domingo, março 29, 2009

Todos haveremos de ganhar com a alteração

Parece estar a transformar-se em prática, nos últimos tempos, a contestação pública à forma de gestão de diferentes empresas. Públicas umas, sociedades anónimas outras. Nos diferentes casos, são trabalhadores quem contesta formas, actos e processos de gestão. Terão as suas razões. Terão os seus motivos. As suas motivações. E, a ninguém assiste o direito impedir esses trabalhadores de manifestarem as suas opiniões sobre. A sua visão sobre forma outra e diferente de gestão da empresa para a qual trabalham. De resto, fazer confrontar ideias e processos de trabalho é, a todos os títulos, um exercício útil. Louvável. Já não o será tanto quando se caia na tentação da acusação. E, de acusar sem provas. Sem prova da acusação que é feita. Em alguns casos. Ou de acusação por coisa mesquinha. Como parece ser o que acontece em outros casos. Temos de convir que as empresas que prestam serviço público ou que têm papel social ficam enfraquecidas com estes processos. E, se assim, ninguém ganha ou beneficia com o processo. Talvez, como dizia amigo meu, estamos a correr o risco de não encontrar ninguém que, no futuro, aceite ser PCA.


Tentar acusar, afastar, varrer, tudo quando seja PCA, parece ser exercício periódico. Altamente desgastante. Perigosamente destrutivo. Estamos, de novo, perante esse vendaval. Mas um vendaval que não parece natural. E que tanto pode vir a durar muito como pouco tempo. Que tanto pode causar muitos como pouco estragos. Ora, ao que se sabe, todas as empresas onde se afirma haver má gestão ou gestão ruinosa têm Conselhos de Administração. Têm colectivos de direcção. Têm Conselho Fiscal. Têm auditoria interna. Têm auditoria externa, cuja actividade e pareceres custam pequenas fortunas. Sendo que, sem possibilidade de desmentido, existem todos estes mecanismos de controlo, de acompanhamento e de aconselhamento, talvez seja de questionar se não é o modelo de gestão dessas empresas que está ultrapassado. Desajustado da realidade. É que esse modelo, em certos casos, parece, ainda, tentar harmonizar métodos e práticas socialistas com uma realidade capitalista. O que não é possível. Nunca foi, nem nunca virá a ser. Capitalismo e socialismo, não são verso e anverso de uma mesma realidade. Não são contraditórios. São, ambos, realidades em planos diferentes. O que o socialismo fez não foi eliminar o lucro. Base do sistema capitalista. O que o socialismo tentou fazer foi, isso sim, que o lucro fosse apropriado pelo Estado. E não por privados. O que, efectivamente, conseguiu. O que já não conseguiu, com sucesso, foi fazer uma distribuição equitativa da riqueza produzida. Ora, ao que parece, muita da confusão que hoje existe, entre nós, deriva do facto de se tentar gerir uma economia de mercado com resquícios de processos socialista. Tal não é possível. Deve o Governo interferir. E, interferir no sentido de alterar a legislação. Se tal se apresentar como necessário. E apresenta. É. Todos haveremos de ganhar com a alteração.

domingo, março 22, 2009

Ultrapassar a vontade e os interesses da hierarquia castrense

A lista seria, necessariamente, longa. Digamos, mesmo, fastidiosa. A lista a que me refiro, clarifico desde já, é a lista dos golpes de Estado. E dos assassinatos políticos. Em África. Desde a data em que os territórios até então dominados pelas, então, potências coloniais europeias, passaram a ser governados por elites nacionais. Sob qual tenha sido a forma de governação escolhida. Para o caso em apreço, para o caso que importa agora, há duas situações. As mais recentes. Que podendo parecer diferentes são, exemplarmente, iguais. A primeira situação, foi a registada na Guiné-Bissau. Onde o Presidente da República foi assassinado por militares. Barbaramente assassinado. E, clarifique-se, esta declaração não contém qualquer juízo de valor. É independente de o Presidente poder ter sido bom ou mau governante. A segunda situação, registou-se aqui bem mais perto de nós. Em termos geográficos. Foi em Madagáscar. Onde não terá havido mortos. Onde não terá havido derramamento de sangue. Mas onde os militares terão forçado o Presidente a dissolver o Governo e a abandonar o poder. E a entregar-lhes a si, militares, o poder. Em ambos os casos, parece estarmos perante um tipo de democracia que não deve vir a fazer escola. Que não deve vir a constar, futuramente, em manuais e compêndios escolares. Por ser uma democracia que assenta na ponta das espingardas. Por ser a negação da democracia.


