domingo, outubro 11, 2009

Uma iniciativa que deve abranger mais pessoas

Estamos em tempo de campanha eleitoral. Os políticos desdobram-se em declarações públicas. Divulgando os seus programas de governação. As suas promessas. Que afirmam cumprir. Caso venham a ser poder. Sucedem-se, igualmente, os debates em rádios e em televisões. Sem qualquer rigor científico, para sustentar a afirmação, uma das frases mais ouvidas parecer ser criação de emprego. E, é aqui que começa a dúvida. Que vai no sentido de tentar perceber o significado de emprego. Se emprego tem o mesmo significado para quem fala e para quem escuta. Se o emissor e o receptor da mensagem têm a mesma, têm igual compreensão do que significa emprego. Se ter emprego pode ir para além se ser trabalhador numa fábrica. Numa serração. Num banco. Numa repartição do Estado, e por aí em diante. Ou se também empreendedorismo e auto-emprego são iniciativas que podem ser definidas como emprego. Fomentadoras de postos de trabalho. Neste campo, como em muitos noutros, pode não haver definição acabada, definitiva, consensual. Como o não há em variados outros. Em que situa a pobreza. Que ainda ninguém definiu, claramente, como se mede, como se avalia. Estudiosos da matéria, contentam-se em laborar e em elaborar entre as mais de trinta definições conhecidas. Nenhuma dada como errada. Nenhuma aceite ou imposta como boa e, menos, como única. Definitiva.


Muhammad Yunus, fundou, no Bangladesh, o Banco Grameen de que é administrador executivo. Em 2006, foi atribuído a ambos, a si e à instituição que dirige, o Prémio Nobel da Paz. O autor do best-selle, “ O Banqueiro dos Pobres”, editou, mais recentemente, a obra, com mais de 300 páginas, que titulou “Criar Um Mundo Sem Pobreza – O Negócio Social e o Futuro do Capitalismo. No capítulo sobre “Outros nós cegos da economia” (pag. 85 e seguintes), escreve: Um segundo é o princípio de que a solução para a pobreza está na criação de empregos para todos – que a única forma de ajudar os pobres é proporcionar-lhes postos de trabalho. Este é um princípio que guia o tipo de políticas de desenvolvimento que os economistas recomendam e os governos e agências de ajuda implementam. Depois de acrescentar que o dinheiro dos doadores é investido em projectos enormes, transformando os pobres em contribuintes fiscais, acrescenta que se trata de uma bela teoria mas que não funciona. E, logo de seguida escreve que os economistas seguem esta abordagem ao alívio da pobreza porque o único trabalho que a maioria dos livros de economia reconhece é o trabalho dependente. E, que, na literatura económica não há espaço para pessoas que ganham a vida criando o seu próprio emprego, que encontram formas para desenvolver bens e serviços que vendem directamente a quem deles precisa. Mas no mundo real é isto que vemos os pobres fazerem todos os dias. Depois de transcrever a carta que um seu amigo norte-americano lhe dirigiu depois de visitar o seu país, comenta: Os aldeões que o meu amigo americano viu não têm “empregos” daqueles que os economistas convencionais reconhecem. Mas eles trabalham arduamente para produzir receitas, alimentar as famílias e tentar libertar-se da pobreza. O que eles não têm são as ferramentas económicas necessárias para melhorar o nível de produtividade do trabalho. Lá como cá. Onde aquilo que nenhum banco teve a iniciativa de fazer, começou a ser feito pelo Governo. Uma iniciativa de apoio ao desenvolvimento dos distritos que justifica ser ampliada. Uma iniciativa que deve abranger mais pessoas.

domingo, outubro 04, 2009

só o trabalho produz riqueza

Este país é e será aquilo que os moçambicanos quiserem que seja. Que venha a ser. O país não se constrói a partir de fora. O país só se constrói, a partir de dentro. Com trabalho e com o trabalho dos moçambicanos. Porque só o trabalho gera riqueza. E nós, todos nós, podemos produzir riqueza. Temos o dever de produzir riqueza. Todos nós temos o dever de trabalhar. Todos nós podemos trabalhar. Nas mais diversas actividades. Em actividades mais ou menos complexas. De acordo com as habilidades de cada qual. Segundo os conhecimentos e a formação de cada um. Sendo que ter trabalho não é o mesmo que ter emprego. Sendo que emprego é, desde há muito, um bem raro. Mesmo em países ditos desenvolvidos. De onde, hoje e cada vez mais, importamos modelos, hábitos, gestos, vícios. Em muitos casos modelos ultrapassados. De ineficácia comprovada. Que, terá sido comprovado, não foram e não são solução. E que, menos ainda, provaram ser eficientes. Na nossa realidade.


