domingo, setembro 02, 2012

Muito rabo escondido com gato de fora

Aumenta o número detidos por envolvimento ou em conexão com os casos de raptos. Principalmente nas cidades de Maputo e da Matola. Até ao momento, pelo menos 15 pessoas, entre homens e mulheres, estarão detidas nas celas da PRM. Tal não implica e não parece indiciar que se esteja perto de chegar aos mandantes dos crimes. Muito embora o “Notícias” (edição do passado dia 5, página 3) escreva em título que “Recentes detenções trazem novos dados”. E, logo a seguir: Uma série de ovas informações colhias na sequência das recentes detenções de supostos raptores estão a ser arroladas pela PRM, para esclarecer este fenómeno, bem como identificar e localizar seus mandantes. E, o que nos interessa saber é exactamente isso. Quem são os mandantes dos raptos. Onde estão e os motivos que os leva a agir como estão a agir. De acordo com o que mais escreve o matutino, as informações conseguidas, são ainda de carácter sigiloso. No grupo dos agora detidos, encontram-se dois jovens (...) apontados como sendo os guardas de duas das residências arrendadas no bairro de Khongolote para servirem de cativeiro dos sequestrados. Logo, ao que parece, todos estes detidos não passam de “peixe miúdo”. De “raia miúda”. De patos e de galinhas numa rede bem organizada de raptores e de extorqui dores de elevados resgates. Como sempre e em muitos outros casos, os “tubarões” estão de fora. Ficaram de fora. Bem protegidos e bem longe das vistas destes modestos servidores. Que devem ganhar pouco com o negócio. Quase nada. Ou nada. A vida, de facto, para uns é fada e rainha. Para outros, a maioria, é madrasta. Até aqui e como se pode verificar, investigação jornalística houve nenhuma. O que se sabe foi divulgado pela PRM. E, como também se sabe, a informação tornada pública serve apenas, única e exclusivamente, a quem a divulga. O resto é pura ilusão. Pura manipulação da opinião pública. Na notícia já citada, o representante da PRM terá refutado notícias divulgadas por alguns órgão de imprensa segundo as quais os sequestros eram planeados e ordenados em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos ou na África do Sul. Se assim, se esta informação é verdadeira, se este posicionamento da PRM é verdadeiro, tem fundamento e pode ser fundamentado, podem ser levantadas outras questões. A primeira é se sabendo onde não foram planeados e ordenados os sequestros, sabe onde o foram. Em termos de lógica formal, a resposta só pode ser sim. A PRM sabe. Mas não diz. Pelo menos, até ao momento disse nada. De facto, esta questão dos raptos é bem complexa do que possa parecer. Do que aquilo que nos é dado ver. E se, de facto, este é um problema nosso, nacional, ou não. Talvez não. O que desejamos, o que não queremos, é ser cobaias em frente a interesses outros. Em relação aos quais nada temos a ver. Nem a ganhar nem a perder. Nós outros. Humildes cidadãos da pátria de Mondlane e de Samora. Concluir, por hoje, que nesta questão dos raptos, como poderá estar a acontecer em muitas outras, parece haver muito rabo escondido com gato de fora.