Na Guiné-Bissau, aconteceu logo após o assassinato do Presidente da República. Militares de elevada patente apareceram perante as câmaras de televisões. A dizer que o sucedido não era, exactamente, o que parecia ter sucedido. Que sim, que o Presidente da República tinha sido assassinado por militares. Mas que os militares não queriam tomar o poder. Não explicaram o que queriam os militares que assassinaram o Presidente. Muito menos quem foram ou a mando de quem actuarem. De abertura de inquérito, sequer vale a pena falar. Disseram, isso sim, sem terem conseguido explicar ou justificar, que não tinha sido golpe de Estado. Terão dito, segundo relatos da Imprensa, que não queriam o poder. E, a teoria dos militares guineenses parece ter encontrado seguidores. Mesmo para além do minúsculo e ingovernável Estado africano do Atlântico. Europeus houve, ao que se ouviu, que terão apadrinhado a tese. E que terão gasto precioso tempo a tentar justificar, sem glória nem virtude, que quando se assassina um Presidente de República não estamos perante um golpe de Estado. Eis quando, em Madagáscar, também os militares, também militares, decidem pressionar um Presidente eleito. A abandonar o poder. E decidem, como parece terem decido, fazer sentar na sua cadeira um outro cidadão. Não eleito. Mas que parece ser da sua simpatia. Não gostaria de estar, e não estou, ao lado daqueles que irão ter muita dificuldade para justificar a legitimidade da mudança de poder na Guiné-Bissau e em Madagáscar. Os contornos ou as motivações que levaram os militares a tomarem o poder podem ser diferentes. Agora, o que é visível é que em ambos os países foram militares que tomaram o poder. Se se tratou de golpe de Estado, de golpe palaciano ou de putche, a resposta virá com o tempo. De concreto, estamos a saber que há descontentamento entre os comandos militares africanos. Mas, a democracia tem se saber ultrapassar a hierarquia castrense. Ultrapassar a vontade e os interesses da hierarquia castrense.

domingo, março 15, 2009

Coitadas das mil crianças moçambicanas

Orgulham-se os portugueses de uma recente sua invenção. A que deram o nome de “Magalhães”. Talvez, por motivos que não vem aqui ao caso aprofundar, seja mais correcto dizer alcunha. De qualquer forma e para todos os efeitos, Magalhães passou, assim, a ser nome de computador. Ao que parece, barato e bastante acessível às crianças. Que foi especialmente construído a pensar nas crianças. Daí, o facto de, em pouco tempo, já cerca de 200 mil crianças portuguesas estarem a “navegar” no ou com o ”Magalhães”. Sem terem de enfrentar os mares e os perigos que o navegador teve de saber vencer. Que venceu. Ora, generosos como são, como sempre foram, quiseram portugueses fazer beneficiar da sua inovação crianças moçambicanas. Em número de mil. Vai daí, e sem terem tido necessidade de se deslocaram por mar, como sempre o fez Magalhães, vieram pelo ar. Foi por este meio e por via de empresa lusa, com interesses económicos em Moçambique, que aqui arribaram os primeiros portáteis “Magalhães”. E, como parece ser de bom tom, com direito a pomposa cerimónia pública. Cordial. Amistosa. Cá. Talvez não tão exuberante como a dispensada pelos habitantes de Inhambane aos primeiros navegantes portugueses que ali aportaram. E que lhes terá merecido o “elogioso” epíteto de “terra da boa gente”. Ora, voltando à referida cerimónia do tempo actual, terá sido não mais do que a justificação de que o justificativo para uma ampla cobertura jornalística da oferta. Do gesto que se pretendia magnânimo. De resto, esta é uma forma de conseguir fazer publicidade a baixo custo. Muitas das vezes, sem qualquer custo. Mas que já não consegue passar desapercebida. Por haver cada vez mais pessoas atentes a estes gestos de generosidade.