Cidadãos de muitos e de diferentes países migram para Moçambique. Serão centenas, serão milhares. Na maioria dos casos, clandestinamente. E, por isso, quando descobertos pelas autoridades nacionais serem detidos ou repatriados. O que os faz vir até nós é, só, a esperança, a expectativa de trabalho. Seja que tipo de trabalho seja. Apenas trabalho. Embora, na maioria dos casos, trabalho definido como ilegal. Por violar tudo quanto seja lei ou regulamento. O que não invalida poder afirmar-se ser trabalho duro. Em muitos casos executado em condições desumanas. Nós por cá, internamente, pensamos em plano oposto. Primeiro, exigimos condições. Depois, vêm o emprego. Por fim, se e quando, é que se fala em trabalho. A este propósito, parece ser paradigmático o pensamento do presidente do Conselho Nacional da Juventude. Veiculada na última edição do “Zambeze” (pag. 14), com o título Para jovens afectos nos distritos - CNJ exige melhor habitação. Como se afigura lógico e como fica claro ao longo do texto, a exigência é feita ao Governo. Mas, a questão é que existe uma outra lógica. E, esta outra lógica é a lógica de aproveitar a motivação dos estudantes que já realizaram actividades de férias nos distritos. Ou que venham a realizar. E o seu desejo de aí se fixarem. Sabendo, eles, que terão de construir tudo a partir do nada. Sabendo, eles, que não se pode distribuir aquilo que não se produzir. E que só o trabalho produz riqueza.

domingo, setembro 27, 2009

uma palhaçada

Parece estar a haver alguma falta de compreensão, alguma descoordenação, em termos de combate às causas dos acidentes rodoviários. Por um lado, apontam-se as principais causas de morte nas estradas. Por outro, são lançadas campanhas para atingir aquilo a que se pode chamar de públicos alvos diferentes. Digamos que as campanhas publicitárias lançadas pelo INAV não estão ser orientadas no sentido de atingirem os principais causadores dos acidentes. A avaliar pelas estatísticas da referida Instituição. Nem as principais vítimas. Com conselhos no sentido de se precaverem. De se defenderem de uma morte anunciada. Se assim, esta ausência de estratégia correcta poderá fazer revelar como pouco útil um esforço a todos os títulos louvável. Convenhamos e fiquemos claros, em alguns aspectos. Uma campanha de prevenção rodoviária exige estudo e análise profundas. Sobre causas e comportamentos. Sobre estatísticas. Sobre os locais de maior prevalência de sinistros. Não é, nem pode ser, o simples encomendar de meia dúzia de cartazes. Nem de frases bonitas ou de belo efeito. A uma qualquer agência de publicidade. Por mais reputada que possa ser.


Muito já foi dito e escrito sobre centros de inspecção técnica das viaturas. Muitas vezes, estamos perante informação contraditória. Ora os referidos centros começam a funcionar numa determinada data, ora noutra data mais além. Agora, talvez se possa concluir que não fazem falta. Que não fazem falta nenhuma. Ou que não são necessários. Pelo menos, esta será a conclusão primária de uma publicidade feita inserir pelo INAV na última edição do jornal “Magazine”. Diz o texto publicitário que “Não é o carro que é seguro! É você, o CONDUTOR”. N o canto esquerdo deste rodapé, pode ver-se a imagem de uma viatura praticamente destruída. Em que o único elemento bem visível é o símbolo da Mercedes. Ora, seguindo a lógica da publicidade, se não é o carro que é seguro tem lógica nenhuma submeter viaturas a inspecções técnicas periódicas. Será um exercício inútil. Depois, tentar associar o elevado número de mortes nas estradas a uma das mais prestigiadas marcas de viaturas ligeiras, é um exercício pouco digno. Sem dignidade. Sendo que não sou, próximo do representante da marca Mercedes em Moçambique, fico preocupado com a forma como esta campanha está a ser orientada. Que pode, muito bem, não passar de uma campanha desorientada. Mal dirigida e mal orientada. Como pode não passar de uma palhaçada.