domingo, agosto 26, 2012

Sabemos nada e coisa nenhuma

Temos assistido nas últimas semanas, nos últimos tempos, temos lido e visto uma vasta e ampla campanha a favor da construção da ponte que irá ligar Maputo e a Catembe. Ele são artigos de jornal, reportagens, entrevistas, comentário. Em tudo quanto seja meio de comunicação social que se preste a este método de propaganda. Para não dizer de publicidade encoberta. Muito por hipótese mal encoberta. Em que cada um, cada interveniente, defende a sua dama. À sua maneira. E, em alguns casos, de forma canhestra. Mas, ainda bem que assim é, ainda bem que há muito quem defende a sua dama. Isto quer dizer que ela, a dama, melhor dizendo a ponte, não virá a ser criança enjeitada, mal querida, indesejada. Pelo que se pode ver, ler e ouvir, até agora, ela, a ponte, é bem-vinda. Até, mesmo, querida. Pelo menos para alguns. Para os seus defensores e os seus propagandistas. De resto, outra coisa nem seria de esperar. Estes, entre outras coisas, também são pagos para isso. Para fazerem publicamente a defesa da sua dama. Naturalmente, como é público e conhecido, este negócio da construção da ponte entre Maputo e a Catembe é um negócio de muitos milhões de dólares norte-americanos. Sabe-se isto. Como se sabem muitos aspectos técnicos. De resto, pouco mais. O que se sabe, o que se vai sabendo, é divulgado a conta-gotas. Uma gota hoje, outra amanhã, outra depois. Por exemplo, agora já se sabe que os peões não terão possibilidade de circular pela ponte. Pode ser uma medida certa, acertada. De acordo com normas internacionais. Depois, se o povo não tem carro, se até anda a pé, que continue a andar a pé. Mas, por outros caminhos. Para não poluir a ponte. Para não sujar a ponte com os seus pés sujos de matope. É muito provável que com o andar do tempo muitos outros aspectos venham a público. Venham a ser tornados públicos. Para poderem vir a ser debatidos publicamente. O projecto de construção da ponte entre Maputo e a Catembe é mais do que projecto e obra de meia dúzia de engenheiros e de gestores. É mais do se simples iniciativa do Conselho Municipal da Cidade de Maputo. A partir de então ou depois disso, poderá ficar como um marco histórico na ligação rodoviária entre o Rovuma e o Maputo. Como o elo final de uma ligação histórica. E sempre cantada. Para trás, e enquanto muita água corre para o mar sem ser por debaixo da ponte, parece obrigatório colocar a questão da valorização dos terrenos urbanos na margem sul. De quanto valiam ontem e de quanto valem hoje. O mesmo é dizer, a quem beneficia directamente, em termos económicos, a construção da ponte. Neste imediato. Muito provavelmente, a construção da ponte, poderá não ser um elefante branco. Mas, também por hipótese, poderá estar a transformar-se num elefante verde. Num elefante das chamadas verdinhas. Poderemos, muito bem, vir a assistir a muita negociata por detrás do negócio. De terrenos. É necessário ser-se mais claro sobre a matéria. Quanto a propaganda, já temos a suficiente. Já temos quanto baste. É por isso que sabemos nada e coisa nenhuma.

domingo, agosto 19, 2012

Vamos lá todos pensar

Os números são impressionantes. Preocupantes. Alarmantes. Mas parece continuar a embater na insensibilidade. Na falta de culto pela protecção e defesa da vida. De vidas humanas. Parece que estamos, parece estarmos perante uma situação em que a vida humana tem pouco ou nenhum valor. Vale nada. Deixou de ter valor. Talvez e ainda como sequela da guerra. Estamos a falar, como se percebe, do crescente número de pessoas, de seres humanos que continuam a perder a vida em acidentes de viação. Nas estradas do país. Mas que, como vemos e ouvimos, é como se nada de mau estivesse a acontecer. Ou seja, tudo parece estar “numa boa”. Ainda esta semana, num único acidente de viação, registaram-se mais 12 mortos. O jornal “Notícias”, edição da passada quinta-feira, em notícia a toda a largura da primeira página, escreve: Doze mortos e 17 feridos, dos quais três em graves, é o resultado de um aparatosos acidente de viação, que se registou pouco depois da 10.00 horas da manhã de ontem, na Estrada Nacional Número 1, região de Incadine, posto administrativo de Chidenguele, em Gaza. Acrescenta a local que O desastre violento do tipo choque frontal envolveu um autocarro de transportes semicolectivos de passageiros (vulgo chapa) que seguia em direcção a Inhambane e uma viatura ligeira que circulava em sentido contrário. O jornal elucida, citando a PRM, (...) que na origem do sinistro esteve o excesso de velocidade, seguido de uma ultrapassagem irregular, que terá sido provocado pelo condutor da viatura (...) circulando na altura no sentido Inhambane/Maputo. Hoje, como as coisas, como os acidentes acontecem, até parece irrelevante saber quais as causas. São informações que podem ter valor em termos de estatística, mas pouco mais. Mas, que, sem dúvida podem ser importantes no dia em que se pensar sobre a necessidade de elaborar e levar à prática um plano de acção. Para prevenir e evitar mortes nas estradas nacionais. Até lá, o normal poderá não ser mais do que morrer nas estradas. Continuar a morrer nas estradas. Gostemos ou não, é tempo, mais do que tempo para arregaçar as mangas e trabalhar. Olhar para o trabalho que é necessário realizar. Pode perguntar-se sobre o que fazer. Talvez tudo. No mínimo mais do que se está a fazer. Que, na prática parece nada. Dizer, que um problema de tamanha dimensão e com tão graves reflexos na sociedade, em termos económicos e sociais, não se resolve com discursos. Nem com slogans e nem com frases feitas. Até aqui, o que vimos e ouvimos não passa de pura demagogia. Precisamos de mais acção, mais trabalho e menos palavras. E, de trabalho sério, honesto, competente. Planificado segundo os objectivos a atingir. Ou para atingir determinados objectivos. No terreno. A protecção da vida humana merece mais esforço. A protecção da vida humana merece todos os esforços. Quando não, poderemos ser acusados de conivência com o banho de sangue que se regista nas nossas estradas. Que pense quem é pago para pensar. Que trabalhe quem é pago para trabalhar. Para executar o que outros pensam e planificam. Parece não ser difícil entender que deve e que tem de ser assim. Difícil pode ser não querer entender que deve e tem de ser assim. De resto, pensar é, em si, uma atitude de combate à preguiça mental. Se assim, vamos lá todos pensar.

