domingo, dezembro 19, 2010

Para que jamais venha a ser assim

Casos de desvio de fundos do Estado, estão a dar trabalho aos tribunais. Mais do que muito. Para só referir os mais recentes. Talvez os mais mediatizados pelos órgãos de Informação. Estamos a falar dos chamados “caso” Aeroportos e CPD. Também do desvio de fundos na província de Maputo. Através de complexa engrenagem dirigida por funcionário do Ministério das Finanças. Em todos os referidos casos, os acusados foram condenados a pesadas penas de prisão. Por haver sido provado terem-se beneficiado de dinheiro do Estado. Ou de empresas do Estado. Em tribunal, está a decorrer, agora, o chamado “caso MINT”. Já em fase final. E com a leitura da sentença marcada para 22 de Março do próximo ano. Ao que parece, todos estes processos têm um denominador comum. A apropriação de dinheiros alheios em proveito próprio. Ou de familiares. Ou de próximos. O último caso referido, no chamado “caso MINT, parece apresentar contornos novos. Diferentes. Inovadores. Em relação aos quais parece oportuno tecer algumas considerações. No mínimo, fazer uma breve reflexão. Uma breve análise. A partir do que tem sido público. Por publicado.


Na sua edição do passado dia 15 do corrente, o semanário “Magazine Independente” titula à largura de duas páginas (2 e 3), que “Em nome da defesa de interesses nacionais”, Manhenje esquiva-se a dizer as verdades. Na longa introdução ao longo texto, pode ler-se que “Manhenje afirmou que há determinadas verdades que não podem ser reveladas em nome do interesse nacional”. “A paz e a reconciliação nacional têm o seu preço”. Acrescenta o semanário que vincou Manhenje perante o espanto e a incredulidade dos presentes. Não tendo, eu, estado presente, logo, não me espantei. Fiquei, isso sim, incrédulo, com o relato do dito em sala de tribunal. Em que abundam frases como “interesse do Estado e da segurança nacional”, “a paz e a segurança que hoje os moçambicanos vivem tem o seu preço” e por aí em diante. E, repito, fiquei incrédulo, por questões muito simples. A primeira, é por não saber quem define o quê. Ou seja, quem define o que são interesses nacionais. Outra, é que a paz e reconciliação nacional dependem, ou dependeram da vontade de um ministro. Da sua boa ou má vontade. Do seu critério na atribuição de fundos do Estado. Em termos de lógica, amanhã, um outro dia qualquer, um outro ministro, que venha a decidir aplicação diferente dos dinheiros do Estado, estará a atentar contra a paz e a reconciliação. Seria bom que as coisas fossem tão simples. E que cada ministro pudesse gerir à sua maneira e segundo as suas convicções e os seus interesses, pessoais, os dinheiros do Estado. Ainda não é assim. Façamos todos votos para que nunca venha a ser assim. Estamos em tempo de recuar. Para que jamais venha a ser assim.

domingo, dezembro 12, 2010

A culpa não será exclusiva dos estudantes

O governo tem vindo e fazer elevados investimentos em diferentes áreas. Com destaque para as da Educação e da Saúde. Áreas que não proporcionam qualquer retorno. Melhor, em que o retorno deve ser avaliado em termos não materiais, não monetários ou financeiros. Se assim, o que se espera, o que se exige do sector da Saúde é que, progressivamente, possa abranger um cada vez maior número de cidadãos. E que, em paralelo, possa melhorar a qualidade dos serviços já prestados. O mesmo, ou quase igual, se pode esperar da Educação. Digamos, a Educação deve, cada ano, conseguir que um maior número de crianças e de jovens tenham acesso à escola. E que a qualidade do Ensino seja melhorada. Só assim conseguiremos organizar um exército de jovens, homens e mulheres, capacitados para retirar o país da pobreza. China e Índia podem ser apontados como países de sucesso neste campo. Como resultado da definição de estratégias claras e de políticas de médio e de longo prazo. Hoje, apresentam resultados visíveis. Talvez, mesmo, assustadores e ameaçadores para alguns.