domingo, setembro 20, 2009

valorizar o saber fazer

Nos últimos anos, temos vindo a assistir a uma significativa distorção na forma de definição e atribuição de salários. Quer a nível de aparelho do Estado, quer das empresas públicas. E, muito por hipótese, não só. O que acontece, o que tem vindo a acontecer, o que está a acontecer, é que qualquer graduado do Ensino Superior, tem direito a salário conforme ao seu grau académico. Conforme ao grau académico que lhe foi conferido por uma qualquer universidade. Independentemente de este ter, ou não ter, qualquer relação ou qualquer afinidade com a actividade profissional que exerça. Independentemente de o grau académico, conseguido com louvável esforço pessoal, poder representar um melhor desempenho profissional. Ou não. De trazer mais rendimento para a entidade empregadora. Ou não. Seja esta Estado ou seja empresa. Sendo de louvar e de incentivar, repita-se, o esforço pessoal em elevar os conhecimentos académicos, tal parece não ser suficiente, tal pode não ser condição única, para justificar salário. Pelo menos e quando ou sempre que essa formação não entrose, não corresponda às necessidades do local de trabalho. Tenhamos em atenção que, por hipótese, muitas das vezes, a escolha de um curso será ditada mais em função das vagas existentes em universidades. Do que pela vocação do aluno ou pelas necessidades da entidade empregadora. Sendo, ao que parece, uma realidade recente, pode ser uma realidade que necessita de ser corrigida. Será. É. Ter um diploma, não pode continuar a ser tudo. Não deve ser critério primeiro nem primário na atribuição do salário. Menos, por hipótese, único.


Na sua edição de 16 do corrente mês, o “Notícias” fazia eco, na primeira página, de uma posição de Narciso Matos, director executivo da FDC, por ocasião da semana do Ensino Técnico-Profissional, e titulava Valorizar o saber fazer ao invés do diploma. A local começa por nos dizer que A sociedade deve valorizar mais as competências dos quadros formados nas instituições do Ensino Técnico-Profissionais, o seu saber fazer, deixando de prestigiar apenas os graduados de nível superior, por simplesmente ostentarem um diploma com aquelas habilitações. Segundo a mesma notícia, Narciso Matos comparou a existência de 75 mil estudantes universitários contra os 48 mil cursantes do Ensino Técnico-Profissional no país a um exército com mais generais que simples soldados. E, disse mais. Disse que nos estágio actual o país precisa mais de cidadãos formados no domínio técnico-profissional, que propriamente de quadros superiores, muitas vezes incapazes de resolver questões práticas com conhecimento próprio. Digamos, por palavras outras e diferentes, que temos de saber passar a valorizar a competência. E a colocar em plano secundário o conhecimento académico, muitas vezes sem qualquer relação com a realidade económica, social e política local. Quando não nacional. Um aspecto parece fundamental e primário. É preciso mudar alguma coisa. Talvez, até, mudar muita coisa. Para valorizar o saber fazer.

domingo, setembro 13, 2009

Tirar o espaço de manobra aos oportunistas e aos vigaristas

A poucos dias do início da campanha eleitoral, existe um ambiente político pouco pacífico. Em virtude de a Comissão Nacional de Eleições, CNE, haver rejeitado significativo número de candidaturas. Cujas causas prometeu explicar. Em separado, a cada um dos partidos. O que ainda não tinha acontecido à hora e no dia em que escrevo. Explicação essa que, convenhamos, desde já, como método de trabalho parece ser correcto. O que se pode pedir, neste contexto, é que se quando e onde a CNE possa ter cometido erro, faça a sua correcção. Que proceda ao reparo do errado. Por outro lado, quando o erro ou a falha seja dos partidos, que também estes aceitem não terem cumprido o legislado. Ou que não estando em condições de cumprir o seu dever, ficam impedidos de ir mais além. Do que já foram. Do até aqui. Parece claro que a situação exige capacidade de diálogo. De um diálogo sério e honesto. De um diálogo sem subterfúgios. Exige, também, e talvez ainda mais, tolerância. Sobretudo tolerância. O subir do tom de voz, as ameaças de boicote, as tentativas de chantagem, nenhum problema irão resolver. Menos ainda poderão dignificar o processo eleitoral e os respectivos concorrentes. Protestar é lógico e é um direito. Dentro dos limites que todos conhecemos.