Naturalmente, à data da oferta aos moçambicanos, pensavam os ofertantes estar a entregar coisa de qualidade. Coisa boa, coisa perfeita. Mas não. A perfeição não existe. O que existe é apenas o possível. E, o possível, em termos de “Magalhães” situa-se pouco acima da mediocridade. Quem o revela, quem o diz, e ao dizer pode estar a estragar uma festa já acontecida, é o jornal português “Expresso”. Que detectou, nas instruções dos jogos do portátil, mais de 80 erros. Entre frases mal construídas, expressões absurdas e frases que simplesmente não existem. É Portugal pátria dos dois Magalhães – do navegador e do computador. Como é dos principais defensores de um acordo ortográfico que virá a ter, provavelmente, utilidade nenhuma. Seja como vier a ser, o navegador Magalhães não merece os atropelos à língua portuguesa com que os seus descendentes o estão a homenagear. Cinco séculos depois da sua morte. Como se pode verificar, e este é o exemplo mais recente, os portugueses têm muita dificuldade em escrever correctamente e em expressar-se na sua língua materna. Logo, não têm direito nem legitimidade para impor normas linguísticas a quem quer que seja. Primeiro, aprendam. Tenham a humildade de saber aprender. Com quem sabe mais. Ou, simplesmente, com quem sabe. Perante este cenário, triste, resta senão lamentar a triste sorte das mil crianças moçambicanas a quem foram oferecidos os portáteis “Magalhães”. Coitadas das mil crianças moçambicanas.

domingo, março 08, 2009

desvio de fundos públicos

Com demasiada frequência, a sociedade moçambicana é abalada pelo revelar de contradições entre diferentes esferas da administração pública. De que resulta, em última instância, o desabono de algumas delas. E, disso, desse desabono ou com esse desabono, ninguém ganha nada. Pelo contrário. Todos perdemos. Vejamos um exemplo. O mais recente mas, certamente, não o único. Se estamos recordados, quando assumiu a pasta do Interior, o actual Ministro mandou fazer uma auditoria às contas de período anterior. Os resultados foram, por si próprio, entregues à Procuradoria Geral da República. Ao que se pode concluir, foi na sequência desse trabalho que o anterior Ministro e alguns dos seus colaboradores viriam ser detidos. Acusados de algumas dezenas de crimes por desvio de fundos públicos. Do desvio de avultadas somas em dinheiro do Estado. Depois, foi dito que não. Que não eram tantos os crimes nem tanto o dinheiro desviado. Sabe-se, agora, conforme o despacho de pronúncia, que o grupo de detidos terá desviado apenas 500 mil meticais. E que terá praticado apenas e um único crime. Mas, pode não ser exactamente assim. E, quem não concorda que seja assim é o Ministério Público. Como é óbvio, o Ministério Público não gostou desta aparente brincadeira. Não terá gostado desta aparente tentativa de atestado de incompetência que lhe estavam a tentar passar. Vai daí, ferido nos seus pergaminhos, fez o que lhe competia. Ou seja, recorreu para instância competente sobre o dito despacho de pronúncia. O assunto pode vir a transformar-se em filme. Talvez em novela. Então, esperamos pelas próximas semanas. Não sem deixarmos de comentar que, à luz dos factos tornados públicos, o despacho de pronúncia parece ter enfermado de alguma ligeireza. Ou que forte motivo, não conhecido publicamente, terá justificado a redução de cerca de cinco dezenas de acusações a uma única. Aguardemos para ver o que virá em seguida.