domingo, agosto 12, 2012

Tentar tapar o Sol com uma peneira

Os Transportes Públicos de Maputo vivem mais um período de crise. Aliás, a crise nos ex-TPM parece ser permanente. Continuada e contínua. Trata-se, como se percebe, de uma crise que afecta e prejudica, sobretudo, os potenciais utilizadores dos seus serviços. Trabalhadores, estudantes e todo esse mar de pessoas que, pelos mais diversos motivos precisa de se fazer deslocar. Diariamente e entre um e outro ponto da cidade. Entre o centro e a periferia da capital do país. Por não ter transporte próprio. A situação actual permite, até, colocar a questão de saber se os ex-TPM são a solução ou a origem da causa dos maus serviços prestados aos cidadãos. Uma coisa parece certa. E é. Logo que a oferta de transporte público diminui, aí temos os chamados “chapas” de caixa aberta a fazerem o seu negócio. São, no mínimo às dezenas. Logo, a questão não será de falta de viaturas. Elas existem e estão disponíveis. Será, antes de organização. Ou de desorganização. Ou de desorganização organizada. Diga-se, até, se isso tiver utilidade ou servir de atenuante, que a culpa da actual crise nem é dos ex-TPM. Segundo o jornal “Notícias” da passada quarta-feira (página 3), “Atrasos no abastecimento paralisa autocarros a gás”. Segundo a local, Autocarros a gás da Empresa Municipal de Transportes Públicos de Maputo (EMTPM) têm ficado paralisados, não cumprindo as suas carreiras normais, devido ao atraso no fornecimento daquele combustível ao posto de abastecimento da companhia. Segundo a local, Trata-se de um problema que existe desde que a empresa recebeu a frota de 150 autocarros que operam a gás, mas que nos últimos tempos se faz sentir com alguma intensidade (...). Mais diz a notícia que o atraso no fornecimento de gás ao posto de abastecimento faz com que entre 25 a 40 autocarros não saiam diariamente à rua, complicando a situação de milhares de pessoas que dependem das carreiras das pessoas para circularem. Se lermos mais adiante, ficamos também a saber que Só na segunda-feira, 25 autocarros ficaram paralisados e isso representou um prejuízo na ordem de mais de 330 mil meticais para os cofres da empresa que também teve de ver cerca de 150 trabalhadores ficarem sem produzir (...). Bonito! Belo exemplo de má gestão da coisa pública. E, neste aspecto a questão parece bem simples. Exemplarmente simples. Primeiro, havia dificuldades na prestação do transporte público por falta de viaturas. Depois, temos as viaturas mas não temos combustível para as fazer circular. Por isso ficam paradas. Logo, a culpa não é nossa, não é minha. É de quem não me fornece o combustível. O que não passa de um desculpa airosa. Bonita. Tipo desenrasca. Como quem diz, queiras ou não, a bola agora está do teu lado. Sempre foi motivo para dúvida e para interrogação o que terá levado à importação de autocarros movidos a gás. Até hoje, é questão que permanece no segredo dos deuses. Que tenha sido boa ideia, não foi. Basta querer ver que os autocarros estão aí mas que não podem circular. Que estão parados. Por falta de gás. O combustível que para alguns parece ser milagreiro. Ou milagroso. São, também, pouco claras as normas e os procedimentos seguidas para a importação deste tipo de viaturas. Menos ou nada se sabe que estudos foram feitos sobre a matéria. Se é que foram feitos alguns. E se foi ou não lançado algum concurso público para a respectiva aquisição. Isto, sem pretender questionar sobre a utilidade ou não dos concursos públicos. Como sabemos, valem o que valem. Em muitos casos, parece valerem nada. Ou, apenas, não passarem de uma ilusão. Que é como quem diz, de tentar tapar o Sol com uma peneira.