Em processo eleitoral anterior, registaram-se erros e falhas que, agora, podem ser evitados. Prevenidos. Aconteceu em algumas mesas de voto o que não se encontra explicação para poder ter acontecido. Na ocasião, como hoje, como agora, à distância no tempo. Foi na Escola Secundária da Polana. Onde jovens sem conhecimento da Lei, ou mal formados, talvez deformados, fizeram da sua vontade Lei. Se é permitido o termo, transformaram um acto digno e nobre, numa bagunça. Numa bagunçada. Clarifiquemos a situação. Na referida Assembleia de voto, houve mesas que funcionaram bem. Onde foi respeitada a Lei. Em, outras não. Onde aconteceu a ordem de chegada e a posição na fila de votação não foi respeitada. Como não foram respeitadas as grávidas. Nem os idosos. Imperou o amiguismo e o companheirismo da copofonia. Muito exibicionistas passaram à frente de pessoas que ali tinham chegado, em muitos casos, hà mais de cinco horas. O protesto dos lesados teve como resposta ameaças. Ameaças físicas veladas. A CNE tem o dever e a obrigação de evitar a repetição deste género de comportamentos. Deve definir, claramente, a quem não se exige que respeite a ordem de chegada ao local. Quem tem prioridade de votar sobre quem. E tornar pública a sua decisão. Para evitar, de uma vez por todas, que meia dúzia de imbecis e de cretinos tenham o poder de transformar a sua vontade e o seu desejo em lei. E que, em paralelo, todos aqueles que se sintam lesados tenham um instrumento legal para suporte do seu protesto. Em definitivo, a CNE tem a obrigação, moral e legal, de tirar o espaço de manobra aos oportunistas e aos vigaristas.

domingo, setembro 06, 2009

O Estado tem estar acima da vontade dos criminosos

Quando a ideia foi lançada, parecia não ter sentido. Quando a proposta foi tornada pública, parecia, até, não ter um mínimo de lógica. Ao tempo, pareceu algo de descabido. Refiro-me à ideia e à proposta da advogada de defesa de Carlos Cardoso. No sentido de o condenado pelo assassinato, no sentido de “Anibalzinho” ir cumprir a sua pena de prisão em Portugal. Pareceu-me, ao tempo, haver demasiada falta de confiança no sistema prisional moçambicano. Pareceu-me, talvez pior ainda, não ser digno de um Estado soberano solicitar a outro Estado soberano a guarda de um assassino. Que mesmo tendo sido condenado em Tribunal competente por assassinato, não parecia ser criminoso perigoso. E não o será. Não o é. Até prova em contrário. Mas o tempo, e nestas questões o tempo parece ser o melhor conselheiro, a advogada tinha inteira razão. Estava dentro da razão lógica. É que teve uma visão e uma visão de longo prazo que nós outros não. Se, na proposta e na lógica da advogada, “Anibalzinho” tivesse, de facto, sido mandado cumprir a sua pena em Portugal, nós outros, nós todos, teríamos sido poupados aos sucessivos episódios de uma comédia. Ou de uma farsa. Que parece não mais ter fim. Este prende para soltar e solta para voltar a prender, não terá lembrado nem a Maquiavel. Se tivesse, se tivesse lembrado, nunca teria sido escrito o “Príncipe”. Mas, talvez, por hipótese, um tratado sobre a forma de “Viver em liberdade quando encarcerado em prisão de máxima segurança”. Ou, por exemplo, “Onde reside o poder numa República africana”. O que, hoje, parece claro e concreto é a existência de uma forte corrente, de uma grande pressão, no sentido de transformar um criminoso em mito. Sendo que os mitos se alimentam, inevitavelmente, de ritos. E, todo este exercício ritual está a ir no sentido de criar uma falsa imagem do criminoso. Do assassino. As imagens que estão a ser dadas às crianças, não são imagens de alguém que foi pago para matar. E, que matou. São imagens de um algemado a ser conduzido à prisão sob forte protecção. Sob forte escolta policial. Com o poder de impedir, quando assim o entendeu, a progressão de jornalistas. De facto, em resumo, o poder pode residir nas armas. Nos fuzis. Sempre foi assim. A verdade, não. A pesquisa verdade, que resulta da dúvida permanente, reside da liberdade de agir, de pensar. Só os livres pensadores podem ser considerados homens livres.