Já, neste espaço, em algumas ocasiões, defendemos que as estatísticas valem o que valem. Quanto a números, a leitura, a apreciação, parece ser diferente. Como pode ser o caso do alarmante número de alunos reprovados nos exames do Ensino Secundário Geral. Na sua última edição, este semanário titulava (página 11) que “Reprovações em massa marcam a primeira época”. E, logo a abrir a notícia, escrevia: “Os exames da primeira época que decorrerem em todo o país foram marcados por reprovações nas disciplinas de História, Matemática, Química e Física. A título de exemplo, na cidade de Maputo, na décima classe, foram a exame cerca de 23 mil alunos e destes somente 385 passaram de classe. Acrescenta a local que Dos 13 mil alunos submetidos ao exame final da décima segunda classe na cidade de Maputo apenas pouco mais de dois mil conseguiram transitar de classe, o que corresponde a cerca de 20 por cento de aprovações. Sobre o assunto, director de Educação da Cidade de Maputo, contactado pelo “Domingo”, disse que É difícil dizer o que está a acontecer. Primeiro temos que descobrir o que está a correr mal, embora se saiba que muitas vezes o que acontece é que os alunos em situação negativa não se mostram preocupados. Em nosso modesto entender, este descalabro, este caos, deve merecer, de facto, uma investigação séria. Para poderem ser tomadas urgentes medidas correctivas. Para ser aplicada uma terapia adequada. A culpa, se é que existe, também pode ser dos alunos. Mas pode, muito bem, não ser só dos alunos. Ou ir para além dos alunos. O Estado, e o Estado, neste contexto, somo todos nós, não podem, em definitivo, investir num Ensino que não apresente resultados. Positivos. O mesmo é dizer na formação de jovens estudantes que se diz que não estudam. Ou que não querem estudar. Em definitivo, a culpa não será exclusiva dos estudantes.

domingo, dezembro 05, 2010

Os pobres agradecem

Entrámos já no chamado mês das festas. Festas do Dia da Família para uns, do Natal, para outros. Também da entrada no Novo Ano. Festas ou festejar, tem aqui o significado de comer e beber. Diferente. Mais e melhor do que o habitual. Do que é habitual durante a maioria dos dias de todos os meses do ano. Logo, tal implica gastos e despesas acrescidas. Quase sempre e em muitos casos com reflexos no consumo de Janeiro. Um mês que, por motivo das festas, sempre parece mais longo. Mais comprido e com mais dias do que todos os outros. Anteriores e seguintes. Dezembro é, também, tradicionalmente, o mês em que quase todos os produtos sobem de preço. Em que, tradicionalmente, custam mais caro. Ano a seguir a ano, fica sempre uma dúvida, uma incógnita. Que deixa a resposta em aberto. Para saber se tal aumento, se o aumentos dos preços ao consumidor é devido ao aumento dos preços na origem. Ou, simplesmente, ao oportunismo dos vendedores e dos especulares internos. Talvez, por mera hipótese de trabalho, a verdade possa estar no meio. E a justificação para os aumentos dos preços possa estar no meio. As culpas possam ser divididas. Quase ao certo, lá para os meios do próximo Janeiro, os preços irão baixar. Só que, nesse futuro próximo, poucos seremos os que iremos ter dinheiro. Para comprar, mesmo pouco e a preços mais baixos.



Cabe neste espaço e neste tempo, reconhecer o mérito de duas iniciativas governamentais. Uma a nível da cidade de Maputo, outra a nível do país. Na sua edição do passado dia 2, titula o jornal “Notícias” (página 3), “Não meter a mão” no bolso do cidadão. O título encima uma local que reporta uma reunião dirigida pela governadora da cidade de Maputo. Com todos ou a maioria daqueles que têm por dever proporcionar uma quadra festiva tranquila. No sentido de proporcionarem um ambiente favorável às festas do Natal e do final do ano, evitando a especulação dos preços e a colocação de produtos fora de prazo. Na primeira página da edição do mesmo dia, o “Notícias” afirma estarem “Assegurados stocks para a quadra festiva”. A notícia, a todos os títulos tranquilizadora, como se tornou habitual, cita o director nacional de comércio a dizer que quem praticar especulação poderá perder os seus produtos. E, acrescenta, que “Aos especuladores, haverá apreensão dos produtos pelos inspectores e depois serão revendidos a preços reais e os valores irão reverter a favor do Estado”. É nesta questão, em relação a este processo, que queremos manifestar a nossa discordância. Por ser um processo nada claro. E por poder vir a ser semelhante às apreensões efectuadas por agentes corruptos da chamada Polícia Municipal. De resto, algumas centenas ou uns tantos milhares de meticais resultantes da venda de produtos apreendidos em nada irá contribuir para o Orçamento do Estado. Mas, isso sim, pode contribuir para melhorar, durante algum tempo, as refeições de idosos e de crianças. Em definitivo, os produtos que possam vir a ser apreendidos devem ter como destinos centros de acolhimento de idosos e de crianças. O Estado não necessita destas migalhas. Os pobres agradecem.