É frequente ouvir-se falar sobre crime organizado, sobre tráficos de armas, de drogas, e de influências, sobre lavagem de dinheiro, sobre enriquecimento ilícito. Há falta de provas, estaremos perante boatos ou de tentativas de agitação. Estaremos perante acusações não fundamentadas. De acusações que carecem de prova. Mas, também pode não ser exactamente assim. Um sinal positivo, surgiu há poucos dias. Por ocasião da abertura do Ano Judicial. Segundo a Imprensa local, o Procurador Geral da República terá dito estar preocupado com o enriquecimento ilícito. Resultante da prática de várias actividades ilegais. Entre as quais o desvio de fundos públicos. Ora, da leitura do presente texto, parece resultar haver diferentes interpretações sobre a matéria. Sobre o que se deve entender como desvio de fundos públicos. E, a não existir um pensamento comum sobre o assunto vamos continuar na mesma. Ou seja, uns a investigar, a apresentar provas e a incriminar, outros a tentar discriminar. Talvez, como sugestão, realizar, à luz da legislação em vigor na República, mais um seminário. Um seminário para que todos possamos ficar claros sobre o significado de desvio de fundos públicos.

domingo, março 01, 2009

caminhos perigosos

Ele há coisas, ela há afirmações, que parecem verdades. Mas que não o são. Sequer podem ser classificadas como meias – verdades. São puras mentiras. Na melhor das hipóteses, serão especulações. Jornalísticas em alguns casos. Políticas em outras ocasiões. Digamos, mesmo, que há quem se entregue ao exercício, diáfano e afanoso, de manipulação para tentar transformar os seus desejos em realidade. Em verdade. Sem desprimor para os verdadeiros e respeitados artistas, há por aí quem esteja a tentar iniciar-se nas artes circenses. Com destaque para o malabarismo, o equilibrismo e a magia. A mágica, para os que assim o desejarem. O que vimos, até ao momento, foram fracos espectáculos. Espectáculos de fraca qualidade. Talvez porque, digamos, estaremos perante aprendizes. De aprendizes ou de charlatães, que pensam poder contar com a ignorância, a ingenuidade e a infantilidade da plateia. Se assim não. Há muito teriam saído de cena.


Na sua última edição (25.02.09), o “Magazine” escreve em título (pag. 09), que “Pondeca não foi corrido”. E, atribui a afirmação a Fernando Mazanga, porta voz da Renamo. Pondeca era, para quem o não saiba, até há pouco tempo, delegado político da RENAMO da cidade de Maputo. Acrescenta a local do mesmo semanário, que “Pondeca teve uma ‘reunião muito digna’ com o Secretário-geral da Renamo Ossufo Momade no qual (sic) foi lhe dada a informação de que iria cessar funções”. Acrescenta a local que “Segundo o porta-voz Pondeca continua a ser muito útil ao partido com a aproximação das eleições gerais porque ‘como sabe, o Conselho de Estado onde ele é membro deve ser consultado pelo PR sobre a data das eleições e ele está lá com muito peso”. Logo a seguir, a notícia acrescenta: “Mazanga também disse que uma vez que o seu líder Afonso Dhlakama decidiu fixar residência em Nampula para estar perto das bases que sofrem, será Pondeca quase o seu representante permanente no Conselho de Estado”. Vamos por partes, como convém. Para se perceber onde começa e onde acaba a tentativa de manipulação da opinião pública. A primeira questão, é a de que Pondeca não tem, nem mais nem menos peso do que os restantes membros do Conselho de Estado. É igual a todos os outros. Sejam eles gordos, magros ou magriços. Como todos os outros são iguais a si. A segunda questão, o desmascarar da segunda falácia, reside em dizer que Pondeca, enquanto membro do Conselho de Estado, ao falar, está a expressar a sua opinião. Pessoal. Só, e só. Seja a sua opinião coincidente, ou não, com a de outros membros do seu partido. Em momento ou em circunstância alguma ele pode ser delegado ou representante de outro. De outro membro do Conselho de Estado. Quando se tenta manipular a informação a este nível, podemos estar a enveredar por caminhos perigosos.