Com o passar do tempo e o desejo e a vontade do comunicador, as versões sobre quem deteve e como foi detido “Anibalzinho” variam. É pacífico e é verdade que cada qual conta a sua versão. O que significa que todos sabem pouco sobre o que se passou ou que, estão, a dizer bem menos do que aquilo que sabem. É irrelevante. Relevante é ter havido dois ministros que se comprometam, publicamente, há mais de uma semana, a dizerem em que prisão iria ficar “Anibalzinho”. Até hoje, não o fizeram. O que dá matéria para muita e variada especulação. Estamos a acreditar que um Estado de Direito, que o Estado de Direito que é Moçambique, que o Estado não pode estar cativo da vontade de um criminoso. O Estado tem estar acima da vontade dos criminosos.

domingo, agosto 30, 2009

Haja a necessária coragem para investigar

Aníbal dos Santos Júnior, voltou ao local de onde nunca devia ter saído. A prisão. “Anibalzinho”, como muitos lhe chamam e, parece, gosta de ser apelidado, voltou à prisão. Uma vez mais. E, esperemos que pela última. Até cumprir a pena a que foi condenado por Tribunal. Quanto mais não seja por, até hoje, as suas “fugas” terem alguns contornos demasiado rocambolescos. Que podem não passar de histórias mal contadas. De histórias em que uma criança do ensino primário tem dificuldade em acreditar. Sejamos claros e objectivos. Durante alguns dias, vários órgão de Informação disseram isto e mais aquilo. Com chamadas e fotos na primeira página. Espaço nobre a que nem todos têm acesso. Menos ainda, direito. Depois, o condenado chegou. Finalmente. Nem como nem quando alguns haviam previsto. Mas, chegou. Quando imperou a vontade e o desejo de quem tinha o poder para o fazer chegar. E, convenhamos, entendeu ser o momento oportuno para o fazer entrar no país. Desta vez, já não de forma triunfal. Mas, como um criminoso, como um prisioneiro normal dominado pela autoridade policial. Pela autoridade do Estado. E de nos vir dizer, depois, dia seguinte, quarta-feira, onde o tal “Anibalzinho” iria cumprir o resto do tempo da pena a que foi condenado.


É, precisamente, no dia a seguir à chegada do foragido que acontece a grande desilusão. Para nós. Pelo menos alguns de nós. É que, em conferência de Imprensa, a PRM disse nada sobre a fuga. Disse nada como fugiu e como viveu na África do Sul. Como disse nada sobre onde irá ficar encerado o criminoso. Disse, isso sim, que não haverá mais fugas. Esperemos que não. Como disse que Aníbal dos Santos Júnior, vulgo “Anibalzinho” usou documentação falsificada para circular na África do Sul, durante o tempo em que esteve evadido das celas do Comando da PRM, em Maputo, com o nome de Maurício Alexandre Mula. Falso, seria, igualmente, o documento para conduzir viaturas no país vizinho. Mas, tudo isto são, apenas detalhes. A questão de fundo é a de se saber como e em que circunstâncias saiu da prisão. Depois, sim, se vivia e se circulava na África do Sul com documentação falsificada, quem lha falsificou. Quem lhe deu carta de condução e passaporte falsos. Sendo que, falso e falsificado são coisas diferentes. Ao certo, e é o mínimos que se pode concluir, estamos perante um jogo de palavras. Mas, um jogo de palavras que só serve ao crime organizado. Proibição de importação de galinhas congeladas do Brasil, por suspeita de transportarem drogas, detenção de “Anibalzinho”, na véspera da sua hipotética deslocação para o Brasil, podem não ser meros acasos. Podem não ser mera coincidência. Haja a necessária coragem para investigar.

