eliminar a classe camponesa e está a fazei-lo muito rapidamente. Com efeito, uma grande parte da humanidade vive das ajudas, e com estas ajudas que estamos a enviar para o Ruanda e para outros países, estamos a criar uma situação trágica: uma classe parasita de refugiados à escala mundial, que são afastados das suas aldeias, dos seus campos, do seu gado, colocados nos campos de refugiados e alimentados pelas organizações mundiais – muitas delas são completamente corruptas – onde vai parar o nosso dinheiro e os nossos impostos. E, mais adiante: Estamos a criar, através deste louco mecanismo das chamadas organizações humanitárias, um problema enorme para a humanidade, eliminando a classe camponesa e tornando a classe camponesa cada vez mais dependente da burocracia das chamadas organizações humanitárias. Talvez seja útil acrescentar que durante os últimos 5.000 ou 7.000 anos de história escrita vivemos uma única história, que criámos e na qual participámos. Mas desde o desenvolvimento dos meios de comunicação, na segunda metade do século XX, estamos a viver duas histórias diferentes: a verdadeira e aquela criada pelos meios de comunicação. O paradoxo, o drama, o perigo residem no facto de que conhecemos cada vez mais a história criada pelos meios de comunicação e não a verdadeira. Por isso, o nosso conhecimento não se refere à história real, antes à história criada pelos meios de comunicação. O que, concluamos, sendo verdade é mau. É péssimo. Quando estamos, como estamos, como se terá percebido que estamos, a elaborar sobre a “revolução verde”, parece importante deixar claro dois aspectos: O primeiro, é que a “revolução verde” nunca poderá ter sucesso através da simples repetição do discurso do Presidente da República. Primeiro, pelos governadores provinciais. Depois, pelos administradores. E, por aí em diante. A “revolução verde” não se faz, nunca haverá de ter sucesso, através da repetição mecânica do discurso do chefe. Não se faz, nunca poderá ser feita, em nome do camponês. A “revolução verde” implica a participação do camponês.
Em resposta a uma questão que lhe foi colocada, o repórter responde (pag. 74): A meu ver, o desaparecimento do mundo camponês do globo é um dos grandes paradoxos do mundo contemporâneo porque produzimos uma quantidade de alimentos cada vez menor para uma população em contínuo crescimento. A eliminação do mundo camponês é um fenómeno sócio-económico à escala mundial, consiste num acto suicida global. O meu campo é África e posso dizer que se trata de um processo tipicamente suicida a que a humanidade por vezes se abandona: o continente que tem cada vez menos alimentos e cada vez mais habitantes está a eliminar a classe camponesa e está a fazei-lo muito rapidamente. Com efeito, uma grande parte da humanidade vive das ajudas, e com estas ajudas que estamos a enviar para o Ruanda e para outros países, estamos a criar uma situação trágica: uma classe parasita de refugiados à escala mundial, que são afastados das suas aldeias, dos seus campos, do seu gado, colocados nos campos de refugiados e alimentados pelas organizações mundiais – muitas delas são completamente corruptas – onde vai parar o nosso dinheiro e os nossos impostos. E, mais adiante: Estamos a criar, através deste louco mecanismo das chamadas organizações humanitárias, um problema enorme para a humanidade, eliminando a classe camponesa e tornando a classe camponesa cada vez mais dependente da burocracia das chamadas organizações humanitárias. Talvez seja útil acrescentar que durante os últimos 5.000 ou 7.000 anos de história escrita vivemos uma única história, que criámos e na qual participámos. Mas desde o desenvolvimento dos meios de comunicação, na segunda metade do século XX, estamos a viver duas histórias diferentes: a verdadeira e aquela criada pelos meios de comunicação. O paradoxo, o drama, o perigo residem no facto de que conhecemos cada vez mais a história criada pelos meios de comunicação e não a verdadeira. Por isso, o nosso conhecimento não se refere à história real, antes à história criada pelos meios de comunicação. O que, concluamos, sendo verdade é mau. É péssimo. Quando estamos, como estamos, como se terá percebido que estamos, a elaborar sobre a “revolução verde”, parece importante deixar claro dois aspectos: O primeiro, é que a “revolução verde” nunca poderá ter sucesso através da simples repetição do discurso do Presidente da República. Primeiro, pelos governadores provinciais. Depois, pelos administradores. E, por aí em diante. A “revolução verde” não se faz, nunca haverá de ter sucesso, através da repetição mecânica do discurso do chefe. Não se faz, nunca poderá ser feita, em nome do camponês. A “revolução verde” implica a participação do camponês.
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