domingo, fevereiro 22, 2009

que cada qual resolva os seus problemas caseiros

Tenho de confessar que sou pouco dado a escrever sobre a coisa desportiva. Sobre desporto. Principalmente, sobre futebol. Já o fiz em tempos idos. Há muito. Passam mais de quatro décadas. Depois, com a leitura de textos de alguns sociólogos do fenómeno desportivo, comecei a aperceber-me de uma outra realidade. Da outra realidade que fica ou que está para além da verdade desportiva. Para além daquilo que é o resultado que se obtém competindo em igualdade de circunstâncias. Ou seja, com o mesmo número de participantes e com as mesmas regras. Em muitos campos, importa referir, registou-se uma grande evolução desde os idos anos 60/70. Para melhor. Mas, em outros casos para pior. Se não assim, parece líquido que, situações há em que o resultado final de um jogo colectivo continua a não depender exclusivamente de dois contendores. De duas equipas. Depende também de terceiros. Seja, da equipa de arbitragem. Recordo que, nesses tempos, muitos de nós terminavam as suas crónicas com uma mentira piedosa. Dizendo, que tinha havido erros de arbitragem mas sem influência no resultado. É que, em princípio, um erro do árbitro tem sempre influência no resultado. Quer de forma directa, quer indirecta. Se, e em última análise, a sua decisão afecta o comportamento dos jogadores e o seu comportamento colectivo.


No panorama desportivo nacional actual, as esperanças de ver equipas moçambicanas continuarem nas Afro Taças, ruíram. E, foi pena que assim tenha acontecido, depois de uma primeira jornada com resultados promissores. A realidade é que, depois do somatórios dos dois jogos, seguiram em frente os mais hábeis, os mais astutos, os mais aptos, os mais fortes. Sobre esta questão, parece ter ficado dúvida nenhuma. Nem reclamação, nem protesto. De resto, o facto de duas equipas nacionais de futebol não terem conseguido ir mais além do que foram, significa o que significa. Significa, simplesmente, que foram derrotadas por adversários mais fortes. Mais poderosos. Estamos, como já se terá compreendido, por ser claro, a falar de clubes. E, as derrotas de um dois clubes nacionais de futebol, em competições africanas, em momento algum pode remeter para além de um problema dos próprios clubes. De um problema desse clube, da sua direcção, da sua massa associativa. A derrota de um clube moçambicano de futebol em competições africanas, não é, como se possa estar a tentar fazer crer, uma vergonha nem uma tragédia nacional. Para todos nós, felizmente que não é. Aceitar o contrário, é entrar pela via de um chauvinismo de contornos perigosos. Valha, pelo menos, neste contexto, a palavra de quem tem a lucidez de afirmar que com ovos podres não de podem fazer omeletes. O que equivale a afirmar que o problema é caseiro. Doméstico. De um clube. De clubes. E, não nacional. Então, que cada qual resolva os seus problemas caseiros.

domingo, fevereiro 15, 2009

apanhar boleia no último combóio em andamento

Passou mais um aniversário da morte de Eduardo Mondlane. Herói Nacional. Assassinado fez 40 anos. Este 3 de Fevereiro terá sido diferente da maioria, se não de todos os anteriores. Por vários motivos. O primeiro do quais, a festa, as comemorações terem tido lugar na terra natal do Arquitecto da Unidade Nacional. Aonde se fizeram deslocar algumas dezenas de milhar de pessoas. Do que foi a festa e a homenagem, já se ocuparam os cronistas da terra. Em diferentes e variados espaços informativos. A televisão pública nacional permitiu-nos assistir a cada compasso das comemorações. Em tempo real e sem termos de sair de casa. Através da sua transmissão em directo. No cômputo geral, podemos dizer que as cerimónias não surpreenderem só pela positiva. Podemos dizer que também surpreenderam pela negativa.