domingo, agosto 05, 2012

Seguir a política da avestruz

Estão a tornar-se frequentes e repetidos, repetitivos, os conflitos laborais na Empresa Municipal de Transporte Rodoviário de Maputo (EMTPM, EP). De novo e mis uma vez, trabalhadores e conselho de administração não se estão a entender sobre questões salariais. Sobre as percentagens dos aumentos salariais dos trabalhadores. Trata-se um conflito, de uma falta de entendimento, aparentemente, sem razão de ser. Sem razão para ser o que está a ser. Sem lógica. E que arrasta em negociações inclusivas de 25 de Maio passado. De quanto se diz e escreve, o pomo da discórdia parece claro. Segundo o jornal “Notícias” (edição da passada quinta-feira, página 1), A intenção do Conselho de Administração choca com a proposta do Comité Sindical e dos trabalhadores de ver de ver os salários ajustados em 16 por cento, menos 1.13 por cento dos 17.13 por cento instituídos pelo Governo para o chamado “Grupo 7”, do qual fazem parte estes trabalhadores. Salvo melhor interpretação ou leitura diferente, o Governo decretou uma determinada percentagem de aumento salarial para este tipo de trabalhadores. Por motivos que só eles podem explicar, aceitaram um aumento menor do que aquele que foi imposto pelo Governo. Mesmo assim, a sua entidade patronal recusa pagar, recusa o aumento salarial. Anda a gastar tempo. Anda a queimar tempo. E dinheiro dos nossos impostos. Um exemplo acabado de imbecilidade. De má gestão. De gestão ruinosa. Ou, pior, de desafio ao próprio Governo. É que, vista a questão por outro prisma, o conflito não é entre trabalhadores e entidade patronal. É entre gestores dos transportes públicos da cidade de Maputo e o Governo da República. O mesmo é dizer, o conflito, o motivo da discórdia ou da discordância, não está entre os trabalhadores dos extintos TPM e a sua entidade patronal. Situa-se mais acima. Está entre esta, entre os gestores dos extintos TPM, e o Conselho de Ministros. Ora, se discordam com a decisão governamental, parece que lhes resta uma e única decisão. Ou seja, pedirem a sua demissão colectiva. O que seria, convenhamos, um bom serviço à pátria. A empresa que sucedeu aos extintos TPM, parece apresentar algumas fragilidades. Desde o modelo da sua orgânica, da sua constituição aos seus métodos de funcionamento e de actuação. A começar nos métodos e nos processos de aquisição de novas viaturas, à sua gestão corrente, diária. O mesmo significa perguntar se terá sido criada de acordo com a nossa realidade. Com as realidades locais e à luz das experiências de outras capitais. Muito provavelmente, não. Questione-se, então, então sobre o tipo de empresa criada. E sobre o seu modelo de gestão. Podemos ir um pouco mais longe. E devemos ir. Será que uma empresa que gere os transportes rodoviários numa cidade como Maputo deve, ou pode ser, gerida com objectivos comerciais. Tendo em vista o lucro. Ou se, pelo contrário, deve ter e perseguir objectivos sociais. Ao que se sabe, segundo o que parece ser experiência comum de outras e muitas cidades - capitais, a exploração dos sistemas de transportes públicos urbanos não é rentável. Não é uma actividade lucrativa. Comercialmente. A solução dos transportes públicos urbanos nacionais já não permite o recurso e meros paliativos. As aspirinas, que podem eliminar a febre mas nunca a doença. Já se perdeu muito tempo. Demasiado tempo. E, o tempo passado não é recuperável. Mas ainda há tempo para realizar uma reflexão séria, honesta e realista sobre a matéria. Com o objectivo único e final de bem servir os utentes dos transportes públicos. Dos transportes colocados à sua disposição pelo Estado ou pelas autarquias, pelos municípios. E, que, no final estão a ser subsidiados com o dinheiro dos nossos impostos. A não de esta ou de outra forma semelhante, será enterrar a cabeça na areia para escamotear a realidade. Será seguir a política da avestruz.