Os pobres agradecem

Entrámos já no chamado mês das festas. Festas do Dia da Família para uns, do Natal, para outros. Também da entrada no Novo Ano. Festas ou festejar, tem aqui o significado de comer e beber. Diferente. Mais e melhor do que o habitual. Do que é habitual durante a maioria dos dias de todos os meses do ano. Logo, tal implica gastos e despesas acrescidas. Quase sempre e em muitos casos com reflexos no consumo de Janeiro. Um mês que, por motivo das festas, sempre parece mais longo. Mais comprido e com mais dias do que todos os outros. Anteriores e seguintes. Dezembro é, também, tradicionalmente, o mês em que quase todos os produtos sobem de preço. Em que, tradicionalmente, custam mais caro. Ano a seguir a ano, fica sempre uma dúvida, uma incógnita. Que deixa a resposta em aberto. Para saber se tal aumento, se o aumentos dos preços ao consumidor é devido ao aumento dos preços na origem. Ou, simplesmente, ao oportunismo dos vendedores e dos especulares internos. Talvez, por mera hipótese de trabalho, a verdade possa estar no meio. E a justificação para os aumentos dos preços possa estar no meio. As culpas possam ser divididas. Quase ao certo, lá para os meios do próximo Janeiro, os preços irão baixar. Só que, nesse futuro próximo, poucos seremos os que iremos ter dinheiro. Para comprar, mesmo pouco e a preços mais baixos.



Cabe neste espaço e neste tempo, reconhecer o mérito de duas iniciativas governamentais. Uma a nível da cidade de Maputo, outra a nível do país. Na sua edição do passado dia 2, titula o jornal “Notícias” (página 3), “Não meter a mão” no bolso do cidadão. O título encima uma local que reporta uma reunião dirigida pela governadora da cidade de Maputo. Com todos ou a maioria daqueles que têm por dever proporcionar uma quadra festiva tranquila. No sentido de proporcionarem um ambiente favorável às festas do Natal e do final do ano, evitando a especulação dos preços e a colocação de produtos fora de prazo. Na primeira página da edição do mesmo dia, o “Notícias” afirma estarem “Assegurados stocks para a quadra festiva”. A notícia, a todos os títulos tranquilizadora, como se tornou habitual, cita o director nacional de comércio a dizer que quem praticar especulação poderá perder os seus produtos. E, acrescenta, que “Aos especuladores, haverá apreensão dos produtos pelos inspectores e depois serão revendidos a preços reais e os valores irão reverter a favor do Estado”. É nesta questão, em relação a este processo, que queremos manifestar a nossa discordância. Por ser um processo nada claro. E por poder vir a ser semelhante às apreensões efectuadas por agentes corruptos da chamada Polícia Municipal. De resto, algumas centenas ou uns tantos milhares de meticais resultantes da venda de produtos apreendidos em nada irá contribuir para o Orçamento do Estado. Mas, isso sim, pode contribuir para melhorar, durante algum tempo, as refeições de idosos e de crianças. Em definitivo, os produtos que possam vir a ser apreendidos devem ter como destinos centros de acolhimento de idosos e de crianças. O Estado não necessita destas migalhas. Os pobres agradecem.

domingo, novembro 28, 2010

Um exemplo a seguir

Durante bastante tempo, ignorámos a crise financeira mundial. Global. Ou fizemos por ignorar. Não faltaram, até, declarações públicas, oficiais. Extremamente optimistas. Manifestando a convicção de que era possível tirar benefícios da crise. Que haveríamos de saber tirar benefícios da crise. Pura ilusão. Ruinosa falta de perspectiva para além do curto prazo. Do imediato. De facto, como se viu e como se verificou, a crise chegou. E pode até ter vindo para ficar. Os anunciados aumentos dos preços de bens e de serviços, viriam a ser suspensos, congelados. Temporariamente. Por decisão governamental e após dois dias manifestações populares. Mas, ao que se vê, nada será como dantes. Não existe varinha mágica que permita conter ou fazer recuar os preços os preços dos produtos que necessitamos de consumir em cada dia. Todos os dias. Há exemplos acabados que não se compadecem com dados e estatísticas. Atenhamo-nos, apenas como exemplo ilustrativo, nos preços que se pagavam e que agora se pagam no informal. Ou os praticados pelos muitos vendedores que se encontram nas bermas das estradas. A poucos quilómetros da cidade capital do país. Frutas, legumes e muitos outros produtos agrícolas de produção familiar, custam, hoje, quase o dobro do que custavam há cerca de um ano.