domingo, agosto 16, 2009

é preciso trabalhar mais e mentir menos

Depois da realização do Colóquio Nacional sobre Acidentes de Viação, seria de esperar que algo começa-se a mudar. Em termos de prevenção rodoviária. Em termos de mudança de atitude e de comportamentos. Por parte de quem tem por missão zelar pela circulação, pela boa circulação em estradas e em artérias de centros urbanos. Mas, parece que não. Parece que assim não está acontecer. Que ainda não está a acontecer. Ora, se assim não está a acontecer, a presença do Presidente da República no referido Colóquio terá sido não mais do que perda de tempo. Para ele, Chefe do Estado. E, uma ilusão para todos nós. Que acreditámos nas afirmações e nos discursos proferidos na ocasião. Que acreditámos nas palavras bonitas. Nos planos e nas estratégias para combater, para reduzir os acidentes de viação. Que todos pareciam ter. Mas que ninguém leva à prática. Estaremos, muito provavelmente, perante uma cerimónia de tentativa de transformação do desejo em realidade. De ilusionismo ou de magia. Talvez de mágica. Em que o objectivo final seria um. E único. Tentar mostrar ao chefe que todos estamos muito preocupados com o problema. E, em resolver o problema. Mesmo não fazendo nada, coisa nenhuma para o resolver.


Já agora, na sua edição de 18 do corrente, o “Notícias” titula que “Novos sinais vigoram no país”. Sem dúvida, um novidade para quem conduz. Acrescenta o matutino que Os condutores de veículos automóveis passam a partir de agora a conviver e a obedecer novos sinais de trânsito harmonizados com a região da SADC com a imediata entrada em vigor do regulamento desses símbolos, aprovado semana passada pelo Conselho de Ministros. Acrescenta a local que em todas as estradas reabilitadas ou em processo estão a ser colocados novos sinais, que entretanto não são do domínio público (...). Ora, a primeira questão que se coloca é bem simples. Se esses sinais não são do domínio público, como podem ser obedecidos e respeitados. Da mesma forma que se não pode desejar aquilo que não se conhece, também não de pode respeitar e obedecer àquilo que se desconhece. Em segundo lugar, o que o jornal publica não é lei. Ninguém está obrigado a obedecer a novas regras de trânsito só e pelo simples facto de alguém dizer a um jornal que elas existem. Podem, de facto, existir. Mas não estão em vigor. É legitimo, todo o condutor tem legitimidade para não respeitar os sinais que não conhece. É obrigação do INAV, é obrigação estatutária do INAV divulgar, amplamente, as alterações ao Código de Estrada. Antes de nos vir dizer, de forma arrogante, mal educada e prepotente, que ontem era assim, hoje passou a ser de forma diferente. Não tem esse poder. Felizmente. O que o INAV, tem de perceber é questão outra e diferente. É que não sendo parte da solução, como não quer ser, da redução dos sinistros nas estradas, é parte do problema. Para não se ter de dizer que é o problema. Em conclusão, dizer, apenas, que é preciso trabalhar mais e mentir menos.

o famoso pai da democracia

Passam algumas semanas que escrevi sobre um livro. Cujo autor se considera e se afirma fundador da Resistência Nacional Moçambicana. Titulei que “A democracia começa a ter muitos pais”. Mas, ao que parece, tratou-se, apenas, de mera convicção. Não de verdade. Nem de um fim de história. Menos, ainda do Fim da História. É que, depois, agora, na última semana, o semanário “Magazine” trás factos que parece serem novos. Ao fazer-se eco de uma entrevista concedida ao escritor Fabrício Sabate e publicada no seu livro “Memórias Soltas”. Uma entrevista concedida por quem se considera o autor do primeiro tiro que marcou o início da guerra dos 16 anos. E que confirma o que desde há muito se sabe e que outros já disseram e escreveram. Isto é, que “A Renamo foi criada por rodesianos, boers e portugueses (...)”. Quer dizer, a Renamo não tinha então, como não tem hoje, qualquer projecto político. Nem de governação. Foi um instrumento ao serviço de racistas e de fascistas de três países. Uma máquina de destruição e de morte do que e dos que alegava querer governar e defender.