domingo, julho 29, 2012

Vale mais prevenir do que remediar

Foi há dias anunciada a criação de um “Fundo direccionado para reduzir mortes”, devido à contínua sinistralidade nas estradas nacionais (Notícias de 2 do corrente, primeira página). À partida, trata-se de uma iniciativa de louvar. Louvável. Sem dúvida, tudo quanto seja evitar mortes nas estradas são iniciativas de enaltecer, de elogiar. Mas como se percebe pelo enunciado, pelo título da notícia, trata-se de actuar depois do acidente ocorrer. No apoio às vítimas, aos acidentados, como iremos ver. A questão que se pode e deve colocar desde já, é se não é possível fazer mais e melhor do que está a ser feito no campo da prevenção. Para prevenir, para evitar o acidente. Muito provavelmente sim. Mas, segundo a local, não será esse o objectivo do Fundo. Vejamos. As autoridades moçambicanas estão a considerar a possibilidade da criação de um fundo para a segurança rodoviária que, a par da implementação sistema integrado de emergência médica, poderá responder a situações de acidentes rodoviários, como uma das saídas para reduzir os altos índices de mortalidade, traduzidos em milhares de vítimas todos os anos. Ao que se pode ler, trata-se de um (...) modelo de sistema de atendimento de emergência (...) (...) que deverá ser operacionalizado em conjunto com um fundo para a segurança rodoviária na assistência aos sinistrados e suas famílias. Se o que foi escrito e transcrito é claro e a interpretação correcta, pretende-se atacar os efeitos, os resultados, as consequências e não as causas dos acidentes de viação. Se é que o aforismo popular está certo – e nada nem ninguém afirma que não esteja – vale mais prevenir do que remediar. Ora, a criação de um Fundo – mais um – implica a disponibilidade de dinheiro. De mais dinheiro. E, pelo que conhecemos da nossa realidade nativa, da atribuição de privilégios e de mordomias a mais uns tantos gestores. Ou, como se dizia, uns tantos quadros. Mesmo quando estes possam ser, comprovadamente, quadrados. Mas saibam e se prestem a dizer, repetidamente, ámen. Ao certo, sabemos que precisamos muito de dinheiro. Mas também precisamos e muito mais de trabalho. De empenho e de dedicação na gestão da coisa pública. Acidentes de viação, pelas mais diferentes causas, acontecem em todos os países do mundo. Com o inevitável custo em mortes, feridos e danos materiais. Em custos sociais e pessoais. O certo, o visível é que uns investem mais na prevenção. Outros, preferem actuar como bombeiros. Como nós. E os nossos bombeiros, os nossos chamados “Soldados da paz”, são comprovadamente pacíficos. E pacifistas. Cordeiros obedientes à primeira voz, ao primeiro sinal do Senhor. Mesmo sem meios, mesmo com escassos meios, aí estão, todos os dias, com um auto tanque a regar os terrenos ajardinados nas proximidades da Praça Robert Mugabe. Dá gosto passar por ali por volta das 6 horas da manhã. Para apreciar o seu trabalho. E poder colocar a dúvida se é função e atribuição dos bombeiros regar jardins. Se não estamos perante um desvio de funções. Se não se trata de uma usurpação de funções e de obrigações do Conselho Municipal. Para terminar, voltamos à questão das mortes nas estradas. No dia 20 do passado mês de Julho, a RTP África dava conta sobre a forma como ia ser executada uma operação de controlo de velocidade. Pela brigada de trânsito daquele país. Em tempo de início de férias. No essencial e no que retive, os automobilistas estavam a ser alertados para a proximidade de zonas com controlo de velocidade. Á distância. Prática muito diferente do que se faz por aqui. Onde o normal parece ser emboscar, armadilhar, punir o automobilista. Com ou sem razão. Mas sem objectivos claros. Dizer que é preciso saber aprender com quem sabe mais e faz melhor. E repetir que vale mais prevenir do que remediar.