A crise financeira mundial está também a afectar, ao que parece de forma devastadora, vários países da Europa. Portugal é um deles. Onde as medidas tomadas pelo governo para enfrentar a situação, foram recebidas com uma greve geral. Ali, a crise é de tal grandeza que já está a fazer alterar e modificar hábitos e tradições. A pensar com lucidez, com sensatez, e a evitar gastos supérfluos. Por exemplo, segundo a edição electrónica do jornal “Expresso” (22 do corrente), Juntas de freguesia de Sintra trocam iluminação natalícia por apoio social. E, logo a seguir escreve que O aumento dos pedidos de ajuda levou algumas juntas de freguesia de Sintra a abdicarem da tradicional iluminação de Natal para, em vez disso, comprarem bens alimentares e ajudar famílias carenciadas. A mesma local, depois de apresentar as justificações dos presidentes das juntas de freguesia, acrescenta que “Em Rio de Mouro não vai haver iluminação porque vamos ent5regar cabazes a 120 carenciados. Tem havido muitos pedidos de ajuda a nível de medicamentos e de alimentação. Há muita gente a perder subsídios e, perdendo esses rendimentos, aumentam as suas necessidades. Isto, segundo o presidente da referida junta de freguesia. O jornal cita, ainda, os exemplos de outras juntas de freguesia. Nós por cá, vamos cantando e rindo. Assobiando para o ar. Parece que essa coisa de crise nem sequer é connosco. Continuamos insensíveis. Até já começaram a aparecer figuras do Pai Natal em locais onde se aconselha cometimentos nos gatos. Nos gastos de dinheiros públicos. Em tempo de crise profunda. E, até ao presente, incontornável. Digamos, mesmo, que a decisão das juntas de freguesia de Sintra deveria ser vista como chamada de atenção. Como modelo e exemplo. Um exemplo a seguir.

domingo, novembro 21, 2010

O seu a seu dono

A História, seja de um país ou de um povo, nunca é um produto acabado. Definitivo. É sempre um processo. Que se altera ou pode alterar, que se modifica, que se vai completando. Há medida que, com o passar do tempo, novos factos, novas facetas vão sendo conhecidas. A partir de consecutivas e mais aprofundadas investigações. O que parece válido em relação a povos e países, o será, também, relativamente a homens. Principalmente estadistas e governantes. É assim que, em tempos recentes, um vasto conjunto de obras, de trabalhos de investigação sobre o nosso país, nos permitiu ficar a saber mais sobre nós mesmos. Trata-se de livros editados em Moçambique ou em Portugal. Da autoria de moçambicanos ou de portugueses. Em relação a alguns dos quais há quem opine tratar-se de branqueamento da história. Pode ser que sim. Como pode ser que não. Muito provavelmente, o mais acertado, o mais ajuizado, seja aceitar os novos factos, as revelações. E, partir para novas investigações. Descobrir novos factos. Contrapor.