A determinado passo da longa entrevista, o entrevistado diz: A Rodésia aproveitou-se dos descontentes moçambicanos e apoiou-os militarmente. A Renamo não foi, de imediato, ideia de moçambicanos. A Renamo foi criada por rodesianos bóers e portugueses saídos de Moçambique. Eu digo isso com categoria e legitimidade, pois quem deu o primeiro tiro na Renamo fui eu. Fui eu, sim. Não posso negar que nós fomos usados. (...). Noutro passo da longa entrevista, e para que não restem dúvidas sobre origens, o entrevistado esclarece: (...) Mas todos os que são sérios sabem que eu fui o primeiro comandante da Renamo, muito antes desta força ter nome ou objectivos exactos. Fui o primeiro moçambicano negro formado e informado para atacar Moçambique. (...). A uma pergunta se para liderar a Renamo, Dhlakama foi eleito o entrevistado respondeu que quem devia ter substituído André, era o Lucas Muchanga, que era o vice-presidente. Ele era inteligente e falava bem português e inglês, além de que era de confiança e tinha o apoio dos rodesianos. Dhlakama procurou o homem, encontrou-o em Sitatonga, metralhou-o, e, logo a seguir, proclamou-se Presidente da Renamo, até hoje. Pelos vistos quer morrer presidente. Ele é um obcecado pelo Poder. O entrevistado, fornece, com detalhes, sobre a forma como foram mortos, a lista de alguns dos comandantes que a Renamo produziu e cuja maioria foi fuzilada pelo famoso pai da democracia, quer dentro quer fora do território moçambicano. Pelo famoso pai da democracia. A afirmação não é minha, mas estou inteiramente de acordo. Por mais que não seja, por considerar que é uma frase de belo efeito. Mais político que literário. Se, assim, se concordarmos, em vez de se repetir que a democracia começa a ter demasiados pais pode titular-se diferente. Ou seja, que assim parece que bem o merece o famoso pai da democracia.

domingo, agosto 09, 2009

todos temos o direito de não escolher

Muito já foi dito e escrito sobre a lei. A lei da violência doméstica contra a mulher. Recentemente aprovada pelo Parlamento. De resto, nada de bom ou de mau, de positivo ou de negativo, resultaria ao engrossar a fila dos defensores ou dos detractores do referido texto legal. Pretende-se, isso sim, deixar um outro tipo de alerta. E de alerta para outros tipos de violências. Por exemplo, da violência que nos entra em casa sem pedir licença. Da violência que nos entra em casa através das televisões. Mais precisamente de algumas mensagens publicitárias televisivas. Campo este, em que parece vivermos numa selva. Num terreno, num campo, em que vale tudo. Sendo que não existe limite para o mau gosto. Para a ignorância. Para o tentar apresentar o falso como verdadeiro. Para a falta de ética e de moral. Mesmo para a agressão verbal. Quando não para a agressão psicológica. E, por aí em diante. O dinheiro, as receitas da publicidade não podem ser argumento. Para permitir tamanha promiscuidade. Parece ser tempo de estabelecer regras e normas.


Naturalmente, estamos a lavrar num campo vasto e num terreno que pode parecer movediço. E, possivelmente, em tempo algum, sobre tema consensual. Tal não invalida que se tente chamar a atenção para o que parece ser errado. Em primeiro lugar, o que parece ser publicidade de mau gosto e de pior qualidade. Em que se podem enquadrar os anúncios a uma casta de vinhos. E, também, a uma marca de arroz. Cujos bonecos, cujas figurinhas parece terem sido inspiradas nas vítimas da Guerra de Secessão do Biafra. Lá para os idos anos 60. Quando as televisões nos davam as imagens de crianças com os ventres dilatados pela fome. E á beira da morte. Por falta de comida. Para quem viu e reteve essas imagens, não é possível deixar de as recordar perante a concepção medíocre deste anúncio publicitário. Cujos autores bem poderiam ter optado por crianças moçambicanas. Num outro campo e a outro nível devemos situar o controverso anúncio publicitário sobre as próximas eleições. Também já alcunhado como “Peixe com legumes para dois”. Ora, num momento em que tanto se fala e se discute sobre violência doméstica. Em que se legisla sobre violência doméstica, estamos perante um caso de violência doméstica. Salvo melhor opinião. E de violência exercida pela mulher em relação ao homem. Atente-se no diálogo entre a mulher e o homem. Analise-se, em termos de psicologia, a forma como a mulher fala com o marido. E, com empregado do restaurante. Para impor a sua vontade. O seu autoritarismo. Assim como o texto subsequente. Final. Que retira, a qualquer um de nós, o direito, constitucional, de não escolher. E parece querer conferir à mulher o direito de escolher pelo marido. A questão de fundo é que, escolher ou não escolher é um direito individual. Todos temos o direito de escolher. Mas, também, todos temos o direito de não escolher.