domingo, julho 22, 2012

Um Estado dentro do Estado

Semanas atrás, fui convidado por pessoa amiga a visitar um condomínio em construção na zona do Zimpeto. Terminada a visita e depois de escutadas as pertinentes explicações e informações por parte do representante dos construtores, um dos visitantes inquiriu, perguntou o preço de cada um dos tipos de apartamentos visitados. Surpresa! Aqui começou a surpresa. É que os preços estavam a ser indicados em meticais. E, perante a questão colocada por um dos visitantes sobre o valor em dólares norte-americanos, a resposta não se alterou. Veio curta mas delicada. Também inesperada: “Nós aqui não vendemos em dólares”. Estava terminada a visita. Também as explicações e os esclarecimentos. E como registo, o facto de perante a tanta ilegalidade em que vivemos, haver quem cumpra a lei. As leis nacionais. Daí a surpresa inicial. Que em circunstâncias normais não têm qualquer razão para existir. Não teria. Surpresa. Também. Outra e de sentido contrário. Na passada terça-feira, informando sobre a construção de 5.000 casas no âmbito do projecto de habitação de Intaka, o “Notícias” (página 3), titulava “Casas podem custar entre 63 e 158 mil dólares”. O matutino de Maputo acompanha a local com bonita foto das primeiras casas-modelo já em fase de conclusão. Dá detalhes vários sobre o projecto e, inclusive, publica uma tabela dos preços das casas apresentada a alguns bancos da praça. Pelo Fundo para Fomento da Habitação (FFH). Obviamente, para financiamento do empreendimento. Uma tabela, como se pode verificar, em dólares norte-americanos. Não em meticais. Embora não seja uma iniciativa, um projecto, um negócio de qualquer empresa estrangeira mas do Estado. Do Estado moçambicano. Como se pode ler: O projecto de construção das 5 mil casas em Intaka é do Estado moçambicano e é liderado pelo Fundo para Fomento de Habitação (FFH), em parceria com uma empresa chinesa denominada (...) num investimento de cerca de 12 mil milhões de meticais. Aparentemente, trata-se de um bonito e belo negócio. Aparentemente, também altamente lucrativo. Para quem, já surge como outra questão. Que seria bom esclarecer. Publicamente. O que se sabe, o que está escrito em letra de imprensa, o que é público é que se trata de um investimento em meticais. Mas que os interessados só poderão adquirir as suas casas em dólares norte-americanos. As chamadas ou alcunhadas de “verdinhas”. Isto, na pátria de Mondlane e de Samora Machel. Em pleno ano de 2012. Se a memória já não trai os mais velhos, foi o actual governo que aprovou legislação segundo a qual a venda de produtos e a prestação de serviços deve ser obrigatoriamente facturada em meticais. Quer o cliente, o comprador, o utente seja moçambicano ou estrangeiro. Se há excepções, não eram claras. Até aqui. Agora, parece que o começam a ser. Ao que se pode verificar, o Estado não se compromete a cumprir com as leis que promulga. E, vais mais longe. Delega competências nesta matéria. De não cumprir o que era suposto ter de cumprir. No meio ou de permeio com tudo isto, parece existir uma complexa rede de cumplicidades e de interesses de difícil compreensão. Há, ou haverá por aqui, algo de espúrio. Para já, o que se pode concluir, sem grande margem de erro, é que estamos perante o início da criação de um Estado dentro do Estado. Ou de empresa empresas majestáticas. Queremos acreditar não haver já espaço para a recriação de companhias ou de empresas majestáticas. Menos ainda para a criação de um Estado dentro do Estado.