Pela nossa história recente, passaram personagens e personalidades, que não necessitam que lhes branqueiam a imagem. Nem a memória. Devido à sua verticalidade, à sua postura moral, em vida. Devido ao seu comportamento, ao seu modo de ser e de estar. Podem alguns assim não pensar. É um direito. Acontece que, em tempos e em espaços diferentes, leio informação sobre as últimas transferências de ouro para Portugal. Antes da independência nacional. Ouro esse que constituía o pagamento de parte dos salários dos moçambicanos a trabalharem em minas da África do Sul. A última abordagem sobre o assunto, está em edição recente do jornal “Canal de Moçambique”. Num texto assinado pelo Dr. Carlos Adrião Rodrigues. Em nome da verdade, importa dizer que, no período de Transição, ao tempo em que o Dr. Soares de Melo foi Governador de Moçambique, se efectuou transferência de ouro para Portugal. Talvez a última. Mas efectuou. Sobre a matéria, está publicada uma reportagem na extinta revista “Tempo”. Amplamente documentada com fotos do falecido Ricardo Rangel e texto da minha autoria. Que prova a saída do ouro da casa forte do então BNU e a sua colocação em contentores no terminal de carga do aeroporto. Antes de ser embarcado e seguir viagem para Portugal em avião da TAP. Para a elaboração da referida reportagem, procurei recolher, entre outras, a opinião do Dr. Mário da Graça Machungo. Recentemente regressado de Portugal e nesse então ao serviço do também já extinto Banco de Fomento Nacional. A sua delicada recusa em fazer qualquer comentário sobre o assunto, terá impedido enriquecer o texto. Mas, não impediu a sua publicação. Para os vindouros, importa dizer o seu a seu dono.

domingo, novembro 14, 2010

Nem exigimos nada em termos de troca

Quando atingimos uma certa idade, digamos uma idade avançada. Por vezes convencemo-nos que já sabemos tudo. Que já conhecemos tudo. Ou quase tudo. Mas não. Trata-se de pura ilusão. Por erro, por deformação própria. Quando não acontece haver quem nos queira iludir. Quem esteja possesso por nos querer iludir. Ao tentar a presentar como inovação, como grande descoberta, como técnica tida como revolucionária, práticas ancestrais. Centenárias. Milenares. Tão antigas como o homem. Mas que o aumento do conhecimento veio tornar ultrapassadas. Obsoletas. Mas que um amor serôdio ao passado tenta recuperar. Em nome de uma nova invenção. Neste caso concreto, a ecologia e a defesa do ambiente. Uma intenção, a todos os títulos, louvável. Não fosse o facto de serem aqueles que viram flora e fauna dos seus países destruídas em nome do progresso e do desenvolvimento económico, os mesmos que nos pedem para parar no tempo. Para regredir no tempo. Para voltar às práticas ancestrais. E deixar de utilizar métodos de produção agrícola comprovadamente mais rentáveis. Mais produtivos. Aqui, a questão fundamental parece ser, única e exclusivamente, a defesa do ambiente. Só que não se pode defender nem proteger o ambiente se o custo a pagar for permanecer de barriga vazia. Se assim, a dita questão fundamental assume os contornos de fundamentalismo.


A toda a largura da sua página 18 (edição de 3 do corrente), titula o semanário “Magazine”: Water Aid promove uso de excrementos humanos para agricultura. E, logo no primeiro parágrafo, escreve que O uso de excrementos humanos como fezes e urina é uma técnica tida como revolucionária na agricultura moçambicana, no sector da horticultura, que vem demonstrando potencialidades em relação ao uso de fertilizantes industriais. Acrescenta a local que a iniciativa da referida ONG tem a ver com o uso de saneamento ecológico (ECOSAN), que consiste em armazenar os excrementos e posterior fertilização no solo (...). A notícia, que nos fornece largos detalhes sobre o desenvolvimento deste projecto em alguns bairros de Maputo, acrescenta que A aplicação dos fluidos armazenados separadamente no intestino e na bexiga e, posteriormente, expelidos de forma separada, na agricultura, é promovida pela Water Aid através de um programa designado saneamento ecológico, que promove o uso da urina nas hortas de uma das cinturas verdes da cidade de Maputo (...). Pena é que a mesma notícia seja omissa em alguns aspectos que se apresentam como cruciais. Para nos permitir ficar a conhecer, por exemplo, o montante gasto neste projecto. E na mesma linha de pensamento, os salários pagos aos seus funcionários. Da mesma forma que não esclarece se os excrementos dos moçambicanos têm valor de exportação. Se são exportáveis. Inclusive com o selo “Made in Mozambique”. É que nós somos mais de vinte milhões. Que defecam diariamente. Parte significativa a céu aberto. Para dizer, por fim, que um bem organizado recolha desta enorme quantidade de excrementos pode transformar a vossa agricultura bem mais ecológica. Do que é actualmente. Trata-se, simplesmente, de saber pensar em termos de negócio. Da nossa parte, nem exigimos nada em termos de troca.