Faz parte do jogo democrático, faz parte da política. Todos o sabemos. Os partidos podem coligar-se. Podem formar alianças. Temporárias, ou não. Em função ou para tentarem atingir determinados objectivos. Até podem, se assim ou quando o entenderem, fundir-se. Entre nós, ainda não é o caso. Ainda estamos numa fase chamada “oposição construtiva”. Pode até acontecer que não passe de tal. No entretanto, seria bom explicar, clarificar, o significado de “oposição construtiva”. Porque os seus contornos, os seus objectivos, a sua estratégia, são pouco claros. E, estes aspectos parece terem sido evidentes na homenagem a Eduardo Mondlane, neste último 3 de Fevereiro. O país, de facto, precisa de novas ideias e de propostas alternativas para melhorar a governação. Em benefício dos mais desfavorecidos. Precisa de uma oposição. Precisa de oposição. Como condição básica e fundamental para rever conceitos e ideias. Quando assim seja necessário. Para permitir avançar no sentido do progresso e do desenvolvimento. Ora, neste dia de homenagem a Mondlane, a oposição mostrou não ter ideias. Muito menos ideias novas. Foi, se assim se pode dizer, pela sua parte, uma homenagem pela negativa. Uma contra homenagem. Sem dúvida, esperava-se mais da auto intitulada “oposição construtiva”. Esperava-se, no mínimo, não ter de a ouvir tratar os presentes por camaradas. E dar vivas à FRELIMO. O homenageado, na data e na ocasião, era apenas Eduardo Mondlane. Que merece bem mais. Bem mais do que uma tantas vénias de servis serviçais ditos oposicionistas. Nos tempos actuais. A oposição, não resulta de decreto. Nem de nenhuma lei. A oposição não pode, em momento algum, definir-se, a si própria, como construtiva ou como destrutiva. A oposição é uma prática. E faz parte de um processo inacabado e inacabável. Nada é definitivo, nada é perfeito, nada é eterno. Tudo muda, tudo está em constante mudança. Num tempo e num espaço que se rege por leis que não sabemos, ainda, controlar. Que não dominamos. Ora, se assim, esta oposição que se define a si própria de construtiva, parece pretender ser oposição a uma outra. A uma outra oposição. Mas, a uma outra oposição cujos contornos não define. Logo, a uma oposição que não existe. Por exclusão de partes, se não existe oposição à oposição dita construtiva, não pode existir oposição. Não há oposição. O que há, isso sim, o que parece haver, é coisa diferente. È uma tentativa de apanhar boleia. De apanhar boleia no último combóio em andamento.