domingo, julho 15, 2012

As cadelas apressadas têm filhos cegos

Já está assegurado o financiamento para a construção da ponte que irá ligar Maputo à Catembe. Em grande parte virá da China. A troco de quê é que já parece menos claro. A local, que mereceu honras de primeira página no jornal “Notícias” (edição da passada quinta-feira), elucida: Para o efeito, foi assinado ontem, na China, um acordo entre o Governo moçambicano e a Exim Bank daquele país asiático para a concessão de 681.6 milhões de dólares norte-americanos, correspondentes a 85 por cento do custo total da obra. Ainda segundo o matutino de Maputo, A construção da ponte entre Maputo e Catembe poderá dinamizar o desenvolvimento da zona de Matutuine, um dos distritos mais pobres da província de Maputo, para além de minorar o sofrimento da população que pretenda atravessar para uma das duas margens da baía de Maputo. Ditas as coisas assim, em letra de jornal, tudo pode parecer maravilha, ideal, perfeito. Na prática, na realidade, poderá não o vir a ser tanto. Acontece, já, haver quem pense diferente. Ou, na melhor das hipóteses coloque as suas dúvidas. Avance com outras hipóteses de solução.Com outras alternativas de solução para o actual problema da dificultosa e morosa travessia. Há quem se pergunte sobre que futuros congestionamentos irão resultar com a construção da ponte. Na zona da Malanga e da já congestionada avenida 24 de Julho. E, sobre as alternativas já pensadas para evitar este futuro novo problema. Com ou sem razão, mas com inteira lógica, há quem defende solução que parece mais realista. E menos cara, menos espectacular, mais moçambicana, mais de acordo com as disponibilidades dos dinheiros locais. Consiste, ao que se diz por aí, ao que é voz corrente, na criação de um eficiente e eficaz sistema de travessia pelo mar. Com a aquisição de novas, modernas e rápidas embarcações. Que venham a permitir a travessia entre os dois lados da Baía. De pessoas, mercadorias e veículos. Com comodidade e segurança. Controversa, tanto ou mais do que a já financiada construção da ponte Maputo-Catembe, parece ser, e é, a ligação rodoviária Maputo-Marracuene. Via Costa do Sol. Ouvem-se muitas e sentidas vozes contra. Também aqui, se apontam alternativas. Via Mahotas. Ou outras. Que ninguém parece saber ou querer ouvir. A Marginal da Costa do Sol não é só património da cidade de Maputo. É património nacional, é património moçambicano. Tanto a via como o restaurante que se apoderou do seu nome. E que sempre foi e continua a saber ser ponto de referência internacional. Pela sua localização, pela qualidade seu serviço, dos seus mariscos, das suas galinhas à cafreal, das suas carnes grelhadas, das suas amêijoas ao natural. E pelo muito mais que por lá de pode encontrar no cardápio. O prestígio da Marginal, a referência internacional à Marginal de Maputo antecede, em muitos anos, a actual e incompetente gestão da capital do país. Fica por saber pouco mais. E, o que fica por saber é o até quando. E, este até quando, pode significar termos de regressar aos tempos de Ngugunhana. Não obviamente aos seus métodos e aos seus processos de governação. Mas aos seus domínios territoriais. O que poderia fazer colocar a capital do país em terras de Marracuene. E, logo, em termos de lógica, fazer desaparecer do mapa mundial a cidade de Maputo. Se assim, por hipótese, lá se iria Pérola o Índico. Ficaria apenas Marracuene. Mas há tempo, há muito tempo para pensar. E, pensar mais, pensar melhor. Reflectir. Para fazer coisa boa e bem feita. Se não assim, resta recorrer à voz do povo. Quando diz que as cadelas apressadas têm filhos cegos.