domingo, novembro 07, 2010

Nós temos o direito de poder rir

Não é novo nem é recente o interesse do Brasil por Moçambique. Ou interesses brasileiros em relação a Moçambique. Têm, no mínimo, mais de meio século. Virão, pois da época colonial. Dos tempos de António de Oliveira Salazar. Nessa altura, nesse tempo, ao que parece, tratava-se, apenas de interesses comerciais. O que estava em jogo, o que se pretendia, era acelerar e aumentar o volume das trocas comerciais. Apenas isso. Daí o ter sido prevista a construção de um entreposto comercial brasileiro. Em Maputo. Muito precisamente em terrenos localizados próximo da Sonefe. E que estariam registados em nome de António Almeida Santos. A queda do regime colonial português fez anular esse projecto. Fez abortar o projecto. Mas, não terá feito o Brasil esquecer o seu interesse por Moçambique. Que, progressivamente, se terão transformado em interesses em Moçambique. Como hoje parece e é evidente.


Aquando da sua primeira visita ao nosso país, o presidente do Brasil trouxe na sua bagagem uma mala cheia de promessas. Entre as quais a da construção de uma fábrica de anti-retrovirais. Veio depois, mais tarde, pela segunda vez, e disse, novamente que. Falou. Apenas falou. Sendo que de fábrica havia nada. A prometida fábrica passara a ser simples processo de empacotamento de comprimidos. Para vários e variados fins. Anuncia-se, agora, a terceira deslocação de Lula da Silva a Moçambique. Acompanhado da sua eleita sucessora. E, o descendente dos colonos portugueses, que aclamaram e proclamaram Pedro II de Portugal como Pedro I do Brasil, volta. Terceira e última vez. Como presidente, obviamente. E sem ter a prometida fábrica para inaugurar. Diz-se (“Notícias de 2 do corrente), que irá inaugurar a primeira fase dos projectos da fábrica de anti-retrovirais e do programa pró-savana para o desenvolvimento agrícola do centro e norte do país (...). De resto, como todos sabemos, os pobres não têm dinheiro para comprar medicamentos. Daí o não se justificar o investimento numa fábrica para a sua produção. Como, de facto, não existe nenhuma em toda a África. O que dá, no que vale a pena investir é na exploração de carvão, de gás e de petróleo. Vá, como faz parte do seu programa, a Tete. Mas, depois, regresse ao Brasil. E volte rapidinho. É, que, antes de ter chegado já estamos com saudades do seu regresso. E, já agora faça mais uma promessa. E, esta até pode cumprir. Prometa que nos vai trazer o Tiririca. É, que, nós, por cá, já estamos a ficar cansados com tantas televisões sustentadas por igrejas brasileiras. Milagreiras. Que só transmitem curas. Que só nos dão imagens de mazelas e de desgraças humanas. Afinal curáveis. Ao vivo e em directo. Com um simples gesto, com um mero sinal. Tiririca pode não poder fazer melhor. Nem ir mais além. Mas tem, isso sim, o poder de nos fazer rir. E, nós precisamos de rir. Nós temos o direito de poder rir.

domingo, outubro 31, 2010

Assim haja vontade

Desde há muitos anos que o sector da agricultura se vem mostrando como dos mais problemáticos. Dos ineficientes, ineficazes. Porquê, é a questão que pode e deve ser colocada. Recorde-se que, ainda recentemente, o primeiro-ministro visitou regadios. Existentes um pouco por todo o país. Onde, localmente, de forma geral, ao que foi noticiado, terá verificado o seu fraco aproveitamento. O mesmo será dizer que se nesses locais não se produz ou produz pouco, o motivo não está na falta de água. Estará, sim, na sua não utilização, no seu não aproveitamento conveniente e potencial. Na falta de capacidade, de vontade ou de conhecimentos para a transformar em elemento determinante na produção agrária. Já mais recentemente (25 do corrente), o jornal “Notícias” divulgou o resultado de uma auditoria realizada ao sector agrário. E, titulava, em primeira página, com grande destaque, “Falta estratégia para a irrigação”. E acrescentava que a referida auditoria, encomendada pela Inspecção-Geral das Finanças, “sugere acção integrada e sustentável”. Segundo a local, O sector de irrigação no país precisa urgentemente de uma Política e Estratégia Nacional por forma a orientar as iniciativas visando o aumento da produção e produtividade (...). Pode ler-se, logo a seguir, que Segundo constatação da auditoria, a planificação do subsector de irrigação no país é feita de forma desanexada do objectivo final, que é o aumento da produção e da produtividade. De igual modo, não existem no sector pacotes tecnológicos específicos e disponíveis localmente para o fácil acesso dos beneficiários. E, por aí em diante, muito mais se diz.