domingo, fevereiro 01, 2009

pagar para falar ou pagar para ficar calado

Começou já o processo de tomada de posse dos vencedores das últimas eleições autárquicas. No dia em que tal aconteceu, o presidente da RENAMO encontrava-se em Nacala. Em campanha de mobilização no único município onde poderá obter uma e a única vitória municipal. É que em Nacala haverá segunda volta eleitoral. Anteriormente, ele havia defendido que todos os candidatos derrotados do seu partido deveriam tomar posse ao mesmo tempo que os presidentes eleitos. O que, em primeira análise, constitui uma aberração. Uma monstruosidade. Um disparate. Em segunda, uma tal tomada de posse, a acontecer, não teria qualquer base legal. E, antes, nenhuma legitimidade. Digamos não ser mais do que um arremedo de política. Do que política do pontapé, de política do bota abaixo. Se assim o entendeu ou não, Eduardo Namburete, candidato à presidência da cidade de Maputo, veio a público (Notícias de 27.01.09 – pag. 3) dizer que será contra-senso tomar posse ao mesmo tempo que o presidente eleito. Acrescenta o matutino que, Assim, Eduardo Namburete poderá desobedecer o presidente do seu partido que revela pela segunda vez o empossamento paralelo dos “seus presidentes”.. Pode e deve recordar-se que o presidente da RENAMO fez questão de apresentar, publica e pessoalmente, o candidato do seu partido à presidência de Maputo. Também se deve dizer, que o putativo “pai da democracia” parece estar a ser pago. Uma vezes para ficar calado, outras para falar. Sendo que, quando não fala tem a seu favor a grande vantagem de não dizer disparates. Muito embora, e isso parece universal, quando se é líder, mesmo que não por mérito próprio mas por imposição externa, seja necessário, de quando em vez, falar. Sendo que, este falar ou falar disparatado possa implicar ter de vir a engolir alguns sapos vivos. Assim o exige quem paga. Quem está, calmamente, sentado na plateia a assistir ao filme. Um filme produzido no estrangeiro e que tem como actores marionetas moçambicanos.


Ao invés do que se passa com muitos e diversos produtos, que estão a merecer certificado de origem nacional, a RENAMO não o poderá merecer. A história assim o diz. Ela, tendo como base matéria prima nacional, foi criada a objectivada para servir interesses estrangeiros. Políticos e económicos. Primeiro, da Rodésia do Sul. Depois, da África do Sul racista. Por fim, de um Portugal à deriva. Quimérico e sebastianista, saudosista. De um Portugal que já não tinha caravelas para regressar carregadas de especiarias das Índias nem de madeiras, de ouro, de marfins e de aves raras de África. Mas, de um Portugal convicto de que, através da criação de dissidências internas, entre as elites internas, poderia permanecer. Continuar a dominar. Daí, o ter criado um novo mito. Numa tentativa de substituição de o desejado. Mas, Afonso, o nosso, o nativo, não é sinónimo de Sebastião. Nem a ele se pode comparar. Disso nos dá conta um general, reformado, da secreta militar portuguesa. Em livro com centenas de páginas. Um livro que vale a pena ler. E de cuja leitura se pode concluir que o Afonso foi um aposta errada. Ou que não. Que pode ser a quem se pode pagar para falar ou pagar para ficar calado.

domingo, janeiro 25, 2009

há certas mortes que vale mais esquecer do que investigar

Vivemos numa sociedade por demais violenta. Vivemos numa sociedade onde existe crime organizado. Vivemos numa sociedade onde se morre a soldo de criminosos pagos para matar. Onde, ao que tudo indica, existem criminosos profissionais. Pessoas que vivem, única e exclusivamente, de e para matar. Será, apenas, um questão de preço. Mas, vivemos, igualmente, numa sociedade onde a violência verbal é um facto. Onde a ameaça é uma realidade. Chegámos já ao ponto, extremo, de dar espaço jornalístico ao bandido, ao criminoso. Como se de pessoa de bem se trata-se. Para, imagine-se, atacar, ameaçar a Polícia. Como corporação. Não um simples agente. A Polícia. Uma Polícia que tem por missão garantir a ordem e a segurança públicas. Se desempenha bem ou mal a sua missão, é um segundo aspecto. Que não pode nem deve ser descurado. Muito menos ignorado. Agora, quando lemos em letra de imprensa ameaças de um cidadão, tido como criminoso, à Polícia, cremos poder concluir que estamos perante algo de errado. Que estamos, no mínimo, perante uma inversão ou uma crise de valores. Que se revela e que se manifesta perante uma total falta de ética e de deontologia. Gostemos ou não da comparação, ela deve ser feita. Com toda a clareza. E a comparação é que se o Estado está criminalizado e cativo do crime organizado, haverá jornais e jornalistas que caminham pelo mesmo terreno. Calmamente. Alegre e com plena consciência do papel que estão a desempenhar. Mas, e isso é que preocupa, impunemente.