domingo, julho 08, 2012

Mudar enquanto há tempo para mudar

Pode parecer teimosia. Pode parecer falta de assunto, de tema novo. Pode parecer esquecimento de tema já aqui abordado repetidas vezes. Mas não é. Não é dada disso. Não é nada do que possa parecer suposto ser. Trata-se de atitude consciente, premeditada. De mais uma tentativa de alerta. De alertar consciências. Pouco ou nada conscientes. De responsáveis a quem se exige mais. Mais competências e mais dignidade profissional. Também moral e ética. Perante esta calamidade nacional, que dá pelo nome de acidentes de viação. E que é causa de morte de dezenas de pessoas por semana. Em diferentes pontos do país. Digamos que em relação às outras calamidades, às calamidades naturais, já conseguimos criar sistemas de prevenção. E montar sistemas de apoio. Fazendo deslocar e colocando meios onde possam vir a ser, eventualmente, necessários. Para evitar a perda de vidas humanas. Aqui, aqui neste campo dos acidentes de viação, nada. Não se faz, objectivamente, nada. Poderá ser uma caso de falta de sensibilidade perante a perda, evitável, de vidas humanas. Poderá ser um caso de incompetência. Poderá ser o que se queira que seja. Mas, uma coisa parece certa e indesmentível. Dizem-me visitantes frequentes e assíduos da África do Sul, que o condutor moçambicano mal atravessa a fronteira assume uma postura diferente. Não faz do lado de lá as tropelias nem pratica as violações à lei como acontece do lado de cá da fronteira. Trata-se de um caso interessante. Paradigmático. E que deveria merecer estudo profundo. Para se ficar a conhecer, em definitivo, a sua origem. E, se esta está, de facto, no condutor ou nos agentes policiais. Fundamentalmente no comportamento dos agentes policiais perante uma violação da lei. É aconselhável e parece valer a pena trocar experiências com a polícia do país vizinho nesta matéria. E, depois, tornarem públicos os resultados a que possam chegar. Para que possamos começar a perceber onde começa e onde acaba a diferença. Sobre a questão dos acidentes de viação nas nossas estradas, o jornal “Notícias”, na sua edição da passada quinta-feira (página 5) titula: Quarenta e um mortos em apenas uma semana. E, logo a seguir escreve: Quarenta e uma pessoas morreram e outras106 contraíram ferimentos, 41 das quais em estado grave, em consequência de 53 acidentes de viação ocorridos a semana passada em todo o território nacional. Interessante, é o termos ficado a saber que Para além dos óbitos e feridos, os sinistros resultaram ainda em avultados danos materiais nas viaturas envolvidas e em diferentes infra-estruturas públicas, onde foram embater violentamente. Quais são essas infra-estruturas públicas e quais os prejuízos causados, sabemos nada. Talvez possa tratar-se de segredo de Estado. De matéria em investigação ou, ainda, em segredo de justiça. De resto e como habitualmente, o que ficámos a saber foi a versão oficial sobre tão elevado número de mortos. Num tão curto espaço de tempo: o excesso de velocidade, a condução em estado de embriagues, a disputa de faixas de rodagem e a má travessia de peões são as prováveis causas dos desastres. Prováveis aqui, significa que são meras hipóteses. Que tanto podem ter sido estas como podem ter sido outras as causas das mortes. Que não importa ou não se quer dizer. Por mera preguiça mental ou por investigação deficiente. Apetece perguntar quem são os proprietários e qual o estado mecânico das viaturas que provocaram tantos e tão fatídicos acidentes rodoviários. Bem sei, quase sei, a resposta será a mesma de sempre. Que vem desde há mais de trinta anos. Uma resposta que vai para a idade da velhice. Sempre a mesma e sempre igual. É tempo de mudar. É preciso saber mudar enquanto há tempo para mudar

domingo, julho 01, 2012

Saber agir como sábio

A próxima Cimeira da CPLP vai realizar-se em Maputo. No corrente mês de Julho. E poderá vir a ser rodeada de alguma polémica. De muita polémica. Que, aliás, já está iniciada. Isto, devido a estar prevista a discussão sobre a admissão da Guiné Equatorial na Organização. Uma admissão que, em princípio, parece ser contra natura. Isto, porque, como todos sabemos, A Guiné Equatorial não foi colónia de Portugal. Depois, mas não menos importante, aponta-se ser insignificante ou nulo o número de cidadãos daquele país que saibam falar e escrever a língua portuguesa. Para além de tudo isto, e provavelmente de muito mais que se possa dizer, acresce o facto de o referido país africano ter um governo de ditadura. Que, como todas as ditaduras utiliza métodos pouco aconselháveis ou condenados internacionalmente de governação. O que, certamente, não será uma questão agradável para os governos democráticos dos países falantes de português. Principalmente na hora, no momento do brinde com champanhe. Eu, cá por mim, iria ter alguma dificuldade em representar tal papel. Principalmente sendo anfitrião da Cimeira. Por estes e, provavelmente, por outros motivos, já nasceu e está a crescer um movimento de oposição à entrada da Guiné Equatorial na CPLP. Lá fora, como aqui em Moçambique. Através da Internet. Vale a pena pesquisar e ler. Para que, mais tarde, ninguém possa vir dizer que não sabia. Ler e ponderar argumentos e opiniões de outros, de contrários, é, em si, uma atitude democrática. Decidir em conformidade, trata-se de uma questão de bom senso. De realismo político. Por muito peso e muita influência que possam existir por detrás e à margem da existência de significativas reservas de petróleo no Golfo da Guiné. Crescem e multiplicam-se os exemplos de que o petróleo não é bom conselheiro. Nem sinónimo de boa governação. Nem de redução da pobreza. Menos, ainda, de estabilidade política. Pelo contrário. Em determinados momentos, em determinadas ocasiões, quando é imperativo tomar decisões, por mais difíceis que possam parecer, é imperativo agir com sageza. .E necessário saber agir como sábio.