Logo no dia seguinte, o mesmo diário reportava sobre o lançamento da próxima campanha agrícola. Que teve lugar na província do Inhambane, com a presença do Chefe do Estado. E titulava “Muita comida nas mãos dos camponeses em I’bane”. Como que a justificar o título, podia ler-se logo a seguir que O Presidente da República disse que a mandioca de Inharrime, tão boa e saborosa para o pequeno-almoço, o maheu feito a partir da casca de banana, bem como o sumo de caju, entre outros derivados de recursos produzidos em Inhambane, tudo começa e termina com os camponeses. É por isso que alguns pensam que o nosso país continua muito pobre, porque o que se faz não sai ao mercado, não é encontrado nos centros comerciais. A ideia, o conceito, a filosofia, parecem claras como água. De verdade, alguns desses produtos, ou similares, poderão estar a ser vendidos nas bermas nas estradas. Não só da província de Inhambane. Também em outras. Agora, a questão de fundo, a questão que fica por saber é porque não conseguem ultrapassar as portas de centros comerciais e de mercearias. Cujas prateleiras estão carregadas de produtos importados. Iguais. Muitas das vezes fora de prazo e embalados em latas já dominadas pela ferrugem ou opadas. De verdade, temos institutos, vários, com reconhecido mérito internacional. Em todas estas diferentes áreas. Cuja actuação coordenada parece pouco visível no terreno, na prática, para alcançar de um objectivo comum. O que será possível. Tudo é possível. Assim haja vontade.

domingo, outubro 24, 2010

Criar condições para conservar e comerciar

Um pouco de diferentes pontos do país, chegam boas notícias. Referentes à produção de comida. À produção agrícola. Oxalá as previsões se confirmem, se materializem. Oxalá que se esteja a caminhar no sentido de uma total satisfação das necessidades internas. E, logo, da redução do recurso à importação. Com a correspondente poupança de divisas. Até porque parece fazer pouco sentido ver muito do que podemos ver em estabelecimentos comerciais. Seja, ver produtos importados, alguns de países europeus, de países bem distantes, iguais aos que também sabemos produzir. E, talvez, com melhor qualidade. E mais vantagens, em termos de preços, para o consumidor. Não se trata, aqui, de impedir importações, de alterar hábitos e costumes alimentares outros. Trata-se, sim, de conseguir valorizar mais e melhor o que produzimos com igual qualidade. Em última análise, de conseguir fazer chegar ao mercado, ao consumidor, em tempo útil, a produção do camponês, do agrário. O que pode exigir uma planificação mais cuidada, mais ajustada às diferentes realidades nacionais. Digamos, em última análise, a definição de políticas integradas. Que definam, claramente, todas as etapas e todos os intervenientes no processo.



Em termos de produção agrícola, a par das boas notícias também há as más. Ainda há poucos dias, uma televisão nacional nos fez chegar os lamentos de um agricultor. Por a sua produção de batata reno estar a começar a apodrecer. Por falta de escoamento, seja, de comprador. E, também, por outro lado, por falta de meios adequados de conservação. De meios de frio. Como todos sabemos, a batata reno é um produto facilmente perecível. Que não suporta um longo período de tempo fora da terra. Antes de ser consumida. Logo, terá sido um erro estratégico, grave, ter incentivado a sua produção um pouco por todo o país. Onde não há hábitos para o seu consumo, poder de compra para a sua aquisição localmente, meios de conservação e de transporte para a fazer aos centros urbanos. Em tempo útil e sem possibilidades de apodrecer. E, sempre foi assim. Basta recordar que, antes da independência, uma parte da batata produzida em Moçambique, na região ao Sul do Save, era consumida internamente. Por falta de meios de conservação, outra parte, talvez a maior, era enviada, por caminho-de-ferro, para a África do Sul. Onde era conservada em frigoríficos. Durante meses. E de onde regressava à medida das necessidades do consumo. O exemplo acima pode ser, e com toda a certeza é, válido para outros produtos agrícolas. É aconselhável meditar. E ter presente que não é suficiente produzir. Que é preciso criar condições para conservar e comerciar.