Pagar para permanecer vivo e pagar para matar. Pagar para ignorar o crime ou para não investigar o crime. Trata-se de realidades que existem. Que podem existir. Talvez em paralelo. E com maior frequência do que se possa pensar. E que existem, que podem existir, na sociedade em que vivemos. No primeiro caso, poderemos estar perante uma nebulosa. Logo nada se vê nem pode ser visto. No segundo, surgem, de quando em vez, alguns aspectos visíveis. A olho nu. O último terá sido um assassinato. Pouco depois das vinte horas do último sábado. Em plena Avenida Mao Tse Tung. Com recurso a armas de fogo. E à emboscada da viatura em que seguir a vítima. A local, publicada pelo jornal “Notícias”, (edição de 19.01.09, pag. 23), é por demais lacónica. Limita-se à habitual informação da Polícia. E, como parece ser normal, para não criar conflitos nem crispação, termina com uma frase estereotipada: Diligências decorrem com vista à captura da “gang”. Quanto ao móbil do crime, nenhuma hipótese é colocada. Nenhuma hipótese foi adiantada. Quando assim, este será mais um crime esquecido. Um crime para esquecer. Um assassinato sem assassino. Dito por outras palavras, há certas mortes que vale mais esquecer do que investigar.

domingo, janeiro 04, 2009

estes são apenas alguns desejos

Estamos já em 2009. Embora escreva, ainda, nas últimas horas de 2008. No último dia do chamado ano velho. Ocasião em que jornalistas e jornais elegem e divulgam o que, para si, foram as melhores e as piores figuras do ano. Do ano que chegou ao fim. Trata-se, naturalmente, de um rito, de um ritual. Que pouco ou nada terá de objectivo. Trata-se de pontos de vista pessoais ou colectivos. Resultantes de votações realizadas nas redacções. Logo, sem qualquer rigor sem que tal signifique ausência de democracia. Sem outro rigor que não seja aquele que pode ser atribuído a uma votação. Com ou sem regras estabelecidas. Acresce que este eleger de pessoas, pela positiva e pela negativa, parece deixar de fora aquilo o que se apresenta como essencial. De mais profundo. Ou seja, as ideias. Discutimos muito pessoas. Discutimos muito em termos de bom e de mau. Mas deixamos por fora, deixamos de parte as ideias de cada um. E, isto parece ser, agora, repetição do que se fez ao longo do ano. Talvez por tanto ou por tal nos quedamos, tantas das vezes, na ausência de crítica. Na falta de crítica a ideias e a políticas. De forma argumentativa. Criativa. Confrontando ideias com ideias. Num exercício didáctico e que se pretende salutar. E, impulsionador da consolidação da democracia.


Parece entroncar no mesmo ritualismo, na mesma ritualidade, a manifestação dos desejos que se querem ver materializados no ano que começa. No chamado ano novo. No caso concreto, no ano de 2009. Quando assim, havemos de dizer que, em princípio, o desejo primeiro é o de que se concretize o tudo de bom que o não foi no ano que findou. Tanto no plano pessoal como no colectivo. Nacional. Se assim, parece imporem-se duas sugestões para 2009. A primeira, é a de que se aprofunde o conceito e a materialização da Revolução Verde. Em paralelo com o aperfeiçoamento da aplicação e do controlo do Fundo para Iniciativas Locais. Popularmente conhecido por Sete Milhões. Depois, sem que tenha de ser em segundo plano, vem o combate à corrupção. A todos os níveis. O que já ficou demonstrado ser possível. Basta que, para tanto, haja vontade. Sobretudo vontade política. Sabe-se, todos o sabemos, não se trata de uma missão fácil. Mas, também, que não é uma missão impossível. Como se sabe ser uma missão que irá exigir muita coragem. E, talvez, até, o preço a pagar sejam mais algumas vidas. Estando a elaborar, como estamos, no campo dos desejos, estes são apenas alguns desejos.